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A Invenção do Nordeste em
temporada na Caixa Cultural Recife

Henrique Fontes interpreta um diretor que prepara um ator nordestino para fazer, com maestria, um personagem nordestino. É pura ironia. Foto: Carlos Gomes / Divulgação

Peça já circulou por 23 estados brasileiros. Na imagem, elenco primeira temporada. Foto: Reprodução Youtube

Dois atores do Rio Grande do Norte passam sete semanas em preparação para parecer nordestinos o suficiente. A fábula é o ponto de partida de A Invenção do Nordeste, do Grupo Carmin, e de uma pergunta que incomoda o país inteiro. Quem inventou o Nordeste, e para quê? A montagem dirigida por Quitéria Kelly estreou em 2017, já percorreu 23 estados e várias cidades da Europa, e chega ao Recife na semana que antecede o segundo turno da eleição presidencial, com o estigma nordestino de volta ao centro do debate.

Em cena, uma grande produtora do Sudeste contrata um diretor para escolher e preparar um ator nordestino que interprete, com maestria, um personagem nordestino. Dois concorrentes chegam à final, um do litoral, outro do interior, e disputam o papel num workshop de sete semanas. Os atores entram em palco com os próprios nomes e profissões, e a fronteira entre realidade e ficção vai se dissolvendo. No palco estão Henrique Fontes, Rafa Guedes e José Neto Barbosa, com Ian Medeiros como coberta, o coringa do elenco, pronto para entrar em qualquer papel. A lição que o teste ensina é cruel. Não basta ser nordestino, é preciso parecer ser, corresponder à expectativa de quem contrata. No processo, cada um descobre que a própria ideia que fazia de si também era um estereótipo.

Projeções de vídeo, celular, tablet, maquetes e miniaturas convivem, no palco, com a reperformance de cenas de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, e com registros que transitam da comédia ao teatro épico, da sátira à dança. Quitéria Kelly conduz esse hibridismo de linguagens que fez da montagem uma referência do teatro documentário brasileiro. O humor é a ferramenta de investigação. Cada quadro encena um lugar-comum, exagera, devolve a imagem ao público e pergunta de onde ela veio e a quem serve. A dramaturgia de Henrique Fontes e Pablo Capistrano se atualiza a cada temporada com o que o grupo registra nas viagens, e por isso a peça conversa com o presente. O trabalho rendeu o Prêmio Shell de melhor dramaturgia e o Cesgranrio de melhor espetáculo.

Espetáculo que estreou em 2017 utiliza projeções de vídeo, maquetes e miniaturas, performance de cenas de filme brasileiro e registros que vão da comédia ao teatro épico, da sátira à dança. Foto: Divulgação 

Natal, 2007. O Grupo Carmin estreava Pobres de Marré e firmava uma pesquisa sobre exclusão social urbana no Nordeste brasileiro. O coletivo foi fundado pelas atrizes Quitéria Kelly e Titina Medeiros, morta em janeiro deste ano. O nome do grupo vem do vermelho vivo e intenso do carmim. Henrique Fontes não assina a fundação, mas esteve lá desde a primeira obra. Ele escreveu e dirigiu Pobres de Marré e segue na formação atual como ator e dramaturgo. A trajetória soma O Auto do Menino Deus (2009), o experimento Olha a Água (2010), a partir de Brecht, a peça infantil Castelo de Lençóis (2011) e Por Que Paris? (2015), inspirada em Marguerite Duras. Com Jacy, montagem de 2012, o grupo iniciou a pesquisa de teatro documental que desembocaria nesta peça. Jacy entrou na lista dos dez melhores espetáculos do ano do jornal Estadão e circulou pelo país no Sesc Palco Giratório. O repertório do Carmin acumula mais de 500 apresentações para mais de 30 mil pessoas. Neste ano, o grupo estreou Gente de Classe, sátira sobre a classe média em colapso, também dirigida por Quitéria Kelly.

A tese que sustenta a dramaturgia vem do historiador paraibano Durval Muniz de Albuquerque Jr., consultor da montagem e autor de A Invenção do Nordeste e outras artes. Para Durval, o Nordeste não existia como região antes do início do século 20, quando intelectuais, relatórios sobre a seca, romances regionalistas, cinema e cordel costuraram um retrato único para nove estados muito diferentes, de Gilberto Freyre a Ariano Suassuna. A diretora resume o problema. A música, a poesia, a literatura, a dança, tudo que é feito artisticamente no Nordeste parece obrigado a carregar a linguagem da seca, do chão rachado, das cores ocres. O objetivo, diz o historiador, não é buscar a verdadeira representação da região, mas entender como essa ficção funciona e a quem serve. O estereótipo não descreve o Nordeste. Ele o produz, e produz também o lugar de quem fala sobre ele. Não por acaso, a peça foi concebida como resposta aos ataques xenófobos que nordestinos sofreram nas redes sociais durante as eleições presidenciais de 2014.

O estigma voltou ao centro na eleição deste ano. O Nordeste reúne nove estados e dezenas de milhões de eleitores e, nas últimas duas décadas, decidiu corridas presidenciais no país. Em 2022, Lula levou dois terços dos votos válidos da região, e essa vantagem assegurou sua vitória nacional. No primeiro turno de 4 de outubro, ele repetiu a vitória nos nove estados, com 63,77% dos válidos e 21,49 milhões de votos, 11,1 milhões a mais que Flávio Bolsonaro, que venceu em 15 estados e leva a disputa ao segundo turno. A margem, porém, encolheu. O bolsonarismo saltou de 26,97% para 30,85% dos votos nordestinos, e Lula perdeu cerca de 258 mil votos na região em relação a 2022. O mapa que pinta o Nordeste de um lado e o Sul de outro voltou a circular, e com ele o discurso (equivocado) de que o nordestino vota errado.

A Invenção do Nordeste mostra como funciona a máquina que fabrica regiões e inimigos. Foto: Divulgação

Vivemos um momento de avanço do fascismo, no Brasil e no mundo. O mecanismo é conhecido. Escolhe-se um inimigo, transforma-se um povo em estigma, converte-se diferença em ameaça. O nordestino já foi tratado como o brasileiro que estraga o país, o migrante que invade a cidade grande, o eleitor que não entende o próprio interesse. A história ensina que o pleito popular pode ser a porta de entrada do totalitarismo. O partido nazista se tornou a maior força da política alemã nas urnas, Hitler foi empossado chanceler dentro da legalidade, em 1933, e meses depois usou um crime, um decreto e uma lei para fechar o parlamento, eliminar adversários e concentrar todo o poder. A democracia alemã não foi derrubada de fora. Foi esvaziada por dentro, com votação, aplauso e instituição.

Ver A Invenção do Nordeste nesta semana, no Recife, é ver funcionar a máquina que fabrica regiões e inimigos. A montagem devolve ao público a possibilidade de recusar o Nordeste que nos foi imposto como insulto e reivindicar o que a região é de verdade, diversa, criativa, plural, decisiva. A peça tem lado. É o lado de quem cansou de ser estereótipo. O nome do candidato o espetáculo pode até não dizer. Mas esse nome grita em toda a peça. O voto é secreto, sabemos, mas reconhecemos quando ele é carmim. A última sessão acontece em 24 de outubro, véspera do segundo turno. Quem inventou o Nordeste já respondeu para quê. O Nordeste inventado vai às urnas. O Nordeste real decide o país.

Serviço

🎭 A Invenção do Nordeste 🎪 Grupo Carmin (RN), direção de Quitéria Kelly
📍 Caixa Cultural Recife, Avenida Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife
🗓️ de 15 a 24 de outubro, quinta a sábado, às 19h30
🎟️ R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada), dois ingressos por CPF
🎁 sessão de abertura gratuita para clientes Caixa, em 15 de outubro, com retirada prévia
🤟 intérprete de Libras e bate-papo com o público aos sábados
⏳ 60 minutos
⭐ 14 anos
📞 (81) 3425-1915 Instagram @caixaculturarecife
🏛️ patrocínio da Caixa Econômica Federal

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Cartas do livro “Querido Lula”
apostam que o futuro é agora

Zelia Ducan cantou os versos “O sol há de brilhar mais uma vez / A luz há de chegar aos corações / O mal será queimada a semente / O amor será eterno novamente)”. Fotos Ivana Moura

Zélia Ducan lendo uma das mensagens do livro Querido Lula: cartas a um presidente na prisão,

À certa altura da noite ontem, 31 de maio de 2022, no palco do Tuca (Teatro da Universidade Católica de São Paulo), em Perdizes, São Paulo, Zélia Duncan confirmou: “vamos falar só de amor hoje”. Era a resposta a um “eu te amo” de alguém da plateia, que estava lotada para acompanhar o lançamento do livro Querido Lula: cartas a um presidente na prisão, da editora Boitempo.

O evento contou com a leitura de algumas das cartas remetidas ao presidente Lula no período em que esteve preso em Curitiba, espetáculo que foi chamado de Querido Lula: cartas do povo brasileiro. Zélia Duncan leu a mensagem da professora de língua portuguesa, Ana Beatriz Arena, do Rio de Janeiro, que começava com “Querido presidente (nada de ex !) Lula”, ressaltando que os programas dos dois governos lulistas mantidos pela presidenta Dilma, “devolveram (ou desenvolveram) aos ‘meus meninos’ da periferia a vontade de estudar e se tornar ‘doutor'”.

Sabemos que o que pulsa e impulsiona o humano começa pelo desejo – essa motivação de ir além – que quando encontra oportunidades pode fazer a revolução ou alguma insurreição.

Depois de interpretar a canção Juízo Final, de Nelson Cavaquinho (O sol há de brilhar mais uma vez / A luz há de chegar aos corações / O mal será queimada a semente / O amor será eterno novamente), Ducan passou o bastão para outro convidado. Querido Lula: cartas do povo brasileiro estava carregado desse teor:  muitos elos para formar uma grande corrente que se expande para além do palco do Tuca.

A apresentação, dirigida pelo brasileiro Márcio Abreu e pelo francês Thomas Quillardet, teve participação de artistas da música e do teatro, como Ducan, Denise Fraga, Camila Pitanga, Cleo, Celso Fratesch, Grace Passô, Debora Duboc, Leandro Santos, Cida Moreira, Tulipa Ruiz, Cássia Damasceno, a ativista Preta Ferreira, a vereadora Erica Hilton e alguns autores das correspondências na presença do destinatário.

Ivana Jinkings, da editora Boitempo

Historiadora francesa Maud Chirio, organizadora do livro 

A editora-chefe da Boitempo, Ivana Jinkings, abriu os trabalhos lembrando que sua firma lançou em 2018 A verdade vencerá: O povo sabe por que me condenam, obra que ela chamou de premonitória. A publicação traz uma longa entrevista de Luiz Inácio Lula da Silva concedida aos jornalistas Juca Kfouri e Maria Inês Nassif, ao professor de relações internacionais Gilberto Maringoni e à própria Jinkings.

Querido Lula: cartas a um presidente na prisão traz uma seleção de 46 das 25 mil cartas recebidas pelo Instituto Lula ao longo dos 580 dias da prisão de Luiz Inácio Lula da Silva na sede da Polícia Federal, em Curitiba.

A pesquisadora francesa Maud Chirio, – professora na Universidade Gustave Eiffel, França, onde Querido Lula foi publicado este ano -, organizadora do livro no Brasil ressaltou o feito como uma história extraordinária. Chirio avaliou que não existe  nenhum movimento equivalente na história, ao menos na mesma escala. O movimento de correspondência e o volume de mensagens enviadas ao politico impressionaram a historiadora, que trabalhou com uma equipe para catalogar e digitalizar o material, para garantir sua preservação.

Denise Fraga 

Coube a Denise Fraga fazer as honras de mestra de cerimônia e chamar os convidados mais ilustres ao palco, já ocupado por artistas e missivistas: convocou Fernando e Ana Haddad, Dilma Rousseff, Lula e Janja. O clima era de emoção e, em muitos momentos, cada um de nós lacrimejou.

Fraga apresentou a primeira carta, do pedreiro Francisco Aparecido Malheiros, “que trabalha os dias que tem serviço”, mas mesmo com pouco gostaria de contribuir para contratar mais advogados para defender Lula, pois escreve, “queremos nosso artilheiro em campo”.

Douglas leu sua própria carta endereçada ao presidente

Depois, Douglas William Dias leu a própria carta, em que conta como foram determinantes as ações dos governos petistas para ele cursar pós-graduação em Saúde da Família. Mais adiante, Fatima Lima, de Natal (RN), lembrou na sua escrita que a dor de Lula preso doía em nós. “E uma dor diferente por que não é uma dor pessoal só. E uma dor coletiva por uma ferida coletiva”.

Para aquelas pessoas que escreveram cartas, Lula é um estadista, no mais alto grau do termo, mas também uma pessoa muito próxima, quase da família. Suas mensagens expõem desejos de que ele, Lula, se mantenha firme, pois é um dos nossos. Passa por aí um tratamento carinhoso, quase íntimo, de uma mãe que incentiva, mas pode dar bronca no filho; do irmão que se orgulha do mais velho, de algum parente ou amigo que tem certeza que Lula é o cara.

E são expostas as confidências de mudanças de vida proporcionadas, motivadas por políticas públicas dos governos petistas, dos espaços conquistados contra a discriminação de quem é negro ou mulher, com vontade de que acabe esse inferno que se tornou o Brasil nos últimos anos do atual governo, com desemprego, perdas de direitos trabalhistas, perseguição à arte e a cultura.

Na carta lida por Grace Passô e Debora Duboc há mais um dado interessante que demonstra uma lucidez, uma sabedoria em avaliar a situação que vai além de um apoio idólatra (como apontam alguns) ao melhor presidente que esse país já teve. Na mensagem de Jorge Luiz Zaluski, ele relembra das políticas públicas que criaram oportunidades de superação da pobreza. Historiador e sociólogo atualmente com doutorado, ele traça paralelos entre seu percurso familiar e trajetória de Lula. Mas adverte “Nossos tempos sombrios não garantem nada, principalmente quando a democracia está em jogo”.

São muitos exercícios de esperançar. De apostar e trabalhar para que a vida seja diferente da que vivemos hoje, porque já provamos e isso é possível.

Leandro Santos, Grace Passô, Camila Pitanga, Cássia Damasceno e a vereadora Erica Hilton

Fernando Haddad

emoção de lula

A emoção de Lula

Dilma lendo uma carta

Fernando Haddad leu a carta de Jean Willys, ex-deputado que precisou deixar o Brasil para garantir sua própria vida, que estava sob ameaça, depois que esse grupo político que governa ascendeu ao poder. A presidenta Dilma leu o depoimento da garota Juliana Freitas, que disse que virou petista aos 12 anos, em 1989 ao ver – por indicação do pai – a propaganda eleitoral pela televisão e ficou hipnotizada com as falas de Lula. Janja leu duas cartas que ela mesma escreveu ainda no começo do namoro.

Ficou por último a fala do presidente que salientou que vive o melhor momento de sua vida, apaixonado e casado com a socióloga Janja, renovado e agradecido por todo apoio que recebeu durante os 580 dias que passou injustamente preso na carceragem da Polícia Federal de Curitiba.

Seu discurso foi contundente para falar da atual situação do Brasil, que voltou a níveis de pobreza extrema. A inflação que esmaga o salário e a postura fascista do Bozo também pontos do seu discurso. Lula estava no seu campo e se deu ao direito de fazer embaixadinha, dar chapéu, fazer gol de bicicleta. Com sua habilidade de oratória, eletrizou e emocionou a plateia ao falar das mortes, desde as que foram ocasionadas pela pandemia, passando pelas tragédias em decorrência da intervenção irresponsável do ser humano na natureza até as que são ocasionadas pelo braço do Estado. Lula ressaltou a educação como caminho para tirar o Brasil da situação em que se encontra e afirmou que a “ignorância gera Bolsonaro”.

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Lula vai ao teatro

Artistas intepretram as cartas escritas ao ex-presidente quando ele estava preso em Curitiba. Capa do livro da Boitempo

Zélia Duncan, Denise Fraga, Camila Pitanga, Preta Ferreira, Cleo Pires, Maria Ribeiro, Monica Iozzi, Celso Frateschi, Grace Passô, Erika Hilton, Deborah Duboc, Leandro Santos, Cida Moreira, Tulipa Ruiz e Cassia Damasceno são alguns artistas que dão voz às correspondências enviadas ao ex-presidente no ano e meio em que esteve detido. O espetáculo Querido Lula: cartas do povo brasileiro marca o lançamento do livro Querido Lula: cartas a um presidente na prisão (Boitempo), que também vai contar com a participação de missivistas vindos de todo o país para ler suas próprias cartas. O livro é uma seleção de 46 das mais de 25 mil cartas que foram mandadas ao político no período de sua detenção em Curitiba.

A peça é apresenta no dia do lançamento do livro, no palco do Tuca, em São Paulo, nesta terça-feira, 31/05. O trabalho cênico é dirigido pelo brasileiro Márcio Abreu e pelo francês Thomas Quillardet, realizado pela Boitempo em parceria com a PUC-SP e com apoio da Universidade Gustave Eiffel, Fundação Friedrich Ebert e Instituto Lula.

A presença de Lula está confirmada e isso faz subir a temperatura do evento. São esperados alguns políticos ligados a Lula, como o pré-candidato ao governo de São Paulo Fernando Haddad. Os ingressos para o espetáculo estão esgotados.

Durante os 580 dias que ficou preso arbitrariamente na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba (PF) – de 7 de abril de 2018 a 8 de novembro de 2019, o ex-presidente Lula recebeu muitas manifestações de apoio, de carinho e solidariedade.

A vigília Lula Livre – um acampamento em frente à prisão – deu uma sustentação psicológica. As cartas enviadas do Brasil e exterior – na maioria por gente pobre agradecida por todas as mudanças que os governo petistas proporcionaram – renovaram de esperança o espírito do presidente.

 O material publicado foi selecionado pela historiadora Maud Chirio e procura representar a diversidade contida nas cartas, contemplando autores de diferentes origens sociais e regiões do país, em suas histórias de vida, tons e abordagens. A edição tem prefácio do rapper Emicida e orelha da escritora Conceição Evaristo. A obra também apresenta um caderno de imagens com fotos de diferentes objetos enviados ao ex-presidente.

“A partir de 2003, comecei a ver seu poder de transformação. Paulatinamente, vi a miséria no meu Estado regredir, vi diminuir o número de pedintes nas ruas, vi o pobre ter acesso a curso superior, vi gente comemorando a chegada de energia elétrica em sua casa, vi o pobre descortinar seus horizontes, pegando um avião e descobrindo que o mundo a ele também pertencia. Vi direitos assegurados a nossas domésticas, que de nossas casas tiveram a feliz oportunidade de sair com seus diplomas em mãos. E vi que pra isso tudo, minha vida não tinha piorado. Pelo contrário, só melhorou. Daí que ainda não consigo compreender a raiva que a maioria das pessoas pertencentes a minha classe sente por conta de tais conquistas”. 
– Ana Carolina, Teresina, 13 de abril de 2018.

“Não há, até onde sabemos, nenhum movimento equivalente na história, ao menos na mesma escala”, avalia a organizadora do livro Querido Lula: cartas a um presidente na prisão, a historiadora e brasilianista francesa Maud Chirio, que é professora e pesquisadora na Universidade Gustave Eiffel, França, onde Querido Lula foi publicado este ano.

Para a pesquisadora, as cartas têm valor histórico “excepcional” por expressarem vozes que não costumam ser ouvidas. Por isso, em 2018, da França, Maud Chirio voluntariou-se para ajudar a catalogar e digitalizar as cartas. Montou uma equipe de sete profissionais, seis deles historiadores e historiadoras.

O livro é o quarto projeto liderado por Maud para fazer ecoar essas vozes. A professora e a equipe organizaram uma exposição virtual multilíngue, disponível em www.linhasdeluta.org. Em 2019, promoveram uma apresentação teatral, Abril / Abril, dirigida por Thomas Quillardet, que reuniu mais de 500 pessoas em um teatro de Paris, com presenças de artistas como Chico Buarque e a atriz portuguesa Maria de Medeiros. E criaram uma série de podcasts veiculada pela emissora de rádio Universidade Nacional General Sarmiento (Argentina).

Serviço
Lançamento-espetáculo

Espetáculo Querido Lula: cartas do povo brasileiro
Livro Querido Lula: cartas a um presidente na prisão
Dia 31 de maio, das 19h às 21h
Teatro Tuca (Rua Monte Alegre, 1024, São Paulo SP)
Os ingressos estão esgotados

Apoiam este evento:
Universidade Gustave Eiffel
PUC-SP
Fundação Friedrich Ebert
Instituto Lula

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