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Derivas erótico-sociológicas de Túlio Carella

Orgía Ou De Como Os Corpos Podem Substituir As Ideias, do Teatro Kunyn

Orgía Ou De Como Os Corpos Podem Substituir As Ideias, do Teatro Kunyn

Foi nos anos 1960, na cidade do Recife, que um discreto professor universitário deixou emergir seus secretos desejos homoeróticos e mergulhou na prática homossexual registrada em detalhes no seu caderno. Essas memórias são descritas no livro Orgia, Os Diários de Tulio Carella. A publicação inspirou o Teatro Kunyn, dirigido por Luiz Fernando Marques, a montar a peça itinerante Orgia ou De Como os Corpos Podem Substituir as Ideias, que estreou em 2015. A encenação integra a programação do Trema! Festival de Teatro e faz três apresentações na cidade, de hoje a sexta-feira. A peça começa no Espaço Pasárgada e o público segue para um apartamento, onde será encenado o primeiro ato.

Nessa primeira parte, Carella (interpretado por Ronaldo Serruya, Paulo Arcuri e Luiz Gustavo Jahjah), está de malas prontas para viajar ao Brasil. Contratado pela Universidade Federal de Pernambuco, ele deixa a mulher em Buenos Aires e se encanta com os corpos de homens, do cais do porto e de outros pontos da cidade.O público participa dessa festa de despedida. De lá, segue até o Parque 13 de Maio, munido de aparelhos de MP3 para ouvir as falas sobre as descobertas do dramaturgo argentino.

Serruya, Arcuri e Jahjah circulam e contracenam com os 12 atores pernambucanos selecionados para a oficina Deriva. O espetáculo OrgÍa discute a homoafetividade na esfera pública e vasculha a reação da cidade diante da multiplicidade de desejos.

FICHA TÉCNICA
Criação: Teatro Kunyn (Luiz Fernando Marques, Luiz Gustavo Jahjah, Paulo Arcuri e Ronaldo Serruya)
Direção: Luiz Fernando Marques
Atuação: Luiz Gustavo Jahjah, Paulo Arcuri E Ronaldo Serruya
Dramaturgia Ato I e Ato Ii: Teatro Kunyn
Dramaturgia Ato Iii: Alexandre Dal Farra
Direção De Arte: Yumi Sakate
Iluminação: Wagner Antônio
Assistente De Iluminação: Robson Lima
Desenho De Som: Alessa
Produção: Fernando Gimenes
Realização: Teatro Kunyn E Lei De Fomento Ao Teatro Para A Cidade De São Paulo

SERVIÇO
Orgia Ou De Como Os Corpos Podem Substituir As Ideias
Teatro Kunyn (SP)
Quando: 10, 11 e 12 de maio, às 14h30
Onde: Espaço Pasárgada
Quanto: R$ 20 e R$ 10
Duração: 120 minutos
Recomendação: 18 anos

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Grandezas negativas da política

Tablado de Arruar traça trajetória do PT para expor barbárie na política. Foto:

Tablado de Arruar traça trajetória de partido de esquerda para expor barbárie na política. Foto: Cacá Bernardes 

Qual o preço ético para se chegar ao poder? O que está em jogo? E que tipos de mudanças um partido político de esquerda precisa fazer para atingir esses objetivos? A montagem do grupo Tablado de Arruar, de São Paulo, trata desse percurso, da realidade política e da crise vivenciada pelo PT nos últimos anos. A Trilogia Abnegação está dividida nas peças Abnegação I, que trata sobre poder e política no Brasil de forma mais difusa. Abnegação II é sobre os trâmites da política e o PT a partir do caso da morte do Celso Daniel. Em Abnegação III são expostos fragmentos, narrativas entrecruzadas, trechos de histórias e personagens envolvidos com a política. E o que sobrou depois das fissuras.

A Trilogia Abnegação focaliza o declínio dos setores progressistas da sociedade e o avançar da direita, no Brasil e no mundo.  Há discursos cínicos de várias figuras da malha social e não só   políticos, truculência nas ações e um clima de insegurança na vida real. Isso fricciona com os assuntos das peças, que traçam suspeição de pactos, traições e suspeitas de crimes.

Apesentada de hoje a quarta-feira, dentro da programação do Trema! Festival de Teatro.  As peças tratam de política e políticos brasileiros (e seus pares de outras profissões), alguns que já foram militantes comprometidos com a utopia de justiça para o coletivo.

Vivemos em tempos de muitas guerras. De nervos, de narrativas. Confrontos físicos nos espaços públicos e uma defesa de interesses privados como sendo público. A realidade é um caleidoscópio em que cada vertente tenta impor sua versão, apagar imprecisões , convencer com o interpretações esdrúxulas das leis ou pela constante repetição de algumas notas pela mídia, que aceitou esse papelão.

O dramaturgo Alexandre Dal Farra e o grupo Tablado de Arruar eletrizam temas polêmicos. Em Mateus, 10, de 2012, eles se lançaram nas questões da fé e sua relação com a sociedade. Abnegação leva à cena as contradições do circuito de poder nos bastidores da política.

Com texto de Dal Farra, que divide a direção com Clayton Mariano, a Abnegação I aborda as relações de poder. Mas não se sabe exatamente sobre o que eles falam, mas dá uma sensação que é em relação à política brasileira.

A encenação minimalista joga a carga no trabalho dos atores para criar de uma atmosfera abarrotada de armadilhas, intrigas e infidelidades. No fim de uma festa, numa reunião madrugada a dentro, cinco personagens ligadas à estrutura de poder debatem sobre o o que deverá ser feito, pois um ocorrência do passado veio à tona. E as decisões podem ter consequências trágicas. Regados a muita bebida, as discussões são permeadas por danças ao som de hits sertanejos e brigas, até a decisão final.

SERVIÇO

Abnegação I
8 de maio, 20h – Teatro Hermilo Borba Filho
Abnegação II – o começo do fim
9 de maio, 20h – Teatro Hermilo Borba Filho
Abnegação 3 – restos
9 de maio, 20h – Teatro Hermilo Borba Filho

Ficha técnica:
Texto: Alexandre Dal Farra
Direção: Clayton Mariano e Alexandre Dal Farra
Com: Alexandra Tavares, André Capuano, Carlos Morelli, Vinícius Meloni e Vitor Vieira.
Direção de arte: Eduardo Climachauska
Assistente de direção: Ligia Oliveira
Preparação corporal: Lu Favoreto
Provocadora: Cibele Forjaz
Figurino: Melina Schleder
Trilha sonora: Alexandre Dal Farra
Iluminação: Francisco Turbiani
Assistente de iluminação: Marcela Katzin
Direção de produção: Carla Estefan
Assistente de produção: Ariane Cuminale
Assessoria de imprensa: Arteplural Comunicação. Fernanda Teixeira e Adriana Balsanelli
Foto divulgação: Cacá Bernardes
Desenho gráfico: Vitor Vieira

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Rock para liberar as ideias

Foto:

Cabeça, Um Documentário Cênico, com o grupo carioca Complexo Duplo. Fotos: Ricardo Brajterman

Cabeça © Foto Ricardo Brajterman (2)

Cabeça © Foto Ricardo Brajterman (3)

Fotos: Ricardo Brajterman

Os anos 1980 não são jurássicos. A tirar pela atualidade das 13 músicas do álbum Cabeça Dinossauro, dos Titãs, lançado em 1986. Era um momento de transição no Brasil, pós-ditadura, e a população andava com sede e fome de democracia. E a música, o rock nacional traduzia muito bem esses desejos de viver sem temor. Os atores / músicos da montagem Cabeça, Um Documentário Cênico eram uns garotos que não decidiam muito, alguns deles nem votavam. Mas todos foram marcados por esses disco.

Os artistas da peça puxam a memória do álbum e sua crítica ao capitalismo, ao estado, à religião e à família para fazer conexões com esses tempos estranhos, obscuros e de retrocessos em algumas conquistas dos direitos civis que vivemos hoje. Cabeça de Dinossauro, dos Titãs, é considerado um dos mais cáusticos discos daquele momento.

Nas pegadas das letras musicais, a dramaturgia segue o espírito contestador e tom crítico.
Dirigido por Felipe Vidal, o espetáculo estreou ano passado, como parte das comemorações dos 30 anos do álbum. Oito homens em cena executam todas as canções de Cabeça Dinossauro. A encenação utiliza também projeções que compõem um painel dos episódios emblemáticos nacionais e mundiais dos anos 1980 em conexão com os dias de hoje. O espetáculo foi o vencedor do Prêmio Shell (RJ) na categoria melhor música.

As memórias dos atuadores também servem de ingredientes da dramaturgia desse espetáculo, que integra a Trilogia Paramusical, que já ergueu a peça Contra o Vento, que celebra os musicais dos anos 1960).

Para traçar esse retrato sonoro de um disco estão em cena Felipe Antello, Felipe Vidal, Guilherme Miranda, Gui Stutz, Leonardo Corajo, Lucas Gouvêa, Luciano Moreira e Sérgio Medeiros.

O espetáculo do Coletivo Complexo Duplo (RJ) faz sessões nos dias 6 e 7 de maio, no Teatro Apolo, no Recife, dentro do Trema! Festival de Teatro.

Três perguntas para o diretor Felipe Vidal

Felipe Vidal é diretor e ator de Cabeça. Foto: Reprodução do Facebook

Felipe Vidal é diretor e ator de Cabeça. Foto: Reprodução do Facebook

O que é Cabeça?
Cabeça uma peça de teatro documentário a partir do álbum Cabeça Dinossauro dos Titãs, mas discutindo mais do que tudo esses últimos 30 anos de história, política principalmente, do Brasil e do mundo a partir dos temas que os Titãs provocaram, colocaram ali no disco, que são muito diretos assim, de contestação às instituições. As músicas têm títulos Família, Igreja, Porrada… Então Cabeça é isso. Um espetáculo que tem um diálogo com um disco de 31 anos atrás, mas que fala sobretudo sobre a história política do Brasil e a partir disso do mundo um pouco nesses últimos 30 anos.

Como está a cabeça do brasileiro hoje?
Como anda a cabeça do brasileiro agora acho que muito dividida né?! dividida em facções muito determinadas assim e também confusa com esse período que a gente tá vivendo. E uma coisa muito curiosa do espetáculo é ao mesmo tempo terrível do Brasil, mas ao mesmo tempo interessante como obra de arte de pensar na potência do que os Titãs construíram foi que um disco contestador em 1986 ele parece que foi escrito, as músicas parecem que foram compostas ontem. Então a gente rodou, rodou, girou e parece que tá indo para o mesmo lugar, E às vezes em retrocesso… Acho que a cabeça do brasileiro hoje está muito confusa e ao mesmo tempo muito dividida em posições muitas antagônicas, muito extremas.

Sobre o futuro. A partir dessa proposta musical, dessas letras, o que projeta, propõe para o futuro, enquanto luta ou enquanto alguma coisa mais esperança…
Acho que qualquer obra de arte contestadora tem como premissa mudar as coisas. Você fala que um lugar é terrível, que a instituição é assim, que a polícia é assim, que a família é assim, mas numa perspectiva de “vamos refletir sobre isso, vamos propor outros caminhos”. Então acho que os Titãs fizeram em 30 anos e a gente nesse diálogo faz essa mesma proposta. A gente está vivendo nesse lugar estranho que esses caras estavam falando há 30 anos. Voltamos um pouco para esse mesmo buraco e aí? O que é que a gente faz? Acho que a peça não tem uma proposta de solução, nada disso, mas é levantando essas perguntas e provocando, para pensar num futuro melhor. E nada melhor nesse sentido do que o rock, a música para mobilizar o corpo de uma maneira muito concreta. As pessoas ficam muito mobilizadas mesmo com a música, que tem essa potência, assim.
Uma coisa que é curiosa é que as pessoas falam assim: “Ah essa peça é boa para a gente assistir de pé”. Eu discordo um pouco. Eu acho que essa tensão de você ter vontade de levantar, de se mexer, de dançar ou alguma coisa assim, e ao mesmo tempo dialogar com o que a gente tá colocando como texto ali, como conteúdo é onde a gente estava querendo chegar. De que esse corpo ficasse tensionado e pudesse explodir no final. A gente faz no final – já dando spoiler – uma proposta de catarse para todo mundo dançar. Então acho que tem a proposta de mexer o corpo para mexer a cabeça, para pensar um futuro melhor.

FICHA TÉCNICA
DRAMATURGIA, DIREÇÃO E CENOGRAFIA: Felipe Vidal
ELENCO: Felipe Antello, Felipe Vidal, Guilherme Miranda, Gui Stutz, Leonardo Corajo, Lucas Gouvêa, Luciano Moreira
e Sergio Medeiros
DIRETOR ASSISTENTE: Rafael Sieg
DIREÇÃO MUSICAL: Luciano Moreira e Felipe Vidal
DIREÇÃO DE MOVIMENTO: Denise Stutz
FIGURINOS: Flavio Souza
ILUMINAÇÃO: Tomás Ribas
VIDEOGRAFISMO PROGRAMAÇÃO VISUAL: Eduardo Souza (PAVÊ)
INTERLOCUÇÃO DRAMATÚRGICA: Daniele Avila Small
DESENHO DE SOM | Branco Ferreira
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Luísa Barros
REALIZAÇÃO: Complexo Duplo
DURAÇÃO DO ESPETÁCULO: 1h50 (com intervalo de 10 minutos)
CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA: 16 anos

SERVIÇO
Cabeça (Um Documentário cênico) – Coletivo Complexo Duplo (RJ)
Quando: 6 de maio, 20h e 7 de maio, às 19h
Onde: Teatro Apolo
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)

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Borghi encara clima pós-apocalíptico de Beckett

Foto: Patricia Cividanes

Elcio Nogueira Seixas e Renato Borghi em Fim de Jogo, peça de Samuel Beckett. Foto: Patricia Cividanes /Divulgação

 O ator Renato Borghi, 80 anos, merece ser reverenciado, paparicado, celebrado, acarinhado por tudo que ele já fez. Seis décadas de teatro não é para qualquer um, não. Só para os fortes. Um dos fundadores do Teatro Oficina, Borghi estreou profissionalmente em 1958, com o espetáculo Chá e Simpatia, com direção de Sérgio Cardoso, no Rio de Janeiro. O intérprete do dissoluto Abelardo I em O Rei da Vela, montagem emblemática do Teatro Oficina, em 1967, mergulhou em grandes personagens. Contracenou com Etty Fraser em A Incubadeira, fez Galileu e Na Selva das Cidades, do alemão Bertolt Brecht (1898-1956) e As Três Irmãs, de Anton Tchekhov (1889-1860), pelo Teatro Oficina. No ano passado transformou a sala de visitas de seu apartamento, em São Paulo, em um teatro de bolso para as apresentações da peça Fim de Jogo. A ideia de fazer a peça ocorreu quando Renato Borghi se recuperava de duas cirurgias na coluna e utilizava cadeira de rodas devido a limitações motoras.

Essa versão da tragicomédia do dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989), chega ao Recife para seis apresentações, de hoje a sábado e nos dias 11, 12 e 13, na Caixa Cultural. A encenação é do Teatro Promíscuo, companhia criada há 25 anos por Borghi e Elcio Nogueira Seixas, seu parceiro de cena. Ontem foi apresentada a palestra ilustrada Borghi em Revista, quando o artista passeou pela história do Teatro Brasileiro. No dia 10, quarta-feira, a palestra gratuita será reapresentada na Sala Multimídia da Caixa Cultural, às 19h, com o conteúdo que vai das revistas dos anos 1930 até os movimentos da cena contemporânea no Brasil. E na próxima quinta-feira, dia 11, os atores vão conversar com o público após a apresentação da peça.

Os retratos dos pais de Borghi, , representam os personagens

Os retratos dos pais de Borghi representam os personagens Nell e Nagg

O veterano ator já assistiu muitas montagens de Fim de Jogo mas sempre lhe intrigava o modo semelhante na interpretação, que ele pensava que abriam um abismo entre o texto e o público. Sua encenação traz uma pegada mais intimista. Criada na sala de seu apartamento, a sua encenação traz essa atmosfera, de um contato mais próximo.

Os personagens beckettianos povoam um mundo pós-colapso, devastado e sem perspectiva de futuro. Escrita em 1957, Fim de jogo expõe o convívio de quatro figuras, sobreviventes, que dividem um exíguo abrigo. Borghi considera que a peça pode se conectar a um tempo pós-atômico como aos dias de hoje.

Borghi faz o velho Hamm, cego e paralítico, que vive na dependência de Clov (Elcio Nogueira Seixas), que sofre de uma enfermidade que o impede de sentar. Então Clov narra a Hamm o que enxerga da terra devastada.

A direção é assinada por Isabel Teixeira que optou por utilizar fotografia dos pais de Renato, Maria de Castro e Adriano Borghi, como os outros dois personagens do texto de Beckett, Nell e Nagg.

FICHA TÉCNICA

Autor: Samuel Beckett
Tradução: Fábio Rigatto de Souza Andrade
Elenco:
Renato Borghi (Hamm)
Elcio Nogueira Seixas (Clov)
Maria de Castro Borghi (Nell)
Adriano Borghi (Nagg)
Direção: Isabel Teixeira
Direção de Arte: Karlla Girotto
Iluminação: Alessandra Domingues
Trilha Sonora: Aline Meyer
Diretor Assistente e “O Ponto”: Lucas Brandão
Assistência de Direção de Arte: Gabriela Cherubini
Assistência de Iluminação: Laiza Menegassi
Adaptação de iluminação para Recife: Roberto Setton
Direção de palco: Tiago Moro
Filmagem e Edição: Eliana César e Lucas Brandão
Fotos: Roberto Setton e Patrícia Cividanes
Programação gráfica: Patrícia Cividanes
Direção de Produção: Anayan Moretto
Produção executiva: Rick Nagash
Produção Recife: Tadeu Gondim
Realização: Teatro Promíscuo

Serviço

Fim de Jogo
Quando: De 4 a 6/05 e de 11 a 13/05/2017 (Bate-papo com os atores no dia 11/05, após a peça) às 20h
Onde: Caixa Cultural Recife (Avenida Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife)
Quanto: R$ 10,00 (inteira) | R$ 5,00 (meia-entrada)
Venda de ingressos: a partir do dia 03/05 (para as apresentações de 04 a 06/05) e do dia 10/05 (para as apresentações de 11 a 13/05/2017), das 10h às 20h, na bilheteria da CAIXA Cultural Recife.
Fone: (81) 3425-1915

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TREMA!, Entre utopias e distropias

Noite. Foto José Caldeira

Espetáculo português Noite abre programação do festival. Foto José Caldeira / Divulgação

Teatro serve para quê? Não tenho respostas daquelas definitivas ou complexamente articuladas. Sinto necessidade dessa arte como os dependentes químicos dizem sentir da droga. O teatro é meu vício maior e melhor. Mas deixando essa sentimentalidade de lado, recebo com entusiasmo a chegada da quinta edição do TREMA! Festival de Teatro, que começa nesta quarta-feira, e segue ate o dia 14 movimentando os teatros no Recife.

São 15 peças em sua programação que, em 12 dias, reúne oito montagens nacionais, uma internacional e seis pernambucanas. Abre com o espetáculo português Noite, inspirado na obra do poeta lusitano Al Berto, que vibra com música manipulada ao vivo por um DJ e no bailado frenético de três homens de energia selvagem e caótica. A encenação remete para subúrbios e subterrâneos.

Os cariocas do Coletivo Complexo Duplo trazem Cabeça (um documentário cênico), calcado no álbum Cabeça Dinossauro, da banda paulistana de rock Titãs. As músicas guardam um feroz posicionamento político e são tocadas ao vivo pelos atores. É o Brasil dos anos 1980 com suas problematizações sobre violência e estado, capitalismo e família tradicional. Dizem muito sobre hoje.

Das inspirações sonoras para as inspirações literárias. Erguido a partir da obra homônima de Chico Buarque de Holanda, Leite Derramado põe uma lupa sobre motivos éticos e os procedimento políticos da História do Brasil. Encenado pelo dramaturgo e diretor Roberto Alvim (SP).

Orgía ou de como os corpos podem substituir as ideias, baseado no livro de Tulio Carella, narra as aventuras eróticas e intelectuais do professor argentino que veio parar no Recife da década de 1960. A montagem do Teatro Kunyn (SP) – destinada a apenas 30 espectadores por sessão – começa no Espaço Pasárgada, antiga casa de Manoel Bandeira e depois segue para o Parque Treze de Maio.

A Primeira Guerra Mundial é pano de fundo da montagem cearense Diga que você está acordado! MáquinaFatzer , a partir da obra inacabada do dramaturgo alemão Bertolt Brecht.

Já o grupo paulista Tablado de Arruar traz a Trilogia Abnegação, que investiga cenicamente as contradições de um partido de esquerda quando chega ao poder. Obra polêmica que envereda pelas operações do mundo político, suas escolhas e consequências, e a realidade fraturada das pressões internas e externas pelo poder.

De Pernambuco, participam o Coletivo Angu de Teatro, com Ossos e Ópera; o ator Marcio Fecher com Meu nome é Enéas; Carolina Bianchi (SP) e Flávia Pinheiro (PE) com Utopyas to every day life; Flávia Pinheiro com o solo Diafragma 1.0: como manter-se vivo? e o Núcleo de Teatro do Sesc Petrolina em parceria com a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, grupo gaúcho, apresenta Procura-se um corpo – Ação nº3, sobre feridas ainda abertas pela ditadura militar.

Leite Derramado, Trilogia Abnegação, Ossos e Utypias.

Leite Derramado, Trilogia Abnegação, Ossos e Utopyas to every day life

O Trema! Festival de Teatro cresceu em relevância no panorama pernambucano e nacional desde sua primeira edição. Na cidade, enquanto eventos da mesma natureza foram se descaracterizando, precarizando sua programação e as intersecções com a potência da arte, o Trema! fortaleceu sua identidade nômade dentro de um campo do teatro experimental e de pesquisa.

As inquietações com o contemporâneo marcam a trajetória de sua curadoria, assinada pelo encenador e ator Pedro Vilela e que este ano vem com as provocações de distopias e realidades. Realizado pela Trema! Plataforma de Teatro, o festival conta ainda na realização com Mariana Rusu e Thiago Liberdade.

Se, no primeiro ano, o programa foi realizado sem verba, o quinto chega robustecido mesmo diante da crise. Voltado para um público jovem (não só em idade) e inquieto, a produção junta no seu programa obras que refletem o clima de inconformismo e perplexidade porque que passa o país.

Entrevista // Pedro Vilela

Pedro Vilela é o curador do Trema! Foto: Reprodução do Facebook

Pedro Vilela é o curador do Trema! Foto: Reprodução do Facebook

“Já não sabemos o que podemos fazer em torno desta inércia”, diz você no catálogo. Então o que fazer com essa distopia, que evidencia a plena decadência humana?
Hoje se iniciarmos a reflexão sobre o atual estado pode se configurar como um paradigma inicial. E arte nos aponta horizontes, pelo menos desconfiamos disso. Na história da humanidade ela teve esse papel, a de ser agente transformador de realidade, de escancarar distopias. E neste sentido, estamos falando de arte, não de entretenimento. Estamos mergulhados numa sociedade fugaz que preza por possíveis “diversões” em suas horas vagas, pós-trabalho. Então o festival, infelizmente, não poderá te dar só isto… é isso, e é também uma tentativa de reviravolta dentro de si, para enfim poder revirarmos nossa sociedade. É uma tentativa de caminho…

A reflexão do escritor Aldo us Huxléya: ¨E se esse mundo for o inferno de outro planeta?¨ É uma bela frase de efeito!
É? É, né? Talvez por isto nos encante tanto! E me encanta ainda mais por se tratar de um questionamento! Por nos apequenar de alguma maneira… logo nós, tão especiais, seres únicos neste universo imenso, detentores de tantas verdades…

São 24 sessões, de 15 espetáculos, dos quais 1 é internacional, 8 nacionais e 6 pernambucanos. Você diz “Quando montamos um festival, não temos controle sobre as conexões que o público fará….”. Mas então quais as conexões que os diretores do Trema! fizeram?
Acho que a principal seja com o festival do ano passado… se anteriormente apontávamos para uma necessidade de ré-construção de nossa sociedade, neste afirmamos nosso mergulho à barbárie e nossa inércia em combater isto, porque no fundo talvez sejamos bárbaros mesmos… mas ainda que indiretamente podemos também ver um mergulho em tornos de questões que se tornaram ainda mais urgentes em nosso País…

Por que o teatro de pesquisa é melhor que os outros?
Isso você está a afirmar (risos). Escolhemos este recorte pois é a partir dele que pensamos arte e mundo. Quando você cria algo objetivando “sucesso” e dinheiro na maioria das vezes esquece de sua função principal de agente modificador de realidades. Outros veículos sabem “entreter” o público com mais tenacidade do que o teatro e tenho visto que reside no teatro de grupo esta “escolha” pelo caminho mais tortuoso, onde artistas muitas vezes abdicam de certas “regalias” sociais por tentar construir uma sociedade mais justa, solidaria… no fundo somos bastante utópicos! (Risos)

Qual o orçamento do Trema neste ano? Como vocês conseguiram os recursos? E o que ficou faltando?
O orçamento neste ano é de 230 mil, fruto desta trajetória que vem sendo criada. A parceria com Itaú é bastante frutífera, pois percebemos a busca desta instituição por projetos como o nosso, haja vista as ações que realizam como a própria manutenção do instituto Itaú Cultural e o programa Rumos. Louvável também pela descentralização dos recursos e potencialização de uma ação com este caráter em pleno Nordeste. Já estamos de olho em 2018 e consolidando-se estas parcerias, podermos ampliar a presença de espetáculos internacionais no festival.

PROGRAMAÇÃO COMPLETA

NOITE
Circolando (Portugal)
3 e 4 de maio – Teatro Barreto Júnior, 20h

PROCURA-SE UM CORPO – AÇÃO Nº 3
Núcleo de Teatro do Sesc Petrolina & Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz
13 de maio – Casa da Cultura, 11h
14 de maio – Recife Antigo, 15h

DIGA QUE VOCÊ ESTÁ DE ACORDO! MÁQUINAFATZER
Teatro Máquina (Ceará)
05 de maio – Teatro Hermilo Borba Filho, 20h
06 e 07 de maio – Teatro Hermilo Borba Filho, 18h

MEU NOME É ENÉAS – O ÚLTIMO PRONUNCIAMENTO
Márcio Fecher (PE)
05 de maio – Espaço Cênicas, 21h

CABEÇA (UM DOCUMENTÁRIO CÊNICO)
Coletivo Complexo Duplo (RJ)
06 de maio – Teatro Apolo, 20h
07 de maio – Teatro Apolo, 19h

UTOPYAS TO EVERY DAY LIFE
Carolina Bianchi (SP) e Flávia Pinheiro (PE)
08 e 09 de maio – Museu de Artes Afro Brasil, 16h

ORGÍA OU DE COMO OS CORPOS PODEM SUBSTITUIR AS IDEIAS
Teatro Kunyn (SP)
10, 11 e 12 de maio , Espaço Pasárgada, 15h

TRILOGIA ABNEGAÇÃO
Tablado de Arruar (SP)
8, 9 e 10 de maio, Teatro Hermilo Borba Filho, 20h

OSSOS
Coletivo Angu de Teatro (PE)
11 de maio – Teatro Marco Camarotti, 20h

ÓPERA
Coletivo Angu de Teatro (PE)
12 de maio , Teatro Apolo, 20h

DIAFRAGMA 1.0: COMO MANTER-SE VIVO?
Flávia Pinheiro (PE)
11 de maio , Teatro Hermilo Borba Filho, 20h

SALMO 91
Cênicas Cia de Repertório (PE)
12 de maio , Espaço Cênicas, 18h

LEITE DERRAMADO
Morente Forte Produções Teatrais e Club Noir (SP)
13 de maio – Teatro de Santa Isabel, 20h
14 de maio – Teatro de Santa Isabel, 18h

ENCONTROS TREMÁTICOS

DIÁLOGOS TREMÁTICOS 1
Experiências Compartilhadas em Gestão (BRA/PT)
06 de maio , Centro Apolo-Hermilo, 15h

DIÁLOGOS TREMÁTICOS 2
Demonstração pública de processo criativo (Máquina/CE)
07 de maio , Centro Apolo-Hermilo, 15h

DIÁLOGOS TREMÁTICOS 3
Debate ¨Esquerda Brasileira – distopias e realidades¨
10 de maio , Centro Apolo-Hermilo, 18h

DIÁLOGOS TREMÁTICOS 4
Encontro com programadores do Palco Giratório SESC
13 de maio , Centro Apolo-Hermilo, 15h

ATIVIDADES FORMATIVAS

OFICINA 1
TEATRO DOCUMENTÁRIO CONTEMPORÂNEO IBERO-AMERICANO
Dias 05, 06 e 07 de maio , Sesc Santa Rita, 10h as 13h

OFICINA 2
DERIVA com participação no espetáculo ORGÍA
Dias 07 a 12 de maio , Espaço Pasárgada, 13h às 18h

LANÇAMENTO DE PUBLICAÇÕES

REVISTA , TREMA ! Revista de Teatro

LIVRO , O menino na gaiola, Cleyton Cabral
04 de maio , Teatro Barreto Junior, 19h30

LIVRO , Trilogia Abnegação, Alexandre Dal farra
10 de maio , Centro Apolo-Hermilo, 19h

SERVIÇO
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)
Canal de Venda Web: www.compreingresso.com.br

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