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Zona Zami: um arquivo de automitobiografias*
Crítica: Zona lésbica
Por Annelise Schwarcz*

O elenco de Zona lésbica compartilha, em primeira pessoa, suas vivências em torno do ser lésbica. Foto: Marcos Pastich/PCR

O filme The Watermelon Woman (1996) – dirigido, produzido e estrelado por Cheryl Dunye – tem como protagonista uma jovem negra e lésbica que trabalha numa videolocadora em Filadélfia, interpretada pela própria Cheryl como uma espécie de personagem de si mesma. Seu hobby é assistir a produções hollywoodianas da década de 30. Em um desses filmes, intitulado Plantation Memories (Memórias da Plantação), Cheryl percebe que a atriz negra que a arrebatou pela sua interpretação aparece apenas como “Watermelon Woman” (Mulher Melancia) nos créditos finais. Não é a primeira vez que isso acontece. Cheryl observa como frequentemente as atrizes negras nessas produções não têm seus nomes mencionados nos créditos e, quando tem, são mencionadas através de apelidos. Da mesma forma que suas participações são eclipsadas ou até mesmo invisibilizadas, os papéis destinados a essas atrizes são secundários e estereotipados, sempre como escravizadas ou ex escravizadas, serventes, babás, amas de leite, etc, como no caso da Watermelon Woman (Mulher Melancia), fazendo papel de nanny (babá) no filme. 

Intrigada, Cheryl decide revirar arquivos e entrevistar pessoas para descobrir quem foi essa atriz, sua vida e sua história. Sua pesquisa é registrada e compõe o documentário com nome homônimo ao apelido da atriz que disparou sua investigação. À medida que a protagonista se aprofunda na pesquisa, ela não só descobre o nome da atriz (Fae Richards), como também descobre que Fae era lésbica. Isso, por si só, justificaria a identificação de Cheryl com a atriz. Só tem um detalhe: o “documentário” em questão é ficcional. A personagem Watermelon Woman (Mulher Melancia), o filme Plantation Memories (Memórias da Plantação), Fae Richards e muitos de seus registros não existem, mas são criados para retratar e superar a falta de registros históricos, assim como a marginalização de mulheres negras e lésbicas no cinema. Enquanto protagonista do próprio filme, em paralelo aos registros da pesquisa fictícia em torno de Fae Richards, Cheryl Dunye documenta a sua vida, seu trabalho, interesses, relações amorosas e amizades, inscrevendo a si mesma enquanto parte da história das mulheres negras e lésbicas no audiovisual. O filme de Cheryl Dunye é considerado disruptivo e pioneiro para além de questões relacionadas à representatividade. Watermelon Woman denuncia que o arquivo não é neutro e que as trajetórias de mulheres negras e queer têm sido esquecidas ou apagadas. Caso levado às últimas consequências, o documentário de Cheryl resultaria em uma tentativa frustrada de resgatar um passado irrecuperável. Somente através da ficcionalização de um arquivo é possível contar essas histórias do passado (nem sempre tão distante) que, em sua artificialidade, não deixam de ser reais. 

É possível dizer que o mesmo exercício de ficcionalização do real/ realização da ficção está presente em Zona lésbica. Na peça idealizada por Carolina Godinho, Dani Nega e Monique Vaillé com dramaturgia de Verônica Bonfim, sete mulheres lésbicas estão em busca de Zami, “um espaço utópico imaginado como um refúgio. Esse lugar simbólico representa o desejo coletivo das personagens de viverem sem medo, em plenitude e acolhimento, construindo uma realidade onde o amor e a liberdade prevalecem” – como descrito na sinopse. 

A narrativa se passa em quatro anos distintos: 1954, 1984, 2014 e 2025. De 1954 – momento em que os direitos para pessoas LGBT+ eram inexistentes – viajamos no tempo para 1984, um ano após o levante no Ferro’s Bar em São Paulo. Conhecido como o “Stonewall lésbico brasileiro” – fazendo referência aos protestos ocorridos no bar Stonewall Inn, nos E.U.A, nos quais a comunidade LGBT se manifestava contra a repressão policial –, o levante no Ferro’s foi deflagrado após as atividas do GALF (Grupo Ação Lésbica Feminista) serem impedidas de divulgarem sua revista Chanacomchana dentro do estabelecimento. O evento ocorreu no mês de agosto e é por isso que, em 2008, a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo definiu que o mês de agosto seria o mês do Orgulho Lésbico. 

Da ditadura militar até o ano de 2025 – marcado por avanços institucionais e a consolidação de políticas públicas, mas que nem sempre se fazem presentes nas micropolíticas das relações cotidianas – Zona lésbica nos apresenta as formas de organização e resistência lésbica no Brasil ao longo dos últimos setenta anos através da ficcionalização de cenas que remontam as dinâmicas dessas mulheres. Como era amar outra mulher nos anos 50? Elas dividiam a casa com a sua parceira? Será que os vizinhos achavam que eram apenas amigas? E se descobrissem que não era apenas isso? Será que as parceiras das mulheres marchando contra o feminicídio e lesbofobia durante a ditadura militar sabiam que poderia ser a última vez que veriam seu amor? Essas cenas são interpretadas por Carolina Godinho, Dani Nega, Dandara Azevedo, Jessica Lamana, Monique Vaillé, Nely Coelho e Simone Beghinni e entrecortadas por relatos pessoais de quando e como entraram na zona lésbica. Assim, a especulação dessas existências no passado se soma às vivências compartilhadas pelas atrizes na construção de um arquivo sáfico. A aposta nos relatos endereçados diretamente ao público estabelece um vínculo mais íntimo, através desse olhar que nos olha de volta, mas a ilusão de espontaneidade é quebrada, vez ou outra, devido a algumas dicções roteirizadas ou movimentações muito bem marcadas. 

Esse arquivo ainda conta com as vozes de ícones da música brasileira como Zélia Duncan, Cássia Eller, Ludmilla, Ana Carolina, Adriana Calcanhotto, Martnália, Leci Brandão, Cátia de França, Bia Ferreira, Marina Lima, Maria Bethânia e Gal Costa compondo a mixagem que atravessa as cenas com trechos de suas canções, como uma rádio sintonizando em busca de frequências. A trilha sonora se relaciona com a Rádio Melodrama Lésbico que, na dramaturgia, estava sendo sonhada desde 2014 pelo trisal composto pelas personagens de Carolina Godinho, Dandara Azevedo e Jéssica Lamana e em 2025, após a superação de obstáculos, está no ar. 

A peça aborda as existências e formas de resistência lésbica em quatro temporalidades: 1954, 1984, 2014 e 2025. Foto: Marcos Pastich/PCR

No início da peça, somos informadas/os de que existem ondas na frequência Alfa e frequência Beta. Em estudos sobre hipnose, a onda Beta é associada a um estado de consciência, vigília ou até mesmo estresse, enquanto as ondas Alfa são associadas a um estado de relaxamento, pré sono, além de ser o estado mais propício para a hipnose. Na peça, uma voz em off nos diz enquanto assistimos a projeções coloridas, em uma tela no fundo do palco, que estamos na zona Alfa e que a zona Beta é um pouco melhor, como quem nos quer acordadas/os, conscientes, atentas/os, mas logo em seguida afirma que a zona realmente almejada pelas sapatões é Zami.

Zami está no centro da narrativa e, ao mesmo tempo, à margem. Nas diversas cenas ao longo das quatro temporalidades encenadas, Zami aparece como um lugar mítico ou utópico registrado em um livro eventualmente encontrado por alguma das personagens, questionado por outras, mas não exatamente delimitado. Por que tem esse nome? Quem idealizou? Zami é uma zona espacial ou uma frequência que podemos nos sintonizar independentemente de onde estejamos? É possível estar na zona e não estar na frequência Zami? Apesar de não mencionado ao longo da peça, para mim é difícil ouvir “Zami” e não pensar no livro Zami. Uma nova grafia de meu nome, uma biomitografia (originalmente publicado em 1982) de Audre Lorde. O título “Zami” vem de um termo criolo que se refere a mulheres que trabalham juntas, sinalizando a centralidade das alianças entre mulheres no livro. O termo também pode ser associado a uma espécie de eufemismo para se referir a mulheres lésbicas. 

Zami é o livro autobiográfico de Audre Lorde. Como sabemos, toda autobiografia tem um quê de ficção, por isso Lorde o define como uma “biomitografia”: uma mistura de biografia, mito, memórias, reflexões políticas e poéticas acerca de temas como pertencimento, trabalho, opressões, amor, amizades, gênero, raça e sexualidade. A obra narra a formação identitária de Lorde enquanto filha de pais caribenhos, nascida nos Estados Unidos, mulher negra, lésbica, poeta e feminista, desde sua infância até o início da vida adulta. Operando de forma semelhante, podemos dizer que os relatos das atrizes de Zona lésbica também são fragmentos de suas biomitografias.

Os relatos quebram a quarta parede, se dirigindo em primeira pessoa diretamente à plateia, e operam como uma espécie de suspensão da cena dos casais. Dani Nega falou sobre a origem de seu percurso no teatro com o grupo paulistano Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, famoso pelos experimentos que mixam teatro, hip hop, rap e slam, e de que forma – por conta desses atravessamentos – a palavra se tornou a sua zona lésbica. A primeira experiência na zona lésbica de Monique Vaillé foi em 2003 no chat do UOL. Simone Beghinni sempre soube – como que “por instinto” – que pertencia à zona lésbica. Nely Coelho, por sua vez, só entrou na zona lésbica na faculdade de teatro, mas não sem antes atravessar a depressão e o isolamento por parte dos amigos da época. Dandara Azevedo veio do Maranhão fazer teatro em São Paulo. Nunca tinha nenhuma conversa específica com a sua família sobre sua zona lésbica, apenas avisava com quem estava. Um dia entendeu que assumir era tomar para si, como a própria etimologia do termo sugere, e decidiu se posicionar diante da sua família como lésbica. Carolina Godinho, diferentemente das demais, faz o seu relato na terceira pessoa. A atriz conta que sempre gostou de “coisas de menino” e relembra a música “Maria sapatão” que seu irmão costumava cantar para implicar com ela, quando tinha apenas 10 anos. O padrasto, homofóbico e racista, também contribuia com o clima hostil, então Carolina decide sair de casa, se muda para o Rio de Janeiro e ingressa na faculdade de teatro, onde se apaixona e adentra – dessa vez com os próprios pés – na zona lésbica. Jéssica Lamana, a última a se apresentar, toca o louvor Faz um Milagre em mim, de Regis Danese, no saxofone e é acompanhada por algumas vozes na plateia sussurrando a letra. A zona lésbica de Jéssica começou na casa do Senhor, mas a alegria da descoberta veio embrenhada em culpa e medo de ter pecado. 

O fato dos depoimentos divertirem ou gerarem empatia faz com que essa dimensão da peça se sobressaia com relação às demais, fazendo com que a narrativa em torno da construção da rádio, das personagens e até mesmo a própria fuga para Zami, assim como o vislumbre de um futuro utópico, fiquem ofuscados diante dessa espécie de “excesso de presente e passado”, materializado pela apresentação desse arquivo sáfico das atrizes. Ao longo da peça, algumas questões como “o que é ter cara de sapatão?”, se ser lésbica é uma escolha ou questão de “instinto” e delicadezas em torno de relações interraciais – mesmo entre pessoas do mesmo gênero –, são lançadas, mas não aprofundadas, também se diluindo em meio a tantos acontecimentos. O que há aqui, talvez, seja justamente uma exploração da ambiguidade do termo “zona”, por vezes sendo compreendido como uma dimensão espacial – um território, seja ele real ou imaginário –, mas também nos permitindo uma interpretação na qual “zona” seja compreendido como “bagunça”: um excesso de signos, gírias, debates, corpos, referências, associações – todo um universo sendo apresentado sem que necessariamente se efetue uma organização. No fundo, essa é a experiência de se adentrar em um mundo: toda essa profusão de imagens, a fome por devorar esse universo, a ânsia por recuperar o tempo perdido, o desejo de pertencer, de entender, de conhecer mais e melhor, de se perder nessa floresta de signos. Floresta? Não. Trata-se, mais precisamente, de um brejo – como a própria sonoplastia da peça sugere, ao nos receber com sons de sapo enquanto buscamos nossos lugares, antes da peça começar. 

Da mesma forma que Lorde constrói a si mesma a partir das suas alianças, do poder do desejo e do erotismo, da história da sua família e da sua relação com a poesia, o elenco em cena vai tecendo uma sensibilidade compartilhada com a plateia, cada uma puxando um fio específico. Fios que são, ao mesmo tempo, singulares – pois trata-se de uma vida singular com uma trajetória específica – sem deixar de nos remeter, de alguma forma, a lugares comuns: um lugar que já estivemos, uma história que já ouvimos ou uma situação arquetipicamente familiar. Entre as que se assumiram e as que foram tiradas do armário, entre as que sempre souberam e as que nunca suspeitaram, os múltiplos relatos e relações possíveis com a zona lésbica vão compondo uma miscelânia de afetos que transitam por paisagens de culpa, dúvidas, medo, isolamento a euforia, empoderamento e pertencimento. E quem nunca habitou alguma dessas paisagens? 

Zona lésbica foi a última apresentação do último dia do 24º Festival Recife do Teatro Nacional. Para encerrar a noite, o elenco convidou um casal na plateia para subir ao palco e ambas se declararam mutuamente em uma cena de enternecer o coração. Todas as atrizes do elenco também formaram casais ou trisais e se beijaram selando a última zona lésbica. O palco se configura em Zami, um aqui e agora que se faz possível porque aqueles corpos em cena se fazem presentes e desejantes.

* A cobertura crítica da programação do 24º Festival Recife do Teatro Nacional é apoiada pela Prefeitura do Recife.

Ficha técnica:
Zona lésbica
Idealização: Carolina Godinho, Dani Nega e Monique Vaillé
Texto e dramaturgia: Verônica Bonfim
Adaptação e Textos “Zonas Lésbicas”: Elenco
Elenco: Carolina Godinho, Dandara Azevedo, Dani Nega, Jéssica Lamana, Monique Vaillé, Nely
Coelho e Simone Beghinni
Direção Artística: Simone Beghinni
Voz off: Cesar Augusto, Leci Brandão, Rômulo Chindelar e Zélia Duncan
Direção de Movimento: Iasmin Patacho
Direção Musical: Dani Nega
Direção de Imagem e mapping: Carolina Godinho
Cenógrafa: Carla Ferraz
Iluminadora: Lara Cunha
Figurino: Marah Silva
Visagismo e Maquiagem: Diego Nardes
Direção de Produção: Monique Vaillé e Nely Coelho
Produção Executiva: Nuala Brandão
Técnica e Operação de Luz: Tayná Maciel
Operação de Som e Vídeo: Igor Borges
Programação Visual: Yasmin Lima
Fotos: Íra Barillo
Realização: Delas Cultural e Ginja Filmes

 

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Cartas do livro “Querido Lula”
apostam que o futuro é agora

Zelia Ducan cantou os versos “O sol há de brilhar mais uma vez / A luz há de chegar aos corações / O mal será queimada a semente / O amor será eterno novamente)”. Fotos Ivana Moura

Zélia Ducan lendo uma das mensagens do livro Querido Lula: cartas a um presidente na prisão,

À certa altura da noite ontem, 31 de maio de 2022, no palco do Tuca (Teatro da Universidade Católica de São Paulo), em Perdizes, São Paulo, Zélia Duncan confirmou: “vamos falar só de amor hoje”. Era a resposta a um “eu te amo” de alguém da plateia, que estava lotada para acompanhar o lançamento do livro Querido Lula: cartas a um presidente na prisão, da editora Boitempo.

O evento contou com a leitura de algumas das cartas remetidas ao presidente Lula no período em que esteve preso em Curitiba, espetáculo que foi chamado de Querido Lula: cartas do povo brasileiro. Zélia Duncan leu a mensagem da professora de língua portuguesa, Ana Beatriz Arena, do Rio de Janeiro, que começava com “Querido presidente (nada de ex !) Lula”, ressaltando que os programas dos dois governos lulistas mantidos pela presidenta Dilma, “devolveram (ou desenvolveram) aos ‘meus meninos’ da periferia a vontade de estudar e se tornar ‘doutor'”.

Sabemos que o que pulsa e impulsiona o humano começa pelo desejo – essa motivação de ir além – que quando encontra oportunidades pode fazer a revolução ou alguma insurreição.

Depois de interpretar a canção Juízo Final, de Nelson Cavaquinho (O sol há de brilhar mais uma vez / A luz há de chegar aos corações / O mal será queimada a semente / O amor será eterno novamente), Ducan passou o bastão para outro convidado. Querido Lula: cartas do povo brasileiro estava carregado desse teor:  muitos elos para formar uma grande corrente que se expande para além do palco do Tuca.

A apresentação, dirigida pelo brasileiro Márcio Abreu e pelo francês Thomas Quillardet, teve participação de artistas da música e do teatro, como Ducan, Denise Fraga, Camila Pitanga, Cleo, Celso Fratesch, Grace Passô, Debora Duboc, Leandro Santos, Cida Moreira, Tulipa Ruiz, Cássia Damasceno, a ativista Preta Ferreira, a vereadora Erica Hilton e alguns autores das correspondências na presença do destinatário.

Ivana Jinkings, da editora Boitempo

Historiadora francesa Maud Chirio, organizadora do livro 

A editora-chefe da Boitempo, Ivana Jinkings, abriu os trabalhos lembrando que sua firma lançou em 2018 A verdade vencerá: O povo sabe por que me condenam, obra que ela chamou de premonitória. A publicação traz uma longa entrevista de Luiz Inácio Lula da Silva concedida aos jornalistas Juca Kfouri e Maria Inês Nassif, ao professor de relações internacionais Gilberto Maringoni e à própria Jinkings.

Querido Lula: cartas a um presidente na prisão traz uma seleção de 46 das 25 mil cartas recebidas pelo Instituto Lula ao longo dos 580 dias da prisão de Luiz Inácio Lula da Silva na sede da Polícia Federal, em Curitiba.

A pesquisadora francesa Maud Chirio, – professora na Universidade Gustave Eiffel, França, onde Querido Lula foi publicado este ano -, organizadora do livro no Brasil ressaltou o feito como uma história extraordinária. Chirio avaliou que não existe  nenhum movimento equivalente na história, ao menos na mesma escala. O movimento de correspondência e o volume de mensagens enviadas ao politico impressionaram a historiadora, que trabalhou com uma equipe para catalogar e digitalizar o material, para garantir sua preservação.

Denise Fraga 

Coube a Denise Fraga fazer as honras de mestra de cerimônia e chamar os convidados mais ilustres ao palco, já ocupado por artistas e missivistas: convocou Fernando e Ana Haddad, Dilma Rousseff, Lula e Janja. O clima era de emoção e, em muitos momentos, cada um de nós lacrimejou.

Fraga apresentou a primeira carta, do pedreiro Francisco Aparecido Malheiros, “que trabalha os dias que tem serviço”, mas mesmo com pouco gostaria de contribuir para contratar mais advogados para defender Lula, pois escreve, “queremos nosso artilheiro em campo”.

Douglas leu sua própria carta endereçada ao presidente

Depois, Douglas William Dias leu a própria carta, em que conta como foram determinantes as ações dos governos petistas para ele cursar pós-graduação em Saúde da Família. Mais adiante, Fatima Lima, de Natal (RN), lembrou na sua escrita que a dor de Lula preso doía em nós. “E uma dor diferente por que não é uma dor pessoal só. E uma dor coletiva por uma ferida coletiva”.

Para aquelas pessoas que escreveram cartas, Lula é um estadista, no mais alto grau do termo, mas também uma pessoa muito próxima, quase da família. Suas mensagens expõem desejos de que ele, Lula, se mantenha firme, pois é um dos nossos. Passa por aí um tratamento carinhoso, quase íntimo, de uma mãe que incentiva, mas pode dar bronca no filho; do irmão que se orgulha do mais velho, de algum parente ou amigo que tem certeza que Lula é o cara.

E são expostas as confidências de mudanças de vida proporcionadas, motivadas por políticas públicas dos governos petistas, dos espaços conquistados contra a discriminação de quem é negro ou mulher, com vontade de que acabe esse inferno que se tornou o Brasil nos últimos anos do atual governo, com desemprego, perdas de direitos trabalhistas, perseguição à arte e a cultura.

Na carta lida por Grace Passô e Debora Duboc há mais um dado interessante que demonstra uma lucidez, uma sabedoria em avaliar a situação que vai além de um apoio idólatra (como apontam alguns) ao melhor presidente que esse país já teve. Na mensagem de Jorge Luiz Zaluski, ele relembra das políticas públicas que criaram oportunidades de superação da pobreza. Historiador e sociólogo atualmente com doutorado, ele traça paralelos entre seu percurso familiar e trajetória de Lula. Mas adverte “Nossos tempos sombrios não garantem nada, principalmente quando a democracia está em jogo”.

São muitos exercícios de esperançar. De apostar e trabalhar para que a vida seja diferente da que vivemos hoje, porque já provamos e isso é possível.

Leandro Santos, Grace Passô, Camila Pitanga, Cássia Damasceno e a vereadora Erica Hilton

Fernando Haddad

emoção de lula

A emoção de Lula

Dilma lendo uma carta

Fernando Haddad leu a carta de Jean Willys, ex-deputado que precisou deixar o Brasil para garantir sua própria vida, que estava sob ameaça, depois que esse grupo político que governa ascendeu ao poder. A presidenta Dilma leu o depoimento da garota Juliana Freitas, que disse que virou petista aos 12 anos, em 1989 ao ver – por indicação do pai – a propaganda eleitoral pela televisão e ficou hipnotizada com as falas de Lula. Janja leu duas cartas que ela mesma escreveu ainda no começo do namoro.

Ficou por último a fala do presidente que salientou que vive o melhor momento de sua vida, apaixonado e casado com a socióloga Janja, renovado e agradecido por todo apoio que recebeu durante os 580 dias que passou injustamente preso na carceragem da Polícia Federal de Curitiba.

Seu discurso foi contundente para falar da atual situação do Brasil, que voltou a níveis de pobreza extrema. A inflação que esmaga o salário e a postura fascista do Bozo também pontos do seu discurso. Lula estava no seu campo e se deu ao direito de fazer embaixadinha, dar chapéu, fazer gol de bicicleta. Com sua habilidade de oratória, eletrizou e emocionou a plateia ao falar das mortes, desde as que foram ocasionadas pela pandemia, passando pelas tragédias em decorrência da intervenção irresponsável do ser humano na natureza até as que são ocasionadas pelo braço do Estado. Lula ressaltou a educação como caminho para tirar o Brasil da situação em que se encontra e afirmou que a “ignorância gera Bolsonaro”.

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Lula vai ao teatro

Artistas intepretram as cartas escritas ao ex-presidente quando ele estava preso em Curitiba. Capa do livro da Boitempo

Zélia Duncan, Denise Fraga, Camila Pitanga, Preta Ferreira, Cleo Pires, Maria Ribeiro, Monica Iozzi, Celso Frateschi, Grace Passô, Erika Hilton, Deborah Duboc, Leandro Santos, Cida Moreira, Tulipa Ruiz e Cassia Damasceno são alguns artistas que dão voz às correspondências enviadas ao ex-presidente no ano e meio em que esteve detido. O espetáculo Querido Lula: cartas do povo brasileiro marca o lançamento do livro Querido Lula: cartas a um presidente na prisão (Boitempo), que também vai contar com a participação de missivistas vindos de todo o país para ler suas próprias cartas. O livro é uma seleção de 46 das mais de 25 mil cartas que foram mandadas ao político no período de sua detenção em Curitiba.

A peça é apresenta no dia do lançamento do livro, no palco do Tuca, em São Paulo, nesta terça-feira, 31/05. O trabalho cênico é dirigido pelo brasileiro Márcio Abreu e pelo francês Thomas Quillardet, realizado pela Boitempo em parceria com a PUC-SP e com apoio da Universidade Gustave Eiffel, Fundação Friedrich Ebert e Instituto Lula.

A presença de Lula está confirmada e isso faz subir a temperatura do evento. São esperados alguns políticos ligados a Lula, como o pré-candidato ao governo de São Paulo Fernando Haddad. Os ingressos para o espetáculo estão esgotados.

Durante os 580 dias que ficou preso arbitrariamente na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba (PF) – de 7 de abril de 2018 a 8 de novembro de 2019, o ex-presidente Lula recebeu muitas manifestações de apoio, de carinho e solidariedade.

A vigília Lula Livre – um acampamento em frente à prisão – deu uma sustentação psicológica. As cartas enviadas do Brasil e exterior – na maioria por gente pobre agradecida por todas as mudanças que os governo petistas proporcionaram – renovaram de esperança o espírito do presidente.

 O material publicado foi selecionado pela historiadora Maud Chirio e procura representar a diversidade contida nas cartas, contemplando autores de diferentes origens sociais e regiões do país, em suas histórias de vida, tons e abordagens. A edição tem prefácio do rapper Emicida e orelha da escritora Conceição Evaristo. A obra também apresenta um caderno de imagens com fotos de diferentes objetos enviados ao ex-presidente.

“A partir de 2003, comecei a ver seu poder de transformação. Paulatinamente, vi a miséria no meu Estado regredir, vi diminuir o número de pedintes nas ruas, vi o pobre ter acesso a curso superior, vi gente comemorando a chegada de energia elétrica em sua casa, vi o pobre descortinar seus horizontes, pegando um avião e descobrindo que o mundo a ele também pertencia. Vi direitos assegurados a nossas domésticas, que de nossas casas tiveram a feliz oportunidade de sair com seus diplomas em mãos. E vi que pra isso tudo, minha vida não tinha piorado. Pelo contrário, só melhorou. Daí que ainda não consigo compreender a raiva que a maioria das pessoas pertencentes a minha classe sente por conta de tais conquistas”. 
– Ana Carolina, Teresina, 13 de abril de 2018.

“Não há, até onde sabemos, nenhum movimento equivalente na história, ao menos na mesma escala”, avalia a organizadora do livro Querido Lula: cartas a um presidente na prisão, a historiadora e brasilianista francesa Maud Chirio, que é professora e pesquisadora na Universidade Gustave Eiffel, França, onde Querido Lula foi publicado este ano.

Para a pesquisadora, as cartas têm valor histórico “excepcional” por expressarem vozes que não costumam ser ouvidas. Por isso, em 2018, da França, Maud Chirio voluntariou-se para ajudar a catalogar e digitalizar as cartas. Montou uma equipe de sete profissionais, seis deles historiadores e historiadoras.

O livro é o quarto projeto liderado por Maud para fazer ecoar essas vozes. A professora e a equipe organizaram uma exposição virtual multilíngue, disponível em www.linhasdeluta.org. Em 2019, promoveram uma apresentação teatral, Abril / Abril, dirigida por Thomas Quillardet, que reuniu mais de 500 pessoas em um teatro de Paris, com presenças de artistas como Chico Buarque e a atriz portuguesa Maria de Medeiros. E criaram uma série de podcasts veiculada pela emissora de rádio Universidade Nacional General Sarmiento (Argentina).

Serviço
Lançamento-espetáculo

Espetáculo Querido Lula: cartas do povo brasileiro
Livro Querido Lula: cartas a um presidente na prisão
Dia 31 de maio, das 19h às 21h
Teatro Tuca (Rua Monte Alegre, 1024, São Paulo SP)
Os ingressos estão esgotados

Apoiam este evento:
Universidade Gustave Eiffel
PUC-SP
Fundação Friedrich Ebert
Instituto Lula

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