Arquivo da categoria: Entrevistas

Marieta Severo

Todas as quintas-feiras, ela está na televisão interpretando a dona de casa Nenê, esposa do Lineu, mãe da Bebel e do Turco, sogra do Agostinho. Mas nem só de A grande família vive a atriz Marieta Severo. Muito pelo contrário. Ela estreou nos palcos em 1965 e geralmente tem projetos no teatro e cinema, administra ao lado da amiga e parceira de palcos e negócios Andrea Beltrão o Teatro Poeira e o Poeirinha, no Rio de Janeiro, é mãe de três filhas (fruto do casamento de 30 anos com Chico Buarque), tem netos e ainda arruma tempo para namorar o diretor Aderbal Freire-Filho.

Agora ela vem ao Recife no próximo fim de semana para apresentar a divertida montagem As centenárias, um texto que o pernambucano Newton Moreno escreveu especialmente para Marieta e Andréa. São duas carpideiras – aquelas mulheres que antigamente eram chamadas quando alguém morria, para “chorar o defunto”. Socorro e Zaninha convivem com a morte, mas fogem dela como diabo da cruz. No meio de muitos causos, encontram até com Lampião. A peça ainda tem no elenco Sávio Moll e a direção é de Freire-Filho.

Na conversa por telefone, Marieta fala muito sobre As centenárias, sobre o trabalho no Teatro Poeira, não encontra defeitos em Andrea Beltrão, cita Jô Bilac como um novo dramartugo especial. E revela como consegue arrumar tempo para fazer tudo e sempre muito bem.

Marieta Severo e Andréa Beltrão em As centenárias

Entrevista // Marieta Severo

Vocês estavam em dívida com Pernambuco. A peça é do Newton Moreno, tem um contexto regional, mas ainda não tinha dado certo trazer ao Recife?
A gente está muito feliz em levar, como a gente chama, “As veinhas”, ao Recife. O Newton como pernambucano, bebeu na cultura nordestina, isso está muito arraigado à peça. Usamos, por exemplo, bonecos que são manipulados. Fazer a peça aí tem um significado muito especial. Estreamos em 2007, ficamos dois anos no Rio, quatro meses em São Paulo, já fizemos outras oito cidades e estamos chegando aí agora.

Embora a montagem seja uma comédia, ela trata de assuntos bem sérios e tem momentos em que fala, por exemplo de solidão. O que você diria do texto?
Eu acho que isso é um pano de fundo. O assunto principal é a morte, elas estão fugindo da Dona Morte, que quer pegar o filho de uma delas. Então elas estão o tempo todo neste embate. Mas isso é feito com muitos signos e com a cultura popular nordestina que é debochada, irônica. E vejo que a esperança é colocada em cena. Elas lidam com a morte, já que são carpideiras, rezadeiras, são chamadas para chorar os mortos e a peça vai falando desses causos. É uma história divertida, engraçada, mas sim, como você disse, com muitos ingredientes: a fome, a solidão, a bravura dessas mulheres. Mas os causos são muitos bons. O homem que diz que a mulher era uma “quenga” e quer que no velório riam dela, o Lampião que não chora há muitos anos.

E como Aderbal Freire-Filho trabalhou com esse texto?
Ele abrigou toda essa história num cenário circense. É como se fossem três palhaços contando essa história através dos bonecos. Nós contracenamos com os nossos próprios personagens como fantoches. Então é uma riqueza de elementos muito grande e o Aderbal articulou isso.

E o Sávio Moll, que também está no elenco? Faz os papeis secundários?
É. Ele faz todos esses papeis e a Dona Morte. Mas nós também fazemos outros papeis. A Andréa faz o coronel que quer que riam da mulher dele, eu faço o Lampião. É tudo muito coreografado, muito marcado, o Aderbal conseguiu uma precisão nessa coreografia que é muito interessante.

Esse texto foi um pedido de vocês ao Newton. Houve alguma recomendação?
A gente encomendou esse texto a ele dizendo que não queríamos um texto em que fôssemos família. Tínhamos feito Sonata de outono. E ele veio com essa possibilidade dessas mulheres que atravessam o tempo. E também mostram na cena a modernidade, em cenas como quando a luz elétrica chega ao Sertão, elas se deparando com um rádio… Também tem o fator de que como o Newton está muito acostumado ao trabalho em grupo, ele troca muito com o ator, com o diretor, mudava o texto, de acordo com as necessidades. A gente ligava, falava pra ele, ele vinha. Então conseguimos essa sintonia, organicidade.

Fora o Newton, que autores te instigam hoje? E grupos?
É um momento muito rico da mossa dramaturgia. Temos um Jô Bilac surgindo, por exemplo. E muita gente mais…é porque eu sou péssima de nomes. Quando desligar, vou lembrar de tanta gente. E também temos espetáculos muito interessantes, uma safra nova, forte, criativa. Os Atores de Laura, no Rio de Janeiro, que já tem uma trajetória, mas com uma pesquisa muito forte, uma riqueza. Acabei de ver O idiota, com a Cibele Forjaz, um espetáculo muito rico teatralmente.

Todo mundo pergunta sobre a amizade entre você e a Andrea e eu também tenho que perguntar. Mas vamos tentar mudar…o que te irrita na Andréa?
A Andréa não me irrita. Gosto muito de estar com ela. Criamos muita coisa e vivemos muita coisa. É uma relação contrutiva e criativa, como todas deveriam ser. As duas cresceram muito nesses 20 anos. Uma ajudou a outra, uma colabora com a outra. Ela tem um talento enorme como atriz. É estimulante estar com ela no palco. Jogar com ela em cena, o humor enorme que ela tem.

Vamos falar do “filho” de vocês e agora do “filhote”, que são os teatros. Como foi isso?
O Poeira tem seis anos e o Poerinha tem seis meses. Dá muito trabalho, muita despesa e um prazer enorme que segura esses dois outros lados. Temos o patrocínio da Petrobras para a programação, para fazer oficinas, para os artistas residentes, workshops, temos uma programação intensa e temos muito orgulho porque muitos trabalhos surgiram através daqui, com pesquisa, e isso é bancado. Mas o teatro em si é bancado por nós. Os dois teatros foram construídos por nós e mantidos por nós. Porque muita gente fala, mas a Lei Rouanet é muito rigorosa. Você não pode comprar nada, adquirir nenhum bem fixo. Então tudo o que é fixo, fomos nós.

Mas vocês tem lucro?
Não, minha filha! Não temos lucro. Temos um prejuízo financeiro.

Queria falar um pouco de política, do Ministério da Cultura, a sua opinião…
Não queria falar disso. Está caminhando tudo bem. Não tem nada especial para comentar.

Mas é mais fácil fazer teatro hoje?
Através da Lei Rouanet que possibilitou muitos e muitos espetáculos, vários e vários que não conseguiriam sem a lei. Mas temos a dificuldade que é manter um espetáculo. Tem uma coisa muito estranha. Hoje você não vive da bilheteria de um espetáculo. Quando o patrocínio acabou, acabou a peça. Tem que repensar.

Por conta da meia-entrada?
É basicamente a meia-entrada. E as produções foram ficando mais caras, são meandros, questões da própria lei. Não é detonar a lei, não acho que seja o caso.

E a televisão? Você não acha que a Nenê é muito retrógrada?
Hoje em dia é muito difícil encontrar uma mulher como a Nenê. Ela é de uma geração que tentou romper padrões, mas ela é tradicional, vive para o lar. E essa realidade ainda existe para muitas mulheres, os valores familiares. Mas sim, é mais difícil. As mulheres estão nas batalhas. O que mais me interessa nela é o que ela representa, a mãe, os valores familiares, a compreensão até acima das necessidades. É bom falar disso e representar isso.

E como você faz para conciliar tudo na sua vida? Televisão, cinema, teatro, três filhas, netos, dois teatros?
Eu faço isso todos os dias. E sempre foi isso. Também construi uma vida de acordo com as minhas necessidades. Sou muito ligada, ligada a muitas coisas, ao trabalho, ao lazer.

Mas você faz tudo ao mesmo tempo ou consegue tirar férias, por exemplo?
A única coisa que eu consigo preservar são as minhas férias porque eu normalmente vou para o exterior, só por isso. E aqui eu sou organizada, tenho o meu escritório, o Poeira, A grande família, um filme para rodar.

Qual é o filme?
Vendo ou alugo, com direção da Betsy de Paula. É uma comédia muito interessante, que reúne quatro gerações. A Nathália Timberg, que vai fazer minha mãe, a Sílvia Buarque, será minha filha e uma atriz jovem, a Beatriz Morgana, que será filha da Sílvia. Vamos filmar em setembro. Elas tiveram uma vida abastada e agora se juntam para vender uma casa e todas elas são representantes muito fieis das suas gerações.

Postado com as tags: , , , , , , , , ,

O tempo de Leda

Leda Alves recebe homenagens pelos seus 80 anos. As fotos foram tiradas na Casa da Rabeca

Leda Alves sempre teve pressa. Por justiça na desequilibrada sociedade brasileira. Por mais solidariedade em tempos em que a intolerância religiosa torna os humanos estranhos entre si. Por resultados eficientes na preguiçosa máquina pública. Nascida Leocádia Alves da Silva, em 17 de junho, ela completa hoje 80 anos de uma vida intensa. Só começou a achar que podia ganhar um pouquinho mais de tempo quando completou 70.

Uma década depois ela está firme, de bem com a vida, alegre com as celebrações. O médico adverte: “porque anda tão depressa, Leda?”. “E eu ando depressa?”, questiona, habituada ao próprio ritmo, de quem comanda, com lucidez, pulso firme e muitas diretrizes, a Companhia Editora de Pernambuco (Cepe).

Esta semana, foram muitas emoções. As homenagens começaram no domingo, em Aliança, na Associação de Maracatus de Baque Solto de Pernambuco. Lá, o terreiro ganhou o nome Leda Alves. Na terça-feira, foi a vez da missa, católica praticante que é, desde a infância. Na quarta, encontro de cultura popular na Casa da Rabeca. Ontem, recebeu uma medalha do governador Eduardo Campos. Hoje, o show do Quinteto Violado no Teatro de Santa Isabel (com repertório de Luiz Gonzaga e ingressos a R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada)) será dedicado a ela.

Fotos: Ivana Moura

Personagem de destaque na política cultural pernambucana, Leda está em cargos de gestão há praticamente 40 anos. Passou pela Fundarpe, Fundação de Cultura Cidade do Recife, Teatro de Santa Isabel e atualmente é a presidente da Cepe. Algumas decisões foram polêmicas e até hoje é condenada pelos produtores de teatro infantil quando decidiu que o teatro de Santa Isabel não tinha equipe e condições para receber produções para a infância.

Bom, mas a jornada de Leda começou antes dos cargos públicos, nas pastorais da Igreja Católica, e mais tarde, no teatro. É a arte que ela diz ser o eixo da sua vida. Estreou nos palcos sob direção de Hermilo Borba Filho, dramaturgo e diretor, homem por quem ela confessa ter esperado nove anos até se casar. Quando chegava do trabalho, via na mesa de cabeceira o bilhete: “ler urgente”. Obedecia, encantada pelo homem de espírito livre, “que amava tanto homens quanto mulheres, no sentido pleno” e despertava paixões.

Depois dos ensaios no Teatro Popular do Nordeste, o TPN, sob a orientação de Hermilo, o elenco ia para os terreiros, aprender a fazer teatro com os mestres da cultura popular. Personagens que Leda Alves abraçaria por toda a sua trajetória, como fez quando defendeu que Mestre Salu tinha a mesma importância de arquitetos e engenheiros de um órgão público. Quiçá maior.

Quando o amor maior, Hermilo Borba Filho, faleceu, em 1976, ela se sentiu perdida. Foram alguns instantes. Logo percebeu que ele estaria com ela. Não só na fotografia em preto e branco na sala de trabalho apinhada de papeis, mas nas posturas e decisões ideológicas que tomaria pela frente. Conversamos com Leda no horário do almoço. Foi o único momento disponível na agenda apertada. Perdemos a noção do tempo. Quando olhamos no relógio, o ponteiro marcava quase três da tarde. Lá se vai então Leda – com os passos apressados que o médico proibiu – cumprir mais um compromisso.

Entrevista // Leda Alves

“Ninguém pode tirar férias da vida”

Leda Alves, madrinha dos maracatus

Você imaginava que chegaria aos 80?
Não! Quando eu terminei os 70, vi a viabilidade de chegar as 80. Cheguei. Vi muito claro que é um caminho muito longo, mas que eu não caminhei sozinha. Além de eu ter caminhado com grupos e grupos e grupos, dentro das minhas opções de fé, política e cultural, eu caminhei profundamente apoiada, ajudada e misturada com quem andou comigo. Na juventude, na maturidade, na velhice e hoje, aos 80 anos. Pessoas que me ajudaram muito, que eu sempre chamo de sirineus. Nossa, é muita gente, que a gente trocou muito amor, muita luta, muito sofrimento.

Como começou esse caminho?
O meu caminho começou ao ser batizada na Igreja Católica. Fui filha criada numa família eminentemente católica, tradicional, não era rica. Mas Mata Sul, papai era do Agreste, mas mamãe era Mata Sul, de engenho. Então era fechado com os preconceitos, com moralidade, tudo isso. Eu tive privilégios, por isso que eu me sinto muito amada por Deus, porque ele colocou muita gente na minha estrada que abria outras cortinas, que reformulavam muitos princípios. Outros, de mamãe, eu agradeço muito a ela, de ter me estimulado nisso. De ter me dado um exemplo que não era formalizado, com nenhuma teoria pedagógica. Ela era aquele negócio, ela vivia o ritual da Igreja Católica. O ritual, todos os santos, os meses todos, missa dominical, via sacra. Ela tinha um negócio, que era o terço às seis horas da noite com a gente. A gente estivesse onde estivesse, os filhos, papai não porque papai estava no comércio. Ela reunia no quarto do santuário e ali, tudo ajoelhado no chão, a gente rezava o terço. Durante muito tempo, passei a não gostar do terço, porque tinha aquela repetição. E eu sempre digo que o que me inspira muita coisa é que, depois do terço, ela começava a tirar Ave-Maria pelas pessoas que estavam precisando, os amigos, os vizinhos, os parentes, que estavam desempregados, doentes. Eram três Aves-Maria, minha filha. Aí o sono já batia, a gente já estava achando péssimo, mas rezava três Ave-Maria. E depois ainda vinha três Ave-Maria de agradecimento a Deus, porque fulano ficou bom, porque sicrano arrumou um emprego. Não estou falando pelos meus irmãos, estou falando por mim, mas isso deixou em mim uma semente muito bem plantada, do ponto de vista da fé, de solidariedade. De me sentir próxima de todo mundo, imbricada em todos os problemas, desde que eu tinha dez, onze anos. Isso foi ficando dentro de mim, inconsciente. Depois é que a gente vem com outra bagagem, de experiências, de opções, de lutas. E eu fui encontrando em mim um respaldo e eu identifiquei que era isso. Nunca fiz análise, isso é intuição. Sempre estudei em colégio religioso, fechadíssimo. Damas cristãs, Sagrada família. Quanto mais fechado, mais mamãe gostava de colocar a gente ali. Claro eu isso me deu uma bagagem muito boa, mas me deu muita amarra, muito sofrimento, muita angústia.

A religião pode ser muito opressora. Como você lidou com isso?
Tem o dedo de Deus, que foi me dar o privilégio de eu entrar na ação católica na minha paróquia, que era Casa Amarela e eu passar a conviver com padres jovens, com a cabeça muito aberta. E entre eles cito, como fundamentais na minha vida, o Padre Marcelo Carvalheira, hoje arcebispo emérito, Padre Marcelo Santos também me ajudou, e aí vários. Esse mundo para mim foi importantíssimo. A Igreja do Brasil estava dando um salto de qualidade para o mundo e a Igreja de Pernambuco ainda mais. Entrando um bispo como Dom João Costa, Dom Coelho, Dom Helder, dom Lamartine. Então esse povo, que era até estudante, seminaristas, eu já estava convivendo com eles em pastorais. Veja como a gente era avançado. Porque hoje eu estou com 80, mas essa caminhada já existia. E a religião me aproximou da força política e, em seguida, do partido político. Eu trabalhava na pastoral de ação social, quando doutor Arraes me chamou. A chegada dele aqui, eu participei da equipe que preparou a grande festa. Ele foi prefeito na época de Hermilo. Hermilo foi secretário de Educação, mas não conviviam. Então ele me chamou para integrar a executiva do PMDB. Eu disse, doutor Arraes, eu coordeno uma pastoral e é incompatível. A gente aqui prefere não ter ligação com partido político. Porque o trabalho da gente é na base, nas comunidades. Então não é bom aliar isso com partido político. Aí vem campanha, eleição, candidato. E a luta da gente é por aí, mas para outro caminho. Mas ele insistiu, insistiu. Ele e Egídio Ferreira Neto. Aí eu coloquei isso para a pastoral. E se discutiu, se refletiu e achou que era hora de eu integrar um partido político e eu me afastei da coordenação da pastoral. Aí eu fui pro partido e um mundo se abriu para mim. Doutor Arraes teve também uma presença muito forte e uma contribuição imensa na minha formação político-partidária. Nesses intervalos, que aconteceram na minha vida, eu também tinha contato com militantes de ação católica e com militantes intelectuais. E eu também convivia muito com eles. E, no meio deles, eu tinha Frei Betto que tornou-se um amigo fraterno muito grande. Nós acompanhamos a vida dele e ele acompanhou a nossa vida.

E Hermilo?
Ao mesmo tempo, veja como o negócio parece um caleidoscópio, que cai um negocinho, sobe outro e aquele desenho foi se firmando na minha vida sem eu estar escrevendo, nem tomando nota. Eu estava era entregue. Então eu também tenho a impressão que Deus me preparou para Hermilo. Eu tenho impressão não, eu tenho certeza. Não é vaidade que eu digo isso não. Era uma predestinação na minha vida o meu encontro com Hermilo, naquele momento da minha vida, quando eu descobri, porque eu já tinha ouvido falar dele, mas nunca tinha visto. Porque até quando eu fui com o grupo de teatro da Paróquia do Espinheiro para São Paulo levar uma peça de Zé Carlos Cavalcanti Borges, onde eu estreei assim, em cena, eu só vi Hermilo sentado na plateia com Débora e ele fez a crônica dizendo que tinha uma atriz, que apesar de muito jovem, principiante, pegou o papel de uma mulher de meia idade, era uma atriz. Mas nunca foi lá dentro conversar com a gente, durante uma semana que passamos lá, com o nosso elenco, que só deixava a gente sair do hotel para o teatro, do teatro para o hotel.

Como começou o teatro?
Eu sonhava. Meu pai desde eu pequena, também, sem nenhuma preocupação com tarefas psicológicas, ele tinha só uma intuição e, naquela época, era bom, a pessoa declamar poesias, para os convidados, para os amigos. E ele sentiu isso porque eu fazia muito teatro em casa com os meus irmãos. Eu tinha um primo que escrevia, meu irmão mais velho dirigia e eu fazia o guardar-roupa, tudo de papel, e era a atriz. Então papai percebia isso com toda certeza e cada vez que chegava uma visita, ele me chamava na sala de visita, eu deveria ter 14 anos, mas declamava Navio negreiro, Veludo, os poemas dos poetas daquela época. Então eu tinha dentro de mim, fui pra esse negócio da Paróquia do Espinheiro, tinha dentro de mim a semente de vocação, que era o teatro, mas sem nenhuma perspectiva. Aí um dia eu leio no jornal que vai ter a segunda chamada para o vestibular. Me inscrevi. Aí meu tio padrinho morreu na noite antes do vestibular, um desastre. Passei a noite no velório, eu queria muito bem a ele, irmão do meu pai, e depois tomei um banho e fui lá. E encontrei os homens que eu via no jornal, que eu ia ao Santa Isabel raramente e via. Hermilo, bem gordinho, de gravata borboleta. Eu digo: “ih, é aquilo?”. Encontrei Aloísio Magalhães, Gastão de Holanda, Joel Pontes, doutor José Carlos Borges, que ensinava psicologia do ator. Aí eu fiz o vestibular e passei. Aí é outra coisa na minha vida, dádiva de Deus, eu entrar pelo melhor caminho que existia no mundo do teatro. Eu não tive desvio de função, nem desvio de caminho. O capitão Antonio Pereira, do boi misterioso da Mustardinha dizia: “Ô Hermilo, só existe um caminho, o resto são veredas”. Negócio lindo, né não? Então eu pedia muito que eu não queria perder o rumo de meu caminho. E aí muita gente me ajudou nisso. A partir do capitão Antonio Pereira, porque Hermilo dizia que ele era mestre dele, pôs isso nos livros dele, e eu usufrui o máximo da convivência do capitão. Então era vereda para um canto, para o outro, mas eu pra cá. E o centro da minha opção de vida era o evangelho. Era o meu compromisso com a minha fé, o sonho de uma sociedade justa, justa. Claro que todo mundo não poderia ter a mesma condição financeira nem social, mas que todos tivessem os mesmos direitos, as mesmas oportunidades. E que cada um pudesse se desenvolver plenamente. Pra você não encontrar, como a gente encontra, esses artistas populares e a gente diz: ai, se essas pessoas comessem. Os dançarinos de frevo…quer dizer, são gênios do nosso povo, mas sem dúvida nenhuma. Então, no TPN, eu encontrei isso. Porque Hermilo, toda grande tese dele para a cena e para a dramaturgia brasileiras, ele bebia no espírito e nas técnicas do que ele chamava os espetáculos populares da gente, que era o cavalo-marinho, o pastoril, o mamulengo e a nau catarineta. Então ele me colocou nesse negócio. A gente terminava o espetáculo, todo mundo do elenco do TPN terminava o espetáculo, a gente ia para os terreiros, via até de madrugada, até de manhã. Via, via, via. Não tinha nada de ficar gravando pra fazer pergunta não. Era entrar pelos ouvidos, pelos olhos, pela pele. A gente convivia. Quando havia uma técnica que exigia manejo, a gente chamava o Guariba, que era um Mateus maravilhoso, ensinou a gente a usar máscara. Aqui os atores entraram para usar máscara pela primeira vez permanentemente, quando o TPN estreou em 1960. Ele vinha e dava aula pra gente: como é que virava o olho, como virara a cabeça. Porque a gente não queria máscara não. O ator não quer tapar a cara dele não. Até ela se encarnar, durou. Então eu fui me apaixonando por aquilo, ao mesmo tempo conhecendo, tinha o privilégio de ter Hermilo. Então tudo quanto ele conversava com a gente, o improviso, o realismo fantástico. Então fui lendo muita coisa que ele passava pra mim, às vezes eu chegava do trabalho, da universidade, e ele dizia: “ler urgente”. Já estava na minha mesa de cabeceira. Então, eu devorava. Isso me deu um estofo muito robusto. Fui lendo Ariano, Guimarães Rosa, o realismo fantástico na América do Sul. Isso foi também confirmando as coisas que eu ouvia de Hermilo. Cada vez eu estava mais segura que era esse o caminho.

Como enfrentaram o Golpe Militar?
A gente foi tribuna, foi resistência. E o preço foi fechar depois. Hermilo perde o emprego, era um bando de coisa ruim, difícil de se enfrentar e findou ele pifando o coração e se operando. Mas estava muito claro que na hora que ele estava chefiando esse pedaço, a gente também trabalhou no movimento da educação de base, nas escolas radiofônicas, na CNBB, na luta da igreja com os artistas. O TPN fazia as aulas práticas em rádio-teatro. A gente interpretava. E ao mesmo tempo fui trabalhar, fazer avaliação das escolas radiofônicas, no meio da multidão de camponeses, de madrugada, de noite. Era uma coisa assim, tão forte, que a gente saia dali dizendo “não, não pode. Eu também quero contribuir para que todo mundo tenha direito ao estudo, a se alfabetizar”. E que tenha no mínimo o que eu tive, no mínimo. Não é ser rico não, é ter condições. Então ali não foi tão longo, talvez uns dois anos, um ano e meio. Mas veio o golpe e fechou tudo. O TPN também tinha ficado no Arena e ali sofreu outras coisas e a gente cometeu erros. Uma peça que, graças a Deus, Hermilo renegou em vida. Esse texto da Bomba da paz, eu tenho um, que vai ficar para uma futura defesa, depois de mim e mais nada. Não tem mais exemplar. Ele considerou que foi um erro. Naquela hora, a gente “deserviu ao povo brasileiro”.

Mas não tem mais nenhum exemplar?
Não! Assim como minha correspondência de amor com ele também vai ser toda queimada antes de eu ir embora. Não interessa ao público o que a gente se dizia um ao outro. Às vezes ele na confiança, fazia comentários sobre as pessoas que ainda estavam ou estão vivas. Isso é uma intimidade da gente. Vou queimar. Ou então coloca no meu caixão.

Tá, voltando. E depois?
Eu fui cada dia mais sentindo o sentido da minha vida. E muito multiplicada. Fui recebendo de Deus muito dom através das pessoas que eu convivia, que me ensinavam. Eu vivi no top de linha. Só vivia com gente melhor do que eu, em todos os sentidos. Eu tinha vontade que meus olhos ouvissem tudo, vissem, percebessem. Cada vez que eu ia para um encontro com os artistas populares, eu voltava prenha, de tudo. Quando Hermilo foi embora, eu disse, “pronto. E agora?”. Fiquei desnorteada, porque parecia uma metade de mim, física. De dor física. Eu não ia mais sorrir. Porque era tão impregnado. Eu não sabia onde eu terminava e começava Hermilo e vice-versa. Eu acho que é por isso que a igreja criou o sacramento indelével do matrimônio. Você só se casa uma vez na igreja. Porque a experiência de amor humano, de plenitude de amor, absoluto não, porque o absoluto é com Deus, mas de plenitude de amor, de um homem e de uma mulher, você tem certeza que será ate o fim. Hoje eu tenho mais certeza que não é o “fim” que acaba. A partida de Hermilo, eu só lamento, ele já tem consciência do absoluto e eu não tenho. Ele já respondeu a todas as inquirições dele de fé, porque fé não é só certeza, é também dúvida, e eu ainda estou com as inquirições. Mas o alimento continua dentro da gente. Sem dúvida. Ele partiu, está numa melhor, me deixou na beira do tiroteio. Eu preciso de uma foto, como eu preciso de um crucifixo, para os códigos humanos. Mas eu tenho certeza que ele está impregnado em todas as minhas lutas, em todas as minhas decisões. Às vezes eu verbalizo: “eita, velho, me ajuda aí. Nessa hora, como eu faço, se você estivesse aqui, como você faria?”. Eu chego até a dialogar e também não sou espírita.

Como é essa relação hoje?
Essa relação é verbal, é de lealdade. Não é que eu fui fechada para o amor, ele nem gostaria que fosse. Mas eu tive experiências de amores menores, que não me deram gás, de dizer: “é com esse que eu vou”. Nunca mais. Nunca mais. E agora então, estou muito mais apaziguada. Mas é como uma tarefa que ele deixou comigo e que ele me ajudaria de outra maneira. Primeiro, ser fiel ao que a gente descobriu, ao que a gente tinha certeza de que tinha que trabalhar. Tanto que, quando as armas estavam nas mãos dele, o escritor, eu recueei. O TPN fechou e ficou muito claro na minha cabeça que eu tinha que trabalhar na contrarregra. Que era, na hora, continuar na luta da igreja, mas dar a Hermilo o tempo melhor que ele pudesse ter para escrever. Porque a literatura era a arma dele para denunciar, para protestar, para reforçar, para resistir. Eu fui dar condições para ele viver e realizar isso, até ele partir.

Você fez sacrifícios?
Não, não. Renúncia, nenhuma. Era opção mesmo. Quando ele foi embora…teatro. É difícil a gente dizer o que eu sinto, senti. Porque pode parecer esnobismo, mas não é não. A experiência de teatro no TPN era uma experiência plena de vida, de religião, pra quem tinha, diversas religiões, tinha judeu, evangélico, católicos e tinha ateus, mas todos habitados por um compromisso muito grande. Então a gente se irmanava. Tinha vezes que a bilheteria ia para uma pessoa que a gente até anunciava. A gente está ajudando a família de fulano, que é um preso político. A gente fazia como instrumento de denúncia. Lá a gente denunciava tudo. A minha relação com Hermilo é a todo momento, verbalizo, até me divertindo com ele. Mas é muito mais de dentro pra dentro, de cabeça pra cabeça, de reflexão, que a vida é tão rápida, que devora tanto a gente, que eu tenho que parar, dar um freio de arrumação e ficar sozinha com ele, vendo as besteiras que eu fiz ou acertos. Ele continua sendo o meu fio de prumo. E continuando sendo ajudada por todo esses grupos com os quais eu convivo. Muitos já se foram. Então, olhar para o futuro, eu não tenho futuro. Assim, projeto com data marcada, com tempo, não.

Mas você é muito ocupada…
É. O meu médico diz: “você vai ter que andar mais devagar”. Eu levei um bando de queda. Aí fui a um neurologista que continua me acompanhando. Ele disse assim: “Leda, dá uma volta até ali e volta. E porque você andou tão apressada?” “E eu andei apressada?” “Andou! Agora você tem que fazer as coisas devagar, você tem que ter outro ritmo de vida, pra você não atropelar o seu sistema circulatório”. Mas isso se choca com uma certa pressa que eu tenho para concluir alguns projetos. Principalmente quando nas minhas mãos afirmou-se e firmou-se uma gestora pública. Como reflexão desse pedaço da minha caminhada profissional, em todos tenho exercido a gestão pública. Coerente com as coisas que eu penso, que me ensinaram, que eu descobri, que eu tento viver, eu sou uma servidora pública. Não gosto de funcionária pública não, porque é bastante desmoralizante. Sou uma servidora pública. E em todas as vezes que tive o poder nas mãos…começou com o carnaval. Eu trabalhava como comentarista pela Universitária, de chão, de passarela, dos desfiles das agremiações. Que só existia isso no carnaval do Recife. Eu e Evandro Rabelo. A gente ficava atrás das arquibancadas esperando e eu via o sofrimento das agremiações daqui sendo esmagadas pelo poder das escolas de samba e pelos políticos. Eram políticos assim, determinando quem entra, quem não entra, o tempo. “Vamos, passem, passem, vocês só têm dez minutos”. E a escola de samba, que oferecia ao político um número muito grande de participantes, centenas, milhares, era diferente de um clube de frevo. Mesmo o Clube das Pás, que naquela época vinha com 200, 300 pessoas. Na cabeça do político isso não interessava. Eu saia cada noite mais indignada. E sem eu saber o que vinha logo, eu dizia: no dia que eu puder, eu vou ajudar esse povo aqui, tem que mudar. Logo depois, eu fiz campanha de Jarbas e depois doutor Arraes assumiu e eu fui trabalhar na Fundarpe, como chefe de gabinete. Foi o primeiro emprego público, trazido como resultado da minha participação em campanhas políticas. Aí Jarbas mandou me chamar para eu assumir a Fundação de Cultura e eu disse que de jeito nenhum, “tenho compromisso com doutor Arraes”. Era tudo muito difícil, não tinha dinheiro nenhum. Ele me perguntou quanto eu ganhava. Lembro que era uma proporção de 3 para 300. Na me lembro exatamente. Mas eu disse: isso não me demove. Dois dias depois, um sábado, eu tava com visita em casa, a gente bebeu e acabou o almoço eu fui tirar minha soneca. “Maria, é cama, não me chame para ninguém”. Doutor Arraes telefona. “Eu queria falar com Leda”. “Dona Leda está dormindo”. “Quem é?” “É Miguel Arraes”. “O governador?” “É. Chame?” “Não, não vou chamar, não tenho ordem”. Quando acordei seis horas da noite, ela me disse. Eu liguei no domingo e ele me disse que precisava que eu assumisse a Fundação de Cultura. Era uma coisa com tanta segurança que eu não perguntei porque. Era Maximiniano Campos que tinha sido o intermediário. Depois fui a Jarbas, disse que aceitava e aceiei. Na minha posse foi tanto carnavalesco. Aí eu disse, sabe de uma coisa, aquilo que eu senti naquela hora, eu vou colocar em prática. Aí criei uma comissão de carnaval. Era um representante de cada agremiação e Fundação Joaquim Nabuco, e comissão pernambucana de folclore. Dei o mesmo tempo das agremiações, o mesmo cachê, das agremiações de samba para as de frevo. E tudo era muito discutido. Ia pra frente, ia para trás. Mas quem passa por pastoral, não pode marcar prazo para nada. Porque tanto fazia a gente numa reunião avançar três pontos e na outra reunião a gente recuava dez. Mas caminhou e no carnaval estava tudo resolvido por eles. E pela primeira vez eles tiveram voz e aquilo confirmava que o poder serve é para servir e, no caso, servir a eles. Essa foi uma prática testada e me deu muita maturidade por dentro. Foi por isso que eu não tive desvios no caminho.

E as pessoas não sabem que você também teve e tem um papel importante para os maracatus…
Um domingo por mês eu passo em Aliança, na sede dos maracatus. Tenho alegria imensa em vê-los cidadãos. Eles têm curso na associação. Começou com curso de bordado, pago pela Chesf, e aí é quando eu digo, como eu tinha muito prestígio, tinha que usar para isso. Daí em diante, a associação se credibilizou e eles têm o maior respeito por Salu e depois de Salu. Eles financiaram cursos de bordados, as golas maravilhosas, de instrumentos musicais. Depois cursos nesse mundo dos negócios, porque aquelas certidões são um horror para eles, que pegam no bordado, fazem coisas lindas, mas com a caneta não conseguem. Salu, a mão ia pra lá, a mão ia pra cá, mas fazia coisas maravilhosas. E hoje eles estão dominando a informática. Eu sou analfabeta virtual e eles sabem, sabem o suficiente para entrar nesse mundo, e agora eles estão se preparando para os editais. Cachê, eu já briguei com muito prefeito, que humilhava o maracatu, para pagar porcaria de R$ 50. Ninguém recebe mais isso não. Eles vieram participar do carnaval do Recife há pouco tempo. Eles são notados pela pontualidade. Brincavam de armas, não brincam mais. Deixar de beber, eu não sou doida a aconselhar ninguém a não de beber. Brincar como brincam, como fome e sem beber? Cada grupo é um pedaço da minha família. Naquele dia da homenagem em Aliança, eu fiquei plena. Se eu fosse embora naquele dia, eu tinha colocado um ponto na minha vida com muita alegria por eu ver que aquilo era verdade, por eu ver que valeu a pena a caminhada naquele sentido. Por eu ver que eles são cidadãos.

Foi você quem levou Mestre Salu para a Prefeitura de Olinda ou foi a Fundarpe?
Para a Fundarpe. Para ser meu assessor de cultura. Mas não era pra ficar lá dentro não. Vá se embora, pegue o meu carro, vai ganhar diária. Fui quase processada pelos arquitetos e engenheiros porque estava dando a mesma diária para eles e para um analfabeto. Eu coloquei tudo na mesa e disse e mostrei como a cultura de Salu, eles eram também analfabetos na cultura de Salu. Então esse negócio é muito relativo. Vou continuar pagando a mesma diária. Aí ele foi, ressuscitar quem estava morto, fortificar quem estava doente. A primeira reunião que eu tive com eles, eles eram nove maracatus. Hoje, são 105. Agora, isso há 20 anos. É lento o trabalho. Mas forte e muito robusto. E aí fui, disse, ele tem que ter algum reconhecimento oficial desse negócio. Preparei um dossiê com depoimentos de pessoas como Nóbrega, Ariano. Aí organizei e encaminhei para o conselho estadual de Cultura, para o reconhecimento como mestre da cultura popular. Demorou um ano, foi pra frente, pra traz. Mas saiu e eu disse: “Doutor não é não. Não é a sua estrada. Você é um mestre, mais do que chama que canta, é o mestre da cultura popular”. Ele encontrou na prefeitura de Olinda por Germano Coelho, como gari. E ainda hoje o salário, a pensão, dele é de gari, apesar dele ter passado para professor da cultura popular nas escolas.

Leda, você falou de família. Não se arrepende de não ter tido filhos?
Eu quis muito! Abortei cinco vezes. Eu penso sempre que eu teria um filho já de 30 anos. A gente pensava que nós dois daríamos ótimas condições para uma pessoa se desenvolver, de descobrir seu caminho. Provavelmente, ai era eu que dizia, no campo da cultura. Porque Hermilo, dentro de casa, eu. Iria ser um ator, compositor. Mas perdi. Com a força que eu queria, eu expulsava. Ai depois eu compreendi: eita, se eu tivesse filhos, eu não teria tido condições de fazer isso; de aliviar o peso de Hermilo, pra que ele pudesse fazer coisas mais importantes para o povo, para a cidade, para o teatro. Quando eu tomei a contrarregra das coisas era muito isso. Eu dizia: se eu tivesse filho, não poderia estar fazendo isso. Mas esses também são mecanismos que a gente tira da gente para poder enfrentar a ausência. Mas claro que se eu tivesse um filho de Hermilo ou uma filha, eu estava muito “plenificada”. Com todo o otimismo que eu tenho que seria uma pessoa do bem.

Você se sente livre?
A maternidade foi um negócio que atrapalhou o meu pacote de mulher. Mas no outro pacote da mulher, como mulher, me sinto completamente livre. Hermilo me encontrou na vida com todos os preconceitos sexuais e com todas as emoções e sensações dentro de mim sofrendo como um pecado. A puberdade foi muito complicada para mim e eu não tinha com quem dividir. Depois, me lembro a primeira vez que Hermilo disse buceta. Eu disse, “Hermilo, não diga esse nome não para mim”. Ele não tinha apelido. Cada coisa com o seu nome, com uma suavidade, com um romantismo. E eu me fiz nisso. Ele brincava com os amigos. Dizia: “olhe, vagina é uma xoxota doente”. Eu acho essa definição maravilhosa. Porque ninguém deve dizer no ato de amor: a sua vagina é gostosa. Isso é para quem está doente e vai para o médico. Ele tinha uma afetividade muito livre, ele amava o homem, a mulher, no sentido pleno da palavra. Despertava paixões, era muito afetuoso. Ele tinha um fascínio pessoal muito grande. Mas não era garanhão, galinha, não, não era não. Quando ele amava uma mulher, ele era só dessa mulher. Isso eu vi porque com Débora ele era assim e depois comigo. Eu não tinha ciúmes. Às vezes eu tinha uma reunião de cinco homossexuais, homens, falando da paixão por Hermilo e eu junto, feito corna. Eles falando da paixão que sentiam por ele, da atração, do domínio que Hermilo exercia sobre o espírito deles. Era uma coisa que não tinha a dimensão normal isso, de jeito nenhum. Eu fui quebrando, nunca rompidas, mas fui quebrando as minhas correntes. Nunca tive experiência homossexual. Tive as naturais da juventude, da puberdade. Mas não tem problema nenhum. Se acontecesse, eu não teria problema nenhum. Já tive pessoas que vieram me falar de sentimentos. Não me choquei, fiquei zangada, nada disso! “Eu compreendo, mas minha preferência é outra, acho que não vou ser fiel para você”. Então, nesse campo, aprendi também com Hermilo. Por isso eu digo que eu fui predestinada para encontrar Hermilo na minha hora de mulher. Porque eu não tenho preconceito nenhum. Aprendi com ele que, quando duas pessoas querem, nada é imoral. Então, não tem nada de certo, não é certo. O que é certo? Agora, se você pega na minha mão sem eu querer, eu já me arrepio.

O que você acha da liberalização das drogas?
Maconha…nunca fumei não…peraí…parece que eu puxei uma vez…mas, não tive nada. Também, eu não trago! A gente pensava um dia em experimentar, mas depois ele adoeceu, não fizemos não. A maconha..conheço gente que todo dia puxa o seu fuminho, inclusive com a mulher, e desanuvia, cria melhor. Agora as outras drogas, eu acho que tem que se combater. Porque o efeito delas é de fim. Destrói o seu núcleo e te dá uma felicidade muito, muito efêmera, porque leva você para o fim. Acho que deveria haver muito esclarecimento, não era pânico não, nas escolas, sobre a formação da cocaína, do crack, desse novo..oxi. Pelo caminho da formação, as pessoas deixarem. Mas o método de você desistir, aí eu não sei. Se é privar. Mas é triste você ver um menino, como eu conheço, um menino lindo, um gênio do violão, já está perdido. Fui a uma audição e ele saiu três vezes para o banheiro para cheirar. O nariz já estava irritado. E a gente sabendo que esse menino está encurtando a vida dele rapidamente. E o que ele fazia no violão…isso aí faz pena.

E sobre o aborto?
Primeiro, a Igreja não tem que condenar ou não. É uma coisa de foro íntimo. Quando a gravidez se processa por um estupro, não tem nem o que se dizer. Não é feito o louco do Dom José (Cardoso Sobrinho), que foi excomungar, até a menina que é Secretária da Mulher, Cristina (Buarque), foi excomungada. Imagina, se ele tem poderes diante de Deus para fazer isso! Agora, tudo é preciso muita formação. Porque essa juventude que tem tanto método para evitar gravidez. Sou do tempo que camisinha, eu ouvi falar quando os americanos invadiram aqui, para fazer base, porque elas apareciam na praia de Boa Viagem. Nos anos 50, na guerra. Aqui tinha muita recifense que engravidou de americano. E os brasileiros não quiseram mais nem vê-las. Tinham três irmãs que eram doidas pelos americanos, eram as irmãs Coca cola. Todo mundo no Recife sabia disso. Então na praia de Boa Viagem tinha tanta camisinha. Eu ainda peguei uma, fazia bola, eu sabia lá o que era. Depois meu irmão, com muito mistério, me disse, mas dizendo que era uma coisa imoral. Mas hoje se ensina nas televisões, nas novelas. Então hoje você engravida por incompetência, do rapaz, da moça. Então essa gravidez incompetente, quando não tem problema, é duro. Não é tão fácil dizer não.

José Celso Martinez Corrêa esteve duas vezes recentemente aqui no Recife. Você foi vê-lo?
Fui a um e acho o seguinte: ele tem uma obsessão sexual doentia, doentia. O teatro brasileiro já passou o tempo do nu, já passou o tempo dos homossexuais se afirmarem, de despirem, viverem emoções, experiências amorosas, sexuais. Isso já está velho. Porque a televisão já trouxe tudo isso pra gente. O público que poderia não gostar, já se acostumou. Mas o Zé Celso, pela bagagem intelectual que ele tem, ele avança numas concepções cênicas, ele avança muito, ele envolve a gente. É novo, muita coisa. Mas não vejo arte em você se masturbar assim. Isso é gratuito, grotesco, não envolve o belo. Então eu fui e depois não fui mais. Fui ver Os Sertões. Depois, ele é contundente; e isso empobrece. Não que o sexo empobreça, mas é como se qualquer autor que só bate naquela tecla, de coisas já velhas. Porque ele na dá uma nova face para o sexo, ele não dá uma nova leitura para o sexo. Eu conheço uma moça que estava sentada na plateia, foi chamada e se masturbou. E pode? Pode. Você pode todinha, o dia todo, pode até se machucar. Mas isso é uma coisa de muita intimidade. A não ser que você queira uma coisa coletiva e aí você vai para uma suruba e ali você faz tudo, tudo ótimo. Mas você me tira cruamente de uma plateia e me envolve num negócio. Eu acho de uma insistência, como se o sexo fosse o núcleo da gente, e não é. Porque é uma coisa muito falível. Porque se o seu estômago não estiver bem, você nem trepa, nem transa, que não tem vontade. Se você está com a unha do pé inflamada, chateada, com dor de cabeça. Então acho que ele tem tanto talento pra debater tantos assuntos importantes para a humanidade. Não é intelectual não. É que a gente saia dali, sabendo, se sentindo mais comprometida. Porque quem faz a história somos nós. Ninguém pode tirar férias da vida. E Zé Celso ele se apequena quando ele insiste nesse negócio do sexo, como se a gente fosse isso somente. A gente é isso e coisas muito maiores. Então quem não tiver com ereção, não faz nada. Quem não estiver com desejo… E não é! A gente sabe disso. Eu, com 80 anos, não tenho o sistema circulatório de 50 anos, mas não me tolhe uma porção de coisas.

Qual a função do teatro hoje?
Teatro já foi um grande instrumento de luta, foi usado para protestos, para ganhos sexuais. Já prestou muito serviço para a sociedade, debatendo assuntos. Além de ser um celeiro de despertar de talentos.

Tem algum arrependimento? Pediria desculpas para alguém?
Nada que destrua ou traga mal para as pessoas. As coisas que eu poderia fazer melhor são fruto da minha impaciência, diante da ação, da condução das coisas. Mas nunca traí ninguém. Mas essa impaciência me leva, às vezes, a não tratar, com a devida paciência, delicadeza, as pessoas. Nisso, eu me policio muito porque, como diz o poeta, essa pressa minha quebra o verso, atropela o verso. Ter encontrado Hermilo antes na vida…foi na hora certa. Porque se fosse como era antes, Hermilo nem me notava, passava despercebida pra ele.

Você fez muitos desafetos? Inimizades?
Claro que eu cometi erros, acho até que pedi desculpas algumas vezes, outras não tive oportunidade, mas nada que chegue a sacrificar uma pessoa. E os inimigos que eu criei ao longo do exercício dessas funções de gestão, não foram inimigos, foram pessoas que tiveram mágoas porque foram preteridas. Geralmente é coisa dessa competição que a vida joga na gente. Essa besteira, desses 80 anos, tanta gente me disse: “não me mandou. Eu não fui, notou que eu não fui? Não recebi”. Então são essas coisas que fazem parte da caminhada. Não me arrependo de ter esperado nove anos para que Hermilo pudesse ficar, de certa maneira, livre porque eu também penso que, nesses nove anos, que eu me comprometi com ele, me guardei, até ele voltar, chegar, também me enriqueceram muito. Fica dentro de mim: será que quando eu perdi o primeiro filho de Hermilo, eu tinha 36, por aí. Será que se eu tivesse ido viver com Hermilo aos 27, 28 anos, eu estaria em condições do meu útero receber meu filho? Era o útero, viu? Cabra safado. Quando eu tirei o útero há uns oito anos atrás, o médico disse: “tire, jogue no lixo essa porcaria. Ele é responsável por cinco abortos, incompetente”. Porque eu engravidava, né? Mas ele não segurava o ovo, soltava. Então, talvez, dentro de mim, eu tenha isso. Se eu for cascavilhar, eu encontro. Ah, seu eu tivesse ido viver com Hermilo antes, eu estaria bem mais jovem. Porque o último filho que eu perdi, eu já estava com 44 anos, um ano antes de ele morrer. Então, dentro de mim, existem essas coisas, muito poucas. Eu não tenho ninguém com quem eu não fale, eu tenho “alguéns”, que não gostarão de falar comigo. Então, eu passo assim…Mas é mais política.

Sua trajetória de atriz foi curta?
Ela foi plena, na medida do possível, na minha vida. Eu tive uma formação universitária. Encontrei alguns caminhos. Não tive um professor que fosse cabra safado. Todo mundo competente, inteligente, culto. Completamente envolvidos com o teatro. Então isso é um privilégio. Eu tive a fina flor. Depois quando eu entrei, para estrear, como profissional, primeiro eu fui contrarregra, depois maquiadora, porque o curso não deixava estar no palco antes de formar. Fiz minha prova pública no Teatro de Santa Isabel. E não estreei no TPN, estreei no Teatro de Arena, dirigida por Hermilo. Foi uma ocasião em que Graça Melo deixou a direção, já estava tudo muito bem encaminhado, aí Hermilo assumiu e me disse: “agora você vai estrear comigo, aqui”. A gente não tinha se declarado ainda. Mas eu já estava completamente decidida que o núcleo da minha vida seria o teatro. Tudo me encantava, tudo. No TPN, você tinha curso de filosofia. Dava a você uma formação integral e de vida. Todos os debates, tudo a gente conversava. A gente saia dali para a farra à noite, com o mesmo entusiasmo que a gente se sentava para debater a situação do Brasil. Então aquilo tudo era bagagem que eu ia adquirindo. Eu não sou burra. E me entrego as coisas, que eu acredito. Depois o teatro, por Hermilo, mistura com a cultura popular. Então eu fui me encantando com esse universo que também é teatro. Aí eu dou um pulo para o Santa Isabel. Eu relutei muito, porque era um antiteatro para o teatro que eu fazia. O teatro da gente era um teatro de três faces, quatro, pela própria técnica de Hermilo. Apesar de minha prova pública ter sido lá, eu não tinha nenhuma simpatia do ponto de vista da minha luta de teatro. É um teatro burguês, fechado. Pedi a Ada Siqueira, que veio fazer o convite em nome de João Paulo. Pedi mais uma semana para pensar. Aí depois eu aceitei porque eu poderia fazer o contrário, eu poderia abrir o Santa Isabel para o povo vir, o povão, comunidades, tudo. Entrei num convênio com a Secretaria de Educação. Projeto Bolsa Escola, atingir até estudantes de 16 anos. Toda quarta-feira, à tarde, o teatro dava o espetáculo da noite, à tarde, para as crianças. Aí era um negócio maravilhoso. Entravam os pais também dos meninos. Aí primeiro eu fazia uma conversa, a história do Santa Isabel. E entrava na proposta política de João Paulo: isso daqui é de vocês, os impostos que você paga, está tudo aqui dentro. O mais difícil era que algumas empresas patrocinadoras abrirem mão de ingressos, de cem ingressos, para a gente mandar para o orçamento participativo. Mas eu fiz muito isso. Eu me lembro de uma senhora que colocou a mão no dourado e dizia: “Ave-Maria, eu nunca pensei que eu pudesse entrar nesse castelo”. “Pois então você é uma rainha, o castelo é seu”. Trazia o lanche para comer. Lá dentro, a partir da portaria, não entra nem água, não entrava nada. Aí ela vinha com a mochila de baixo do braço. Aí eu disse “que é isso, minha nêga?”. “Oxente, é lanche”. Eu disse, “mas você não pode entrar com isso lá dentro”. “E eu não lancho não?”. “Lancha. Eu vou colocar nessa mesinha, garanto a você que quando você sair, vai estar aqui, você pega seu lanchinho e vai nessa sala aqui fora, que você pode comer, tem água”. Então, eu tinha 40, 50 pessoas com lanche e, no fim, ninguém mais trazia. E se trazia, já colocava no cantinho. Ninguém nunca me deu trabalho. Ninguém vinha de roupa que não deveria. Porque estudante é fogo. À noite, não entra de bermuda. “Menino, isso aqui é um teatro municipal. Você vá para o Rio, São Paulo, vê se você entra assim lá, vá”. Com roupa de praia, calção, camisa regata. Entra não. Isso não é pobreza. Eu não deixava. Sandália havaiana nos pés? De jeito nenhum. Consegui barateamento de ingressos. Agora, uma coisa que os produtores não me perdoam, é o teatro infantil. Esse foi um calo para mim. Primeiro a gente fez. Porque ninguém se lembra! Foi um caos. Principalmente por conta das academias, dos pais, que não interessa que a lotação é 700 lugares. Derrubaram até uma porta! Interessa que eu vou entrar com minha mulher, minha mãe, num sei quem. Tanto mais poderosos, mais afoitos. Era uma desordem tão grande! Acontecia também com escola particular, uma das mais ricas daqui. A minha conversinha de antes, eles não queriam ouvir nada. Um gritava para o outro: “fulano, me dá meu chiclete”. Pulavam por cima da cadeira, subiam na grade dourada das frisas. Pegaram os dois bigodes de Joaquim Nabuco e quebraram. As pinhas das escadas, arrancaram. Vândalos. Esses já eram adolescentes, gente rica. Tive uma reunião: “ah, nós vamos assumir e pagar”. “Isso é pouco, o outro prejuízo que o teatro teve, que a sociedade teve, que sua escola teve, e que esses meninos tiveram, não adianta dinheiro que pague. Vocês escandalizam a gente, saber que seus alunos, numa escola de tão nível, são capazes de fazer isso no teatro”.

Mas não foi muito radical a sua decisão?
Não…O Teatro de Santa Isabel organizou-se pela primeira vez, depois dessa reforma última. Seu camarim é indevassável, o que você tem dentro do seu camarim, só a camareira pode entrar, como qualquer teatro profissional. Caiu o botão, tem quem conserte. É responsabilidade do teatro. Os banheiros, não faltava papel, tudo cheiroso, em ordem. O teatro infantil, vamos pensar, no domingo de manhã e no sábado à tarde, não há tempo para se preparar a parte de dentro do teatro, para os espetáculos que vão acontecer à noite. Tirar, desocupar um camarim, e infantil é muita gente. Esse material que você desaloja…no Teatro do Parque não..fica pelos corredores, colocam tudo em cima de cadeira, que você fica tropeçando nas coisas. Lá eu não deixo. Fora dos camarins, só vamos dizer, balés grandes, que vem 100 pessoas, 200. Colocam nas araras, perto do camarim. Aí ocupa aquelas áreas. Mas o resto não! Então eu fiz o projeto e lutei até o fim. E levei, apresentei ao secretário Peixe (João Roberto Peixe). Eu tinha que ter outro grupo para infra-estrutura, para varrer as plateias, passar limpeza nos banheiros, limpar os tapetes, os corredores do teatro, o saguão, para a plateia e o povo. Significava uma despesa de R$ 1 mil para a gente cobrar aos grupos. Você imagina se tinha aqui algum grupo de teatro infantil que pudesse pagar um aluguel de R$ 1 mil? Não tinha a menor possibilidade! E a Prefeitura não ia bancar esse extra.

A secretária entra na sala e diz que ela não se preocupe, que a família já está almoçando. Que ela pode chegar para a sobremesa. – E diabético come sobremesa? Me desculpe, minha gente, temos que encerrar. Pollyanna insiste na pergunta: “mas você não sente falta dos palcos?”
Eita! É..eu não respondi! Bom, eu me lembro de uma frase que Érica, do ballet Stagium, estava sentada do meu lado e o balé apresentando. Ela de lado. Ela levou umas quedas, operou e não podia dançar. Eu tinha o exemplo de Mestre Salu, que adoeceu de Doença de Chagas e não podia mais brincar. Ele ficava só com o apito na boca, pra ter a impressão de que está coordenando tudo. E perguntei a essa bailarina se ela não sentia falta de dançar. Ela me respondeu: “mas eu estou dançando”. É a mesma coisa comigo.

Postado com as tags: , , , , , , , , , , , ,

O senhor do teatro

Paulo José. Fotos: Pollyanna Diniz

Quando penso no Paulo José, a minha primeira lembrança é o personagem Orestes, da novela de Manoel Carlos Por amor, de 1997. Era um alcoólatra que fazia a esposa e a filhinha de olhos azuis sofrerem muito. Ele me gerava momentos alternados de raiva e pena. Mas essa referência é bem recente para um ator de 74 anos que dedicou praticamente toda a vida ao teatro, cinema e televisão.

Ao encarar a pergunta sobre o personagem mais marcante, ele me diz que foi a “Xuxa da infância de muita gente”. Está se referindo ao seriado da década de 1970 Shazan, Xerife & Cia. Interpretava Shazan e fazia dupla com o ator Flávio Migliaccio.

Hoje, Paulo José continua esbanjando disposição para trabalhar e lucidez, mesmo lutando contra o Mal de Parkinson desde 1992. Está em cena na novela Morde e assopra, no filme Palhaço (que tem direção de Selton Mello e previsão para estrear em maio) e dirigindo, pela segunda vez, a peça Murro em ponta de faca. A primeira vez foi em 1978, quando o amigo e autor do texto, Augusto Boal, falecido em 2009, ainda estava no exílio, vítima da ditadura.

No Festival de Curitiba, ele abriu a sala de ensaios de Murro em ponta de faca ao público. Fui assistir e pedi para marcarmos uma conversa. No dia seguinte, mesmo com chuva, ele chegou ao teatro com duas horas de antecedência, como combinado. Falou sobre a peça, que tem no elenco só atores curitibanos (Gabriel Gorosito, Laura Haddad, Erica Migon, Sidy Correa, Abílio Ramos, Espedito Di Montebranco e Nena Inoue), sobre a carreira, sobre a doença. E me disse que está cada vez mais certo de que “Teatro é teimosia. As pessoas querem fazer. E fazem”.

Entrevista // Paulo José

Qual a diferença de dirigir Murro em ponta de faca em 1978 e em 2011?
Esta versão agora nos dá a possibilidade de mergulhar no personagem. Naquele momento, tudo tinha acontecido. Era muito mais ebulição do que razão. Hoje a peça intriga, provoca, dá vontade de conhecer mais da época. É saber o princípio, a origem desse mal. Na época, o sucesso dela, o encontro dela com o público, era natural por causa das circunstâncias, da luta pela anistia, da campanha Tortura nunca mais. Não precisava nenhuma teatralidade especial. Poderia ser quase uma leitura. Agora é mais profundo, estamos menos presos à superfície, ao aparente. E são muitas as referências a coisas que aconteceram naquela época, que não necessariamente as pessoas sabem hoje. Há uma referência clara, por exemplo, ao chileno Víctor Jara (professor, diretor de teatro, poeta, cantor, compositor, músico e ativista), que teve as mãos cortadas. É cheio de referências também ao Marighella (Carlos). Apesar de que, no Brasil, a ditadura foi menos dura do que na Argentina e no Chile. Os militares aqui tinham origem de classe média, classe média baixa. Em muitas situações, eles se encontravam tendo que reprimir a própria família. Diferente do exército argentino, que tinham inimigos de raízes. Aqui, os militares se viam às voltas com parentes presos, tendo que resolver “pepinos” familiares.

Paulo José dirige Murro em ponta de faca pela segunda vez

Como você enfrentou a ditadura. Mesmo não tendo sido exilado, teve essa sensação aqui mesmo?
Claro! Eu era do Teatro de Arena. E a peça que estava em cartaz na época do golpe era O filho cão. Era do Guarineiri (Gianfrancesco) e eu dirigia e atuava. A polícia foi lá para fechar o teatro. Mas nós escapamos todos. Guarnieiri e o Juca de Oliveira foram para Bolívia. Augusto Boal foi para uma fazenda. Fiquei na casa de Cacilda Becker, que morava numa cobertura, esquina com a Avenida Paulista. Fiquei lá um mês. Depois de 15 dias na Bolívia, o Guarnieri e o Juca decidiram voltar. Disseram que preferiam morrer. Depois disso, o Boal foi preso, torturado. Éramos privados da liberdade de ir e vir, de todos os bens, de qualquer conforto que o dinheiro pudesse dar, dos teus discos, filmes, instrumentos musicais. Esse sentimento não tem idade. E hoje as pessoas, noutra situação, também são desprovidas de tudo. Mas naquela época, essas pessoas iam para a Sérvia, para a Croácia. Ficavam sem dinheiro, precisavam da família no Brasil. Mas mandar dinheiro também não era fácil. Então, às vezes, era fome, necessidade mesmo. É uma indignação, uma vergonha, a gente ser tutelado por imbecis. Apresentar uma peça para a censura, para que eles dessem o parecer. Pessoas desqualificadas, ignorantes. Às vezes a gente colocava, por exemplo, um palavrão na peça, só para poder negociar. Porque eles iam implicar com aquilo e deixavam outras coisas passar. Os policiais entravam na tua casa. Os livros perigosos ficam no fundo falso do guarda-roupa. Lembro de perguntarem que eram Aristófanes.

O Boal chegou a ver a peça sendo encenada? Qual a importância dele para o nosso teatro?
O Boal escreveu no exílio. E quando voltou em 1983, acho (na realidade, 1986), a peça já tinha sido encenada. O Boal era devotado ao teatro. Enquanto nós éramos “adúlteros”, namorávamos o cinema, a tv, ele era fiel. Quem sustentou o Arena foi o Boal, por mais de dez anos. Nós íamos para o TBC, para o Oficina. Mas o Boal estava no Arena.

Falando nisso, atuar na televisão, cinema ou teatro é a mesma coisa?
São formas diferentes de trabalhar, mas não há dificuldade. Tenho preferência por cinema e teatro. A televisão é redundante, não é muito inovador. A comunicação é horizontal. Se todo mundo tem que entender, o foco é menor. No teatro, se uma pessoa entender, tudo bem. A programação da televisão também tende a ter um discurso homogêneo, desde a manhã ate a hora que acaba. E o meio se transforma na própria mensagem.

A música é importante? Neste trabalho, o senhor está “brincando” no teclado…
Sempre trabalho com música. Gosto muito, por exemplo, do trabalho do Galpão, porque é muito musical, porque todos tocam. Gosto muito do teclado, mas eu não toco mesmo, por causa do Parkinson. Até para escrever no computador é difícil. Quero digital uma tecla e vou para outra.

No teclado, no ensaio aberto da peça em Curitiba

Como foi a descoberta de que tinha a doença e lidar com isso?
Foi em 1992. Uma doença degenerativa, progressiva e irreversível. Foi o que me disse o médico. Ele estava lá, receitando o remédio e eu perguntei “por quanto tempo vou tomar?”. “Durante toda a vida”, ele me disse. E aí, olhando para ele, um homem quase careca, perdendo o cabelo, descobri que ele também tinha o Parkinson dele: o envelhecimento. Que é progressivo, irreversível, degenerativo. A diferença é que eu tinha a certeza que ele ia morrer e ele não. Como se fosse eterno. Você passa a ter limitações, mas você descobre outras coisas, a introspecção, a concentração. Passei a escrever bem. A minha acuidade musical aumentou. Os meus sentidos foram aguçados. Cada um tem o seu Parkinson. E eu tenho 74 anos, já estou fora da garantia. É só manutenção, não troca mais peça nenhuma.

Mas quais são os cuidados?
Remédios. E hoje faço aula de voz, ginástica, hidroginástica.

Você já fazia ginástica?
Não! Ginástica faz mal! (Risos) Queima! Nunca fiz. Fazia exercício, mas tinha que ser prático, com bola, ou andar a cavalo.

Tem medo da morte?
Não tenho medo. Mas você tem que se preparar bem. As pessoas morrem mal porque não se preparam. São surpreendidas. Estou procurando deixar um testemunho pessoal das coisas que fiz. Estou passando a limpos coisas que escrevi para publicar. Cadernos de direção, de cinema. Dei aula de cinema em Cuba, por exemplo. Na Globo, dei aula para diretores e atores.

Nas duas últimas peças em que você esteve envolvido, você trabalhou com as suas filhas (Um navio no espaço ou Ana Cristina César e Histórias de amor líquido). É diferente? E o seu trabalho de direção também tem sido diferente com o tempo?
Acho que não…Cada peça tem suas exigências, necessidades. Mas a diferença que é estou ficando calmo, sossegado, não fico sofrendo. Até porque percebi que é só uma peça de teatro, tem limites previamente estabelecidos. Então fico mais calmo, tranqüilo. O que me interessa no teatro são as relações humanas, é ajudar a desenvolver potencialidades nos outros. E as pessoas me ouvem, me respeitam. Então me aproveito disso. Eu “chupo” o sangue destes atores jovens, a energia deles para mim.

Vamos falar de televisão. Como é o próximo papel?
É nessa novela nova..Morde e assopra. Entro e fico até o fim da novela. Representa o amor na terceira idade. É o Plínio. Ele volta para a cidadezinha onde tinha deixado a namorada. Gosto de trabalhar como ator. Tenho contrato com a Globo desde 1969. Então tenho que fazer algo de vez em quando. Faço a novela..aí passo mais algum tempo fazendo teatro e cinema.

Falando em cinema…o que o senhor acha da produção pernambucana?
Ah…o Cláudio Assis, o Lírio Ferreira, já estão consagrados, sabem fazer. Cláudio Assis é um louco! Aspirinas e urubus é um filme muito bom. Tem baianos também muito bons no cinema. Meu próximo papel é no filme Palhaço, de Selton Mello, que deve ser lançado em maio. É um filme autoral, que o Selton escreveu, produziu. Temos uma safra muito boa.

E deixa eu perguntar…o que o senhor acha da ministra Ana de Hollanda?
A linhagem é boa…é filha de Sérgio Buarque, de uma família que tem respeito pela cultura. Mas está apenas começando…Mesmo o governo da Dilma ainda é muito cedo. Já percebemos que ela tem diferenças de Lula, mas ainda é cedo…

Uma pergunta clássica: algum papel que gostaria de fazer e ainda não teve oportunidade?
Tem personagens da literatura, personagens reais, que a gente gosta. Mas eu não estou sofrendo com isso. Tenho tanta coisa para fazer sempre!

E vai fazer teatro até quando?
Até morrer!

Não existe aposentadoria para o teatro?
Não existe! Até porque, no teatro, tem papel para todo mundo, independentemente da idade. Aos 90, ainda terão papeis que são ideais pra mim.

No papel de diretor

Postado com as tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,