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Cartografia cênicas:
o teatro desses dias de setembro no Recife

-Gregório Duvivier em O céu da língua. Foto Priscila Prade / Divulgação 

Numa cidade como o Recife, que transborda manifestações culturais diariamente, nossa curadoria teatral seleciona espetáculos que merecem atenção de público implicado, apaixonado. O teatro, como linguagem que nos interessa prioritariamente, divide espaço com propostas cênicas híbridas e performances que expandem fronteiras artísticas, compondo um mosaico que vai do experimental franco-pernambucano às grandes produções nacionais que escolhem Recife como praça. Nessas sugestões também incluímos a estreia da Flup.PE (Festa Literária das Periferias) e dois shows musicais autorais – Ivyson e Pedra Letícia – que dialogam com nossos interesses.

Nosso recorte aponta a oferta de montagens na cidade que problematizam questões contemporâneas através de linguagens cênicas variadas, biografias artísticas que se transformam em dramaturgia e propostas que interrogam o próprio fazer teatral. São nossas apostas temporárias entre locais e circulação nacional, destacamos trabalhos que dialogam com urgências do presente e que buscam alguma complexidade formal.

Banquete de Amor e Falta, da (Acupe Grupo de Dança, integra programação do CumpliCidades

Operando como laboratório de questões identitárias contemporâneas, o festival Cena CumpliCidades reúne três coreografias internacionais que funcionam como tríptico sobre pertencimento cultural. Com 30 minutos de duração, Chenn com Yoghan “Hope” Tacita e Francis “Madak” Saint-Albin, articula hip-hop, break e krump como arqueologia do trauma colonial, enquanto Frida Kahlo – A Coluna Quebrada, solo de Jussandra Sobreira, investiga em 10 minutos a transcendência artística através da dor física. Completando o trio, Mes Horizons. com Shaona Legrande, propõe reflexão intimista de 15 minutos sobre identidade cultural – produção Touka Danses CDCN Guiana Francesa que dialoga diretamente com processos de descolonização cênica.

Dentro da programação local do CumpliCidades, a performance Se Eu Fosse Malcolm não se constitui como biografia, mas como diálogo crítico com o legado de Malcolm X através de teatro épico narrativo que amalgama música identitária e abordagem decolonial. I

nspirado em estudos lacanianos sobre topologia amorosa, Banquete de Amor e Falta (Acupe Grupo de Dança) traduz pesquisas do Sistema Laban em movimentação cênica que explora figuras topológicas na perspectiva do amor, mergulhando na poesia como alicerce para linguagem corporal.

A partir do romance de Rachel de Queiroz, Mouras utiliza o universo de Maria Moura como pretexto para investigação coreográfica sobre resistência feminina nordestina, transformando o palco em território vivo de luta e memória. A investigação sobre identidade prossegue em Se eu fosse eu, onde Luna Padilha convida o público a refletir sobre autopercepção através da dança, explorando a tensão entre o “eu real” e o “eu persona” num encontro com os múltiplos EUS que habitam cada corpo.

Contando Histórias é apresentado pela ONG INTEGRARTE, que favorece o desenvolvimento de pessoas com déficit de inteligência através da arte. O espetáculo nasceu do contexto da pandemia, criando trama onde artistas isolados em suas casas encontram, nos sonhos, a possibilidade de se reunir novamente. Entre abraços e reencontros imaginados, cada um compartilha sua vivência durante a Covid-19, transformando saudade, dor e resistência em poesia cênica com leveza, emoção e sensibilidade que reafirma o poder da arte como memória, encontro e cura coletiva.

Já Balancê Antropofágico propõe inversão simbólica onde ancestralidade nordestina “devora” modernidade europeia – projeto de YLA (19 anos de vivência francesa) com guitarrista Jeff Manuel que opera como manifesto sonoro anticolonial.

Ocupação Espaço O Poste aposta na arte continuada e formação. Na foto Helô em Busca do Baobá Sagrado

Fomentado pelo Programa FUNARTE de Apoio A Ações Continuadas 2023, a Ocupação Espaço O Poste desenvolve programação que democratiza acesso às artes cênicas através de propostas experimentais e pedagógicas. Helô em Busca do Baobá Sagrado exemplifica essa abordagem ao apresentar ensaio aberto que convida crianças e responsáveis a contribuir com olhares sobre obra em processo, transformando a menina Helô numa heroína que parte em missão para encontrar o Fruto Sagrado do Baobá e curar seu povo da tristeza ocasionada pelo racismo.

A proposta de Agrinez Melo reúne personagens encantados como Pé de Jaca, Dr. Sapão, Anahí, Corujita e Comadre Fulorzinha numa aventura que confronta Seu Quadrado e sua visão cinza do mundo, operando simultaneamente como arte e ferramenta de transformação social. O projeto Ocupação exemplifica políticas de fomento continuado que garantem pesquisa, experimentação e formação em espaços artísticos independentes, consolidando circuitos alternativos de produção na cidade.

Enquanto você voava, eu criava raízes, da Cia. Dos à Deux. Foto: Divulgação

Precedido de 60 mil espectadores e críticas que destacam sofisticação dramatúrgica, O Céu da Língua chega com Gregório Duvivier – formado em Letras, autor de três livros de poesia – utilizando stand-up como dispositivo para reflexão metalinguística sobre língua portuguesa. Sob direção de Luciana Paes (Cia. Hiato), o espetáculo opera entre comédia e ensaio, propondo “escuta afetuosa” da linguagem cotidiana.

Representando 25 anos de pesquisa franco-brasileira, Enquanto você voava, eu criava raízes (Cia. Dos à Deux) consolida linguagem de André Curti e Artur Luanda Ribeiro que prescinde da palavra para investigar corporalidades em trânsito. Premiado por APTR e Shell, o trabalho exemplifica teatro físico contemporâneo que dialoga com tradições europeias sem perder especificidade brasileira.

Memória e Biografia como Dramaturgia

Mel Lisboa como Rita Lee

Através da figura de Renato Prietto – ator consagrado da dramaturgia kardecista nacional – Chico Xavier em pessoa propõe “sabatina” com o médium que psicografou mais de 400 livros. Dirigido por Rogério Faria Jr., o formato transmídia questiona fronteiras entre encenação e documento, transformando figura histórica em personagem teatral através de dramaturgia de Rodrigo Fonseca.

Marcando retorno de Mel Lisboa ao papel que a consagrou, Rita Lee Autobiografia Musical desta vez se baseia na autobiografia da cantora (bestseller com 200 mil exemplares). Sob direção de Márcio Macena e Débora Dubois, a montagem transforma confissão editorial em partitura cênica, explorando “honestidade escancarada” como material dramatúrgico.

Produções Pernambucanas em Destaque

Aurora entre vias e vida. Foto Max Levay

Inaugurando dramaturgia autoral do Centro de Artes Grupo Vida (45 anos, Rita Vieira), Aurora entre Vias e Vidas transforma toponímia recifense – Rua do Sol, Rua da Aurora – em alegoria urbana. Com direção cênica de Analice Croccia, o espetáculo reúne 60 bailarinos em proposição multigeracional que inclui intervenção de arte urbana (Teo Armando) e trilha com artistas pernambucanos, celebrando a cidade através de dança multimídia que combina jazz, sapateado, contemporâneo e danças urbanas.

Idealizado por Babi Johari em coautoria com Caio Pinheiro, Híbridos – Enlaces explora ancestralidade das conexões através de dança fusionada de base oriental árabe. A proposta gratuita no Teatro Arraial transborda inquietações através de impressões próprias sobre liberdade, movimento e som, caracterizando-se por elementos diferentes que compõem este gênero de dança híbrida.

Vencedor de Melhor Espetáculo no festival Janeiro de Grandes Espetáculos 2023, Pedras, Flor e Espinho – O Musical mergulha na cultura nordestina através da história de uma família sertaneja em fuga após emboscada que muda seus destinos. A produção traz emoção, poesia e trilha sonora autoral, transformando jornada árida em narrativa sobre violência e esperança do sertão.

As avós, com Olga Ferrario

Investigando ancestralidade feminina através de experimentação que conecta teatro e cinema, As Avós (Olga Ferrario) propõe “espiral em movimento” como metáfora para transmissão matrilinear de saberes. A montagem dialoga com tendências contemporâneas de autobiografia familiar como material cênico, convocando sentimentos, sensações e aprendizados sobre ciclos, nascimentos e mortes.

Teatro Imersivo e Novas Tecnologias
Representando adaptação brasileira de formato internacional, The Jury Experience (direção Talita Lima) transforma espectadores em jurados de caso criminal fictício. A proposta utiliza códigos QR e interatividade digital para questionar limites entre ficção e realidade, colocando decisões éticas nas mãos do público através de dramaturgia participativa de 75 minutos.

Sharlene Esse, primeira dama trans do Teatro Pernambucano participa de O Shá da Meia Noite

Destacando-se pela participação de Sharlene Esse, primeira dama trans do Teatro Pernambucano, O Shá da Meia Noite apresenta comédia vaudeville que problematiza disputas por estrelato. A presença de Sharlene representa avanço na representatividade trans nos palcos locais, consolidando carreira de mais de 40 anos que a transformou em referência LGBTQIA+ na cena pernambucana em trama de intrigas artísticas entre cantora veterana e coristas invejosos.

Música Autoral e Celebrações
Expandindo seu discurso amoroso em “Afinco“, seu novo disco, o cantor e compositor pernambucano Ivyson traz lirismo e sensibilidade raros no panorama nacional. Reconhecido pelo hit Girassol e pelo álbum O Outro Lado do Rio, o artista mistura raízes regionais com sonoridades contemporâneas numa proposta que vai do maracatu ao indie rock com letras profundamente sentimentais.

Comemorando 20 anos de trajetória no rock cômico brasileiro, Pedra Letícia chega sob comando de Fabiano Cambota para celebrar uma jornada que levou a banda goiana de bares regionais para programas de TV de grande audiência. A turnê comemorativa promete viagem pela trajetória do grupo, relembrando sucessos que incluem participação no Programa do Porchat como banda oficial e o viral Como que Ocê Pôde Abandoná Eu?.

Flup.PE, Literatura Periférica em Movimento

Estreando em Pernambuco com curadoria de Jaqueline Fraga (finalista Jabuti 2020) e coordenação de Tarciana Portella, a Festa Literária das Periferias reúne Itamar Vieira Junior, Marilene Felinto, Jesse de Souza, Carla Akotirene e muitas personalidades da literatura, das artes em geral e dos movimentos sociais, em homenagem a Solano Trindade. O evento opera como plataforma de democratização literária, expandindo circuitos tradicionais através de programação gratuita no Compaz Eduardo Campos.

 

PROGRAMAÇÃO SELECIONADA

📅 10-14 DE SETEMBRO

FLUP – Festa Literária das Periferias
📍 Compaz Governador Eduardo Campos, Alto de Santa Terezinha
🕐 Horários variados durante os 5 dias
🎫 GRATUITO | ♿ Com tradução em libras
Democratização literária através de saberes periféricos
📲 @flup.pe2025 | vempraflup.com.br/flup-pernambuco

📅 10 DE SETEMBRO 

Se Eu Fosse Malcolm
📍 Teatro Apolo | 🕐 19h
🎫 GRATUITO | 🎭 14 anos | ⏱️ 60min
Diálogo crítico com legado de Malcolm X via performance épica

Pedras, Flor e Espinho – O Musical
📍 Teatro Barreto Júnior | 🕐 19h30
🎫 R$ 40 ∣R$ 20  | 🎭 14 anos | ⏱️ 2h
Drama sertanejo premiado sobre família em fuga através do Nordeste

📅 10-21 DE SETEMBRO

Enquanto você voava, eu criava raízes – Cia. Dos à Deux (Temporada de 2 semanas)
📍 CAIXA Cultural Recife | 🕐 20h
🎫 R30(inteira)∣R 15 (meia) | 🎭 18 anos | ⏱️ 55min
25 anos de pesquisa franco-brasileira em teatro físico

📅 11 DE SETEMBRO 

Mouras
📍 Teatro Apolo | 🕐 18h
🎫 R20(inteira)∣R 10 (meia)
Resistência feminina sertaneja inspirada em Rachel de Queiroz

Chico Xavier em pessoa – Renato Prietto
📍 Teatro de Santa Isabel | 🕐 20h
🎫 R80(inteira)∣R 40 (meia/social)
Sabatina transmídia com médium que psicografou 400 livros

Três Coreografias Internacionais (Chenn/Frida Kahlo/Mes Horizons)
📍 Teatro Hermilo Borba Filho | 🕐 20h
🎫 GRATUITO | ⏱️ 55min total
Tríptico franco-guianense sobre trauma colonial e pertencimento

📅 12 DE SETEMBRO 

Se eu fosse eu – Luna Padilha
📍 Teatro Apolo | 🕐 19h
🎫 R$ 20 | 🎭 14 anos
Investigação coreográfica sobre múltiplos EUS que habitam cada corpo

O Céu da Língua – Gregório Duvivier
📍 Teatro do Parque | 🕐 20h
🎫 Plateia: R140(inteira)∣R 70 (meia) | Camarote: R120(inteira)∣R 60 (meia) | 🎭 12 anos | ⏱️ 85min
Metalinguagem cômica sobre língua portuguesa por poeta-comediante

Pedra Letícia – 20 Anos
📍 Teatro Luiz Mendonça | 🕐 21h
🎫 A partir de R$ 70
Duas décadas do rock cômico que conquistou o Brasil

📅 13 DE SETEMBRO 

Helô em Busca do Baobá Sagrado (Ensaio aberto – Ocupação Poste)
📍 Local a confirmar | 🕐 16h
🎫 GRATUITO (Sympla – sujeito à lotação)
Ensaio aberto infantil sobre aventura antirracista

O Céu da Língua – Gregório Duvivier (Sessão extra)
📍 Teatro do Parque | 🕐 17h
🎫 Plateia: R140(inteira)∣R 70 (meia) | ⏱️ 85min
Humor inteligente que transforma palavras em poesia

Contando Histórias – Grupo INTEGRARTE
📍 Teatro Apolo | 🕐 18h
🎫 R20(inteira)∣R 10 (meia) | 🎭 LIVRE
Teatro inclusivo sobre reencontros imaginados durante a pandemia

Banquete de Amor e Falta – Acupe Grupo de Dança
📍 Teatro Hermilo Borba Filho | 🕐 19h
🎫 R$ 20 | 🎭 16 anos
Figuras topológicas do amor em linguagem corporal poética

Aurora entre Vias e Vidas
📍 Teatro de Santa Isabel | 🕐 19h
🎫 A partir de R$ 60 | ⏱️ 1h30
Toponímia recifense transformada em alegoria urbana multigeracional

As Avós – Olga Ferrario
📍 Espaço Rede Moinho, Travessa Tiradentes, 148 | 🕐 19h
🎫 R$ 30 + taxa
Experimentação teatro-cinema sobre ancestralidade matrilinear

IVYSON
📍 Teatro Luiz Mendonça | 🕐 20h
🎫 R50aR 100
Lirismo pernambucano que conquistou o país com “Girassol”

📅 14 DE SETEMBRO 

Balancê Antropofágico – YLA e Jeff Manuel
Museu de Arte Sacra de Pernambuco, Olinda | 🕐 16h30
🎫 GRATUITO (50 vagas por ordem de chegada)
Manifesto sonoro anticolonial franco-pernambucano

Aurora entre Vias e Vidas
Teatro de Santa Isabel | 🕐 17h
🎫 A partir de R$ 60 | ⏱️ 1h30
Travessia sensível entre concreto e imaginário recifense

📅 18 DE SETEMBRO 

O Shá da Meia Noite
Teatro Fernando Santa Cruz | 🕐 19h30
🎫 GRATUITO (retirar pelo Sympla)
Vaudeville com Sharlene Esse, primeira dama trans do teatro pernambucano

Rita Lee Autobiografia Musical – Mel Lisboa
📍 Teatro Luiz Mendonça | 🕐 20h
🎫 A partir de R$ 110 + taxas
Bestseller editorial transformado em confissão cênica

📅 19 DE SETEMBRO 

Híbridos – Enlaces
📍 Teatro Arraial Ariano Suassuna, Rua da Aurora | 🕐 19h
🎫 GRATUITO
Dança fusionada que explora ancestralidade das conexões orientais

O Shá da Meia Noite
Teatro Fernando Santa Cruz | 🕐 19h30
🎫 GRATUITO (retirar pelo Sympla)
Vaudeville com Sharlene Esse, primeira dama trans do teatro pernambucano

Rita Lee Autobiografia Musical – Mel Lisboa
📍 Teatro Luiz Mendonça | 🕐 20h
🎫 A partir de R$ 110 + taxas
Bestseller editorial transformado em confissão cênica

📅 20 DE SETEMBRO 

Rita Lee Autobiografia Musical – Mel Lisboa
📍 Teatro Luiz Mendonça | 🕐 16h
🎫 A partir de R$ 110 + taxas
Bestseller editorial transformado em confissão cênica

Híbridos – Enlaces
📍 Teatro Arraial Ariano Suassuna, Rua da Aurora | 🕐 19h
🎫 GRATUITO
Dança fusionada que explora ancestralidade das conexões orientais

Rita Lee Autobiografia Musical – Mel Lisboa
📍 Teatro Luiz Mendonça | 🕐 20h
🎫 A partir de R$ 110 + taxas
Bestseller editorial transformado em confissão cênica

The Jury Experience: Um Julgamento Imersivo
📍 Teatro RioMar | 🕐 20h30
Com 20% OFF (válido 9-10/09) | 🎭 12 anos | ⏱️ 75min
Formato internacional que transforma espectadores em jurados

📅 21 DE SETEMBRO 

Rita Lee Autobiografia Musical – Mel Lisboa
📍 Teatro Luiz Mendonça | 🕐 18h
🎫 A partir de R$ 110 + taxas
Bestseller editorial transformado em confissão cênica

📅 26-27 DE SETEMBRO 

Híbridos – Enlaces
📍 Teatro Arraial Ariano Suassuna, Rua da Aurora | 🕐 19h
🎫 GRATUITO
Dança fusionada que explora ancestralidade das conexões orientais

📅 02 DE NOVEMBRO 

The Jury Experience: Um Julgamento Imersivo
📍 Teatro RioMar | 🕐 20h30
🎭 12 anos | ⏱️ 75min
Formato internacional que transforma espectadores em jurados

 

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Soledad – A Terra é fogo sob nossos pés:
10 anos de teatro e resistência

Soledad, uma década de memória viva e transformação permanente. Foto: Jorge Farias / Divulgação

Há espetáculos que são concebidos para tensionar as urgências de seu tempo. Soledad – A Terra é Fogo Sob Nossos Pés faz algo mais complexo: ao resgatar uma voz silenciada de 1973, desenvolveu em 2015 uma nova voz que ressoa até hoje, em 2025. Honra Soledad Barrett Viedma como força política contemporânea.

Dez anos de trajetória ininterrupta pelos palcos brasileiros culminam agora em duas apresentações especiais que representam muito mais que marcos comemorativos: são afirmações de que a arte política permanece necessária e transformadora.

Nos dias 2 e 3 de setembro, às 19h30, no Teatro Hermilo Borba Filho, a montagem celebra uma década de existência. Dez anos que, como anuncia a própria produção, “nos transformaram para sempre”. E não é exagero: poucos espetáculos conseguiram unir com tanta força artística e política a recuperação histórica, o empoderamento feminino e a urgência do presente.

O espetáculo  é um marco do teatro político produzido em Pernambuco. Foto: Jorge Farias / Divulgação

Em 2015, quando a atriz pernambucana Hilda Torres, a diretora argentina Malú Bazán e a artista plástica Ñasaindy Barrett – filha de Soledad atuante no projeto – conversaram para dar vida à guerrilheira paraguaia nos palcos, o Brasil vivia um momento político turbulento que ainda não conseguia dimensionar completamente.

Como comentou Malú Bazán: “Desde o processo de pesquisa histórica para a montagem da peça, ainda em 2015, percebemos a relação íntima entre o passado e o presente. Nesse mesmo período aconteciam passeatas em São Paulo, principalmente, pedindo a ‘volta do golpe militar e chega de Paulo Freire'”. O que não sabiam então é que estavam criando uma obra profética, que anteciparia lutas e resistências que só uma década depois seriam plenamente compreendidas.

O espetáculo teve como ponto de partida o livro Soledad no Recife, do escritor pernambucano Urariano Mota, expandindo-se através de uma rede internacional de apoio. Ex-prisioneiros políticos, militantes paraguaios, argentinos e brasileiros, parentes e compatriotas de Soledad contribuíram para que a montagem se tornasse uma investigação coletiva sobre uma das figuras mais emblemáticas e injustiçadas da resistência latino-americana.

Soledad Barrett Viedma: para além dos rótulos da História. Foto: Jorge Farias / Divulgação

A história oficial reduziu Soledad Barrett Viedma (1945-1973) ao rótulo de “mulher do Cabo Anselmo”, uma enorme injustiça para uma personalidade complexa e potente. Neta do escritor, jornalista e líder anarquista Rafael Barrett, ela carregava no sangue uma herança intelectual libertária que atravessava gerações. Esta linhagem de resistência, fundamental para compreender sua formação política, conecta-se diretamente com as lutas anarquistas do início do século XX na América Latina.

Como descreve Hilda Torres : “Nasceu com sua mãe e ela apenas, por isso Soledad – Solidão; criança que cresceu entre sons de bombas e brincadeiras, levando recados codificados em suas saias para dirigentes comunistas”. A militante Soledad falava guarani e dedicava-se a alfabetizar populações indígenas – dimensão fundamental de sua atuação que conectava resistência política e preservação cultural originária.

Sua trajetória é um mapa da resistência latino-americana: exilada com menos de um ano, aos 16 anos já realizava apresentações de danças folclóricas em eventos solidários ao Paraguai no Uruguai. Aos 17, foi sequestrada por neonazistas que gravaram a suástica em suas coxas quando ela se recusou a gritar “viva Hitler!”. Estudou teorias comunistas na antiga URSS, treinou guerrilha em Cuba, onde se casou e teve sua filha Ñasaindy com José Maria de Ferreira de Araújo.

Em 1970, veio ao Brasil em missão pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Aqui, apaixonou-se por José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, sem saber que ele era um agente duplo. Grávida dele, foi entregue ao perverso delegado Sérgio Paranhos Fleury e assassinada junto com outros cinco companheiros no Massacre da Granja São Bento, em 8 de janeiro de 1973, em Abreu e Lima.

Dramaturgia colaborativa da resistência assinada por Malú Bazán e Hilda Torres. Foto: Jorge Farias / Divulgação

A dramaturgia foi desenvolvida pela atriz Hilda Torres e pela diretora Malú Bazán e contou com múltiplas colaborações para chegar ao texto final. Ñasaindy Barrett assina a identidade visual e as composições da trilha sonora. O texto é uma colcha de retalhos da memória histórica continental, tendo como base o livro de Urariano Mota e ampliando-se através de entrevistas com ex-prisioneiros políticos, da publicação 68, a geração que queria mudar o mundo (organizada por Eliete Ferrer), dos registros da Comissão da Verdade e do Tortura Nunca Mais.

Fundamental para a criação foram os poemas de Marco Albertim e as composições musicais de Ñasaindy Barrett, que empresta sua voz de cantora ao espetáculo, criando uma ponte sonora entre passado e presente. A direção musical de Lucas Notaro integra estes elementos em uma trilha que dialoga com as tradições musicais paraguaias, brasileiras e de resistência latino-americana.

Uma interpretação histórica e transformadora de Hilda Torres. Foto: Jorge Farias / Divulgação

A performance de Hilda Torres em Soledad é amplamente reconhecida como um marco na carreira da atriz e no teatro político brasileiro. Sozinha em cena, ela encarna a guerrilheira paraguaia com uma entrega total que vai do sussurro íntimo ao grito revolucionário, do guarani ancestral aos movimentos do cavalo-marinho pernambucano.

Para honrar a identidade da personagem, Torres aprendeu palavras e expressões em guarani – uma escolha que vai além da técnica, é política, reconhecendo a importância da língua originária na formação de Soledad. Os movimentos do cavalo-marinho nas cenas de batalha criam uma ponte entre as culturas paraguaia e nordestina, evidenciando como a resistência encontra expressão em diferentes territórios e tradições.

Como escreveu a jornalista Ivana Moura (que sou eu! 😉) em crítica publicada em maio de 2016: “É uma atuação de fôlego de Hilda Torres. A maior de sua carreira. Uma entrega total. Potente e bela. Por seus poros, por seus olhos, nos seus gestos, na gradação de sua voz, nas explosões emotivas da personagem pulsam o essencial de vida”.

Muitos elementos cênicos convocam as memórias da protagonista. Foto: Jorge Farias / Divulgação 

A direção de Malú Bazán criou uma encenação de elementos mínimos mas de máximo impacto imagético. O cenário despojado – uma cadeira, livros, papéis espalhados do processo de criação, uma boneca confeccionada por Maria de Lourdes Albuquerque (que em 2016 tinha 94 anos, uma das mães que buscaram filhos desaparecidos na ditadura) – transforma o palco em um espaço de memória viva e ritual ancestral.

A encenação exalta os mitos e ritos ancestrais e evoca os povos originários, incorporando elementos como o banho ritual com os seios desnudos (conectando com a Terra e a feminilidade ancestral) e a celebração de orixás como Nanã do candomblé. Estas escolhas estéticas têm dimensão política, reconhecendo as múltiplas resistências que Soledad representava.

A iluminação de Eron Villar cria ambientes que oscilam entre a intimidade confessional e a grandeza épica, enquanto a direção musical integra sonoridades que vão do guarani aos cantos de resistência brasileiros.

Um feminismo revolucionário habita o espetáculo. Foto: Jorge Farias / Divulgação 

Um dos aspectos mais inovadores do espetáculo é como ele resgata Soledad como precursora do feminismo interseccional contemporâneo. Em plena década de 1970, ela já praticava o que hoje chamamos de interseccionalidade: mulher, indígena, refugiada, mãe, guerrilheira. Esta postura, que em 1973 era revolucionária, em 2025 ressoa profundamente com movimentos feministas contemporâneos, lutas por direitos reprodutivos e feminismo decolonial. Soledad alfabetizando indígenas antecipa debates atuais sobre educação popular e resistência cultural.

O espetáculo, como eu observei em crítica de outubro de 2016, “é totalmente feminista, de empoderamento da mulher, e com caráter libertário, contra as repressões”. Mas consegue isso sem anacronismo, mantendo a complexidade histórica da personagem – mulher, mãe, filha, companheira, dançarina, poetisa – em toda sua humanidade.

2015-2025: Uma Década 

Quando o espetáculo estreou em 2015, o Brasil vivia o início de uma crise democrática que ainda não compreendia completamente. O impeachment de Dilma Rousseff se gestava, o feminismo lutava por espaços básicos, a memória da ditadura era questionada por negacionistas emergentes, e a América Latina via seus governos progressistas em declínio.

Dez anos depois, o planeta viveu transformações que tornaram Soledad ainda mais relevante: o Brasil viveu sua própria tentativa golpista em 8 de janeiro de 2023, compreendendo visceralmente os mecanismos autoritários que Soledad enfrentou; questões de gênero ganharam centralidade global,.

O espetáculo hoje encontra uma nova geração de espectadores: jovens de 15-25 anos que nasceram na democracia mas testemunharam autoritarismo recente; ativistas digitais que conhecem resistência virtual, mas precisam compreender resistência física; feministas contemporâneas que conectam instintivamente com o empoderamento interseccional de Soledad; movimentos identitários que compreendem a multiplicidade de opressões que ela enfrentava. Soledad, hoje reconhecida como referência feminista em toda a América Latina, dialoga com movimentos de mulheres indígenas contemporâneos, lutas por justiça de gênero no continente, resistências à violência política atual e a questão dos feminicídios que tornaram sua morte ainda mais simbólica.

Relevância histórica e reparação da memória. Foto: Jorge Farias / Divulgação

Como afirmou o escritor Urariano Mota em artigo intitulado Dilma Rousseff e Soledad Barrett, publicado no Diario de Pernambuco em 29 de agosto de 2016: “Soledad Barrett Viedma é um dos casos mais eloquentes da guerra suja da ditadura no Brasil”. O espetáculo funciona como um ato de reparação histórica, restituindo a Soledad o lugar de protagonista de sua própria história de luta e como referência continental de resistência feminina.

A montagem manifesta, nas palavras de Ivana Moura em crítica publicada em maio de 2016, “o poder da arte, de promover a reparação – pelo menos da imagem pública – das violações a direitos fundamentais. Para reescrever a História e subverter a ordem do esquecimento”.

Mas vai além: ao conectar Soledad com suas raízes guaranis, sua herança anarquista familiar e sua dimensão internacional, o espetáculo reinscreve toda uma linhagem de resistência que perpassa diferentes territórios e épocas.

Desde sua estreia, Soledad percorreu diversos palcos do Brasil, participou de festivais, foi apresentada em São Paulo como parte da Circulação Nacional, sempre provocando debates que ultrapassam o teatro. Em 2019, durante apresentação no Galpão do Folias em São Paulo, a militante Damaris Oliveira Lucena foi homenageada, evidenciando como o espetáculo conecta gerações de resistência.

A produção manteve um compromisso com a memória coletiva continental. Em setembro de 2016, durante as comemorações de um ano da montagem, foi realizado um ato de gratidão aos ex-prisioneiros políticos, como relatou Hilda Torres em entrevista ao Satisfeita, Yolanda?, publicada em setembro de 2016: “Essa geração atual precisa agradecer a uma geração que jamais poderá ser esquecida”.

Legado e continuidade… Soledad  tem muitas histórias.  Foto: Jorge Farias / Divulgação

Ao completar dez anos, Soledad – A Terra é Fogo Sob Nossos Pés se estabelece como um marco do teatro político brasileiro contemporâneo e referência latino-americana de resistência cultural. Torna-se uma referência de como a arte pode resgatar vozes silenciadas, transformar dor histórica em força transformadora e conectar lutas de diferentes épocas.

As apresentações de 2 e 3 de setembro no Teatro Hermilo Borba Filho celebram dez anos de uma necessidade que se renova: a necessidade de lembrar para transformar, de resistir para construir, de não deixar que a história se repita, mas garantir que a esperança se multiplique.

Como dizia Daniel Viglietti na música que inspira o espetáculo: “Uma coisa aprendi junto a Soledad: que deve-se empunhar o pranto, deixá-lo cantar”.

Dez anos depois, o pranto de Soledad continua cantando. E nós continuamos aprendendo que cantar é resistir, resistir é transformar, transformar é construir o futuro que ela sonhou e pelo qual morreu.

Ficha Técnica

Atriz, idealizadora e produção geral: Hilda Torres
Direção: Malú Bazán
Dramaturgia: Hilda Torres e Malú Bazán
Iluminação: Eron Villar
Direção musical e trilha sonora: Lucas Notaro
Identidade visual, trilha sonora: Nasaindy Barrett
Designer/social mídia: Li Buarque
Assessoria de Imprensa: Dea Almeida
Registro fotográfico: Rogério Alves
Vídeo e edição: Suco filmes
Assistente de produção: Anny Rafaella Ferly e Ariani Ferreira
Produção geral e trilha sonora: Márcio Santos
Realização: Cria do Palco

Serviço

📅  02 e 03 de setembro de 2025, 🕰️ 19h30
📍 Teatro Hermilo Borba Filho – Recife/PE
💰 Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)
🎟️ Vendas: Sympla Dia 02/SET e Dia 03/SET

+ Soledad no Satisfeita, Yolanda?

https://www.satisfeitayolanda.com.br/blog/soledad-que-ainda-se-nega-a-morrer/
https://www.satisfeitayolanda.com.br/blog/ressurreicao-de-soledad-barrett-no-palco/
https://www.satisfeitayolanda.com.br/blog/guerrilheira-altiva/
https://www.satisfeitayolanda.com.br/blog/manifesto-contra-a-repressao-de-ontem-e-de-hoje/
https://www.satisfeitayolanda.com.br/blog/guerrilha-e-amor-uma-mistura-explosiva/

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HBLYNDA EM TRANSito aposta
na força política das narrativas trans

HBlynda Morais é uma artista não binária, negra, gorda, candomblecista e periférica. Foto: Divulgação

O teatro contemporâneo brasileiro experimenta uma reconfiguração radical de seus protocolos narrativos. Corpos historicamente relegados às margens dos processos de representação agora reivindicam a autoria de suas próprias dramaturgias, subvertendo hierarquias seculares entre quem conta e quem é contado. Neste cenário de disputas estéticas e políticas, o espetáculo HBLYNDA EM TRANSito opera como laboratório onde biografia e ficção se contaminam mutuamente, produzindo uma dramaturgia que desafia tanto convenções teatrais quanto epistemologias dominantes sobre gênero e sexualidade.

HBLYNDA EM TRANSito, dirigido por Emmanuel Matheus e com direção musical de Raphael Venos, utiliza elementos performativos que combinam teatro, dança e música. A montagem celebra os 15 anos de carreira artística de HBlynda Morais, como também sua própria existência como contradiscurso às estatísticas que condenam pessoas trans ao desaparecimento precoce.

A potência política do espetáculo reside na interseccionalidade presente na obra. HBlynda Morais é uma pessoa não binária que acumula marcadores sociais de diferença: negra, gorda, candomblecista e oriunda das periferias urbanas. Esta multiplicidade de identidades reflete a complexidade das experiências trans no país. Sua formação acadêmica – licenciatura em História pela UPE e mestrado em andamento na UFPE – subverte narrativas que associam pessoas trans ao abandono escolar e à marginalização social.

Os dados sobre a expectativa de vida de pessoas trans no Brasil são alarmantes, especialmente quando recortados por raça e classe social. Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), a expectativa de vida média é de apenas 35 anos. Neste contexto, cada ano de vida de uma pessoa trans negra representa um ato de resistência contra um projeto necropolítico sistemático.

A iniciativa “Trans Free” para ingressos gratuitos destinados a pessoas trans, travestis e não binárias demonstra o compromisso do projeto com a democratização cultural. É um reconhecimento de que o teatro deve ser acessível às comunidades cujas experiências documenta.

Urgência do Testemunho

A encenação dirigida por Emmanuel Matheus. Foto: Lígia Jardim / Divulgção

HBLYNDA EM TRANSito integra uma linhagem específica do teatro contemporâneo onde performer e personagem coincidem na mesma pessoa. Este trabalho opera a partir do entendimento de que toda autobiografia é uma construção narrativa atravessada por códigos culturais, expectativas de gênero e demandas de inteligibilidade social.

A especificidade desta operação reside no fato de que, para pessoas trans, narrar a própria vida implica necessariamente confrontar discursos médicos, jurídicos e familiares que historicamente definiram suas identidades como patológicas. Ao assumir a autoria de sua narrativa, HBlynda não busca estabelecer uma “verdade” sobre sua experiência, mas demonstrar como certas vidas precisam ser constantemente reinventadas para existir.

Quando Judith Butler desenvolveu sua teoria sobre a performatividade de gênero em Corpos que Importam (2019), ela abriu caminho para compreendermos como as identidades se constroem através da repetição de atos performativos. No teatro, essa construção ganha dimensões ainda mais potentes: o palco teatral intensifica a ambivalência da performatividade, ao mesmo tempo que reitera convenções cênicas, permite que corpos dissidentes reconfigurem os códigos de inteligibilidade social.

Paul B. Preciado, em Manifesto Contrassexual (2014), argumenta que os corpos trans funcionam como “tecnologias de resistência” aos dispositivos normativos de sexo-gênero. O teatro autobiográfico trans radicaliza esta proposição ao fazer da própria vida matéria-prima estética, transformando experiência em conhecimento e trauma em linguagem cênica.

HBLYNDA EM TRANSito reafirma o palco como território de resistência. Foto: Lígia Jardim

HBLYNDA EM TRANSito transforma o que a sociedade codifica como “desvio” em metodologia de conhecimento. Enquanto o teatro tradicional trabalha com personagens ficcionais que representam tipos sociais, este trabalho investe na própria vida como arquivo de resistência.

Quando HBlynda narra sua trajetória, não está oferecendo uma “lição de vida” ou um “exemplo de superação”, mas documentando as estratégias micropolíticas necessárias para sobreviver em um país que mata uma pessoa trans a cada 48 horas. O palco se torna um laboratório de sobrevivência onde técnicas de resistência são compartilhadas através da performance.

O que emerge desta operação não é mais uma narrativa de superação, mas a instalação de uma temporalidade dissidente. Enquanto a lógica cisnormativa organiza o tempo em termos de desenvolvimento linear rumo à “normalidade”, HBLYNDA EM TRANSito propõe uma cronologia queer onde cada momento de existência constitui uma afirmação fundamental de que corpos como o seu têm direito de estar no mundo. A celebração aqui não é do indivíduo que “venceu na vida”, mas da própria possibilidade de que vidas como essa continuem acontecendo – desobedientes, incontroláveis, imprevisíveis.

SERVIÇO
🗓️ Datas: 05 e 06 de agosto de 2025, ⏰ 20h
Local: Teatro Hermilo Borba Filho – Recife/PE
🎟️ Ingressos: R$ 30,00 (inteira) | R$ 15,00 (meia-entrada)
💳 Vendas: Plataforma Sympla
🏳️‍⚧️ Política inclusiva: Trans Free – entrada gratuita para pessoas trans, travestis e não binárias

FICHA TÉCNICA
Atuação e Dramaturgia: HBlynda Morais
Direção Geral: Emmanuel Matheus
Direção Musical: Raphael Venos
Produção: Realização com recursos do FUNCULTURA e PNAB

 

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Um Leão de Prata
para Carolina Bianchi
e a internacionalização do teatro brasileiro

 

Carolina Bianchi mostra a força de uma trajetória construída na persistência. Foto Mayra Azzi./ @may_azzi

Bienal de Dança de Veneza, Em 19 de julho de 2025 Carolina Bianchi recebeu o Leão de Prata no prestigioso Salão das Colunas de Ca’ Giustinian. Foto: Andrea Avezzù / Official photographer of the Venice Biennale

Coreógrafa norte-americana Twyla Tharp (D) revolucionou a dança do século XX;, enquanto Bianchi  forja novas linguagens para o século XXI. Foto: Andrea Avezzù / Official photographer of the Venice Biennale

“Extraordinária artista, diretora, escritora e criadora de imagens que frequentemente utiliza seu corpo como elemento central de seu trabalho, desenvolvendo experiências profundamente pessoais, viscerais e coreográficas que nos atravessam e interpelam”. Foi assim que Wayne McGregor, diretor artístico da Bienal de Dança de Veneza, definiu Carolina Bianchi ao entregar-lhe o Leão de Prata em 19 de julho de 2025, durante a cerimônia realizada no prestigioso Salão das Colunas de Ca’ Giustinian.

As palavras de McGregor capturam a essência de um trabalho que transforma vulnerabilidade em potência criativa, estabelecendo Carolina como uma das vozes mais intransigentes da performance contemporânea mundial. O reconhecimento veneziano posiciona a artista brasileira entre os nomes que estão redefinindo as fronteiras entre teatro, dança e arte corporal.

A premiação de Carolina ocorreu no mesmo evento em que a lendária coreógrafa norte-americana Twyla Tharp foi agraciada com o Leão de Ouro pelo conjunto de sua carreira. McGregor exaltou Tharp destacando que “suas contribuições revolucionárias para a ecologia global da dança são incomparáveis em seu trabalho, que combina rigor e ludicidade, disciplina clássica e técnica de balé, misturando gêneros com facilidade audaciosa e expandindo nossa compreensão das capacidades desta ferramenta extraordinária que todos possuímos: o corpo humano”.

A simultaneidade dos prêmios cria um diálogo geracional fascinante: de um lado, Tharp, que revolucionou a dança do século XX; do outro, Carolina, que forja novas linguagens para o século XXI. Ambas utilizam o corpo como território de investigação, mas Carolina adiciona uma dimensão política e autobiográfica que ressignifica completamente a tradição da performance feminina.

O festival veneziano, que se estendeu de 17 de julho a 2 de agosto de 2025, ratificou assim a relevância internacional de uma geração de artistas que redefinem os limites da arte corporal. Conforme destacado por McGregor, os premiados “recebem um prêmio financeiro para apoiar seu próximo grande projeto” – suporte material que pode ser decisivo para que Carolina continue desenvolvendo uma arte que exige recursos consideráveis e tempo de maturação.

Avignon 2023: O Momento de Inflexão Internacional

A Noiva e o Boa Noite Cinderela estreou no Festival de Avignon de 2023. Foto @christophe.raynauddelage

O Festival de Avignon de 2023 marcou definitivamente a inserção de Carolina Bianchi no circuito artístico europeu. A Noiva e o Boa Noite Cinderela, primeiro capítulo da Trilogia Cadela Força, causou profundo impacto em públicos e críticos, estabelecendo uma nova referência para a performance contemporânea feminina.

Como testemunha direta daquele momento histórico – estive presente em Avignon cobrindo o festival para o site Satisfeita, Yolanda? -, posso afirmar que o espetáculo criou uma reverberação única no ambiente artístico francês. A obra, que investiga a violência sexual através do próprio corpo da artista em estado de inconsciência farmacológica, investiu numa linguagem inédita que dialoga com pioneiras como Marina Abramović e Gina Pane, estabelecendo territórios completamente novos de investigação cênica.

Leia AQUI a crítica do espetáculo A Noiva e o Boa Noite Cinderela, que estreou em Avignon, publicado em 23 de julho de 2023, escrito por Ivana Moura.

Confira AQUI a entrevista feita por Ivana Moura durante o festival de Avignon 2023 com Carolina Bianchi e postado em 24 de julho de 2023.

O sucesso francês abriu as portas do circuito europeu, levando a obra aos principais festivais do continente e culminando com o Prix du Syndicat de la Critique, que elegeu a montagem A Noiva e o Boa Noite Cinderela – Cadela Força – Capítulo I como Melhor Estreia Internacional da temporada 2023/24 da França.

Longe de ser um fenômeno súbito, o reconhecimento internacional da dramaturga e performer gaúcha reflete mais de uma década de trabalho árduo e investigação artística que começou em Porto Alegre, passou pelos palcos alternativos de São Paulo e encontrou na Europa o terreno fértil para florescer plenamente.

A Irmandade (The Brotherhood)
Teatro como confissão e investigação

Segundo capítulo da Trilogia Cadela Força investiga os mecanismos da masculinidade tóxica. Foto Mayra Azzi

Mesmo sendo uma ode ao teatro, The Brotherhood questiona também as origens históricas da misoginia no próprio teatro. Foto: Mayra Azzi / Dvivulgação

Em maio de 2025, nos palcos do Kunstenfestivaldesarts em Bruxelas, Carolina Bianchi apresentou A Irmandade (The Brotherhood), segundo capítulo da Trilogia Cadela Força. A obra, posteriormente apresentada em Viena, Amsterdã em Barcelona e em Veneza, volta-se para os mecanismos da masculinidade tóxica.

O espetáculo dialoga diretamente com o conceito de “fraternidade” desenvolvido pela antropóloga argentina Rita Segato em sua obra La Guerra contra las Mujeres (2016). Para Segato, a “fraternidade” ou “corporação masculina” representa um sistema de pactos entre homens que opera como estrutura fundamental do patriarcado. Segundo a pesquisadora, essa irmandade masculina funciona através de “lealdades horizontais” que unem os homens independentemente de outras diferenças sociais, criando um front comum para manter o controle sobre as mulheres e perpetuar a violência de gênero.

Para compreender a dimensão e o impacto desta encenação que aprofunda a investigação iniciada com A Noiva e o Boa Noite Cinderela – Cadela Força – Capítulo I , selecionei quatro críticas de veículos especializados de diferentes países: Theaterkrant (Holanda), Revista Rialta (Espanha), Libération (França) e Sceneweb.fr (França). Foram escolhas aleatórias, a partir do que tive acesso na internet. Juntas, essas análises revelam como A Irmandade se estabeleceu como um marco desestabilizador no teatro europeu contemporâneo, questionando as estruturas de poder masculino tanto na sociedade quanto nas artes.

A Anatomia da Fraternidade Masculina

Os homens têm liberdade…Foto: Mayra Azzi / Dvivulgação

“O purgatório de sua jornada dantesca” – assim Karin Veraart, do Theaterkrant holandês, contextualiza A Irmandade, onde Carolina “examina diversas expressões de masculinidade, ‘virilidade’, inclusive em relação à arte, e também como um sistema de linguagem perpetua o patriarcado”. Uma cena em particular impressiona Veraart: “a fraternidade de rituais como iniciações, trotes, homenagens e brincadeiras compartilhadas. Aqui, os oito homens da companhia têm liberdade: eles dançam, brincam e gesticulam com uma vingança, irritantemente identificável, quase impossível de assistir”.

Em outro aprofundamento, Martha Luisa Hernández Cadenas, da Revista Rialta espanhola, observa que “Bianchi apresenta a fraternidade como um pacto intransigente; é praticamente o presente que ‘protegerá’ cada criança ao longo da vida”. Para Cadenas, a obra expõe “a performatividade do masculino como irmandade, o fascínio pelos gênios, a mentira, a violência e o estupro”, criando uma investigação que vai além da denúncia para questionar as estruturas fundacionais da cultura patriarcal.

“Como é possível que olhemos e escutemos com tanta admiração e deferência aqueles que eles chamam de ‘mestres’?” A pergunta de Nadja Pobel, do Sceneweb.fr francês, identifica o cerne mais perturbador de A Irmandade: o desmonte da adoração aos “grandes mestres” da história teatral. Pobel destaca como Carolina “coloca em cena com força a aniquilação das mulheres pelos homens, qualquer que seja o grau de predação (…) em nome da arte”.

Anne Diatkine, do Libération, descreve uma cena emblemática onde Carolina “brande um imenso pênis fúcsia que coloca entre as pernas e se masturba com gritos altos, durante a transmissão de um arquivo de rádio de um grande mestre particularmente confuso”. A crítica observa o “constrangimento não pela cena de masturbação, mas por seu paralelo com as palavras de Kantor”, revelando como a obra expõe a obscenidade oculta na veneração acrítica dos “gênios” masculinos.

Duas “cenas-chave” identificadas pela crítica espanhola Cadenas aprofundam essa análise: a entrevista com um diretor fictício alemão e o painel de intelectuais. No diálogo com o diretor de sucesso, emergem “os relacionamentos abusivos com as atrizes de seu elenco, a exploração do corpo feminino e a omissão de créditos que as mulheres merecem”. O arquétipo criado por Carolina é “tão fiel que parece real”, funcionando como uma síntese devastadora dos mecanismos de poder no teatro contemporâneo.

O que torna A Irmandade particularmente desestabilizadora é a honestidade brutal de Carolina em expor seus próprios paradoxos. Pobel elogia essa dimensão: “como ela pôde amar tanto Jan Fabre? Como ela pode lidar, agora, com o fato de ser parte integrante dessa irmandade teatral da qual recebe ‘recompensas’?” Esta autocrítica impede que o trabalho se torne “banal” ou um simples “acerto de contas”, elevando-o a uma reflexão mais complexa sobre cumplicidade e resistência.

Veraart observa que Carolina “indica que certamente não está isenta de pecados. São as contradições, os conflitos, as consequências que ela quer expor e questionar”. A artista não se posiciona como vítima pura, mas como alguém que reconhece estar inserida nas mesmas estruturas que critica, criando uma camada de complexidade que desafia tanto o público quanto a própria artista.

Essa radicalidade intransigente coloca Carolina em uma linhagem específica do teatro europeu contemporâneo, próxima a artistas como Angélica Liddell. Como a performer catalã, Carolina desenvolve uma proposta radical e excessiva que pode polarizar reações: ou cativar completamente, ou ser rejeitada sem meio-termo.

A Dramaturgia da Violência Histórica

Carolina Bianchi expõe uma genealogia da violência contra as mulheres que atravessa séculos. Foto: Mayra Azzi 

A Irmandade constrói uma genealogia da violência contra as mulheres que atravessa séculos. Cadenas destaca como Carolina evoca “Ana Mendieta, Sylvia Plath, Gisèle Pélicot, Perséfone e, especialmente, Sarah Kane”, criando não “um catálogo, mas tecendo, sem gritos ou fúria, com força e clareza, uma história da violência de uns contra os outros”.

A crítica espanhola conecta o trabalho de Carolina com casos contemporâneos devastadores: “Ana Mendieta caiu do 34º andar do apartamento que dividia com seu parceiro, o também artista Carl Andre, que foi absolvido da acusação de feminicídio e desfrutou da cumplicidade da comunidade artística”. Esses casos históricos e contemporâneos se entrelaçam na dramaturgia de Carolina, revelando a continuidade da violência patriarcal através dos tempos.

Todas as críticas destacam a dimensão acadêmica rigorosa do trabalho. Veraart observa que Carolina “documentou meticulosamente sua pesquisa; na primeira parte de Irmandade, ela carrega seu livro de 500 páginas pelo palco”. Pobel complementa: “O pensamento predomina sobre as ações. As palavras constituem a estrutura fundamental deste capítulo, amplamente apoiadas por sua pesquisa acadêmica”.

Diatkine descreve a cena onde “sete garotos (…) engolirão suas palavras, sua tese de 500 páginas rasgada”, criando uma metáfora poderosa sobre como o conhecimento produzido por mulheres é sistematicamente desvalorizado e destruído pelos homens que detêm o poder de legitimação acadêmica e artística.

As quatro críticas convergem ao descrever o impacto visceral da obra. Veraart define “A Irmandade” como “dolorosa, mas é assim que deveria ser: uma catarse”. Diatkine fala de um “monólogo denso e proteico de três horas e quarenta minutos” que “produz uma sensação de pavor”. Pobel conclui que se trata de “um espetáculo intenso que deixará marcas duradouras”.

Cadenas oferece uma síntese poética do impacto: A Irmandade está repleta de vozes, flashes, horas no chuveiro, suicídios em sua vingança prematura, balbucios, mulheres anônimas em fitas de vídeo onde são violentamente penetradas (…) Bianchi transforma sua dor em linguagem; ele não apenas a autotematizou, mas também construiu seu próprio artifício”.

LINKS DAS CRÍTICAS
Theaterkrant – Holanda – Crítica de Karin Veraart Theaterkrant
Revista Rialta – Espanha Crítica Martha Luisa Hernández Cadenas Rialta
Libération – França – Crítica Anne Diatkine Libération
Sceneweb.fr – França – Crítica Nadja Pobel –Sceneweb.fr

Entretanto, A Irmandade desenvolve uma camada reflexiva inesperada que transforma o trabalho numa verdadeira carta de amor ao próprio teatro. Ao dissecar os mecanismos de poder masculino inscritos na arte teatral, a obra simultaneamente se volta para dentro, questionando o teatro como instituição e celebrando-o como possibilidade transformadora. Em seu perfil no Instagram, Carolina revelou essa dimensão metateatral do trabalho, definindo-o como uma “declaração sensual, confusa, sombria, perversa e totalmente complexa” ao teatro.

Esta dimensão amorosa do espetáculo emerge da própria metodologia de investigação da artista, que não se limita a denunciar estruturas opressivas, mas busca compreender como a arte pode simultaneamente reproduzir e subverter essas mesmas estruturas. O teatro torna-se, assim, objeto de desejo e crítica, paixão e resistência, revelando a complexidade de uma artista que ama profundamente aquilo que também precisa destruir para reconstruir.

O Coletivo Cara de Cavalo: Dez Anos de Resistência Criativa

Coletivo Cara de Cavalo desenvolveu uma pesquisa consistente na cena paulistana. Foto: Mayra Azzi  

A história de Carolina Bianchi está intimamente conectada ao coletivo Cara de Cavalo, que completa dez anos em 2025. Durante uma década, o grupo desenvolveu uma pesquisa consistente na cena independente paulistana, enfrentando as limitações estruturais e financeiras que caracterizam a produção cultural brasileira.

Em post recente no Instagram, Carolina celebrou essa trajetória: “Cara de Cavalo completa 10 anos este ano. Comemoro e continuo a trabalhar duro com este grupo de pessoas que admiro profundamente.” A reflexão da artista sobre o prêmio veneziano também revela sua consciência sobre a dimensão coletiva do trabalho: “Na semana passada tivemos um Leão de Prata na Bienal de Veneza – que alegria violenta! Sinto-me profundamente honrada e sinto-me inegavelmente pequena.”

Em 2017, durante o Festival TREMA! no Recife, Carolina já demonstrava a radicalidade de sua pesquisa artística em Utopyas For Every Day Life, uma instalação performática de três horas realizada em parceria com Flávia Pinheiro. O trabalho, que questionava as fronteiras entre vida e arte, utilizava o corpo como arma de combate contra o machismo e a violência de gênero numa sociedade heteronormativa. Durante 180 minutos ininterruptos, as artistas exploravam estados de resistência e criação, permitindo ao público movimentar-se livremente pelo espaço e participar da experiência. Em minha crítica, destaquei como a dupla “gritava com o suor dos poros contra o machismo” e “avançava em pernadas para forjar nos deslocamentos a relevância da produção feminina”, antecipando questões que se tornariam centrais na Trilogia Cadela Força.

Lobo, que estreou em São Paulo em 2019, já sinalizava a potência investigativa do grupo. Na peça, Carolina dividia o palco com 16 homens em sequências performáticas intensas que combinavam corrida, queda, sexo e poesia de Emily Dickinson.

A mudança de Carolina para Amsterdã em 2020, para cursar mestrado, criou uma dinâmica transnacional que hoje permite ao grupo operar simultaneamente entre Brasil e Europa, mantendo suas raízes enquanto explora novas possibilidades de criação e circulação. Fundamental nesse processo tem sido o trabalho de produção de Carla Estefan e da Metro Gestão Cultural, responsáveis pela viabilização da complexa logística internacional que permite ao coletivo manter sua presença em festivais e palcos europeus.

O reconhecimento de Carolina Bianchi em Veneza integra um movimento crescente de artistas brasileiros que conquistam espaço no circuito internacional através da especificidade de suas pesquisas. Não se trata de um fenômeno massivo, mas de trajetórias individuais (ou de companhias) que, somadas, começam a desenhar novas possibilidades para a arte cênica nacional em contexto global.

Ficha Técnica

A Irmandade – Trilogia Cadela Força – Capítulo II
Concepção, textos e direção: Carolina Bianchi
Elenco: Chico Lima, Flow Kountouriotis, José Artur, Kai Wido Meyer, Lucas Delfino, Rafael Limongelli, Rodrigo Andreolli, Tomás Decina, Carolina Bianchi
Colaboradora de dramaturgia e pesquisa: Carolina Mendonça
Diálogo teórico e dramatúrgico: Silvia Bottiroli
Tradução para o inglês: Marina Matheus
Tradução para o francês: Thomas Resendes
Direção técnica, criação sonora e música original: Miguel Caldas
Assistente de direção: Murilo Basso
Cenografia: Carolina Bianchi, Luisa Callegari
Direção de arte e figurinos: Luisa Callegari
Iluminação: Jo Rios
Vídeos e projeções: Montserrat Fonseca Llach
Ressurreição coreográfica do prólogo e assessoria de movimento: Jimena Pérez Salerno
Câmera ao vivo e apoio artístico: Larissa Ballarotti
Estagiária: Fernanda Libman
Direção de palco e apoio à produção: AnaCris Medina
Direção de Produção, Gerência de Tournee e Comunicação: Carla Estefan
Produção: Metro Gestão Cultural; Carolina Bianchi Y Cara de Cavalo
Coprodução: KVS Koninklijke Vlaamse Schouwburg -Brussels, Theater Utrecht, La Villette –Paris, Festival d’Automne à Paris, Comédie de Genève, Internationales Sommer Festival Kampnagel, Les Célestins –Théâtre de Lyon, Kunstenfestivaldesarts, Wiener Festwochen, Holland Festival, Frascati Producties HAU Hebbel am Ufer -Berlin, and Maillon, Théâtre de Strasbourg – Scène européenne.

Agenda de Apresentações

Volkstheater, Viena – Wiener Festwochen
1 e 2 de junho de 2025

Holland Festival, Amsterdã
18 a 20 de junho de 2025

GREC, Barcelona
11 e 12 de julho de 2025

Bienal de Dança de Veneza
18 a 20 de julho de 2025

Kampnagel Sommerfestival, Hamburgo
14 a 16 de agosto de 2025

HAU, Berlim
30 de outubro e 1º de novembro de 2025

Les Célestins, Teatro Lyon
6 a 8 de novembro de 2025

Maillon, Teatro de Estrasburgo
13 a 15 de novembro de 2025

La Villette – Festival de Outono em Paris
19 a 30 de novembro de 2025

Comédie de Genève
22 a 25 de abril de 2026

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Ilha do Massangano, um reduto de encanto
Dossiê Aldeia do Velho Chico
#10

Artistas e público na Ilha do Massangano. Foto Fernando Pereira / Divulgação

 

Pankararus Foto André Amorim / Divulgação

“Alguém me avisou para pisar nesse chão devagarinho”, indica a canção. Para pisar em território sagrado é preciso pedir Agô, me disseram. Agô significa uma solicitação de licença em Yorubá. Assim se deve fazer para facilitar a chegada, harmonizar.

Não sei se qualquer um esqueceu de pleitear passagem no translado de barco entre Petrolina e a Ilha de Massangano, mas no trajeto a Barca Nilo Brasileiro deu um susto nos passageiros ao esbarrar nas grandes pedras imersas no Rio São Francisco. Ou foi uma brincadeira de algum encantado. Bem, um pouco de emoção não faz mal a ninguém.

E seguimos naquele domingo de agosto para saborear um dia bem especial. É a festa da Aldeia do Velho Chico na Ilha do Massangano, com direito à sensação de suspensão de tempo (desacelera coração para curtir as coisas simples, as mais ricas do mundo, que o dinheiro não pode comprar).

Trilhas Ancestrais, com Camila Yasmine, de Petrolina e Gean Ramos, de Jatobá. Foto Andre Amorim

Nessa travessia, além de apreciar a Mostra Flutuante de Artes Visuais – Rio a Dentro: Confluências do imaginário Ribeirinho com peças de artesãos do Vale do São Francisco, também assistimos à apresentação musical Trilhas Ancestrais, com Camila Yasmine, de Petrolina e Gean Ramos, de Jatobá, com seus lindos cantos de protesto.   

Yasmine investe nos encantos do Rio São Francisco e do Samba de Véio nas suas músicas. E trabalha com as musicalidades e interpretações da identidade cultural do povo negro no resgate da ancestralidade, com ginga e alegria.

Punâ Pankararu, nome indígena do músico e produtor cultural Gean Ramos, aprendeu a gostar de música com os pais Seu Eronildes e Dona Tida e cresceu ouvindo sonoridades dos animais da aldeia, das manifestações da natureza e as expressões de festa nas celebrações do seu povo. Sua música tem um pouco disso tudo com o posicionamento político de quem reivindica os direitos dos povos originários em versos, rima e som.  

Apresentação dos Pankararus na Ilha do Massangano. Foto André Amorim / Divulgação

A Ilha do Massangano é uma porção de terra de cerca de cinco quilômetros quadrados cravado no meio do Rio São Francisco. Pense nas ilhas que você imaginou na infância, ou leu em livros, ou viu em filmes. O que posso dizer é que é uma experiência inigualável.

Essa ilha tem dona. Ou donas / donos. Encantados e encarnados. Todos têm os seus caprichos. Portanto, cuidado e respeito. “Terra alheia, pisa no chão devagar”, diz o canto. Pedi licença, como já disse, aos ancestrais que atravessaram essa história.

O Rio manda no pedaço. No modo de ser, de andar, de pensar. 

O gestual de quem trabalha na monocultura da cana-de-açúcar é forjado também na lida. Observem os passos e os jogos de corpo do maracatu. Quem é do mar tem outra regência. Os ventos, a terra, as águas, o Sol, o sal, a Lua influenciam no jeito de ser das gentes e seus territórios.

Não seria diferente com as pessoas, com os artistas da região do Vale do São Francisco, em sua prosódia, jeito de andar e de dançar. O Rio é o vetor de um modo de ser, viver e se relacionar com o mundo. Talvez mais doce, como suas águas, quem sabe algo menos reto e mais ondulado se instala no corpo.

“A ilha do Massangano é o local dos antepassados, do trabalho, dos festejos, da sociabilidade, da família, da própria identidade… o sentimento de pertencimento à ilha. Essa identidade está muito ligada aos seus cultos (religiosidade), à forma como se relacionam entre si, à estrutura familiar e ao samba de véio”, escreve a professora Antonise Coelho de Aquino na sua dissertação de mestrado Ilha do Massangano : dimensões do modo de vida de um povo; a (re) construção do modo de vida e as representações sociais da Ilha do Massangano no Vale do São Francisco, transformada no livro Ilha do Massangano: uma terceira margem no Velho Chico.

Samba da Beira. Foto Tássio Tavares / Divulgação

“Puxar um samba, que tal? Para espantar o tempo feio?”, propõe Chico Buarque e o Samba da Beira, grupo musical de Petrolina já faz isso há cinco anos. Propôs um trago na Ilha do Massangano.

O Samba da Beira animou o povo com músicas maneiras e/ou bem dançantes, celebrou a vida, o Rio e todas as conexões incríveis de um dia de festa. Com alegria vislumbrou um novo tempo, que está chegando com muito trabalho para uma vida não fascista. sem medo de ser feliz! Brindes.

Palestra sobre Economia Criativa e a Transformação dos Territórios. Na foto Rita Marize, Josiana Ferreira, Galiana Brasil e Oswaldo Ramos. Foto: André Amorim / Divulgação

Uma pausa para trocar uma ideia foi a proposta da Palestra sobre Economia Criativa e a Transformação dos Territórios, com Galiana Brasil (Itaú Cultural), Oswaldo Ramos (Sesc Pernambuco), Josiana Ferreira (SEBRAE – Petrolina/PE) e Mediação de Rita Marize (Sesc Pernambuco). 

Cada qual falou de suas práticas e propostas para o território de Petrolina. Mas muitas vezes as entidades chegam com um discurso que parecem ensinamentos mais que diálogos, nossa herança colonial. Numa das falas, Ramos deixou a entender que estaria inaugurando algo naquele pedaço.

Uma empreendedora, empresária da cidade, ou melhor uma guerreira ancestral pediu a palavra para fazer um posicionamento das lutas travadas de dentro do capitalismo e contra os abusos do sistema para realizar coisas muito bonitas naquele território. Uma fala firme, direta, comungada com o chão. Sol, apaixonante.

O tom inauguratório foi baixado e a conversa seguiu com as propostas e ações que serão tocadas pelo HUB Criativo, que esperamos que na próxima edição da Aldeia do Velho Chico tenha muitas realizações para apresentar.

Pankararus. Foto André Amorim / Divulgação

O Samba da Peba Véia , com Mel Nogueira- Foto Tássio Tavares /Divulgação

Luanda Ruanda – Foto André Amorim_24

O Encontro dos povos originários com Pankararus, de Jatobá e Tuxás de Inajá foi marcado pelo sentimento de luta e resistência. Teve discursos para expor o descaso e mesmo perseguição aos indígenas por parte desse desgoverno federal. E celebração da luta, com suas danças e cantos de guerra, louvor e festa.

Mel Nogueira fez suas homenagens à ancestralidade com a performance O Samba a Peba Véia. Um vestido é materialização de uma saudade, de uma vida que se agita noutro corpo, na dança e no aprendizado de outra arte. É emoção para a artista que continua na brincadeira. 

O mundo foi reinventado / redescoberto pelo prisma da cultura africana no espetáculo Luanda Ruanda – Histórias Africanas, do Coletivo Tear, de Garanhuns. Com trilha original executada pelos músicos garanhuenses Alexandre Revoredo e Nino Alves.

A peça funcionou como mais um bálsamo na ilha, quando as narrativas orais de raízes africanas e afro-brasileira, os elementos cênicos e as paisagens sonoras da peça se misturam com o ambiente deslumbrando do Massangano, remetendo para outros tempos e outros territórios, valorizando a identidade negra. Um embalo cênico em estado de levitação. 

Dançando aos Pés do Baobá. Foto Tássio Tavares / Divulgação

Cartas ao Vento com Déa Trancoso. Foto Tássio Tavares / Divulgação

O Baobá é uma árvore símbolo da resistência na cultura africana. Muitas lendas e mitos existem sobre o baobá. Uma delas é que os africanos foram obrigados a deixarem suas memórias em volta do baobá na época da diáspora africana. Dançando aos Pés do Baobá – Na Fresca do Baobá se constitui numa louvação dos artistas  Daniela Amoroso, Denilson das Neves e Larissa Zani, de Salvador, na Bahia, a tudo o que o baobá significa de força e fertilidade.

Ao entardecer, à beira do São Francisco, a cantora, compositora e pesquisadora Déa Trancoso deu o seu recado no show Cartas ao vento. No concerto solo, tocou cuatro venezuelano (instrumento da família do violão), que ela ganhou da chilena Tita Parra. Sua proposta é ambiciosa de criar e compartilhar canções que atuem entre mundos existentes. Déa navega pela arte promovendo a fruição e a cura, a experiência suprema do corpo a partir da música.

Grupo Africania mostrou seu som a partir do disco O Curador do Museu do Imaginário. Foto: Divulgação

O grupo Africania levou o som do seu álbum O Curador do Museu do Imaginário para ilha no final da festa. É mais que samba de batuque do Sertão da Bahia; cabe uma mistura com samba chula e toada em diálogo antropofágico com as influências da música mundial do jazz, rock e música psicodélica. É uma musicalidade contagiante repleta de axé e ancestralidade, amor e futuro,  talento e transpiração.  

Foi intenso. Como não poderia faltar, teve Samba de Véio, símbolo da ilha do Massangano. “Existem hipóteses entre os moradores mais antigos de que o samba nasceu com os negros escravos refugiados nos quilombos …  ou com os índios cariris que habitavam o alto sertão pernambucano, muito antes dos portugueses que aqui”, está anotado na dissertação de Antonise Coelho de Aquino.

Dançar essa dança é um ato político. E não vá pensando que é fácil, né não. Tem toda uma técnica, que está atravessada por experiências singulares de festejos e performances da oralidade. Além dos exercícios convivência, da comunhão, das trocas comunitárias. Uma poética derramada em paisagens, sonoridades, jeito de corpo, festas e danças comandadas pelas praticas populares da ilha.

Meu olhar de estrangeira. Cúmplice e crítico. Que não sabe das idiossincrasias locais, dos seus afetos monumentais, mas consegue perceber o movimento dos barcos e das pessoas saiu repleto de atravessamentos. O acolhimento, os seguidores, os resistentes. Essa experiência ficará para sempre guardado num lugar da memória. Suas imensas riquezas e suas ínfimas falhas.

Samba de Veio da Ilha do Massangano. Foto Fernando Pereira / Divulgação

Uma festa na Ilha do Massangano com o Samba de Veio. Foto Fernando Pereira / Divulgação

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