Arquivo da tag: Festival Recife do Teatro Nacional

O elenco está nu, mas o destaque é da palavra

Isso te interessa?, da Cia Brasileira de Teatro. Fotos: Marcelo Lyra

A Companhia Brasileira de Teatro, do Paraná, apresentou no ano passado, dentro do Festival Recife do Teatro Nacional, três espetáculos: Vida, Oxigênio e Descartes com lentes. Na edição deste ano, a trupe voltou com Isso te interessa? em que os personagens são “pais, mães, filhos e cães”. Em 45 minutos a montagem evoca três gerações de uma mesma família. A concisão do texto e da encenação são marcas de Isso te interessa?.

Sob direção de Marcio Abreu, o texto da dramaturga francesa Noëlle Renaude (com tradução de Giovana Soar e Marcio Abreu) Bon, Saint-Cloud oscila entre narração e ação. As fronteiras são borradas, diluídas.

A história e o tempo recebem um tratamento bem peculiar. Noëlle Renaude escreve: “Meu pai, diz o pai, tinha, o pai fuma, do seu pai a obstinação que eu tenho do meu pai e que não, suspira o pai, consegui, o pai fuma, te transmitir, é uma pena, e o pai para e o pai fuma”. Personagem/narrador/ator dividem a mesma cena, na mesma frase. Tudo exibido: o tempo e o passar do tempo, as rubricas, os personagens, o ator.

Imagino a ginástica desse elenco formado por Ranieri Gonzalez e Giovana Soar, como pais, e Nadja Naira e Rodrigo Ferrarini, como filhos (e todos eles fazem o cachorro). E nada de especial ocorre, não há grandes acontecimentos nessa família comum. O que aparece são os cenas prosaicas de vidas ordinárias. O pai fuma, a mãe esquece, o pai deseja viajar ao balneário francês Saint-Cloud como se lá fora o paraíso na Terra, a família não vai; o filho faz vestibular, passa no vestibular, vai morar longe da família; a filha chora, ela tem dor de cabeça, ela não se entende com a mãe, a filha fica gravida de gêmeos; já mãe, a filha se separa, os gêmeos não entendem; os cachorros são fiéis; o pai morre, a filha morre, a mãe também quer morrer; o filho volta, o filho vira pai, ele passa a ter o tique de seu pai agora que é pai; o tempo passa, tudo mais ou menos se repete.

Os atores estão nus o tempo todo, mas sem nenhuma erotização do corpo. Mas existe uma afinação técnica no corpo do ator, nos seus gestos que exigem mais elegância. A cena é limpa. O fluxo poético é determinado pelo texto. O cenário, de Fernando Marés, com mesa, cadeiras, sofá, luminária, ganha inclinação de alguns objetos na passagem do tempo. A luz investe em claros escuros.

Alguns elementos de indumentária, como chapéu, tênis, sapato de salto, situam o crescimento/envelhecimento das gerações dessa família.

O que acho sensacional é o texto, como essa dramaturga exercita sua a construção. E as escolhas limpas do diretor, que permitem que as atuações se destaquem.

Cia Brasileira veio ao Recife pela primeira vez ano passado

Postado com as tags: , , , , , , , ,

Riso baiano no festival do Recife

Matilde, la cambiadora de cuerpos. Fotos: Victor Jucá/divulgação

Matilde, la cambiadora de cuerpos flerta com o melodrama, com gêneros policial e de terror, com os programas televisivos de auditório e os sensacionalistas que apelam para as desgraças alheias. O espetáculo que veio da Bahia é inteligente e tem a sacada de fazer crítica mordaz ao “salve-se quem puder” contemporâneo, instigado principalmente por parte da mídia, que manipula as informações para tirar proveito na audiência ou na venda de jornalecos. Também mira-se numa falsa ficção científica.

É uma montagem leve e engraçada. A história se passa em Salvador, quando a figura conhecida por Matilde toca o terror trocando de corpo com as pessoas que ela beija. Um estranho poder que vem provocando insatisfações desde o Paraguai, onde a pacata cidadã, que gostava de se gabar com o dom, passa a ser procurada como criminosa.

O pânico chega à capital baiana quando Matilde invade o corpo de um cabra macho que trabalha no setor de despachos da prefeitura. Ele denuncia o caso à polícia e a mídia trata de apimentar o episódio. Matilde vira celebridade instantânea só que ninguém sabe exatamente qual é o seu rosto.

As duas atrizes Elaine Cardim e Tatiana de Lima usam vestidos vermelhos e se revezam em 29 personagens. As mudanças são feitas com caracterização na voz, num gestual bem lugar-comum de identificação de tipos, como o policial por exemplo. Mas também contam com alguns acessórios, como paletó ou coisa do gênero, mas principalmente com os pares de sapatos.

A Cia A4 de Realizações Teatrais também utiliza recurso audiovisual gravado anteriormente, com gente andando no centro de Salvador, ou a carinha de vários personagens que se envolvem na descoberta do paradeiro da “cambiadora”, como padre e pai de santo. Além da gravação da entrevista feita pela repórter Cecília de Campos, que consegue localizar Matilde. A parte documental do vídeo acho mais dispensável. A parte ficcional me parece mais pertinente.

Montagem traz duas atrizes no elenco

O espetáculo escrito por Fábio Espírito Santo com direção de Hebe Alves tem uma porção crítica muito forte: do espelhamento e da distorção da notícia, da manipulação de verdades e mentiras e da fragilidade da aferição de fatos, que atualmente podem ser inventados por qualquer um, nem sempre com finalidade lícita ou ética.

As duas atrizes mandam bem. Elas brincam com os estereótipos de figuras e trocam com segurança de personagem. O cenário praticamente vazio – com duas cadeiras e poucos objetos de cena – tem um contraponto na iluminação, que demarca espaços e dá os destaques às cenas. A direção de Hebe Alves impõe uma agilidade à montagem e valoriza a comicidade em determinados pontos da encenação.

O dramaturgo busca um final liberal, mas previsível. De qualquer forma, totalmente em acordo com a proposta, coerente com o motivo detonador de uma vida de “crimes” levada pela protagonista.

O espetáculo Matilde, La cambiadora de cuerpos é diversão com tutano e muito humor. Tem uma equipe bastante afinada, inclusive o contrarregra. A peça faz mais uma apresentação nesta segunda-feira, às 19h, no Teatro Barreto Júnior e tem aproximadamente 50 minutos de duração. Uma encenação que critica e faz rir.

Postado com as tags: , , , , , ,

Maurice Durozier faz nova conferência hoje

Maurice Durozier, do Théâtre du Soleil. Fotos: Pollyanna Diniz

Maurice Durozier lançou ontem seu livro Palavra de ator, editado pela Prefeitura do Recife, e rodado nas impressoras da Cepe. Antes ele exibiu o espetáculo-conferência em tom confessional sobre o ofício do intérprete ao longo dos anos. A apresentaçao ocorre novamente neste domingo, às 18h, no Teatro Capiba, que fica no Sesc de Casa Amarela.

No sábado, o teatro de 100 lugares nao foi totalmente ocupado. As reflexões de Maurice sao preciosas e deveriam interessar a um número maior de atores, diretores e acadêmicos da área. Bem, quem perdeu ontem, ainda tem hoje. Só nao vai ter o jantar, com cardápio do proprio Maurice, que foi oferecido ao público. Aliás, o jantar é uma tradiçao do Théâtre du Soleil.

A conferência de Maurice foi dividida em dois atos. Como numa entrevista, a atriz Aline Borsari fez as perguntas e as forças e fragilidades do ofício foram destrinchadas a partir da experiência de Durozier. Muitos momentos foram emocionantes. Ele lembrou primeiro o homem, depois o poeta. Lembrei de Brecht. Para ser um bom artista ou alcançar a excelência nao se pode descartar a ética e o respeito. Como em qualquer profissão, aliás, para uma pessoa de bem.
Maurice tocou em pontos nelvrálgicos, como o ego dilatado, o esgoísmo do ator em cena, que quer aparece mais do que o outro. Ele falou de sua vivência e de como contornar essas armadilhas de sentimentos.

Maurice Durozier e Aline Borsari

“O ator deve deixar a parte da infância aberta”. E o melhor é que nao é apenas frase de efeito, mas uma prática profissional. O ator tambem falou da emoção. Se o ator é um ser que carrega dentro de si um mundo criativo que ele nao sabe bem o que é, no mar real, “a tempestade nao é uma metáfora”.

Francês lançou o livro Palavra de ator, com o apoio da Prefeitura do Recife

Postado com as tags: , , , , , , , ,

Entre o humor e a falta de sentido

Cia Atores de Laura, do Rio de Janeiro, reapresenta hoje o espetáculo Absurdo. Fotos: Pollyanna Diniz

Alguém calunia você em praça pública e você em vez de procurar o advogado, a polícia ou os “capangas” continua a conviver com esse crápula com a educação que sua mãe e as rígidas freiras do colégio caríssimo lhe deram. Outra cena, um fulano sempre que lhe encontra lhe abraça e lhe beija, diz que você é sensacional, mas na verdade ele lhe odeia e quando você vira as costas fala coisas horríveis e até faz campanha para ocupar o seu lugar na firma; ou quer que você morra – real ou simbolicamente. Um espectador normal, que não seja tomado pela ganância e pela inveja em doses cavalares possivelmente achará essas cenas absurdas.

O diretor do grupo Atores de Laura, Daniel Herz diz que “as questões do teatro do absurdo estão camufladas no cotidiano”, que a peça que foi apresentada ontem e será reapresentada hoje no Teatro Luiz Mendonça, do Parque Dona Lindu, mostra que “quanto mais conhecemos alguém, mais se abre um abismo de desconhecimento”. É, muitas vezes…Um paradoxo a se enfrentar.

O espetáculo Absurdo traz um texto de criação coletiva da companhia carioca. A peça tem como referência o Teatro do Absurdo e as obras de Eugène Ionesco e outros mestres desse movimento. A criação coletiva do texto traz rasgos de humor e inteligência que conseguem a aderência da plateia, mas isso não ocorre o tempo todo. Há uma frouxidão na dramaturgia que contamina todo o jogo dramático.

Uma mesa de jantar e quatro cadeiras compartilhadas por dois casais. Eles habitam o mesmo espaço cênico. Mas cada casal só dialoga entre si, cada marido com sua própria mulher. Os dois casais vivem o mesmo dilema da sobrevivência da relação amorosa após 20 anos.

Direção é de Daniel Herz e dramaturgia é coletiva

Essas pessoas da sala de jantar também dividem o mesmo e único filho. E também podem trocar de parceiros. A revelação desse filho é uma das cenas que vale o espetáculo. A outra é quando o homem caído no chão é carregado até a mesa. Algumas cenas de repetição também são muito interessantes.

O elenco dos atores de Laura é ótimo: Ana Paula Secco, Anderson Mello, Luiz André Alvim, Márcio Fonseca e Verônica Reis. Mas a montagem recai num abismo monótono e até chatoso, na gangorra de afirmações e negações sem avanços estilísticos para tratar do desatino e de um círculo vicioso de falta de soluções. Eles partem de situações aparentemente bem comuns para chegar à incomunicabilidade ou às circunstâncias ilógicas.

Montagem faz parte das comemorações dos 20 anos do grupo

O espetáculo ganha quando tem mais agilidade e perde quando emperra no contraste. O jogo de contrários não tem força suficiente para que a montagem flua com a proposta do grupo de ir na corrente do humor de Ionesco e afastado do peso de Beckett. As escolhas do dramaturgo irlandês e sua consciência do vazio de sentido não passam perto da montagem, mas a leveza e o humor irresistível de Ionesco também não ganham fôlego nas opcões do grupo pelo ilógico e irracional.

Na encenação Absurdo a palavra mente. Frases são ditas e a outra pessoa escuta outra coisa. O simulacro do casamento nao alcança a distorção cênica gerada pela intimidade. Falta uma maior sustentação. Os diálogos ganham um aspecto mais superficial e falta uma amarração das cenas como um todo.

Apesar do humor, diálogos geralmente não conseguem fugir da superficialidade

Postado com as tags: , , , , , , , , , ,

Central de Vendas do FRTN ainda não começou a funcionar

Central de vendas vai funcionar no Centro Apolo Hermilo

Uma notinha de utilidade pública para quem já estava se preparando para comprar os ingressos do Festival Recife do Teatro Nacional. A Central de Vendas, no Centro Apolo-Hermilo, ainda não estava funcionando. A organização do festival havia divulgado que a central começaria a vender os ingressos às 10h.

No facebook, algumas pessoas já repercutiram: “Como acontece todos os anos, o Festival Recife de Teatro Nacional começa desorganizado. A venda de ingressos teria início hoje às 10h. Fui comprar e não havia ingressos para vender, nem ninguém da produção para explicar ou dizer uma nova data ou horário. Eu realmente amo muito teatro para todos os anos passar por essa falta de respeito e desorganização”, escreveu Juliana Holanda. Neste mesmo post outra pessoa comentou: “Também fui lá, Ju. O rapaz disse que ficou sabendo que começaria a vender hoje à tarde. A hora? Ele disse: “depois do almoço já é de tarde. Só não sei a hora””.

“O Teatro Apolo estava com as portas fechadas. Pela janela falei com um funcionário que me disse que nem sabia da venda desses ingressos. Ele chamou outra pessoa que me disse pra voltar às 14h, 15h. Mas é um absurdo porque nem as pessoas sabiam dar informação direito e a gente fica à mercê. Dando viagem perdida!”, contou Juliane Planzo, que esteve no Teatro Apolo durante o seu horário de almoço.

Ligamos para o Teatro Apolo e um estagiário muito atencioso explicou que os ingressos ainda não chegaram da gráfica. Disse que não sabia dar uma previsão correta. “Devem chegar hoje, mas não sei a hora”. De qualquer forma, perguntou o telefone e disse que assim que os ingressos chegassem ele avisaria.

Os ingressos do festival custam R$ 10 e R$ 5 e podem ser comprados antecipadamente nesta Central de vendas, que funcionaria das 10h às 16h, sem horário de intervalo de almoço.

Postado com as tags: , , ,