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Bonecos para encantar

Foto: Franz Mendes Cia Fios de Sombra (SP)

Foto: Franz Mendes Cia Fios de Sombra (SP)

A 6ª Mostra Pernambucana de Teatro de Bonecos se faz na raça. Mesmo com a carência de espaços teatrais e específicos para títeres, com os incentivos insuficientes e a falta de políticas de salvaguarda para o mamulengo, que é Patrimônio Imaterial. O resultado de resistência e insistência dos artistas do setor são exibidos deste sábado (27) até o dia 4 de junho, no Teatro Apolo, e em espaços públicos do Recife, Olinda e Igarassu.

Serão 33 apresentações artísticas, com destaque para a produção local, que compõe um panorama dessa arte no estado. E a Associação Pernambucana de Teatro de Bonecos, presidida por Jorge Costa, focou na descentralização do programa e na realização de três oficinas: Confecção de Bonecos de papel machê, Confecção de bonecos de sucata e Confecção de bonecos de madeira (Mulungu).

O festival inclui os tradicionais, como o Mestre Saúba e seu filho Bibiu, de Carpina (PE), o Mamulengo Riso do Povo do Mestre Zé de Vina, de Glória do Goita (PE), Mestre João do Mamulengo (São João/PE); Mamulengo Jurubeba. E também peças que usam técnicas de objetos animados, como Mistério das Figuras de Barro, da Cia. Máscaras de Teatro (PE), o musical Pipoquinha, e O mascate, a pé-rapada e os forasteiros, da Artes Cínicas com Objetos (PE).

Além de duas montagens do Mão Molenga Teatro de Bonecos ,na programação paralela: Babau ou a vida desembestada do homem que tentou engabelar a morte e Fio mágico.
A programação é vasta e o espectador deve encontrar algo que o encante nessa arte mágica.

A Companhia Fios de Sombra, de Campinas, vem com dois espetáculos neste sábado. Maresias traça uma reflexão poética sobre brincadeiras na praia. Nela, um homem solitário constrói um castelo de areia e logo depois um menino. O garoto de areia sonha que uma bela sereia o chama das profundezas do mar. O homem vislumbra sua criatura no afã de conquistar o amor da sereia. São sonhos que se conectam, numa brincadeira divertida com técnica de manipulação direta e sombras.

Cinza, o solo da atriz Paloma Barreto é sobre uma personagem moradora de rua. A concepção visual trabalha com estampas de jornal e uma técnica japonesa chamada Kuruma Nyngio, em que o títere é manipulado por artista que usa um pequeno banco com rodas.

PROGRAMAÇÃO

Maresias, da Cia. Fios de Sombra (Campinas/SP)
Quando e onde: 27/05 (sábado), às 16h, no Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)

Cinza, da Cia. Fios de Sombra (Campinas/SP)
Quando e onde: 27/05 (sábado), às 20h, no Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)

A pata e a raposa, do Grupo Pipoquinha (PE)
Quando e onde: 28/05 (domingo), às 10h, no Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)

As bravatas de Tiridá no Mamulengo do Recife – Mamulengo Jurubeba
Quando e onde: 28/05 (domingo), às 15h, na Praça do Carmo – Olinda

Cantiga e histórias na terra do sabiá ou O que é meu é meu e o boi não lambe, do Grupo Mamulengos e Catrevagens (PE)
Quando e onde: 28/05 (domingo), às 16h30, no Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)

Mestre Saúba e seu filho Bibiu – Carpina (PE)
Quando e onde: 28/05 (domingo), às 18h, na Praça do Arsenal, Bairro do Recife

Mistério das Figuras de Barro, da Cia. Máscaras de Teatro (PE)
Quando e onde: 28/05 (domingo), às 20h, no Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)

Bumba meu boi do Capitão Boca Mole, do Teatro Bonecartes (PE)
Quando e onde: 29/05 (segunda), às 10h, no Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)

O homem e a morte, do TengoLengo Teatro de Mamulengo (Salgueiro/PE)
Quando e onde: 29/05 (segunda), às 15h, no Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)

H20, o planeta é água, do Theatro de Bonecos Quero Mais (PE)
Quando e onde: 30/05 (terça), às 10h, no Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)

Era uma vez…, do Theatro de Bonecos Quero Mais (PE)
Quando e onde: 30/05 (terça), às 15h, no Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)

Musical Pipoquinha, do Grupo Pipoquinha (PE)
Quando e onde: 31/05 (quarta), às 10h, no Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)

Folclore: será que é história? Q-Riso teatro de bonecos (Igarassu/PE)
Quando e onde: 31/05 (quarta), às 15h, no Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)

A bela e a fera, do Teatro de Bonecos Lobatinho
Quando e onde: 1º/06 (quinta), às 15h, no Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)

Cantigas de Roda que o circo chegou, do Theatro de Bonecos Quero Mais (PE)
Quando e onde: 1º/06 (quinta), às 15h, no Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)

Mamulengo mulato, Mestre João do Mamulengo (São João/PE)
Quando e onde: 1º/06 (quinta), às 15h, na Praça do Carmo

Grandioso espetáculo do Mamulengo Tomé, do Mamulengo Tomé (Garanhuns/PE)
Quando e onde: 1º/06 (quinta), às 20h, no Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)

Historinhas breves: miniespetáculos dos alunos de teatro da UFPE
Quando e onde: 02/06 (sexta), às 10h, no Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)

A fazenda encantada, do Mamulengo Nova Geração de Glória do Goita (PE)
Quando e onde: 02/06 (sexta), às 15h, no Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)

Vai ter festa na fazenda de Mané Pacaru, do Teatro História do Mamulengo, de Glória do Goitá (PE)
Quando e onde: 02/06 (sexta), às 15h, na esquina da Rua 7 de setembro com a Rua do Hospício

A fazenda do coronel Mané Pacaru, do Mamulengo Riso do Povo do Mestre Zé de Vina, de Glória do Goita (PE)
Quando e onde: 02/06 (sexta), às 20h, na esquina da Rua 7 de setembro com a Rua do Hospício

Quem conta um conto, aumenta um ponto, da Oficina de Comunicação (PE)
Quando e onde: 03/06 (sábado), às 10h, na Casa da Cultura

Mestre João Galego, do Mamulengo Nova Geração (Carpina/PE)
Quando e onde: 03/06 (sábado), às 15h, na Praça do Carmo, em Olinda

Cantiga e histórias na terra do sabiá ou O que é meu é meu e o boi não lambe, do Grupo Mamulengos e Catrevagens (PE)
Quando e onde: 03/06 (sábado), às 16h30, no Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)

Miro dos Bonecos – Mamulengo Novo Milênio, de Carpina (PE)
Quando e onde: 03/06 (sábado), às 18h, no Sítio Histórico de Igarassu

A fazenda do coronel Pacaru – Mamulengo Teatro Novo Riso do Mestre Zé Lopes – Glória do Goitá (PE)
Quando e onde: 03/06 (sábado), às 20h, no Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)

Nuviô ou Quero cê balão, da Clara Trupi de Ovos y Assovios (SP)
Quando e onde: 04/06 (domingo), às 10h, no Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)

Coisas de menino-boneco, da Clara Trupi de Ovos y Assovios (SP)
Quando e onde: 04/06 (domingo), às 16h30, no Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)

A fantasia dos bonecos, do Mamulengo Arte da Alegria, de Glória do Goitá (PE)
Quando e onde: 04/06 (domingo), às 18h, na Praça do Arsenal

O mascate, a pé-rapada e os forasteiros, da Artes Cínicas com Objetos (PE)
Quando e onde: 04/06 (domingo), às 20h, no Teatro Apolo

Programação paralela

Babau ou a vida desembestada do homem que tentou engabelar a morte, do Mão Molenga Teatro de Bonecos
Quando e onde: 27/05 (sábado), às 16h, no Teatro Marco Camarotti (Sesc Santo Amaro) – Rua 13 de maio, 455, Santo Amaro

Fio mágico, do Mão Molenga Teatro de Bonecos
Quando e onde: 28/05 (domingo), às 16h, no Teatro Marco Camarotti (Sesc Santo Amaro) – Rua 13 de maio, 455, Santo Amaro

SERVIÇO
6° Mostra Pernambucana do Teatro de Bonecos
De 27 de maio a 4 de junho, em Recife, Olinda e Igarassu
Ingressos: R$ 20 e R$ 10 para os espetáculos no Teatro Apolo e gratuito nas peças de rua

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A farsa do sucesso infalível

Alexandre Nero. Foto: Priscila Prade/Divulgação

Alexandre Nero. Foto: Priscila Prade/ Divulgação

Prestígio. Dinheiro. Influência. Seguidores. Símbolos de poder, de ser bem-sucedido na vida. Mas mesmo as mais sólidas estruturas podem desmoronar como castelos de areia e há muitos exemplares dessa gangorra no cenário brasileiro. Triunfo é uma meta também para os atores de uma companhia teatral. Eles refletem sobre êxitos e fracassos como faces de uma mesma moeda. Com um humor cáustico, a peça O Grande Sucesso explora o que significa esses valores no mundo contemporâneo.  Liderado pelo ator e músico Alexandre Nero, o espetáculo investiga os bastidores do teatro e essa busca pela fama. O Grande Sucesso faz curta temporada de hoje a domingo (21), no Teatro Boa Vista,

Com texto e direção de Diego Fortes a peça traz referências da trajetória de Nero como ator de televisão (Comendador na novela Império, ou Romero Rômulo em A Regra do Jogo), Nero, e dos integrantes do elenco, com cenas criadas a partir de improvisações de cada um. A montagem se dobra sobre os conflitos de uma trupe de artistas, com música ao vivo. A atmosfera político-social no Brasil e os acontecimentos novelescos temperam a trama.

Os conflitos de cada personagem na lida com seu ofício produzem cenas irônicas, engraçadas, no confronto entre realidade e ficção. Mas sabemos que riso que vem dos fatos são doloridos, porque refletem a podridão que estava escondida embaixo do tapete.

A comédia leva ao palco canções que tratam no momento atual, com força crítica. “Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo/ Que bom que somos todos bons/ Imaculados, infalíveis, invioláveis… e inocentes”.

Nessa metalinguagem que também é uma declaração de amor ao teatro, o fracasso é apontado com algo que ocorre na vida de todos. “As bactérias são organismos bem-sucedidos/ As bactérias são O Grande Sucesso”.

Participam do espetáculo Carmem Jorge (preparadora corporal e coreógrafa), os atores e músicos Rafael Camargo, Eliezer Vander Brock, Fernanda Fuchs, Fabio Cardoso, Edith de Camargo, Carol Panesi, Marco Bravo e o diretor musical Gilson Fukushima. 

Serviço

Peça O Grande Sucesso
Quando: Sexta (19) e sábado (20), às 21h, e domingo (21), às 20h
Onde: Teatro Boa Vista – Rua Dom Bosco, 551, Boa Vista, Recife – PE
Ingressos: R$ 100 (plateia A) e R$ 80 (plateia B), ambos com direito à meia-entrada. Vendas na bilheteria do teatro ou no site da Eventim.
Classificação: 14 anos

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Expedição de palhaços

Ana Nogueira é convidada especial no Cabaré de Quinta. Foto: Sayonara Freire.

Ana Nogueira é convidada especial no Cabaré de Quinta. Foto: Daniela Nader / Divulgação

Sabemos que esses tempos estão difíceis. A política no Brasil, o Fora Temer que ainda não se concretizou, a ameaça Trump constante. Mas precisamos de combustível para seguir em frente. Um dos melhores e mais eficientes é a alegria. Uma boa gargalhada tem efeitos milagrosos sobre desarranjos gerais em qualquer pessoa. Duvida? Então o desafio está feito. Hoje (18/05), Caravana de Palhaços apresenta o seu Cabaré de Quinta, no Bar do Mamulengo. A noite de Palhaçaria voltada para o público adulto reúne um bando de figuras engraçadas, perspicazes, provocadoras. Gambiarra (Dú Yândi), Gertrudes (Márcia Cruz), Boris Trindade Júnior (Tapioca), Marimbondo (Johann Brehmer), Meia (Anaíra Mahin), Silpatia (Silvia Rangel), Uruba (Fabiana Pirro), Vareta (Natália Lua) e a convidada Dona Pequena (Ana Nogueira). A palhaça Gertrudes assume a função de mestre de cerimônias. A noite segue depois dos números com o comando da DJ Suca (Suenne Sotero).

Nesta noite destinada para o riso, a política não poderia estar de fora. “A gente não é palhaço partidário; mas num dia como hoje, tudo se volta para a política. Esse povo quer fazer a gente de bobo”, pontua Fabiana Pirro. “Tudo deságua na política. Nossa indignação, a vontade gritar… Cabaré de Quinta é um ato político, pois nosso trabalho é na força e na vontade”, acredita. “Mas também tem uma picardia, tem um fogo de cabaré adulto dentro de um bar”, acrescenta Pirro.

Cada palhaço vai apresentar seus números, pois como afirmam os organizadores, não se trata de um espetáculo, mas cenas de palhaço em constante experimentação, números inacabados e reconstruídos a cada nova apresentação com púbico.

Participantes da primeira versão do Cabaré de Quinta. Montagem sobre fotos de Lana Pinho e Sayonara Freire

Participantes da primeira versão do Cabaré de Quinta. Montagem sobre fotos de Lana Pinho e Sayonara Freire

Esse conglomerado de palhaçaria começou com a Caravana de Palhaços (SP/PE) – projeto da Cia. Circo Caravana Tapioca de Giulia Cooper e Anderson Machado, com apoio do Funcultura/Fundarpe  – direcionada para o aperfeiçoamento de circenses e atores com experiência na área. Dividido em módulos, o programa trouxe no ano passado artistas tarimbados do setor para as oficinas. Muitas coisas ficaram desse programa, inclusive a instigação para o intercâmbio, compartilhamento. E principalmente a criação de números circenses voltados para o mercado, o que garante a sustentabilidade de cada artista – para passar o chapéu e saber que suas criações são verdadeiros tesouros.

O coletivo de 15 palhaços faz apresentações em praças, eventos fechados, salas de teatro e espaços culturais. Nessa peleja com o público, os repertórios dos mais diversos naipes são enriquecidos e aplicados nas diversas dramaturgias e espaços. Borica e Márcia Cruz têm várias criações. Dú Yândi leva a experiência do trabalho em sinais de trânsito. Cada um tem a sua característica.

Fabiana Pirro, por exemplo, conta que sua Uruba é selvagem em todos sentidos. “Ela é o que eu queria ser: ingênua e braba e doce. E vai fazer um número com seu bichinho de estimação, mas é surpresa”.

Dona Pequena, a palhaça de Ana Nogueira, exibe o solo Rolamentos, que ela inventou em 2010 e a cada sessão exibe um dado novo. “Estou investigando as possibilidades desse número. Depende da plateia. Espero que hoje, com essa euforia que estamos vivendo desde ontem, tenhamos novidades com os rolamentos de Dona Pequena”

Ficha Técnica

Cabaré de Quinta, com a Caravana de Palhaços
Elenco:
Anaíra Mahin (Meia)
Boris Trindade Jr° (Tapioca)
Dú Yând (Gambiarra)
Fabiana Pirro (Uruba)
Johann Brehmen (Maribondo)
Márcia Cruz (Gertrudes)
Silvia Rangel (Silpatia)
Wagner Montenegro (apoio)
Suenne Sotero (som)

Convidadas:
Ana Nogueira (Dona Pequena)
DJ Suca (Suenne Sotero)

Serviço

Cabaré de Quinta, com a DJ SUCA
Onde: Bar do Mamulengo – (Praça do Arsenal)
Quando: Quinta, 18 maio, 20h
Quanto: R$ 20 e R$ 10

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Um teatro contra o machismo

Trupe Ensaia Aqui e Acolá estreia Machuca, com relatos reais sobre a violência contra a mulher. Foto: Bella Valle

Trupe Ensaia Aqui e Acolá estreia Machuca, com relatos reais sobre a violência contra a mulher. Foto: Bella Valle

Em abril, 126 mulheres foram estupradas em Pernambuco e registrados 2.485 casos de violência doméstica. No mês anterior, houve 174 estupros e 2.929 ocorrências de agressão. Esses dados alarmantes são oficiais, da Secretaria de Defesa Social – SDS, do estado. Crimes inadmissíveis que se repetem pelo Brasil afora. É dessa realidade torturante, que envergonha a humanidade, que a Trupe Ensaia Aqui e Acolá buscou inspiração para erguer o espetáculo Machuca, que estreia nesta sexta-feira (19), às 20h, no Teatro Capiba, Sesc de Casa Amarela, onde fica em curta temporada nos dias 19, 20 e 21 e também 26, 27 e 28. Contemplado pelo Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz 2015, Machuca terá outras cinco apresentações em espaços públicos e uma na Colônia Penal Bom Pastor para as mulheres que cumprem medidas socieducativas.

O grupo investiga histórias reais para estimular o debate sobre o machismo, a cultura do estupro e o patriarcalismo. São casos que enxovalham, arranham, mortificam, subjugam, esmagam física e psicologicamente corpos femininos.

Seja na espetacularização da morte de Eliza Samudio, o apedrejamento de Dandara dos Santos no meio da rua ou o apagamento da dor de Severina, estuprada pelo pai.

Não está fácil ser mulher e se exercer neste século 21, em que o assédio é contabilizado em oito vezes num trajeto de quinze minutos e a repetição de padrões machistas tenta coisificar a mulher. É uma guerra diária contra a misoginia, o racismo e o machismo entranhados na sociedade.

A montagem junta notícias baseadas em histórias verídicas vivenciadas por mulheres de classes sociais e experiências diversas. De casos com grande repercussão midiática e também relatos anônimos. Todos que deixaram marcas profundas de violências dessa sociedade patriarcal carcomida.

Com direção de Ceronha Pontes, Machuca tem elenco formado pelas atrizes Andrea Rosa, Iara Campos e Juliana Montenegro. Elas selecionaram fatos reais, deram um tratamento dramatúrgico e amplificaram a crueldade do machismo. A narrativa é reforçada com discursos de referências feministas como Karol Conka, Nísia Floresta Brasileira, Elizabeth Mia, Djamila Ribeiro, Ângela Davis e Maria Clara Araújo.

É uma peça política e toma partido das mulheres. Machuca é um espetáculo de denúncia, assumidamente feminista e pautado numa palavra que está muito em uso, a sororidade. Durante muito tempo, e ainda hoje, a sociedade machista e patriarcal incitou e propagou a rivalidade entre as mulheres, propalando julgamentos e afirmando estereótipos. A sororidade prega justamente o contrário. A sororidade carrega a ideia de “irmandade” entre as mulheres; uma cumplicidade, companheirismo, aliança do feminino – em dimensão ética, política e prática – na busca de transformar o mundo num lugar mais justo.

Machuca é o terceiro espetáculo da Trupe Ensaia Aqui e Acolá, que já montou Rififi no Picadeiro (2007), para a infância e juventude, e o melodrama O Amor de Clotilde Por Um Certo Leandro Dantas (2010).

Peça tem direção de Ceronha Pontes e Andrea Rosa, Julliana Montenegro e Iara Campos no elenco. Foto: Bella Valle

Peça tem direção de Ceronha Pontes e Andrea Rosa, Julliana Montenegro e Iara Campos no elenco. Foto: Bella Valle

Ficha Técnica

Direção: Ceronha Pontes
Elenco: Andrea Rosa, Iara Campos e Julliana Montenegro
Dramaturgia: Ceronha Pontes e Trupe Ensaia Aqui e Acolá
Direção de movimento: Íris Campos
Preparação vocal: Carlos Ferrera
Figurino e Cenário: Marcondes Lima
Cenotécnicas: Bee Freitas e Luciana Montenegro
Execução de figurino: Maria Lima
Iluminação: Dado Sodi
Trilha sonora original: Júlio Morais
Voz em Dandara: Kalina Adelina, sob orientação de Lucíola dos Santos
Voz em Severina: Ceronha Pontes
Voz em Não nasci para ter senhor: Carlos Ferrera
Todas as músicas criadas por Júlio Morais, exceto Guerreiras, letra e música de Ceronha Pontes e Não nasci para ter senhor letra de Ceronha Pontes e música de Júlio Morais.
Locução futebol: Tatto Medinni
Locução carro de som: Marcelo Oliveira
Programação visual e design: Aurora Yett
Fotos: Bella Valle
Assessoria de imprensa: Lenne Ferreira/Afoitas, Priscila Buhr/Afoitas e Guilherme Gatis
Produção executiva: Igor Travassos
Direção de Produção: Andrea Rosa, Iara Campos e Julliana Montenegro
Produção: Trupe Ensaia Aqui e Acolá

Serviço

Machuca no Teatro Capiba
Dias 19, 20 e 21 e 26, 27 e 28
Sextas e sábados às 20h
Domingos às 19h

Apresentações com Libras: Dias 20 e 21 (sábado e domingo) e 26 (sexta)
Apresentação com audiodescrição: Dia 27 (sábado)

Apresentações na rua
Sempre às 16h
23/05 – Praça do Diário
24/05 – Praça da Encruzilhada
25/05 – Morro da Conceição
30/05 – Ilha de Deus
01/06 – Jardim São Paulo

Apresentação na Colônia Penal Bom Pastor
31/05, às 14h

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Partida de Celibi. Primeiro impacto

Henrique Celibi na peça As Perucas de Bibi. Foto: Ivana Moura

Na peça As Perucas de Bibi, em abril, no Teatro Apolo. Foto: Ivana Moura

A última vez em que encontrei o ator, diretor e dramaturgo Henrique Celibi foi na segunda sessão da peça As Perucas de Bibi, no sábado de Aleluia. Falei com ele rapidinho depois da apresentação, pois aquela noite teria dose dupla de teatro, já que fui ver a Paixão de Cristo do Recife, com José Pimentel. Menos de um mês depois, recebo com pesar a notícia de sua morte. “Levou uma queda, pediu socorro à vizinha que, por sua vez, chamou os Bombeiros. Ele estava todo ensanguentado, com uma perfuração na veia femoral. Foi socorrido, mas sofreu duas paradas cardíacas e não resistiu”, conta a atriz Sharlene Esse, que dividia o palco com Henrique em As Perucas de Bibi. “Quem deu a notícia da morte de Celibi a Américo (Barreto) foi a tia dele, uma senhorinha velhinha”, diz Sharlene. Celibi morava sozinho no bairro do Arruda e inquieto como era já estava articulando os ensaios de uma nova peça, The Celibi Show.

Com ele era assim. Não tinha tempo ruim, nem circunstâncias ideais para fazer algo. Muitas peças surgiram dessa motivação. Cara, coragem e um talento múltiplo. A Bicha Burralheira, a estória que sua mãe não contou; Madleia + ou – doida; Cabaré Diversiones; As Perucas de Bibi.

Poderia achar que foi um acidente estúpido. Mas os acidentes caseiros são traiçoeiros. Logo Celibi, que parecia um homem-aranha a se pendurar em tudo que é lugar, com aquele seu corpinho ágil.

Henrique Celibi, um guerrilheiro dos palcos pernambucanos

Um guerrilheiro dos palcos pernambucanos, em Cabaré Diversiones. Foto: Ivana Moura

Henrique Celibi, ao centro, é autor, diretor, figurinista do espetáculo

Henrique Celibi, ao centro, em Cabaré Diversiones. Foto: Divulgação

Henrique Celibi

Medleia + ou – Doida. Foto: Ivana Moura

Henrique Celibi, Fábio Costa e Guilherme Coelho. Foto: Henrique Celibi/acervo pessoal

Henrique Celibi, Fábio Costa e Guilherme Coelho na época do Vivencial. Foto: Henrique Celibi/ acervo pessoal

Melhor Ator

Melhor Ator do Janeiro de Grandes Espetáculos. Foto: Ivana Moura 

Quando conheci Celibi, em meados da década de 1980, o artista andava às voltas com o texto Cinderela – a história que sua mãe não contou, ainda como esquete  A Bicha Burralheira que apresentou na Boate Misty. Ajudei a divulgar. Gostava daquele menino elétrico e cheio de imaginação. Depois Cinderela virou o megassucesso com a Trupe do Barulho.

Viajamos juntos para o festival de São José do Rio Preto, com uma peça que não sei se foi O Coronel de Macambira ou o Casamento de Catirina. E o que lembro dele desses tempos era uma elegância no andar, uma alegria das pequenas coisas, resistência não alardeada mas que poderia ser captada, persistência na arte e nos sonhos. Mesmo que tudo estivesse desmoronando por dentro, era preciso manter uma pose, uma esperança, alimentar a alegria.

Egresso do Grupo Vivencial, Celibi era um sobrevivente. E criaturas assim têm uma grande capacidade de adaptação aos lugares mais hostis. Com ousadia, garra e criatividade.

Henrique Celibi. Foto: Facebook

Henrique Celibi. Foto: Facebook

Batizado de Valdenou Henrique de Moura, ele entrou no Vivencial aos 14 anos e lá aprendeu a ser ator, diretor, figurinista, cenógrafo, maquiador, dramaturgo e outros sete.

Como decretou Oswald de Andrade, “A alegria é a prova dos nove”. Celibi tinha humor. Um humor que me encantava. Por ser crítico e autocrítico. E era uma voz importante de reflexão no meio da cena teatral recifense, em parte tão autoindulgente e com lentes tão generosas para o seu próprio umbigo.

Quem vai fazer a crítica de dentro das próximas montagens em homenagem ao Vivencial? Enquanto a maioria das vivecas se instalou no conforto de sua sala de jantar, Celibi prosseguia a treinar a iconoclastia que aprendeu no Vivencial.

É bem interessante seu comentário depois da estreia de Puro Lixo, montagem dirigida por Antonio Cadengue, inspirada ou em homenagem ao grupo Vivencial. Celibi ponderou em sua página do Facebook:

“Nunca fomos anjos! Muito pelo contrário, não gostávamos das auréolas. Principalmente as feitas com arminhos. Gostávamos mesmo era de sermos demoníacas: “espelho meu existe alguém pior que eu? Espelho, espelho meu, existe alguém mais terrível do que eu?”… Não. Não existiam! Éramos terríveis, as vivecas! Gostávamos mesmo era de tirar os “chatos” na London, London da virilha de Gal porque éramos nós as tropicais e fatais.

Sabíamos dos demônios que em nós habitavam e como fazer para alimentá-los ou não. E esses deixavam as migalhas das sobras em nossas convivências. Era o que fazíamos com esses demônios que não valem a pena serem alimentados e sim combatidos com gaiatices.
Dávamos muxoxos para as hipocrisias e conceitos estabelecidos. (sem o menor medo de o galo cantar e nos transformarmos em peixes soias da boca torta).

Tínhamos a consciência de que éramos nós as “Cinderelas”, lindas com o vestido de baile, mas, sem o sapatinho de cristal e sim, com os pés sujos da lama em que a sociedade insistia em afundar-se. (ainda insistem).

O espetáculo Puro Lixo é muito bem cuidado, produzido, com um elenco bem dirigido apesar de faltar frescura na “viadagem” vivenciada Por Eduardo Filho, Gil Paz, Marinho Falcao, Paulo Castelo Branco, Samuel Lira. Poderia ser mais vibrante como sugere o título. Com muitos méritos sim. Todos! Mas, o que a mim incomoda no espetáculo é o bem feito, politicamente correto do ser em estar nesse tempo presente.

(…) Nossos manifestos eram quá, quá, quá… Nossos negros eram loiros de cabelos e cabeleiras. Sabíamos de que o certo é na frente mais o que a nós importava era mostrar que o justo mesmo era atrás. Mesmo assim e assim mesmo, com todo o glamour, (que não tínhamos) fico muito gratificado em ser personagem dessa crônica teatral que é um luxo só!”

Ou quando comentou sobre o filme Tatuagem, de Hilton Lacerda. Disse que a obra tem uma atmosfera “Vivencialesca”, mas se cotejada ao grupo Vivencial, o filme é certinho demais. Celibi guardou em si essa anarquia que pautava as peças, ações e intervenções culturais da trupe olindense. “Mangávamos e debochávamos de tudo e de todos”, gostava de dizer.

Seu olhar crítico e debochado, sua língua cheia de humor e, às vezes ferina, sua criatividade transbordante a inventar arte de lixo. Seu carinho pelas pessoas de arte (do teatro, da dança, da performance, do carnaval, do cinema), seu incentivo aos que queriam mergulhar nesse mar.

Ele que vivia sem rede de segurança nos inspirava coragem.

Agora em abril ele postou no Facebook: “Às vezes sinto meu corpo pequeno demais para abrigar meu espirito… E a sensação é muito estranha… Ver que não caibo mais em mim…” Parece um recado para quem acredita em anúncios sobrenaturais.

Mas acho que ele deve estar mangando dele mesmo, desse descuido. Pode estar já se divertindo da saudade que provoca em nós.

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