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O tempo ainda é de faxina no Centro Apolo-Hermilo

No restante da entrevista que concedeu ao blog, Carlos Carvalho fala sobre o Centro Apolo-Hermilo e sobre gestão cultural. Foto: Pollyanna Diniz

No restante da entrevista que concedeu ao blog, Carlos Carvalho fala sobre o Centro Apolo-Hermilo e sobre gestão cultural. Foto: Pollyanna Diniz

Mesmo que a gestão Geraldo Júlio tenha assumido a Prefeitura do Recife há quase dois anos, a impressão que se tem é que, na cultura, a fase ainda é de arrumação da casa. Os passos são lentos e miúdos, quando não há retrocesso, haja vista o cancelamento da edição 2014 do Festival Recife do Teatro Nacional (FRTN), confirmada pelo diretor do Centro de Formação e Pesquisa das Artes Cênicas Apolo-Hermilo, Carlos Carvalho, em entrevista ao Satisfeita, Yolanda?, na semana passada.

No Apolo-Hermilo, aliás, a faxina assume o sentido literal do termo. Durante a conversa concedida a Ivana Moura e a Pollyanna Diniz (e já publicada parcialmente, com as questões que diziam respeito ao FRTN), Carlos Carvalho fala do barulho da arquibancada, do mofo dos camarins, do entulho no porão do teatro, e ainda da reestruturação técnica e de pessoal. O Teatro Hermilo Borba Filho deve, inclusive, fechar para reforma em 2015. Ainda não há, no entanto, um projeto pedagógico para o Centro. A única ação de “formação” que saiu do papel foi a abertura do espaço para que artistas da cidade (três produções no total) pudessem ensaiar nas dependências do Apolo-Hermilo.

Na entrevista, Carlos Carvalho trata das suas ações à frente do Centro de Formação, revela que não há orçamento definido para ações específicas, confessa que é bastante solicitado pela secretária de Cultura, Leda Alves, para assumir outras atividades na gestão, e cobra participação na discussão da política cultural da cidade por parte das entidades de artes cênicas e da sociedade civil.

Nesta segunda-feira (3), aliás, artistas ligados ao teatro vão se reunir no Espaço Cênicas Cia de Repertório (Rua Marquês de Olinda, 199, Bairro do Recife), para decidir como vão proceder diante do cancelamento do Festival Recife do Teatro Nacional.

ENTREVISTA // CARLOS CARVALHO

O que você planejava quando entrou aqui como gestor e o que você tem conseguido fazer?
Vir para cá não é só vir para o trabalho. É o encontro de um sonho. Vi o Centro Apolo-Hermilo nascer, desde quando aqui era um armazém. Quando Leda me chamou, eu estava na Fundarpe. E ela me disse: “Carlos, estou te chamando, quero você na minha equipe, para ir para o Centro Apolo-Hermilo, para fazer do Centro Apolo-Hermilo, de fato, um centro de formação e pesquisa”. Na hora, eu nem pestanejei. Na primeira semana, reuni todos os servidores da casa e a palavra que chamei atenção foi companheirismo, compartilhar. Não vou dizer reengenharia, mas vou dizer que a gente está tentando fazer um novo modelo de gestão, compartilhado, propositivo, fraterno. Nesse encontro com os servidores, fizemos um pacto de que não falaríamos nem Teatro Apolo, nem Teatro Hermilo, falaríamos Centro Apolo-Hermilo. Quase sempre quando você se reporta ao Teatro Apolo ou ao Hermilo, você se reporta à difusão e não à pesquisa. O Teatro sempre foi pensado e é pensado pela grande maioria dos que fazem as artes cênicas no Recife, como um lugar de difusão. E não está errado. Porque tudo que foi feito aqui pensando a formação e a pesquisa, foi pontual, mesmo que até anualizado, mas não era um programa de desenvolvimento pedagógico. A segunda coisa foi atacar o que tinha de problemas emergenciais. Vamos para a parte física. Exemplo: a arquibancada daqui, do Hermilo, todo mundo que já frequentou esse teatro sabe, quando a gente subia, estralava. Com R$ 600, conseguimos consertar. O mofo nos camarins do Teatro Hermilo. Era uma coisa recorrente, você chegava para trabalhar nos camarins e estava com cheiro de mofo. E não era por falta de zelo. Era porque estava fechado, se não estava em uso, ficava fechado. O que nós fizemos? Fizemos uma grade nas janelas, abrimos a porta. Coisas desse tipo: recuperação dos refletores, limpeza do urdimento, limpeza do porão. Nós tiramos dois caminhões de material imprestável que estava no porão do teatro. Pintamos esses dois teatros duas vezes já em um ano e meio. Não fizemos a fachada do Apolo porque precisa do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), mas o Hermilo, acabamos de pintar a fachada. Desde a inauguração do Hermilo, uma coisa simples, o letreiro do teatro não tinha luz, agora tem. Então fomos trabalhando nisso: pinturas, recuperação de equipamentos, de eletricidade. Tinham coisas que estavam a ponto de provocar um acidente. Enfim…e tivemos a sorte de ir para o monitoramento do prefeito; ele utiliza do mesmo monitoramento que o ex-governador Eduardo Campos. Leda me chamou uma vez. Falei um pouco ao prefeito da importância do Centro para Recife, para Pernambuco e para o Nordeste. Falei das dificuldades físicas. Na mesma hora, ele autorizou a Urb (Empresa de Urbanização do Recife) a começar um trabalho de visitas aqui para levantar quais eram os problemas. Foram feitas várias visitas de arquitetos e engenheiros aos dois teatros, ao Centro como um todo, e se deu preferência a começar os trabalhos pelo Teatro Hermilo. Foi feito um levantamento, que está em torno de onze grandes intervenções, desde telhado até infiltração. Fizeram uma licitação, já tem uma empresa que ganhou agora a licitação há pouco tempo, um mês, dois, para fazer os projetos. Depois tem a licitação para a execução dos projetos. De fato, o que se projeta é: em 2015, acho que lá para meados de 2015, junho, julho, a gente deve estar fechando o Hermilo para reforma. O que está acordado é tempo para fechar e tempo para abrir. Eu não sei precisar neste momento, porque os projetos de intervenção não foram feitos ainda, por quanto tempo vão se dar essas obras, mas o que está acordado, entre nós, a Secretaria, Leda e a Urb, é que a gente tenha tempo para fechar e para abrir. No processo de execução da obra do Hermilo, começa o processo de criação dos projetos de intervenção para o Teatro Apolo.

Durante esse período que o Hermilo fica fechado, vocês pensaram em alguma alternativa, algum espaço que pudesse ser um espaço alternativo?
Não. Isso não entrou no planejamento. O que estamos pensando é: o mais rápido possível termos uma resposta mais precisa de quando as obras começam; porque preciso dialogar com todos os produtores que ainda esperam que seus produtos, que seus resultados criativos, venham para cá. Esse é um problema. O segundo semestre aqui é um semestre impossível ainda – e não será no futuro, espero que a gente tenha esse diálogo bem profícuo com os fazedores daqui da cidade – porque de junho até dezembro são oito, nove festivais que acontecem. E aí você tem o tempo da montagem, da desmontagem, do espetáculo, mesmo com as outras salas que já abri, como no mezanino, mas quando acontecem esses festivais, até iniciativas nossas de formação, ficamos sem espaço. Portanto, neste momento, o Centro Apolo-Hermilo só pode funcionar com projetos próprios de formação e pesquisa no primeiro semestre; no segundo semestre não tem. Esse é um diálogo que não consegui fazer, digo eu, puxando pra mim enquanto gerente aqui do Centro. Mas é uma discussão urgente. Para pensar como encontrar alternativas do Centro ser ocupado na difusão, mas tendo como prioridade máxima a formação e a pesquisa.

Quanto vai custar essa reforma do Centro?
Não sei. Não sei quanto foi destinado. Sei que o processo está sendo puxando pela Urb. Não tenho conhecimento do valor dos recursos que estão destinados. Mas, como houve autorização do prefeito, e a Urb atendeu e já fez licitação, e já tem empresa que ganhou para fazer os projetos… Agora não sei precisar, até porque os projetos não estão prontos.

Imagem de arquivo do Teatro Apolo. Foto: Pollyanna Diniz

Imagem de arquivo do Teatro Apolo. Foto: Pollyanna Diniz

Você falou de reestruturação física da casa, mas você teve tempo para pensar os projetos de formação? Eles estão acontecendo? Quais são?
A gente está num processo, digamos assim, de planejar por etapas. Sendo bem lógico: o que a gente pode avançar antes dos diálogos estarem acordados? Já tenho pedido aqui para 2015, de vários festivais. Ou seja: que bom, que os caras estão planejando com um ano de antecedência. Isso é ótimo para a produção da cidade. Mas é preciso que eu tenha também responsabilidade para dizer a ele, se não em 2015, em 2016, se é que eu estarei aqui, “olha, em 2016 a gente só pode disponibilizar tantos meses, porque a gente já acordou, todos nós, na mesa, nós teremos um curso intensivo disso, daquilo’. Tem uma parceria que está conversada, nada no papel, com Cascais, com Sorbonne, tem umas coisas que já comecei a conversar. Mas tudo isso precisa de um ano, um ano e meio, dois anos de antecedência. Não posso celebrar nenhuma parceria com entidades de fora sem pelo menos dois anos de antecedência. A gente está pensando. Estamos criando um projeto de desenvolvimento da formação e da pesquisa das artes cênicas. Esse programa vai atingir as quatro expressões das artes cênicas, teatro, dança, circo e ópera. Isso tudo ainda está muito embrionário, mas estamos trabalhando. A gente teve uma experiência muito exitosa que estamos tentando fazer em 2015 novamente. Estamos na fase de planejamento para 2015. Até novembro, espero que a gente tenha o orçamento daqui votado, acertado. Queremos continuar o projeto espaço de criação. Não tem nada de novo, de fabuloso, mas ele conseguiu atingir seus objetivos de forma muito satisfatória: que é ter espaço para as pessoas ensaiarem ou pesquisarem. Fizemos um edital, espaço de criação, para montagens ou pesquisa, com ou sem resultados. O que nos interessava era o processo; então todos vão deixar relatórios dos três meses que ficaram aqui, quatro horas por dia, de segunda a quinta. Paula de Renor ensaiou Rei Lear; Anamaria Sobral repensou Palavras da sombra; e Raimundo Branco, com a Compassos Cia de Dança, já vai com seis meses de residência, ele está montando e estreia aqui na casa em novembro. Outra luta, que nós capitaneamos, mas conquistada por todos os outros gerentes, de todos os outros teatros da cidade, foi a vinda de técnicos terceirizados. Agora a gente tem uma equipe pela manhã, uma equipe à tarde e uma equipe à noite até 0h. Isso quer dizer que qualquer pessoa pode montar e desmontar o que quiser aqui sem pagar a mais.

Rei Lear, que estreou no Rio de Janeiro e fará temporada no Apolo este mês, ganhou edital de residência artística para ensaiar no Centro Apolo-Hermilo. Foto: Guga Melgar

Rei Lear, que estreou no Rio de Janeiro e fará temporada no Apolo este mês, ganhou edital de residência artística para ensaiar no Centro Apolo-Hermilo. Foto: Guga Melgar

Você é gerente do Centro Apolo-Hermilo, mas ao mesmo tempo, assume outras funções na gestão, até pela sua relação de confiança com Leda Alves. Como é isso?
Tenho assessorado Leda em muitas coisas e fico muito honrado pela confiança que ela coloca nos meus ombros. Não só eu tenho assessorado, mas outras pessoas também, noutras atividades. Tenho assessorado ela em várias questões: nos ciclos, carnaval, São João e Natal. Tenho uma ligação histórica com a cultura popular e, sem falsa modéstia, conheço razoavelmente bem o estado de Pernambuco, inclusive por conta do meu tempo na Fundarpe. Conheço muito do carnaval, do São João e do Natal, no estado e no Recife também. E outras demandas da secretaria que ela vai me chamando, né?

Você não fica assoberbado de coisas?
Fico. Mas era antes mais. O que acontecia? Planejamento. Sou virginiano, minha ascendência é virgem. Então, aparentemente, sou desorganizado, mas não sou. Agora sei que as minhas reuniões com Leda, neste momento, são à tarde. Então passo tudo para o período da manhã. Não é problema não. E agora estou mais tranquilo porque tem Ivo (Barreto) aqui e Eron (Villar) na técnica. São pessoas que conheço há muito tempo, que são parceiros meus de muito tempo, além da casa, então saio daqui com muita tranquilidade, além da equipe mesmo do teatro, que faz isso há muito tempo e sabe fazer.

A questão técnica dos teatros é antiga. Qual a situação atual? Os produtores ainda precisam alugar equipamentos para fazer temporada aqui?
A gente está recuperando, refletores que tinham problemas de toda sorte. Mas ainda há necessidade. Então o que está acontecendo agora? Está em curso um processo de licitação para compra de lâmpadas. O problema é que fornecedor de grande porte é difícil, para competir numa licitação dessas. Não é tão fácil, aqui no Recife. A maioria das empresas que fornece lâmpadas é de São Paulo. A mesma coisa é equipamento, mesa e tal. Mas a ideia é que, em dezembro, janeiro, nós estejamos com todas as lâmpadas, do que está em operação, colocadas; e mais, pra cada refletor, uma lâmpada reserva. Isso seria o ideal.

O Janeiro de Grandes Espetáculos vai precisar alugar equipamentos para acontecer aqui?
Acho que sim. Mas não tanto quanto o ano passado. E os gastos do Janeiro provavelmente serão menores com horas extras, pagamentos de técnicos, porque agora a gente tem equipe. Isso tudo vai baratear o custo operacional de quem está ocupando o teatro.

Qual o orçamento do Centro Apolo-Hermilo?
A gente tem pequenos recursos mensais que variam muito. Esses pequenos recursos, R$ 2 mil, R$ 3 mil, R$ 5 mil, R$ 6 mil, isso depende muito. Quando vem, a gente está aplicando nessas pequenas intervenções.

Mas quanto custa a manutenção do Centro?
A manutenção completa não tenho como te dizer. Porque, por exemplo, pagamento de eletricidade, pagamento de água, isso não vem pra cá, já vai para outros setores. Agora que é muito, é. Porque são dois ar-condicionados antigos, que precisam ser comprados novos, o conserto deles é caro, a manutenção, quebram com muita facilidade; são dois equipamentos desses, com 40, 50 refletores funcionando.

Mas vocês não recebem uma verba para trabalhar os projetos do Centro?
Ainda não. Está no orçamento de 2015. Nós teremos um recurso básico para cada equipamento.

Já sabe qual é o valor?
Não sei ainda.

Está circulando por aí que dona Leda vai sair da secretaria. Você sabe de alguma coisa?
Não sei. Espero que não. Ela tem muito a contribuir ainda. E, ao mesmo tempo, não posso negar, enquanto amigo, e gosto muito de Leda, que suponho que é muito puxado para ela. Apesar que Leda é mais dinâmica do que eu. Ela chega pela manhã e vai direto, almoça trabalhando. Agora…é uma pessoa que tem 80 e poucos anos, ninguém pode dizer que não. Mas acho que ela é de um dinamismo muito grande. Não gostaria que ela saísse. E não é porque sou cargo de confiança dela e ela saindo eu poderia perder esse cargo. Eu gosto muito de gestão, tenho aprendido a ser um gestor. Mas, na verdade, sou feliz é fazendo teatro. Posso dizer a vocês que, todo dia que eu chego aqui, agradeço, porque é muito bom quando você faz as coisas e você vê elas acontecendo. É um refletor, abaixar essas varas e tudo limpinho, tudo pintado, cortina. É muito bom, você ver as coisas funcionando, as pessoas agradecendo. Mas, de fato, o que eu gosto de fazer mesmo é teatro. E eu estou preparando.

Carlos Carvalho acredita que Leda Alves ainda tem muito a contribuir à frente da Secretaria de Cultura do Recife. Foto: Ivana Moura

Carlos Carvalho acredita que Leda Alves ainda tem muito a contribuir à frente da Secretaria de Cultura do Recife. Foto: Ivana Moura

Como você avalia essa participação dos artistas, tirando por você, Leda, Ariano, os artistas que ocupam cargos nas várias gestões? As reclamações são sempre muito grandes, porque há muito por se fazer e o processo é muito lento. Fico até contagiada com o seu entusiasmo. Só que isso não é algo que se projete, nem para o grande público e nem para a classe, porque esse trabalho parece um trabalho miudinho, que é feito dentro de uma estrutura. Mas, ao mesmo tempo, precisaria de outro tipo de trabalho, outras ações, que dão sustentação…
Você falou do miudinho. Acho que precisamos ser parceiros. Mas parceiros, não é como diz: os mineiros só são solidários no câncer. Acho que política pública não é só feita por quem está fazendo a gestão. Política pública é uma parceria. Se você não discute política, mas não é a política da roupa suja, não é política do meu umbigo, não é falar do meu projeto. E a gente vê muito isso. Estou dizendo porque também já fiz isso. Não estou apontando o dedo para ninguém, aponto para mim. Penso que essa é uma discussão que precisa ser feita com estofo, com vontade. Não fazendo passeata. Passeata é bom. Mas e depois da passeata? Por que a gente não senta e discute? Estou muito tranquilo para dizer assim: ‘gente, vamos conversar?’. Por que a gente não senta para conversar? Cadê as entidades? Onde é que está a democracia dentro das próprias entidades? Não tem. Ou, se tem, é tão falha, quanto o que se acusa dos outros que não têm. Penso que está chegando o momento de sentar, como gente grande, discutir coisas como gente grande. Pernambuco tem coisas muito boas, que foram referência. A gente tem uma Lei Pública da Cultura, um antiprojeto de Lei, a gente tem um plano de gestão, da primeira gestão de Eduardo (Campos), que está pronto, que precisa ser discutido. Tive oportunidade inclusive de conversar com, eu só não, muita gente, falei coisas que acredito para Paulo Câmara. Acho que é chegado o momento. É preciso que a gente corte a carne. É preciso que a gente vá para a Feteape (Federação de Teatro de Pernambuco) e se corte a carne da Feteape. É preciso que se corte a carne da Apacepe (Associação de Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco). É preciso que se corte a carne do Sated (Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão no Estado de Pernambuco). É preciso que a gente discuta isso dentro das nossas entidades. E fórum de cidadãos. Por que não? O Centro está aqui. Estou me preparando. É como: eu estou na minha casa, vou convidar você para almoçar na minha casa se eu não tenho comida? Não, não vou. O que é que eu estou fazendo? Estou preparando esse miudinho aqui, deixando a casa confortável para as pessoas, para que elas percebam que estamos trabalhando, fazendo, que a gente acredita, e que está disposto a discutir. Discutir coisas que sejam tanto de funcionamento da casa quanto formação, formação do cidadão artista.

Já que estamos falando em discussão, sabemos que o Centro Apolo-Hermilo é ligado à Secretaria de Cultura, e a Gerência de Artes Cênicas (hoje chamada Divisão de Artes Cênicas) é vinculada à Fundação de Cultura Cidade do Recife. Mas a Gerência promoveu uma discussão sobre artes cênicas. Embora essas decisões tenham sido tomadas para a Gerência, mas como tudo é Prefeitura do Recife, uma gestão só, gostaria de saber o reflexo dessas decisões aqui. E porque as pessoas não viram você lá? Todas as entidades estavam representadas…
Não fui. Estava de cama. Tive diverticulite, quase fui operado. Fui hospitalizado de urgência e tive que ficar 15 dias em casa tomando antibiótico, com regime especial, mas acompanhei. Nós estamos agora em pleno seminário para discutir uma estratégia de gestão para a Secretaria, conjuntamente com a Fundação, sem apartheids. Fundação e Secretaria são duas coisas que se completam. A superação dos contraditórios vai se dar agora. A gente está criando um ambiente para se discutir tanto a Secretaria, quanto a Fundação. Isso é muito bom para o governo Geraldo Júlio, que abre a oportunidade para essa discussão no seu seio, internamente; é bom para a sociedade civil, porque provavelmente isso vai influir na relação com a sociedade civil. Falta também essa sociedade civil fazer coisas, discutir coisas.

Você acredita que a cultura é prioridade para a gestão Geraldo Júlio?
Acho. Acho que a cultura é prioridade. Mas quando a gente fala prioridades, há muitas prioridades. Não sei te dizer se há uma escala. Acho que a gestão está trabalhando.

Não tenho dados, mas soube que houve um corte grande de recursos na Secretaria de Cultura…
De todas as secretarias. Não foi só Cultura. Todas as secretarias receberam cortes, por questões orçamentárias mesmo. Porque a peça orçamentária é uma peça de ficção. Se você diz assim: ‘vou gastar em 2015, R$ 1 milhão para tirar isso aqui do lugar’ e você não arrecada para isso…você está projetando para o futuro algo que você não tem. Então isso ocorre.

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Sem orçamento, Secretaria de Cultura cancela edição 2014 do Festival Nacional

Carlos Carvalho diz que assina embaixo a não realização do FRTN, porque não havia recursos suficientes para fazer um bom festival. Foto: Pollyanna Diniz

Carlos Carvalho diz que assina embaixo a não realização do FRTN, porque não havia recursos suficientes para fazer um bom festival. Foto: Pollyanna Diniz

Agora é oficial. O burburinho que tomava conta das rodas de conversa dos artistas se concretizou: a 17ª edição do Festival Recife do Teatro Nacional (FRTN) não irá acontecer em 2014. Sem que a sociedade civil e a classe artística fossem ouvidas, a Prefeitura do Recife, através da Secretaria de Cultura e da Fundação de Cultura Cidade do Recife, decidiu que o FRTN e o Festival Internacional de Dança do Recife serão intercalados. O Festival de Dança terminou este mês e agora só deve acontecer em 2016.

O Festival Nacional, como é chamado pela classe artística, sempre foi em seus bastidores um palco de lutas e afirmações, de buscas de políticas culturais mais amplas e quase nunca de consensos. A exceção talvez esteja no fato de que todos sempre concordaram com a importância da sua realização. Em 16 anos, a mostra ganhou alguns formatos, na busca pela excelência artística e também pelo cumprimento do seu papel social não só para os artistas e amantes do teatro, mas para o público em geral.

No ano passado, o Festival sofreu algumas alterações, na esteira da mudança política decorrente da gestão do PSB, que assumiu a Prefeitura do Recife. Foi uma edição bastante complicada – seja pela falta de planejamento, de orçamento, de qualidade artística. A discussão sobre o festival foi acalorada e pensou-se que iria render frutos, para uma próxima edição. Não foi o que aconteceu na prática. Sem verba, a edição 2014 do festival foi limada do calendário.

Em quase duas horas de conversa, o gerente geral do Centro de Formação e Pesquisa Apolo-Hermilo, Carlos Carvalho, responsável pela realização do festival, tentou explicar a decisão ao blog e reconheceu que a classe artística não foi ouvida, embora afirme que o momento é crucial para discussões.

Conversamos também sobre as ações que estão sendo executadas e planejadas para o Centro Apolo-Hermilo. Como a notícia sobre o cancelamento do festival já foi divulgada, resolvemos publicar logo a última parte da entrevista com Carlos, justamente sobre o FRTN. Logo mais, divulgaremos o restante da conversa.

Gestor garante que quer conversar com as entidades ainda este ano

Gestor garante que quer conversar com as entidades ainda este ano

ENTREVISTA // CARLOS CARVALHO

Isso não foi anunciado oficialmente (não havia sido até que a assessoria de imprensa da Prefeitura do Recife divulgasse uma nota no mesmo momento em que realizávamos a entrevista), mas o que se consta é que este ano não teremos Festival Recife do Teatro Nacional. Qual o motivo? Quem tomou essa decisão? Por quê?
De fato, não vai acontecer. Não há tempo para fazer o festival em 2014. O que levou a essa decisão? Primeiro: a diminuição dos recursos para o evento. Dois: um festival com a história que tem, seriam 17 edições este ano, não tem regularidade de orçamento. Penso também que, sendo coerente com o meu discurso de que gestão é feita não só pelos gestores, mas em parceria com a sociedade, que esse é o momento para sentarmos todos à mesa para discutir o que é esse festival, para quem, para que serve, a que ele atende? Porque, afinal de contas, estamos tratando de recurso público. Não estou pensando em números, números de quantas pessoas assistiram ou não, porque esse é um componente da discussão, mas não é fundamental. Para que serve, pra quem serve, para a cidade, para alguns? Esse debate precisa ser alargado. Essa foi a minha defesa. A decisão não foi minha, porque o festival não pertence ao Centro de Formação e Pesquisa, ele está aqui, por questões que o trouxeram para cá, mas ele pertence à gestão. Claro que todas as avaliações do festival (feitas ao final do festival), são escutas, onde se projetam coisas para o próximo ano; mas há muitas recorrências. Ao olhar as avaliações, de todos os anos, percebemos que, ora se fala mal do curador, ora se fala bem do curador, ora se fala mal do grau de excelência dos espetáculos. Creio que esse momento de não ter o festival, não ter para que no próximo ano ele seja bienal, acho que isso é uma coisa salutar. O fazer tem que ser precedido do planejar. Tem que ser discutido, planejado, consenso, vários olhares. Como agregar valor a esse festival? Tem tantas coisas a serem pensadas, sabe? Penso que a gente, ainda este ano, convide os entes todos, as entidades, e os interessados, os grupos, os artistas, enfim, pra discutir. Fazer talvez um grupo de trabalho para pensar o festival.

Porque isso não aconteceu antes? Tivemos um ano, desde o festival passado, já realizado com muitos problemas e críticas. A classe tem interesse nessa discussão. A avaliação, realizada aqui no Teatro Hermilo, estava lotada. É importante para a classe. De que forma ele vai ser reestruturado, debatemos, mas acho que a importância, não se discute. Tivemos pelo menos um ano para fazer isso. Queria saber o porquê disso não ter sido feito e, claramente, de quem foi a decisão de não ter festival e de ele ser bienal? Foi de Leda Alves?
É da Secretaria, em conjunto com a Fundação. Não teve um herói.

Mas, por exemplo, Romildo Moreira (gerente de artes cênicas da Prefeitura do Recife) foi consultado neste cancelamento?
Não sei lhe dizer. Sinceramente, não sei dizer se ele foi consultado.

Porque como ele é o gerente de artes cênicas, enfim…
Eu sei dizer que isso foi tema e eu participei de discussões, porque a gente estava esperando orçamentos, esperando orçamentos.

Essa decisão foi tomada quando?
Pouco tempo atrás.

Já se sabe que o orçamento para esse festival é bastante abstrato, assim como para qualquer outro evento de cultura da Prefeitura do Recife. Mas o Festival de Dança foi realizado agora há pouco. Também sabemos, historicamente, que é necessário que tenha alguém que vá atrás da captação de recursos, para que esse festival tenha, digamos, certa autonomia de verba.
A Secretaria tem um captador, que é Wellington (Lima). Onde a gente pode, nos editais, colocar o festival, colocamos, tanto Romildo por sua parte, como eu. Tive pouquíssimo contato com Romildo. Confesso que não era para ser assim. Mas as coisas aqui e lá e ele está distante, ele está no Pátio de São Pedro…

Por que as discussões não aconteceram?
As discussões aconteceram, aconteceram algumas discussões a respeito. Porque a luta continua. Ou seja: você espera que o orçamento seja consolidado em tal época, em tal tempo, aí não é consolidado, mas se abre uma perspectiva, então pra frente, pra frente. Na parte de captação, a gente colocou em vários editais o festival. Alguns não passaram, outros estamos esperando uma resposta.

Mas não dá mais tempo..
Sim, pra 2015. Estamos aguardando ainda alguns e estamos colocando noutros, além da Rouanet. Outro problema que já foi grave ano passado é que o festival estava com algumas pendências no Ministério da Cultura. A Secretaria, enquanto Festival de Dança, e de Teatro, eu soube. Isso teve que ser resolvido, de documentação, coisas desse tipo.

Mas isso foi importante na decisão de cancelar o festival? A Prefeitura não tem verba para fazer o festival? É isso?
A maior coisa foi falta de recursos.

Próximo ano teremos verba para fazer o festival?
Acho que sim. Estamos lutando para isso. Não posso dizer se teremos, porque nenhuma das pessoas pode dizer se próximo ano teremos, nem o prefeito; a não ser que ele diga assim: “eu vou tirar de tal lugar e colocar aqui”. A gente tem um orçamento que vai ser votado. Esse orçamento vai para a Câmara, tem um processo.

Porque Carnaval nós teremos…
Carnaval terá com a Prefeitura ou sem a Prefeitura.

Eu venho acompanhando esse festival desde o início. Em alguns momentos, o secretário de Cultura, ele chegou ao prefeito para garantir a realização do festival. E disse: “você tem que bancar esse festival, porque esse festival é muito importante para a cidade”. Eu acho que, talvez, mas isso é uma suposição, de que Leda não tenha peitado, cobrado isso do prefeito, como prioridade da gestão.
Eu não diria assim. Eu aceito a sua suposição, mas acho que isso é de fato uma suposição. A secretária despacha com o prefeito regularmente. Penso que Leda está puxando todas as questões que são pertinentes à secretaria e à sua gestão junto ao prefeito. Não tenho a menor dúvida disso. Acho que a questão foi exatamente orçamentária. Eu não sei dizer quanto foi que o Festival Internacional de Dança captou ou quanto foi o orçamento definitivo dele, uma vez que é da Fundação, e eu não tenho acesso aos recursos da Fundação. E louvo o festival ter acontecido, como eu louvo ter feito o FRTN ano passado. Foi uma dificuldade enorme para fazer o festival, com aquele dinheiro.

Que foi quanto?
Foi R$ 700 mil. Mas R$ 700 mil para fazer um festival daquele? É uma loucura.

Quanto disso foi recurso próprio?
Teve um patrocínio da Caixa Cultural, acho que era R$ 50 mil. Pouquíssimo foi captado. Acho que esse festival precisa, com todo respeito a tudo que já foi feito, passar por um alargamento do olhar, não só dos que fazem teatro, mas aumentar o olhar sobre o festival, para que ele aumente em importância. Defendo, colaboro, assino em baixo, a não realização, pela razão dos recursos não serem os necessários para se fazer um bom festival. E acho que fazer capenga demais, não é bom, nem para quem está fazendo, nem para o público. Penso que é o momento não só para discutir o festival, mas para discutir política cultural.

Qual é o reflexo para a cidade e para a classe a não realização do festival?
Acho que serão muitas críticas. Tenho certeza que serão muitas críticas. Mas a gente está aqui também para receber críticas.

Mas, além das críticas, quais os reflexos para a nossa formação? Estamos dentro de um Centro de Formação, para a ampliação do olhar…
Eu acho que o Festival ele cumpre um papel. Mas, como ele, tem outros. A gente tem agora a Cena Cumplicidades, o Festival de Circo do Brasil, o Palhaçaria, o Janeiro de Grandes Espetáculos, que é internacional. Essa formação do olhar, a cidade não tem essas carências todas, da formação do olhar, da acuidade dos sentidos. Não vejo como a falta do festival vai influir de forma tamanha que vai ser um desastre para os apreciadores desta arte. Não vejo assim. Acho que não fazer vai gerar alguns desconfortos, mas esse desconforto, até aproveito aqui para convocar: vamos conversar?

O que eu soube era que o festival teoricamente já estava pensado.
Tinha muita coisa que a gente avaliou, a questão da curadoria, a questão do edital, a questão da ocupação dos espaços. Fizemos algumas leituras de como alargar o festival para a cidade, em espaços que habitualmente o festival não foi. Tem uma série de coisas que a gente discutiu e formulou para, exatamente, na deflagração, “vai ter, o orçamento é esse”, a gente trabalhar.

Por que o Festival de Dança aconteceu? De que forma ele conseguiu recursos? Você falou que o Festival de Teatro precisa reencontrar um conceito. E o Festival de Dança?
Não posso te responder isso, infelizmente. Acho que essa é uma pergunta que Romildo (Moreira) deve te responder. Não quero nem tocar nesse assunto. Quando eu digo que o Festival de Teatro precisa ser repensado, é porque acabou o tempo dos sólidos. A gente pode ser mais fluido. Não é porque esse modelo está consolidado ou foi consolidado, que ele não precisa ser revisitado. Não estou dizendo que ele é ruim. Estou dizendo que ele precisa ser revisitado, outros olhares, outras maneiras de ver.

Foi batido o martelo que o festival vai ser bienal? Ou isso ainda vai ser definido?
Acho que está consolidado que será bienal, alternadamente, um ano um, um ano outro.

A Secretaria já tomou essa decisão, isso já está consolidado?
É.

Próximo ano a gente não vai ter Festival de Dança?
Não.

A sociedade civil foi consultada para essa decisão, a classe artística?
Acho que não.

Quando a gente diz que a gestão é compartilhada, que tinha que ter o diálogo…
Eu estou dizendo que é preciso ter. Estou dizendo que é preciso a gente avançar nisso. Acho que é bom, é salutar.

A não realização do festival de teatro, em parte, seria uma responsabilidade da sociedade civil, das entidades, que não estão acompanhando…?
Não estou dizendo que a culpa é de ninguém. Estou dizendo que aconteceu.

Se as pessoas estivessem mais atentas…
Pode ser. Ou pelo menos a explicação de que não tem. Você só faz feira se tiver dinheiro. Então, se você não tem o dinheiro… Agora, no ano passado, já foi muito difícil fazer. A gente emprestou a nossa competência pessoal nos diálogos para diminuir cachê, diminuir custo de transporte. Foi muito difícil fazer.

Você como gestor, e como artista, se sente frustrado, pela não realização do festival?
Não. Sinto que foi necessário. É uma decisão madura, pelo menos minha. Penso que essa é uma atitude honrada. Acho que é uma atitude de quem tem responsabilidade, entendeu? E acho que, aproveitando esse momento, que provavelmente será de insatisfação de muitos, vamos pensar juntos e aí avançar para o próximo ano. Penso que esse festival pode ser muito melhor do que foi. Penso que o festival pode ser mais propositivo em várias questões.

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Os rumos de um festival

Coletiva de imprensa do Festival Recife do Teatro Nacional. Foto: Luciano Ferreira/divulgação

Coletiva de imprensa do Festival Recife do Teatro Nacional. Foto: Luciano Ferreira/divulgação

“Começou nesta sexta-feira (22) mais uma edição do Festival Recife do Teatro Nacional”. Talvez essa não seja a frase mais apropriada para iniciar esse texto. Talvez não seja só “mais uma edição”. Depois de 15 anos, é a primeira vez em que o festival sofreu realmente uma alteração no seu perfil. Se quando foi criado e ao longo de todos esses anos, a mostra serviu para trazer ao Recife espetáculos de grupos que estivessem se destacando no cenário nacional, fosse pela excelência artística, pelas novas proposições à cena, pelas experimentações de linguagem (além de congregar os espetáculos locais, mas nunca como foco principal), desta vez, esses não foram elementos norteadores.

Como explicou o gerente do Centro Apolo-Hermilo e coordenador do festival, Carlos Carvalho, durante a coletiva de imprensa do lançamento do FRTN, realizada no Teatro Apolo, “o que se apresenta para este presente e para o futuro é que aqui agora não vão estar só os grandes. Os grandes neste sentido daqueles que têm os melhores patrocínios, os melhores esteticamente, etc. Vai (sic) estar os grandes, os pequenos que fazem o melhor naquele lugar, etc, etc. A gente não está negando o passado. A gente está tentando encontrar um caminho novo”.

Para que a grade do festival fosse montada – com apenas dois espetáculos de grupos de fora de projeção realmente nacional – o Galpão e a Armazém Cia de Teatro, um edital foi colocado na praça para que os grupos se inscrevessem. De acordo com o coordenador do festival, 150 inscrições foram recebidas.

“O recorte é o teatro do possível do Brasil. Isso é lindo. Isso é lindo. Com todo o respeito, eu não sei qual seria o curador que iria a Taboão da Serra ou iria a uma tribo indígena. Mas a tribo indígena poderia dizer: olha, eu estou fazendo um teatro aqui na minha taba. E por isso ele não é moderno, ele não é contemporâneo, ele não é bom? Ele é bom no possível dele para o Brasil. Essa diversidade nos interessa neste momento. Eu acho que não tem nenhuma questão de ser contra ou a favor. É questão de opção política”, explica Carlos.

Uma comissão formada pela atriz, diretora e gestora cultural Maria Clara Camarotti, pelo ator e representante do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife Paulo Maffe, e o ator, diretor e gestor Williams Sant’Anna escolheu os 18 espetáculos que serão apresentados no festival deste ano.

Segundo Gustavo Catalano, gerente Geral de Ações Culturais da Fundação de Cultura da Cidade do Recife, a participação da comissão retirada no Fórum de Artes Cênicas realizado em agosto, no Mamam, foi “efetiva” na construção da mostra.

Além de Carlos Carvalho e Gustavo Catalano, a secretária de Cultura Leda Alves também participou da coletiva de imprensa.

……

Questões que talvez devessem fazer parte de uma discussão com a classe:

– É importante para a cidade que o perfil do Festival Recife do Teatro Nacional (assim como o Janeiro de Grandes Espetáculos e o Palco Giratório têm os seus perfis) seja mantido?
– O FRTN precisa ser repensado. Mas esse é o melhor caminho de o festival fazer diferença para a cidade?
– Os grupos de maior projeção no país, que não necessariamente são ricos e têm patrocínio (na maioria das vezes não tem, como sabemos!), vão realmente se inscrever em editais para virem ao Recife?
– Como deve ser a valorização da classe artística na política cultural da Prefeitura do Recife? Garantindo, por cota e norma, que 50% das vagas do festival são dos pernambucanos?
– E as condições dos teatros no Recife?
– E o SIC?
– E o fomento municipal?
– E a formação?

……

Usando as palavras de Ivana Moura durante a coletiva de imprensa, nossa posição aqui no Satisfeita, Yolanda? sempre foi e será o questionamento.

…….

Uma das perguntas de Ivana Moura durante a coletiva foi sobre o gerente de teatro, já que estamos em novembro e a equipe de gestão relacionada às artes cênicas ainda não estava completa:

Ivana Moura: O nosso gerente de teatro já existe?
Leda Alves: Você está desinformada?
Ivana Moura: Estou perguntando. É porque devo estar, né? (risos)
Leda Alves: Há quase um mês que é Romildo.
Ivana Moura: Romildo é das artes cênicas, não?
Leda Alves: Das artes cênicas.
Ivana Moura: E o de teatro?
Leda Alves: Que teatro?

Gustavo Catalano: O gerente de teatro já está com nome, estamos só para publicá-lo. Ainda não podemos falar.

Leda Alves: Dos equipamentos, né?

Gustavo Catalano: Exato. Na realidade, na Fundação de Cultura existem o gerente de artes cênicas e mais três gerentes: circo, dança e teatro. Nomeamos o gerente de circo, de dança, o de artes cênicas e o de teatro já estamos com nome, já foi discutido com dona Leda e estamos só aguardando a autorização para publicação. E acreditamos que até o final do mês deve ser publicado.

Bom, ontem à noite tivemos a informação de que o novo gerente de teatro foi finalmente escolhido: Jorge Clésio.

……

Coletiva de imprensa contou com as presenças de Leda Alves, Gustavo Catalano e Carlos Carvalho

Coletiva de imprensa contou com as presenças de Leda Alves, Gustavo Catalano e Carlos Carvalho

Trechos da coletiva de imprensa do Festival Recife do Teatro Nacional

Como foi a seleção dos espetáculos para o festival através de edital?
Carlos Carvalho: Tenho certeza que, para o (próximo) ano, consolidado o processo público de seleção, a gente terá com certeza a participação de mais espetáculos de diversas partes do Brasil. No entanto, tivemos 150 projetos inscritos. É um número significativo para um primeiro ano de edital. Desses 150 projetos inscritos, 36 projetos foram selecionados por uma comissão que selecionou esses projetos composta por um represente do Conselho Municipal de Políticas Culturais, um representante da Secretaria de Cultura, e teríamos a participação de um representante da Universidade Federal de Pernambuco. No entanto, nós recebemos uma comunicação do Centro (Departamento) de Teoria da Arte, que não era possível enviar um professor, uma vez que eles estavam com muitos problemas de reposição de aulas. Então nós tivemos que indicar outra pessoa para ocupar esse espaço que seria da Universidade Federal de Pernambuco. Mas isso em nenhum momento diminuiu a grandeza e a qualidade do processo de seleção. Então, desses 36 projetos que a comissão indicou, nós fizemos contatos, e aí começa um processo difícil que é de adequação daqueles projetos aos nossos espaços, adequação de espaços físicos, adequação de possibilidades técnicas, e adequação orçamentária. Então depois de passado esse processo de adequações e também de agenda dos grupos – uma vez que o grupo quando manda, ele diz que quer vir, mas do dia em que ele se inscreve até o dia em que ele é comunicado que está selecionado, a vida continua, então, muitas vezes, aparecem problemas de agenda e a gente não teria aquele grupo naquele dia, etc, etc, etc. Bom, então desses projetos indicados pela comissão, nós tiramos 18. A outra seleção se deu porque o edital previa, que também é novo isso, a garantia de que 50% da programação de espetáculos seria de espetáculos locais. Então a gente garantia, estamos garantindo, dentro dessa vitrine do festival, que na verdade o festival é uma vitrine de difusão, a participação da produção local, com 50% da grade de programação. E o edital também previa 30% de convites. A Secretaria de Cultura e a Fundação de Cultura ainda teriam a possibilidade de fazer 30% de convites da grade. Mas só convidamos um grupo, que foi o grupo Galpão, de Minas Gerais, que está abrindo o festival, no Sítio da Trindade, no dia 22 de novembro, às 20h, e também fará uma récita no dia 23, também lá, no Sítio da Trindade.

Agradecimentos à equipe
Carlos Carvalho: Gostaria aqui de registrar o meu agradecimento a três pessoas, fora o pessoal aqui do teatro, que tem trabalhado incansavelmente. A Ivo Barreto, a Eron Villar e a Margot. Que tem dado sangue, suor, lágrimas e risos, de manhã, de tarde e de noite para que a gente pudesse estar hoje aqui fazendo essa coletiva. E também a Catalano e a toda a sua equipe e também a todo o pessoal de comunicação da prefeitura, que é muito gentil, e também o pessoal da gerência de literatura….

Leda Alves: Desculpe interromper, mas eu não me referi e é uma exigência dentro de mim, que eu não posso adiar. A presença de Catalano nas nossas equipes. (….) E aqui a gente faz realmente o trabalho colegiado, todo trabalho aqui é de baixo pra cima. Ele tem contribuído muito e a gente tem aprendido também com ele. Então o projeto não é só da Secretaria. É da Secretaria e da Fundação de Cultura.

Homenageado do festival
Carlos Carvalho: Nesse processo de criação, a gente chega a quem homenagear? Durante os 15 anos de festival, sempre se homenageou alguma personalidade, um teatrólogo, um ator, etc, que contribuiu no teatro brasileiro e no teatro pernambucano. E chegamos então a Samuel Campelo e não por acaso. Quando a gente diz que depois do debut, a gente precisava repensar, depois de 15 anos, repensar e retomar outro caminho, nada melhor do que ter sido Samuel. Parece que foi escrito. Porque Samuel é a pessoa que começa no estado de Pernambuco e um dos primeiros no Brasil, a tornar possível um teatro brasileiro. Depois de Samuel, depois do grupo Gente Nossa, vem o Teatro de Amadores de Pernambuco e aí sucede-se uma série de realizadores, o Teatro do Estudante de Pernambuco, o TPN, e aí todas as outras experiências já nos anos 70, 80, e por aí vai. Então Samuel é importantíssimo. Samuel está no mesmo quilate de um Arthur de Azevedo, Samuel está no mesmo quilate de um Martins Pena. Ele funda a possibilidade de um teatro pernambucano e brasileiro com temática brasileira. E ele advogava também que, naquela época, como todos os teatros naquela época eram ocupados os seus tablados pelas operetas e burlescas francesas, que o teatro pernambucano e brasileiro precisaria, assim como Martins Pena fez, trazer o tema brasileiro, a problemática brasileira, e partindo da diversão. O que, de alguma forma, vem de encontro quando Hermilo – e é a minha frase predileta – que Hermilo Borba Filho diz que “ninguém se diverte na missa”. Então esse lugar sagrado que você não vai para se divertir, você vai para se religar, você vai para ter foco, no caso de Samuel, ele dizia que naquela época o teatro precisava tirar o foco do cotidiano e fazer diversão para fazer plateia. E ele foi um dos primeiros, digamos assim, grandes diretores do Teatro de Santa Isabel, do qual dona Leda foi uma grande diretora e eu tive o prazer de trabalhar com ela. (…)

Gustavo Catalano: Carlos, eu queria só fazer uma observação. Carlos falou sobre os 50% de artistas pernambucanos. Isso é uma determinação tanto da secretaria quanto do nosso prefeito Geraldo Júlio, da valorização dos artistas pernambucanos. Por consequência, isso transfere a nós uma responsabilidade de fazer com que isso aconteça e o edital nos ajudou muito a isso, não é verdade, Carlos? A gente sentiu que os grupos pernambucanos se interessaram, entraram mais dentro do processo, quando a gente colocou o edital na rua. Então acho que ele foi muito importante também neste sentido, no sentido de integrar os artistas pernambucanos nesse processo, e nesses novos festivais, para que a gente conseguisse executar as diretrizes da nossa secretária e do prefeito Geraldo Júlio na valorização dos artistas pernambucanos.

(…)

Perguntas dos jornalistas:

Ivana Moura: Quais grandes festivais vocês usaram como modelo para montar a programação do Festival Recife do Teatro Nacional através de edital?
Carlos Carvalho: Não conheço. Ou não tenho conhecimento assim geral de quais são os festivais que são por edital. Acho que a maioria é por curadoria. Mas isso também não quer dizer, assim, da gente mudar, que um é ruim e o outro é bom. É questão de opção. Quando é um curador, a opção é que alguém vai ter um recorte sobre uma vasta produção dentro de um tema. O tema é, sei lá, política. E o cara faz um recorte, mas o olhar é dele. No caso, ele vai procurar aqueles grupos, aquelas produções, que satisfazem aquela perspectiva que ele está fazendo um recorte. No caso do edital, é o inverso. Quando eu digo: eu procuro você, não é você quem me procura. Eu digo: olha, eu estou aqui. Você quer me ver? Então é diferente o olhar. Isso nem coloca pontos positivos nem para um, nem para outro, de dizer esse é melhor, esse é pior. É questão de opção. A opção que nós fizemos foi: se a gente se abre para o Brasil e os grupos do Brasil têm a possibilidade de dizer eu quero ir a Recife. Com isso você vai ter um olhar mais alargado. Nesse caso aqui, por exemplo, o festival deste ano não tem um recorte. O recorte é o teatro do possível do Brasil. Isso é lindo. Isso é lindo. Com todo o respeito, eu não sei qual seria o curador que iria a Taboão da Serra ou iria a uma tribo indígena. Mas a tribo indígena poderia dizer: olha, eu estou fazendo um teatro aqui na minha taba. E por isso ele não é moderno, ele não é contemporâneo, ele não é bom? Ele é bom no possível dele para o Brasil. Essa diversidade nos interessa neste momento. Eu acho que não tem nenhuma questão de ser contra ou a favor. É questão de opção política. É uma política de se abrir mais e essa eu acho que é a questão. Assim como também no carnaval, no são João, assim como foi no festival de inverno de Garanhuns, que não era por edital e nem por conta disso diminuiu a qualidade dos espetáculos, abriu-se para a diversidade. A gente não pautou nessa decisão “agora vamos romper com o passado”. De jeito nenhum. O que pautou foi nós vamos ter outro olhar para o futuro.

Leda Alves diz que edital é um instrumento da democracia

Leda Alves diz que edital é um instrumento da democracia

(….)

Leda Alves: O edital vai ser usado como um instrumento da democracia. A gente quer, que é uma das funções e missões da secretaria, criar ou abrir espaços para todas as pessoas que produzem cultura, que fazem a cultura, para todos os artistas, da capital e do interior. Você veja: o nosso São João foi alimentado por muita gente do interior. Como Carlos tinha passado sete anos trabalhando pelo interior com o Governo do Estado e estava disponível para vir para cá, ele integrou o meu grupo de trabalho e ele trazia informações de conhecer, de conviver, de testar, de saber que é bom. E foi uma coisa comentada pelas comunidades que conheceram grupos que nunca tinham conhecidos e ouvir deles a chance de virem ao Recife se apresentar, mostrar sua arte. É essa troca, esse angu que a gente quer que a cultura seja, dando acesso a todos. Segunda liberação para nós da democracia que o edital nos dá: sem injunção de pedidos. Uma das coisas mais difíceis pra gente: os amigos, os parentes, os políticos, a pedirem e a provarem que os seus candidatos são os melhores do mundo. E a gente tem essa grande arma de dizer: o edital está na praça. Se inscreveu? Não? Agora, inscreveu-se? Então fique tranquilo! Que a gente vai analisar cá e você entra. Então isso também facilita muito a democracia e dá credibilidade ao artista de que ele irá, de que é verdade o que ele assinou ali, e que nós realizaremos. Isso vem ao encontro, não é de encontro, ao encontro, a uma determinação do prefeito: a prioridade é o da terra.

(…)

Ivana Moura: O Festival Nacional ele foi pensado, inclusive você está no nascedouro desse pensamento, em busca de uma excelência artística, que ela estivesse espalhada pelo Brasil e que se pudesse buscar isso. Você acha que, com esse edital, foi possível conseguir essa excelência para este ano?

Carlos Carvalho: Sim. A excelência do possível.

Ivana Moura: Pode ser possível, mas pode não ser excelência. Daqui a pouco vamos começar a filosofar!

Carlos Carvalho: A excelência pra quem? O edital abriu as possibilidades, os grupos se inscreveram, uma comissão analisou os projetos e a gente adequou os projetos às condições. Eu não sou um curador do festival. Eu não sou um curador. O curador é o edital e a comissão.

Leda Alves: Então foi feito por uma equipe de especialistas. O objetivo dele é principalmente a troca de experiências, de aprendizados, daí haver várias oficinas. Agora, geralmente, a gente só pode avaliar a eficácia e o fruto desse edital, quando avaliar o festival. É um caminho novo. O edital a gente lançou, respondeu, a gente montou o festival, vamos ver. Essa pergunta você faz a gente quando acabar.
(…)

Ivana Moura: É porque nós temos 15 anos de edição de festival antes desse festival. 15 edições conhecidas e acompanhadas.

Leda Alves: E o que é que tem?

Ivana Moura: O que tem é que, durante esse tempo, os grandes grupos brasileiros estiveram presentes nesse festival. O que estou pontuando…

Leda Alves: Vamos acabar o festival para ver.

Carlos Carvalho: Eu concordo. Agora, o que se apresenta para este presente e para o futuro é que aqui agora não vão estar só os grandes. Os grandes neste sentido daqueles que têm os melhores patrocínios, os melhores esteticamente, etc. Vai estar os grandes, os pequenos que fazem o melhor naquele lugar, etc, etc. A gente não está negando o passado. A gente está tentando encontrar um caminho novo.

Ivana Moura: O que é um caminho novo?

Carlos Carvalho: O edital para os 15 anos é novo. É o caminho.

Ivana Moura: Edital é um caminho novo? É porque edital eu acho que é um caminho já pensado, exercitado noutras situações.

Leda Alves: Não estou dizendo a peça jurídica edital não. A utilização dele para o acesso ao festival, para a pessoa participar desse festival está sendo através deste instrumento legal chamado edital.

Carlos Carvalho: Deixa eu perguntar uma coisa. Quando você me pergunta isso você está me dizendo que você é contra o edital?

Ivana Moura: Eu não sou contra nada. Minha posição aqui é perguntar.

Carlos Carvalho: E eu estou perguntando a você também.

Leda Alves: A pergunta transparecia isso. Você tem direito de estranhar, até de desconfiar, é um direito que você tem.

Ivana Moura: Eu me preocupo com a qualidade da programação de um festival que eu acompanho desde o começo.

(…)

Carlos Carvalho: “Eu estou dizendo que é preciso a gente discutir, mas discutir com o coração aberto. Porque não é interessante a gente ter uma discussão que seja sempre sólida e todo mundo estar a favor. O que é bom é que a gente tenha os discursos diferentes para a gente encontrar um caminho. Assim como o Janeiro encontrou um caminho que eu, inclusive, acho que não é o melhor. Eu, particularmente, Carlos Alberto Carvalho Correia, não acho que é o melhor. Já discuti isso com Paula (de Renor). Mas é uma opção de três pessoas ou quatro, mas três que assinam o festival. Nós estamos agora olhando outro espaço, outra forma de conduzir. E a gente pode ter, inclusive, a humildade, se fosse o caso, de dizer: olha, não deu certo. Mas porque não deu certo? Tem que fazer primeiro.

(….)

Ivana Moura: Qual foi a efetiva participação no festival daquela comissão de artes cênicas que foi tirado lá no Mamam, no Fórum de Artes Cênicas?
Gustavo Catalano: Após uma reunião que fizemos com o fórum temático de artes cênicas foi tirada duas comissões: uma comissão para o festival de dança e outra para o festival de teatro. E essas comissões vieram para que, junto com os gerentes, nomeados para coordenar cada festival, montassem a estrutura deles. O que seriam eles? Se o edital seria o edital, se o edital seria uma curadoria. Naquele momento em que já estava muito próximo já dos festivais. E a gente apresentou o edital, discutiu esse edital, discutimos texto, discutimos tudo dentro desse contexto. E aí após essa aprovação, após essa discussão toda, foi que a gente lançou o edital. A gente não lançou oficialmente da nossa cabeça.

Ivana Moura: Então esse grupo teve uma participação efetiva na formulação dessa história? Que são os representantes da classe?

Gustavo Catalano: Efetiva.

Carlos Carvalho: Ele foi consultado.

Leda Alves: Não só isso.

Gustavo Catalano: Também. Uma participação efetiva. Várias reuniões. Vieram.

Carlos Carvalho: O grupo foi consultado. Todos os pontos foram elencados, a gente discutiu. Samuel (Santos), Rodrigo Dourado…é….

Gustavo Catalano: A gente não excluiu a sociedade civil do processo não. Muito pelo contrário. A intenção é incluir a sociedade civil na discussão dos festivais.

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O nosso Jesus

José Barbosa interpreta Jesus pelo segundo ano. Foto: Fábio Jordão/Divulgação

A temporada 2013 da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém será de 22 a 30 de março. Esta semana quem seguiu para Fazenda Nova foi o ator pernambucano José Barbosa, que pela segunda vez tem a responsabilidade de interpretar Jesus. Zé e parte do elenco gravam o material promocional que será utilizado este ano e aproveitam para acertar detalhes da encenação. Antes de colocar o pé na estrada, o ator conversou com o blog, disse que a peça é um instrumento de evangelização e falou da expectativa em contracenar com a amiga Luciana Lyra, atriz também pernambucana que assume o papel de Maria este ano.

ENTREVISTA // José Barbosa

Lembro que ano passado escrevi que o seu Jesus era muito humano. O que você aprendeu com esse papel?
Aprendo todo dia que a doação, o amor e a fé, fortalecem o espírito. Continuo trabalhando nesse Jesus humano, mais irmão do que pai, um professor, mostrando o caminho, ensinando como se chega ao Deus Pai, vivendo da maneira que viveu, na simplicidade, sem pompa, com medos, anseios, fúria, dúvidas, mas acima de tudo um amor imensurável.

O que você quer que as pessoas vejam a partir da sua interpretação?
Que cada pessoa pode ser um pouco desse Jesus. Que as palavras ditas toquem diretamente na alma destas pessoas, que as cenas façam com que o público reflita, medite e compreenda o que significa amar o próximo e a Deus sobre todas as coisas. Esse espetáculo é também instrumento de evangelização, não apenas uma peça teatral.

Ano passado havia muita expectativa porque, afinal, era uma estreia. E agora? Como crítico de si mesmo, em que você acha que pode melhorar?
Em tudo. Quero uma evolução diária, constante, estudar mais, melhorar, afinal não é um personagem qualquer, é Jesus Cristo. Ele é vivo, ainda busco entendê-lo.

Conversando com José Ramos, ele me disse: “Depois de tantos anos, não podemos falar mesmo em novidades, mas em ajustes, principalmente no jeito de interpretar das pessoas que chegam. Cada um tem o seu jeito, o ritmo, mas o espetáculo é maior do que o ritmo de cada um. Eles até nem dizem, mas sentem muito o impacto de estar num teatro desse tamanho”. Sei que você já está na Paixão há um bom tempo, mas esse impacto ainda existe?
Sempre. É uma responsabilidade do tamanho da cidade-teatro. Pisar em Nova Jerusalém é impactatnte e emocionante, arrepia e traz uma felicidade que só quem participa de coração aberto sabe. Quanto as mudanças, elas acontecem sim. Teremos, por exemplo, mudanças no figurino do espetáculo: sacerdotes, soldados, Pilatos, Herodes, Herodíades, Maria, Madalena e Jesus terão novas roupas mais realistas, fruto de pesquisas feitas durante o ano, redesign feito por Vitor Moreira (criador do figurino original da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém) em parceria com Marina Pacheco que encabeçou as pesquisas.

Este ano, Maria também será pernambucana. Qual a sua expectativa? Você acha que este é um sinal da força da encenação, independente das relações comerciais (já que trazer atores de fora é uma questão que passa muito pelo comercial)?
Estou ansioso. Luciana Lyra é uma ATRIZ, em caixa alta mesmo, amiga querida, linda, tem uma bagagem gigantesca no que diz respeito a teatro. Quero aprender, trocar. Estar em cena com Lu interpretando Maria é um sonho bom, daqueles que acordamos sorrindo. Sou a favor da qualidade e da verdade como forma de passar a mensagem. Se esses objetivos são alcançados, a soma deu um bom resultado.

Uma das coisas que também dissemos é que provavelmente a sua carreira seria em muito impulsionada pela Paixão. O que aconteceu neste ano? Quais seus projetos para além da Paixão de Cristo?
Tenho projetos, mas não gosto de comentar, por serem projetos. Gosto de falar quando se consolidam e se tornam algo concreto. Mas tem coisa boa por aí.

Se em Nova Jerusalém você é Jesus, no Baile do Menino Deus fez José. Como foi essa experiência?
Experiência Linda. Sou de Limoeiro, interior de Pernambuco, e o Baile do Menino Deus é uma festa de brincadeiras populares que via na infância. Junto a essa festa, tem o nascimento do menino Jesus; e interpretar o pai dele na Terra, São José, que o ensinou o ofício da carpintaria, que amou Maria e criou esse menino que seria o redentor, cantar acalantos ao lado de Isadora Melo (cantora maravilhosa) que fez a Maria, para aquela criança no palco do Marco Zero, com a cenografia e figurinos de Marcondes Lima, direção de Ronaldo Correia de Brito e Quiercles Santana, com uma orquestra sob a batuta do Maestro José Renato Acioly, com coro adulto e infantil, bailarinos incríveis, Arilson Lopes e Sostenes Vidal como os Mateus, é algo inesquecível. Hoje o filho cresceu, tem 33 anos e é a cara do pai (José).

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Deolinda Vilhena avalia Festival Recife do Teatro Nacional

Festival foi aberto com espetáculo sobre Gonzagão. Foto: Pollyanna Diniz

Avaliação do 15º FESTIVAL RECIFE DO TEATRO NACIONAL
Por Deolinda Catarina França de Vilhena (BA)

PRÓLOGO

Não sei quantas horas ao longo desses últimos dias passei diante da tela do computador tentando imaginar um começo para essa Avaliação. Li e reli, diversas vezes, os textos de meus antecessores nessa missão em busca de inspiração. E nada. Pelas regras da boa educação talvez devesse começá-la com os agradecimentos de praxe, mas apaixonada e entusiasmada que sou, aos agradecimentos de praxe prefiro aqueles feitos pelo coração e esses hão de aparecer no momento que quiserem e não obrigatoriamente no prólogo dessa conversa.

Uma outra possibilidade era começar citando uma frase de um pernambucano ilustre, e não são poucos os que admiro. No quesito poesia, por exemplo, há os que prefiram Drummond, mas declaro publicamente que entre os poetas brasileiros, o meu preferido é um pernambucano de boa cepa chamado Manuel Bandeira. Mas hoje em dia o Facebook banalizou o efeito das citações. E depois, isso aqui não é um trabalho acadêmico para que eu desate a inserir notas de rodapé.

E imaginando todas as possibilidades de como seduzi-los desde o começo desse texto, encontrei um detalhe interessante, pode não ser suficiente para conquistá-los, mas pelo menos apresenta um dado novo: nesses 15 anos do Festival Recife do Teatro Nacional é a primeira vez que a avaliação foi entregue a uma Produtora. Talvez tenha sido um descuido, pois a produtora que sou tornou-se Pós-Doutora, e como tal é Professora da Escola de Teatro e do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia, aposentando por uns tempos a produtora, que com 36 anos de experiência ainda dá de dez na professora-pesquisadora. Diria mesmo que meu olhar de produtora, ao mesmo tempo atormenta e alimenta a professora-pesquisadora.

Isso significa que nossa conversa de hoje será construída em função do olhar de uma produtora, que escreve como uma jornalista e tenta articular o pensamento com a seriedade de uma professora-pesquisadora ligada à instituição e à academia, ainda que lutando obstinadamente para fugir do ranço eventualmente cultivado por alguns colegas.

Dito isso, vamos ao que interessa, antes que Ivana Moura não se sinta satisfeita e escreva que comecei essa Avaliação com um tremendo nariz de cera.

Deolinda Vilhena, na ponta à esquerda, foi a avaliadora do 15º Festival Recife do Teatro Nacional. Também na foto Jorge Clésio, Roberto Lúcio, Albemar Araújo e Lúcia Machado. Foto: Marcelo Lyra/divulgação

ATO 1 – FESTIVAIS

Em outubro de 2011 realizei na Universidade Federal da Bahia o I Colóquio Internacional No Reino dos Festivais – Festival: instrumento ou pretexto para as políticas culturais? como parte de um projeto de pesquisa intitulado Artes do espetáculo no Brasil e seus impactos econômico, político e social na primeira década do século XXI. Entre os convidados estava Bernard Faivre D’Arcier – diretor de 16 edições do Festival de Avignon – e foi Bernard que chamou minha atenção para algo que andamos esquecendo por aqui, e eu cito: “devemos pensar os festivais por sua utilidade artística e não unicamente por seus benefícios econômicos e turísticos. Da mesma forma que é preciso defender, junto às instâncias políticas, a cultura como um componente essencial da sociedade, da atividade humana e não somente como um setor de emprego entre outros, ou um simples fator de desenvolvimento social.“1

Não poderia encontrar definição melhor para o que imagino ser um festival de artes cênicas. Nunca quis que a cultura fosse um braço da economia, mas que soubéssemos ser capazes de usar os instrumentos disponíveis na economia a nosso favor e não apenas em benefício dela.

Um festival de artes cênicas é hoje espaço privilegiado de intercâmbio artístico, circulação de ideias, conferência de linguagens e estéticas, oportunidade para diálogos e conhecimento, marco para futuros desafios. Quando concebido e organizado a partir dessas premissas é, também, uma ocasião oportuna para que os apreciadores desta arte recebam não só o melhor, mas também o que há de novo, provocador e polêmico no panorama da produção contemporânea. Mas funciona também como uma forma de luta contra a exclusão, pela integração dos jovens em dificuldade, envolvendo a participação deliberada e organizada de uma ação coletiva ao mesmo tempo lúdica, pedagógica e formativa. Afinal, além da programação artística, os festivais apresentam uma rica agenda de formação, programando encontros com os grupos, oficinas de interpretação, de circo, de preparação de espaços culturais, dramaturgia e diversos seminários.

Claro que não devemos ignorar o caráter de evento dos festivais, eventos garantem as cidades que os acolhem um impacto de notoriedade frequentemente muito importante em relação ao esforço financeiro empenhado. Em parte por essa razão, os festivais têm um papel importante na redescoberta, na reabilitação e na promoção de lugares históricos, que servem como pano de fundo para uma grande parte deles, e o exemplo da Europa – desculpem mas faço parte dos que ainda têm o Velho Continente como referência, acredito que antiguidade é posto e hierarquia deve ser respeitada – onde os festivais colocaram diversas cidades no mapa-múndi da cultura, e entre elas destaco Avignon, na França e Edimburgo, na Escócia.

Por outro lado, um festival bem sucedido pode ser o detonador de uma série de ações municipais abertas à juventude local, ou de operações de iniciação à cultura e à ação cultural em escolas e universidades. Histórias de sucesso mostram que a ação cultural, declinação de um evento cultural, da mesma maneira que o esporte pode ajudar a libertar os jovens da sua solidão. A cidade ganha com isso uma maior coesão social. Em algumas ações nas RPAs pude constatar que isso acontece aqui em Recife, com grupos que surgiram de ações passadas do festival e foram capazes de criar, de maneira espontânea, grupos improvisados. Alguns, pelo seu entusiasmo, sua originalidade, sua criatividade inspirada mesmo em sua condição social, alcançaram o profissionalismo e buscam agora o seu lugar na profissão.

Mas produzir e organizar um festival significa ultrapassar as infinitas problemáticas de organização decorrentes de um processo de mudança constante, que exige, cada vez mais, inúmeras habilidades diferentes. Os profissionais precisam desenvolver a versatilidade e a competência para participar efetivamente da sua organização. Entre os muitos aspectos a serem levados em consideração destacamos: criação, difusão, mediação cultural, desenvolvimento local, meios de comunicação, enquadramento jurídico e fiscal, o estudo do desenvolvimento sustentável e público. Tudo isso tendo como pano de fundo as novas exigências dos festivais e sua capacidade de adaptação à evolução e as novas realidades do mundo cultural.

Exatamente por conhecer, intimamente, as dificuldades de realização de um evento desse porte, na prática e na teoria, que esta avaliação é, antes de tudo uma declaração de amor e respeito a todos os membros da equipe de realização do 15o Festival Recife do Teatro Nacional. Isso não significa que concordarei com eles em gênero, número e grau ou que não irei fazer as críticas e sugestões necessárias, afinal, como para Deleuze “opor-se é construir”, é o que busco aqui por acreditar ser necessário construir antes de mais nada, opor-se vem como uma consequência, opor-se sem construir é insuficiente e sem sentido.

ATO 2 – AS ATIVIDADES ESPECIAIS DO 15º FESTIVAL RECIFE DO TEATRO NACIONAL

A importância que atribuo a formação e a qualificação na área da cultura, área de pesquisa na qual atuo, tendo mesmo organizado em maio último o 1o Seminário Internacional de Formação e Capacitação em Cultura, realizado no Teatro Vila Velha em Salvador, numa parceria da UFBA com a Universidade Paris Ouest Nanterre – La Défense, na França, me fez acompanhar de perto as atividades especiais do festival tão bem pensadas, articuladas e colocadas em prática por Roberto Lúcio e Maria Clara Camarotti sob o olhar atento de Lúcia Machado.

Curso O teatro brasileiro em dois tempos foi ministrado por Elton Bruno. Foto: Victor Jucá

CURSO

O teatro brasileiro em 2 tempos. Ministrado pelo Prof. Doutor Bruno Siqueira (PE) na Sala de Ensaio do Teatro de Santa Isabel, com um conteúdo programático em total acordo com o tema do festival e a figura do homenageado Marcus Siqueira. Credito a participação de 20 alunos, estudantes e profissionais de artes cênicas e áreas afins, ao período e ao horário escolhido para a realização do curso: de 17 a 22 de novembro, portanto começando antes mesmo do festival e acontecendo no horário noturno (19h às 22h). Estive no curso apenas uma vez, conversei com o professor e colhi impressões dos alunos, e todos foram unânimes em ressaltar a importância de um espaço de reflexão no festival, uma atividade para exercitar a atividade cerebral e não voltado para o corpo, numa reaproximação muito bem recebida entre corpo e mente tida por eles como indispensável para a formação de atores, a grande maioria dos presentes.

SEMINÁRIO

Seminário sobre Marcus Siqueira, homenageado do Festival. Foto: Victor Jucá / Divulgação

Passei as tardes de 26 e 27 de novembro no Salão Nobre do Teatro de Santa Isabel assistindo ao seminário A politização do teatro brasileiro. Acompanhei a mesa 4 intitulada Marcus Siqueira em sintonia com a cena brasileira dos anos 70 com direito a uma emocionante palestra-depoimento de João Denys Araújo Leite e tendo como debatedores Romildo Moreira e Luís Augusto Reis. Pude estar presente ainda na mesa Realidade e ficção: a cidade como cena e figura com palestra de José Fernando Azevedo (SP) e tendo como debatedora minha colega da Escola de Teatro da UFBA, Hebe Alves (BA).

Infelizmente, por alterações e acertos de agenda não acompanhei a terceira e última mesa da série: Os (des) caminhos do teatro político na cena contemporânea e deixei de ouvir a palestra de Márcio Marciano (PB), responsável por um dos espetáculos mais aplaudidos por mim no festival Milagre Brasileiro – do Coletivo de Teatro Alfenim do qual ele é diretor e dramaturgo, perdendo ainda a oportunidade de ouvir as considerações mais do que especiais de Aimar Labaki.

Divulgado em todo o material promocional do festival, com ampla difusão na internet – e-mails e redes sociais, com convites feitos por telefone aos representantes dos grupos teatrais da cidade, as entidades representativa das artes cênicas, ao SESC e pessoalmente aos alunos e ex-alunos do curso de Teatro da UFPE e alunos e professores da Escola Municipal de Arte João Pernambuco, o seminário reuniu em três tardes apenas 95 pessoas, sendo 35 na primeira, 40 na segunda e 20 na terceira. Vale registrar que entre as 40 pessoas da tarde do dia 27 de novembro estavam os integrantes (14) do Teatro de Narradores dirigido pelo palestrante do dia José Fernando Azevedo.

Ou seja, senti falta de público no belíssimo Salão Nobre desse não menos belo Teatro de Santa Isabel. Senti falta dos alunos da licenciatura, futuros arte-educadores, do curso de teatro da Universidade Federal de Pernambuco. Senti falta dos professores desse mesmo curso. Senti falta da classe artística. Mas sobre essa “ausência” de público falaremos no bate-papo.

WORKSHOPS

Em companhia dos três mosqueteiros – Lúcia Machado, Roberto Lúcio e Maria Clara Camarotti – visitei quatro das seis Regiões Político-Administrativas do Recife: RPA 01 – Centro; RPA 02 – Norte, RPA O3 – Nordeste, RPA 06 – Sul para acompanhar os workshops. Fui por eles informada que esses locais foram pensados estrategicamente pela Coordenação dos Eventos Especiais em harmonia com a assessoria de articulação da Secretaria de Cultura a partir da necessidade e tradição do festival de levar as atividades do festival para as RPAs da cidade.

Workshop com integrantes do Grupo Bagaceira, do Ceará. Foto: Marcelo Lyra/Divulgação

Confesso, num primeiro momento, ter achado bastante interessante a tarefa, era uma possibilidade de conhecer a cidade de uma outra maneira, indo a locais que não constam da programação turística e, mais do que isso, iria conhecer o maior patrimônio desses lugares: seus habitantes. E mais ainda, aqueles que entre eles se interessam por essa arte que nos fascina e seduz.

Entretanto, já no primeiro dia pude constatar o quanto seria invasivo e inútil passar 20/30 minutos como “ouvinte/observadora” de um trabalho conduzido em média durante três horas e, em alguns casos, com um número extremamente reduzido de participantes. Constrangedor para o ministrante, para os inscritos e para a avaliadora.

Na impossibilidade de um acompanhamento da totalidade da atividade após acompanhar os workshops Jogos teatrais, ministrado por Samya de Lavor e Rogério Mesquita/Grupo Bagaceira de Teatro (CE) na RPA 1 – Santo Amaro e na RPA 6 – Escola Apolonio Sales – Ibura; Improvisação teatral, a cargo de Elaine Cardim (BA) na sede do Grupo Daruê Malungo – Chão de Estrelas, na RPA 2 e Workshop para atores aplicado pela atriz Dani Barros (RJ) na RPA 3 – Sitio da Trindade – Casa Amarela, em comum acordo com Maria Clara Camarotti e Roberto Lúcio, renunciei aos outros, minha presença nada acrescentaria, ao contrário, e essas quatro participações foram mais do que suficientes para constatar alguns problemas a serem contornados nas próximas edições.

Um deles é a escolha do espaço físico para a realização da atividade, por mais que tenhamos consciência de que estamos nos dirigindo à comunidades carentes não acho produtivo e aconselhável que os locais de trabalho disponibilizados sejam sujos e inadequados. Em dois deles o estado das salas – com um odor forte e desagradável e a ausência de banheiros em condição de uso transformam em momento de terror o trabalho da avaliadora, e com certeza, o de todos os envolvidos. Em outro, vi Maria Clara Camarotti e Roberto Lúcio de balde e vassoura na mão, tentativa desesperada, de levar a cabo a missão que lhes foi confiada, mas que certamente não passava pela faxina.

Workshop com Dani Barros. Foto: Victor Jucá

O segundo problema, e com certeza mais importante do que o anterior, é a ausência de público interessado nas propostas oferecidas. Em Santo Amaro, por exemplo, apesar de ter sido informada de que é um dos bairros mais perigosos da cidade, com direito a divisões na comunidade o que implica em não deslocamento entre áreas de grupos rivais, do cuidado de encontrar uma zona neutra do bairro, da mudança de local da atividade, com carro disponibilizado para buscar os alunos no local marcado anteriormente para transportá-los ao novo local, mesmo com toda essa meticulosa articulação só se apresentaram para a atividade dois alunos.

Mesmo a atividade ministrada por Dani Barros – Prêmio Shell de Melhor Atriz e com um dos espetáculos mais concorridos do festival Estamira – voltada para atores não conseguiu atingir sua capacidade de vagas disponíveis. Confesso que fiquei intrigada com o aparente desinteresse pela ocasião de trabalhar com uma das mais importantes atrizes de sua geração. Talvez, na nossa conversa, vocês possam me esclarecer melhor pois busco compreender se há um efetivo desinteresse ou um excesso de oferta, em função da febre da contrapartida exigida pelas leis de incentivo, como se a contrapartida da arte não pudesse ser a própria arte. Mas fica o registro: mais uma vez a “ausência de público interessado” nos é sinalizada. Sinal que o assunto requer atenção.

OFICINAS

Residência artística realizada no Espaço Fiandeiros. Foto: Victor Jucá /Divulgação

Das duas oficinas programadas pude acompanhar apenas a Oficina-Residência Artística Teatro de Narradores | Oficina Cidadematerial ministrada por José Fernando Azevedo, Lucienne Guedes e Danilo Eric/ Teatro de Narradores (SP), no Espaço Cultural Fiandeiros de Teatro. Tendo como público alvo estudantes de teatro, atores, diretores, dramaturgos, cenógrafos a oficina incluiu em seu processo de seleção a necessidade de uma carta de intenção e um minicurrículo, ambos analisados e selecionado pelos professores. Esse aparente detalhe pode ter contribuído para o sucesso da mesma no quesito número de inscritos: 26. Mas a euforia é momentânea: se ultrapassou as 20 vagas inicialmente previstas, apenas 13 participantes participaram do trabalho.

Ao longo dos anos acompanhando oficinas e workshops, dos primórdios há mais de 30 anos até a febre imposta dos dias de hoje, confesso que o trabalho realizado pelo Teatro de Narradores é dos mais interessantes – ao lado do método desenvolvido por Antônio Araújo e seu Teatro da Vertigem – que vi nos últimos cinco anos. Ouso creditar, em grande parte, a ausência de público a uma repetição do que é ensinado/compartilhado nessas ocasiões.

José Fernando Azevedo ao tirar os “alunos” do casarão dos Fiandeiros e jogá-los nas ruas do bairro, incentivando o diálogo com os passantes, os habitantes e/ou trabalhadores da área, usando imediatamente o trabalho realizado nessas “saídas” para compor o conteúdo programático da oficina do meu ponto de vista, seduz, fascina e desperta para o ouvir o outro, e compreender que sem o outro não é apenas teatro que não fazemos, não se faz nada. Pude observar o retorno desses “alunos” e vi que havia energia e vida pulsando na volta à sala.

Digno de observação: o processo de seleção mais meticuloso e a elaboração da oficina. Ao acenar com algo fora do padrão convencionado e estabelecido, como fez o Teatro de Narradores, talvez possamos trazer para as indispensáveis atividades formativas esse público perdido. A debater. A questionar.

LANÇAMENTO DE LIVROS

João Denys com a família de Marcus Siqueira. Foto: Victor Jucá/Divulgação

Marcus Siqueira: um teatro novo e libertador, de João Denys Araújo Leite, Palavra de ator – espetáculo-conferência, de Maurice Durozier, em edição bilíngue e Festival Recife do Teatro Nacional – 15 anos em cena, ambos organizados por nossa batalhadora incansável, Lúcia Machado. Três livros, três momentos fortes dessa edição.

Por acreditar no papel, por acreditar na palavra escrita e na necessidade de cultivarmos a memória, memória essa que quando é esquecida permite que se escreva a história do teatro brasileiro pautada apenas no eixo São Paulo-Rio de Janeiro, saio do Recife impressionada com a quantidade de livros retratando a vida teatral dessa cidade, desse estado, levo em minhas malas parte da história do teatro brasileiro e creiam irei dividi-las com meus alunos e meus leitores do Terra Magazine.

Não pude ainda avaliar a qualidade, apenas passei os olhos nos livros, tempo ocioso foi algo escasso em minha vida nesses últimos 13 dias, mas os nomes envolvidos funcionam como uma griffe. Não posso deixar de registrar um fato excepcional, na maior linha “santo de casa não faz milagre”: o festival deu quinau na França ao publicar em primeira mão, em edição bilíngue, o livro de Maurice Durozier, uma jóia para todo e qualquer apaixonado pelo teatro.

Ainda no quesito editorial sou obrigada a confessar que algo me impressionou, e muito: o fato dos livros serem oferecidos gratuitamente a todas as pessoas que vieram aos lançamentos.

Essa gratuidade me surpreendeu porque sou radicalmente contra a gratuidade na área da cultura, no verão passado fui das primeiras a apoiar um movimento criado por Márcio Meirelles em Salvador, De graça não tem graça. Todos os estudos – sérios! – que conheço realizados nos quatro cantos do planeta afirmam categoricamente que ingresso de graça nunca aumentou o número de espectadores nas salas de espetáculos ou nos museus. Não se pode desejar aquilo que não se conhece, e cabe a todos nós despertar esse interesse nas pessoas e isso não passa pela gratuidade. Há anos digo que meu sonho de consumo é ver pessoas poupando para assistir uma peça de teatro, com a mesma euforia que poupam para comprar fantasias para as Escolas de Samba do Rio de Janeiro e abadás para os blocos no carnaval de Salvador. Nesse dia meus anos como mulher de teatro na prática e na academia terão valido à pena.

Lúcia Machado lançou catálogo em comemoração aos 15 anos do festival. Foto: Victor Jucá/divulgação

Logo, ver esses livros ofertados ao público presente aos lançamentos me causou um misto de surpresa e alegria. Surpresa porque não esperava jamais que isso acontecesse, alegria porque estou cansada de ver dinheiro público utilizado em publicações que apodrecem nas salas de nossas repartições públicas, quando poderiam ser distribuídas aos alunos das escolas e universidades desse país continente.

Parabéns pela iniciativa. Livros sobre teatro são, com certeza, instrumentos indispensáveis na formação de plateias.

LEITURAS DRAMÁTICAS

Um grito parado no ar, de Gianfrancesco Guarnieri, com direção de Bruno Siqueira (PE) com os alunos do curso O teatro brasileiro em 2 tempos (PE) e Por telefone, de Antonio Fagundes, com direção de Reinaldo de Oliveira, com Reinaldo de Oliveira e Clenira Bezerra de Melo (Teatro de Amadores de Pernambuco) no Salão Nobre do Teatro de Santa Isabel.

Leitura dramática do texto Por telefone, com Reinaldo de Oliveira e Clenira Bezerra. Foto: Victor Jucá/Divulgação

Entusiasta que sou da leitura dramática, por gostar da sensação de trocar a experiência individual e solitária de leitura pela coletiva, da troca que se estabelece, da interlocução que possibilita leituras individuais em cada um dos presentes, tendo como guia apenas a voz humana e, ainda assim, traduzir sentimentos do personagem, despertando o público e colocando o texto em evidência, passei bons momentos no Salão Nobre.

Em tempos onde o tempo é cada vez mas escasso, considero um luxo e um privilégio estar numa sala diante de atores para ouvir uma leitura dramática. Vi apenas duas, das três programadas, e ambas tiveram um gosto especial: a leitura de Um grito parado no ar por ter utilizado os alunos do curso de Teatro Brasileiro, unindo teoria e prática; além de ter me proporcionado a redescoberta de um texto, 38 anos após o espetáculo dirigido por Fernando Peixoto ao qual tive a oportunidade de assistir aos 15 anos de idade. Para minha surpresa ele é totalmente atual.

Quanto a leitura de Por Telefone, registro a emoção de ter visto Reinaldo de Oliveira, ocasião rara para uma “estrangeira” de ver em cena um dos grandes nomes do teatro brasileiro. Inclusive pedi para ser apresentada a ele, pois estava diante do filho de Valdemar de Oliveira. Momento emocionante.

ATO 3 – A MOSTRA DOS ESPETÁCULOS

Pensando em Marcus Siqueira, o homenageado e no tema-conceito – O teatro que forma e transforma – da décima quinta edição do Festival Recife do Teatro Nacional, encontrei no texto de Roberto Lúcio para o programa do festival a “deixa” perfeita: “A homenagem a Marcus Siqueira pelo XV Festival Recife do Teatro Nacional, por si só, constitui um ato político. Ela reafirma o Festival como um espaço de reflexão, um lugar de trocas e de pedagogias, plurais, multifacetadas, que revigoram a força do atual panorama do teatro brasileiro. A programação de espetáculos e as ações formativas elencadas em 2012 fazem jus à trajetória de Marcus Siqueira (1940-1981), referência fundamental no teatro pernambucano nas décadas de 1970 e 1980, desde os anos 1960 um ator e diretor teatral marcante, combativo, questionador, amante e defensor do teatro de grupo e do aspecto pedagógico da arte do teatro.“.

A quase morte de Zé Malandro encenada no bairro de Campo Grande. Foto: Marcelo Lyra

As ações formativas confirmaram o que disse Roberto Lúcio. E foi com entusiasmo que constatei que a mostra de espetáculos seguiu o mesmo mote.

Em entrevista concedida a repórter Beth Nespóli, em julho de 2007, Paulo Arantes chamava à atenção para o fenômeno “teatro de grupo” em São Paulo capital e dizia que “ao lado da explosão do hip-hop, com o qual tem muito a ver malgrado as diferenças de escala e classe, não sou por certo o único a reconhecer no atual renascimento do teatro de grupo o fato cultural público mais significativo hoje em São Paulo. Fala-se em mais de 500 coletivos, por assim dizer, dando combate no front cultural que se abriu com a ofensiva privatizante. Não são só os números que impressionam, mas também a qualidades das encenações, cuja contundência surpreende, ainda mais quando associada a uma ocupação inédita de espaços os mais inesperados da cidade, gerando pelo menos o desenho de uma mistura social que ninguém planejou, simplesmente está acontecendo como efeito colateral das segregações e hierarquias que o novo estado do mundo vai multiplicando.”.2

A programação de espetáculos do 15 Festival Recife do Teatro Nacional – com 19 espetáculos entre locais e nacionais – faz com que eu ouse transformar em pergunta essa afirmação de Paulo Arantes: será que cinco anos depois não podemos falar nesses termos em nível nacional? Afinal, dos 19 espetáculos, salvo engano de minha parte, usando como fonte o programa do festival, 13 têm sua origem em grupos oriundos de estados diversos, como Ceará, Paraíba, Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo.

Textos de criação coletiva, textos de autores como João Falcão, Rafael Martins, Nelson Rodrigues, Fábio Espírito santo, Claudia Schapira, Noëlle Renaude, Maurice Durozier, Ronaldo Corrêa de Britto, José Fernando Azevedo, Beatriz Sayad, Dani Barros, Ariano Suassuna, Elizabeth Mazev, adaptações/inspirações de Brecht, Sófocles, Strindberg e Joaquim Cardozo, só do lado do texto dramatúrgico temos um panorama diverso, elevado ao cubo quando passamos para a cena. E, graças ao trabalho de grupo, comprovando a necessidade do coletivo, da mais coletiva das artes, o que vimos nos palcos dos teatros e das ruas e praças do Recife foi, quase sempre, fruto de um trabalho de pesquisa, suado, sofrido, elaborado mas quão prazeroso para os que o fazem e para os que o aplaudem.

Isso te interessa?, da Cia Brasileira de Teatro, foi um dos destaques da programação. Foto: Marcelo Lyra/Divulgação

Não farei uma análise ou mesmo comentário sobre a qualidade dos espetáculos, não sou e sempre me recusei a ser crítica de teatro, sou mera palpiteira-observadora com algum grau de conhecimento na matéria, mas deixei a tarefa de analisar os espetáculos aos críticos convidados pelo festival, Sebastião Milaré e Alexandre Figueirôa, que escreveram e publicaram diariamente seus artigos sobre cada uma das peças encenadas ao longo desses 12 dias de festival, e eles estão disponíveis para consulta dos interessados no site do festival.

Acompanho atentamente o movimento teatral no Brasil e noto que uma corrente cada vez mais forte aparece como reação contra o esgotamento, quase total, por que vinha passando o nosso teatro. (…) Reconhecemos que este movimento renovador ainda está em sua fase caótica, que é preciso tempo para que esta onda se acalme em textos e espetáculos, com medidas exatas. Porque a invasão da música, os textos aparentemente sem enredo, a desvinculação ator-personagem, tudo isso está sendo feito ainda desordenada e violentamente. Estamos procurando novos caminhos para o teatro brasileiro, errando muito, acertando às vezes, mas procurando sempre, sem medos ou preconceitos. A arte não estaciona nunca e o teatro é, de todas as artes ma mais dinâmica, a que mais necessita transformar-se.“. Esse texto de Marcus Siqueira, originalmente publicado no programa de Calabar em 1965, e acessível a todos nós no livro escrito por João Denys Araújo Leite poderia ser escrito por qualquer um de nós, hoje, quarenta e sete anos depois ao fazer um balanço dos espetáculos levados à cena no festival.

Não quero citar um ou outro espetáculo, apenas registrar o prazer de passar doze dias vendo espetáculos de qualidade, uma ou outra exceção para confirmar a regra, mas sou professora de Ética, e acreditar no que ensino me impede de tornar pública minhas preferências, preservando meu direito de tecer comentários com a organização e a curadoria do festival.

Abro exceção para falar de Gonzagão – a lenda, que abriu o 15o Festival Recife do Teatro Nacional para parabenizar a apostar da coordenação e da curadoria do festival num espetáculo que contagiasse o público. Não poderiam ter feito escolha melhor. Entre risos e lágrimas, uma plateia atenta respondeu ao convite de Lúcia Machado, feito no texto escrito para o programa, e celebrou o teatro, na figura de Luiz Gonzaga, um dos maiores ícones dessa terra pernambucana e ainda ovacionou o diretor João Falcão que, apesar de ser prata da casa e reconhecido nacionalmente, precisou esperar a 15a edição para fazer sua estreia. João Falcão brincou com a liberdade poética em busca de novas formas para contar a história de Luiz Gonzaga, recorreu ao metateatro e colocou em cena uma trupe que incendiou o Teatro de Santa Isabel. Como bem disse Sebastião Milaré “um espetáculo emblemático” porque “traz resolvidas, a seu modo e com maestria, tendências vigorosas do novo teatro nordestino.”.3

Foi uma noite de festa, onde no lugar da valsa dos quinze anos dançamos baião e xaxado. Plateia lotada, frisas, camarotes, idem. Presenças da secretária de Cultura do Recife, Simone Figueiredo; do presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife (FCCR), André Brasileiro; da curadora do 15o Festival Recife do Teatro Nacional, Lúcia Machado; do representante da Fundação Nacional de Artes/Funarte, Naldinho Freire; do idealizador do Festival, o dramaturgo, diretor e ator Romildo Moreira; e das irmãs do homenageado Marcus Siqueira, Maria Júlia Nogueira e Germana Siqueira. Essas as presenças oficiais. Mas o mais importante, de acordo com as informações da jornalista de plantão que sou, foi a presença maciça da classe artística pernambucana, renovando os laços com o festival depois de alguns nós desfeitos.

Não esquecerei as lágrimas da secretária de Cultura, Simone Figueiredo, tampouco suas palavras: “como atriz e ex-diretora desse teatro, não posso deixar de dizer que estou emocionadíssima por fazer parte dessa celebração. O teatro é um sonho feito de carne, osso, papel e tinta. A Prefeitura da Cidade do Recife quer que esse sonho se transforme em trabalho, festa e pão.”.

Vou encerrar esse ato destinado aos espetáculos com uma frase de Emmanuel Wallon, especialista em políticas públicas para o teatro e um festivaleiro de marca maior: “os festivais mundialmente reconhecidos que servem hoje como modelos para os “operadores culturais”, quer se tratem de artistas, de administradores ou responsáveis políticos, debutaram, na sua maior parte, através de arriscadas aventuras, conduzidas contra as correntes dominantes da estética e do consumo, por indivíduos associados, cujo desejo de partilhar era o motivo, e o gosto pelo risco, o motor.“4. Que o desejo de partilhar e o gosto pelo risco continuem a guiar o Festival Recife de Teatro Nacional.

Júlia discutiu os limites entre cinema e teatro. Foto: Pollyanna Diniz

EPÍLOGO

Tenho como um dos meus livros de cabeceira As regras da arte, de Pierre Bourdieu, que funciona como um modelo teórico daquilo que, de maneira intuitiva, a prática me ensinou: no campo artístico, os bens criados têm uma natureza dupla, mercadoria e significado, e um valor também duplo, comercial e simbólico.

Bourdieu distingue dois tipos de lógicas que determinam a paisagem artística e cultural: por um lado, a lógica da arte pura, sem preocupação com lucros, que privilegia a criação artística e que, a longo prazo, pode gerar capital econômico. Por outro lado, a lógica do bem cultural, bem comercial, que privilegia a divulgação e ajusta-se a lei da oferta e da procura, que visa a acumulação de capital econômico.

Um processo de especialização indicou com o passar do tempo, por um lado uma produção cultural destinada ao mercado e, por outro lado uma produção artística dita pura destinada à apropriação simbólica. No entanto, as empresas de produção não devem desenvolver estratégias extremas, sejam elas de subordinação total ou independência absoluta às leis do mercado e por conseguinte ao pedido, mas devem encontrar uma via mediana.

É o movimento que observo hoje, onde coexistem dois modos de produção com lógicas antagônicas que se encaixam num modo de produzir que defende a insubmissão às leis do comércio associado a um desejo de fazer um teatro diferente, um teatro independente e não-conforme, capaz de inventar a sua própria economia, o que significa isso?

Encontrar o seu próprio equilíbrio financeiro através de um modo próprio de organização, como por exemplo, o grupo, baseando-se na igualdade dos salários, na divisão de tarefas e sem que isso implique uma não-especialização do trabalho. Um modo de produzir artesanal nadando contra a corrente que nos obriga muitas vezes a ceder a uma exploração capitalista. Mas para se chegar a isso é necessário estar disposto a trabalhar muito, pois nadar contra a corrente, num contexto de consensos frouxos, é para poucos. Um teatro de experimentação e de investigação tanto no processo de criação como no seu resultado, merece ser preservado. Afinal, investigação e questionamentos são consubstanciais à liberdade.

Entretanto, é necessário compreender a necessidade vital do acesso aos meios de produção, trata-se de constituir um poder suficientemente importante para não ser marginalizado. Existe uma relação entre o centro e a margem que é fundamental. Você pode optar por pertencer à margem porque se sente bem lá, porque acredita que à margem você poderá criar melhor. Mas, a partir de lá para ser ouvido, é necessário atacar-se ao centro com as armas do centro. Se não se evolui nesta interação entre a periferia e o centro rapidamente se é marginalizado. E para não ser marginalizado um elemento é muito importante: a qualidade do conteúdo. Único verdadeiro ponto de apoio forte. A partir dai, trata-se de instaurar o sistema que permite ao conteúdo ser protegido e valorizado. Mas só serão capazes de se inscrever numa linha diretriz exigente aqueles que, como Francis Scott Fitzgerald compreenderem que “a marca de uma inteligência de primeiro plano é que ela é capaz de fixar-se sobre duas ideias contraditórias sem, no entanto, perder a possibilidade de funcionar. Deveríamos por exemplo poder compreender que as coisas são sem esperança e contudo estarmos decididos a mudá-las.”5

Isso tudo para fazer um agradecimento especial à Prefeitura do Recife, pois tudo o que vivi nesses dias reforçou a minha certeza de que a cultura não é uma mercadoria como as outras, mesmo se as leis do mercado insistem em querer nos provar o contrário, o que justifica a necessidade de apoio do poder público à atividade cultural. Esse apoio é a única maneira dos festivais, assim como outros vetores de criação e difusão, contribuirem à dupla missão tão bem expressa pelo primeiro ministro da cultura da França, o grande André Malraux: enriquecer o patrimônio da humanidade e permitir o acesso do maior número de pessoas à cultura.

Festival Recife do Teatro Nacional completou 15 anos. Foto: Victor Jucá/divulgação

Antes de finalizar, gostaria de fazer – agora sim – os agradecimentos. E preciso agradecer a muita gente porque é preciso muita gente para dar cabo de uma empreitada desse porte. Não posso citar aqui todos os nomes, e agradeço a toda essa equipe do fundo do meu coração, ser produtora faz com que eu saiba exatamente o que significa estar no lugar de cada um de vocês, mas gostaria de citar ao menos aqueles com os quais estabeleci um contato mais próximo e em ordem alfabética para facilitar a minha vida, o meu obrigada mais sincero para Albemar Araújo, André Brasileiro, Angélica Gouveia, Geraldo Berardinelli, Iza Alves, Jorge Clésio, Lúcia Machado, Maria Clara Camarotti, Paulo Docas, Roberto Lúcio, Simone Figueiredo e Zacaras Garcia. E aos meus parceiros de aventura Alexandre Figueirôa e Sebastião Milaré.

Cheguei em Recife tendo na cidade uma tia, a única irmã de minha mãe mora aqui há 50 anos; um tio e um primo…treze dias depois sairei daqui deixando uma família, a minha família teatral que, em Pernambuco, tinha suas bases lá em Caruaru onde Argemiro Pascoal e Arary Marrocos criaram o Teatro Experimental de Arte, mas depois do 15o Festival Recife do Teatro Nacional sinto que a família aumentou consideravelmente.

Que os Deuses do Teatro nos abençoem e que os artistas de teatro desta terra não esqueçam nunca que têm uma missão: “levar aos barcos que vagam na obscuridade, o brilho obstinado de um farol …”.6

Obrigada!

Teatro Apolo (Recife-PE), 3 de dezembro de 2012.

Deolinda Catarina França de Vilhena Jornalista, Produtora teatral e Professora da Escola de Teatro e do Programa de Pós- Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia, Mestre e Doutora em Estudos Teatrais pela Université Sorbonne Nouvelle – Paris 3

Email: deolindavilhenaufba@gmail.com

 

Notas

1 Bernard FAIVRE D’ARCIER. Panorama e futuro dos festivais um exemplo: o Festival d’Avignon. Conferência de abertura do I Colóquio Internacional No Reino dos Festivais, Salvador (Ba), out. 2011.

2 Paulo ARANTES. Paulo Arantes analisa a arte teatral como fenômeno social. Entrevista a Beth Néspoli. Jornal O Estado de S. Paulo, 12 de julho de 2007.

3 MILARÉ, Sebastião. Gonzagão – A lenda. Disponível em http://www.15frtn.com/#!blog/cmsn página visualizada em 2 de dezembro de 2012.

4 Emmanuel WALLON. Festival: instrumento ou pretexto para as políticas culturais? Programa do I Colóquio Internacional No Reino dos Festivais, Salvador (Ba), out. 2011.

5 Francis Scott FITZGERALD. Citado por Jack Ralite in Ce n’est qu’un début. Culture publique. Opus 1, « L’imagination au pouvoir ». Paris, (Mouvement) SKITe et Sens&Tonka, 2004, p.218.

6 Frase de Os Náufragos da Louca Esperança, criação coletiva do Théâtre du Soleil em parceria com Hélène Cixous, inspirada no romance póstumo de Júlio Verne, Os Náufragos do Jonathan.

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