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Convocatória MITbr: últimos dias
de inscrições na Plataforma Brasil 2026

Grupo Cena 11, de Florianópolis (SC)  na MITbr 2024 com Eu não sou só eu em mim. Foto: Silvia Machado

A contagem regressiva começou. Entram na reta final as inscrições para a MITbr – Plataforma Brasil 2026, vitrine estratégica da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp) dedicada a dar projeção internacional às artes cênicas brasileiras. O prazo se encerra em 15 de setembro no mitsp.org, e a convocatória — gratuita — é um convite a artistas, coletivos e companhias do país que queiram dialogar com curadores e programadores do circuito global.

Esta chamada é uma oportunidade de circulação, articulação e troca. Ao reunir espetáculos e proposições que refletem a diversidade estética e territorial do Brasil, a MITbr funciona como pontilhão entre a criação brasileira e os palcos do mundo.

Em 2025, a MITbr registrou 454 inscrições, um termômetro da vitalidade do setor e do interesse crescente pela plataforma. Para 2026, a expectativa é de ampliação desse alcance.

O que é a MITbr e por que ela importa 

  • É a plataforma da MITsp dedicada a apresentar um recorte curatorial da produção contemporânea brasileira (teatro, dança, performance) para programadores nacionais e internacionais.
  • O objetivo é acelerar convites, turnês, coproduções e residências, fortalecendo a internacionalização de artistas, companhias e coletivos do Brasil.
  • A curadoria é independente, e a seleção privilegia diversidade de estéticas, territórios e vozes, com atenção a grupos historicamente sub-representados.
  • Aumento da presença de artistas brasileiros em festivais e temporadas no exterior.
  • Fortalecimento de parcerias e coproduções, com impacto na sustentabilidade dos projetos.
  • Curadoria atenta a diversidade de linguagens (teatro, dança, performance e hibridismos), trazendo obras que tensionam formas e discursos.
  • Ampliação do olhar para além dos grandes centros, com maior atenção a territorialidades múltiplas.

Desafios em pauta

  • Logística e financiamento: a viabilização de turnês e deslocamentos segue como grande gargalo, especialmente para projetos de regiões distantes dos principais eixos de transporte.
  • Representatividade e acesso: refletir a pluralidade brasileira na programação exige políticas ativas e contínuas, considerando recortes étnico-raciais, de gênero, de deficiência e de território.
  • Diferenças de escala: obras intimistas e de pequeno porte competem, no radar internacional, com produções de maior orçamento — um equilíbrio que demanda mediação curatorial e negociação com a rede de programadores.
  • Sustentabilidade: pensar circulação de modo mais responsável (carbono, materiais, logística) tornou-se pauta transversal.
  • Apesar dos obstáculos, a MITbr vem acumulando resultados concretos: maior visibilidade no exterior, redes de colaboração mais densas e um diálogo curatorial que se atualiza a cada edição.

O que os curadores costumam observar

  • Intelecção artística: uma obra com proposição estética nítida e coerência entre linguagem, tema e dispositivo cênico.
  • Potencial de circulação: condições técnicas claras, adaptabilidade a diferentes espaços, e documentação audiovisual que reflita a experiência de público.
  • Singularidade e contexto: projetos que tragam vozes, territorialidades e imaginários pouco vistos no circuito internacional chamam atenção — especialmente quando articulam rigor formal e potência política                                                                                                                                   

Serviço — MITbr 2026

MITbr – Plataforma Brasil 2026 (chamada pública)
Inscrições: Até 15 de setembro de 2025
Divulgação dos selecionados: até 1º de dezembro de 2025
Apresentações: de 5 a 15 de março de 2026, em São Paulo
Taxa: inscrições gratuitas
Onde: site oficial da MITsp — mitsp.org

 

A MITsp em Avignon 2025:
Projeção Cultural Brasileira e Seus Desdobramentos

História do Olho, de Janaina Leite (São Paulo/SP). Foto: Reproduão do Instagram

A participação da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp) no Festival Off Avignon, realizada entre 5 e 13 de julho de 2025, constituiu um esforço notável na estratégia de projeção cultural brasileira no cenário internacional. Organizada no âmbito da Temporada Brasil França 2025 e respaldada por financiamento do Ministério da Cultura e patrocínio da Petrobras, a iniciativa buscou estabelecer um intercâmbio substancial, apresentando um recorte da produção nacional a um público e a programadores globais.

A delegação brasileira em Avignon foi composta por um programa com quatro espetáculos de teatro e dança, três filmes e três conferências. No palco francês, obras como História do Olho, de Janaina Leite (São Paulo/SP), foram apresentadas, explorando a fronteira entre o ficcional e o documental. AZIRA’I – Um Musical de Memórias, da atriz indígena Zahy Tentehar, trouxe à cena narrativas que ressoaram pela sua pertinência e pela performance de sua criadora. Fábio Osório Monteiro, com Bola de Fogo, propôs uma interação que mesclava o preparo de um quitute tradicional com discussões sobre identidades, enquanto Eles Fazem Dança Contemporânea, de Leandro Souza, abordou questões sobre a presença negra na arte contemporânea ocidental. Foram exibidos os filmes O Diabo na Rua no Meio do Redemunho, de Bia Lessa; A Queda do Céu, de Éryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha; e As Cadeiras, de Luís Fernando Libonati. A programação foi enriquecida por conferências com intelectuais como Geni Núñez, Rosane Borges e Vladimir Safatle, que ofereceram análises sobre o Brasil contemporâneo sob perspectivas indígenas, raciais, de gênero e políticas.

Passados dois meses do evento, a recepção da presença brasileira em Avignon registrou resultados observáveis. A crítica especializada francesa dedicou cobertura às obras brasileiras, com comentários que abordaram a diversidade de temas, a inventividade das linguagens e a performance dos artistas. Sessões nas salas de La Manufacture registraram presença de público compatível com as expectativas, especialmente para os espetáculos que já possuíam um histórico de apresentações em festivais no Brasil. A imprensa francesa, incluindo publicações como Le Monde e Libération, veiculou comentários sobre a abordagem curatorial da MITsp, que procurou apresentar aspectos variados da cultura brasileira.

No que tange aos programadores e profissionais do setor, a exposição das obras brasileiras foi um objetivo cumprido. Relatos da própria MITsp e informações veiculadas indicam que discussões foram iniciadas com diversos programadores de festivais e espaços culturais de distintos países para possíveis futuras apresentações e parcerias. Guilherme Marques, diretor geral de produção da MITsp, indicou que o nível de engajamento alcançado foi significativo. As conferências e sessões de filmes também registraram participação considerável, o que agregou um componente de debate e reflexão à apresentação artística.

Em relação ao investimento e à percepção pública, a participação da MITsp em Avignon foi sustentada por financiamento público e privado. A repercussão da imprensa brasileira, tanto no período pré-evento quanto no pós-evento, focou predominantemente nos anúncios e na apresentação da iniciativa, com alguns veículos indicando desdobramentos positivos em termos de interesse e visibilidade para os espetáculos. 

A narrativa observada na cobertura midiática sugere que o aporte financeiro é contextualizado pela projeção da cultura brasileira e pela busca de novas avenidas de intercâmbio, cujos resultados tangíveis, como convites concretos para novas apresentações, ainda se encontram em fase de maturação e negociação. Tal perspectiva alinha-se à compreensão de que ações de projeção internacional, especialmente no campo cultural, demandam tempo para que seus impactos e retornos se manifestem plenamente.

 

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Flup Pernambuco:
Marco histórico na democratização
dos saberes periféricos

Algumas presenças da Flup.PE: Jessé Souza, Jaqueline Fraga (curadora), Luciany Aparecida, Carla Akotirene, Tarciana Portella (coordenação), Mãe Beth de Oxum , Robeyoncé Lima, Marilene Felinto, Julio Ludemir (criador da Flup-RJ),Vitor da Trindade, Cannibal e Itamar Vieira Jr.

A chegada da Festa Literária das Periferias (Flup) ao território pernambucano representa um movimento que reconhece as periferias como espaços de produção intelectual e resistência cultural sistematicamente invisibilizados pelos circuitos dominantes da literatura brasileira.

A partir de hoje, 10 de setembro, o Compaz Governador Eduardo Campos, no Alto de Santa Terezinha, se transforma em epicentro de debates que ultrapassam as fronteiras convencionais entre conhecimento acadêmico e saberes populares. 

Criada em 2012 no Rio de Janeiro por Julio Ludemir e Écio Salles (in memoriam), a Flup desembarca pela primeira vez em Pernambuco após 14 anos de consolidação na capital fluminense. A chegada ao estado acontece a partir da articulação de Tarciana Portella, coordenadora da Flup Pernambuco e cofundadora do Instituto Delta Zero, que conhecia Julio Ludemir desde a adolescência. Após acompanhar o trabalho do jornalista e escritor ao longo dos anos, Tarciana participou da festa no Rio em 2023, no Morro da Providência, e percebeu que essa experiência precisava chegar a Pernambuco, terra de tradição literária e cultural efervescente.

O evento, que reúne autores, intelectuais, artistas, lideranças religiosas e pensadores do Brasil para debater ideias que emergem das periferias, conta com extensa programação gratuita que traz nomes como Itamar Vieira Jr., Jessé Souza, Vitor da Trindade, Robeyoncé Lima, Marilene Felinto, Luciany Aparecida, Carla Akotirene, Cannibal, Odailta Alves, Bell Puã, Isaar, Mãe Beth de Oxum, Ellen Oléria, Lucas dos Prazeres, e muito mais 

A partir deste terça-feira, 10 de setembro, o Compaz Governador Eduardo Campos, no Alto de Santa Terezinha, se transforma em epicentro de debates que ultrapassam as fronteiras convencionais entre conhecimento acadêmico e saberes populares. A escolha deste equipamento público, reconhecido pela UNESCO por suas práticas de cidadania e cultura de paz, materializa o compromisso da Flup com a ocupação democrática dos espaços culturais.

A homenagem ao poeta e ativista Francisco Solano Trindade (1908-1974) estabelece um fio condutor que conecta diferentes momentos da luta antirracista brasileira. Nascido no Recife e declarado Patrono da Luta Antirracista de Pernambuco em 2020, Trindade antecipou debates contemporâneos sobre representatividade e acesso cultural e formulou um projeto que via na arte popular um instrumento de transformação social.

A presença de Liberto Solano Trindade, filho do poeta, junto com sua companheira Nilu Strang, na programação da Flup constitui uma ponte entre gerações. O casal participa de atividades que dialogam com ancestralidade e memória, incluindo a ação pedagógica Nós que somos Solano Trindade, que começou no dia 8 e vai até 12 de setembro. A proposta expande a memória da família, incluindo também Margarida Trindade, esposa e parceira artística de Solano, cuja história será resgatada em cordel.

Um Elenco de Vozes Transformadoras

Sob a curadoria da escritora e jornalista Jaqueline Fraga, autora do livro Negra Sou: a ascensão da mulher negra no mercado de trabalho (finalista do Prêmio Jabuti 2020), a programação reúne nomes fundamentais do pensamento brasileiro contemporâneo. O sociólogo Jessé Souza, autor de A Elite do Atraso e O Pobre de Direita, divide espaços com a pesquisadora Carla Akotirene, referência nos estudos sobre interseccionalidade e feminismo negro.

O escritor baiano Itamar Vieira Jr., vencedor dos prêmios Jabuti e Oceanos com Torto Arado, participa ao lado de Vitor da Trindade, filho de Solano, numa mesa que questiona A quem a arte incomoda? E a quem deve servir?. A cantora e compositora Ellen Oléria, vencedora do The Voice Brasil, encerra a programação junto com o poeta pernambucano Lucas dos Prazeres, explorando as fronteiras entre música e poesia.

A escritora e jornalista Bianca Santana, autora de Quando me descobri negra, participa dos debates sobre juventude negra. A física e escritora Sônia Guimarães, primeira mulher negra doutora em Física no Brasil, divide a mesa Pioneiras, sim! Sozinhas, não! com a advogada travesti Robeyoncé Lima, pioneira na advocação trans em Pernambuco.

Das lideranças religiosas, participam Pai Ivo de Xambá, Mãe Beth de Oxum e Pai Lívio, que abordarão A força e a resistência do sagrado em Pernambuco.

Esmeralda Ribeiro, uma das fundadoras dos Cadernos Negros, Inaldete Pinheiro, autora de Pixaim em versos soltos, Odailta Alves, com As bonecas de Nyashia, Marilene Felinto, escritora, jornalista e crítica literária, Lorena Ribeiro, escritora e ativista feminista, e Luciany Aparecida, autora de Mata Doce, finalista do Prêmio Jabuti 2024, trazem suas perspectivas autorais para os debates.

Nas artes visuais e performance, participam Jeff Alan, artista visual, e Andala Quituche, fundadora do Museu das Tradições do Cavalo-Marinho. O universo musical traz o cantor e compositor recifense Cannibal e a artista Isaar França, que compõem um mosaico sonoro diversificado ao lado de Ellen Oléria e Lucas dos Prazeres.

Compaz Alto Santa Terezinha. Foto: Andrea Rego Barros/ Divulgação

Desafios Estruturais e Estratégias de Superação

A implementação da Flup em Pernambuco enfrenta desafios estruturais que espelham as desigualdades do campo cultural brasileiro. O financiamento foi viabilizado através de emendas parlamentares do deputado Renildo Calheiros e do senador Humberto Costa, via Ministério da Cultura, além do patrocínio do Banco do Nordeste e apoio da Prefeitura do Recife.

A coordenação de Tarciana Portella, através do Instituto Delta Zero, demonstra como a economia criativa pode funcionar como vetor de desenvolvimento territorial. “A Flup é processo, plataforma de pensamento, conexões e incubação de talentos antes invisibilizados”, define ela, que quando conheceu a festa no Rio de Janeiro em 2023 percebeu que essa experiência precisava chegar a Pernambuco.

O modelo curatorial adotado pela Flup Pernambuco reflete avanços significativos na reconfiguração dos circuitos literários nacionais. A festa chega ao Nordeste após 14 anos de consolidação no Rio de Janeiro, onde se tornou Patrimônio Cultural Imaterial do Estado em 2023 e acumulou prêmios como o Jabuti (2020) e o Excellence Awards (London Book Fair, 2016).

A escolha do Alto de Santa Terezinha como sede do evento é logística, mas também estratégica. No Recife, os morros — chamados de Altos — ocupam 68% do território urbano, mas quem circula por eles são, em grande parte, seus próprios moradores. Ao ocupar este território periférico com programação cultural de alto nível, a Flup contesta geografias simbólicas que concentram a produção intelectual em áreas centrais das metrópoles.

Esta territorialização da cultura possibilita o que caracteriza uma democratização real dos espaços de legitimação intelectual. A programação temática abrange desde discussões sobre juventude negra até debates sobre feminismos e religiosidades afro-brasileiras, evidenciando uma sofisticação conceitual que supera a dicotomia entre cultura popular e erudita.

Homenagem ao poeta e ativista Francisco Solano Trindade (1908-1974)

Programação Completa – Flup Pernambuco 2025

10 de setembro (Quarta-feira)

– 15h – Roda de Diálogo: Nós que somos Solano Trindade
Participantes: Liberto Solano Trindade e Nilu Strang

17hSarau Versos e Raízes
Participantes: Odailta Alves, Mariana Brito, Regilane Franca, Maria Carolina, Débora Santos, Miriam Gomes
Apresentação musical: Ana Benedita Costa

18h30 – Cerimônia de Abertura

– 19h – Mesa: Sabemos a direção? Como resgatar a juventude negra
Participantes: Bianca Santana, Jessé Souza
Mediação: Jéssica Santos

– 20h30 – Lançamentos
Livros de Jessé Souza, Bianca Santana e Jéssica Santos

11 de setembro (Quinta-feira)

– 15h – Lançamentos de autores independentes
Caio do Cordel (Super Negro), Cibele Laurentino (Nobelina), Ana Daviana (Essa mundana gente)

– 17h – Lançamentos
Inaldete Pinheiro (Pixaim em versos soltos), Odailta Alves (As bonecas de Nyashia), Iaranda Barbosa (Ponto de Luz)

– 18h30 – Mesa 1: Ancestralidade em vida: construindo e abrindo caminhos
Participantes: Esmeralda Ribeiro, Inaldete Pinheiro
Mediação: Odailta Alves

– 20h – Mesa 2: Conhecimento é alimento cultural
Participantes: Carla Akotirene, Cannibal
Mediação: Iaranda Barbosa

12 de setembro (Sexta-feira)

– 15h – Lançamentos de autores independentes
Samuel Santos (Maria Preta), Luciene Nascimento (Tudo nela é de se amar), Marcondes FH (Rosa Menininho)

– 17h – Mesa 1: A força e a resistência do sagrado em Pernambuco
Participantes: Pai Ivo, Mãe Beth de Oxum
Mediação: Pai Lívio

– 18h30 – Mesa 2: A arte como vetor, movimento e inspiração
Participantes: Salgado Maranhão, Isaar
Mediação: Luciana Queiroz

20h – Mesa 3: A quem a arte incomoda? E a quem deve servir?
Participantes: Itamar Vieira Jr., Vitor da Trindade
Mediação: Lenne Ferreira

– 21h30 – Lançamentos
Livros de Itamar Vieira Jr. e Vitor da Trindade

13 de setembro (Sábado)

– 14h – Lançamentos de autores independentes
Eron Villar (O Carnaval de Capiba), Vera Lúcia e Wedna Galindo (Espanador não limpa poeira), Fátima Soares (Ossos)

– 15h – Mesa 1: Sonhos vivos: o poder da cultura na construção social
Participantes: Jeff Alan, Andala Quituche
Mediação: Thayane Fernandes

– 16h30 – Mesa 2: O futuro é agora e feminino. E a literatura também
Participantes: Marilene Felinto, Lorena Ribeiro
Mediação: Bell Puã

– 18h – Lançamentos
Livros de Thayane Fernandes, Lorena Ribeiro, Marilene Felinto

– 18h30 – Mesa 3: Pioneiras, sim! Sozinhas, não!
Participantes: Sônia Guimarães, Robeyoncé Lima
Mediação: Renata Araújo

– 20h30 – Espetáculo: Se eu fosse Malcolm
Artistas: Eron Villar e DJ Vibrasil
Peça inspirada no legado de Malcolm X, entre música identitária e teatro épico-narrativo

14 de setembro (Domingo)

– 14h – Lançamentos de autores independentes
João Gomes (Revezamento Secreto), Célia Martins (Ara-Y), Maria Cristina Tavares (As aventuras de Bayo em Terras Africanas), Robson Teles (Ave, Guriatã)

– 15h – Mesa 1: Acessos e permanências: nosso lugar é todo lugar
Participantes: Luciany Aparecida, Amanda Lyra
Mediação: Érico Andrade

– 16h30 – Lançamentos
Livros de Érico Andrade e Luciany Aparecida

– 17h – Mesa 2: Entre sons e sensações: palavra é música e música é poesia
Participantes: Ellen Oléria, Lucas dos Prazeres
Mediação: Marta Souza

– 19h – Encerramento
Apresentação artística de Lucas dos Prazeres com participação de Ellen Oléria

Serviço

📍 Compaz Governador Eduardo Campos – Alto de Santa Terezinha, Recife/PE
📅 10 a 14 de setembro de 2025
⏰ Diariamente das 14h às 21h30
Entrada: Gratuita
♿ Acessibilidade: Interpretação em Libras em todas as atividades
🍽️ Serviços: Feira de livros e espaço gastronômico permanentes
📱 Informações:
Instagram: @flup.pe2025
Site: www.vempraflup.com.br
🤝 Realização: Instituto Delta Zero e Ministério da Cultura
💼 Parcerias: Flup (RJ), Suave, Associação Na Nave, Sintepe, Araçá Produções Culturais
💰 Patrocínio: Banco do Nordeste (BNB)
🏛️ Apoio: Prefeitura do Recife, coletivos Redes do Beberibe, Minas Comunicação e Cultura, Negras Linhas, Negra Sou, Cooperativa Ecovida Palha de Arroz

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Cartografia cênicas:
o teatro desses dias de setembro no Recife

-Gregório Duvivier em O céu da língua. Foto Priscila Prade / Divulgação 

Numa cidade como o Recife, que transborda manifestações culturais diariamente, nossa curadoria teatral seleciona espetáculos que merecem atenção de público implicado, apaixonado. O teatro, como linguagem que nos interessa prioritariamente, divide espaço com propostas cênicas híbridas e performances que expandem fronteiras artísticas, compondo um mosaico que vai do experimental franco-pernambucano às grandes produções nacionais que escolhem Recife como praça. Nessas sugestões também incluímos a estreia da Flup.PE (Festa Literária das Periferias) e dois shows musicais autorais – Ivyson e Pedra Letícia – que dialogam com nossos interesses.

Nosso recorte aponta a oferta de montagens na cidade que problematizam questões contemporâneas através de linguagens cênicas variadas, biografias artísticas que se transformam em dramaturgia e propostas que interrogam o próprio fazer teatral. São nossas apostas temporárias entre locais e circulação nacional, destacamos trabalhos que dialogam com urgências do presente e que buscam alguma complexidade formal.

Banquete de Amor e Falta, da (Acupe Grupo de Dança, integra programação do CumpliCidades

Operando como laboratório de questões identitárias contemporâneas, o festival Cena CumpliCidades reúne três coreografias internacionais que funcionam como tríptico sobre pertencimento cultural. Com 30 minutos de duração, Chenn com Yoghan “Hope” Tacita e Francis “Madak” Saint-Albin, articula hip-hop, break e krump como arqueologia do trauma colonial, enquanto Frida Kahlo – A Coluna Quebrada, solo de Jussandra Sobreira, investiga em 10 minutos a transcendência artística através da dor física. Completando o trio, Mes Horizons. com Shaona Legrande, propõe reflexão intimista de 15 minutos sobre identidade cultural – produção Touka Danses CDCN Guiana Francesa que dialoga diretamente com processos de descolonização cênica.

Dentro da programação local do CumpliCidades, a performance Se Eu Fosse Malcolm não se constitui como biografia, mas como diálogo crítico com o legado de Malcolm X através de teatro épico narrativo que amalgama música identitária e abordagem decolonial. I

nspirado em estudos lacanianos sobre topologia amorosa, Banquete de Amor e Falta (Acupe Grupo de Dança) traduz pesquisas do Sistema Laban em movimentação cênica que explora figuras topológicas na perspectiva do amor, mergulhando na poesia como alicerce para linguagem corporal.

A partir do romance de Rachel de Queiroz, Mouras utiliza o universo de Maria Moura como pretexto para investigação coreográfica sobre resistência feminina nordestina, transformando o palco em território vivo de luta e memória. A investigação sobre identidade prossegue em Se eu fosse eu, onde Luna Padilha convida o público a refletir sobre autopercepção através da dança, explorando a tensão entre o “eu real” e o “eu persona” num encontro com os múltiplos EUS que habitam cada corpo.

Contando Histórias é apresentado pela ONG INTEGRARTE, que favorece o desenvolvimento de pessoas com déficit de inteligência através da arte. O espetáculo nasceu do contexto da pandemia, criando trama onde artistas isolados em suas casas encontram, nos sonhos, a possibilidade de se reunir novamente. Entre abraços e reencontros imaginados, cada um compartilha sua vivência durante a Covid-19, transformando saudade, dor e resistência em poesia cênica com leveza, emoção e sensibilidade que reafirma o poder da arte como memória, encontro e cura coletiva.

Balancê Antropofágico propõe inversão simbólica onde ancestralidade nordestina “devora” modernidade europeia – projeto de YLA (19 anos de vivência francesa) com guitarrista Jeff Manuel que opera como manifesto sonoro anticolonial.

Ocupação Espaço O Poste aposta na arte continuada e formação. Na foto Helô em Busca do Baobá Sagrado

Fomentado pelo Programa FUNARTE de Apoio A Ações Continuadas 2023, a Ocupação Espaço O Poste desenvolve programação que democratiza acesso às artes cênicas através de propostas experimentais e pedagógicas. Helô em Busca do Baobá Sagrado exemplifica essa abordagem ao apresentar ensaio aberto que convida crianças e responsáveis a contribuir com olhares sobre obra em processo, transformando a menina Helô numa heroína que parte em missão para encontrar o Fruto Sagrado do Baobá e curar seu povo da tristeza ocasionada pelo racismo.

A proposta de Agrinez Melo reúne personagens encantados como Pé de Jaca, Dr. Sapão, Anahí, Corujita e Comadre Fulorzinha numa aventura que confronta Seu Quadrado e sua visão cinza do mundo, operando simultaneamente como arte e ferramenta de transformação social. O projeto Ocupação exemplifica políticas de fomento continuado que garantem pesquisa, experimentação e formação em espaços artísticos independentes, consolidando circuitos alternativos de produção na cidade.

Enquanto você voava, eu criava raízes, da Cia. Dos à Deux. Foto: Divulgação

Precedido de 60 mil espectadores e críticas que destacam sofisticação dramatúrgica, O Céu da Língua chega com Gregório Duvivier – formado em Letras, autor de três livros de poesia – utilizando stand-up como dispositivo para reflexão metalinguística sobre língua portuguesa. Sob direção de Luciana Paes (Cia. Hiato), o espetáculo opera entre comédia e ensaio, propondo “escuta afetuosa” da linguagem cotidiana.

Representando 25 anos de pesquisa franco-brasileira, Enquanto você voava, eu criava raízes (Cia. Dos à Deux) consolida linguagem de André Curti e Artur Luanda Ribeiro que prescinde da palavra para investigar corporalidades em trânsito. Premiado por APTR e Shell, o trabalho exemplifica teatro físico contemporâneo que dialoga com tradições europeias sem perder especificidade brasileira.

Memória e Biografia como Dramaturgia

Mel Lisboa como Rita Lee

Através da figura de Renato Prietto – ator consagrado da dramaturgia kardecista nacional – Chico Xavier em pessoa propõe “sabatina” com o médium que psicografou mais de 400 livros. Dirigido por Rogério Faria Jr., o formato transmídia questiona fronteiras entre encenação e documento, transformando figura histórica em personagem teatral através de dramaturgia de Rodrigo Fonseca.

Marcando retorno de Mel Lisboa ao papel que a consagrou, Rita Lee Autobiografia Musical desta vez se baseia na autobiografia da cantora (bestseller com 200 mil exemplares). Sob direção de Márcio Macena e Débora Dubois, a montagem transforma confissão editorial em partitura cênica, explorando “honestidade escancarada” como material dramatúrgico.

Produções Pernambucanas em Destaque

Aurora entre vias e vida. Foto Max Levay

Inaugurando dramaturgia autoral do Centro de Artes Grupo Vida (45 anos, Rita Vieira), Aurora entre Vias e Vidas transforma toponímia recifense – Rua do Sol, Rua da Aurora – em alegoria urbana. Com direção cênica de Analice Croccia, o espetáculo reúne 60 bailarinos em proposição multigeracional que inclui intervenção de arte urbana (Teo Armando) e trilha com artistas pernambucanos, celebrando a cidade através de dança multimídia que combina jazz, sapateado, contemporâneo e danças urbanas.

Idealizado por Babi Johari em coautoria com Caio Pinheiro, Híbridos – Enlaces explora ancestralidade das conexões através de dança fusionada de base oriental árabe. A proposta gratuita no Teatro Arraial transborda inquietações através de impressões próprias sobre liberdade, movimento e som, caracterizando-se por elementos diferentes que compõem este gênero de dança híbrida.

Vencedor de Melhor Espetáculo no festival Janeiro de Grandes Espetáculos 2023, Pedras, Flor e Espinho – O Musical mergulha na cultura nordestina através da história de uma família sertaneja em fuga após emboscada que muda seus destinos. A produção traz emoção, poesia e trilha sonora autoral, transformando jornada árida em narrativa sobre violência e esperança do sertão.

As avós, com Olga Ferrario

Investigando ancestralidade feminina através de experimentação que conecta teatro e cinema, As Avós (Olga Ferrario) propõe “espiral em movimento” como metáfora para transmissão matrilinear de saberes. A montagem dialoga com tendências contemporâneas de autobiografia familiar como material cênico, convocando sentimentos, sensações e aprendizados sobre ciclos, nascimentos e mortes.

Teatro Imersivo e Novas Tecnologias
Representando adaptação brasileira de formato internacional, The Jury Experience (direção Talita Lima) transforma espectadores em jurados de caso criminal fictício. A proposta utiliza códigos QR e interatividade digital para questionar limites entre ficção e realidade, colocando decisões éticas nas mãos do público através de dramaturgia participativa de 75 minutos.

Sharlene Esse, primeira dama trans do Teatro Pernambucano participa de O Shá da Meia Noite

Destacando-se pela participação de Sharlene Esse, primeira dama trans do Teatro Pernambucano, O Shá da Meia Noite apresenta comédia vaudeville que problematiza disputas por estrelato. A presença de Sharlene representa avanço na representatividade trans nos palcos locais, consolidando carreira de mais de 40 anos que a transformou em referência LGBTQIA+ na cena pernambucana em trama de intrigas artísticas entre cantora veterana e coristas invejosos.

Música Autoral e Celebrações
Expandindo seu discurso amoroso em “Afinco“, seu novo disco, o cantor e compositor pernambucano Ivyson traz lirismo e sensibilidade raros no panorama nacional. Reconhecido pelo hit Girassol e pelo álbum O Outro Lado do Rio, o artista mistura raízes regionais com sonoridades contemporâneas numa proposta que vai do maracatu ao indie rock com letras profundamente sentimentais.

Comemorando 20 anos de trajetória no rock cômico brasileiro, Pedra Letícia chega sob comando de Fabiano Cambota para celebrar uma jornada que levou a banda goiana de bares regionais para programas de TV de grande audiência. A turnê comemorativa promete viagem pela trajetória do grupo, relembrando sucessos que incluem participação no Programa do Porchat como banda oficial e o viral Como que Ocê Pôde Abandoná Eu?.

Flup.PE, Literatura Periférica em Movimento

Estreando em Pernambuco com curadoria de Jaqueline Fraga (finalista Jabuti 2020) e coordenação de Tarciana Portella, a Festa Literária das Periferias reúne Itamar Vieira Junior, Marilene Felinto, Jesse de Souza, Carla Akotirene e muitas personalidades da literatura, das artes em geral e dos movimentos sociais, em homenagem a Solano Trindade. O evento opera como plataforma de democratização literária, expandindo circuitos tradicionais através de programação gratuita no Compaz Eduardo Campos.

 

PROGRAMAÇÃO SELECIONADA

📅 10-14 DE SETEMBRO

FLUP – Festa Literária das Periferias
📍 Compaz Governador Eduardo Campos, Alto de Santa Terezinha
🕐 Horários variados durante os 5 dias
🎫 GRATUITO | ♿ Com tradução em libras
Democratização literária através de saberes periféricos
📲 @flup.pe2025 | vempraflup.com.br/flup-pernambuco

📅 10 DE SETEMBRO 

Se Eu Fosse Malcolm
📍 Teatro Apolo | 🕐 19h
🎫 GRATUITO | 🎭 14 anos | ⏱️ 60min
Diálogo crítico com legado de Malcolm X via performance épica

Pedras, Flor e Espinho – O Musical
📍 Teatro Barreto Júnior | 🕐 19h30
🎫 R$ 40 ∣R$ 20  | 🎭 14 anos | ⏱️ 2h
Drama sertanejo premiado sobre família em fuga através do Nordeste

📅 10-21 DE SETEMBRO

Enquanto você voava, eu criava raízes – Cia. Dos à Deux (Temporada de 2 semanas)
📍 CAIXA Cultural Recife | 🕐 20h
🎫 R30(inteira)∣R 15 (meia) | 🎭 18 anos | ⏱️ 55min
25 anos de pesquisa franco-brasileira em teatro físico

📅 11 DE SETEMBRO 

Mouras
📍 Teatro Apolo | 🕐 18h
🎫 R20(inteira)∣R 10 (meia)
Resistência feminina sertaneja inspirada em Rachel de Queiroz

Chico Xavier em pessoa – Renato Prietto
📍 Teatro de Santa Isabel | 🕐 20h
🎫 R80(inteira)∣R 40 (meia/social)
Sabatina transmídia com médium que psicografou 400 livros

Três Coreografias Internacionais (Chenn/Frida Kahlo/Mes Horizons)
📍 Teatro Hermilo Borba Filho | 🕐 20h
🎫 GRATUITO | ⏱️ 55min total
Tríptico franco-guianense sobre trauma colonial e pertencimento

📅 12 DE SETEMBRO 

Se eu fosse eu – Luna Padilha
📍 Teatro Apolo | 🕐 19h
🎫 R$ 20 | 🎭 14 anos
Investigação coreográfica sobre múltiplos EUS que habitam cada corpo

O Céu da Língua – Gregório Duvivier
📍 Teatro do Parque | 🕐 20h
🎫 Plateia: R140(inteira)∣R 70 (meia) | Camarote: R120(inteira)∣R 60 (meia) | 🎭 12 anos | ⏱️ 85min
Metalinguagem cômica sobre língua portuguesa por poeta-comediante

Pedra Letícia – 20 Anos
📍 Teatro Luiz Mendonça | 🕐 21h
🎫 A partir de R$ 70
Duas décadas do rock cômico que conquistou o Brasil

📅 13 DE SETEMBRO 

Helô em Busca do Baobá Sagrado (Ensaio aberto – Ocupação Poste)
📍 Local a confirmar | 🕐 16h
🎫 GRATUITO (Sympla – sujeito à lotação)
Ensaio aberto infantil sobre aventura antirracista

O Céu da Língua – Gregório Duvivier (Sessão extra)
📍 Teatro do Parque | 🕐 17h
🎫 Plateia: R140(inteira)∣R 70 (meia) | ⏱️ 85min
Humor inteligente que transforma palavras em poesia

Contando Histórias – Grupo INTEGRARTE
📍 Teatro Apolo | 🕐 18h
🎫 R20(inteira)∣R 10 (meia) | 🎭 LIVRE
Teatro inclusivo sobre reencontros imaginados durante a pandemia

Banquete de Amor e Falta – Acupe Grupo de Dança
📍 Teatro Hermilo Borba Filho | 🕐 19h
🎫 R$ 20 | 🎭 16 anos
Figuras topológicas do amor em linguagem corporal poética

Aurora entre Vias e Vidas
📍 Teatro de Santa Isabel | 🕐 19h
🎫 A partir de R$ 60 | ⏱️ 1h30
Toponímia recifense transformada em alegoria urbana multigeracional

As Avós – Olga Ferrario
📍 Espaço Rede Moinho, Travessa Tiradentes, 148 | 🕐 19h
🎫 R$ 30 + taxa
Experimentação teatro-cinema sobre ancestralidade matrilinear

IVYSON
📍 Teatro Luiz Mendonça | 🕐 20h
🎫 R50aR 100
Lirismo pernambucano que conquistou o país com “Girassol”

📅 14 DE SETEMBRO 

Balancê Antropofágico – YLA e Jeff Manuel
Museu de Arte Sacra de Pernambuco, Olinda | 🕐 16h30
🎫 GRATUITO (50 vagas por ordem de chegada)
Manifesto sonoro anticolonial franco-pernambucano

Aurora entre Vias e Vidas
Teatro de Santa Isabel | 🕐 17h
🎫 A partir de R$ 60 | ⏱️ 1h30
Travessia sensível entre concreto e imaginário recifense

📅 18 DE SETEMBRO 

O Shá da Meia Noite
Teatro Fernando Santa Cruz | 🕐 19h30
🎫 GRATUITO (retirar pelo Sympla)
Vaudeville com Sharlene Esse, primeira dama trans do teatro pernambucano

Rita Lee Autobiografia Musical – Mel Lisboa
📍 Teatro Luiz Mendonça | 🕐 20h
🎫 A partir de R$ 110 + taxas
Bestseller editorial transformado em confissão cênica

📅 19 DE SETEMBRO 

Híbridos – Enlaces
📍 Teatro Arraial Ariano Suassuna, Rua da Aurora | 🕐 19h
🎫 GRATUITO
Dança fusionada que explora ancestralidade das conexões orientais

O Shá da Meia Noite
Teatro Fernando Santa Cruz | 🕐 19h30
🎫 GRATUITO (retirar pelo Sympla)
Vaudeville com Sharlene Esse, primeira dama trans do teatro pernambucano

Rita Lee Autobiografia Musical – Mel Lisboa
📍 Teatro Luiz Mendonça | 🕐 20h
🎫 A partir de R$ 110 + taxas
Bestseller editorial transformado em confissão cênica

📅 20 DE SETEMBRO 

Rita Lee Autobiografia Musical – Mel Lisboa
📍 Teatro Luiz Mendonça | 🕐 16h
🎫 A partir de R$ 110 + taxas
Bestseller editorial transformado em confissão cênica

Híbridos – Enlaces
📍 Teatro Arraial Ariano Suassuna, Rua da Aurora | 🕐 19h
🎫 GRATUITO
Dança fusionada que explora ancestralidade das conexões orientais

Rita Lee Autobiografia Musical – Mel Lisboa
📍 Teatro Luiz Mendonça | 🕐 20h
🎫 A partir de R$ 110 + taxas
Bestseller editorial transformado em confissão cênica

The Jury Experience: Um Julgamento Imersivo
📍 Teatro RioMar | 🕐 20h30
Com 20% OFF (válido 9-10/09) | 🎭 12 anos | ⏱️ 75min
Formato internacional que transforma espectadores em jurados

📅 21 DE SETEMBRO 

Rita Lee Autobiografia Musical – Mel Lisboa
📍 Teatro Luiz Mendonça | 🕐 18h
🎫 A partir de R$ 110 + taxas
Bestseller editorial transformado em confissão cênica

📅 26-27 DE SETEMBRO 

Híbridos – Enlaces
📍 Teatro Arraial Ariano Suassuna, Rua da Aurora | 🕐 19h
🎫 GRATUITO
Dança fusionada que explora ancestralidade das conexões orientais

📅 02 DE NOVEMBRO 

The Jury Experience: Um Julgamento Imersivo
📍 Teatro RioMar | 🕐 20h30
🎭 12 anos | ⏱️ 75min
Formato internacional que transforma espectadores em jurados

 

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Soledad – A Terra é fogo sob nossos pés:
10 anos de teatro e resistência

Soledad, uma década de memória viva e transformação permanente. Foto: Jorge Farias / Divulgação

Há espetáculos que são concebidos para tensionar as urgências de seu tempo. Soledad – A Terra é Fogo Sob Nossos Pés faz algo mais complexo: ao resgatar uma voz silenciada de 1973, desenvolveu em 2015 uma nova voz que ressoa até hoje, em 2025. Honra Soledad Barrett Viedma como força política contemporânea.

Dez anos de trajetória ininterrupta pelos palcos brasileiros culminam agora em duas apresentações especiais que representam muito mais que marcos comemorativos: são afirmações de que a arte política permanece necessária e transformadora.

Nos dias 2 e 3 de setembro, às 19h30, no Teatro Hermilo Borba Filho, a montagem celebra uma década de existência. Dez anos que, como anuncia a própria produção, “nos transformaram para sempre”. E não é exagero: poucos espetáculos conseguiram unir com tanta força artística e política a recuperação histórica, o empoderamento feminino e a urgência do presente.

O espetáculo  é um marco do teatro político produzido em Pernambuco. Foto: Jorge Farias / Divulgação

Em 2015, quando a atriz pernambucana Hilda Torres, a diretora argentina Malú Bazán e a artista plástica Ñasaindy Barrett – filha de Soledad atuante no projeto – conversaram para dar vida à guerrilheira paraguaia nos palcos, o Brasil vivia um momento político turbulento que ainda não conseguia dimensionar completamente.

Como comentou Malú Bazán: “Desde o processo de pesquisa histórica para a montagem da peça, ainda em 2015, percebemos a relação íntima entre o passado e o presente. Nesse mesmo período aconteciam passeatas em São Paulo, principalmente, pedindo a ‘volta do golpe militar e chega de Paulo Freire'”. O que não sabiam então é que estavam criando uma obra profética, que anteciparia lutas e resistências que só uma década depois seriam plenamente compreendidas.

O espetáculo teve como ponto de partida o livro Soledad no Recife, do escritor pernambucano Urariano Mota, expandindo-se através de uma rede internacional de apoio. Ex-prisioneiros políticos, militantes paraguaios, argentinos e brasileiros, parentes e compatriotas de Soledad contribuíram para que a montagem se tornasse uma investigação coletiva sobre uma das figuras mais emblemáticas e injustiçadas da resistência latino-americana.

Soledad Barrett Viedma: para além dos rótulos da História. Foto: Jorge Farias / Divulgação

A história oficial reduziu Soledad Barrett Viedma (1945-1973) ao rótulo de “mulher do Cabo Anselmo”, uma enorme injustiça para uma personalidade complexa e potente. Neta do escritor, jornalista e líder anarquista Rafael Barrett, ela carregava no sangue uma herança intelectual libertária que atravessava gerações. Esta linhagem de resistência, fundamental para compreender sua formação política, conecta-se diretamente com as lutas anarquistas do início do século XX na América Latina.

Como descreve Hilda Torres : “Nasceu com sua mãe e ela apenas, por isso Soledad – Solidão; criança que cresceu entre sons de bombas e brincadeiras, levando recados codificados em suas saias para dirigentes comunistas”. A militante Soledad falava guarani e dedicava-se a alfabetizar populações indígenas – dimensão fundamental de sua atuação que conectava resistência política e preservação cultural originária.

Sua trajetória é um mapa da resistência latino-americana: exilada com menos de um ano, aos 16 anos já realizava apresentações de danças folclóricas em eventos solidários ao Paraguai no Uruguai. Aos 17, foi sequestrada por neonazistas que gravaram a suástica em suas coxas quando ela se recusou a gritar “viva Hitler!”. Estudou teorias comunistas na antiga URSS, treinou guerrilha em Cuba, onde se casou e teve sua filha Ñasaindy com José Maria de Ferreira de Araújo.

Em 1970, veio ao Brasil em missão pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Aqui, apaixonou-se por José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, sem saber que ele era um agente duplo. Grávida dele, foi entregue ao perverso delegado Sérgio Paranhos Fleury e assassinada junto com outros cinco companheiros no Massacre da Granja São Bento, em 8 de janeiro de 1973, em Abreu e Lima.

Dramaturgia colaborativa da resistência assinada por Malú Bazán e Hilda Torres. Foto: Jorge Farias / Divulgação

A dramaturgia foi desenvolvida pela atriz Hilda Torres e pela diretora Malú Bazán e contou com múltiplas colaborações para chegar ao texto final. Ñasaindy Barrett assina a identidade visual e as composições da trilha sonora. O texto é uma colcha de retalhos da memória histórica continental, tendo como base o livro de Urariano Mota e ampliando-se através de entrevistas com ex-prisioneiros políticos, da publicação 68, a geração que queria mudar o mundo (organizada por Eliete Ferrer), dos registros da Comissão da Verdade e do Tortura Nunca Mais.

Fundamental para a criação foram os poemas de Marco Albertim e as composições musicais de Ñasaindy Barrett, que empresta sua voz de cantora ao espetáculo, criando uma ponte sonora entre passado e presente. A direção musical de Lucas Notaro integra estes elementos em uma trilha que dialoga com as tradições musicais paraguaias, brasileiras e de resistência latino-americana.

Uma interpretação histórica e transformadora de Hilda Torres. Foto: Jorge Farias / Divulgação

A performance de Hilda Torres em Soledad é amplamente reconhecida como um marco na carreira da atriz e no teatro político brasileiro. Sozinha em cena, ela encarna a guerrilheira paraguaia com uma entrega total que vai do sussurro íntimo ao grito revolucionário, do guarani ancestral aos movimentos do cavalo-marinho pernambucano.

Para honrar a identidade da personagem, Torres aprendeu palavras e expressões em guarani – uma escolha que vai além da técnica, é política, reconhecendo a importância da língua originária na formação de Soledad. Os movimentos do cavalo-marinho nas cenas de batalha criam uma ponte entre as culturas paraguaia e nordestina, evidenciando como a resistência encontra expressão em diferentes territórios e tradições.

Como escreveu a jornalista Ivana Moura (que sou eu! 😉) em crítica publicada em maio de 2016: “É uma atuação de fôlego de Hilda Torres. A maior de sua carreira. Uma entrega total. Potente e bela. Por seus poros, por seus olhos, nos seus gestos, na gradação de sua voz, nas explosões emotivas da personagem pulsam o essencial de vida”.

Muitos elementos cênicos convocam as memórias da protagonista. Foto: Jorge Farias / Divulgação 

A direção de Malú Bazán criou uma encenação de elementos mínimos mas de máximo impacto imagético. O cenário despojado – uma cadeira, livros, papéis espalhados do processo de criação, uma boneca confeccionada por Maria de Lourdes Albuquerque (que em 2016 tinha 94 anos, uma das mães que buscaram filhos desaparecidos na ditadura) – transforma o palco em um espaço de memória viva e ritual ancestral.

A encenação exalta os mitos e ritos ancestrais e evoca os povos originários, incorporando elementos como o banho ritual com os seios desnudos (conectando com a Terra e a feminilidade ancestral) e a celebração de orixás como Nanã do candomblé. Estas escolhas estéticas têm dimensão política, reconhecendo as múltiplas resistências que Soledad representava.

A iluminação de Eron Villar cria ambientes que oscilam entre a intimidade confessional e a grandeza épica, enquanto a direção musical integra sonoridades que vão do guarani aos cantos de resistência brasileiros.

Um feminismo revolucionário habita o espetáculo. Foto: Jorge Farias / Divulgação 

Um dos aspectos mais inovadores do espetáculo é como ele resgata Soledad como precursora do feminismo interseccional contemporâneo. Em plena década de 1970, ela já praticava o que hoje chamamos de interseccionalidade: mulher, indígena, refugiada, mãe, guerrilheira. Esta postura, que em 1973 era revolucionária, em 2025 ressoa profundamente com movimentos feministas contemporâneos, lutas por direitos reprodutivos e feminismo decolonial. Soledad alfabetizando indígenas antecipa debates atuais sobre educação popular e resistência cultural.

O espetáculo, como eu observei em crítica de outubro de 2016, “é totalmente feminista, de empoderamento da mulher, e com caráter libertário, contra as repressões”. Mas consegue isso sem anacronismo, mantendo a complexidade histórica da personagem – mulher, mãe, filha, companheira, dançarina, poetisa – em toda sua humanidade.

2015-2025: Uma Década 

Quando o espetáculo estreou em 2015, o Brasil vivia o início de uma crise democrática que ainda não compreendia completamente. O impeachment de Dilma Rousseff se gestava, o feminismo lutava por espaços básicos, a memória da ditadura era questionada por negacionistas emergentes, e a América Latina via seus governos progressistas em declínio.

Dez anos depois, o planeta viveu transformações que tornaram Soledad ainda mais relevante: o Brasil viveu sua própria tentativa golpista em 8 de janeiro de 2023, compreendendo visceralmente os mecanismos autoritários que Soledad enfrentou; questões de gênero ganharam centralidade global,.

O espetáculo hoje encontra uma nova geração de espectadores: jovens de 15-25 anos que nasceram na democracia mas testemunharam autoritarismo recente; ativistas digitais que conhecem resistência virtual, mas precisam compreender resistência física; feministas contemporâneas que conectam instintivamente com o empoderamento interseccional de Soledad; movimentos identitários que compreendem a multiplicidade de opressões que ela enfrentava. Soledad, hoje reconhecida como referência feminista em toda a América Latina, dialoga com movimentos de mulheres indígenas contemporâneos, lutas por justiça de gênero no continente, resistências à violência política atual e a questão dos feminicídios que tornaram sua morte ainda mais simbólica.

Relevância histórica e reparação da memória. Foto: Jorge Farias / Divulgação

Como afirmou o escritor Urariano Mota em artigo intitulado Dilma Rousseff e Soledad Barrett, publicado no Diario de Pernambuco em 29 de agosto de 2016: “Soledad Barrett Viedma é um dos casos mais eloquentes da guerra suja da ditadura no Brasil”. O espetáculo funciona como um ato de reparação histórica, restituindo a Soledad o lugar de protagonista de sua própria história de luta e como referência continental de resistência feminina.

A montagem manifesta, nas palavras de Ivana Moura em crítica publicada em maio de 2016, “o poder da arte, de promover a reparação – pelo menos da imagem pública – das violações a direitos fundamentais. Para reescrever a História e subverter a ordem do esquecimento”.

Mas vai além: ao conectar Soledad com suas raízes guaranis, sua herança anarquista familiar e sua dimensão internacional, o espetáculo reinscreve toda uma linhagem de resistência que perpassa diferentes territórios e épocas.

Desde sua estreia, Soledad percorreu diversos palcos do Brasil, participou de festivais, foi apresentada em São Paulo como parte da Circulação Nacional, sempre provocando debates que ultrapassam o teatro. Em 2019, durante apresentação no Galpão do Folias em São Paulo, a militante Damaris Oliveira Lucena foi homenageada, evidenciando como o espetáculo conecta gerações de resistência.

A produção manteve um compromisso com a memória coletiva continental. Em setembro de 2016, durante as comemorações de um ano da montagem, foi realizado um ato de gratidão aos ex-prisioneiros políticos, como relatou Hilda Torres em entrevista ao Satisfeita, Yolanda?, publicada em setembro de 2016: “Essa geração atual precisa agradecer a uma geração que jamais poderá ser esquecida”.

Legado e continuidade… Soledad  tem muitas histórias.  Foto: Jorge Farias / Divulgação

Ao completar dez anos, Soledad – A Terra é Fogo Sob Nossos Pés se estabelece como um marco do teatro político brasileiro contemporâneo e referência latino-americana de resistência cultural. Torna-se uma referência de como a arte pode resgatar vozes silenciadas, transformar dor histórica em força transformadora e conectar lutas de diferentes épocas.

As apresentações de 2 e 3 de setembro no Teatro Hermilo Borba Filho celebram dez anos de uma necessidade que se renova: a necessidade de lembrar para transformar, de resistir para construir, de não deixar que a história se repita, mas garantir que a esperança se multiplique.

Como dizia Daniel Viglietti na música que inspira o espetáculo: “Uma coisa aprendi junto a Soledad: que deve-se empunhar o pranto, deixá-lo cantar”.

Dez anos depois, o pranto de Soledad continua cantando. E nós continuamos aprendendo que cantar é resistir, resistir é transformar, transformar é construir o futuro que ela sonhou e pelo qual morreu.

Ficha Técnica

Atriz, idealizadora e produção geral: Hilda Torres
Direção: Malú Bazán
Dramaturgia: Hilda Torres e Malú Bazán
Iluminação: Eron Villar
Direção musical e trilha sonora: Lucas Notaro
Identidade visual, trilha sonora: Nasaindy Barrett
Designer/social mídia: Li Buarque
Assessoria de Imprensa: Dea Almeida
Registro fotográfico: Rogério Alves
Vídeo e edição: Suco filmes
Assistente de produção: Anny Rafaella Ferly e Ariani Ferreira
Produção geral e trilha sonora: Márcio Santos
Realização: Cria do Palco

Serviço

📅  02 e 03 de setembro de 2025, 🕰️ 19h30
📍 Teatro Hermilo Borba Filho – Recife/PE
💰 Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)
🎟️ Vendas: Sympla Dia 02/SET e Dia 03/SET

+ Soledad no Satisfeita, Yolanda?

https://www.satisfeitayolanda.com.br/blog/soledad-que-ainda-se-nega-a-morrer/
https://www.satisfeitayolanda.com.br/blog/ressurreicao-de-soledad-barrett-no-palco/
https://www.satisfeitayolanda.com.br/blog/guerrilheira-altiva/
https://www.satisfeitayolanda.com.br/blog/manifesto-contra-a-repressao-de-ontem-e-de-hoje/
https://www.satisfeitayolanda.com.br/blog/guerrilha-e-amor-uma-mistura-explosiva/

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HBLYNDA EM TRANSito aposta
na força política das narrativas trans

HBlynda Morais é uma artista não binária, negra, gorda, candomblecista e periférica. Foto: Divulgação

O teatro contemporâneo brasileiro experimenta uma reconfiguração radical de seus protocolos narrativos. Corpos historicamente relegados às margens dos processos de representação agora reivindicam a autoria de suas próprias dramaturgias, subvertendo hierarquias seculares entre quem conta e quem é contado. Neste cenário de disputas estéticas e políticas, o espetáculo HBLYNDA EM TRANSito opera como laboratório onde biografia e ficção se contaminam mutuamente, produzindo uma dramaturgia que desafia tanto convenções teatrais quanto epistemologias dominantes sobre gênero e sexualidade.

HBLYNDA EM TRANSito, dirigido por Emmanuel Matheus e com direção musical de Raphael Venos, utiliza elementos performativos que combinam teatro, dança e música. A montagem celebra os 15 anos de carreira artística de HBlynda Morais, como também sua própria existência como contradiscurso às estatísticas que condenam pessoas trans ao desaparecimento precoce.

A potência política do espetáculo reside na interseccionalidade presente na obra. HBlynda Morais é uma pessoa não binária que acumula marcadores sociais de diferença: negra, gorda, candomblecista e oriunda das periferias urbanas. Esta multiplicidade de identidades reflete a complexidade das experiências trans no país. Sua formação acadêmica – licenciatura em História pela UPE e mestrado em andamento na UFPE – subverte narrativas que associam pessoas trans ao abandono escolar e à marginalização social.

Os dados sobre a expectativa de vida de pessoas trans no Brasil são alarmantes, especialmente quando recortados por raça e classe social. Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), a expectativa de vida média é de apenas 35 anos. Neste contexto, cada ano de vida de uma pessoa trans negra representa um ato de resistência contra um projeto necropolítico sistemático.

A iniciativa “Trans Free” para ingressos gratuitos destinados a pessoas trans, travestis e não binárias demonstra o compromisso do projeto com a democratização cultural. É um reconhecimento de que o teatro deve ser acessível às comunidades cujas experiências documenta.

Urgência do Testemunho

A encenação dirigida por Emmanuel Matheus. Foto: Lígia Jardim / Divulgção

HBLYNDA EM TRANSito integra uma linhagem específica do teatro contemporâneo onde performer e personagem coincidem na mesma pessoa. Este trabalho opera a partir do entendimento de que toda autobiografia é uma construção narrativa atravessada por códigos culturais, expectativas de gênero e demandas de inteligibilidade social.

A especificidade desta operação reside no fato de que, para pessoas trans, narrar a própria vida implica necessariamente confrontar discursos médicos, jurídicos e familiares que historicamente definiram suas identidades como patológicas. Ao assumir a autoria de sua narrativa, HBlynda não busca estabelecer uma “verdade” sobre sua experiência, mas demonstrar como certas vidas precisam ser constantemente reinventadas para existir.

Quando Judith Butler desenvolveu sua teoria sobre a performatividade de gênero em Corpos que Importam (2019), ela abriu caminho para compreendermos como as identidades se constroem através da repetição de atos performativos. No teatro, essa construção ganha dimensões ainda mais potentes: o palco teatral intensifica a ambivalência da performatividade, ao mesmo tempo que reitera convenções cênicas, permite que corpos dissidentes reconfigurem os códigos de inteligibilidade social.

Paul B. Preciado, em Manifesto Contrassexual (2014), argumenta que os corpos trans funcionam como “tecnologias de resistência” aos dispositivos normativos de sexo-gênero. O teatro autobiográfico trans radicaliza esta proposição ao fazer da própria vida matéria-prima estética, transformando experiência em conhecimento e trauma em linguagem cênica.

HBLYNDA EM TRANSito reafirma o palco como território de resistência. Foto: Lígia Jardim

HBLYNDA EM TRANSito transforma o que a sociedade codifica como “desvio” em metodologia de conhecimento. Enquanto o teatro tradicional trabalha com personagens ficcionais que representam tipos sociais, este trabalho investe na própria vida como arquivo de resistência.

Quando HBlynda narra sua trajetória, não está oferecendo uma “lição de vida” ou um “exemplo de superação”, mas documentando as estratégias micropolíticas necessárias para sobreviver em um país que mata uma pessoa trans a cada 48 horas. O palco se torna um laboratório de sobrevivência onde técnicas de resistência são compartilhadas através da performance.

O que emerge desta operação não é mais uma narrativa de superação, mas a instalação de uma temporalidade dissidente. Enquanto a lógica cisnormativa organiza o tempo em termos de desenvolvimento linear rumo à “normalidade”, HBLYNDA EM TRANSito propõe uma cronologia queer onde cada momento de existência constitui uma afirmação fundamental de que corpos como o seu têm direito de estar no mundo. A celebração aqui não é do indivíduo que “venceu na vida”, mas da própria possibilidade de que vidas como essa continuem acontecendo – desobedientes, incontroláveis, imprevisíveis.

SERVIÇO
🗓️ Datas: 05 e 06 de agosto de 2025, ⏰ 20h
Local: Teatro Hermilo Borba Filho – Recife/PE
🎟️ Ingressos: R$ 30,00 (inteira) | R$ 15,00 (meia-entrada)
💳 Vendas: Plataforma Sympla
🏳️‍⚧️ Política inclusiva: Trans Free – entrada gratuita para pessoas trans, travestis e não binárias

FICHA TÉCNICA
Atuação e Dramaturgia: HBlynda Morais
Direção Geral: Emmanuel Matheus
Direção Musical: Raphael Venos
Produção: Realização com recursos do FUNCULTURA e PNAB

 

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