Lançamento de livros
Mais dois títulos do teatro pernambucano

grupo gente nossa 1938 foto Acervo Projeto Memórias da Cena Pernambucana

A Pena e a Lei, de Ariano Suassuna – 1984 – Acervo Grupo de Teatro do SESC Caruaru

O teatro pernambucano já se vangloriou de ser o terceiro em produção no país, lá pela segunda metade do século 20. A historiografia teatral brasileira nunca prestou muito atenção em mais esse orgulho nordestino e sempre concentrou no Sudeste –Rio e São Paulo, principalmente – o mérito da trajetória do teatro brasileiro, suas conquistas, modernização, desconstrução. São campos de disputa constantes e os mais fortes (economicamente, politicamente, de articulação) deixaram suas marcas e seus livros. Esse cenário vem mudando nos últimos anos, graças a muitas mãos e muitas vontades.

Um lançamento duplo, que contempla o teatro na capital e no interior de Pernambuco coloca mais duas obras na prateleira dessa biblioteca, que ainda tem muito para contar. O Teatro no Recife da Década de 1930: outros significados à sua história, do jornalista, crítico e pesquisador teatral Leidson Ferraz e Grupo de Teatro do SESC Caruaru – Fazendo e Aprendendo, organizado pelos artistas Severino Florêncio, Moisés Gonçalves, Josinaldo Venâncio e Maylson Ricardo são dois livros que o Selo editorial do SESC Pernambuco, com apoio da CEPE, lança nesta segunda-feira (20 de dezembro de 2021), a partir das 19h, no hall do SESC Santo Amaro, no Recife, com show da cantora Andréia Luiza.

Leidson Ferraz, autor de vários títulos sobre a memória dessa arte em Pernambuco, é uma figura de destaque na recuperação desse caminho. Pesquisador incansável, organizou os quatro volumes da coleção Memórias da Cena Pernambucana. Atualmente é Doutorando em Artes Cênicas na UNIRIO (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro).

A década de 1930, tão repleta de reviravoltas políticas e deslocamentos regionais de poder, sofreu no que se refere as artes cênicas uma desvalorização. O estudo do período foi sua dissertação de mestrado em história na UFPE. Ele mergulhou em arquivos esquecidos para resgatar alguns desses episódios. No livro, Leidson mapeia peças, e atuações de grupos e artistas independentes nos teatros do centro Recife e dos bairros de subúrbio, chamados “arrabaldes”. Explora as características da cena da época, ocupada principalmente por comédias, burletas e operetas.

Trajetórias do Grupo Gente Nossa e do Grêmio Familiar Madalenense (liderado pelos Irmãos Valença), ou de artistas como Samuel Campello, Elpídio Câmara, Barreto Júnior, Lenita Lopes e Valdemar de Oliveira, entre outros, estão no foco da pesquisa. Mas a obra “busca ir além do discurso que ocupa posição dominante no campo historiográfico nacional, sempre a abordar o ‘modo antigo’ de se fazer teatro em suas tão depreciadas contradições”.

Para isso, Ferraz trabalhou com as ideias de campo e capital simbólico do sociólogo Pierre Bourdieu, que iluminam os espaços ocupados, suas hierarquias e lutas internas.

O design do livro é assinado por Claudio Lira e traz imagens raras, de críticos, artistas nacionais e internacionais que estiveram no Recife, como Clara Weiss, Procópio Ferreira, Jayme Costa, Alda Garrido e Dulcina de Moraes, e técnicos daquele período, além de uma descrição pormenorizada do repertório e ficha apresentados por companhias locais e visitantes na década de 1930.

O teatro no interior

Severino Florêncio, Moisés Gonçalves, Josinaldo Venâncio e Maylson Ricardo, atuam na equipe de Cultura do SESC Caruaru e conhecem muito bem os meandros desse grupo, fundado em 1980, pelo ator, diretor e professor teatral Severino Florêncio, com o espetáculo de criação coletiva Fuga de Lampião.

O coletivo se tornou uma escola de formação de artistas e técnicos importante cena teatral em Caruaru e na região. O livro traça um paralelo entre o grupo e o Teatro caruaruense; aponta as montagens exibidas nos dois teatros da cidade (o Rui Limeira Rosal, do SESC, e o João Lyra Filho, da municipalidade); traz as participações em festivais pelo Brasil e reconhecimentos de premiação.

O livro Grupo de Teatro do SESC Caruaru – Fazendo e Aprendendo tem prefácio de José Manoel Sobrinho, diretor teatral e gestor cultural com experiências no SESC e em órgãos públicos da Cultura, que atesta que os autores “amplificam as experiências e vivências da trupe, disseminam parte relevante dos saberes construídos e dão amplitude para as novas gerações entenderem a força e o papel significativo que o teatro teve e tem para uma cidade da dimensão de Caruaru”. O design também é de Claudio Lira,

Cada livro custa R$ 40 (quarenta reais). A coordenação editorial do SESC Pernambuco é do Gerente de Cultural da instituição, Rudimar Constâncio. O selo á publicou 34 livros.
O SESC Santo Amaro fica na Rua Treze de Maio, 455, Santo Amaro.

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Rinha sentimental do século passado
Crítica do espetáculo Cock – Briga de Galo

Marco Antônio Pâmio, Andrea Dupré, Daniel Tavares e Hugo Coelho. Foto: Pedro Bonacina / Divulgação

Alguma coisa está fora da ordem…. na montagem paulista Cock, em cartaz até hoje na Oficina Cultural Mário de Andrade. Um deslocamento de espaço e de tempo, no mau sentido. A encenação de Nelson Baskerville é vendida como um debate sobre sexualidade e identidade. Pode até ser. Mas qual o nível e o propósito dessa discussão?

Pode ser engenhosa a ideia de colocar os atores numa espécie de ringue. Aponta para luta de galos, a rinha – uma contravenção em muitos países. Bem, toda forma de maus-tratos e a exploração de animais para divertimento do homem são abominadas pela Declaração Universal dos Direitos dos Animais (artigos 3º e 10º), proclamada em 1978 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – Unesco.

No Brasil, as rinhas de galos foram proibidas em 1934 no governo de Getúlio Vargas e desde 1941 são contravenção penal. Mas há quem pratique por esse Brasil adentro. Há quem se divirta. Como há gente que ri de piadas racistas, lgbtqia+fóbicas, gordofóbicas ou misóginas.
Mas o que as brigas de galo têm a ver com a peça? Tá no título: Cock – Briga de Galo. Em inglês, “Cock”, quer dizer galo, pau/pênis e alguém de personalidade arrogante. E há um falocentrismo na peça que não é de brincadeira.

O texto The Cockfight Play do dramaturgo inglês Mike Bartlett foca na crise de John, um adulto jovem casado com um homem maduro, que ao dar “um tempo” se apaixona por uma mulher. Muitos caminhos poderiam ter sido percorridos. Ao contrário do John do Belchior, que sabe que “a felicidade é uma arma quente” e não precisa que lhe digam de que lado nasce o Sol; John, de Bartlett, é um trintão indeciso que vive um conflito existencial bem raso, apresentado de uma maneira totalmente autocentrada, de uma perspectiva branca e privilegiada.

Mike Bartlett é um autor incensado no seu país. A ironia do seu discurso e agilidade ferina de seus diálogos são pontos em comum da sua dramaturgia. No Brasil foram encenadas suas peças Bull, Contrações, Love Love Love e Medea. Assisti montagens das três últimas. São bem instigantes Contrações e Love Love Love, do Grupo 3 de Teatro – companhia mineira encabeçada por Débora Falabella, Yara de Novaes e Gabriel Fontes Paiva. Medea me chegou como uma tentativa malsucedida de atualizar o clássico de Eurípedes.

A peça tem direção de Nelson Baskerville. Foto: Pedro Bonacina / Divulgação

O texto Cock fala de um lugar que (me) incomoda, recorre a clichês. A bicha rica que está  envelhecendo e acha que pode tudo, o jovenzinho meio aproveitador meio perdido, e principalmente o espaço da mulher, que mendiga o afeto do boy ridículo e aceita ser ofendida e atacada por dois, aliás, três homens. Os diálogos de humor ácido podem divertir algumas pessoas, mas percebo como um exercício de retórica de vituperação.

Alguns amigos gays casados disseram que conhecem muitos casais espelhados na peça. Não duvido. Temos até um fascista na presidência! (Cruzes! Xô Satanás). Considero estranho Nelson Baskerville assinar esse espetáculo e não problematizar os estereótipos que estão no texto. Para um diretor que impactou com Luis Antonio – Gabriela, Cock, parece pouco, muito pouco, 

Quando digo que a peça está fora de ordem no tempo é porque esse debate, essa perspectiva parece tão anos 1980. As pautas são outras e aceleram em uma velocidade alucinante.
O deslocamento de lugar. A Oficina Cultural Mário de Andrade ocupa-se mais do experimental, está voltada para investimentos mais ousados em conformidade das demandas atuais. Vivemos em tempos de guerrilhas urbanas.

Muitos já falaram dos embates cortantes e emocionais de Cock. Eles existem, sem dúvida, o dramaturgo é muito engenhoso na criação de falas e tensões. A direção dividiu as cenas como rounds com blackouts no meio.

Mas Cock é divulgada como uma peça que questiona a categorização das pessoas. Não enxergo dobra dessa reflexão. O namorido (Marco Antônio Pâmio) de John (Daniel Tavares) insulta às mulheres de vários modos. E sustenta sua relação sadomasô às custas de ofensas e humilhações. A mulher que entra nessa barca furada (Andrea Dupré) é a personagem mais frágil e mal-acabada dessa dramaturgia. A atriz até tenta, mas a personagem perde todos os confrontos.

A indecisão de John é algo bem patético para uma balzaquiana. Ele quase se desmancha no palco pela debilidade moral. Convence? Talvez sim. Mas irrita mais. O pai do namorido de John (Hugo Coelho) é de um despautério pesado.

O embate frenético dos atores pode ser o ponto mais forte da encenação, um jogo como uma disputada partida. E nesse campo, Pâmio se destaca com sua metralhadora giratória de frases preconceituosas, farpas e provocações.

O público é observador passivo dessa rinha de Baskerville, na arena cenográfica de Chris Aizner. Enquanto as personagens se atacam e se destroem fico aqui pensando se o jogo interpretativo dos atores é suficiente diante de um discurso que se pavoneia crítico das estruturas, mas as repete. Que se lança como ponto de análise das complexas questões identitárias, mas, infelizmente, reproduz um enunciado intolerante e hostil para os que estão fora do circuito de seus umbigos.

Não há vinco na elucubração desse grupo historicamente discriminado, no caso de Cock, o gay, mas homem branco sempre no comando, com as matérias identitárias e de sexualidade mais atuais e suas lutas urgentes e inadiáveis.

Ficha Técnica

Texto: Mike Bartlett.
Tradução: Andrea Dupré.
Direção: Nelson Baskerville.
Elenco: Andrea Dupré, Daniel Tavares, Hugo Coelho e Marco Antônio Pâmio.
Iluminação: Wagner Freire.
Figurino: Marichilene Artisevskis.
Cenário: Chris Aizner.
Trilha Sonora Original: Daniel Maia.
Preparador Corporal: Mauricio Flores.
Cenotécnico: Cesar Rezende.
Técnico de Luz e Som: Leandro Di Cicco.
Acessibilidade Audiovisual: Nara Marques.
Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli.
Midias Digitais: Inspira Comunicação – Felipe Pirillo e VanessaScorsoni.
Fotos: Pedro Bonacina.
Idealização: Andrea Dupré e Daniel Tavares.
Administração: Fenetre Produções. Produção: Contorno Produções.
Produtora Executiva: Laura La Padula.
Assistente de Projetos: Bianca Bertolotto.
Assistente de Produção e Comunicação: Carolina Henriques.
Direção de Produção: Jessica Rodrigues e Victória Martinez. 

O espetáculo COCK – Briga de Galo foi contemplado pela 10ª edição do Prêmio Zé Renato para a Cidade de São Paulo, instituído pela Lei nº 15.951/2014  

Serviço

COCK – Briga de Galo, de Mike Bartlett, com direção de Nelson Baskerville
De 2 a 18 de dezembro – de segunda a sexta, às 20h; sábados, às 18h
Oficina Cultural Oswald de Andrade – Sala 03 – Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro, São Paulo, SP
Ingressos: Grátis, distribuídos 1h antes de cada sessão
Duração: 120 minutos
Classificação indicativa: 14 anos

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Cuidado e política em Amor Mundi

Amor Mundi se inspira na condição de responsabilidade com o mundo. Foto: Alex Merino/ Divulgação

Cia Fragmento de danca, de São Paulo. Foto: Alex Merino / Divulgação

Espetáculo é dirigido por Vanessa Macedo. Foto: Alex Merino / Divulgação

O espetáculo de dança Amor Mundi, da Cia Fragmentos de Dança, de São Paulo, com direção de Vanessa Macedo, é atravessado pela obra da filósofa alemã de origem judaica Hannah Arendt (1906-1975), no que vibra sobre cuidado e política. O trabalho coreográfico, que toca em questões como a partilha com o outro e a responsabilidade com o mundo, faz três apresentações no Sesc Belenzinho, nos dias 17, 18 e 19 de dezembro, com sessões sexta e sábado, às 21h e domingo, às 18h.

Em meados do século 20, Arendt advertia para não duvidarmos da nossa capacidade de destruir a vida orgânica na Terra. De lá para cá, as coisas só pioraram.

“O que proponho, portanto, é muito simples: trata-se apenas de pensar o que estamos fazendo”.
Hannah Arendt 

O conceito de amor mundi é utilizado como mobilizador para identificar a apatia, o descuido, o isolamento, a dessubjetivação como origens dos totalitarismos e por outro lado a responsabilidade com o mundo como as condições de possibilidades históricas para a política e as revoluções.

“É sobre ação que se faz em grupo, espreita o risco, a imprevisibilidade, a codependência, a eminência de colisão e emerge num desejo de insurgir, romper e deixar nascer o que não se sabe”, resume a diretora Vanessa Macedo.

A obra do artista turco Ugur Gallen também foi disparadora para o espetáculo. Gallen expõe a desigualdade social e de costumes nas suas impactantes fotomontagens de reflexões duras, que integram cenas do cotidiano com tragédias e sofrimento, contrastes, desigualdades e contradições.

Concebido originalmente antes da pandemia, o projeto foi adaptado para o ambiente digital, lançado em sessões virtuais ainda em 2020. Para a estreia presencial, o espetáculo retorna ao formato que foi originalmente idealizado, com suas construções coreográficas relacionadas ao toque, cenas de colisões e contato corporal.

A Cia Fragmento de Dança atua desde 2002, com sede na cidade de São Paulo. Durante esse período, ergueu uma linguagem estética autoral interessada em discutir gênero, autoimagem, atrito entre vida e obra. Nos últimos anos, tem se voltado para a investigação do autodepoimento, a experiência da alteridade e a dimensão política do falar sobre si em processos de criação e a fricção entre privado e público na cena.

Ficha Técnica

Amor Mundi
Coreografia e direção: Vanessa Macedo
Intérpretes: Cristiano Saraiva, Diego Hazan, Letícia Mantovani, Maitê Molnar, Thainá Souza, Vanessa Macedo e Vinicius Francês
Iluminação: André Prado
Concepção de vídeo projeção: Bianca Turner
Composição, síntese sonora, gravação e mixagem: Ricardo Pesce
Participação especial : Paulo Jesus
Figurino: Daíse Neves
Assistente de figurino: Pablo Azevedo
Consultoria para cenário: Rogério Marcondes
Produção Executiva: AnaCris Medina

Dança
AMOR MUNDI
Com a Cia Fragmento de Dança
Dias 17, 18 e 19 de dezembro de 2021. Sexta e sábado, 21h. Domingo, 18h
Local: Teatro do Sesc Belenzinho (374 lugares) Endereço: Rua Padre Adelino, 1000.
Belenzinho – São Paulo (SP)
Acesso somente com uso de máscara e apresentação do comprovante de vacinação
Ingressos: R$ 40,00 (inteira); R$20,00 (meia entrada/ Credencial Plena do Sesc).
Venda online a partir de 14/12 (terça), às 12h, em sescsp.org.br/unidades/belenzinho. Venda presencial, em todas as unidades da rede Sesc, a partir de 15/12 (quarta), às 17h.
Recomendação etária: 16 anos
Duração: 50 minutos
Telefone: (11) 2076-9700
sescsp.org.br/unidades/belenzinho

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Armadilhas da justiça
Crítica do espetáculo “A Pane”

Espetáculo tem texto do escritor suíço Friedrich Dürrenmatt. Foto: Rogério Alves / Divulgação

Amo os bichxs de teatro! Os que têm essa arte no DNA e sua prática é tão essencial quanto respirar. Amo esses seres, tão fortes… tão frágeis, tão humanos. Uma constelação desses criadores está no espetáculo A Pane, do escritor suíço Friedrich Dürrenmatt (1921 — 1990), com direção de Malú Bazán. Antonio Petrin, Cesar Baccan, Heitor Goldflus, Marcelo Ullmann, Oswaldo Mendes e Roberto Ascar. Quatro deles veteranos dessa arte e todos inspiram e transpiram essa paixão. A peça parece uma ode ao teatro e à trajetória desses artistas.

Em temporada no Sesc Santana ainda neste domingo (foram só três dias), a montagem volta em 14 de janeiro de 2022, no Teatro Faap, até 20 de fevereiro.

A peça fala de responsabilidade ética, do exercício da justiça e de egos inflamados pelo poder, inclusive por parte de quem comete um “crime”.

A fábula é um intricado e inteligente quebra-cabeça. O Jaguar do representante comercial Alfredo Traps tem uma pane na estrada próxima a uma pequena cidade. Com os hotéis lotados, ele é hospedado pelo ex-juiz da cidade, que “aluga” quartos. Seu pagamento é participar de um jogo curioso. Quatro velhos amigos aposentados assumem suas antigas funções de juiz, promotor, advogado de defesa e carrasco.

Eles partem da premissa que todos nós cometemos algum tipo de delito ou crime secreto. Um ardil engenhoso do promotor com perguntas enreda Traps na morte de seu patrão, fato que gerou a ascensão social do caixeiro-viajante.

Bazán armou um tabuleiro onde as peças trafegam. Em meio a uma sucessão de vinhos de safras especiais, cada personagem expõe seus pontos de vista. O tom de suspense, com rasgos cômicos, faz associações com nossa malfadada realidade – os truques da justiça que colaboraram para atual situação política. É uma experiência kafkiana a do forasteiro, que nos faz pensar também como os registros de distopia mudaram de uns tempos para cá.

Os traços épicos do teatro de Dürrenmatt são acentuados pela direção. Há um humor duro envolvido nesse debate projetado no tecido do real. Uma solução engenhosa de Malú no enquadramento do puro teatro é a personagem do narrador/garçom – e ponto – para acudir eventualmente os octogenários juristas.

Nosso mundo repleto de imperfeições é trançado no palco entre brincadeiras de tribunal, e um questionamento feroz sobre conceitos de justiça e sistema de Justiça. “Uma história ainda possível”, como diz o autor.

A direção é de Malú Bazán. Foto: Rogério Alves / Divulgação

Ficha técnica:
Texto: Friedrich Dürrenmatt
Tradução: Diego Viana
Direção: Malú Bazán
Elenco: Antonio Petrin, Cesar Baccan, Heitor Goldflus, Marcelo Ullmann, Oswaldo Mendes,
Roberto Ascar
Concepção cenográfica: Anne Cerutti e Malú Bazán
Figurino: Anne Cerutti
Assistente de figurino e cenário: Adriana Barreto
Cenotécnico: Douglas Caldas
Desenho de luz: Wagner Pinto
Música original: Dan Maia
Operador de luz: Gabriel Greghi
Operador de som: Silney Marcondes
Contrarregra: Márcio Polli
Fotos: Ronaldo Gutierrez
Visagismo: Dhiego Durso
Programador visual: Rafael Oliveira
Assessoria de imprensa: Pombo Correio
Assistente de produção: Rebeca Oliveira
Assistente de produção: Beatriz Nominato
Co-produção: Kavaná Produções
Produção e realização: Baccan Produções

Serciço:
# A Pane no Sesc Santana
Onde: Sesc Santana (Av. Luiz Dumont Villares, 579, Santana, São Paulo)
Quando: De 10 a 12 de dezembro. Hoje, domingo, a apresentação é às 18h
Ingressos: R$ 40 (inteira), R$ 20 (meia-entrada)
Informações: (11) 2971-8700

# A Pane no Teatro Faap
Onde: Teatro Faap (Rua Alagoas, 903, Higienópolis, São Paulo)
Quando: de 14 de janeiro a 20 de fevereiro de 2022; Sextas-feiras às 21h; sábados, às 20h; domingos, às 18h.
Ingressos: Sábados; R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia-entrada). Sextas e domingos; R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia-entrada), à venda na bilheteria do teatro e pelo site https://teatrofaap.showare.com.br/
Informações: 11 3662-7233 / 11 3662-7234

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Um Tchekhov que denuncia nossa imobilidade
Crítica do espetáculo Por que não vivemos?

Por que não vivemos?, da companhia brasileira de teatro. Foto: Nana Moraes / Divulgação

Josi Lopes e Camila Pitanga. Foto: Nana Moraes / Divulgação

“Por Que Não Vivemos?” é uma baita provocação. Em muitos sentidos. Plena de acendimento. A frase-trecho, e título dado pela companhia brasileira de teatro (grupo sediado em Curitiba e com conexões com o mundo) ao texto de Anton Tchekhov (1860-1904), articula com os desejos de ser/estar/ir além e as armadilhas que nos enredamos na vida. O dramaturgo russo escreveu a história do professor Platonov quando tinha menos de 20 anos. O manuscrito foi descoberto nos arquivos do seu irmão após a morte do escritor e publicado em 1923. Em sua forma original, o manuscrito é um pandemônio sem título, fragmentado, de 300 páginas de um melodrama, geralmente chamado de Platonov.

Com encenação de Marcio Abreu e elenco formado por Camila Pitanga, Cris Larin, Edson Rocha, Josi Lopes, Kauê Persona, Rodrigo Bolzan, Rodrigo Ferrarini e Rodrigo de Odé, Por Que Não Vivemos? faz uma curta temporada no Teatro de Santa Isabel, no Recife, até domingo.

Mergulhar no teatro de Abreu é experiência vigorosa ligada ao imponderável, ao risco, ao abismo. Todas as peças. Com aquecimentos diferentes. Em fluxo contínuo ou com a densidade de um momento que repercute e produz outras dobras no corpo do espectador. Marcio Abreu é uma das vozes mais criativas e lúcidas da arte na atualidade. Um artista incontornável das artes vivas, que leva para a cena a pulsação radical do humano permeado pelo diálogo com o real.

Os discursos subterrâneos, as constelações das dramaturgias, a fluência entre palavras, corpos, imagens, memórias, sons, ações, silêncios. Sua arte me interessa, para fazer alusão à montagem Isso te interessa? (2011), da francesa Noëlle Renaude. Sua arte ressoa em mim e me desperta de outros sentidos, aguça minha sensibilidade. 

Ansiosa por assistir Sem Palavras, que já traça no título um olhar diante das preleções de poderes caducos e nosso torpor horrorizado. Mas também embutido de energia para vibrar em outros acordes.

O elenco é composto por Camila Pitanga, Cris Larin, Edson Rocha, Josi Lopes (na imagem), Kauê Persona, Rodrigo Bolzan, Rodrigo Ferrarini e Rodrigo de Odé (na imagem). Foto: Nana Moraes / Divulgação

A adaptação de Giovana Soar, Nadja Naira e Marcio Abreu (feita a partir de uma tradução original do russo por Pedro Augusto Pinto e de versões francesas) e a encenação acentuam o protagonismo feminino, a inquietação da mulher em buscar mudanças e enfrentar os pré-conceitos.

Por que não vivemos? estreou em julho de 2019 no Rio de Janeiro, passou por Brasília e Belo Horizonte. Em 2020, fez uma temporada curta em São Paulo, interrompida pela pandemia da Covid-9. Foi lá, no Teatro Cacilda Becker, que vi a peça.

A cena inicial da chegada de convidados para a festa na casa da jovem viúva Anna Petrovna (Camila Pitanga) pode ser percebida, agora, como uma celebração da retomada ao teatro presencial; ou a resistência do teatro desde sempre. É uma alegria. Mesmo que lá, como cá, essa gente se ame e se odeie, “os ‘heróis’ tenham morrido de overdose” e haja tanto de vilania e patifaria, de sentimentos mesquinhos e emoções pensadas nobres nas cadeiras do Santa Isabel quanto nesse mundo inundado de gente escorregadia como seres humanos, cheios de segredos e autoilusão. Tchekhov e seus personagens que subvertem o que são e o que poderiam ter sido.

Ambientada numa propriedade rural da jovem viúva Anna Petrovna (Camila Pitanga) a história se desenvolve durante uma grande festa de amigos, ou apenas conhecidos. Mikhail Platonov (Rodrigo de Odé), um ex-idealista que aparece após muitos anos afastado, é o retrato do aristocrata falido, que se tornou professor. Ele desestabiliza o jogo, principalmente pelo reencontro com Sofia, uma paixão de juventude.

“Aqui estamos”, Anna diz a Mikhail. “Como nos velhos tempos, brigando por coisas que não podemos mudar e provavelmente nem mesmo se pudéssemos.”

As situações que envolvem os personagens se repetem. As hipocrisias vêm à tona. Eles mentiram, eles sabem que mentiram, cada um que mente tem consciência de que os outros sabem da trapaça, mas todo mundo está fingindo que a verdade está sendo dita. Os burgueses festejantes e/ou falidos, singulares figuras de Tchekhov. Há uma crise na pré-revolução russa e as personas se posicionam inertes. Nós também estamos num beco sem saída?

Kauê Persona e Camila Pitanga Foto: Nana Moraes / Divulgação

A prática reverbera na cena, em um looping contínuo. Tudo se repete e a vida segue. Mas as aparências não enganam, não, nas ressonâncias contemporâneas do mundo político. É uma selvageria da peça.

A trilha de Felipe Storino, os figurinos de Paulo André e Gilma Oliveira e a cenografia de Marcelo Alvarenga, a luz de Nadja Naiara compõem uma paisagem sonora e imagética repleta de redes nas várias dramaturgias.

A arte produzida nesse contexto de opressões e retrocessos, como o que vivemos atualmente também tem seu poder anunciador das ruínas de algumas estruturas no país que vive uma necropolítica.

Mas reexiste uma ética na estética. A textura do real numa a dramaturgia como campo expandido, que faz ressoar a dimensão pública do teatro e nos traz outras perguntas.

Mas mesmo nesse jogo de aparências tudo foi revelado. As figuras funestas destruíram muito, mas não são invencíveis. Voltamos à pergunta por que não vivemos como deveríamos ter vivido, por que não vivemos aquilo que temos a potencialidade de viver?

Temos alguns faróis. E é hora de colocar a vida em outra perspectiva. De respeito a todos os seres viventes e ao planeta. “Reparar os vivos” Para um devir futuro iluminado.

Camila Pitanga e Rodrigo de Odé. Foto: Nana Moraes / Divulgação 

Por que não vivemos?
Da obra Platonov, de Anton Tchekhov
Direção: Marcio Abreu
Elenco: Camila Pitanga, Cris Larin, Edson Rocha, Josi Lopes, Kauê Persona, Rodrigo Bolzan, Rodrigo Ferrarini e Rodrigo de Odé
Adaptação: Marcio Abreu, Nadja Naira e Giovana Soar

Serviço

Por que não vivemos?
Quando: De 9 a 12 de dezembro; de quinta-feira a sábado, às 19h, e no domingo, às 18h
Onde: Teatro de Santa Isabel (Praça da República, s/n, bairro de Santo Antônio)
Quanto: R$ 40 e R$ 20 (meia-entrada). Ingressos à venda pelo site Sympla
Informações (81) 3355-3323

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