Rumos 2023-2024 seleciona 100 projetos.
Quase metade é do Nordeste

Grupo Experimental de Dança, do Recife, foi selecionado com Campo Minado. Pernambuco aprovou 11 projetos e o Nordeste ficou com 41 contemplados no total, ultrapassando o Sudeste, com 29. Foto: Rogério Alves

A 20ª edição do programa Rumos Itaú Cultural 2023-2024 selecionou 100 projetos culturais de todo o país. O Itaú Cultural divulgou o resultado hoje. Esta versão trouxe uma importante mudança em seu foco, passando a aceitar exclusivamente projetos de criação artística relacionados à arte e cultura brasileiras. Os projetos escolhidos – de 9.389 inscritos – , abrangem uma ampla gama de linguagens artísticas, das mais tradicionais às mais experimentais. Eles passaram por um longo processo de avaliação, que contou com a participação de uma comissão diversificada de várias regiões do país. A comissão de seleção final foi formada por Adriana Ferreira, Ave Terrena, Cristina Castro, Dani Nega, Divino Sobral, Jé Oliveira, Joana Mendes, Joel Zito Araújo, Juliana Jardim, Juliano Holanda e Paulo Miyada. Além dos gestores do Itaú Cultural: Anna Paula Montini, André Furtado, Galiana Brasil, Gilberto Labor, Jader Rosa, Sofia Fan, Tânia Rodrigues, Tatiana Prado e Valéria Toloi.

Nesta edição, a região Nordeste liderou em número de projetos selecionados, alcançando 41% do total, seguida pelo Sudeste com 29%, o Norte com 12%, o Sul com 9%, e o Centro-Oeste com 8%, além de uma pequena parcela de projetos (1%) oriundos de outros países. No que diz respeito à distribuição por estados, o Rio de Janeiro ficou com 13 projetos selecionados, seguido de perto pela Bahia com 12, e tanto São Paulo quanto Pernambuco com 11 projetos cada.

Entre os de Pernambuco estão propostas como Infâmia – 20 anos do Coletivo Angu de Teatro, com dramaturgia a quatro mãos de Marcelino Freire e Newton Moreno, que tem como foco as mentiras / fake news existentes na sociedade brasileira desde os tempos da colonização/ império; e Longusu Xenupre Dudu Nordestina Pe, d’O Poste Soluções Luminosas, ambos do Recife, na categoria Teatro. 

Campo Minado é uma pesquisa criativa do Grupo Experimental, do Recife, que celebra a comunidade do Ibura, destacando a arte das favelas. A obra, uma cocriação da diretora Mônica Lira e Daniel Semsobrenome, transforma um campo de futebol em palco para 22 bailarinos locais, refletindo a diversidade e riqueza cultural da área. O projeto visa não apenas exaltar a estética das comunidades, mas também incitar reflexões sobre racismo, homofobia e discriminação.

Além de A luta inglória de Vânia contra o mar (Boa Hora) de Olinda, na categoria HQ; Taumatrópio, de Djaelton Quirino, de Arcoverde e Asa Branca,  de Carchíris, do Recife, nas categorias Teatro e Artes Visuais, respectivamente.

Ainda em Pernambuco, destacam-se projetos como Sonho, um Inferninho, para desenvolvimento de Minissérie de Ficção, de Hanna Godoy, na categoria Audiovisual/Cinema. Na música, o estado é representado por Luthieria afro-pindorâmica, tecnologias ancestrais e instrumentalização eletrônica, de Thulio Xamba Xamba de Olinda e O Enigma do Frevo, de La Casa En El Aire, do Recife.

Outros estados nordestinos também se destacam com projetos que demonstram a vitalidade artística da região, como a Bahia, que conta com nove projetos selecionados, entre eles Ajeum Bó, de Vovó Cici de Salvador, na categoria Gastronomia; Zumví: Na rota das Manifestações Afro Culturais de Itaparica ao Recôncavo Baiano, de Zumví, também de Salvador, na categoria Artes Visuais; e Tinta da Bahia – romance, de Luciany Aparecida Alves Santos, igualmente da capital baiana, na categoria Literatura.

O Ceará marca presença com quatro projetos, incluindo Oniroscópio: A Máquina dos Sonhos, de Chico Henrique, de Quixeré e O Leilão, de Débora Cristina Lima dos Santos, de Fortaleza, ambos na categoria Teatro.

Cantos Sagrados kariri-xocó, da Artefatos Sagrados tk, de Porto Real do Colégio, de Alagoas. Reprodução da internet

Alagoas marca presença com projetos como Cantos Sagrados kariri-xocó, da Artefatos Sagrados tk, de Porto Real do Colégio, na categoria Música, e Trilha da Cachoeira: Uma imersão em Solos Criativos, do Museu Coleção Karandash de Arte Popular e Contemporânea, de Maceió, na categoria Artes Visuais.

Já no Maranhão, o projeto Osso é Criola Beat, da Upaon Mundo, de São Luís, na categoria Música, explora as raízes da cultura afro-maranhense.

A Paraíba comparece com projetos como Desumanização em Miniatura, do Coletivo Ser Tão Teatro, de João Pessoa, na categoria Teatro. Além de Totonho e Os Cabra – Funk de Embolada e Hip Hop do Mato, de Toroh Música & Cultura, também de João Pessoa, na categoria Música, evidenciando a fusão de gêneros musicais tradicionais e contemporâneos.

No Piauí, projetos como Flow da Caatinga, do Original Bomber Crew, de Teresina, na categoria Dança, e Marias da Terra, as palhaças agricultoras em processo de matrigestão, de Tércia Alves Ribeiro), também de Teresina, na categoria Circo, atestam a potência criativa do estado.

O projeto O Interior do Interior Da Minha Avó, de Regina Azevedo, de Natal, na categoria Literatura, representa o Rio Grande do Norte, explorando as memórias e as histórias familiares.

Já Sergipe conta com Olha pro céu, meu amor, da Aldeia Escola de Circo, de Aracaju, na categoria Circo, e Rua da Frente – o romance, de Euler Lopes Teles, também de Aracaju, na categoria Literatura.

Esses projetos evidenciam a riqueza e a diversidade cultural do Nordeste, abrangendo diferentes linguagens artísticas e temáticas relevantes para a região e para o país como um todo.

O diretor Jé Oliveira e os gestores do Itaú Cultural Valéria Toloi e Jader Rosa, da comissão de seleção. Foto: Letícia Vieira / Divulgação

Além da forte presença nordestina, a seleção do Rumos Itaú Cultural 2023-2024 contempla projetos de todas as regiões do Brasil.

Na região Norte, o Amazonas emplaca quatro projetos, entre eles Óculos de Okotô, de Keila dos Santos Serruya e Sebastião, da Ateliê 23, ambos de Manaus, nas categorias Artes Visuais e Teatro, respectivamente. O Pará também participa com projetos como Documentário Fogo No Rabo, de LH Produções, de Belém, na categoria Audiovisual/Cinema, e Um altar cheirando à oriza, com ruídos do mar, de Luciana Lemos, de Bragança, na categoria Artes Visuais.

No Centro-Oeste, o Distrito Federal se sobressai com cinco projetos, incluindo Desenvolvimento de roteiro do longa-metragem Vão das Almas, da Nada Consta Produções e Hacker Leonilia, da Fontele Studios, ambos de Brasília, nas categorias Audiovisual/Cinema. Mato Grosso também se destaca com Kamukuwaká Realidade Virtual – Um Patrimônio Arqueológico E Cultural Indígena Brasileiro, da Pirata Waura e Plantas Medicinais do Alto Xingu – Ervas Tunuly, do Pigma Wajurupa Kamayura, ambos de Canarana, nas categorias Arte e Tecnologia e Audiovisual/Cinema, respectivamente.

Na região Sudeste, São Paulo conta com 11 projetos selecionados, abrangendo diversas linguagens artísticas. Destaques incluem Batucada Tamarindo, Maurício Alves de Oliveira, na categoria Música; Madrugada no Edifício Terezinha, da (Coala Filmes, na categoria Audiovisual/Cinema; e Recolheita, da Cidade Quintal, na categoria Design, todos da capital paulista. O Rio de Janeiro figura com 13 projetos, como Ensaio sobre uma atriz que está ficando cega, da Pé de Vento, na categoria Performance, e O Cometa: performatividade transexual negra nas artes visuais, de Guilhermina Augusti da Silva Santos, na categoria Artes Visuais, ambos da cidade do Rio de Janeiro.

Minas Gerais contribui com projetos como Dos cantos para as cordas – Arranjos instrumentais para Vissungos, de Felipe Mancini, de Ouro Preto, na categoria Música, e Kakxop pahok: as crianças cegas, de Charles Bicalho, de Belo Horizonte, na categoria Audiovisual/Cinema. O Espírito Santo aparece com Recolheita, Cidade Quintal, de Vitória, na categoria Design.

Por fim, a região Sul está representada por projetos como Rainha, de Karin Serafin, de Florianópolis e Entre: Palhaçaria e Acesso, da Laço Cia. de Arte, de Jaraguá do Sul, ambos de Santa Catarina, nas categorias Dança e Teatro, respectivamente. O Paraná se destaca com Monstruosas alianças: práticas simbióticas de dança e ecologia, da Selvática Ações Artísticas, de Curitiba, na categoria Dança, e Venha ver a revoada: projeto de criação aberta de romance sobre migração brasileira no Japão, de Rafaela Tavares Kawasaki, também de Curitiba, na categoria Literatura. Já o Rio Grande do Sul está representado por projetos como IGBA AWO, do Cavalo de Ideias, de Porto Alegre, na categoria Música, e O Palhaço Morto – Máquinas Para Chorar e Sorrir, do De Pernas Pro Ar, de Canoas, na categoria Teatro.

Ao analisar a lista dos 100 projetos selecionados pelo Rumos Itaú Cultural 2023-2024, –  a partir do título, região e proponente; já que os detalhes, segundo a assessoria de imprensa, só serão disponibilizados “à medida que os projetos forem lançados” – é possível identificar uma diversidade de linguagens artísticas e temáticas abordadas.

Na categoria Arte e Tecnologia, Atlas Imaginário, Manaus, de Gabriela Bìlá, de Brasília-DF, propõe uma investigação sobre a capital amazonense por meio de recursos tecnológicos, explorando novas formas de representação e percepção do espaço urbano. Já Kamukuwaká Realidade Virtual – Um Patrimônio Arqueológico E Cultural Indígena Brasileiro, do Pirata Waura), de Canarana-MT, busca preservar e difundir o patrimônio cultural indígena através da realidade virtual.

No campo da Dança, o trabalho Monstruosas alianças: práticas simbióticas de dança e ecologia, da Selvática Ações Artísticas, de Curitiba-PR, investiga a relação entre corpo, movimento e natureza, propondo uma reflexão sobre a crise ambiental contemporânea. Rainha” (Karin Serafin), de Florianópolis-SC, explora questões de gênero e identidade por meio da linguagem da dança.

Na Literatura, Depois de mim não haverá nada, de Bárbara Pereira Mançanares, de Eunápolis-BA, aborda temas como memória, ancestralidade e resistência negra. Venha ver a revoada: projeto de criação aberta de romance sobre migração brasileira no Japão, de Rafaela Tavares Kawasaki, de Curitiba-PR, propõe uma reflexão sobre os deslocamentos humanos e a construção de identidades em contextos interculturais.

Nas Artes Visuais, O que é uma pessoa negra quando não é Deus ou miserável?, de Lais Machado, de Salvador-BA, questiona estereótipos e representações raciais por meio de uma investigação poética e conceitual. Trilha da Cachoeira: Uma imersão em Solos Criativos, do Museu Coleção Karandash de Arte Popular e Contemporânea, de Maceió-AL, propõe uma experiência imersiva que conecta arte, natureza e ancestralidade.

No Teatro, Desumanização em Miniatura, do Coletivo Ser Tão Teatro, de João Pessoa-PB, aborda questões sociais e políticas através da linguagem do teatro de animação. Forma negativa, do Gabinete 3, de Brasília-DF, investiga os limites entre realidade e ficção, explorando novas possibilidades cênicas.

A seleção dos 100 projetos pelo Rumos Itaú Cultural 2023-2024 demonstra um esforço em promover uma distribuição geográfica equilibrada, contemplando diferentes regiões do país. Esse aspecto é positivo, pois valoriza a diversidade cultural brasileira e busca descentralizar a produção artística, historicamente concentrada nos grandes centros urbanos.

Ao dar visibilidade a projetos de estados e cidades muitas vezes marginalizados no circuito artístico nacional, essa edição do Rumos contribui para o fortalecimento de cenas locais e para a descoberta de novos talentos. Essa abordagem inclusiva e plural é fundamental para a democratização do acesso à cultura e para a construção de um panorama mais representativo da arte contemporânea brasileira.

Além da questão geográfica, a seleção também parece ter valorizado pautas identitárias, trazendo para o primeiro plano projetos que abordam questões de raça, gênero, sexualidade, etnia e outras interseccionalidades. Essa escolha é relevante, pois garante protagonismo a grupos historicamente silenciados e marginalizados, permitindo que suas narrativas, experiências e perspectivas sejam compartilhadas e reconhecidas.

Para além da representatividade, é importante que os projetos selecionados tenham um caráter questionador, provocativo e transformador. A arte tem o poder de desestabilizar estruturas, romper com padrões estabelecidos e propor novas formas de pensar e agir. Nesse sentido, espera-se que, dentre as propostas contempladas, haja muitas que instiguem reflexões incômodas, que problematizem o sistema vigente e que proponham alternativas criativas e disruptivas.

Projetos que ousam experimentar linguagens, que subvertem formatos tradicionais e que criam pontes entre diferentes campos do conhecimento têm o potencial de oxigenar a cena artística e de apontar novos caminhos. Essas iniciativas são fundamentais para manter a arte viva, pulsante e conectada com as questões mais urgentes do nosso tempo.

Portanto, a seleção do Rumos Itaú Cultural 2023-2024 parece ter dado passos importantes na direção de uma maior inclusão, representatividade e descentralização da produção artística brasileira. Agora, cabe acompanhar o desenvolvimento desses projetos, torcer para que eles realizem todo o seu potencial crítico e transformador.

Projetos selecionados

01. AfroCirco: Rir, Resistir e Recriar (Oriri Agência Cultural)
Ribeirão Preto – São Paulo
Região impactada: São Paulo
Tema: Circo

02. Encantaria – teatro lambe-lambe (Tábatta Iori Thiago MEI)
Vilhena – Rondônia
Região impactada: Rondônia
Tema: Teatro

03. Ensaio sobre uma atriz que está ficando cega (Pé de Vento)
Rio de Janeiro – Rio de Janeiro
Região impactada: Rio de Janeiro
Tema: Performance

04. Oniroscópio: A Máquina dos Sonhos (CHICO HENRIQUE)
Quixeré – Ceará
Região impactada: Ceará
Tema: Teatro

05. [B]ERRANTES (ASSOCIAÇÃO GIRA MUNDO)
Macapá – Amapá
Região impactada: Amapá, Amazonas, Ceará, Paraíba, Santa Catarina, São Paulo, África do sul, Bélgica, México
Tema: Teatro

06. 2/3 de Desejo (Companhia PeQuod Teatro de Animação)
Rio de Janeiro – Rio de Janeiro
Regiões impactadas: Rio de Janeiro
Tema: Dança

07. A luta inglória de Vânia contra o mar (Boa Hora)
Olinda – Pernambuco
Região impactada: Pernambuco
Tema: HQ

08. A última temporada (Fb9 Produções)
Rio de Janeiro – Rio de Janeiro
Região impactada: Rio de Janeiro
Tema: Audiovisual/Cinema

09. ACRE NEGRO: OS PRETOS QUE FIZERAM O ACRE (Francisco Teddy Falcão)
Rio Branco – Acre
Região impactada: Acre
Tema: Audiovisual/Cinema

10. AJEUM BÓ (Vovó Cici)
Salvador – Bahia
Região impactada: Bahia
Tema: Gastronomia

11. ANTICORO (Masina Pinheiro)
Rio de Janeiro – Rio de Janeiro
Região impactada: Rio de Janeiro
Tema: Artes visuais

12. AS GAROTAS DO FANTÁSTICO NÃO FALAM (Akan Produções)
Fortaleza – Ceará
Região impactada: Ceará
Tema: Audiovisual/Cinema

13. As Queer As Fashion – Drag, Moda e criações QUEER (João Paulo Pereira Guimarães)
Valença – Bahia
Região impactada: Bahia
Tema: Moda

14. Asa Branca (Carchíris)
Paço do Lumiar – Maranhão
Região impactada: Maranhão e Piauí
Tema: Artes visuais

15. Atlas Imaginário, Manaus (Gabriela Bìlá)
Brasília – Distrito Federal
Região impactada: Amazonas e Distrito Federal
Tema: Arte e tecnologia

16. Batalha Imaginada (MAURÍCIO POKEMON)
Teresina – Piauí
Região impactada: Piauí
Tema: Artes visuais

17. Batucada Tamarindo (Maurício Alves de Oliveira 02085681409)
São Paulo – São Paulo
Região impactada: São Paulo
Tema: Música

18. CAMPO MINADO (MONICA LIRA DE QUEIROZ TRINDADE 39770494453)
Recife – Pernambuco
Região impactada: Pernambuco
Tema: Dança

19. Canções do amor e do tempo (Sanzala Cultural)
Cachoeira – Bahia
Região impactada: Bahia
Tema: Música

20. Cantos Sagrados kariri-xocó (Artefatos Sagrados tk)
Porto Real do Colégio – Alagoas
Região impactada: Alagoas
Tema: Música

21. Capa Preta (PANAN FILMES)
Maceió – Alagoas
Região impactada: Alagoas
Tema: Audiovisual/Cinema

22. CAPENGA! (Maria Estela Galvão Lapponi)
São Paulo – São Paulo
Região impactada: São Paulo
Tema: Dança

23. Corpo Liminar (Lucas Ogasawara de Oliveira)
São Vicente – São Paulo
Região impactada: São Paulo
Tema: Arte e tecnologia

24. Criação de roteiro para o filme de palhaças que viajam de bicicleta pelo Brasil (Mone Melo)
Cabo de Santo Agostinho – Pernambuco
Região impactada: Pernambuco
Tema: Audiovisual/Cinema

25. Da Macega à Makaia – abrindo caminhos na tradução do falar negro de terreiro (Ricardo de Moura)
Belo Horizonte – Minas Gerais
Região impactada: Minas Gerais
Tema: Literatura

26. De Codó a Ceilândia (Gustavo Azevedo da Silva Santos)
Brasília – Distrito Federal
Região impactada: Distrito Federal e Maranhão
Tema: Artes visuais

27. Depois de mim não haverá nada (Bárbara Pereira Mançanares)
Eunápolis – Bahia
Região impactada: Bahia, Minas Gerais e Pernambuco
Tema: Literatura

28. Desenvolvimento de roteiro do longa-metragem Vão das Almas (Nada Consta Produções)
Brasília – Distrito Federal
Região impactada: Distrito Federal
Tema: Audiovisual/Cinema

29. Desumanização em Miniatura (Coletivo Ser Tão Teatro)
João Pessoa – Paraíba
Região impactada: Paraíba
Tema: Teatro

30. DOCUMENTÁRIO “BAIAFRO: as raízes do AfroFuturismo nos anos 70” (INSTITUTO DJALMA CORREA)
Rio de Janeiro – Rio de Janeiro
Região impactada: Bahia e Rio de Janeiro
Tema: Audiovisual/Cinema

31. DOCUMENTÁRIO FOGO NO RABO (LH Produções)
Belém – Pará
Região impactada: Pará
Tema: Audiovisual/Cinema

32. Dos cantos para as cordas – Arranjos instrumentais para Vissungos (Felipe Mancini)
Ouro Preto – Minas Gerais
Região impactada: Minas Gerais
Tema: Música

33. EDSON (Matheus Macena Associação Cultural)
Rio de Janeiro – Rio de Janeiro
Região impactada: Rio de Janeiro
Tema: Teatro

34. Elefante (Mariana Alves Pereira Fernandes Machado)
São Caetano do Sul – São Paulo
Região impactada: São Paulo
Tema: Teatro

35. ELEGBAPHO – Território Afro-cênico de Celebração Negra (Zâmbia – Produções e Eventos)
Alagoinhas – Bahia
Região impactada: Bahia
Tema: Teatro

36. ENTRE: Palhaçaria e Acesso (Laço Cia. de Arte)
Jaraguá do Sul – Santa Catarina
Região impactada: Santa Catarina
Tema: Teatro

37. Esculturas crespas: o afrofuturismo cerradeiro (Maria das Neves Jardim de Deus)
Aparecida de Goiânia – Goiás
Região impactada: Goiás
Tema: Moda

38. Eu não me calo — A África nas ruas de São Paulo (Manuel Kafina)
Benguela – Benguela
Região impactada: São Paulo
Tema: Teatro

39. Flow da Caatinga (ORIGINAL BOMBER CREW)
Teresina – Piauí
Região impactada: Piauí
Tema: Dança

40. Foi um jeito de derreter (Jessica Brisola Stori)
Curitiba – Paraná
Região impactada: Paraná
Tema: Literatura

41. Forma negativa (GABINETE 3)
Brasília – Distrito Federal
Região impactada: Distrito Federal
Tema: Teatro

42. Fotomisantropia (romance epistolar gráfico) (Luisa Bruno Lopes de Abreu Lima)
Rio de Janeiro – Rio de Janeiro
Região impactada: Rio de Janeiro
Tema: Literatura

43. FRANCISCA LUIS (NAIRA NANBIWI SOARES)
Salvador – Bahia
Região impactada: Bahia
Tema: Audiovisual/Cinema

44. FRETE GRÁTIS PARA TODO O NORTE, EXCETO PARA O BRASIL (EMBUÁ PRODUTORA CULTURAL)
Boa Vista – Roraima
Região impactada: Roraima
Tema: Artes visuais

45. Geovana – Beijo Sabor Cereja (Maria Teresa Gomes)
São Paulo – São Paulo
Região impactada: São Paulo
Tema: Música

46. Hacker Leonilia (Fontele Studios)
Brasília – Distrito Federal
Região impactada: Distrito Federal
Tema: Audiovisual/Cinema

47. IGBA AWO (CAVALO DE IDEIAS)
Porto Alegre – Rio Grande do Sul
Região impactada: Rio Grande do Sul
Tema: Música

48. Ilustre Desconhecido (CAROL CONY)
Rio de Janeiro – Rio de Janeiro
Região impactada: Rio de Janeiro
Tema: Circo

49. imigração chinesa: a nova geração (Jefferina Tong)
São Paulo – São Paulo
Região impactada: Amazonas, Paraíba, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo
Tema: Artes visuais

50. Infâmia – 20 anos do Coletivo Angu de Teatro (Atos Produções Artísticas Ltda. – ME)
Recife – Pernambuco
Região impactada: Pernambuco e São Paulo
Tema: Teatro

51. Isso é Criola Beat (Upaon Mundo)
São Luís – Maranhão
Região impactada: Maranhão
Tema: Música

52. Kakxop pahok: as crianças cegas (Charles Bicalho)
Belo Horizonte – Minas Gerais
Região impactada: Minas Gerais
Tema: Audiovisual/Cinema

53. KAMUKUWAKÁ REALIDADE VIRTUAL – UM PATRIMÔNIO ARQUEOLÓGICO E CULTURAL INDÍGENA BRASILEIRO (50.913.535 Pirata Waura)
Canarana – Mato Grosso
Região impactada: Mato Grosso e Rio de Janeiro
Tema: Arte e tecnologia

54. Longusu Xenupre Dudu Nordestina Pe (O Poste Soluções Luminosas)
Recife – Pernambuco
Região impactada: Pernambuco
Tema: Teatro

55. Luthieria afro-pindorâmica, tecnologias ancestrais e instrumentalização eletrônica: pesquisa, experimentação e construção musical do grupo Orí. (Thulio Xamba Xamba)
Olinda – Pernambuco
Região impactada: Paraíba e Pernambuco
Tema: Música

56. Madrugada no Edifício Terezinha (COALA FILMES)
São Paulo – São Paulo
Região impactada: São Paulo
Tema: Audiovisual/Cinema

57. Marias da Terra, as palhaças agricultoras em processo de matrigestão (TÉRCIA MARIA ALVES RIBEIRO)
Teresina – Piauí
Região impactada: Piauí
Tema: Circo

58. MARIMBÃ ESTÁ ACONTECENDO (Marin Monteiro Maciel)
Fortaleza – Ceará
Região impactada: Ceará
Tema: Audiovisual/Cinema

59. Monstruosas alianças: práticas simbióticas de dança e ecologia (Selvática Ações Artísticas)
Curitiba – Paraná
Região impactada: Bahia, Paraná, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo
Tema: Dança

60. Morro do Criminoso: uma história sobre heranças e diálogos (Mayara Barbosa Silva)
Campo Grande – Mato Grosso do Sul
Região impactada: Mato Grosso do Sul
Tema: HQ

61. Mundaréu (Criação de história em quadrinhos sobre impactos ambientais) (Álvaro Maia)
Palmas – Tocantins
Região impactada: Tocantins
Tema: HQ

62. Na Toca do Gambá (Leandro Paz)
Manaus – Amazonas
Região impactada: Amazonas
Tema: Teatro

63. Nação (Maria Clara Guiral)
São Paulo – São Paulo
Região impactada: São Paulo
Tema: HQ

64. O COMETA: performatividade transexual negra nas artes visuais (Guilhermina Augusti da Silva Santos)
Rio de Janeiro – Rio de Janeiro
Região impactada: Rio de Janeiro
Tema: Artes visuais

65. O DEPOIMENTO VIVO DE MANICONGO (Chica Andrade)
São Paulo – São Paulo
Região impactada: São Paulo
Tema: Audiovisual/Cinema

66. O Enigma do Frevo (LA CASA EN EL AIRE)
Recife – Pernambuco
Região impactada: Pernambuco
Tema: Música

67. O INTERIOR DO INTERIOR DA MINHA AVÓ (REGINA AZEVEDO)
Natal – Rio Grande do Norte
Região impactada: Rio Grande do Norte
Tema: Literatura

68. O JARDIM – de Denilson Baniwa (DENILSON BANIWA ESTUDIO LTDA)
Niterói – Rio de Janeiro
Região impactada: Amazonas e Rio de Janeiro
Tema: Audiovisual/Cinema

69. O Leilão (Débora Cristina Lima dos Santos 03569562379)
Fortaleza – Ceará
Região impactada: Ceará
Tema: HQ

70. O MUNDO FORA DA PEDRA (Papo Amarelo Produções Cinematográficas)
Recife – Pernambuco
Região impactada: Mato Grosso e Pernambuco
Tema: Literatura

71. O PALHAÇO MORTO – Máquinas para chorar e sorrir (De Pernas Pro Ar)
Canoas – Rio Grande do Sul
Região impactada: Rio Grande do Sul
Tema: Teatro

72. O que é uma pessoa negra quando não é Deus ou miserável? (Lais Machado)
Salvador – Bahia
Região impactada: Bahia
Tema: Artes visuais

73. O Raio que o Trava (Rafaela Maria Moreira Monteiro)
Ananindeua – Pará
Regiões impactadas: Pará
Tema: Artes visuais

74. Óculos de Okotô (Keila dos Santos Serruya)
Manaus – Amazonas
Região impactada: Amazonas
Tema: Artes visuais

75. Olha pro céu, meu amor (Aldeia Escola de Circo)
Aracaju – Sergipe
Região impactada: Sergipe
Tema: Circo

76. OPHIDIA (Wallace Ferreira)
Rio de Janeiro – Rio de Janeiro
Região impactada: Rio de Janeiro
Tema: Performance

77. Plantas Medicinais do Alto Xingu – Ervas Tunuly (Pigma Wajurupa Kamayura)
Canarana – Mato Grosso
Região impactada: Mato Grosso
Tema: Audiovisual/Cinema

78. RAINHA (Karin Serafin)
Florianópolis – Santa Catarina
Região impactada: Santa Catarina
Tema: Dança

79. Ramino, o som da natureza em transformação. (Camila Silva Ribeiro)
Rio das Ostras – Rio de Janeiro
Região impactada: Rio de Janeiro
Tema: Música

80. Recado (Paulo Roberto Guedes Bastos)
Macapá – Amapá
Região impactada: Amapá e São Paulo
Tema: Música

81. RECOLHEITA (CIDADE QUINTAL)
Vitória – Espírito Santo
Região impactada: Espírito Santo e São Paulo
Tema: Design

82. Rocha Navegável (volumes II e III) (FABIO JOSE RIOS DA COSTA)
Salvador – Bahia
Região impactada: Bahia
Tema: HQ

83. Rua da Frente – o romance (Euler Lopes Teles)
Aracaju – Sergipe
Região impactada: Sergipe
Tema: Literatura

84. Sebastião (Ateliê 23)
Manaus – Amazonas
Região impactada: Amazonas
Tema: Teatro

85. Sob o Signo Ancestral (Daniel Cesart)
Salvador – Bahia
Região impactada: Bahia
Tema: HQ

86. SONHO, UM INFERNINHO (Desenvolvimento de Minissérie de Ficção) (Hanna Godoy)
Recife – Pernambuco
Região impactada: Pernambuco
Tema: Audiovisual/Cinema

87. TAMBOA (Isaar Maria de França Santos)
Recife – Pernambuco
Região impactada: Maranhão, Minas Gerais e Pernambuco
Tema: Música

88. Taumatrópio (Djaelton Quirino dos Santos)
Arcoverde – Pernambuco
Região impactada: Pernambuco
Tema: Teatro

89. Territórios Compartilhados: Antologia Indígena em Quadrinhos (Eá Borum)
Paraty – Rio de Janeiro
Regiões impactadas: Rio de Janeiro
Tema: HQ

90. Tibungo (MAFE)
São Paulo – São Paulo
Região impactada: São Paulo
Tema: Audiovisual/Cinema

91. Tinta da Bahia – romance (Luciany Aparecida Alves Santos)
Salvador – Bahia
Região impactada: Bahia
Tema: Literatura

92. TÍTULO: Mboraí Nhe’ên – Espírito Cantar (Tainara Takua)
Uruçuca – Bahia
Região impactada: Bahia, Maranhão e Santa Catarina
Tema: Música

93. Totonho e Os Cabra – Funk de Embolada e Hip Hop do Mato (Toroh Música & Cultura)
João Pessoa – Paraíba
Região impactada: Paraíba
Tema: Música

94. Trilha da Cachoeira: Uma imersão em Solos Criativos (MUSEU COLEÇÃO KARANDASH DE ARTE POPULAR E CONTEMPORÂNEA)
Maceió – Alagoas
Região impactada: Alagoas
Tema: Artes visuais

95. Trilogia sobre a Velhice – escrita do Terceiro Livro (Dayse Torres)
Campinas – São Paulo
Região impactada: São Paulo
Tema: Literatura

96. Um altar cheirando à oriza, com ruídos do mar (LUCIANA LEMOS)
Bragança – Pará
Região impactada: Pará
Tema: Artes visuais

97. VAZANTE (CANTEIRO – CRIAÇÃO, PRODUÇÃO E PRATICAS ARTÍSTICAS)
Teresina – Piauí
Região impactada: Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo
Tema: Dança

98. Venha ver a revoada: projeto de criação aberta de romance sobre migração brasileira no Japão (Rafaela Tavares Kawasaki)
Curitiba – Paraná
Região impactada: Paraná e Japão
Tema: Literatura

99. ZAMAK (PICADA LIVROS)
Curitiba – Paraná
Região impactada: Paraná
Tema: Artes visuais

100. Zumví: Na rota das Manifestações Afro Culturais de Itaparica ao Recôncavo Baiano (Zumví)
Salvador – Bahia
Região impactada: Bahia
Tema: Artes visuais

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Ser antirracista é um exercício constante
Crítica da peça Para Meu Amigo Branco

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Cenário branco. Foto: Sabrina da Paz

O espetáculo Para Meu Amigo Branco traça um cruzamento instigante entre racismo e o privilégio da branquitude, conceitos que se manifestam de maneiras distintas, mas estão relacionados. O sistema de desigualdade baseado na raça, discrimina, marginaliza e oprime pessoas pretas, pardas e outras, enquanto o privilégio da branquitude confere vantagens sociais, políticas e econômicas às pessoas brancas. Muitos sabemos. Poucos admitem perder os privilégios.

Numa reunião de escola de classe média alta, ou de elite, entre pais e educadores, Monsueto Ferreira (interpretado pelo ator Reinaldo Júnior), o pai da pequena Zuri de 8 anos, relata que sua filha foi vítima de racismo por um colega, tendo sido chamada pejorativamente de “negra fedorenta”. Este incidente é o ponto de partida da peça Para Meu Amigo Branco, dirigida por Rodrigo França e inspirada no livro homônimo do jornalista e ativista Manoel Soares. França e Mery Delmond assinam a adaptação do texto, que expõe com humor e verdade o racismo estrutural da sociedade brasileira.

A história desafia a visão simplista da escola que tenta enquadrar o ato de racismo como um caso de bullying, enquanto o pai da menina esforça-se para evidenciar a complexidade do preconceito racial e chamar os envolvidos à responsabilidade. Sim, porque o pequeno racista é a ponta de uma cadeia de outros conectores da mesma sintonia e a escola assume uma postura, no mínimo, omissa.

Já sabemos, ou deveríamos saber, que o racismo não é apenas um conjunto de preconceitos individuais, mas uma construção social que permeia as instituições e a cultura. Então, o racismo é uma realidade social construída que se movimenta através da linguagem, práticas institucionais e interações cotidianas. Quando um homem branco é confrontado com seu racismo, o que acontece?

Personagem André  Schneider (Alex Nader), tenta convencer o inconvencível. Foto: Sabrina da Paz / Divulgação

É muito interessante, inteligente e perspicaz como o espetáculo Para Meu Amigo Branco desvela as camadas de negação e autoengano presentes em indivíduos que não reconhecem seu próprio racismo. Existe um humor cáustico nesse procedimento de expor a dissonância cognitiva, teoria desenvolvida por Leon Festinger que esmiúça a inconsistência entre as crenças de uma pessoa e suas ações. O personagem André  Schneider (Alex Nader), pai do pequeno Júnior não consegue interpretar o mundo fora de seu próprio quadro de referência.

A escritora feminista norte-americana, ativista antirracista e acadêmica Peggy McIntosh, em seu trabalho Unpacking the Invisible Knapsack, explora o conceito de privilégio branco como uma coleção invisível de vantagens não merecidas (vamos sublinhar) que os brancos podem contar, mas que frequentemente ignoram ou não reconhecem como tal. McIntosh argumenta que o privilégio é como uma mochila invisível de provisões especiais, mapas, passaportes, códigos, vistos e ferramentas que indivíduos brancos carregam inconscientemente. Essa metáfora ilustra como o privilégio branco permeia as experiências cotidianas, afetando a percepção de si e as interações sociais sem que haja necessariamente uma consciência ativa dessas vantagens.

O personagem André  Schneider é assim. Em princípio ele se solidariza com a violência racial sofrida pela filha de Mansueto. Até descobrir que quem cometeu o crime foi seu próprio filho. As capas e máscaras começam a cair. Como num ringue em que os pais, o preto e o branco, atuam para defender suas posições. Os melhores argumentos, os mais racionais e humanos de Mansueto recebem aplausos e apoio da plateia (foi assim quando assisti).

O cenário de Clebson Prates busca sublimar os padrões de conduta da branquitude dominante e hegemônica de uma escola de elite. Para isso, ele utiliza um linóleo, a lousa e as carteiras escolares na cor branca. Ao mesmo tempo, diversos livros de autores negros estão suspensos no ar,  como os de Rodrigo França, Nei Lopes, Marilene Felinto, Mario Medeiros, Jarid Arraes, Sonia Rosa, Emicida, Mery Delmond, Elisa Lucinda, Miró, Mário de Andrade, Lázaro Ramos, entre outros.

A escolha da figurinista Marah Silva de usar cores específicas para diferenciar os personagens brancos e negros é uma estratégia visual rica para projetar as dinâmicas raciais. As figuras brancas estão vestidas de roupas em branco e as personagens negras em tons de marrom. O branco, além de associado a ideias de pureza e blábláblá, pode ser visto como uma caricatura da “folha em branco”, sugerindo uma posição de neutralidade ou até de ignorância em relação às complexidades das questões raciais. Já o marrom para as personagens negras reflete uma conexão com a cor da pele, além de invocar a terra, sugerindo raízes, resistência e uma conexão com a ancestralidade.

Alguns espectadores ficam sentados nas carteiras, dispostas em formato circular, participando do conjunto da reunião. Os atores interagem com essa plateia e com o todo para questionar as violências raciais muitas vezes veladas ou minimizadas como “brincadeiras”. Aliás, alguns jogos são inseridos no espetáculo. 

AS atrizes Mery Delmond e Marya Bravo. Foto: Sabrina da Paz / Divulgação

Quando convocada para mediar o conflito, a professora Valéria Oliveira (Mery Delmond) praticamente desenha para quem ainda não entendeu que o racismo está entrelaçado nas estruturas de poder da sociedade. Ela explica a Teoria Crítica da Raça e as manifestações de privilégio racial e que a capacidade de permanecer ignorante das realidades do racismo é um luxo sustentado por estruturas de poder desiguais. Pode chegar como didático para quem já tem letramento no assunto, mas chega a ser bonita a progressão. Dizer pedagógico não é um problema, é um processo.

A jornada da professora Magda Antunes (Marya Bravo) – de técnica alienada que apoia os posicionamentos de poder dos brancos, que não se solidariza com a dor de uma criança preta e que acha possível simular pacificação em conflitos complexos – à uma tomada de consciência dos problemas profundos – é praticamente uma utopia em sua rapidez. Vale apostar na utopia, mas parece um trajeto mais intricado. Mas vamos confiar trabalhando por mudanças. 

De todo modo, reconhecer os emaranhados dessas dinâmicas é um passo crucial para desmontar as estruturas de poder que perpetuam as desigualdades raciais. Essa produção teatral vibrante e dinâmica faz a sua parte.

Desejo que Para Meu Amigo Branco, com suas performances impactantes e sua narrativa crítica e antirracista, corra o Brasil e frequente muitos lugares para sacodir as ordens injustas estabelecidas. 

Reinaldo Junior interpreta o pai dedicado que defende sua filha do racismo. Sabrina da Paz / Divulgação

 

FICHA TÉCNICA

Para Meu Amigo Branco
Inspirado no livro de Manoel Soares
Texto: Rodrigo França e Mery Delmond
Direção: Rodrigo França
Elenco: Reinaldo Junior e Alex Nader
Atrizes convidadas: Stella Maria Rodrigues, Mery Delmond e Marya Bravo
Direção de movimento: Tainara Cerqueira
Cenário: Clebson Prates
Figurino: Marah Silva
Iluminação: Pedro Carneiro
Trilha sonora original: Dani Nega
Consultoria pedagógica: Clarissa Brito
Consultoria de representações raciais e de gênero: Deborah Medeiros
Fotografia: Afroafeto por Gabriella Maria, Sabrina da Paz e Agátha Flora
Identidade visual: Nós Comunicações
Assessoria de imprensa: Canal Aberto — Márcia Marques, Daniele Valério e Marina Franco
Operação de som: Hugo Charret
Operação de luz: Lucas da Silva
Assistência de produção: Ludimila D´Angelis e Eduardo Rio
Produção executiva: Júlia Ribeiro
Contabilidade: Cristiano Geraldo Costa dos Santos
Idealização e direção de produção: João Bernardo Caldeira
Produção: São Bernardo

Este texto integra o projeto arquipélago de fomento à crítica, com apoio da Corpo Rastreado.

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Monga, um espetáculo em construção
Farofa do Processo
Segunda parte

Monga, trabalho em andamento de Jéssica Teixeira, na Farofa do Processo. Foto: Ligia Jardim / Divulgação

O espetáculo em processo Monga, concebido e protagonizado por Jéssica Teixeira visita o lugar do estranho com ousadia, para falar de si e de uma dinâmica do mundo opressor/repressor. Para isso, a artista mergulha na jornada de Julia Pastrana, mexicana que adquiriu notoriedade sob a alcunha depreciativa de “mulher-macaco”, figurando como uma das principais inspirações dos espetáculos de curiosidades, conhecidos como Freak Shows, no Brasil e no mundo. O trabalho Monga foi apresentado na Farofa do Processo, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, e nós assistimos no dia 5 de março, na sessão das 11h.

Começamos nossa reflexão por Julia Pastrana (1834-1860), uma mulher indígena mexicana que se tornou conhecida mundialmente como “a mulher mais feia do mundo” devido a uma condição genética rara, designada como hipertricose terminal (caracterizada por um crescimento excessivo de pelos em partes do corpo), combinada com uma possível forma de acromegalia, que conferiam traços faciais e dentárias incomuns.

Pastrana foi vendida ou entregue a um administrador de espetáculos, Theodore Lent, que se tornou seu empresário e mais tarde seu marido. Lent explorou a aparência de Pastrana, exibindo-a em shows por toda a Europa e América do Norte, onde ela era anunciada como a “mulher-urso” ou “mulher macaco”.

Julia era uma artista talentosa, com habilidades que incluíam canto e dança. Ela possuía uma voz mezzo-soprano – dizem que encantadora – e apresentava peças musicais desde ópera a canções populares da época. Poliglota, ela falava várias línguas, incluindo espanhol (sua língua materna), inglês e francês, o que facilitava sua comunicação com o público de vários países, durante suas turnês.

Apesar de sua fama, a artista teve uma vida marcada por exploração e desumanização, o que evidencia o início do entretenimento comercial baseado na objetificação e na exploração de corpos não normativos.

Os conceitos teóricos e as referências nos permitem entender seu caso não apenas como um evento isolado, mas como parte de uma estrutura mais ampla de opressão e objetificação. Em Mapping the Margins: Intersectionality, Identity Politics, and Violence against Women of Color, Kimberlé Crenshaw desenvolve o conceito de interseccionalidade para explicar como diferentes sistemas de opressão (raça, gênero, classe) interagem na vida das mulheres negras. Aplicado à situação de Pastrana, esse conceito ajuda a entender como sua exploração foi moldada não somente por seu gênero, mas também por sua etnicidade e suas características físicas.

Prazer Visual e Cinema Narrativo, de Laura Mulvey, é um texto seminal que introduz a ideia do “male gaze” argumentando que as mulheres são objetificadas nas narrativas cinematográficas para o prazer do espectador masculino. Embora Mulvey se concentre no cinema, seu conceito pode ser utilizado ao contexto de Pastrana, onde ela foi objetificada e desumanizada para entretenimento público.

Judith Butler discute, em Problemas de Gênero: Feminismo e a Subversão da Identidade“, a performatividade do gênero e como as normas de gênero são socialmente construídas e mantidas através de atos performativos repetidos. A exploração de Pastrana destaca a rigidez e a crueldade das normas de gênero e beleza, bem como a violência da não conformidade.

Essas referências teóricas fornecem uma estrutura para compreender a vida e a exploração de Julia Pastrana não apenas como um caso de curiosidade do século 19, mas como um exemplo da contínua objetificação, marginalização e desumanização de corpos não normativos e da persistente construção do “outro” nas sociedades patriarcais e coloniais.

Ao explorar essas dimensões, podemos reconhecer a relevância contínua de sua história para as discussões feministas contemporâneas sobre corpo, identidade e resistência.

Após sua morte em 1860, o abuso persistiu com a exibição de seu corpo e do seu filho. Essa exploração, iniciada por seu marido Theodore Lent, reflete a objetificação de Julia em vida e a desumanização após sua morte, configurando a extensão da dominação patriarcal. No século 20, os corpos foram esquecidos e depois redescobertos, mostrando a fascinação contínua pela imagem de Julia. Somente no século 21, após esforços de ativistas e do governo mexicano, Julia foi repatriada e enterrada no México em 2013, um gesto simbólico para restaurar sua dignidade.

Cena do espetáculo em andamento Monga, com Jessica Teixeira. Foto: Ligia Jardim / Divulgação

Jéssica Teixeira sinaliza nas tramas de Monga os preceitos do “realismo traumático” de Hal Foster. A peça se ergue em um complexo de células narrativas, incluindo a jornada de Julia Pastrana, o poema-prosa Entre fechaduras e rinocerontes de Frei Betto, uma conversa com Deus, reflexões sobre a ausência, interações com a plateia, algumas músicas incluindo uma sobre o inferno, numa exploração crua da percepção social dos corpos e da incessante busca por sentido em um mundo fragmentado.

Teixeira, habilmente, não se limita à representação direta da realidade; em vez disso, ela convoca uma série de técnicas que sugerem um encontro falho com o real, alinhando-se com a teoria de Foster. A utilização de luzes estroboscópicas, microfones e uma variação de cenários do claro ao escuro forja uma atmosfera imersiva e projeta a repetição do irrepresentável, gerando um choque que supera o visual ou temático para perturbar a própria estrutura da obra.

A atuação despojada, com a atriz por vezes usando uma máscara de macaco, critica a busca incessante por um ideal inatingível de perfeição. Esse ato desafia os espectadores a confrontar suas próprias percepções e preconceitos.

A peça Monga se engaja com o conceito de “abjeto”, conforme explorado por Foster, ao abordar temas considerados repulsivos e marginalizados como meio de confrontar e refletir sobre as condições sociais contemporâneas. A conversa com Deus e a música que proclama que “o inferno está cheio” provocam diretamente o público, desafiando crenças religiosas e sociais arraigadas. Enquanto a interação direta com a plateia questiona a vida e nossa duração neste planeta e a suposta completude dos corpos ou corpos perfeitos.

Ao incorporar o texto de Frei Betto, Entre fechaduras e rinocerontes, Teixeira enriquece a narrativa. Embora a essência poética do texto original ofereça profundas reflexões sobre a vulnerabilidade humana, penso que uma adaptação mais radical – com cortes e justaposições – removendo as camadas de moralidade católica poderiam destilar suas qualidades sem perder a essência.

Monga oferece insights valiosos sobre as dinâmicas da arte contemporânea e sua capacidade de engajamento com a realidade traumática. É um meio de explorar e expressar as complexidades e contradições do mundo atual, destacando os desafios de representação, engajamento e resistência em um mundo pós-ideológico.

A interação com a plateia, um momento crucial de Monga pode requerer ajustes em sua dramaturgia. Em vez de questionar diretamente a presença de burgueses na audiência, por exemplo, Teixeira poderia optar por um caminho mais indireto, lançando uma série de perguntas provocativas que funcionem como espelho, refletindo os preconceitos e as suposições do público. Esse mecanismo pode desarmar e chegar ao miolo das crenças e atitudes do espectador.

A artista, ao se declarar habitante e dona de um “corpo extremo”, estabelece uma conexão com Pastrana, desafiando as normativas sociais que moldam a percepção dos corpos e questionando as fronteiras entre o normal e o anormal. Essa ligação honra a memória de Pastrana e amplifica a posição de Monga na defesa da dignidade inerente de cada ser humano, independentemente de sua aparência.

Monga se apresenta como uma obra que desafia as convenções, tanto em forma quanto em conteúdo. A atuação e direção de Teixeira sintetizam uma dança entre luz e sombra, entre o visível e o invisível, criando um espaço onde o realismo traumático de Hal Foster encontra um novo sopro.

Este texto integra o projeto arquipélago de fomento à crítica, com apoio da Corpo Rastreado.

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Farofa do Processo
Algumas anotações
Primeira parte

Intensa movimentação na Oswald durante os dias da Forafa do Processo. foto: Ivana Moura

Gabs Ambròzia, da Corpo Rastreado. Foto: Ivana Moura

Muitas possibilidades de encontro

“Farofa, farofa, farofa’, esse anúncio feito ao megafone por Gabs Ambròzia, uma das figuras da Corpo Rastreado, projeta a natureza lúdica e inclusiva do evento e vai continuar ecoando na Oficina Cultural Oswald de Andrade, em São Paulo, e na cabeça de muita gente. De 2 a 10 de março, foram muitos gestos políticos de grupos, spoilers do bem de espetáculos em andamento, conversas, armações para insurgências. Momentos de pura festa e a lembrança que estamos em guerra por existir… a luta continua. Muitas vezes o clima era tão festivo que senti a vibração do carnaval de Olinda de finais das manhãs. Esses processos, sonhos em construção, todos legítimos cada qual do seu jeito, repercutem e seguem. Ficam imagens ricas e vibrantes.

No Teatro de Contêiner Mungunzá, um ponto da Farofa do Processo desse ano (o outro era a Casa do Povo), vi uma correnteza de gente a se deslocar do lado de fora empurrada pela chuva, enquanto lá dentro do teatro os atores buscavam motivos para expressar a vida e entender até onde vai a arte… Aporia.

Nessa atmosfera de engajamento crítico e criativo, aliades para a rebelião, bandos em manifestação, corpos em combate refletem um espírito de resistência e a busca por transformações sociais. Lindo ver o fluxo desses dias na Oswald, das salas cheias e sessões esgotadas para um batimento suave. Celebração do gesto artístico, da reflexão crítica e da ação coletiva. Encantamento especial na Farofada, almoço preparado e distribuído pela equipe da Corpo Rastreado para alimentar estômagos e ideias, refeição compartilhada para aprontar para outros combates. Uma dramaturgia especial esses almoços de conversas ao pé do ouvido e gargalhadas soltas.

Esse território de encontros, espaço tão rico de diálogo onde a fricção de linguagens da cena acontece com força em aberturas meios e conclusões de processos, espetáculos revisitados. Eita danou-se, como diz Marcelino Freire, escritor que foi prestigiar um dos processos, o da turma do Carrossel.

O domingo de programação intensa já chega com gostinho de quero mais. “Farofa, Farofa, Farofa!”. Último dia dessa edição.

Um salve para o Boteco Crítico, do projeto Arquipélago, que em três encontros botou na prática a experiência de pensar/repesar/ fazer/refazer a crítica em outros patamares, mais democráticos, numa discussão honesta que também está buscando seus caminhos, de reimaginar o papel da crítica cultural na contemporaneidade. Desde o nome, a tentativa é desmitificar a crítica, aproximando-a de quem chegou junto.

Compartilhar, uma palavra quase mantra da Farofa do Processo tem poder.  

Acompanhei algumas ações da Farofa do Processo e faço alguns comentários a partir dos que acompanhei.

Equipe do espetáculo Magnólia, em processo de construção. Foto: Ivana Moura

Marina Esteves e sua equipe (idealização e atuação @vimvermarina, direção musical @daninega, texto: @lucasmouradr, dramaturgia @vimvermarina e @lucasmouradr , Banda da Zé Pretinha: @vinisampaioofficial @djkmina @larioliveiratp @gisahspreta )
apresentaram o processo criativo do espetáculo Magnólia, uma peça que enfrenta as opressões na conjugação de raça, gênero, e identidade com narrativa afro-futurista.

A inspiração na música Magnólia e no álbum A Tábua de Esmeralda de Jorge Benjor adiciona camadas intertextuais da canção que tematiza alquimia, espiritualidade e transformação. Foi com esse álbum lançado em 1974 que Benjor consolidou sua posição como um dos músicos mais febris do Brasil.

A personagem central, Magnólia, vivida por Marina, simboliza a resistência, luta e avanços frente às opressões sistêmicas. O sonho como recurso narrativo funciona como estratégia estilística e como uma poderosa ferramenta de exploração e manifestação da subjetividade da personagem.

Para apresentar a jornada de Magnólia, que a leva além dos limites terrestres, a atriz apresentou o roteiro cantado com uma banda ao vivo. Forte e poética essa demonstração do processo, repleta do impacto da diáspora africana e da posição de que as grandes e pequenas transformações são protagonizadas pelas mulheres negras.

Éden, direção de Tarina Quelho . Foto: Ivana Moura

A peça Éden, apresentada na Farofa do Processo, bateu como uma obra provocadora para explorar assuntos como a crise climática, o esgotamento de recursos materiais e subjetivos, e a busca por significado em um mundo cada vez mais desencantado. A menção de que a peça  é uma obra de cli-fi (ficção climática) sugere uma intenção de engajar o público em uma reflexão sobre as consequências ambientais de nossas ações e escolhas.

A produção disse que o processo de montagem está na sua etapa final e na cena vai utilizar mais de 10 mil sacos plásticos no cenário, o que me pareceu uma tentativa de chamar atenção para o consumo excessivo e a poluição e criar uma atmosfera visualmente impactante que serve como pano de fundo para a narrativa distópica. Na sessão da Farofa, com apenas uma amostra desse cenário, as montanhas de sacos plásticos foram apenas imaginadas pela plateia.

O deboche e a descrença são manipulados pelo elenco, fazendo com que a peça circule entre o cinismo e um humor corrosivo. Essas escolhas podem desafiar a plateia, gerando desconforto em algumas pessoas. A minha percepção viajou do Éden ao inferno.  

A diretora Tarina Quelho ao mencionar que a obra transita entre teatro, dança e performance, e que busca borrar os limites entre teoria, (auto)ficção e cena, destaca que ela está sempre arriscando novas possibilidades na cena.

Éden pula de um assunto ao outro sem parcimônia, ensaia práticas sexuais e conecta com conceitos do teatro e da performance, fala de relações, pensa em identidade, dá pitaco sobre o que é pertencimento em um mundo em crise.

A ideia de que a arte não pode alcançar todos os públicos é pertinente, e isso fica mais evidente em algumas obras. Éden, que parece projetada para atrair um público mais jovem, talvez mais alinhado com as plataformas digitais como o TikTok, por sua agilidade, leveza e abordagem irreverente. Isso confere um valor artístico e  impacto de sua mensagem. Só não é para todos; como nada, aliás.

Serra Pelada. Foto: Ligia Jardim / Divulgação

O teatro de Dal Farra procura questionar a ética do poder, testando limites humanos e apontando novas possibilidade de olhar fatos, eventos, ideias, pensamentos. O trabalho em processo Serra Pelada – Boca de Ouro – Xingu, ainda em estágio inicial, se posiciona – evidentemente – contra a lógica extrativista tanto em seu tema quanto em sua metodologia. Investiga a natureza da arte, do consumo e do olhar. Em um primeiro momento essa obra em andamento chega friccionando as imagens emblemáticas de Sebastião Salgado, a peça/filme Boca de Ouro de Nelson Rodrigues, carrega o Googlemaps para levar para uns lugares de difícil acesso e diz que está cansado de alegoria.

A obra critica o capitalismo em todas as estruturas e examina os sistemas de dominação colonial presentes em Nelson Rodrigues e se arrisca a reinterpretar a obra do autor de Boca de Ouro à luz de perspectivas contemporâneas,. Vamos ver no que vai dar. O processo ainda está no seu estágio inicial de produção da @tablado_sp, (nesse trabalho tem financiamento da Lei de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo), que compartilhou na Farofa do Processo as motivações e inquietações que impulsionam a peça.

Os atores @flowkountouriotis e @silva_monalisa_ fizeram uma leitura interpretativa da peça em andamento, que tem previsão de estreia para janeiro de 2025.

Figueiredo, espetáculo com Pedro Vilela. Foto: Divulgação

O espetáculo Figueiredo se propõe a mergulhar nas complexas camadas da história brasileira, especialmente no que concerne às violências cometidas contra os povos indígenas. A peça, apresentada por Pedro Vilela, com um texto poderoso em mãos e o auxílio de imagens projetadas, associa teatro com ato de memória e resistência.

A dramaturgia fez opção pela leitura direta dos fatos, com projeção de vídeos de arquivo e a utilização de pedaços de madeira no palco. No decorrer do espetáculo os espaços de ocupação são reduzidos como metáfora para a restrição e a asfixia cultural e física vivenciadas pelos povos originários ao longo da história.

A montagem é baseada no Relatório Figueiredo, de aproximadamente 7.000 páginas, que detalha uma série de atrocidades cometidas contra os povos indígenas do Brasil durante o período da ditadura militar (1964-1985). Esse documento leva o nome de Jader Figueiredo Correia de Oliveira, o procurador que foi encarregado de investigar as denúncias de violências e injustiças contra os indígenas.

A política de desenvolvimento nacional implementada na época priorizava a expansão econômica a qualquer custo. A qualquer custo. Então, os projetos de infraestrutura, como a construção de rodovias e represas, expansão da fronteira agrícola, passaram por cima dos povos indígenas, que tiveram territórios frequentemente invadidos e expropriados. E forçaram a barra com a “política  integracionista” para os indígenas, com violações dos direitos e apagamentos de identidades. Um verdadeiro horror.

O Documento Figueiredo foi fruto de uma investigação que durou cerca de três anos, iniciada em 1963, e revelou uma série de crimes contra os indígenas, incluindo genocídios (muitos de autoria de funcionários do governo ou fazendeiros e garimpeiros acobertados pelo governo), casos de tortura, violência física e sexual , escravidão, deslocamento forçado.

Esse documento ficou desaparecido por décadas, sendo redescoberto apenas em 2013, durante o governo de Dilma Rousseff, no contexto marcado pela atuação da Comissão Nacional da Verdade, instituída em 2012. A CNV reacendeu o debate sobre as violações dos direitos dos povos indígenas durante a ditadura e reforçou a necessidade de políticas de reparação e justiça.

Levar para a cena esse documento é importante para o debate público, lembrando que a memória pode ser uma ferramenta viva de conscientização e transformação social.

A reação emotiva por parte do plateia, muitos aos prantos ao final da apresentação, atesta a capacidade do espetáculo de tocar em feridas abertas da sociedade brasileira. A força do texto e da dramaturgia, aliada às imagens e a simbologia do cenário, criam uma experiência que pode contribuir com o debate para mudanças.

O espetáculo é um documento importante para falar do Brasil, de seu passado, presente e futuro, mas ainda há espaço para um tratamento de encenação, para que Figueiredo evolua, podendo criar novas formas de interação com o plateia, utilizar elementos multimídia adicionais, ou procedimentos cênicas que aprofundem ainda mais o impacto da obra.

Há muito mais para falar sobre essa experiência da Farofa do Processo. Vamos tentar nos próximos posts.

Este texto integra o projeto arquipélago de fomento à crítica, com apoio da Corpo Rastreado.

 

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O valor dos processos nas artes da cena

Gabi Gonçalves, produtora da Corpo Rastreado. Foto: Divulgação

Gabi Gonçalves, produtora da Corpo Rastreado. Foto: Divulgação

Enviei umas perguntas para Gabi Gonçalves, da produtora Corpo Rastreado, na perspectiva de postar aqui no Yolanda, no formato perguntas e respostas, sobre a Farofa.

As questões seguiram por zap. A comunicação por um tipo de aplicativo desse, não totalmente direta, deixa dúvidas e achei interessante expor essas dúvidas, pensando que estamos falando do projeto Farofa do processo.

No 29 de fevereiro, a  produtora estava em Bogotá e eu em São Paulo, trancada num quarto durante uma noite insone para terminar um trabalho.

Recebi as respostas no dia 1 de março, por volta de 1h da manhã, mas só consegui ouvir os áudios no final da tarde. Achei interessante registrar essa troca praticamente na íntegra a partir desses breves diálogos por áudio e texto que criam uma rasura, um troço meio performativo, por suas condições.

ENTREVISTA || GABI GONÇALVES

Ivana – A Corpo não escolhe, a Corpo aceita?!!!! Como funciona essa lógica de quem entra na Farofa?

Gabi – A Corpo não escolhe, a Corpo aceita, eu não entendi se é uma pergunta ou se é uma afirmação, né? Mas a Corpo escolhe e a Corpo aceita. Imaginar essa possibilidade de uma curadoria, que não é exatamente isso que a gente faz, mas é uma aproximação desses artistas e desses agentes, como os produtores, porque muitas vezes a gente vai atrás dos produtores também, principalmente quando não são projetos que estão próximos de nós. A gente se aproxima deles para entender o quanto eles se interessam ou não de estar nesse movimento, que é a Farofa, que eu tenho gostado de chamar de movimento. Eu sei que é sempre necessário colocar em caixas mais organizadoras, como festival, como um movimento conjunto e poderosíssimo entre artistas e produtores, encontrando outros espaços e outros modos de fazer. Então, a nossa lógica não tem a ver com quem eu vou escolher, quem é bom, quem é ruim, o que eu quero, o que eu não quero. Não, a gente olha para o cenário, a gente conhece as pessoas, conhece os artistas, sabe em que momento eles estão e pergunta se eles têm desejo de fazer parte desse movimento nesse momento, se não, num outro momento, porque já fizemos várias. Então, é isso, a Corpo escolhe, a Corpo aceita, a Corpo não escolhe, a Corpo aceita, a Corpo observa. Na verdade, somos pessoas. Quando a gente está falando da Corpo, é esse coletivo de 26 pessoas que trazem ideias, que trazem propostas, que trocam com os artistas, os artistas indicam outras pessoas. Então, é um movimento bastante coletivo que resulta nesse formato que a gente está apresentando agora, nesse recorte dessa Farofa de 2024, pelo menos até agora, é essa.

(Era uma pergunta!)

Ivana – Que tipo de trabalho interessa à Corpo? E o que não interessa?

Gabi – Eu não consigo te responder essa pergunta desse jeito, de forma tão direta, porque eu não construo interesse de uma maneira tão rápida. Não é assim, isso me interessa e não me interessa. Eu preciso de tempo, eu preciso estar junto, eu preciso conhecer, eu preciso trocar, eu preciso compreender, eu preciso brigar, eu preciso fazer as pazes. Então, assim, eu me interesso por ideias, por posicionamentos, mais que tudo. Eu acho que é isso, é como essas pessoas, esses artistas se posicionam diante da arte que fazem, diante dos trabalhos que fazem, o quão essas ideias e esses trabalhos são vitais para essas pessoas. Porque é isso, eu acompanho a trajetória desses artistas.

Então, numa trajetória, quiçá bastante longa, que é o que desejo para todos, todas e todes. Em alguns momentos nós vamos fazer coisas interessantes, noutros não vamos fazer coisas interessantes. Vamos acertar, errar e tudo isso junto. Isso que é a beleza de você poder passar um tempo prolongado vendo o desenvolvimento dos artistas, aprendendo pra caramba com eles. E o que não me interessa, talvez… Não me interesso por teatro musical, tem muita gente maravilhosa fazendo, fazendo bem. Eu jamais conseguiria fazer bem. Eu não me interesso em trabalhar com artistas globais, pessoas famosas, porque é um jeito muito peculiar de fazer, que eu respeito, mas eu não acredito muito, não me faz brilhar os olhos, mas eu realmente respeito bastante. Então é isso, se eu tivesse que dizer o que me interessa, o que não me interessa. Todo o resto que tiver desejo de investigar e de gastar tempo, eu me interesso. Aí eu posso te dizer que me interesso.

Ivana – Por que a produção resolveu trabalhar nesse formato?

Gabi – Por que a produção resolveu trabalhar nesse formato? Eu não sei se eu entendi essa pergunta. Por que a produção resolveu trabalhar em que formato exatamente? Acho que essa pergunta talvez eu gostaria que você me explicasse um pouco melhor. Por que a Farofa é nesse formato? É isso? Porque a gente está dando luz mais à produção do que se é dado normalmente, é isso. Eu fiquei confusa com essa, estou com medo de responder errado.

Ivana – Em tantos anos de festival é possível mapear mudanças ou tendências de uma cena brasileira a partir da Farofa?

Gabi – Bom, essa pergunta eu te diria, eu começaria te respondendo que não, eu não vejo mudança nenhuma, porque eu acho que seria muita pretensão da minha parte te responder que sim, assim de imediato, até porque a gente só existe há quatro anos, a gente fez muitas edições, essa é a nossa oitava edição, se eu não me engano, que eu também não fiquei contando, mas foram muitas já para quatro anos, então, no mínimo, fiz duas ou três por ano. O que acho é que a gente da Corpo Rastreado, como produtor, a nossa ideia é abrir espaço.

Então, a gente vai caçando meios e modos de abrir mais espaço para que os artistas tenham condição de mostrar os seus trabalhos. E eu venho percebendo ao longo do tempo que o processo está definhando em termos de importância dentro do todo. Então, o que eu poderia te dizer é que eu acho que as pessoas hoje em dia, de alguma maneira, já esperam a oportunidade de poder ou não participar da Farofa e sabem que ali elas podem experimentar livremente.

É óbvio que quatro anos não é nada para isso, então o que eu imagino é que ao longo de mais pelo menos quatro anos a gente vai ter que ir mostrando para os artistas, mostrando para o mercado, mostrando para o público que o processo é uma coisa linda, divina, que vale a pena ser compartilhado. Então, o que a gente está fazendo é abrir espaço de compartilhamento. E esse compartilhamento mais genuíno, onde o artista mostra como ele está organizando as ideias, mas ainda inseguro, sem saber, e abrindo isso para uma troca. E eu acho isso lindo, eu acho incrível. A gente não precisa mostrar só produtos incríveis que morrem depois de um mês. A gente precisa mostrar que existe muita coisa por trás disso. Então, se eu tiver algum desejo nos próximos quatro anos, é que a gente entenda o valor do processo.

Ivana – Você acha que expor o trabalho em processo aproxima-se da crítica genética no aspecto de “revelar os segredos da fabricação da obra”?

Gabi – Eu acho que sim, eu acho que se aproxima sim, e eu acho bonito você revelar segredos, eu acho que nós não somos mágicos nem ilusionistas que precisam tanto desses segredos, a magia tá também na feitura. Eu só acho que não é uma questão de exposição, sabe? É uma questão de compartilhamento mesmo. Compartilhar o trabalho em processo. Trazer as suas ideias e as suas incertezas e as suas dúvidas genuinamente para trocar com outros. Por isso que, esse ano, a gente perguntou para cada um dos artistas com quem você quer conversar, com quem você gostaria de conversar, para quem você gostaria de mostrar o seu processo. E aí nós convidamos essas pessoas para que elas estejam lá para essa troca. E essa troca é muito aberta. Como ela vai acontecer, a gente não sabe, só vai acontecer em algum momento ali, entendeu?

Então, vão ser trinta e tantas trocas diferentes. A gente tá bem, assim, eu tô bem curiosa para ver como é que vai ser isso, porque eu tenho certeza absoluta que, por exemplo, para um aluno que está estudando teatro e tudo mais, poder se aproximar desse tipo de ação, se aproximar do trabalho do artista tão genuinamente, eu só vejo ganhos e possibilidades de futuro. Então, acho que revelar os segredos de como a gente faz uma obra é muito foda, porque as camadas de aprendizado são infinitas.

Ivana – Penso em colocar como pergunta e resposta, se você concordar em responder. Pode ser por áudio, se achar melhor.

Gabi – Ivana, eu não tenho certeza do que você está pensando em fazer com essas perguntas, porque você me fala se pode ser uma entrevista ou não. Eu acredito que sim, se você achar que dá para ser como uma entrevista, se precisar editar alguma coisa, eu poder te responder a partir do que eu entender, porque eu acho que pode ser que seja uma pergunta-chave, sabe? Do que nós estamos fazendo, o que exatamente é a Farofa, porque eu fiquei na dúvida se nessa entrevista a gente estava falando da Corpo ou da Farofa, porque muitas vezes você fala a Corpo aceita, Corpo isso, é a Corpo óbvio, mas essa ação da Farofa ela é muito maior do que a Corpo, é um movimento que parte de todos e todas e todes nós, mas ele é, ele fica muito maior que a gente.

E eu gosto disso, eu gosto desse lugar. Eu gosto de imaginar que eu tô começando de uma maneira e eu não tenho a menor ideia como vai terminar. É desse jeito que eu gosto de pensar em curadoria. Por isso que eu não assino como curadoria, porque o curador poderia ficar chateado comigo. Então, eu prefiro assinar como produtora e ser essa pessoa que está testando outros paradigmas, porque é isso que a gente está fazendo. A gente está testando outros paradigmas para encontrar mais saídas, mais possibilidades. A Farofa não deixa de ser um espaço onde eu estou tentando criar mais possibilidades de trabalho para os artistas. No fundo, é isso. Estou buscando mais possibilidades de trabalho. Organizo isso em um movimento que é a Farofa. Mas sei qual é o objetivo todo o tempo, sabe? Que, obviamente, é em cima de muitos erros, alguns acertos e continuidade. Sigo sempre com essa possibilidade, fazendo, refazendo, avaliando e refazendo, e fazendo de novo, errando, acertando um pouco, enfim, a gente tá aí nesse movimento bem vivo, sabe? É um organismo bem vivo. O que a gente sabe que o que a gente tem, a gente divide. Isso pra mim é muito importante. Então a gente não perde, a gente divide pra multiplicar. Então esse é o nosso, digamos, o nosso lema, o nosso canto pra subir.

 

 

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