A história do TAP

Faz 20 anos que o professor e encenador Antonio Cadengue concluiu sua pesquisa sobre o Teatro de Amadores de Pernambuco. O trabalho foi desenvolvido durante o mestrado e doutorado, defendidos na Escola de Comunicação e Artes, da Universidade de São Paulo, sob a orientação do Prof. Dr. Sábato Antônio Magaldi.

Por vários motivos, que o próprio autor explica e tenta exorcizar na apresentação do seu livro, a pesquisa é publicada agora, numa parceria entre o SESC Pernambuco e a Companhia Editora de Pernambuco.
A sessão de autógrafos do livro TAP – sua cena & sua sombra: o Teatro de Amadores de Pernambuco (1941-1991) está marcada para esta quinta-feira, dia 10 de Novembro, a partir das 19h20, na Academia Pernambucana de Letras.

O perfil das encenações do grupo é traçado a partir das informações e críticas publicadas na imprensa entre 1941, ano em que o TAP foi fundado, e 1991, marco do cinquentenário.

O importante trabalho agora está à disposição de quem quiser, pois há anos vinha sendo utilizado como referência por alguns mais próximos.

SERVIÇO:
Lançamento do livro: Tap – Sua Cena & Sua Sombra: O Teatro de Amadores de Pernambuco (1941-1991). O livro é publicado em dois tomos: o primeiro tem 448p e o segundo 488p. Ainda sem preço definido.
Autor: Antonio Edson Cadengue
Publicação: Cepe e SESC Pernambuco
Onde: Academia Pernambucana de Letras
Quando: Nesta quinta-feira, dia 10 de novembro de 2011, às 19h20

Abaixo algumas fotos das montagens do Teatro de Amadores de Pernambuco, do acervo do TAP, que estão no livro de Cadengue

Geninha da Rosa Borges em Yerma

Um sábado em 30, de Luiz Marinho

A morte do caixeiro viajante

Encenação de Vestido de noiva modernizou teatro pernambucano

Bodas de sangue

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Vivencial é referência afetiva no cinema

“Caros caras:
Não sou anormal. Somos. Logo, não somos. É diferente. Um anormal é anormal. Dois anormais são normais. Tanto mais se unidos. Muito poucos fazem muito. De minoria em minoria, a maioria enfia a viola no saco, e a violação no cu.”

“Não adianta fazer ou assistir teatro sem considerarmos as características do tempo em que vivemos. O teatro é o reflexo das realidades de uma época e não um fenômeno isolado cujas dificuldades sejam exclusivamente suas, mas de todo um processo criativo em crise.”

O Grupo Vivencial Diversiones foi um furacão, uma perversão, o salto-alto no mangue, o teatro em movimento. E ele mesmo se “explicou” em alguns textos. Esses foram reunidos e publicados por Lúcia Machado no livro A modernidade no teatro, Ali e aqui, Reflexos estilhaçados. Foi lá no Vivencial que o cineasta Hilton Lacerda bebeu. E Tatuagem está surgindo…

Primeiro longa de Hilton Lacerda é inspirado no Vivencial Diversiones. Fotos: Pollyanna Diniz

Visitei o set e escrevi uma matéria para o Diario de Pernambuco, publicada no último sábado e reproduzida aqui:

“O nosso show vai estrear / Mas não se engane / Nós somos perigosas / Bem gostosinhas e amorosas”. A irreverência dos versos cantados por marinheira, bailarina, um diabo provocante se propagava no jardim daquele casarão antigo nas ladeiras históricas de Olinda na quinta-feira passada. O lugar serve como locação do primeiro longa de Hilton Lacerda – Tatuagem, que será filmado até o dia 28 deste mês.

A cena que estava sendo gravada era, na realidade, “um filme dentro do filme, já que um dos personagens grava um Super-8. Era o baile da trupe Chão de Estrelas, uma “referência afetiva” ao grupo de teatro Vivencial Diversiones, que existiu no Recife nas décadas de 1970 e 1980 sob influência da contracultura. “Não queria fazer um documentário, me desagrada o fato de adaptar o real para a ficção. Mas tem essa inspiração”, explica o diretor.

Irandhir Santos interpreta líder da trupe Chão de estrelas

Casarão em Olinda onde foram rodadas algumas cenas

O filme se passa em 1978, mas não está preso ao passado. “Não me interessa fazer um filme fora do que a gente vive. Nesse Super-8 que está sendo gravado no filme, os atores dizem que o futuro será incrível e todos os preconceitos seriam abolidos. Seria uma revolução filosófica e não tecnológica. Mas 1978 era o ano em que o Brasil ia dar certo e acho que estamos passando por isso novamente”, avalia Lacerda.

O protagonista do filme é Irandhir Santos, que começou no teatro aqui em Pernambuco, mas despontou mesmo no cinema em longas como Tropa de Elite 2 e Besouro. Santos faz o líder da trupe tão questionadora quanto polêmica e inventiva; mas que está envolvido numa relação com o lado oposto, um soldado, interpretado pelo também pernambucano Jesuíta Barbosa. O diretor explica que o projeto tem pelo menos cinco anos e que sempre pensou em Irandhir para o papel principal. Os dois já trabalharam juntos – Lacerda como roteirista – em Febre do rato (que teve pré-estreia dentro do Janela de Cinema) e Baixio das bestas. “Adoro fazer roteiros e isso fez com que eu demorasse a dirigir”, complementa.

O longa tem um orçamento de R$ 2,5 milhões, recursos da Petrobras, Eletrobras e Funcultura. 70 pessoas estão na equipe. “Desde setembro temos o elenco, tanto atores quanto não-atores, mas pessoas envolvidas com arte, que, às vezes, são até mais naturais”, conta Rutílio de Oliveira, produtor de elenco. É assim, por exemplo, que Júnior Black faz o DJ Tonho do Som. Ou alguém que trabalhava na arte acabou em cena vestida de bailarina. “Meu personagem fuma um monte para poder criar. Como muitos, saiu de casa por algum motivo. Acho que hoje haveria espaço para um grupo como o Vivencial, mas não sei se com o mesmo nível de provocação”, diz o ator Erivaldo Oliveira, vestido de Marquinhos Odara.

Trupe Chão de Estrelas

Cláudio Assis relembrou o tempo em que foi dirigido por Vital Santos e se apresentou no Vivencial

Que diabos é essa liberdade?
A sede “político-anárquica” do Vivencial Diversiones ficava no Complexo de Salgadinho, numa área de mangue. “Quando eu era ator do Grupo de Cultura de Caruaru, com Vital Santos, nós nos apresentamos no Vivencial. Era meio mangue, me lembro bem, fim da década de 1970”, recorda o diretor Cláudio Assis, que estava acompanhando as gravações de Tatuagem – e iria até entrar em cena. Se a casa do Vivencial ficava no mangue, a da trupe Chão de Estrelas é construída no Nascedouro de Peixinhos, com referências ao tropicalismo e, claro, à liberdade.

O filme ainda terá a participação de alguns atores que integraram o Vivencial, como Auricéia Fraga, que entra na última etapa de gravação, em Bonito. Para a pesquisa, Hilton conversou com nomes como Guilherme Coelho, criador do Vivencial que hoje mora em Brasília, e com o diretor de teatro Antônio Edson Cadengue. “Na realidade, eu queria fazer um filme sobre o personagem Túlio Carella, do livro Orgia. Tinha até um nome…O homem da ponte. Estava conversando com João Silvério Trevisan, que era meu vizinho, e foi ele quem levantou essa ideia do Vivencial, que eu não cheguei a frequentar”, conta.

O filme tem até uma referência ao próprio Hilton. No filme, o personagem de Irandhir Santos tem um filho de 13 anos, mesma idade que Lacerda tinha em 1978. “Convivi com Cadengue, Jomard Muniz. Teatros mais marginais existiam em vários lugares do Brasil. E o filme discute que diabos é essa liberdade que temos hoje”, diz.

Hilton Lacerda disse que tem vontade de escrever para teatro

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Magic India chega ao Recife

São duas horas de espetáculo, um convite a conhecer melhor a cultura de um dos países mais místicos do planeta. Com apresentações nesta terça e quarta-feiras, às 20h, no Teatro Luiz Mendonça (Parque Dona Lindu), chega ao Recife o Magic India Tour.

Quadro do Magic India

Pela primeira vez no Nordeste, a companhia itinerante leva ao palco mais de 30 artistas, realizando números de artes marciais, música, teatro e dança indianos. Também existe um momento da produção dedicado ao kirtan, prática que pode variar do silêncio medidativo até um enérgico número musical, lançando mão da interatividade com o público, e até mesmo ao teatro – com uma versão contemporânea do Bhagavad-Gita, o livro sagrado da filosofia espiritual indiana.

Os ingressos custam R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada), antecipados e estão à venda na bilheteria do teatro e no site festivaldaindia.com.br/magic-india.

A classificação é livre. Nos dias das apresentações, vão custar R$ 35 e R$ 17.

Contribuição de Tatiana Meira

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Pterodátilos – A extinção do humano

Mariana Lima, Felipe Abib e Marco Nanini. Fotos: Ivana Moura

Uma “semana do trabalho de Deus”, como canta Gilberto Gil, está ameaçada de extinção. Sem mais nem menos, como ocorreu com os pterodátilos. Tome a humanidade como a família de Arthur – um retrato da sociedade de consumo em plena desintegração, no espetáculo Pterodátilos. O texto do norte-americano Nicky Silver com seus diálogos cruéis, suas frases de efeito cortante e humor ácido é material mais que perfeito para a experimentação cênica de Felipe Hirsch. Marco Nanini comanda o elenco e se desdobra em duas personagens: Ema, uma adolescente gorda, carente, comedora compulsiva que sofre com provável incesto de seu pai e a rejeição da mãe. E o apático Arthur, presidente de um banco, que é demitido no decorrer da peça.

Além do desinteressante pai, e a infantil filha, Pterodátilos reúne nessa família a mãe ensandecida e alcóolatra, personagem de Mariana Lima. Além de estar ao lado de Nanini, a atriz (a doce rainha da novela Cordel encantado) explora uma interpretação extremamente exteriorizada, que se não fosse uma grande atriz iria desafinar. Mas ela apresenta um estado levemente ébrio e o tom histérico e às vezes gritado com propriedade.

Completam o elenco Álamo Facó, como o filho pródigo Toddy, que volta para casa dos pais depois que descobre que está com aids e Felipe Abib, que faz Tom, o namorado de Ema transformado em empregada.

Nanini como o pai e Álamo Facó, como o filho pródigo Toddy

A casa em que essa família vive fica sobre um cemitério de fósseis da ave pré-histórica. Esse cenário de Daniela Thomas traduz o espírito da peça: o desequilíbrio, os buracos como falta, o interior formado de lixo, ruínas e fósseis. O palco tem um mecanismo hidráulico que proporciona movimento, inclinações. As tábuas também estão soltas e o personagem Toddy vai escavando e tirando esses pedaços, criando dificuldades de locomoção para as personagens. O palco vai desmontando como a família. Que chega com a ruína financeira do pai, a paixão incestuosa da mãe pelo filho, o apaixonamento do namorado de Ema pelo irmão dela. Até mesmo a catarse de Ema como saída.

As misérias de cada um são expostas em diálogos, monólogos, discussões e conversas. No começo do espetáculo Tom diz para Ema: “Seu cabelo cheira Hershey’ Kisses..”. Em outro momento Ema diz para Tom “Se ao menos você ficasse doente pra eu poder te doar um rim”. Ou se autoflagela: “Eu era tão gorda que em Tóquio morariam 2 famílias dentro de mim”. E quando não quer mais encarar a realidade informa: “Eu agora sou surda”.

Texto ácido do norte-americano Nicky Silver

Frases de outros personagens também são reveladoras. “Deus, eu estou exausta. Eu comprei um tubinho nude do Valentino e um tailleur off white da Miu Miu. Eu adoro fazer compras. Nós devemos sempre manter a melhor aparência. Nós somos o que vestimos””, comenta Grace, antes de transformar Tom em empregadinha da casa.

Mas o grande deleite é ver Nanini. O seu domínio cênico. O seu talento depurado pelos anos. Mesmo que em algum momento Ema lembre Irma Vap, o megassucesso de Nanini e Ney Latorraca. Mas Nanini sempre se recria e pode fazer rir e pensar.

* Esse material foi escrito durante o Festival Porto Alegre em Cena e publicado no Diario de Pernambuco no dia 19 de setembro de 2011

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Velhos amigos de guerra

Montagem do grupo Cena traz três ex-combatentes que hoje vivem no asilo. Foto: João Rocha

Mesmo que o tempo seja implacável, que a memória falhe ou o corpo não corresponda, se os amigos estiverem por perto…ah, com eles as guerras podem ser enfrentadas. Sejam lutas imaginárias ou não. Gustavo (João Antônio), René (Chico Sant’Anna) e Fernando (William Ferreira) são três ex-combatentes vencidos pelos anos. Hoje, vivem num asilo e se encontram todos os dias no quintal para conversas interrompidas somente pelos desmaios de Fernando – cada vez mais frequentes -, que tem estilhaços de foguete na cabeça. Vi o espetáculo Heróis, do grupo Cena, no festival Cena Contemporânea, em Brasília.

É uma montagem que combina atores competentes, com trabalhos consolidados, e um texto que tem humor, ironia e só um pouco (sim, só um pouquinho) de melancolia para falar não só de velhice, mas principalmente de amizade. O texto é de Gérald Sibleyras, autor que nunca tinha sido montado no Brasil. Na Europa, ele é bastante conhecido – foi indicado diversas vezes ao Prêmio Molière, na França, recebeu o prêmio em 2010 pela adaptação que fez de 39 Degraus e venceu o Lawrence Olivier Awards de Melhor Comédia, na Grã-Bretanha, pela montagem de Heroes, traduzido para o inglês por Tom Stoppard e protagonizado por John Hurt. Aqui no Brasil, a adaptação foi feita por Carmen Moretzsohn.

Aliás, o Grupo Cena, criado em 2005, é especialista em montar textos de autores pouco conhecidos em terras brasileiras. Começaram se dedicando à dramaturgos latinoamericanos. Vieram Dinossauros e Fronteiras, de Santiago Serrano (em breve posto uma entrevista que fiz com ele) e Varsóvia, de Patrícia Suárez. Depois, em 2007, montaram uma adaptação do romance Os Demônios, de Fiodor Dostoievski, com direção de Antonio Abujamra e Hugo Rodas. As três primeiras montagens têm a assinatura do diretor Guilherme Reis, que em Heróis usou de delicadeza e humor para fugir de qualquer tom mais pesado que o tema velhice pudesse carregar em si mesmo.

Claro que a peça também é sobre limitações, sobre o poder – que se agora não é mais militar, é da irmã Madalena -, sobre impossibilidades. Mas há a esperança do amor, mesmo que de forma inocente, a tentativa de fuga, ainda que seja só para fazer um piquenique. Dos três, Gustavo é o mais ranzinza. Sempre tem resposta pra tudo. Fernando sofre com os desmaios e com a possibilidade de que o asilo abrigue outro idoso que nasceu na mesma data que ele, já que ele acredita que Dona Madalena não permite dois aniversários numa só data. E René é o mais romântico e mais lúcido. Os três atores têm uma interação muito fluida e as interpretações mantêm o mesmo nível, mas é impossível não destacar o trabalho de corpo de William Ferreira, que se transforma realmente num velho e cai o tempo inteiro.

A montagem fez temporada em Brasília e participou do festival. Por aqui, uma ótima oportunidade de trazê-los seria no Janeiro de Grandes Espetáculos (que tal, Paula de Renor?!). Este ano, o festival trouxe Dinossauros, com Carmem Moretzsohn e Murilo Grossi no elenco.

Heróis tem direção de Guilherme Reis. Foto: Leo Moreira

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