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Beckett, o esgotamento e a
cena com Nanini, Weber,
Helena Ignez e Ary França

Marco Nanini e Guilherme Weber em Fim de Partida. Foto: Annelize Tozetto

É perturbadoramente atual a condição de corpos confinados num espaço claustrofóbico, dependentes uns dos outros para a própria sobrevivência, diante de um mundo exterior que pode não existir mais. Samuel Beckett escreveu Fim de Partida nos anos 1950, sob a sombra ainda fresca da Segunda Guerra Mundial, e descreveu esse cenário com a precisão cirúrgica de quem dissecou o século 20 e encontrou, no fundo, apenas destroços. Mais de sete décadas depois, a peça  parece ter esperado o mundo alcançá-la.

Com Marco Nanini como Hamm e Guilherme Weber como Clov, o espetáculo chega ao Teatro Luiz Mendonça, no Recife, para quatro apresentações de quinta a domingo (entre os dias 23 e 26 de julho de 2026), após temporadas aclamadas em São Paulo, Brasília e Fortaleza.

Nanini já alimentava o desejo de encenar Beckett quando Weber lhe fez a provocação de voltarem a dividir o palco, vinte anos após A Morte do Caixeiro Viajante (2004) e mais de duas décadas desde Os Solitários (2002), ambos marcos da cena brasileira. A química entre os dois atores é apontada com um dos alicerces que sustentam a produção. São profissionais que acumulam décadas de palco e levam para a cena o peso de uma experiência que dialoga diretamente com a exaustão, a repetição e a paralisia que estruturam o universo beckettiano.

Ao lado da dupla central, duas presenças carregadas de história conferem ao espetáculo uma dimensão de reencontro afetivo. Helena Ignez, ícone do cinema brasileiro, com quem Nanini contracenou no início da carreira, vive Nell – aparição breve, porém luminosa, confinada numa lata de lixo ao lado de Nagg, interpretado por Ary França, parceiro de Nanini no premiado O Burguês Ridículo (1996). Quatro corpos que carregam a memória do teatro brasileiro e, ao mesmo tempo, encarnam personagens despidos de praticamente tudo – exceto da teimosa insistência em continuar existindo.

Helena Ignez e Ary França. Foto: Fernando Young / Diulgação

Portella chega a esta montagem em momento de consagração profissional, com espetáculos recentes como Tom na Fazenda, Ficções, Um Ensaio sobre a Cegueira (Grupo Galpão) e Ray. A partir dessa trajetória, propõe para Fim de Partida uma leitura estruturada em três fluxos de sentido que se sobrepõem sem se anular.

O primeiro é a relação simbiótica entre Hamm e Clov – dependência física e emocional atravessada por violência cotidiana, jogos de poder e uma crueldade que se disfarça de rotina. O segundo é uma alegoria política: Hamm como tirano arbitrário, figura que alude à lógica da guerra e do militarismo, cuja autoridade se funda no poder bélico e opressivo; Clov como corpo submisso, soldado em vigília permanente, sempre de pé, incapaz de repouso, a serviço de uma engrenagem que não faz nenhum sentido. O terceiro é o metateatro.

Essa dimensão metalinguística encontra, na concepção cenográfica arquitetada por Daniela Thomas, sua materialização mais eloquente. A diretora de arte instala no palco uma espécie de caixa cênica retangular dentro do qual Hamm e Clov se movimentam. Acima, duas janelas no teto. Trata-se de um palco dentro do palco. Clov é o clown, o operador da cena, o ridículo; Hamm é o ator principal, o narrador canastrão que se sustenta na fabulação de si mesmo. O teatro se dobra sobre si próprio – e essa dobra é, talvez, a afirmação mais esperançosa (ou mais desesperada) que a montagem promete: mesmo reduzido a escombros, o gesto artístico insiste em se fazer.

A concepção visual do espetáculo – iluminação de Beto Bruel projetada para recortar o espaço cênico, figurinos de Antonio Guedes concebidos para transportar os personagens a um universo devastado de tecidos recortados e sobrepostos, trilha original de Federico Puppi que pontua com discrição os momentos de maior tensão – tem provocado, desde a temporada paulistana, um debate crítico que merece registro.

Gustavo Assano, em texto publicado em junho no site Outras Palavras, sustentou que a montagem “abusa de recursos visuais e tenta embelezar o que deveria permanecer inquietante e vazio de sentido”. Para ele, Beckett teria brigado com encenações que tentassem criar alegorias com o espaço, e a opulência cênica representaria um recuo diante do insuportável da obra – uma domesticação do horror.

Contrasta com essa leitura a percepção registrada em maio, no blog Mise-en-scène, da Folha de S.Paulo, de que o espetáculo constitui “um acontecimento teatral de rara força e inteligência” que não apenas revisita o clássico com o respeito que a obra-prima exige, mas o revitaliza ao propor uma leitura contemporânea afiada. Nessa perspectiva, a riqueza visual evidencia o absurdo ao trazê-lo para novas perspectivas, transformando o cenário de devastação em constructo cênico que coloca a plateia como observadora de um mundo impossível de localizar.

A montagem de Beckett permanece resistente a leituras unívocas. Foto: Annelize Tozetto / Divulgação

Fim de Partida é, como observou Theodor W. Adorno, o retrato de um impasse. O título é irônico; pois não se trata da conclusão de uma partida, mas do fechamento fatal das possibilidades de que ela ocorra. Hamm e Clov perguntam ou afirmam, repetidas vezes, se estão diante do término: “acabou, está acabando, quase acabando, deve estar quase acabando.” Mas nada se conclui. A ação continua, com menos mundo. A fala continua, com menos confiança. O corpo continua, com menos promessa.

A referência de Adorno está em seu ensaio “Versuch, das Endspiel zu verstehen” (Tentativa de compreender Fim de Partida), publicado originalmente em 1961 e incluído na coletânea Noten zur Literatur (Anotações sobre Literatura); com edição em português pela Editora 34. Nesse texto, o filósofo sustenta que o objeto de Beckett não é a catástrofe em si, mas a vida que continua após ela, num mundo em que nem mesmo os sobreviventes conseguem sobreviver. Adorno identifica uma tensão estrutural, ou seja, a pulsão de morte de Hamm coincide com seu próprio princípio vital, ao passo que a vontade de viver de Clov talvez venha a provocar a morte de ambos.

Beckett não oferece atenuantes. Não há redenção, não há sequer a dignidade de um sofrimento personalizado. Hamm e Clov são figuras despidas de individualidade que espelham um processo mais amplo. A violência despersonalizada e anônima do capitalismo tardio, ou, em termos mais imediatos, a persistência de relações de poder mesmo quando não existe mais nada a dominar.

Serviço

Fim de Partida
Local: Teatro Luiz Mendonça — Parque Dona Lindu (Av. Boa Viagem, s/n, Boa Viagem, Recife)
Datas e horários: 23, 24 e 25 de julho (quinta, sexta e sábado), às 20h
26 de julho (domingo), às 19h
Classificação indicativa: 16 anos
Ingressos: R$ 75 a R$ 200 (inteira) / R$ 100 (meia-entrada)
Vendas: teatroluizmendonca.byinti.comFicha técnica

Ficha técnica

Texto: Samuel Beckett
Direção: Rodrigo Portella
Tradução: Fábio de Souza Andrade
Direção de Arte e Cenografia: Daniela Thomas
Iluminação: Beto Bruel
Trilha Original e Direção Musical: Federico Puppi
Figurino: Antonio Guedes
Assistência de Direção: Zé Mancini
Visagismo: Leila Turgante
Comunicação: Pedro Neves
Gerência de Projetos: Carolina Tavares
Produção Executiva: Ártemis
Produtor: Fernando Libonati
Realização: Pequena Central de Produções
Instagram: @pequenacentral_

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A luz brilhante de Helena Ignez
na Ocupação Itaú Cultural

 

Aos 87 anos, Helena Ignez se torna a primeira cineasta mulher homenageada pela série Ocupação do Itaú Cultural. Foto: filme A alegria é prova dos nove / Reprodução

Helena Ignez não cabe em uma definição. Atriz, diretora, cineasta, antimusa – talvez o termo mais preciso seja força em movimento. Desde que ingressou na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia em 1956, ainda nos anos de formação que a levariam ao encontro com Glauber Rocha e o Cinema Novo, Helena construiu uma trajetória que desafia qualquer tentativa de enquadramento. A Ocupação que o Itaú Cultural inaugura neste 22 de julho, na Avenida Paulista, busca entregar a narrativa em primeira pessoa para a própria artista, deixando que sua voz, seu corpo e sua prática experimental guiem o visitante.

É a 74ª edição da série Ocupação, e a primeira a homenagear uma cineasta mulher. Mas a exposição, que fica em cartaz até 18 de outubro com entrada gratuita, faz questão de escavar um território da produção de Helena que o grande público conhece menos: o teatro. Não por acaso. Foi nos palcos que ela aprendeu a ocupar o espaço com a inteireza de quem entende o gesto como linguagem e a cena como campo de batalha política.

Helena está no elenco do espetáculo teatral Fim de partida, que circula pelo Brasil . Foto: Fernando Young 

O teatro como raiz e retorno

A mostra dedica um núcleo significativo à produção teatral de Helena, reunindo programas de espetáculos, críticas históricas – incluindo uma de Nelson Rodrigues – e documentos de processo de trabalho que revelam décadas de dedicação aos palcos. É um aspecto que a própria artista faz questão de sublinhar: o teatro sempre teve importância absoluta em sua vida, mesmo que sua imagem pública tenha sido forjada sobretudo pelas telas.

Neste momento, Helena está em plena atividade teatral. Integra o elenco de Fim de Partida, o clássico de Samuel Beckett dirigido por Rodrigo Portella, ao lado de Marco Nanini, Guilherme Weber e Ary França. A peça – que esteve em cartaz em São Paulo e no Rio de Janeiro e faz apresentações no Recife (de 23 a 26 de julho, no Teatro Luiz Mendonça) e Porto Alegre (17 e 18 de outubro, no Teatro Simões Lopes Neto) – coloca Helena no centro de um dos textos mais contundentes do teatro moderno, marcado por humor ácido, silêncios dilacerantes e a espera por um fim que nunca chega.

Em entrevista recente ao portal bahia.ba, Helena colocou Beckett no mesmo patamar de Shakespeare. Para ela, ambos são escritores cuja inteligência se manifesta em cada camada da obra e atravessam o tempo com a mesma potência. Shakespeare segue atual porque fala das paixões humanas, dessa imprevisibilidade que nós somos. Beckett, por sua vez, fala do absurdo – da existência sem sentido, da espera que nunca se completa, de personagens presas em ciclos dos quais não conseguem escapar.

Sobre a personagem que interpreta em Fim de Partida, Nell, a atriz destaca o paradoxo que a torna tão fascinante: moradora de uma lata de lixo, é ao mesmo tempo a única mulher da peça e a única que efetivamente rompe com o outro personagem. “Ela fala o que quer, expressa sua loucura, mas é livre dentro disso”, disse Helena. “Acho uma peça maravilhosa para refletirmos. E continuará sendo atual.”

A atriz no filme A Mulher de Todos, de 1969, dirigido por Rogério Sganzerla

Antimusa: o gesto de recusar o lugar de objeto

A exposição não se furta a enfrentar a imagem que a sociedade tentou colar em Helena. Um dos eixos mais potentes da curadoria é dedicado ao conceito de antimusa – termo que a própria artista mobiliza para recusar o papel de musa inspiradora e afirmar seu lugar como sujeito criador. O visitante encontra ali um conjunto impactante de manchetes históricas, imagens e vídeos que mostram como Helena subverteu os papéis de gênero impostos às atrizes, especialmente durante os anos de chumbo da ditadura militar.

Desse núcleo, emerge com força A Mulher de Todos (1969), dirigido por Rogério Sganzerla, frame central da exposição. O filme, exibido em cópia restaurada, apresenta Ângela Carne e Osso – personagem que Helena encarnou com uma irreverência que atravessou o tempo. Ninfomaníaca que faz os homens de gato e sapato, Ângela foi uma interpretação revolucionária no cinema brasileiro justamente por recusar a passividade feminina em plena repressão.

Já o espaço dedicado à produtora Belair mergulha em 1970, ano em que Helena, ao lado de Rogério Sganzerla e Júlio Bressane, realizou seis longas-metragens em poucos meses – uma explosão criativa que a ditadura tratou de interromper. A exposição reúne frames, vídeos, materiais de bastidores e, especialmente, um documento em que Helena se posiciona contra a censura. É ali que a resistência se materializa em papel e película.

O Bandido da Luz Vermelha

Em parceria com a Cinemateca Brasileira, o projeto também realizou ações de preservação fundamentais, como a captura fotográfica digital de películas de títulos emblemáticos. Três desses filmes merecem destaque: O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Sganzerla, um clássico do cinema marginal que até hoje influencia gerações, com Helena no papel de Janete Jane; O Padre e a Moça (1966), de Joaquim Pedro de Andrade, um drama inspirado no poema homônimo de Carlos Drummond de Andrade, com Helena no papel de Mariana e O Grito da Terra (1964), de Olney São Paulo, uma raridade do período pré-Cinema Novo, drama sertanejo que ganhou uma nova cópia digital e volta a ser apresentado ao público. 

A cineasta por trás da câmera

A Ocupação evidencia ainda o trabalho de Helena como diretora. Roteiros, cadernos de processo, vídeos e bastidores de filmes como A Alegria é a Prova dos Nove (2023), Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha (2010) e o documentário Fakir (2019) estão acessíveis ao público. Como atriz, a mostra dialoga com sua produção mais recente, incluindo o longa Nosferatu (2025).

Há também um mural de fotos que é, por si só, uma aula de história cultural brasileira: as imagens registram parcerias longevas com Sganzerla, Antônio Pitanga, Paulo Villaça, Cristiano Burlan e Jean-Claude Bernardet, além de encontros com Jô Soares, Maria Gladys, Zé Celso Martinez Corrêa e Ney Matogrosso.

Programação paralela: uma temporada inteira dedicada a Helena

Fora do espaço expositivo, a programação é igualmente ambiciosa. A Itaú Cultural Play disponibiliza uma retrospectiva gratuita com 23 filmes – entre obras dirigidas e estreladas por Helena – que fica no ar durante todo o período da exposição, de 22 de julho a 18 de outubro de 2026. O acesso é gratuito pelo site itauculturalplay.com.br e pelos aplicativos para smart TVs, dispositivos móveis (Android e iOS) e Chromecast.

A plataforma também será o destino final do curta-metragem inédito Des-criação, codirigido por Helena e André Guerreiro Lopes em formato híbrido que dialoga com a videoarte e o cinema de invenção; uma imersão no universo interior da artista, suas reflexões sobre arte, tempo, vida e morte.

Haverá exibições presenciais em setembro no Cine Glauber Rocha (Salvador) e em outubro na sede do Itaú Cultural (São Paulo). E, coroando a programação teatral, o teatro do Itaú Cultural recebe em outubro a remontagem de Savannah Bay, de Marguerite Duras, com direção de André Guerreiro Lopes e Helena no elenco; revisitando o texto que ela já havia interpretado em 1999 e 2001 sob a direção de Rogério Sganzerla.

Ficha técnica

Helena Ignez – 74ª edição da série Ocupação
Concepção e realização: Itaú Cultural
Curadoria: Equipe Itaú Cultural
Consultoria de conteúdo: Djin Sganzerla
Projeto expográfico: Renata Mota
Assistência de expografia: Lanussi Pasquali, Livia Fauaze e Louise Braga
Abertura: 22 de julho de 2026, às 19h30
Visitação: De 23 de julho a 18 de outubro de 2026. Terça a sábado, 11h às 20h. Domingos e feriados, 11h às 19h
Local: Itaú Cultural – Avenida Paulista, 149, São Paulo (próximo ao metrô Brigadeiro)
Entrada: Gratuita

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Evoé, Zé Celso!

Zé Celso. Foto: Lilo Clareto / Divulgação

José Celso Martinez Corrêa é um grande farol da arte e da cultura. Arte como tradução de resistência e política. Essa figura febril e genial celebra 85 anos neste 30 de março e a fatia do Brasil que pulsa de afetos e revolução comemora sua existência.

Tudo o que se disser sobre Zé Celso é pouco. O ator, diretor, dramaturgo e fazedor da porra toda é grande demais. Ele já disse algumas vezes: “Sou uma entidade”. Respeitamos, admiramos, reverenciamos.

Sua presença ativa conexões cósmicas de amor e de ideias poderosas que vão na contramão de qualquer tipo de caretice. Esse artista de grandeza desestabiliza o establishment.

Surpreendente, dono de um sorriso debochado, figura incontornável do teatro brasileiro, criador febril, revolucionário libertário sexual. Idealizador e diretor da Companhia Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, em São Paulo.

Sua vida pulsa multiplicada em muitas artérias, em muitos corações que foram tocados por alguma faísca de suas labaredas. Evoé Ze Celso!

Logo mais às 19h tem comemoração no Sesc Pompeia com a estreia de Esperando Godot, direção do aniversariante do dia.

Vladimir (Alexandre Borges) e Estragão (Marcelo Drummond) Foto: Jennifer Glass

Até quando Esperar Godot?

Esperando Godot, peça escrita por Samuel Beckett, é um clássico da Literatura e do Teatro. Como um bom clássico é flexível e poroso para leituras na história. As personagens Estragão (Gogo) e Vladimir (Didi) estão suspensas no tempo e espaço. Sem perspectivas, elas aguardam a chegada de Godot, mesmo sem saber quem é ou o que é.

Composta no pós-Segunda Guerra Mundial, a peça segue sacudindo nossas inércias e amplificando a visão dos abismos ao redor. O espetáculo fica em cartaz no Sesc Pompeia, a partir de hoje, por três semanas.

Esperando Godot celebra também neste lindo 30 de março de 2022, os 85 anos de José Celso Martinez Correa, uma força da natureza, que assina a direção do espetáculo.

Depois da temporada no Sesc SP, a montagem segue para estrear noutro espaço erguido por Lina Bo Bardi, no terreyro eletrônico do Teat(r)o Oficina, no Bixiga.

As personagens Estragão (Marcelo Drummond) e Vladimir (Alexandre Borges) podem ser dois palhaços vagabundos que se acham na encruzilhada entre a paralisia e a tomada da ação. Enquanto esperam Godot, a dupla se depara com as figuras que passam pela estrada: Pozzo – O Domador (Ricardo Bittencourt), Felizardo – A Fera (Roderick Himeros) e O Mensageiro (Tony Reis), que traz notícias preocupantes.

O espetáculo carrega muitas simbologias para o Oficina: foi o último espetáculo de Cacilda Becker (1969), eterna inspiração para as gerações de artistas do Teat(r)o Oficina. Marca também a volta na direção de teatro de Zé Celso, depois de dois anos desde o isolamento social imposto pela pandemia. E também assinala a volta de Alexandre Borges num espetáculo da companhia, depois de quase 30 anos. Borges interpretou o Rei Cláudio na montagem de Ham-let, de Shakespeare em 1993, montagem que reinaugurou o Teat(r)o Oficina, com o atual projeto arquitetônico de Lina Bo Bardi e Edson Elito.

Zé Celso. Foto: Fernando Laszlo / Divulgação

Ações do Itaú Cultural

O fundador do Teatro Oficina, José Celso Martinez Corrêa, é festejado pelo Itaú Cultural com a disponibilização de conteúdo em diferentes formatos e em seus canais virtuais: fotos, vídeos, registros históricos e filmes. Além de material inédito com depoimentos de profissionais que que dialogam com ele no exercício cênico no Teatro Oficina Uzyna Uzona.  

Nessa ação, será possível revisitar o material referencial de sua obra no hotsite da Ocupação Zé Celso, https://www.itaucultural.org.br/ocupacao/ze-celso/,realizada em 2009; vídeos de Zé Celso em família https://www.itaucultural.org.br/vento-forte-ocupacao-ze-celso-2009 e trechos de espetáculos como Ham-let, de 1993, inspirada na obra de William Shakespeare https://www.itaucultural.org.br/ham-let-ocupacao-ze-celso-2009. Ou o longo depoimento que o artista  gravou sobre o homenageado pela Ocupação Nelson Rodrigues, em 2012, https://www.itaucultural.org.br/ze-celso-boca-de-ouro-ocupacao-nelson-rodrigues-2012, e a fala de como é representar uma peça deste dramaturgo https://www.itaucultural.org.br/ze-celso-como-representar-nelson-ocupacao-nelson-rodrigues-2012.

Estão acessíveis as fotos e o making off do ensaio fotográfico feito por Bob Wolfenson para a revista Continuum, antiga publicação da instituição, https://issuu.com/itaucultural/docs/revista_continuum_33 e o making off do ensaio, realizado no Teatro Oficina https://www.itaucultural.org.br/continuum-33-ensaio-fotografico-de-bob-wolfenson-com-ze-celso.

A plataforma Itaú Cultural Play, por sua vez, exibe o documentário Evoé! Retrato de um Antropófago, produzido em 2011 para a série Iconoclássicos, do Itaú Cultural, sob direção de Tadeu Jungle e Elaine Cesar e acessível gratuitamente em www.itauculturalplay.com.br. Tem ainda o verbete na Enciclopédia Itaú Cultural, traz amplo conteúdo sobre Zé Celso, em https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa104235/jose-celso-martinez-correa.

Zé Celso conversa com o crítico teatral Nelson de Sá sobre as produções da companhia, sobre sua luta pela manutenção da sede, no Bixiga, em São Paulo, e a importância do teatro brasileiro para os tempos contemporâneos na série Camarim em Cena. O episódio está em https://www.youtube.com/watch?v=cd7VQKvGxd4&t=11s, a página do YouTube, e no site https://www.itaucultural.org.br/secoes/videos/assista-camarim-em-cena-ze-celso.

A matéria produzida especialmente para comemorar os 85 anos de José Celso Martinez Corrêa, publicada no site do Itaú Cultural, reúne conversas com profissionais do palco e dos bastidores da companhia, no Teatro Oficina. Tem falas, entre outros, do ator e autor Renato Borghi, um dos fundadores do Oficina; do ator Alexandre Borges, que volta a trabalhar com Zé Celso depois de 30 anos, do ator Elcio Nogueira Seixas, do ator, diretor e produtor Marcelo Drummond, integrante do Oficina desde 1986; da artista Marilia Geillmeister, que entrou para a companhia em 2011 e é a articuladora do Parque do Bixiga, e de Igor Marotti, videoartista do grupo desde 2013.

SERVIÇO

Esperando Godot, de Samuel Beckett
Onde: Sesc Pompeia – Rua Clélia, 93 – Água Branca, São Paulo, SP
Quando: 30, 31/03; 1º, 2, 3, 6, 7, 8, 9, 10, 14, 16, 17/04
horário: quarta a sábado, 19h. domingo, 17h. (15/04, feriado da Sexta-feira Santa, não haverá apresentação)
ingressos: R$ 40 (inteira), R$ 20 (credencial plena do Sesc: trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo matriculado no Sesc e dependentes e meia: estudante, servidor de escola pública, + 60 anos, aposentados e pessoas com deficiência).
Duração: 3H30 (com intervalo de 15 minutos)
Indicação etária: 18 anos
Protocolos de segurança
Pessoas com mais de 12 anos deverão apresentar comprovante de vacinação contra COVID-19, evidenciando DUAS doses ou dose única para ingressar em todas as unidades do Sesc no estado de São Paulo. O comprovante pode ser físico (carteirinha de vacinação) ou digital e um documento com foto.
O uso da máscara é obrigatório em todos os espaços fechados da Unidade.

Esperando Godot – TEMPORADA NO TEATRO OFICINA
Quando: de 05/05 a 03/07, de quinta a domingo, às 20h
Onde: Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona – rua Jaceguai, 520 – Bixiga, São Paulo, SP
ingressos:
quintas e sextas: R$ 60 inteira, R$ 30 meia (estudantes, aposentados, professores e artistas), R$ 25 moradores do Bixiga (necessário comprovante de residência)
sábados e domingos: R$ 80 inteira, R$ 40 meia (estudantes, aposentados, professores e artistas), R$ 35 moradores do Bixiga (necessário comprovante de residência)
venda online a partir de 12 de abril, terça-feira, às 14h.
https://site.bileto.sympla.com.br/teatrooficina/
duração: 3H30 (com intervalo de 15 minutos)
indicação etária: 14 anos

SERVIÇO
85 anos de Zé Celso Martinez Corrêa
No dia 30 de março (sexta-feira)
Conteúdo especial no site do Itaú Cultural www.itaucultural.org.br 

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Borghi encara clima pós-apocalíptico de Beckett

Foto: Patricia Cividanes

Elcio Nogueira Seixas e Renato Borghi em Fim de Jogo, peça de Samuel Beckett. Foto: Patricia Cividanes /Divulgação

 O ator Renato Borghi, 80 anos, merece ser reverenciado, paparicado, celebrado, acarinhado por tudo que ele já fez. Seis décadas de teatro não é para qualquer um, não. Só para os fortes. Um dos fundadores do Teatro Oficina, Borghi estreou profissionalmente em 1958, com o espetáculo Chá e Simpatia, com direção de Sérgio Cardoso, no Rio de Janeiro. O intérprete do dissoluto Abelardo I em O Rei da Vela, montagem emblemática do Teatro Oficina, em 1967, mergulhou em grandes personagens. Contracenou com Etty Fraser em A Incubadeira, fez Galileu e Na Selva das Cidades, do alemão Bertolt Brecht (1898-1956) e As Três Irmãs, de Anton Tchekhov (1889-1860), pelo Teatro Oficina. No ano passado transformou a sala de visitas de seu apartamento, em São Paulo, em um teatro de bolso para as apresentações da peça Fim de Jogo. A ideia de fazer a peça ocorreu quando Renato Borghi se recuperava de duas cirurgias na coluna e utilizava cadeira de rodas devido a limitações motoras.

Essa versão da tragicomédia do dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989), chega ao Recife para seis apresentações, de hoje a sábado e nos dias 11, 12 e 13, na Caixa Cultural. A encenação é do Teatro Promíscuo, companhia criada há 25 anos por Borghi e Elcio Nogueira Seixas, seu parceiro de cena. Ontem foi apresentada a palestra ilustrada Borghi em Revista, quando o artista passeou pela história do Teatro Brasileiro. No dia 10, quarta-feira, a palestra gratuita será reapresentada na Sala Multimídia da Caixa Cultural, às 19h, com o conteúdo que vai das revistas dos anos 1930 até os movimentos da cena contemporânea no Brasil. E na próxima quinta-feira, dia 11, os atores vão conversar com o público após a apresentação da peça.

Os retratos dos pais de Borghi, , representam os personagens

Os retratos dos pais de Borghi representam os personagens Nell e Nagg

O veterano ator já assistiu muitas montagens de Fim de Jogo mas sempre lhe intrigava o modo semelhante na interpretação, que ele pensava que abriam um abismo entre o texto e o público. Sua encenação traz uma pegada mais intimista. Criada na sala de seu apartamento, a sua encenação traz essa atmosfera, de um contato mais próximo.

Os personagens beckettianos povoam um mundo pós-colapso, devastado e sem perspectiva de futuro. Escrita em 1957, Fim de jogo expõe o convívio de quatro figuras, sobreviventes, que dividem um exíguo abrigo. Borghi considera que a peça pode se conectar a um tempo pós-atômico como aos dias de hoje.

Borghi faz o velho Hamm, cego e paralítico, que vive na dependência de Clov (Elcio Nogueira Seixas), que sofre de uma enfermidade que o impede de sentar. Então Clov narra a Hamm o que enxerga da terra devastada.

A direção é assinada por Isabel Teixeira que optou por utilizar fotografia dos pais de Renato, Maria de Castro e Adriano Borghi, como os outros dois personagens do texto de Beckett, Nell e Nagg.

FICHA TÉCNICA

Autor: Samuel Beckett
Tradução: Fábio Rigatto de Souza Andrade
Elenco:
Renato Borghi (Hamm)
Elcio Nogueira Seixas (Clov)
Maria de Castro Borghi (Nell)
Adriano Borghi (Nagg)
Direção: Isabel Teixeira
Direção de Arte: Karlla Girotto
Iluminação: Alessandra Domingues
Trilha Sonora: Aline Meyer
Diretor Assistente e “O Ponto”: Lucas Brandão
Assistência de Direção de Arte: Gabriela Cherubini
Assistência de Iluminação: Laiza Menegassi
Adaptação de iluminação para Recife: Roberto Setton
Direção de palco: Tiago Moro
Filmagem e Edição: Eliana César e Lucas Brandão
Fotos: Roberto Setton e Patrícia Cividanes
Programação gráfica: Patrícia Cividanes
Direção de Produção: Anayan Moretto
Produção executiva: Rick Nagash
Produção Recife: Tadeu Gondim
Realização: Teatro Promíscuo

Serviço

Fim de Jogo
Quando: De 4 a 6/05 e de 11 a 13/05/2017 (Bate-papo com os atores no dia 11/05, após a peça) às 20h
Onde: Caixa Cultural Recife (Avenida Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife)
Quanto: R$ 10,00 (inteira) | R$ 5,00 (meia-entrada)
Venda de ingressos: a partir do dia 03/05 (para as apresentações de 04 a 06/05) e do dia 10/05 (para as apresentações de 11 a 13/05/2017), das 10h às 20h, na bilheteria da CAIXA Cultural Recife.
Fone: (81) 3425-1915

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Robert Wilson em Porto Alegre

Robert Wilson assina a direção e atua na peça de Beckett

O Porto Alegre em Cena – Festival Internacional de Artes Cênicas chega à maioridade. E em setembro a capital gaúcha se transforma num verdadeiro paraíso para os amantes das artes.

A programação é extensa e ocupa muitos espaços entre os dias 6 e 27 de setembro. É quase um mês inteiro de apresentações de peças teatrais, show musicais, espetáculos de dança. A diversidade é um reflexo da coerência estética do curador Luciano Alabarse.

Ano passado assisti no Poa em Cena o espetáculo Dias felizes, com direção de Bob Wilson e atuação de Adriana Asti. Dias felizes é uma das principais peças do irlandês Samuel Beckett. Fernanda Montenegro, que já havia feito a peça na década de 1970, traduzida Oh! Que belos dias, ao lado de Sadi Cabral, voltou a interpretar Winnie na década de 1990, ao lado do marido, Fernando Torres. E tenho impressão que a peça foi apresentada no Teatro de Santa Isabel, no Recife.

Bem, além da peça com Asti, Bob Wilson também mandou para Porto Alegre sua exposição Video Portraits, videorretratos curiosos de Brad Pitt, Johnny Depp, Isabelle Huppert, Norman Fleming, Black Panther, Isabella Rosellini, Mikhail Baryshnikov, Robin Wright Penn, Jeanne Moureau, Steve Buscemi, Gao Xingjian, Lucinda Childs, Dita Von Teese, Zhang Huan, William Pope L e Mariane Faithfull. Numa junção de fotografia, filme, literatura e som, com uma linguagem de movimentos mínimos e gestos coreografados.

Wilson é uma das principais atrações do festival gaúcho

Mas neste ano é o próprio Wilson quem comparece com um dos mais conhecidos textos de Samuel Beckett, Krapp’s last tape, numa coprodução Itália/Eua. As sessões estão marcadas para os dias 23 e 24 às 21h; e 25 às 18h, no Theatro São Pedro. Robert Wilson é ator e diretor do solo. O protagonista mantém uma conversação com o seu passado através de uma gravação que fez 30 anos antes. Já velho, no dia do seu aniversário, ele prepara uma nova gravação e se depara com o passado, talvez feliz. E já com outras qualidades – azedo e irônico e às vezes engraçado, ele não se reconhece naquela voz de juventude.

“Eu sempre senti uma afinidade com o mundo de Beckett. De certa forma, é muito próximo ao meu trabalho. Mas agora, depois de 35 anos, decidi enfrentar o desafio e fazê-lo”, escreveu o multiartista no programa do 50st International Theatre Festival MESS, Sarajevo, Bosna i Hercegovina.

“Quando eu dirijo um trabalho, eu crio uma estrutura no tempo. Finalmente, quando todos os elementos visuais estão no lugar, eu crio uma estrutura para os artistas preencherem. Se a estrutura é sólida, então se pode estar livre nele. Aqui, na sua maior parte, a estrutura é dada, e eu devo encontrar a minha liberdade dentro da estrutura de Beckett. Tudo está escrito.”

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