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Beckett, o esgotamento e a
cena com Nanini, Weber,
Helena Ignez e Ary França

Marco Nanini e Guilherme Weber em Fim de Partida. Foto: Annelize Tozetto

É perturbadoramente atual a condição de corpos confinados num espaço claustrofóbico, dependentes uns dos outros para a própria sobrevivência, diante de um mundo exterior que pode não existir mais. Samuel Beckett escreveu Fim de Partida nos anos 1950, sob a sombra ainda fresca da Segunda Guerra Mundial, e descreveu esse cenário com a precisão cirúrgica de quem dissecou o século 20 e encontrou, no fundo, apenas destroços. Mais de sete décadas depois, a peça  parece ter esperado o mundo alcançá-la.

Com Marco Nanini como Hamm e Guilherme Weber como Clov, o espetáculo chega ao Teatro Luiz Mendonça, no Recife, para quatro apresentações de quinta a domingo (entre os dias 23 e 26 de julho de 2026), após temporadas aclamadas em São Paulo, Brasília e Fortaleza.

Nanini já alimentava o desejo de encenar Beckett quando Weber lhe fez a provocação de voltarem a dividir o palco, vinte anos após A Morte do Caixeiro Viajante (2004) e mais de duas décadas desde Os Solitários (2002), ambos marcos da cena brasileira. A química entre os dois atores é apontada com um dos alicerces que sustentam a produção. São profissionais que acumulam décadas de palco e levam para a cena o peso de uma experiência que dialoga diretamente com a exaustão, a repetição e a paralisia que estruturam o universo beckettiano.

Ao lado da dupla central, duas presenças carregadas de história conferem ao espetáculo uma dimensão de reencontro afetivo. Helena Ignez, ícone do cinema brasileiro, com quem Nanini contracenou no início da carreira, vive Nell – aparição breve, porém luminosa, confinada numa lata de lixo ao lado de Nagg, interpretado por Ary França, parceiro de Nanini no premiado O Burguês Ridículo (1996). Quatro corpos que carregam a memória do teatro brasileiro e, ao mesmo tempo, encarnam personagens despidos de praticamente tudo – exceto da teimosa insistência em continuar existindo.

Helena Ignez e Ary França. Foto: Fernando Young / Diulgação

Portella chega a esta montagem em momento de consagração profissional, com espetáculos recentes como Tom na Fazenda, Ficções, Um Ensaio sobre a Cegueira (Grupo Galpão) e Ray. A partir dessa trajetória, propõe para Fim de Partida uma leitura estruturada em três fluxos de sentido que se sobrepõem sem se anular.

O primeiro é a relação simbiótica entre Hamm e Clov – dependência física e emocional atravessada por violência cotidiana, jogos de poder e uma crueldade que se disfarça de rotina. O segundo é uma alegoria política: Hamm como tirano arbitrário, figura que alude à lógica da guerra e do militarismo, cuja autoridade se funda no poder bélico e opressivo; Clov como corpo submisso, soldado em vigília permanente, sempre de pé, incapaz de repouso, a serviço de uma engrenagem que não faz nenhum sentido. O terceiro é o metateatro.

Essa dimensão metalinguística encontra, na concepção cenográfica arquitetada por Daniela Thomas, sua materialização mais eloquente. A diretora de arte instala no palco uma espécie de caixa cênica retangular dentro do qual Hamm e Clov se movimentam. Acima, duas janelas no teto. Trata-se de um palco dentro do palco. Clov é o clown, o operador da cena, o ridículo; Hamm é o ator principal, o narrador canastrão que se sustenta na fabulação de si mesmo. O teatro se dobra sobre si próprio – e essa dobra é, talvez, a afirmação mais esperançosa (ou mais desesperada) que a montagem promete: mesmo reduzido a escombros, o gesto artístico insiste em se fazer.

A concepção visual do espetáculo – iluminação de Beto Bruel projetada para recortar o espaço cênico, figurinos de Antonio Guedes concebidos para transportar os personagens a um universo devastado de tecidos recortados e sobrepostos, trilha original de Federico Puppi que pontua com discrição os momentos de maior tensão – tem provocado, desde a temporada paulistana, um debate crítico que merece registro.

Gustavo Assano, em texto publicado em junho no site Outras Palavras, sustentou que a montagem “abusa de recursos visuais e tenta embelezar o que deveria permanecer inquietante e vazio de sentido”. Para ele, Beckett teria brigado com encenações que tentassem criar alegorias com o espaço, e a opulência cênica representaria um recuo diante do insuportável da obra – uma domesticação do horror.

Contrasta com essa leitura a percepção registrada em maio, no blog Mise-en-scène, da Folha de S.Paulo, de que o espetáculo constitui “um acontecimento teatral de rara força e inteligência” que não apenas revisita o clássico com o respeito que a obra-prima exige, mas o revitaliza ao propor uma leitura contemporânea afiada. Nessa perspectiva, a riqueza visual evidencia o absurdo ao trazê-lo para novas perspectivas, transformando o cenário de devastação em constructo cênico que coloca a plateia como observadora de um mundo impossível de localizar.

A montagem de Beckett permanece resistente a leituras unívocas. Foto: Annelize Tozetto / Divulgação

Fim de Partida é, como observou Theodor W. Adorno, o retrato de um impasse. O título é irônico; pois não se trata da conclusão de uma partida, mas do fechamento fatal das possibilidades de que ela ocorra. Hamm e Clov perguntam ou afirmam, repetidas vezes, se estão diante do término: “acabou, está acabando, quase acabando, deve estar quase acabando.” Mas nada se conclui. A ação continua, com menos mundo. A fala continua, com menos confiança. O corpo continua, com menos promessa.

A referência de Adorno está em seu ensaio “Versuch, das Endspiel zu verstehen” (Tentativa de compreender Fim de Partida), publicado originalmente em 1961 e incluído na coletânea Noten zur Literatur (Anotações sobre Literatura); com edição em português pela Editora 34. Nesse texto, o filósofo sustenta que o objeto de Beckett não é a catástrofe em si, mas a vida que continua após ela, num mundo em que nem mesmo os sobreviventes conseguem sobreviver. Adorno identifica uma tensão estrutural, ou seja, a pulsão de morte de Hamm coincide com seu próprio princípio vital, ao passo que a vontade de viver de Clov talvez venha a provocar a morte de ambos.

Beckett não oferece atenuantes. Não há redenção, não há sequer a dignidade de um sofrimento personalizado. Hamm e Clov são figuras despidas de individualidade que espelham um processo mais amplo. A violência despersonalizada e anônima do capitalismo tardio, ou, em termos mais imediatos, a persistência de relações de poder mesmo quando não existe mais nada a dominar.

Serviço

Fim de Partida
Local: Teatro Luiz Mendonça — Parque Dona Lindu (Av. Boa Viagem, s/n, Boa Viagem, Recife)
Datas e horários: 23, 24 e 25 de julho (quinta, sexta e sábado), às 20h
26 de julho (domingo), às 19h
Classificação indicativa: 16 anos
Ingressos: R$ 75 a R$ 200 (inteira) / R$ 100 (meia-entrada)
Vendas: teatroluizmendonca.byinti.comFicha técnica

Ficha técnica

Texto: Samuel Beckett
Direção: Rodrigo Portella
Tradução: Fábio de Souza Andrade
Direção de Arte e Cenografia: Daniela Thomas
Iluminação: Beto Bruel
Trilha Original e Direção Musical: Federico Puppi
Figurino: Antonio Guedes
Assistência de Direção: Zé Mancini
Visagismo: Leila Turgante
Comunicação: Pedro Neves
Gerência de Projetos: Carolina Tavares
Produção Executiva: Ártemis
Produtor: Fernando Libonati
Realização: Pequena Central de Produções
Instagram: @pequenacentral_

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Ação do Teatrojornal celebra a crítica digital

Ator Luiz André Cherubini em São Manuel Bueno, Mártir, do Grupo Sobrevento. A imagem de 2004 foi escolhida para representar a ação Biocrítica, que celebra os 10 anos do site Teatrojornal. Foto Biel Machado

Valmir Santos assiste à ação formativa Corpos da Exceção, no FIT São José do Rio Preto 2019. Foto: João Cordioli

Valmir Santos, idealizador e fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, alimentava um sonho lá no início dos anos 2000: formar uma rede de jornalistas e críticos de teatro em tempos digitais para conectar as artes cênicas desse imenso e tão diverso Brasil. Isso não se concretizou (ainda) em sua totalidade. Mas os diálogos são criados e renovados constantemente para reavivar nossas crenças no teatro.

Da soberania da crítica feita para o papel-jornal ao território reiteradamente provocante do digital muitas mudanças ocorreram. Outras formas de encarar, de observar, de acalentar os teatros e seus artistas são experimentados por blogs individuais ou sites coletivos de críticos que se formaram ao longo da última década. Acompanhando as mudanças de paradigma no coração das artes cênicas, com o rasgar e costurar das práticas da cena e suas subversões, a crítica teatral experimenta novas miradas.

Aquele olhar agregador do Valmir do começo do século ressoa neste janeiro de 2021. A vontade de fazer junto inspirou o Teatrojornal a construir, de forma generosa, uma ação comemorativa que junta 10 grupos de pesquisadores de várias partes do país. Para celebrar seus dez anos, o site Teatrojornal propôs essa prática coletiva: o dossiê Biocrítica. Trata-se de um conjunto de artigos que iluminam as histórias de dez espaços “empenhados na crítica de teatro na internet, mais a trajetória do próprio Teatrojornal”. “Os textos foram escritos pelas pessoas que idealizaram essas iniciativas em oito estados, num movimento oposto ao declínio da crítica jornalística na mídia impressa” explica Valmir. Os artigos são publicados a partir deste 8 de janeiro, sempre às sextas e terças-feiras.

Nós, do blog Satisfeita, Yolanda?, estamos presentes e orgulhosas de participar dessa atividade. Nosso texto, que também serve à celebração dos nossos 10 anos, comemorados agora em 2021, será publicado no dia 15 de janeiro.

O primeiro artigo no ar é o da Questão de Crítica – Revista Eletrônica de Crítica e Estudos Teatrais, do Rio de Janeiro (RJ), criada em março de 2008.

A sequência de publicação adota a ordem de fundação das casas eletrônicas. Então, depois da QC vem o Teatrojornal – Leituras de Cena, que foi erguido em março de 2010, em São Paulo, SP; o Satisfeita, Yolanda?, criado em janeiro de 2011, no Recife; Macksen Luiz, também lançado em janeiro de 2011, no Rio de Janeiro; o Antro Positivo, concebido em outubro de 2011, em São Paulo. A série prossegue com Horizonte da Cena, criado em setembro de 2012, em Belo Horizonte(MG); o Tribuna do Cretino, que surgiu em julho de 2013, em Belém (PA), Quarta Parede, lançado em abril de 2015, no Recife (PE), Agora Crítica Teatral, criado em julho de 2015, em Porto Alegre (RS); Revista Barril, concebida em março de 2016, em Salvador (BA); e Parágrafo Cerrado, registrada em novembro de 2016, em Cuiabá (MT).

O Teatrojornal sugeriu que os convocados falassem “das motivações e ambições de início, as mutações de percurso, o pensamento editorial, o modo como o espaço é estruturado, a equipe envolvida e a percepção para o futuro da prática da crítica a partir do contexto de sua cidade”.

Com a proposta do Teatrojornal, nos reconhecemos, nos confraternizamos – apesar das diferenças e das divergências – com as grandezas estéticas, éticas, políticas, existenciais das artes cênicas, que sempre queremos vivas.  Essas vozes trazem um panorama relevante da cena e de sua recepção crítica a partir do seu lugar de fala.

Além dos autorretratos, o dossiê também conta com uma análise conjuntural, elaborada por três pensadores da cena: a pesquisadora e tradutora Fátima Saadi (RJ), editora da revista Folhetim da coleção Folhetim/Ensaios no âmbito da companhia Teatro do Pequeno Gesto; o jornalista e crítico Kil Abreu (SP), curador de teatro do Centro Cultural São Paulo e editor do site Cena Aberta – Teatro, Crítica e Política das Artes; e a bailarina Rosa Primo (CE), professora da Universidade Federal do Ceará, criadora de trabalhos solos em colaboração com outros artistas e ex-crítica de dança do jornal O Povo.

No epílogo da ação em fevereiro, a Biocrítica publicará uma avaliação da passagem da crítica em jornal para o território digital, assinada pela jornalista e crítica Maria Eugênia de Menezes, da equipe do Tetrojornal e também colaboradora do jornal O Estado de S.Paulo.

O site Teatrojornal – Leituras de Cena, anfitrião da ação Biocrítica, foi lançado em 20 de março de 2010 pelo jornalista e crítico Valmir Santos. Há alguns anos fazem parte da equipe editorial as jornalistas e críticas Beth Néspoli e Maria Eugênia de Menezes. E mais recentemente também a jornalista e agitadora cultural Neomisia Silvestre responsável pelas Mídias Sociais.

É um site que trafega por reportagens, críticas, entrevistas, crônica de vários colaboradores, Acervo com textos dos autores do site desde 2010 e as ações, como Encontro com Espectadores e Crítica Militante

Participam da ação Biocrítica :

Questão de Crítica – Revista Eletrônica de Crítica e Estudos Teatrais (desde março de 2008, Rio de Janeiro, RJ)
www.questaodecritica.com.br

Teatrojornal – Leituras de Cena (março de 2010, São Paulo, SP)
www.teatrojornal.com.br

Satisfeita, Yolanda? (janeiro de 2011, Recife, PE)
www.satisfeitayolanda.com.br/blog

Macksen Luiz (janeiro de 2011, Rio de Janeiro, RJ)
www.macksenluiz.blogspot.com

Antro Positivo (outubro de 2011, São Paulo, SP)
www.antropositivo.com.br

Horizonte da Cena (setembro de 2012, Belo Horizonte, MG)
www.horizontedacena.com

Tribuna do Cretino (julho de 2013, Belém, PA)
www.tribunadocretino.com.br

Quarta Parede (abril de 2015, Recife, PE)
www.daquartaparede.com

Agora Crítica Teatral (julho de 2015, Porto Alegre, RS)
www.agoracriticateatral.com.br

Revista Barril (março de 2016, Salvador, BA)
www.revistabarril.com/

Parágrafo Cerrado (novembro de 2016, Cuiabá, MT)
www.paragrafocerrado.com.br

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Na mídia!

As Yolandinhas ficaram muito felizes hoje (sim, porque a gente só viu hoje mesmo! Estávamos muito ocupadas com essas fotinhas todas!), com uma matéria de domingo do jornal O tempo, de Belo Horizonte. A repórter Luciana Romagnolli fez um apanhado sobre os novos espaços para pensar o teatro na web e de que forma isso está se estabelecendo. A matéria cita blogs como o de Valmir Santos, o curador da próxima edição do Festival Recife do Teatro Nacional, e Macksen Luiz, do Jornal do Brasil. Muito legal integrar essa lista! E ver que estamos no caminho…para discutir, aprofundar, chorar, se divertir. A matéria completa você pode ler aqui.

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Muito satisfeitas!

O lançamento do Satisfeita, Yolanda será nesta sexta (21), às 21h, no Espaço Muda (Rua do Lima, 280, Santo Amaro). Estão todos convidados! Vamos ter exposição de figurinos do coletivo Angu de Teatro, organizada por Carol Monteiro; duas performances apresentadas por Júnior Sampaio (Confissão de caboclo, do poeta José da Luz, e Matuto no futebol, de José Laurentino); Fábio Caio (Angu de Teatro) fará a cena Muribeca, da peça Angu de sangue; e Arilson Lopes promete uma dublagem especial. A trilha da noite, só com músicas de espetáculos, ficará por conta de Marcondes Lima, ator, diretor, cenógrafo e figurinista. Esperamos vocês!

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