Em cena o teatro de grupo

Protocolo, com o grupo português Mala Voadora. foto: José Carlos Duarte

Protocolo, com o grupo português Mala Voadora. foto: José Carlos Duarte

Trema!

Começa nesta quarta-feira, e vai até o dia 12 de abril, a 3ª edição do TREMA! – Festival de Teatro de Grupo do Recife. Realizado pelo coletivo Magiluth, o programa traz espetáculos de cinco grupos que trabalham pesquisa continuada de linguagem nas artes cênicas. O evento abre com a montagem portuguesa Protocolo, da trupe Mala Voadora, uma paródia que versa sobre a etiqueta social, a partir de regras na corte de Luís XIV, numa cena híbrida entre teatro, dança e performance. O diretor Jorge Andrade divide a cena com a atriz Anabela Almeida.

Sem financiamento de recursos públicos (federal, estadual ou municipal) o festival ostenta o lema “Ocupar e Resistir”, presta homenagem ao movimento Ocupe Estelita e expõe as mazelas da prática teatral na cidade. “Estamos vivendo tempos sombrios, no qual o teatro não vem recebendo o devido cuidado que merece. A gestão pública está caótica. Os artistas desrespeitados a cada dia. Só nos resta resistir e ocupar cada vez mais o espaço que nos é de direito”, analisa Pedro Vilela, diretor do festival.

Além do grupo português, outra atração internacional faz parte dessa terceira edição; o argentino/brasileiro Mazdita, que chega com Diafragma: dispositivo versão beta, a ser apresentado no Teatro Arraial na quinta-feira; a performance Contato Sonoro na Conde da Boa Vista no dia seguinte, às 15h; e a performance O tempo como construtor de espaço que acontecerá no Ocupe Estelita no domingo, dia 12 de abril, entre 14h e 18h.

O coletivo cearense As Travestidas traz o espetáculo BR TRANS, uma investigação cênica do ator Silvero Pereira. De Pernambuco participam o próprio Magiluth, com Viúva porém honesta e Luiz Lua Gonzaga, e O Poste: Soluções Luminosas, com a montagem A receita.

TREMA! FESTIVAL – PROGRAMAÇÃO

08 de Abril (abertura – quarta-feira)

Protocolo
Mala Voadora (Portugal)
Teatro Hermilo Borba Filho, às 20h

9 de abril (quinta-feira)

Diafragma: dispositivo versão beta
Coletivo Mazdita (Argentina/Brasil)
Teatro Arraial, às 19h

Protocolo
Mala Voadora (Portugal)
Teatro Hermilo Borba Filho, às 20h

10 de abril (sexta-feira)

Contato Sonoro
Coletivo Mazdita (Argentina/Brasil)
Av. Conde da Boa Vista, às 15h

Viúva, porém Honesta
Grupo Magiluth (PE)
Teatro Arraial, às 19h

A Receita
O Poste: Soluções Luminosas (PE)
Espaço O Poste, às 20h

Protocolo
Mala Voadora (Portugal)
Teatro Hermilo Borba Filho,às 21h

11 de abril (sábado)

Viúva, porém Honesta
Grupo Magiluth (PE)
Teatro Arraial, às 19h

BR Trans
As Travestidas (Ceará)
Teatro Hermilo Borba Filho, às 21h

12 de abril (domingo)

O tempo como construtor de espaço
Coletivo Mazdita (Argentina/Brasil) no Cais José Estelita, das 14h às 18h

Luiz Lua Gonzaga
Grupo Magiluth (PE)
Cais José Estelita, às 16h

BR Trans
As Travestidas (Ceará)
Teatro Hermilo Borba Filho, às 21h

INGRESSOS:
R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)
www.eventick.com.br/trema

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Censura à Paixão de Cristo em Arcoverde

Artistas e produtores de Arcoverde protestam contra suspensão da peça. Foto: Fah Queiroz/ Divulgação

Artistas e produtores de Arcoverde protestam contra suspensão da peça. Fotos: Tiago Henrique/ Divulgação

O cancelamento do espetáculo Horizonte da Paixão dividiu a cidade de Arcoverde no Sertão de Pernambuco. De um lado os conservadores, que seguiram os conselhos de um padre da cidade – que pediu para os fiéis boicotarem a peça. Do outro, a indignação dos artistas que se alastrou em protestos pelas redes sociais e engrossou um movimento contra a censura. A peça, realizada há 15 anos, recria os últimos dias da vida de Cristo. A montagem tem em seu elenco artistas do grupo de teatro do Sesc Arcoverde, dos alunos da Educação de Jovens e Adultos e do grupo da Terceira Idade Novo Horizonte.

Segundo os próprios artistas, Horizonte da Paixão se propõe desde sua estreia, há 15 anos, a inserir cenas que tratem de questões contemporâneas para aproximar da realidade do público, para despertar reflexão sobre os ensinamentos de Cristo. “Nunca o espetáculo tentou ser um espelho da Bíblia, ou teve por finalidade catequizar segundo qualquer religião”, comenta o ator William Castilho.

A peça, patrocinada pelo Sesc e apoiada pela prefeitura, foi apresentada na quinta-feira. No programa Sexta-feira Santa na Rádio Independente FM, a principal emissora de Arcoverde, o Padre Adilson Simões pediu aos fiéis que boicotassem o espetáculo, que segundo ele apresentava cenas sacrílegas, desordenadas e absurdas. Os artistas garantem que o padre não assistiu ao espetáculo. E que sua opinião foi a partir do relato de três pessoas.

Durante sua fala na Independente FM, o Padre Adilson repudiou a cena da “Santa Ceia”, em que o ator que interpreta Jesus aparece de calça jeans e faz seu discurso em cima da mesa. Disse o padre: ”Na Santa Ceia, em todas as apresentações teatrais, cinematográficas e outras mais, nunca se viu Jesus, na hora sublime de dar-se no Pão, em pé, sobre a mesa. Isto é crime, deboche sobre uma religião. Na diversidade, respeitemo-nos mutuamente”.

Esse pronunciamento do padre inflamou fiéis mais conservadores, que, segundo os artistas, criou um clima de revolta contra o movimento artístico da cidade, inclusive com ameaças de agressão física. “Além dele ter falado sobre cenas que não existiram e sobre uma apologia ao aborto que nunca foi abordada no espetáculo. Após sua fala, ligou diretamente para o Presidente do Sesc, que de forma arbitrária, sem consulta e respeito ao trabalho realizado pela equipe do projeto, cedeu à pressão do clérigo e cancelou o espetáculo”, comenta o professor de dança Fah Queiroz.

O ator Djaelton Quirino, que interpreta o Cristo, respondeu em sua conta pessoal no Facebook, argumentando que todos tem direito a se manifestar, o padre, o pai de santo, o espírita, o ateu, quem quer que seja. Mas ninguém tem o direito de censurar ou cercear a liberdade de expressão de outro. “O padre não é Deus, se engana se acha isso, e até mesmo Deus nos deu livre arbítrio”.

Cartaz da peça

Cartaz da peça


Na nota oficial divulgada na sexta-feira, a direção do Sesc expõe as razões do cancelamento do espetáculo. O teor da nota foi gravada e retransmitida no sistema de som nos locais das apresentações.

“À Comunidade de Arcoverde,
A direção do SESC Pernambuco, entidade laica e privada sem qualquer vinculação política ou religiosa, informa à comunidade de Arcoverde e região, que o espetáculo Horizonte da Paixão, promovido pelo SESC há 15 anos, tem a natureza puramente artística.

Por outro lado, a Direção do SESC/PE com a intenção de evitar qualquer interpretação, desrespeito e intolerância às crenças e valores éticos e morais do cristianismo, e à forte tradição da celebração da Semana Santa, profundamente arraigada na cultural do povo brasileiro, determina a suspensão do espetáculo Horizonte da Paixão, hoje e amanhã, dias 03 e 04 de abril de 2015″. Assinam a nota Josias Albuquerque – Diretor do SESC/PE, Antônio Inocêncio de Lima – Diretor Regional do SESC/PE e Andrea Marquim – Gerente do SESC Arcoverde.

Protesto dos artistas de Arcoverde ganha força nas redes sociais

Protesto dos artistas de Arcoverde ganha força nas redes sociais

Fah Queiroz se disse chocado com o veto. Ele postou no Facebook: “Esse abuso de poder… esta distorção dos fatos… dos clérigos de nossa cidade em pleno século XXI, proibir (conseguir o cancelamento) do Horizonte da Paixão, tão tradicional em nossa cidade. Estamos voltando a Idade Média. A quem recorrer que não voltem as folgueiras????????”

“Os artistas de Arcoverde, foram censurados por um líder religioso que conseguiu disseminar em seu discurso ódio e segregação causando o fim da Paixão de Cristo da cidade que era realizada há 15 anos estamos hoje fazendo um manisfesto e tirando fotos com a mão tapando a boca e com a #ContraCensuraArcoverde”, reforça William Castilho.

Elis Regina, moradora da cidade também postou nas redes sociais: “Em pleno século XXI e a Igreja Católica ainda tem o poder de censurar a arte. Sim isso está acontecendo aqui em Arcoverde, interior de PE, onde vetaram a Paixão de Cristo, promovida pelo Sesc da cidade, por ter um cunho artístico e laico, normas do próprio Sesc! Pelo simples fato de ficarem incomodados dois padres conseguiram cancelar as apresentações e o pior mobilizar a cidade contra os artistas! Agora, minha amiga e seu grupo estão amedrontados até de andar na rua com receio do que pode acontecer. Absurdo! Até quando essa tirania? Não irão nos calar, a arte é superior a tudo isso! Enquanto jogam ódio e preconceito, iremos responder com protesto, amor e arte. ‪#‎ContraCensuraArcoverde‬ ‪#‎teatro‬ ‪#‎arte‬ ‪#‎contracensura‬”

Padre Adilson Simões em seu depoimento na rádio

Padre Adilson Simões em seu depoimento na rádio


No sábado, o Padre Adilson Simões voltou a se pronunciar, desta vez através do Facebook:

“Prezados amigos e amigas, reiniciando meus exercícios espirituais, nesse sábado santo, venho dizer-lhes que eu, Padre Adilson Simões, não pedi a suspensão da peça Horizonte da Paixão, há anos encenada em nossa cidade. Eu, no uso dos meus direitos, como cidadão cristão, sacerdote de Nosso Senhor Jesus Cristo, no uso do Ministério, a mim confiado pela Igreja, na unção do Espírito Santo, dirigi-me a direção geral do Sesc-PE e apresentei-lhes a minha indignação quanto ao conteúdo, cenas e interpretação da referida apresentação teatral nos dias mais santos do calendário litúrgico, a saber: o TRÍDUO PASCAL (quinta, sexta e sábado santos). Sim, apresentei o meu protesto, por dever pastoral, zelo pelo sagrado e amor ao que é Divino e o farei sempre, como sempre o fiz, em defesa da fé cristã. Agora, pergunto-lhes, amados e amadas: – O povo acostumado a assistir a Paixão de Cristo, em todos os lugares do mundo com piedade, foi respeitado, na forma como encenaram e interpretaram o texto, no contexto do tempo da Semana Santa? Quem, conhecendo as Sagradas Escrituras, católicos, evangélicos, ortodoxos ou simples estudiosos da religião, pode dizer, a partir dos textos originais no hebraico, grego ou latim, que tenha havido, na Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, discurso feminista ou colocações sobre a legitimidade do aborto e outros males do mundo atual? Pergunto ainda, onde e com que autoridade artística, cultural, ou científica, pode-se, por bel prazer, alterar textos originais? Durante 10 anos estudei Sagrada Escritura. Pela graça de Deus, tive a felicidade de ter acompanhamento de grandes mestres da teologia católica, formados na Universidade de Jerusalém, o maior centro de estudos bíblicos do mundo, e com eles e na vida, pelas revelações do Espírito Santo, aprendi que a Paixão de Cristo é o ato supremo do amor de Deus pela humanidade e, por sua natureza humana e divina, é o ápice da vida cristã.Termino, com as palavras do Cardeal Odilo, Arcebispo de São Paulo, ”se querem respeito, respeitem!”
Contem sempre com minhas orações. Tenham todos e todas uma Santa Páscoa, em Cristo Ressuscitado, vida em plenitude”.

Peça é apresentada há 15 anos em Arcoverde

Peça é apresentada há 15 anos em Arcoverde

Neste domingo, artistas e produtores culturais de Arcoverde soltaram carta aberta em que condenam a censura ao espetáculo.

Carta aberta do Movimento Cultural de Arcoverde em resposta ao cancelamento do espetáculo Horizonte da Paixão.
Horizonte da Paixão, espetáculo artístico e não catequético, com liberdade poética não para reescrever a história mas para interpretar e aproximá-la do público, independente de credos, ideologia política, raça, etc. O Movimento Cultural sempre esteve aberto ao diálogo com todos os líderes religiosos da região, embora não tenhamos sido procurados antes, durante ou depois do espetáculo nestes 15 anos de realização. A história representada não possui direitos autorais sendo assim domínio público e podendo ser interpretada do ponto de vista dos que a fazem, observando os valores morais e éticos da sociedade e o respeito às transformações desses valores. Sempre existiu, acima de tudo, o respeito às crenças e signos religiosos. A versão do espetáculo para 2015 segue o conceito dos anos anteriores, que é aproximar a história do público, sobretudo os jovens, trazendo uma reflexão para a atualidade. A Arte permite a reinterpretação de signos não se detendo a doutrinas e dogmas religiosos. Ainda assim jamais foi nossa intenção ferir essas simbologias. Quando a montagem propõe a reinterpretação dessa história confia na inteligência e discernimento do público, sem provocar a fé, apenas suscitar questionamentos do mundo atual, sabendo que a fé não está diretamente ligada a conceitos estéticos. Não cabe à Arte julgar ou alterar a fé. O espetáculo vem propondo desde seu surgimento cenas contemporâneas como a participação de jovens reeducandos da FUNASE (Fundação de Atendimento Sócio-educativo) e modificando seus cenários e figurinos.

Em torno da apresentação de 2015, criou-se um burburinho com interpretações do espetáculo por líderes religiosos que assumidamente não o viram, se utilizando de discursos de terceiros. Numa demonstração de abuso do poder de influência em meios de comunicação de massa, incitaram inverdades, revoltas, boicote e intolerância. A partir desse discurso gerou-se uma série de ações de represálias, agressões verbais e ameaças de protestos e à integridade física dos integrantes do espetáculo, causando mal-estar entre a comunidade religiosa e a comunidade artística. Vale frisar que a comunidade artística também é integrada por pessoas religiosas. O Sesc Pernambuco, responsável pela realização deste projeto, optou pelo cancelamento de forma arbitrária, sem consulta prévia, não levando em consideração a opinião dos artistas envolvidos.

Repudiamos a atitude e os termos utilizados pelo senhor Adilson Simões ao dizer que o espetáculo foi feito de forma “desonerada”, “absurda”, “sacrílega”, “abortiva” e “feminista”. Em nenhum momento existe menção ou apologia ao aborto. Em relação ao feminismo, entendemos o momento de respeitar o ser humano independente de gêneros. De acordo com a Constituição Federal Brasileira em seu artigo 5 º, parágrafo 1º “Homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações nos termos desta Constituição”.

Repudiamos que em pleno século XXI um espetáculo seja censurado em razão da divergência de opiniões, que os artistas sofram retaliação da sociedade por sua visão artística, que seja desrespeitado todo o tempo dedicado ao processo de produção, planejamento, criação e ensaios. Repudiamos que o público que há tantos anos acompanha o projeto Horizonte da Paixão seja lesado e volte para casa por não poder apreciar o espetáculo que já estava pronto. Repudiamos os prejuízos econômicos, turísticos, culturais e sociais advindos da extinção deste projeto e por fim, repudiamos o retrocesso que fere a sociedade e cultura arcoverdense e principalmente a Constituição Federal, que reza no seu artigo 5º, parágrafo 9: ‘É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.

diretor Ney Mendes está preocupado com a relação entre artistas e público

diretor Ney Mendes está preocupado com a relação entre artistas e público

Segundo Ney Mendes, o diretor do espetáculo, o movimento está tomando uma proporção bem grande. “O nosso movimento está botando a cara na rua e nas redes não é pelo cancelamento do Horizonte por parte do Sesc, ou pelo fato de o Padre ter exposto sua opinião”, explica. Ele garante que o grupo poderia ter apresentado o espetáculo, sem figurinos, sem cenários, sem o nome Horizonte da Paixão (já que esse pertence ao Sesc). Mas o problema é que no discurso sobre o espetáculo o padre utilizou de termos como: “desordenado”, “absurda”, “sacrílega”, “abortiva” e “feminista”, causando um grande mal-estar, chegando ao ponto de os artistas envolvidos no espetáculo sofrerem ameaças de populares embasados nesse discurso infundado.

Nossa preocupação é com o futuro teatral da cidade, como esse momento pode reverberar na relação entre o público e os artistas”, atesta o diretor do espetáculo Ney Mendes. “O padre alega que na encenação ao colocarmos Jesus sobre a mesa estávamos debochando da religião, apesar do espetáculo ter natureza puramente artística, nunca foi nossa intenção denegrir ou debochar de qualquer que seja o símbolo ou a religião, e que se o padre (apesar de assumidamente não ter assistido o espetáculo) tivesse nos apresentado a sua indignação de forma pacifica através do diálogo, poderíamos ter resolvido esse problema sem maiores prejuízos”, nos conta o diretor.

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Uma peça densa e uma sala com problemas

Marieta Severo em Incêndios. Foto: Leo Aversa/Divulgação

Marieta Severo em Incêndios. Foto: Leo Aversa/Divulgação

As condições de um equipamento teatral podem influenciar de forma decisiva na recepção de um espetáculo. Há montagens que propositalmente buscam o desconforto do espectador como parte da experiência da encenação. Mas não é o caso de Incêndios. Em cartaz no Teatro de Santa Isabel, no Recife, a peça foi vítima das condições desfavoráveis de um aparelho municipal com problemas técnicos. Na sexta-feira, durante a apresentação, algumas pessoas abandonaram a sala porque não suportaram o calor. Entre cinco e dez pessoas pediram (e receberam) o dinheiro de volta. O problema no ar condicionado atingiu a plateia como um todo, que reclamou muito ao término da sessão.

Na estreia de Incêndios, na quinta-feira, outro incidente: a mesa de luz quebrou e os técnicos tiveram que buscar uma substituta em outro teatro municipal (o Hermilo Borba Filho). Bem, todos nós sabemos que o Santa Isabel é um teatro-monumento, cartão-postal do Recife e orgulho dos artistas e da população pernambucana. Portanto autoridades da cultura, prefeito e etc., é preciso cuidar melhor do equipamento. Esses problemas atrapalham os artistas e seu público. E pega mal para a cidade junto à produção que circula pelo país.

Elenco afinado na montagem dirigida por Aderbal Freire-Filho

Elenco afinado na montagem dirigida por Aderbal Freire-Filho

Mas vamos falar da peça.

Incêndios, com texto do escritor libanês Wajdi Mouawad, traduzido por Angela Leite Lopes e com direção de Aderbal Freire-Filho é um quebra-cabeças, uma tragédia contemporânea, com Marieta Severo no papel principal. A história de Nawal Maruan se abre em dobras. Depois de sua morte ela ainda deixa um enigma para ser decifrado por seus filhos gêmeos. No passado Nawal encontrou e perdeu um amor, gerou um filho que foi arrancado de seus braços, deixou para trás sua aldeia para ampliar seu universo, fez justiça com as próprias mãos, e sofreu de violência extrema até adotar o silêncio como regra.

O encenador trabalha com maestria o cruzamento de planos e de tempos. Os gêmeos Jeanne (Keli Freitas) e Simon (Felipe De Carolis) recebem de herança uma missão e dois envelopes. Encontrar um pai que pensavam morto e um irmão que não sabiam da existência. A peça intercala passado da busca de Nawal por esse filho perdido, durante uma guerra civil em um país árabe, com um futuro em que ela não está mais lá.

Esse passado da protagonista é investigado e revelado aos poucos, nos passos de Édipo Rei. A bifurcação da ação e o tratamento fragmentário criam uma rede de acontecimentos individuais da protagonista que são misturados com as questões de uma guerra.

São muito potentes as imagens construídas na peça. O balde é um elemento de cena com funções simbólicas e de composição, inclusive de proteger e revelar os filhos de Nawal. No cruzamento de planos há simultaneidades que imprimem alternâncias de ritmos, como quando Jeanne fala sobre a teoria dos grafos e Simon se prepara para a luta. Há muitas tensões temporais que dão densidade à história.

Kelzy Ecard, como Sawda e Marieta Severo como Nawal

Kelzy Ecard, como Sawda e Marieta Severo como Nawal

Apesar dos terríveis acontecimentos revelados, há algo que acalenta esperanças: a amizade entre Sawda (Kelzy Ecard) e Nawal. Nawal ensina a Sawda a ler e escrever. Enquanto Sawda ensina a Nawal a cantar. Uma cumplicidade para enfrentar as injustiças do mundo.

O diretor dosa bem as revelações do texto, deixando suas marcas nessa tragédia contemporânea. E a aproxima as dores dessa mulher para que o público brasileiro possa sentir como algo próximo, muito próximo.

O elenco vai bem. Fabianna de Mello e Souza em várias personagens. Kelzy Ecard como Sawda. Júlio Machado, o palhaço performático e carrasco. Os dois irmãos Felipe De Carolis (Simon) e Keli Freitas (Jeanne). E Marieta Severo contida na dor da personagem a iluminar os porões da memória e da tortura.

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Palco Giratório Recife não irá mais acontecer

Ano passado, depois da coletiva do festival Palco Giratório, realizada no Teatro Marco Camarotti, o titulo da matéria que escrevemos aqui no blog dizia: “Palco Giratório mais enxuto no Recife”. A manchete era explicada pelo fato de que, em 2014, 33 companhias participariam do festival. No ano anterior, esse número havia sido bem maior: 42 grupos.

Agora, em 2015, a decisão do Sesc Pernambuco foi mais drástica: acabar com o Festival Palco Giratório Recife, que era realizado há oito anos no mês de maio e concentrava não só os espetáculos nacionais que estão circulando por todo o país, mas também uma programação local e convidados de outros estados. Como festival, era uma possibilidade de alcançar maior público com uma concentração de espetáculos e divulgação, de incentivar a troca entre os artistas e de propor reflexões sobre a cena, com um panorama bastante amplo, tanto da produção local quando nacional.

Com as dificuldades econômicas e sociais em todos os âmbitos políticos, não seria surpresa se o festival sofresse uma redução, mas não foi isso que aconteceu. A decisão de não realizar o festival, segundo José Manoel Sobrinho, gerente de Cultura do Sesc Pernambuco, “no momento é irreversível, ao menos para os próximos anos”.

Ainda segundo José Manoel, a questão não é de ordem econômica: “O Festival Palco Giratório, a despeito de seu significado e importância é uma ação que concentra recursos em um único mês e em uma única cidade. Este princípio não atende ao entendimento que o Sesc Pernambuco vem buscando operar na operacionalização e execução de sua Política de Cultura”. De acordo com o gerente, a instituição “desde 2012 vem intensificando a sua inserção no interior, implantando um modelo de trabalho sustentado no conceito de Corredor Cultural, tendo como objetivo aprofundar e ampliar a oferta de serviços em municípios, sem que obrigatoriamente haja uma Unidade Executiva do Sesc instalada”.

Pernambuco continua recebendo, em escala muito menor e de maneira desconcentrada, a circulação dos espetáculos escolhidos pela curadoria nacional para se apresentarem pelo país inteiro. Apenas 12 dos 20 grupos selecionados virão ao estado até novembro. Nacionalmente, o projeto acontece em 154 cidades. Pernambuco terá dois representantes na programação nacional: o bailarino Dielson Pêssoa, com o solo O silêncio e o caos; e o Balé Popular do Recife, que será homenageado nesta edição.

O silêncio e o caos, do bailarino Dielson Pessôa, vai circular pelo pais. Foto: Renata Pires

O silêncio e o caos, do bailarino Dielson Pessôa, vai circular pelo pais. Foto: Renata Pires

Balé Popular do Recife será homenageado nesta edição nacional do Palco Giratório

Balé Popular do Recife será homenageado nesta edição nacional do Palco Giratório

Galiana Brasil, curadora do Palco Giratório em Pernambuco, está em Brasília para o lançamento nacional do projeto. E, segundo José Manoel, “ela faz parte de uma equipe técnica e a decisão de reordenar a grade programática do Sesc é uma decisão política, da qual ela participou, mas da qual não tem responsabilidade, nem responde”, disse por e-mail, explicando porque seria responsabilidade dele e não de Galiana responder a entrevista.

Ano passado, em longa entrevista ao blog, Galiana Brasil comentou a redução da programação do festival. As palavras de Galiana, no entanto, parecem fazer muito mais sentido agora: “O Palco Giratório é um projeto (um dentre centenas) financiado integralmente pelo SESC, gerido pela instituição até quando ela entender que ele é importante, necessário. Minha opinião quanto a isso importa bem pouco, eu procuro sempre seguir as diretrizes da instituição, e estou subordinada a gerências e direções, em âmbito regional (jargão do SESC para nos referirmos à administração nos estados) e nacional”.

De acordo com José Manoel, “O Sesc tem muita atenção para com o Recife e continuará tendo, mas não será o Festival Palco Giratório a ação motriz desta atenção”.

José Manoel Sobrinho, gerente de Cultura do Sesc Pernambuco

José Manoel Sobrinho, gerente de Cultura do Sesc Pernambuco

ENTREVISTA // JOSÉ MANOEL SOBRINHO

Qual o motivo da não realização do festival Palco Giratório em maio?
O Sesc em Pernambuco é uma instituição com atuação estadual e desde 2012 vem intensificando a sua inserção no interior, implantando um modelo de trabalho sustentado no conceito de Corredor Cultural, tendo como objetivo aprofundar e ampliar a oferta de serviços em municípios, sem que obrigatoriamente haja uma Unidade Executiva do Sesc instalada. De forma responsável o Sesc foi construindo uma metodologia de trabalho que distribui o seu orçamento equilibradamente em seus diversos projetos. O Festival Palco Giratório, a despeito de seu significado e importância é uma ação que concentra recursos em um único mês e em uma única cidade. Este princípio não atende ao entendimento que o Sesc Pernambuco vem buscando operar na operacionalização e execução de sua Política de Cultura.

O Festival Palco Giratório é uma ação do Projeto Palco Giratório e não o contrário, porque neste existem as Aldeias, os Pensamentos Giratórios, os Cursos e Oficinas, que estão para além do Festival. Há uma diretriz de descentro, de desconcentração e de reorganização dos projetos que constituem o Programa Cultura do Sesc em Pernambuco.

Neste momento tão difícil para a cultura da cidade, lembrando que o Festival Recife do Teatro Nacional não foi realizado, porque a tomada dessa decisão? Aconteceu isso em alguma outra cidade do país? Ou é uma coisa isolada? Foi uma decisão do Sesc-PE ou do Sesc nacional?
Foi uma orientação do Sesc Pernambuco, proposta pela Gerência de Cultura e que a Direção do Sesc endossou, porque há uma sintonia entre o trabalho desenvolvido pelas linguagens. Este mesmo modelo gere as práticas de música, artes visuais, literatura, porque o Sesc não é uma instituição das artes cênicas, portanto constrói o seu módulo de trabalho pensando em atingir o público em sua dimensão simbólica com oferta artística multidisciplinar.

O Sesc Nacional não interfere na gestão dos estados, portanto é uma diretriz local, pensando no Estado de Pernambuco e não apenas no Recife e Região Metropolitana.

Ano passado, já percebemos que houve uma redução do orçamento do festival – com a não realização de ações paralelas, como o Cena Gastrô e Bacante. Qual era o orçamento do festival? Foi uma questão financeira?
Não foi uma questão de ordem financeira, foi o início de uma metodologia voltada para a desconcentração dos investimentos. O orçamento do Programa Cultura em 2014 (R$ 11.109.199,81) foi compatível com o de 2013 (R$ 10.669.150,27), isto para a execução de toda a grade programática do Regional. De fato houve uma redução no orçamento do Festival em relação a 2013, mas foi uma decisão estudada, para garantir o equilíbrio do Programa Cultura no Estado e não apenas em Recife.

O Sesc tem muita atenção para com o Recife e continuará tendo, mas não será o Festival Palco Giratório a ação motriz desta atenção.

Essa decisão de não realizar o festival em maio pode ser reversível?
No momento é irreversível, ao menos para os próximos anos.

As ações de descentralização do festival pelo estado foram realmente ampliadas? Como? Porque as Aldeias e as circulações pelo interior já existiam, não é mesmo?
Não há proposta de “ação de descentralização do Festival pelo estado”, o que há é o foco em uma atuação para além das cidades onde o Sesc atua, mas em todas as linguagens. Entre 2015 e 2018 a meta é consolidar as Mostras de Música e de Artes Cênicas espalhadas pelas diversas regiões, estrutura-las, intensificar as ações formativas, gradativamente, contando sempre com a participação da produção do estado. Também concentrar esforços em projetos para a qualificação de gestores culturais, participar de processos de construção de políticas para a cultura, manter regularmente a presença do Sesc com oferta de serviços culturais para as pessoas.

Particularmente em 2015 serão quatro Aldeias, quando em 2014 realizamos apenas a do Velho Chico, em Petrolina. Por sí só, este projeto, o das Aldeias já demonstra que o Sesc continua com seu investimento em Cultura de forma equilibrada e consequente, mas com critérios que demonstrem seu interesse em todo o território pernambucano.

O Nordeste é a região mais representativa na circulação nacional este ano. Em contrapartida, Pernambuco só tem o espetáculo O silêncio e o caos; e a homenagem ao Balé Popular. Noutros anos, tivemos mais representantes. Como você vê isso?
Não procede esta afirmativa, porque o que há é a confirmação da importância de Pernambuco no panorama do teatro e da dança no Brasil. Em 2015 teremos 2 importantes representantes do Estado, ambos da dança o que demonstra a qualidade e representatividade do trabalho aqui realizado. Mas para elucidar lembro que em 2014 tivemos igualmente 2 representantes do Estado ( Grupos Peleja e Magiluth), em 2013 tivemos 1 grupo, a Duas Companhias, em 2012, novamente 2, o Grupo Grial de Dança e a Trupe Ensaia Aqui e Acolá, em 2011 (Coletivo Lugar Comum e Mão Molenga Teatro de Bonecos), em 2010 a representação foi única com o Grupo Experimental e em 2009 com o Coletivo Lugar Comum, em 2008 e 2007 infelizmente não tivemos nenhum representante, em 2006 nosso recorde de 3 representações com a Remo Produções, Mão Molenga Teatro de Bonecos e Grupo de Artistas Independentes e ainda em 2005 tivemos o Terreiro Produções. Tomei apenas como referência os últimos 10 anos para mostrar que, ao contrário, há a consolidação da representação. Pernambuco ainda contou com espetáculos inseridos nas programações dos anos 2000, 2001, 2003 e 2004.

Aproveito para destacar que o Balé Popular do Recife está recebendo uma grande homenagem do Sesc no Brasil, indo a todas as regiões do país, a mesma homenagem que somente receberam Angel Viana em 2014 e Ilo Krugli e o seu Teatro Ventoforte em 2013. O Circuito Especial destaca a cada ano, desde 2013, um ícone, um expoente, uma referência. E é isso que o Balé Popular do Recife é, uma referência para o Brasil.

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Morrer de amor: sobre família e ignorâncias

Morrer de amor. Foto: Lígia Jardim

Morrer de amor. Foto: Lígia Jardim

“(…) extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás, lá pra trás não há nada,
e nada mais”
Paulo Leminski

As paredes da casa estão impregnadas de história. Sabe aqueles segredos não revelados por anos? Os assuntos escondidos? As conversas que não chegaram nem a acontecer? Em Morrer de amor, segundo ato inevitável: morrer, da Fundación La Maldita Vanidad Teatro, da Colômbia, despontam as dores advindas de relações que se deixaram empalidecer pelo tempo, pela falta de liberdade de nos mostrarmos como somos.

A encenação proposta pelo colombiano Jorge Hugo Marín nos leva a observar de perto os sentimentos e conflitos que se instauram durante o velório de Luís (Miguel González). Estamos ali, sentados na sala da casa onde familiares choram o morto. Somos/estamos cúmplices da encenação. A carga semântica implícita ao local torna-se um dos elementos da teatralidade nessa escritura cênica. Não adiantaria estar dentro de uma casa, do ponto de vista estético, se não houvesse uma apropriação do potencial simbólico do lugar, o que possibilita ao espectador uma mudança de perspectiva da cena. O jovem grupo colombiano, formado há cinco anos e que já tem pelo menos sete montagens no repertório, realmente se empodera da materialidade espacial da encenação. O caixão no meio da sala, como nos velórios de antigamente ou nas casas pelo interior do país, permite que estejamos diante de conflitos familiares que não conseguem permanecer incólumes, mesmo diante da morte.

Espetáculo é realizado dentro de uma casa

Espetáculo é realizado dentro de uma casa

A dramaturgia assinada pelo diretor Jorge Hugo Marín trata de questões arraigadas na cultura não só da Colômbia, mas de toda a América Latina, principalmente posições de intolerância e ignorância diante das diferenças. Muitos jovens homossexuais ainda sofrem sim todo tipo de preconceitos e violência, dentro e fora de casa. Não podemos esquecer o contexto em que estamos inseridos. No Brasil, em 2015, ainda precisamos de uma comissão especial na Câmara dos Deputados para discutir se o conceito de família pode estar restrito à união entre um homem e uma mulher, como prega o Estatuto da Família, projeto de lei proposto pelo deputado pernambucano Anderson Ferreira. Uma lei que desconsidera as relações homoafetivas e ainda veta a adoção de crianças por casais gays.

Como montagem que opta pelo caminho do realismo, Morrer de amor traz atuações que transitam por um limite tênue. Por muito pouco, as interpretações poderiam soar over, exageradas e aí perder a relação com a realidade proposta pela encenação. O que não permite que isso aconteça é o talento dos atores e da direção, aliado à clareza de possibilidades e de compreensão da cena, inclusive a partir da dramaturgia. O texto serve ao propósito de revelar o cotidiano de uma família classe média baixa que não sabe lidar com os seus conflitos. Se todos os atores conseguem trabalhar no mesmo diapasão, um dos destaques é a atriz Juanita Cetina, intérprete da jovem Olga, que foi namorada de Luís (Miguel González) na infância. As oscilações na voz, o medo no olhar, os trejeitos assumidos pela personagem levam muitas vezes a plateia ao riso ou à impaciência diante da ingenuidade.

Morrer de amor nos leva à certeza de que, se não podemos extinguir todo remorso, como propõe o poema Bem no fundo, de Paulo Leminski, é melhor encarar as fissuras causadas pelas ações, ausências e omissões. Como plateia, sentimos não só o morto da família. Choramos não só a ficção. O que lamentamos mesmo é a realidade de Morrer de amor.

Montagem colombiana trata de temas como preconceito

Montagem colombiana trata de temas como preconceito

 

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