Arquivo da categoria: Ensaio

Música, audiovisual e ideias
Dossiê Aldeia do Velho Chico
#9

Gabi da Pele Preta e Alexandre Revoredo em show no Teatro Dona Amélia. Foto Fernando Pereira / Divulgação

Efraim Rocha (contrabaixo), Betinho Lima (bateria),  Jose Carlos Pereira (piano, sanfona), Gabi da Pele Preta e Aexandre Revoredo. Foto Fernando Pereira / Divulgação

José Carlos Pereira, o Zezinho da sanfona. Foto Fernando Pereira / Divulgação

Conheci a Aldeia do Velho Chico e a cidade de Petrolina, no Sertão de Pernambuco neste ano. E me surpreendo rindo sozinha quando faço uma associação da programação com os versos da música de Caetano Veloso: “Eu sempre quis muito / Mesmo que parecesse ser modesto”. Uiii. A programação é larga e profunda e logicamente que é permitido se perder nos seus labirintos.
Então, vou lembrar um pouquinho do que mirei, senti, vivenciei, soube. Isso, logicamente, com toda argamassa da minha subjetividade.

Gabriella Freitas, ou melhor Gabi da Pele Preta, mulher agrestina de Caruaru, desperta a festa no corpo com as músicas que canta. O show dela com o músico garanhuense Alexandre Revoredo (que mostrou canções de Revoredo, disco lançado em 2020), chegou repleto de poesia e transita pela trajetória e repertórios dos dois artistas, banhados de afetos. O canto militante de Gabi é lugar de reflexão e confronto.

Vestida de vermelho carmim, ela defendeu no seu canto-dança o que ostenta na sua vida. A cantora engaja arte e manifesto das pautas de gênero, classe e raça em canções femininas e feministas. Gabi faz seus próprios levantes como mulher.

Entre as peças interpretadas incluem Revolução, uma composição de Juliano Holanda, carregada de uma musicalidade rebelde contra os padrões caretas e patriarcais. Ela enche seu repertório de luta, com músicas que pregam por uma vida transformadora.

Com a dançante Gente, com letra de Uma Luiza Pessoa, artista trans de São Paulo, Gabi avisa que é preciso cuidado com o que se fala, se posiciona contra normatividade e salienta que “nós não somos iguais”; lembrando que o que existe em comum é que “somos todos mortais”.

Uma artista destemida que reivindica um amanhã mais justo e brada música para curar o ódio, o medo, todos os maus-tratos. 

Documentário Baque Opará na Mostra de Curtas. Foto Sandriele Gomes / Divulgação

Filme Medida Provisória foi exibido na programação seguido de debate. Foto André Amorim / Divulgação

A Mostra de Curtas Regionais com a exibição de produções audiovisuais de Petrolina é um dos orgulhos recentes da cidade, instigada pela pesquisa e realização no Vale do São Francisco. Entre as exibições estavam A Menina da Ilha, que foca nas belezas do Rio São Francisco, fazendo cruzamentos com a lenda da Mãe d’água e os desejos de uma garota que almeja ser cantora.

Já o documentário A Nossa Ancestralidade Pulsa, Produz Alegria, Resiste: Baque Opará, com direção de Chico Egídio, faz um passeio poético pelo percurso do grupo percussivo Baque Opará, que se nutre na produção coletiva e dos batuques de saberes de ancestrais.

O filme Medida Provisória, longa de estreia de Lázaro Ramos na direção foi exibido na Aldeia, seguido de debate. A obra sofreu ataques conservadores e preconceituosos de toda ordem quando do seu lançamento. A peça cinematográfica suscita controvérsia inclusive entre os povos pretos e a militância. A conversa foi acalorada.

Baseado na peça Namíbia, não! (2011), de Aldri Anunciação, também dirigida por Lázaro, o filme expõe um Brasil distópico, cujo governo não especificado determina o “retorno” dos cidadãos negros de melanina acentuada à África como forma de reparação, vejam a lógica, dos danos provocados pela escravatura.

André Vitor Brandão (de costas), Tiago Ferraz, Raphael Vianna, Galiana Brasil e Luiz Antônio Sena Jr. Foto Tássio Tavares / Divulgação

Flávia Santos, Raphael Vianna, Liana Gesteira e Júlia Vasconcelos no Tecendo Ideias. Foto André Amorim

Entre a programação de reflexão e formação, o projeto Tecendo Ideias busca provocar, instigar um diálogo, um debata sobre temas relacionados à programação. Com duração de cerca 45 minutos, essas reuniões abriram espaços para falas institucionais, iniciativas críticas e aula de empreendorismo.

A conversa Encontros no pós-mundo: Retomadas e Deslocamentos nas Artes Cênicas reuniu os gestores Raphael Vianna, da direção nacional do Sesc; Luiz Antônio Sena Jr, do FIAC/BA; Tiago Ferraz, do Itaú Cultural e mediação de Galiana Brasil, também do Itaú Cultural. Discorreram sobre providências, iniciativas tomadas durante a época mais dura da pandeia e as perspectivas de sobrevivências culturais para os próximos tempos.

O Coletivo 4 Parede, do Recife e o Podcast Deixe de Pantim, de Petrolina, sob mediação de Raphael Vianna, do Rio de Janeiro, versaram sobre as Possibilidades de produção crítica em Artes da Cena no jornalismo cultural por meio das tecnologias digitais. Esse bate-papo foi parte do Pensamento Giratório. A atriz, jornalista e pesquisadora Liana Gesteira falou das atividades desenvolvidas pelo 4Parede, as oficinas técnicas que vem desenvolvendo junto a vários festivais, a ampliação do lugar do podcast na vida dos brasileiros e como eles executam a critica dentro de suas plataformas. O 4 parede realizou na programação da Aldeia a Oficina: Possibilidades de produção crítica em Artes da Cena no jornalismo cultural por meio das tecnologias digitais.

O coletivo Deixe de Pantim, que tem esse nome ótimo, por sinal, é tocado por quatro jovens comunicadoras: Victória Resende, Júlia Vasconcelos, Flávia Santos e Maiara Borges. Flávia e Júlia participaram da conversa. O projeto delas não foca somente na crítica das artes da cena, mas trabalha com análises de assuntos cotidianos, dos mais graves aos pontos de humor, numa linguagem coloquial. Então o foco dos podcasts do Deixe de Pantim são as questões sociais, sob a mirada feminina, jovem, de quem mora no Serão de Pernambuco e que olha para as questões de gênero, raça, território e cultura pop desse lugar.

Willian Fernando Soares, Rodrigo Frazzão, Antonise Coelho, Ariane Samila Rosa, Socorro Lacerda e Victor Flores no Tecendo Ideias de Literatura. Foto: André Amorim / Divulgação

Antonise Coelho de Aquino e Socorro Lacerda. Foto André Amorim / Divulgação

A conversa sobre literatura reuniu as escritoras e os escritores Socorro Lacerda, Antonise Coelho, Rodrigo Frazzão, Victor Flores, Willian Fernando Soares. Trocas de ideias  sobre letras, livros, criação são sempre prazerosas e instigantes.

Escritora, professora e militante feminista de Petrolina, Socorro Lacerda se posiciona questionando o patriarcado na ficção e na vida, na defesa da cultura e das mulheres.  Autora dos livros O mistério do sumiço do velho Chico, em que faz um percurso fluvial pelas riquezas do rio São Francisco e Vira-vira, Violeta, infanto-juvenil que discute sobre as representações de gênero, a partir da protagonização da luta das mulheres, entre outros.

Antonise Coelho de Aquino é professora de Língua Portuguesa, revisora literária e acadêmica, e consultora em Literaturas Infanto-juvenis. É autora do livro Ilha do Massangano: uma terceira margem no Velho Chico, uma pesquisa documental e a investigativa acerca da vida da população do Massangano e sua cultura. Publicado em 2021, o livro é oriundo de sua tese de mestrado em Sociologia, defendida em 2004.

O Jovem escritor Rodrigo Frazzão contou sua história de superação para se tornar artista. Ele começou a ensaiar rimas ainda menino, no rastro de sua paixão por vaquejada e aboios. Como morava na zona rural de Petrolina e precisou trabalhar na roça desde cedo, ele andava vários quilômetros para ir a escola. Seguiu insistindo nos estudos. Em 2020,no auge da pandemia, Frazzão postou um vídeo para mostrar seu talento no cordel. Depois com uma vaquinha virtual publicou seu livro O Poeta e o Isolamento.

Victor Flores considera a educação ambiental um dos grandes desafios desses tempos. Seu trabalho foca no respeito à natureza e no desenvolvimento sustentável. O ambientalista é autor de Tita e o Mistério do Velho Chico, um livro infanto-juvenil que busca acender nesse público o desejo pela defesa do Planeta. 

Educador e contador de histórias, Willian Fernando Soares, recebeu em setembro o  troféu Baobá, considerado o “Oscar” dos Contadores de Histórias. Ele é entusiasta dessa arte narrativa, que valoriza a tradição oral. Tanto é assim que escreveu o livro A turma do contador de histórias e a passagem do Juazeiro, em formato gibi em quadrinhos.

Essas histórias de vida e informações profissionais confirmam a riqueza da da produção literária do Vale do São Francisco. A mediação foi tocada pela professora do Sesc Petrolina  Ariane Samila Rosa

Paulo de Melo, Cleilson Queiroz e Antonio Veronaldo conversam sobre produção das artes cênicas no interior. Foto Tassio Tavares / Divulgação

Antonio Veronaldo, da Cia Biruta de Petrolina no Tecendo Ideias. Foto Tassio Tavares / Divulgação

A Produção em Artes Cênicas no Interior do Estado e a Descentralização da Cadeia Produtiva da Cultura foi o Tecendo Ideias mais acalorado desta edição da Aldeia. O tempo ficou curto para tantas constatações, reivindicações, desejos de valorização da cena que é feita longe da capital. Antonio Veronaldo, da Cia Biruta de Petrolina, é um combativo companheiro que atua como diretor, dramaturgo, produtor e militante cultural no Vale do São Francisco. Ele falou sobre o trabalho desenvolvido, não devidamente valorizado, dos estereótipos sofridos pelos grupos do interior, o desigual investimento (quando há) das políticas públicas. Com um trabalho de forte cunho político, ele reivindica a descentralização dos recursos e do pensamento. Também destacou o crescimento na produção cênica em Petrolina e região.

Cleilson Queiroz é um artista pesquisador da Cia Ortaet, de Iguatu, no Ceará. Ele trilha os caminhos acadêmicos e artísticos. Cleilson pesquisa autobiografia, teatro documentário e questões de gênero e atualmente cursa doutorado na UDESC – Universidade do Estado de Santa Catarina e é ator da peça Chorume, apresentada na Aldeia. Os problemas, as demandas para as artes na cidade Iguatu são idênticas aos de Petrolina.

A mediação dessa conversa foi feita pelo ator, professor e diretor Paulo de Melo, do Núcleo de Teatro do Sesc de Petrolina. Ele cresceu e se tornou artista em Petrolina. Com uma experiência de estudos e atuação cênica no Rio de Janeiro – Paulo participou de espetáculos como Gonzagão, a Lenda e Chacrinha o musical – que permite que tenha  visão de vários pontos geográficos da situação das artes cênicas no país. O que ficou dessa discussão é que há necessidade, espaço e interesse de grupos, artistas e público para um seminário específico sobre a produção cênica no interior. São demandas urgentes.

O Tecendo Ideias fechou com a aula Café com o Empreendedor: inovação e empreendedorismo no Vale do São Francisco, com SEBRAE/PE, quando foram mostradas as possibilidade de atuação para o setor e os caminhos a serem trilhados.

 

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Artes Visuais
Dossiê Aldeia do Velho Chico 2022
#8

 

Exposição Alumiando Afetos. Foto: André Amorim / Divulgação

Exposição Alumiando Afetos – Foto André Amorim

Peças em preto e branco na exposição Alumiando Afetos. Foto: André Amorim

Artista Alaido e a curadora Lys Valentim. Foto: André Amorim

Felipe Almeida, que adotou o nome artístico de Alaido em homenagem à mãe Alaide, é um artista visual que compõe sua arte a partir da relação com o cotidiano desacelerado da cidade grande. Suas peças são uma miscelânea de ideias e referências, emoções e memórias de sua trajetória. Para a Aldeia do Velho Chico expôs a primeira individual na região Alumiando Afetos, na Galeria de arte Ana das Carrancas, no Sesc Petrolina.

Nascido em Feira de Santana (BA), o artista mora em Igatú – Chapada Diamantina, onde o tempo impõe outro ritmo de vida, mais cuidadoso com as pessoas e com o Planeta. Alaido iniciou sua trajetória artística no Vale do São Francisco, onde viveu por 10 anos. E passou a mostrar sua arte urbana nas ruas da cidade de Juazeiro.

O universo lúdico de Alaido é projetado em cenas prosaicas e inspirações de paisagens marcadas pela cultura nordestina. As esculturas e telas predominantemente em preto e branco, ricos em detalhes das representações. Há acrílico sobre tela pensado sobre o samba de roda, de No batuque dos tamboretes. Ou acrílica sobre casca de árvore de Feixe de lenha.

Ele escolheu suportes que por si mesmo já carregam muitos significados. Como as cascas de pedra – da peça Multidão, por exemplo – um material habitualmente empregado para revestir o chão nas ruas e que guardam marcas e memórias a partir das pegadas dos transeuntes. A exposição contou com a curadoria de Lys Valentim.

Expressões da religiosidade na Mostra Flutuante de Artes Visuais. Foto: Andre Amorim

Peças com Inspiração nos bichos na Mostra Flutuante de Artes Visuais. Foto: Andre Amorim

Carranca é símbolo da cidade. Foto: Andre Amorim / Divulgação

Pequenas esculturas na Mostra Flutuante. Foto: Andre Amorim / Divulgação

A relação entre arte contemporânea e Natureza são pulsações comuns às obras participantes da exposição coletiva Rio adentro: influências do imaginário ribeirinho. Composta por trabalhos de artistas que moram no Sertão São Francisco, a mostra circulou em um barco por ilhas e comunidades ribeirinhas próximas à cidade de Petrolina, em Pernambuco, durante a realização da Aldeia do Velho Chico. Os posicionamentos decoloniais também marcam a criação das peças no que se refere às classificações entre artesanato e arte no sistema da arte.

O recorte destaca a produção de artistas/artesãos das cidades de Petrolina/PE e Juazeiro/BA. Experiências, religiosidades, atitudes diante da vida, utopias constituem os trabalhos. Da Paz revela histórias em colchas de retalhos coloridos.  Fredson Adjar participa com sua instalação eólica formada por peixes e carranca alada e Mestre Lisboa promove uma releitura da carranca; também estão presentes as esculturas em textura de papel machê Angelita.

O imaginário ribeirinho rende a cerâmica de Celinha Barros; a garça do mestre Joseilson Barbosa; a cobra da artesã Naide Liberato. A religiosidade é expressa nas criações do artesão Sandro na escultura de Nossa Senhora Aparecida ou no São Francisco do mestre Biu dos Anjos; ou ainda na Nossa Senhora da Rapadura e seus penitentes de Dona Alda e a cerâmica branca de outra versão de São Francisco de Dona Lucia Rego.

Com curadoria de Carina Lacerda e Victor Brandão, essa exposição embalada pelas suaves ondas do rio propõe experiências poéticas singulares. As escolhas dessas obras estão pautadas do diálogo entre a criação artística e o posicionamento político no mundo contra as discriminações de raça, gênero e classe numa perspectiva da construção de um mundo mais igualitário.

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Histórias que vêm do lixo
Chorume
#Dossiê Aldeia do Velho Chico 2022
# 7

Chorume Doc – Foto André Amorim / Diulgação

Chorume Doc – Foto André Amorim

Chorume Doc – Foto André Amorim

Chorume Doc – Foto André Amorim

 

Chorume Doc – Foto André Amorim

Chorume, da Companhia Ortaet, de Iguatu, é um espetáculo de teatro documentário que investiga as relações e repercussões na/da vida a partir do lixão a céu aberto daquela cidade no interior do Ceará. A força propulsora do trabalho está calcada nos relatos de experiência /depoimentos das catadoras do bairro Chapadinha.

Alguns documentos encontrados no local são disparadores dessa encenação de teatro documentário. O projeto de montagem foi composto por Cleilson Queiroz e José Filho, contemplado no laboratório de teatro do Porto Iracema das Artes 2020, com tutoria de Marcelo Soler. O trabalho também foi agraciado com o edital de criação artística Arte Livre – Secult Ceará, por meio da lei Aldir Blanc 2020.

É preciso pensar o local que inspirou a peça antes de analisar a cena. O lixão está situado às margens da CE 282, no bairro Chapadinha, um dos mais pobres de Iguatu e desprovido de políticas públicas eficazes.

Um lixão a céu aberto é uma prova irrefutável da incompetência e do descaso do Estado em qualquer cidade brasileira, poderia dizer do mundo, mas vamos ficar no território nacional. Iguatu do Ceará não tem aterro sanitário adequado. É desse terreno inóspito, o lixão, que alguns cidadãos iguatuenses garantem sua sobrevivência precária.

O Chorume do título é definido como um líquido que se constitui do acúmulo de lixo e se infiltra na terra. Esse fluido infectante de cor escura que escorre do lixão produz odor nauseabundo, é proveniente de uma série de processos químicos, biológicos e físicos de decomposição. Sua ação polui os mananciais, a terra e o ar.

O Lixão de Iguatu, seu odor e sua fumaça não estão nas pautas de debates públicos, apesar da gravidade da situação e ameaça para a saúde coletiva da cidade, principalmente dos catadores do lixo do local.

Chorume Doc – Foto André Amorim

Chorume Doc – Foto André Amorim

A Companhia Ortaet expõe cenicamente alguns aspectos do impacto da cultura consumista no Planeta Terra, nos agravamentos na economia, esfacelamento da vida social, os entraves da política e sem dúvidas, comprometimentos na cultura. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925 – 2017) escreveu muito sobre a “liquefação” da sociedade contemporânea. Em Vida para Consumo (2008), por exemplo, Bauman expõe o processo da conversão de pessoas em mercadorias.

Como elucida o sociólogo polonês, o que a sociedade consumista busca não é satisfazer necessidades, mas estabelecer relações de poder a partir do ato de consumir. Excesso, desperdício e a produção de lixo estão associadas a isso.

A peça traça metáforas dos riscos associados ao consumismo e ao descarte. E realça a alienação.

Na cena estão Aldenir Martins, Betânia Lopes, Carla Moraes, Cleilson Queiroz e Ronald Carvalho. As atrizes e os atores começam vestidos do que chamam de figurinos burgueses. Mas o material das roupas, dos ternos, dos vestidos, dos adereços e até das luvas não é da melhor qualidade. Isso cria uma boa dobra da imitação da burguesia, eles mesmos não sendo, já chega como uma crítica ao universo do consumo em alguma camada, pois mira uma certa elite local sem nenhuma empatia com o mundo além de si e que se alimenta de uma filosofia barata e que fabrica muito descarte.

Os burgueses da peça brindam, se comportam como se estivessem em uma festa. Uns falam ao microfone, enaltecendo seus papeis de exploradores. Uma delas apresenta a boneca Barbie. O jogo do elenco expõe as estruturas de dominação, os mecanismos de poder dentro do próprio grupo.

Os poderosos lavam as mãos na cena. O poder está normalmente nas mãos dos homens brancos. As mulheres pobres e oprimidas pelo sistema, no desenvolvimento do quadro, ficam com a tarefa de servir, em algum momento. Enquanto a madame de classe média assume uma compulsão consumista, o corpo da mulher das classes mais modestas sofre da objetificação e é tratado como descartável, como muitos objetos no sistema capitalista. A montagem reforça o caráter de humilhação nesse desequilíbrio na ocupação dos espaços. A mulher limpa o chão e isso é uma ação concreta.  

A peça avança e os atores entregam folhetos de publicidade ao público. Compre, exigem os folhetos lançados para convencer qualquer um cair nas malhas do consumo.

E a peça faz um giro com os dois rapazes da encenação se livrando de suas roupas burguesas. De sungas vermelhas, eles protagonizam um jogo libidinoso. Uma das mulheres, também já com as roupas de baixo, aciona uma máquina de fumaça ou de matar mosquito, remetendo ao vapor das queimadas do lixão.

Algumas cenas ou microcenas devem ter uma lógica interna própria para mover a peça, mas não projeta tanto para fora quadro, para além de seus criadores. Parece alguma senha de difícil acesso. Essas representações proporcionam pouco acesso ao núcleo duro da obra e parecem ilustrar alguma coisa, mas já como algo sobrando do circuito. 

Quando passam a narrar os relatos de vida dos moradores da região do lixão, os atores exibem retratos das catadoras e catadores de materiais recicláveis. Apresentam os documentos dessa realidade. Instala-se ou amplia-se o “pacto documental” com o espectador.

O lixão funciona, nesse caso, como arquivo a céu aberto, onde são descobertos materiais que guardam histórias, e dos seus resíduos são criadas narrativas. Com alguns desses objetos, a peça discute o descarte.

A boneca, com a cabeça arrancada, nas mãos do ator, cumpre a função de documento. Encontrada no lixão, ela carrega e projeta os processos de violência contra a mulher, que são debatidos no espetáculo Chorume.

O cruzamento das vivências das gentes que moram no bairro e trabalham no lixão com as experiências dos artistas do elenco amplia a humanização das narrativas e situa o corpo da cidade de Iguatu. Esses procedimentos envolvem a plateia com as conversas ao pé de ouvido, a exibição das fotos e a confidência de peculiaridades das personagens e materiais que simbolizam sonhos/realizações, como o vestido de noiva.

A Companhia Ortaet de teatro é um dos grupos mais antigos do interior do Estado do Ceará e desde 1999 vitaliza cenicamente a cidade de Iguatu. Em 2014, foi reconhecida como “Entidade de Utilidade Pública” pela Prefeitura Municipal e Câmara de Vereadores de Iguatu. Desde sua fundação já encenou mais de 15 espetáculos.

Enquanto teatro documental, a peça Chorume tem ambição de retribuir ao pessoal ligado ao lixão a gentileza de compartilhar as vivências. E interferir na transformação daquela realidade. Como o posicionamento crítico do espetáculo, o grupo lança sinalizações de saídas a partir do teatro.

Com direção, dramaturgia e tutoria de Marcelo Soler e assistência de direção de José Filho a montagem faz escolas estéticas do teatro documentário e do teatro épico. As armações apresentam os documentos e um pouco do processo criativo. As saliências políticas e o humor corrosivo funcionam bem para acionar o pensamento crítico.

Chorume se permite a compor vários fragmentos do documentário e da narrativa fabular do consumo. Uma série de cenas são encadeadas para tratar da exploração, da miséria, perpassadas pela desigualdade histórica, reforçadas no período neofascismo bolsonarista.

Alguns ajustes nas passagens, nas conexões de cena podem potencializar esse Chorume já tão perspicaz da crítica social, na afirmação de sua territorialidade, na conexão com seu entorno, no desejo de humanização das teias sociais, na chamada para a reflexão da realidade.  

Há pensamento crítico e inventiva composição estética na cena fora dos grandes centros. Talvez seja importante reforçar isso. Que compõe e recompõe imagens desumanizadoras na perspectiva de libertar o imaginário.  

 

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Ledores no breu
Crítica
Dossiê Aldeia do Velho Chico 2022
#5

Ledores no Breu foi apresentado no Teatro Dona Amélia. Foto André Amorim / Divulgação

Participação do público em Ledores no Breu. Foto André Amorim / Divulgação

Dinho Lima Flor é um ator intenso, visceral. Sua atuação é marcada pela entrega, pela emoção e pela sintonia fina com a plateia. Rebento do teatro Ventoforte, do saudoso Ilo Krugli, ele se doa apaixonante enquanto intérprete. Sua Cia. do Tijolo foi tramada na convivência com Krugli. Essa trupe faz teatro contemporâneo alimentado pela seiva da cultura popular. Da melhor mistura de ethos e pathos, que conjuga o epos e a lírica, a depender do contexto.

Já no início a trupe paulistana seguiu os passos de Patativa do Assaré nos repentes, na poesia, na vida do artista cearense para erguer o belo trabalho Concerto de Ispinho e Fulô.

Além do lirismo, Cantata para um Bastidor de Utopias está carregada da porção política de libertação. Para falar dos anônimos em busca por justiça, a peça junta três eixos históricos: o enforcamento – em 1831 – de Mariana Pineda, jovem heroína que desafiou o autoritarismo do Rei Fernando VII bordando uma bandeira para os liberais; o assassinato de Federico García Lorca em 1936, durante a Guerra Civil Espanhola; e a ditadura militar brasileira (1964-1985) e suas repercussões.

Com O Avesso do Claustro o grupo leva ao palco a trajetória de Dom Helder Camara (1909-1999), o Bispo Vermelho, “emblemática personagem nas históricas lutas de resistência política durante o regime militar e na aproximação da igreja católica com as demandas dos movimentos sociais”, como dizem os artistas do Tijolo, numa montagem que junta simbioticamente poesia, música e teatro.

Dinho Lima Flor em Ledores no Breu. Foto: André Amorim

Ledores no Breu participou da Aldeia do Velho Chico 2022. Foto: André Amorim / Divulgação

Ledores no Breu. Foto André Amorim /  Divulgação

Em Ledores no Breu – solo do pernambucano de Tacaimbó Dinho Lima Flor, sob direção de Rodrigo Mercadante – é o corpo do ator que conduz a plateia pela escuridão dos que não leem, uma espécie de cegueira para interpretar o mundo letrado e os feixes de luz que podem chegar com a alfabetização.

Paulo Freire, Patativa do Assaré, Frei Betto, Lêdo Ivo (com Os pobres na estação), Guimarães Rosa, Luis Fernando Veríssimo, Zé da Luz e mais recentemente Maria Valéria Rezende são convocades para a rede. E mais, sons e músicas de Cartola, Jackson do Pandeiro, Chico César, Manu Chao, Palavras, de Gonzaguinha e Samba da utopia, de Jonathan Silva (criado especialmente para a peça).

Canções, relatos, causos, episódios compõem essa teia dramatúrgica de descobertas emocionadas das letras – caso de Joaquim que compõe a primeira palavra, o nome da sua amada Nina, contada por Paulo Freire de sua experiência em sala de aula. E o lance da menina proibida pelo pai de estudar por ser mulher, que enfrenta a implacável ordem paterna e decide aprender a ler com a ajuda de uma amiga, com graveto na areia em vez de lápis e papel.

Ou a narrativa de Patativa do Assaré que diz que largou de ser “matador de passarinho”, que fazia por diversão como outros meninos da sua idade, e seguiu a imitar os cantos desses animais voadores.  

Como uma atuação ardente, Dinho Lima Flor passeia por vários estilos interpretativos, transita pela comicidade popular, vai ao exagero, testa a sutileza, comenta temas atuais, se avizinha do trágico. Muito habilmente cria seu jogo na relação com a plateia, assume a performance, convoca personagens, finge que encarna e sai. Cobra pelos índices de analfabetismo no Brasil em pleno século 21.

É uma exuberância de muitos teatros. Cumplicidade íntima com o público magnetizado na troca de afetos, danças e abraços carinhosos, materiais e simbólicos. Com a prosa/verso e o corpo desse ator, a palavra encanta.

O figurino branco vai sendo enodoado de carvão no decorrer da cena, o mesmo carvão que serve para escrever e provocar reações sensoriais. Carteiras escolares fazem parte da composição.  Rolos grandes de papel pardo são desenrolados para formar estradas e suportes para a escrita. A direção de Rodrigo Mercadante estimula ritmos, andamentos, revolucionando emoções do ator e agitando as sensibilidades do público.

Mulheres portam faixam com expressões como “Mais escolas e menos cadeias”, em um vídeo de manifestações.  Sabemos que o analfabetismo, o não letramento, é uma estratégia de subjugação dos governos não democráticos. Isso é um problema, diria até um crime, um confisco de direitos dos mais pobres – causa e consequência da falta de oportunidades; uma política de opressão, manutenção de privilégios muitas vezes associada a desvios de recursos.

Na Aldeia do Velho Chico, realizado em Petrolina no mês de agosto, no palco do Teatro Dona Amélia, do Sesc, com os espectadores também no tablado, magnetizados, a sessão não utilizou os recursos dos vídeos, mas eles fazem parte da obra.  

A palavra escrita com carvão em Ledores do Breu. Foto: André Amorim

Ledores no Breu – Foto André Amorim

Marcas de tirania – O iletrado

Deixei para analisar por derradeiro o eixo da peça que tem por texto Confissão de Caboclo, do poeta Zé da Luz.

Já escrevi outra crítica Ledores no Breu e segui o caminho da grandeza de Paulo Freire e da interpretação de Dinho Lima Flor, como faço até aqui. Mas tinha algo que me incomodava no espetáculo, que dessa vez ficou evidente.

Por não saber ler, um homem comete um crime contra sua companheira. Desde que foi publicado, o poema Confissão de Caboclo, de Zé da Luz, é reiteradamente lido / interpretado dessa forma. A ignorância aparece como a causadora da morte.

Mais além do analfabetismo que é apontado com o grande mal a ser combatido, o poema de Zé da Luz – um dos pilares do espetáculo – precisa de uma atualização crítica dentro da encenação.

A ignorância de uma determinada regra não é suficiente para inocentar quem a viola. As mulheres historicamente sofreram / sofrem opressões e violências de várias naturezas, em várias gradações.

É absolutamente insustentável que a cruel, odiosa e desumana tese de legítima defesa da honra tenha sido usada durante tanto tempo para proteger os homens acusados/autores de feminicídio. Foi sim usada como argumento por advogados que desdenharam os princípios da dignidade humana, da proteção à vida, da igualdade de gênero (que infelizmente ainda não existe em sua plenitude).

Muitos homens foram absorvidos com esse escudo após matar uma mulher, sob alegação do término ou traição em uma vinculação afetiva.

O poeta Severino de Andrade Silva, mais conhecido como Zé da Luz (1904 – 1965) foi um poeta popular paraibano, que publicava em forma de cordel. Escreveu entre outros Brasi Cabôco, A Cacimba, As Flô de Puxinanã, A Terra Caiu no Chão, Ai! Se Sêsse!…, Sertão em carne e osso.

Confissão de Caboclo encerra com a expressão “que crime não saber ler”, depois que o narrador descobre que Rosa Maria não o traiu, motivo que ele explica ao delegado de ter tirado a vida da mulher que ele diz que amava.

Alguns estudiosos apontam que o poema trata do analfabetismo como um crime social. É preciso mudar essa lente de leitura. Existe um crime de feminicídio. E o não letramento da personagem que mata não pode ser atenuante para o assassinato. Mulher não é objeto que pode ser descartada / assassinada quando não corresponde às expectativas.

No espetáculo Ledores no Breu o narrador confessa que matou Rosa Maria por suspeita que ela o traía com Chico Faria, seu antigo noivo. Não existe prova da traição. Apenas uma carta que o personagem-narrador não sabe decifrar. Por trás dessa carta é urdida a defesa dessa figura.

A personagem de Zé da Luz é apresentada como um homem bom, trabalhador e apaixonado por sua esposa.  

A questão que se apresenta é que o ator defende sua personagem como um homem que, que guiado por fortes emoções (“Cego de raiva e paixão”), assassina a mulher do poema com um facão. E isso é feito em camadas de envolvimento emocional com a plateia. Sua personagem é defendida com garra, recebendo os componentes mais humanizados, o que faz com que o feminicídio da ficção se torne um ato naturalizado dentro do contexto exposto.

Um feminicídio é um feminicídio. Falta essa dobra dentro do espetáculo. Pois todo o abraçamento em favor do autor da ação é narrado pelo ponto de vista do assassino. O espetáculo é composto de fragmentos e esse episódio da Confissão de caboclo está está dividido em dois momentos, entrecortados por outras situações e músicas.

Ledores no Breu é uma peça que estreou em 2014. Muitos avanços na esteira dos direitos da mulher ocorreram. E fica difícil receber o caboclo narrador apenas com o sofrimento que ele passa, sem fazer um giro de perspectiva desse pathos para a Rosa Maria assassinada. Algo de epos para problematizar a cena ou algum outro procedimento.

A cumplicidade amorosa, o envolvimento na peça não pode suplantar o fato de que uma mulher foi assassinada. Não existem motivos para uma mulher ser morta. E isso não está lá. A personagem marido não pode receber a indulgência da plateia enquanto o olhar para a mulher é de que essas coisas acontecem.

Então, creio que Ledores no Breu precisa de uma pequena revisão para honrar o que o grupo representa no cenário teatral e saudar os valores que são defendidos em seus espetáculos. O patriarcado continua ainda hoje, século 21, a naturalizar assassinatos de mulheres (cis e trans) feitos por homens rejeitados e desequilibrados, que encontram pretextos reais ou imaginários para suas terríveis atitudes. Mas não dá para deixar que arte comprometida com o humanismo faça romantização de um assassinato.

Não sei como isso poderá ser executado em cena. É contigo Mercadante. É contigo Lima Flor. É contigo Cia. do Tijolo. Romper com o que Paulo Freire chamou de “cultura do silêncio” e transformar os analfabetos em protagonistas de suas histórias é também expor a responsabilidade do relacionamento com o mundo ao redor.

 

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Petrolina dança
a partir dos espetáculos
Onde Ele Anda é Outro Céu
e Rio de Contas
Dossiê Aldeia do Velho Chico 2022
#4

André Vitor Brandão em Onde Ele Anda é Outro Céu. Foto: Thierri Oliveira / Divulgação

Rio de Contas. Foto Fernando Pereira / Divulgação

Os espetáculos de dança são mais porosos que os de teatro na leitura, na recepção. Fornecem indícios e “obrigam” a espectadora/o espectador a se empenharem mais na percepção; agitar o sensorial, ativar a cognição. As reflexões, ideias, emoções são transformadas em movimentos, gestos, deslocamentos no espaço. As coreografias se abrem a muitas possibilidades de fruição e a dramaturgia se enlaça subjetiva ao ser da plateia (corpo/mente/espírito e mais) provocada pela cena. Aciona coisas indescritíveis.

A dança contemporânea gosta de jogar com o enigmático. Lança projeções, recupera resíduos. Pode sugerir temática, mas com tantas entradas (e saídas) prossegue desafiante.

Onde Ele Anda É Outro Céu, primeiro solo de André Vitor Brandão desliza no terreno da crise existencial do ser humano, um painel bastante amplo. Outra pista do espetáculo que estreou em 2016, em Petrolina, no Sertão de Pernambuco: A peça coreográfica tem por inspiração o conto O Homem Cadente, do livro Fio das Miçangas, do escritor moçambicano Mia Couto.

Nesse conto, a personagem de Mia Couto – Zuzé Neto, José Antunes Marques Neto, “em artes de aero-anjo” –  contraria as leis físicas. O homem Cadente trabalha com fronteiras entre sonho e realidade. O narrador-personagem observa o homem que cai, “pairando como águia real”, numa recriação linguística, traçando metáforas do cotidiano.

O espetáculo suscita muitas perguntas sobre os estados das gentes na contemporaneidade. Por que as pessoas caem? Aos montes? Em muitos aspectos? E nem percebemos? Isso na fricção de limites entre real e ficcional.

O solo complexifica mais quando chama o artista surrealista belga René Magritte (1898-1967) para a dança. A peça coreográfica traz referências das obras Golconda (aquela da chuva de estranhos homens, que caem do céu) O Filho do Homem (um autorretrato, com o indivíduo de sobretudo e chapéu coco, com o rosto em grande parte escondido por uma maçã verde suspensa no ar). Além da icônica A Traição das Imagens, que carrega a frase “Ceci n’est pas une pipe” (“Isso não é um cachimbo”), para lembrar que a pintura de um objeto é uma pintura e não o objeto real em si. Isso já é de uma grandeza…

E estão na dança do André. Nas imagens, nos símbolos, nos signos. Na quebra do jogo de representação do real, ele explode a potência do corpo; um corpo insubordinado – lembrando dos disciplinamentos citados por Foucault.

Fico pensando se fosse usada na montagem mais tecnologia de ponta que existe para o teatro, como outras soluções de flutuação ainda mais ilusionista, e utilização de técnicas vorazes de luz e fumaça. Como o espetáculo é de 2016 e muita tecnologia avançou, quem sabe?!!! Sei, sei… que esses expedientes custam caro e para o teatro não chega verba com facilidade, mas foi uma ideia; quem sabe?! Foi exercício de imaginação na esteira do que o próprio espetáculo diz, de que tudo é possível.

Projeto A Escola vai ao Sesc, durante apresentação de espetáculos na Aldeia do Velho Chico

Outras vozes se juntaram a André Brandão na composição desse solo. Para poetizar no corpo do bailarino essa figura que sonha e que segue outra lógica entraram na ciranda Jailson Lima na direção artística; Renata Camargo na direção de movimento; Renata Pimentel na dramaturgia; Orlando Dantas na criação do figurino; Fernando Pereira no designer de luz; Eugênio Cruz na trilha sonora original e Eugênio Junior na assessoria sobre técnicas de rapel.

A produção é da Qualquer um dos 2 Companhia de Dança, que e recebeu o incentivo do Governo do Estado de Pernambuco, através do edital Funcultura 2013/2014, para essa  montagem.

Assisti à peça numa sessão do projeto A Escola vai ao Sesc, uma das ações da Aldeia do Velho Chico. Mais uma constatação, dentre tantas outras, de como a arte é essencial e como faz uma diferença profunda na vida dos futuros cidadãos. Mais sensibilidade na lida com o mundo (como precisamos disso nesses tempos de intolerância de toda ordem), formação de sujeitos mais críticos.

Onde Ele Anda é Outro Céu. Foto Thierri Oliveira Divulgação

Quando questiona o real, Onde Ele Anda É Outro Céu propõe experiências diferentes, promove surpresa e impacto nos movimentos, gestos, sugestões, desenhos coreográficos. Nos conduz por caminhos do irreal, desperta emoção ao aproximar do fantástico, ao jogar com os paradoxos visuais, ao empurrar o controle da razão humana para fora do teatro em alguns momentos da peça.

O ator/bailarino desenha no palco um espaço-tempo em que tudo é possível. E vai alargando o campo desse encontro com a plateia. Solta indícios das sementes da criação artística. Nesse esquema onírico, a personagem segue outra lógica.

Brandão e seus artistas-cúmplices exploram o espaço da ficção, onde não existe um compromisso estreito com a realidade. Outras inspirações para o espetáculo chegaram com os colaboradores para serem plasmadas no corpo do bailarino: da trupe de comédia surreal britânica Monty Python, do genial Bach (amo!!!!), de Stela do Patrocínio (poeta psiquiatrizada), de Estamira – poesia encarnada, que protagonizou o documentário, que leva seu nome e morou por um tempo no aterro sanitário de Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro – entre outros.

A obra artística aposta com força na capacidade transformadora do sonho. E então compõe imagens sugeridas pelas obras inspiradoras, de pássaros, dos movimentos dos bichos e de e invenções criativas conjugadas, da profusão de referências dos artistas envolvidos no processo. A expressão de simplicidade e lirismo, trabalhadas em muitas camadas de estudos alusões e treinamentos.

Enquanto intérprete-criador, André fricciona a natureza dos sonhos numa investigação que expõe a dança como linguagem que provoca reflexões, traça leituras do mundo, investe com força na sensibilidade e subjetividade.

Salve o espaço utópico, alimento das transgressões humanas. A poética ganhou outras estratégias de voos, de travessias, avisando que mesmo com quedas há ludicidade e encantamento. Como sugere o conto do escritor africano, deixemos Zuzé, o homem cadente, voar.

Rio de Contas

Rio de Contas. Foto: Fernando Pereira / Divulgação

O diretor Jailson Lima entende a dança como expressão e práxis emancipadora. Não por acaso, a dança é de todas as artes a que mais avança em Petrolina, essa cidade pernambucana orgulhosa de si, encravada na região semiárida nordestina. Isso norteia para uma cultura que assume onde estão fincados os pés e no esperançar freiriano; da autonomia dos sujeitos e ao mesmo tempo no caráter de comunhão do coletivo. São coisas fáceis de dizer e difíceis de executar. Jailson encara.

Envolvido na Cia de Dança do Sesc Petrolina desde sua criação, em 1995, ele se juntou aos seus escolhidos por afinidade para se lançarem ao exercício conjunto da constante libertação. A montagem de Rio de Contas é uma projeção disso tudo.

Inspirado num conto também do escritor moçambicano Mia Couto, chamado Nas Águas do Tempo, do livro Estórias abensonhadas, o espetáculo Rio de Contas brotou em 2014 e é atravessado pela metáfora “a água e o tempo são irmãos gêmeos nascidos do mesmo ventre”.

Com 18 intérpretes (com margem de 2 para mais ou para menos), trilha sonora assinada por Sônia Guimarães, cenários do artista visual Antonio Carlos Coelho de Assis “Coelhão”, Rio de Contas articula uma teia dançante ancestral a partir do São Francisco, que alimenta corpos e imaginários.

Rio de Contas. Foto: Fernando Pereira / Divulgação

Rio de Contas. Foto: Fernando Pereira / Divulgação

A peça coreográfica vibra na sensibilidade delicada. A trilha sonora de Soninha Guimarães traça a grande dramaturgia do espetáculo acalentando, inspirando, promovendo movimentos, instigando, incentivando, lembrando que a vida tem dessas ondas e nós, projetando o futuro sem esquecer daqueles que vieram antes, que estão impregnados no presente.

A criação coreográfica, assinada por Jailson, valoriza os corpos dos dançantes envolvidos, potencializando a estrutura física de cada artista e respeitando suas limitações, ampliando suas capacidades de movimento, de gestual, erguendo uma corporeidade coletiva forte.

É arte contemporânea inspirada na tradição da oralidade, nos passos ancestrais das danças desse território – como o Samba de Veio. Estão impregnados nesses corpos resistentes, de predominância negra e indígena o traçado histórico das pontes erguidas, da dor de viver, do combate à violência, sem perder a alegria.

Os artistas dessa terra questionam na própria carne a linguagem da dança, do para quem dançar e como alargar essa troca.

Na busca do protagonismo da própria história, os artistas da peça Rio de Contas trabalham para derreter o colonialismo dentro das estruturas.

No espetáculo a vida é afinada pelo São Francisco que trafega, escoa. Os corpos cumprem suas funções vitais, entram em conflito, convivem, se desencontram. Entre afetos e atritos, as águas correm. Os tons dessa coreografia são suaves, há liberdade de movimentos que se expandem para proferir a rima da dança.

As práticas artísticas e formativas do grupo junto aos intérpretes/ criadores permitem que os integrantes e seu público ampliem as possibilidades de atuar no mundo. Isso é desempenho político, cidadão, de intervenção estética dentro da ética. É micropolítica trançando revoluções.

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