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A arte de abrir portas no coração do Recife
Crítica: Baile do Menino Deus
Por Ivana Moura

Um quadro que mescla inspirações sagradas e profanas na mesma cena. Maria, José e o Menino; dois Mateus, o Boi e seus dançantes. Foto: Hans Manteuffel

Os Mateus Arilson Lopes e Sóstenes Vidal. Foto: Paulinho Filizola / Divulgação

Assistir ao Baile é uma experiência altamente recomendável. Na imagem Zabilin e Lucas dos Prazeres. Foto: Hans Manteuffel

No roteiro cultural de qualquer brasileiro, o Baile do Menino Deus, apresentado no Marco Zero, no Recife, impõe-se como experiência fundamental. Este espetáculo natalino constitui um daqueles momentos raros que marcam para sempre nossa percepção da cultura brasileira. Esta celebração deveria estar na lista obrigatória de qualquer pessoa que deseja decifrar a alma nordestina e a genialidade da nossa cultura popular.

Com concepção do espetáculo e direção geral de Ronaldo Correia de Brito, texto original e letras de Ronaldo Correia de Brito e Assis Lima, e música de Antônio Madureira, esta criação construída ao longo de mais de quatro décadas continua a conquistar novos espectadores e emocionar.

E o impacto desse espetáculo se revela em cada história individual. Ir uma vez é encantar-se; voltar todo ano é garantir uma dose anual de pura alegria. A garota Ana Júlia, de 10 anos, foi pela primeira vez ao Baile, mas já conhecia todas as músicas e estava ansiosa pelo quadro do Jaraguá. Sua avó, assídua frequentadora há 15 anos, não esconde a satisfação de estar com a neta. Moradora de Águas Compridas, ela só neste ano conseguiu levar a menina – depois de tentativas anteriores que encontraram obstáculos, finalmente pôde compartilhar essa tradição que passa de geração em geração, criando vínculos através da arte.

Uma das características mais admiráveis do Baile do Menino Deus é essa capacidade de se reinventar mantendo-se fiel à essência. Todo ano traz novidades: figurinos repensados, novos atores e bailarinos que se integram ao elenco experiente, criando camadas de frescor sobre uma base sólida construída ao longo de 42 anos de existência e 22 edições no Marco Zero. O espetáculo mantém sua força artística com um elenco tarimbado. O talento dos Mateus engrandece no palco e no primeiro dia da temporada Sóstenes Vidal e Arilson Lopes esbanjaram vivacidade, talento e energia – fizeram gracejo até com a chuva que interrompeu o espetáculo, realizado ao ar livre e a céu aberto. Eles se revezam com Daniel Barros e o novo integrante Djaelton Quirino, garantindo diferentes nuances interpretativas ao longo das três apresentações.

Maestro Spok e Joyce Alane. Foto: Hans Manteuffel / Divulgação

Silvério Pessoa, brilho de veterano. Foto: Hans Manteuffel / Divulgação

A prática de convidar artistas consagrados da música pernambucana se renova com Joyce Alane, cantora e compositora do gênero MPB pop em plena ascensão, finalista do Grammy Latino 2025 e indicada ao Prêmio Multishow. A cantora interpreta três músicas do repertório da peça – Beija-Flor e Borboleta, Cigana e Baile do Menino Deus.

Em sua segunda participação nessa brincadeira de natal única, Maestro Spok consolida sua parceria com o espetáculo através de aparições que exploram sua versatilidade artística. Na finalização de Zabilim, ele presta homenagem à Lia de Itamaracá, rainha do coco que participou do Baile no ano passado, entoando o bordão “ai mamãe”, ressaltando esse gesto de reverência.

A riqueza sonora do Baile do Menino Deus é alicerçada por um conjunto de 11 instrumentistas especializados, que formam a orquestra base do espetáculo. Nomes como Karol Maciel no acordeon, Rafael Marques no bandolim e cavaco, João Pimenta no contrabaixo, Raquel Paz na viola e Aristide Rosa no violão e viola nordestina, além dos percussionistas Emerson Coelho, Jerimum de Olinda e José Emerson, e os sopros de Alexandre Rodrigues (Copinha) e Jonatas Gomes no trompete, constroem a tapeçaria musical. 

Por trás da magia dos 70 artistas que se apresentam no palco, há um universo de dedicação e rigor. Com a produção coordenada por Carla Valença e a Relicário Produções, são trezentos profissionais envolvidos no total, a maioria trabalhando incansavelmente nos bastidores, a excelência artística e técnica se manifesta em cada aspecto da montagem. A contribuição de Quiercles Santana na preparação de elenco e assistência de direção é fundamental, garantindo a coesão e o alto nível das performances. Desde a direção musical até a coordenação de som (Estúdio Carranca), luz (Jathyles Miranda) e cenografia (Sephora Silva), tudo demonstra um rigor técnico e um cuidado artístico meticulosos. Mas é justamente a presença do elemento humano — com seus improvisos e espontaneidade — que torna a apresentação ainda mais tocante e verdadeira.

Nesse contexto grandioso, o elenco vocal do auto de natal, por sua vez, representa um verdadeiro mapa da música pernambucana contemporânea, reunindo desde veteranos consagrados até jovens promessas em uma sinfonia coletiva de rara expressividade. Carlos Filho e Sue Ramos formam uma dupla vibrante que conduz Ciganas e Ciganos e Salve Maria. Elon Barbosa se reveza entre parcerias, ora com Gabriela Martinez em Ô de casa, ora com Isadora Melo no delicado Amanheceu. A própria Isadora, cuja carreira começou nos palcos do Baile quando ainda adolescente, também empresta sua voz encantadora à tradicional Ciganinha – música que integra o espetáculo desde 1983 e que ela interpreta nesta temporada, alternando com Joyce Alane. Cláudio Rabeca transita entre sua rabeca em Quando cheguei ao lado de Lucas Dan e os vocais de Acendei uma luz, confirmando a multiplicidade de talentos do espetáculo.

Entre as participações especiais, Silvério Pessoa dedica sua força interpretativa a Boca de forno e Jaraguá, enquanto Lucas dos Prazeres combina seus tamancos em Todos os dias com a sensibilidade de Anjo. A nova geração se sobressai através de Alice de Souza, Guilherme Simões e Julia Souza, que se alternam entre os elementos cósmicos da Louvação – Sol, Lua e Estrela – e se unem em Vinde Pastoras, revelando a força da nova safra de intérpretes pernambucanos. Nesse panorama de talentos, Laís Senna, que dá vida à personagem Maria na peça, também se distingue por sua voz deslumbrante, interpretando lindamente o Acalanto. Ricardo Pessoa conduz com sua voz potente o quadro Santos Reis, que exalta os povos formadores do Brasil, com o apoio dos coros adulto e infantil.

Coro infantil. Foto: Paulinho Filizola / Divulgação

Dimas Popping, especialista na dança popularizada por Michael Jackson. Foto: Hans Manteuffel / Divulgação

PE Original Style tira o fôlego com as manobras. Foto: Hans Manteuffel / Divulgação

As coreografias são assinadas por Sandra Rino. Foto: Hans Manteuffel / Divulgação

Novos figurinos de Marcondes Lima. Foto: Hans Manteuffel / Divulgação

No centro da narrativa, Maria e José, interpretados por Laís Senna e Lucas Dan, constroem um casal que equilibra o extraordinário e o cotidiano. Não são figuras distantes, mas pessoas comuns tocadas pela transcendência – reflexo da proposta do Baile de humanizar o sagrado através da cultura popular.

O coro infantil de 13 crianças, preparado por Célia Oliveira, traz ao espetáculo a renovação que o Natal proclama. Suas vozes cristalinas contrastam com a complexidade do mundo adulto, lembrando que celebramos, fundamentalmente, o nascimento de uma criança.

Sandra Rino, com sua dedicação incansável e olhar visionário, enfrenta o desafio hercúleo de juntar e encaixar danças tradicionais nordestinas, dança contemporânea e elementos de street dance. A coreógrafa constrói um vocabulário corporal que faz diferentes tradições dialogarem, transformando a complexidade dessa combinações em pura energia cênica. Se a arte, como diria Shakespeare, é feita de som e fúria, Sandra Rino é essa fúria criativa que dá forma e sentido ao movimento.

Este ano, a ousadia artística de ampliar o leque expressivo trouxe elementos surpreendentes. A inclusão de Dimas Popping, especialista na dança popularizada por Michael Jackson, pode parecer estranha à primeira vista. Mas é exatamente nessa audácia que reside o traquejo do diretor Ronaldo Correia de Brito. Fazer o universo natalino abraçar diversas expressões da celebração humana. O popping se soma ao grupo PE Original Style com seus 9 breakers (Bboy Akira, Bboy Eddy, Bboy Fábregas e outros), criando um mosaico cultural que reflete o Brasil contemporâneo sem abandonar sua identidade cultural.

A renovação dos figurinos, criados por Marcondes Lima e executados por uma equipe de 9 costureiras, revela uma cabedal de referências que se combinam e dialogam. Além das cores vibrantes da cultura nordestina, o vestuário também adotou brancos e pretos, tecidos e texturas que remetem ao artesanato local, além de adereços criados por Álcio Lins e Wilson Aguiar que criam pontes com o imaginário dos folguedos populares. Os mantos e panos se movimentam com o vento da beira do cais, criando efeitos visuais que incorporam até mesmo as condições climáticas do Marco Zero. O figurino constitui discurso visual que reafirma a brasilidade do espetáculo. A manipulação de bichos fantásticos por Luan Lucas, Marcílio Santos e Ruan Henrique adiciona elementos lúdicos que encantam especialmente o público infantil.

Quando São Pedro testa a paciência do público

Ronaldo Correia de Brito subindo a rampa com suas crianças ao final da peça. Foto: Hans Manteuffel

O primeiro dia da temporada 2025 ofereceu um exemplo eloquente da relação especial entre o Baile e seu público. Uma chuva de verão daquelas típicas do Recife – caprichosa e intensa – desabou  com apenas 15 minutos de espetáculo. A produção precisou de uma pausa de aproximadamente uma hora para esperar a chuva passar, enxugar completamente o palco, verificar todo o equipamento elétrico de som e luz e garantir a segurança de artistas e público.

Nesse intervalo forçado por São Pedro, algo singular aconteceu. Enquanto a animadora mantinha o público aquecido, o diretor Ronaldo Correia de Brito aproveitou o momento para compartilhar duas histórias do seu arsenal. Ele comentou que antigamente não chovia em dezembro no Recife durante a época do Baile, mas a crise climática mudou isso. Para exemplificar, recordou que na década de 1970, em viagem pelo Ceará com Assis Lima, visitou um mestre de reisado. Durante a jornada a cavalo, foram pegos por uma chuva torrencial – “no Ceará não chove muito, mas quando chove, um pingo d’água banha a gente. São gotas muito grossas”. Chegaram encharcados à casa do mestre, que os recebeu com vinho. Após beberem e se acomodarem nas redes, o anfitrião realizou um gesto de altíssima dignidade: lavou os pés dos visitantes em uma bacia d’água, reproduzindo o gesto de Jesus.

Na segunda narrativa, Ronaldo refletiu sobre sua própria trajetória e lembrou que quando fazia teatro popular no Ceará, no Crato, no Cariri cearense, bastavam “uma casa e quatro cadeeiros”. Hoje, “a partir do momento em que passamos a depender de tecnologia de luz e de som, passamos a viver essas vicissitudes”.

Músicos que tocam no Baile do Menino Deus. Foto: Paulinho Filizola / Divulgação

O repertório de 23 composições de Antonio Madureira (Zoca) constitui um dos maiores tesouros desse Baile. O espetáculo alterna entre composições mais animadas e outras mais contemplativas, criando ondulações rítmicas que garantem o desenvolvimento dramático. Desde a Abertura que estabelece o tom festivo até o Acalanto de maior ternura, cada música funciona como capítulo musical da narrativa, conduzindo a emoção do público através dos arranjos assinados por Antônio Madureira, Nelson Almeida e Rafael Marques.

Expandindo a riqueza sonora, a beleza dos múltiplos quadros – dos Mateus brincalhões aos Santos Reis solenes, do coro infantil lúdico aos bailarinos contemporâneos – compõe uma sinfonia visual que transforma a praça em território sagrado da alegria. Ali se desenha um acalanto coletivo, talvez uma utopia temporária de acolhimento. O Baile do Menino Deus carrega o reisado em sua essência de “procurar uma casa, achar uma porta”. Como refletiu Ronaldo naquela noite chuvosa, “esse tema parece antigo, mas é muito atual, porque nós atravessamos um tempo em que o que todos estão procurando é uma casa para morar, e a gente está querendo o fim das fronteiras, que as portas se abram”. O Baile se confirma, então, como festa da hospitalidade – materialização provisória desse sonho ancestral de portas abertas.

Leia AQUI crítica do Baile do Menino Deus 2024

SERVIÇO

Baile do Menino Deus: Uma Brincadeira de Natal – 2025
Quando: 23, 24 e 25 de dezembro, às 20h
Onde: Praça do Marco Zero, Bairro do Recife
Acesso gratuito
Serão disponibilizadas 2.500 cadeiras ao público
Acessibilidade: Espaço reservado para pessoas com cadeira de rodas, audiodescrição e intérprete em Libras
Informações@bailedomeninodeusoficial

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Como é que se escreve “família”?
Crítica: Tem bastante espaço aqui
Por Annelise Schwarcz*

“Por que você é flamengo e meu pai botafogo? O que significa impávido colosso? Por que os ossos doem enquanto a gente dorme? Por que os dentes caem? Por onde os filhos saem? Por que os dedos murcham quando estou no banho? Por que as ruas enchem quando está chovendo? Quanto é mil trilhões vezes infinito? Quem é Jesus Cristo? Onde estão meus primos?”
Oito anos – Adriana Calcanhotto

Juliane Cruz interpreta Joana, uma criança em busca de sua origem. Foto: Monica Ramalho

Oito anos, como sugere a música escrita por Paula Toller e interpretada por Adriana Calcanhotto, é conhecida como a fase dos “porquês”. Com sensibilidade o suficiente é possível fazer filosofia, música, um filme ou uma peça de teatro com os espantos com o mundo que essa fase traz. É o caso, por exemplo, da peça Tem bastante espaço aqui.

Baseada no curta O Fundo dos Nossos Corações (2021), escrito e dirigido por Letícia Leão, a dramaturgia de Tem bastante espaço aqui – também assinada por Letícia Leão –, conta a história de Joana (Juliane Cruz), uma menina de sete para oito anos que vive com suas duas mães, Beatriz e Isabel (Carolina Godinho e Monique Vaillé, respectivamente), em Lumiar – uma cidade em meio à Mata Atlântica fluminense. Durante uma aula online sobre a reprodução dos ovíparos, um colega da turma de Joana faz uma pergunta sobre a reprodução dos humanos: “de onde vêm as crianças? Será que vêm da cegonha? Vêm em ovos?” A curiosidade se espalha para o restante da turma até que Nanda, amiga de Joana, parece ter a resposta e relembra quando sua mãe estava grávida de seu irmão. Agora, Joana precisava saber qual das suas duas mães a gestou. Ou será que era possível que ela tenha vindo de duas barrigas? 

O enredo se desdobra a partir das dúvidas de Joana e do acolhimento que suas mães oferecem ao encaminhar suas questões. A peça se relaciona, ao mesmo tempo, com o público infantil e adulto, lançando mão de dispositivos que prendem a atenção das/os pequenas/os por meio de uma linguagem acessível e interativa, além de abordar com coragem e honestidade temas como famílias LGBT+ e criação de filhas/os pela via da adoção. Assistimos ao dia a dia dessa família se desenrolar, com Isabel e Beatriz cuidando da alimentação e da higiene da filha, respeitando os momentos em que Joana prefere ficar sozinha, lembrando o horário da aula e de ir para a cama, sempre amorosas e brincalhonas  – momentos que dialogam diretamente com as crianças na plateia, vendo suas atividades diárias sendo ali encenadas e reforçadas. 

Juliane Cruz, Carolina Godinho e Monique Vaillé em apresentação única no 24º Festival Recife do Teatro Nacional com a peça Tem bastante espaço aqui. Foto: Marcos Pastich/PCR

Ao adentrar o teatro Apolo, durante o 24º Festival Recife do Teatro Nacional, já encontramos as três atrizes no palco repetindo uma cena de pique pega até que todas as pessoas da plateia tenham encontrado seus lugares. Atrás das atrizes, é possível ver cinco painéis brancos onde serão projetadas as aulas online e algumas imagens da natureza ao redor da casa de Lumiar, por exemplo, todas transmitidas como se estivessem sendo gravadas ao vivo. Embora a peça seja repleta de estímulos – interações com o público e as já mencionadas projeções –, eles não nos sobrecarregam com informações e nem resultam em um acúmulo irrefletido de acontecimentos: cada detalhe contribui para uma transição de cena, para a construção de vínculo com a plateia ou acrescenta uma camada de sentido ao espetáculo. 

Além de Joana e suas mães, a peça conta com ainda mais três personagens: o vento, o sol e o rio. Carolina Godinho e Monique Vaillé se transformam em elementos da natureza através dos criativos figurinos de Carla Ferraz e, em cenas que parecem saídas de um sonho – dada a beleza dos elementos cenográficos –, falam sobre a pluralidade das famílias, com breves mas importantes conselhos sobre como controlar a ansiedade e mensagem de conscientização sobre os efeitos do aquecimento global pinceladas entre os diálogos.

Na busca por sua origem, Joana descobre que o encontro com suas mães foi decidido após uma conversa sobre haver tanto espaço na casa e tanto amor entre elas, que poderia caber mais alguém ali. Tem bastante espaço aqui é daquelas peças de sair de coração quentinho e se perceber emocionada ao lembrar desse amor que transborda – tanto na cena entre as personagens, quanto entre as pessoas na plateia. Pais, mães, crianças, pessoas sozinhas ou casais: todos sorrindo com os olhinhos brilhando. Inclusive eu. 

* A cobertura crítica da programação do 24º Festival Recife do Teatro Nacional é apoiada pela Prefeitura do Recife.

Ficha técnica:
Idealização e dramaturgia: Letícia Leão
Direção artística/encenação: Juliana França e Letícia Leão
Elenco: Carolina Godinho, Juliane Cruz e Monique Vaillé
Direção de movimento: Camila Rocha
Direção musical: Dani Nega
Direção de imagem: Clara Acioli
Cenografia: Alice Cruz
Assistente de cenógrafa: Lara Aline
Operação de luz: Tayná Maciel
Operação de som e vídeo: Igor Borges
Figurino: Carla Ferraz
Visagismo e maquiagem: Diego Nardes
Assistente de visagismo: Lucas Tetteo e Nata Di Paula
Direção de produção: Monique Vaillé
Produção executiva: Nely Coelho
Assistente de produção: Thiago Miyamoto
Produção da logística do projeto: Fabíola Godoi
Produção de acessibilidade: Gaby Krüger
Administração financeira: Delas Cultural
Prestação de contas: Marejar Produções e Delas Cultural
Assessoria de imprensa: Monica Ramalho e Mario Camelo
Programação visual: Fernanda Varella e Pablo Meijueiro
Mídias sociais: Sofia Paiva
Imagens de videochamada retiradas do filme O Fundo dos Nossos Corações

Peça aborda com coragem e honestidade temas como famílias LGBT+ e criação de filhas/os pela via da adoção. Foto: Monica Ramalho

 

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No palco com as minhas ancestrais*
Crítica: Avós
Por Pollyanna Diniz*

Olga Ferrario em Avós. Foto: Anderson Stevens

Quantas mulheres cabem no corpo de uma mulher? Quem são as que vieram antes de nós e estão entranhadas em nossos corpos? Quão perto podemos chegar delas? O que nos diriam? Nelas, quanto veríamos de nós? A atriz Olga Ferrario compartilha a experiência de mergulhar no tempo a partir da cosmovisão de que somos começo, meio e começo. Avós, espetáculo que surgiu no contexto da pandemia de covid-19, sendo apresentado ao vivo, de modo virtual, estreou oficialmente nos palcos físicos nesta última edição do Festival Recife do Teatro Nacional, no Teatro Hermilo Borba Filho.

A atriz diz que aquela não é uma história. Que tudo está dado e nada precisa ser decifrado. Mas, ao mesmo tempo, se refere ao mistério: “No corpo das minhas avós eu tenho a sensação de que o mistério é coisa simples”. O que acontece em Avós é história grafada no corpo: um corpo-história que é movimento contínuo, memória de passado e futuro, que se expande no presente, que extrapola o que acontece “dentro” em poesia visual. Além do texto propriamente dito pela atriz, a dança, a música e as influências do cinema ajudam a compor essa dramaturgia poética que constrói imagens simples e significativas, como uma mulher que gira em torno de si mesma com os braços abertos, uma pedra sendo sustentada por um dos pés, o movimento repetitivo da queda, a mulher que dança de maiô branco na frente da tela, como duplo de si mesma, o mar que parece sair da projeção e invadir a mulher.

Dramaturgicamente, Avós é dividida em “cômodos”. Faz todo sentido – corpo é história, corpo é casa. O primeiro desses cômodos é “maternidade”, ao que se seguem “memória”, o cômodo chamado de “incômodo”, o “parto” e “avós”. Embora a ideia de cômodo possa remeter à compartimentação, a uma separação temática, o movimento é de confluência, então naturalmente esses cômodos estão imbricados. A dança é o motor do espetáculo, o corpo que dança e desliza entre esses cômodos, que impõe fluidez e liberdade a partir dos movimentos.

No primeiro deles, a atriz – que também é bailarina e palhaça – transforma a queda em dança. Tendo uma cadeira como elemento cenográfico, o corpo cai repetidas vezes, como se a maternidade predispusesse a queda, a falta de controle, a suposta falha de tentar sustentar o movimento e não conseguir. Nesse mesmo desenho coreográfico, instantes antes, Olga dança com algumas pedras dispostas no palco, uma pequena barreira. Tenta equilibrar a pedra num dos pés enquanto procura expandir os movimentos, que se tornam tateantes. São pedras que sustentam ou pedras que impedem? Pedras que mostram o caminho ou obstáculos? A pedra também é filho, embalado no colo pelo movimento ritmado do corpo.

O movimento de queda como metáfora da maternidade. Foto: Marcos Pastich/PCR

As avós e suas histórias ocupam o espaço do teatro desde o início, a princípio por áudios, depois a partir de falas da atriz, numa mudança de vozes em que nem sempre há uma separação clara entre essas personagens, duas avós e neta que coexistem por meio desse corpo único. Mas há o dispositivo do vídeo, que personifica e dá materialidade a essas figuras através dos seus depoimentos. As duas avós são entrevistadas pela neta – falam de momentos do passado, de maternidade, de dificuldades enfrentadas, do cotidiano, e dão conselhos – solicitados pela neta.

 Uma delas diz que teve seis filhos de parto vaginal e que amamentou todos em livre demanda. A outra, num depoimento forte, conta da perda dos filhos e que o trabalho como professora em sala de aula fez com ela conseguisse lidar com o luto: diz que ia gritando de dor dentro do carro que dirigia, com os vidros fechados, sem ar-condicionado, durante todo o trajeto. Uma delas dá o conselho de fazer o bem. A outra lembra da possibilidade de ressuscitar dos mortos depois do enfrentamento de um grande obstáculo.

Além de uma carta de ensinamentos de sabedoria, homenagens e agradecimentos a essas avós, Olga sustenta que “a vida está sempre revivendo”, como diz uma de suas avós. E uma mãe se torna avó. Uma filha se torna mãe. Um trecho do parto do seu filho mais velho, Davi, é exibido no telão. No registro, Olga é amparada o tempo inteiro por sua mãe, Lívia Falcão, também atriz. Ao mesmo tempo em que Olga nascia mãe e paria o filho, a mãe dela paria um neto. O movimento que é começo, meio e começo.

Na ficha técnica, o espetáculo se revela uma construção familiar: a direção é assinada pela cineasta Déa Ferraz, companheira do pai de Olga, o ator Cláudio Ferrario; por Lívia Falcão, mãe da atriz; e por Silvia Góes, bailarina, atriz, dramaturga, parceira de trabalho de Lívia e Olga há muitos anos. A dramaturgia é de Olga e de Silvia Góes. A trilha sonora original foi criada por Hugo Coutinho, pai dos dois filhos de Olga. E a produção é de Cláudio Ferrario e da filha. O desenho de luz é de Luciana Raposo e a operação de som e projeção é de Marina Santos. A luz, inclusive, é um espaço de aconchego no espetáculo, com seus azuis da memória, amarelos de sol aberto, e ambiências que criam contextos de intimidade ao longo da peça.

A afetividade e a delicadeza, que são parte da força do trabalho, marcam a dramaturgia de Avós. Mesmo quando o momento é de tentar falar e reagir às invisibilidades que as mulheres foram submetidas ao longo dos séculos pelo patriarcado, essa projeção não se desprende da sutileza do espetáculo. Logo no início, a atriz diz que queria chegar o mais perto possível das avós, mas sem feri-las. E nesse limiar está uma das potências que não explodem no espetáculo. No cômodo “incômodo”, o corpo-história dessa mulher pergunta se pode falar, diz que queria, ou melhor, que quer falar. Mas o outro dormiu. Ao mesmo tempo, ainda é uma fala carregada de culpas e desculpas. É como se o ambiente fosse muito mais propício à ternura, ao resgate das nossas memórias ancestrais a partir daquelas que estão no palco, ao renascimento, mas atenuasse a possibilidade de qualquer conflito. Não há virada dramatúrgica nesse ponto, mesmo que o movimento do espetáculo seja o do enovelamento entre Olga e suas avós.

Olga Ferrario é corpo-história em Avós. Foto: Anderson Stevens

Por fim, no cômodo “avós”, Olga assume as avós como personagens. Empresta o seu corpo-história para mimetizar essas mulheres, dizendo trechos de algumas das entrevistas que já ouvimos ao longo do espetáculo na voz das próprias avós, seja em áudio ou em vídeo. Em seguida, na alternância de vozes, assume o protagonismo e diz o que aprendeu com essas mulheres, o que leva delas.

Avós é um acalanto ao coração. Um cafuné que gostaríamos de ter a chance de fazer em cabeças de cabelos brancos. Saímos do teatro querendo abraçar e ouvir as nossas, lado a lado, em espírito, em memória. Olga Ferrario abre uma fresta no tempo convidando os nossos corpos a darem espaço a esse corpo-história, a carregar a nossa ancestralidade, a transcender os limites.

* A cobertura crítica da programação do 24º Festival Recife do Teatro Nacional é apoiada pela Prefeitura do Recife.

A dança é motor do espetáculo, dividido dramaturgicamente em “cômodos”. Foto: Anderson Stevens

Ficha técnica:
Avós
Direção: Déa Ferraz, Lívia Falcão e Silvia Góes
Dramaturgia: Olga Ferrario e Silvia Góes
Trilha sonora original: Hugo Coutinho
Produção: Cláudio Ferrario e Olga Ferrario
Desenho de luz e operação: Luciana Raposo
Operação de som e projeção: Marina Santos

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Fabulação do trauma climático
Crítica: A Menina dos Olhos d’Água
Por Ivana Moura

Liane Ventuella em A_Menina dos Olhos d’Água. Foto: Laura Testa / Divulgação

As enchentes do Rio Grande do Sul em 2024 transformaram milhares de vidas em uma experiência de desterro e reconstrução. Essa realidade traumática motivou a criação do espetáculo A Menina dos Olhos d’Água, do Coletivo Gompa, de Porto Alegre, que estreou em Munique (Alemanha) em abril deste ano e é apresentado em várias cidades do Brasil desde maio. A pergunta inaugural que atravessa toda a peça – “o mundo é um lugar seguro?” – constitui o eixo fundamental da investigação artística que se debruça sobre uma das questões mais cruciais da atualidade, ou seja, a emergência dos refugiados climáticos e a necessidade de construir narrativas que permitam às novas gerações compreender e processar essa nova condição existencial.

A criação foi viabilizada com recursos do International Coproduction Fund do Goethe-Institut e do Prêmio Iberescena, contando com parceiros do Brasil, Alemanha, Cuba e Chile. Uma residência artística na Alemanha permitiu o desenvolvimento da “dramaturgia do movimento”, estabelecendo diálogos entre perspectivas estéticas distintas.

Sob direção de Camila Bauer, a peça conta com a atuação intensa e tecnicamente primorosa de Liane Venturella, que interpreta a personagem Menina através da manipulação de bonecos em diversos tamanhos, criados por Pedro Girardello. As expressões faciais, a manipulação expressiva dos bonecos e a presença cênica que transita entre diferentes escalas traduzem a força interpretativa da atriz.

Um dos aspectos mais desafiadores da encenação é o fato de que, quando a Menina atinge tamanho humano, a cabeça não possui abertura dos olhos para que a atriz veja a cena. Liane Venturella conduz toda a performance “no tato, na intuição, na marca” – procedimento que estabelece um paralelo com a própria condição dos refugiados climáticos: navegar em um mundo incerto, onde as referências habituais foram destruídas e onde é necessário reconstruir orientações através de outros sentidos e capacidades.

A encenação utiliza diversos materiais cênicos, como bonecos, projeções, objetos filmados em tempo real. Foto: Wallace Gonçalves / Divulgação

Articula-se na montagem um diálogo complexo entre documento e ficção, entre realidade histórica e fabulação poética. Estruturalmente, a encenação – que tem sua narração gravada – opera por justaposições de diferentes materiais cênicos – bonecos, projeções, objetos filmados em tempo real. Desenvolve ainda hibridizações de linguagens que combinam teatro de formas animadas, documentário multimídia e performance ao vivo. Esta “escritura cênica” contemporânea valoriza a dramaturgia visual e a intersecção entre diferentes códigos semióticos, criando significados que surgem do atrito entre linguagens distintas.

A utilização de projeções em tempo real de objetos e bonecos filmados incorpora tecnologias digitais sem perder a especificidade da experiência teatral presencial. Ao contrário do cinema ou da televisão, onde a imagem é predeterminada, neste espetáculo as projeções criam uma relação dialética entre presença física e mediação tecnológica. Essa hibridização permite que objetos pequenos – os bonecos menores, elementos cenográficos – adquiram monumentalidade através da projeção, criando jogos de escala que amplificam o impacto dramático.

Projeções e miniaturas são utilizados no espetáculo. Foto: Divulgação 

Um aspecto fundamental da peça evidencia-se no processo de criação. Durante os ensaios abertos, as crianças rejeitaram qualquer design que amenizasse as tragédias retratadas, optando por “ver a dura realidade” sem filtros ou eufemismos. Esse desejo dos pequenos espectadores por uma representação sem adoçamentos artificiais evidencia uma maturidade que desafia convenções paternalistas do teatro infantil. As crianças, expostas diariamente a imagens de catástrofes através de múltiplas mídias, desenvolvem uma capacidade crítica aguçada e não aceitam a infantilização de temas complexos.

Então, o espetáculo aposta no princípio de que as crianças possuem capacidade de compreensão e elaboração de temas complexos, desde que estes sejam apresentados com honestidade artística e rigor ético. Contrariando tradições teatrais que infantilizam seu público através de simplificações moralizantes, a montagem aposta na inteligência e sensibilidade infantis. O tratamento do luto infantil constitui um dos aspectos mais delicados e bem-resolvidos da montagem. A personagem transita pela dor da perda de seu animal de estimação através de um percurso que inclui saudade, resistência e, finalmente, uma aceitação que preserva vivo o afeto.

Essa demanda infantil por honestidade encontra respaldo na magnitude alarmante dos dados globais sobre deslocamentos climáticos. De acordo com o Global Report on Internal Displacement 2025 (GRID 2025), do Centro de Monitoramento de Deslocamento Interno (IDMC), 45,8 milhões de deslocamentos internos foram causados por desastres em 2024, um número recorde na última década. No final de 2024, 9,8 milhões de pessoas viviam em deslocamento devido a desastres em 94 países e territórios.

Além disso, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) projeta que, até 2050, entre 31 milhões e 143 milhões de pessoas em regiões como América Central e do Sul, África Subsaariana e Sul da Ásia poderão ser deslocadas devido às mudanças climáticas, evidenciando a magnitude dessa crise humanitária emergente.

Crítica Política e Escolhas Estéticas
É diante desta realidade planetária que a escolha do Coletivo Gompa de abordar especificamente as enchentes do Rio Grande do Sul adquire relevância política específica. O grupo vivenciou coletivamente essa tragédia, transformando o trauma compartilhado em elaboração artística. Contudo, a criação ultrapassa o relato pessoal para articular uma crítica fundamental: eventos climáticos extremos não constituem apenas “fúria da natureza”, mas resultam também de escolhas políticas e frequentemente de descasos governamentaisde estados e municípios.

Esteticamente, a opção pelo teatro de formas animadas permite uma abstração formal que universaliza a experiência particular da protagonista, transformando-a em referência afetiva de todas as crianças afetadas por deslocamentos climáticos. Os bonecos possuem uma plasticidade que permite múltiplas identificações. A boneca principal, chamada apenas de Menina – escolha proposital para ampliar sua representatividade -, funciona como superfície de projeção para diferentes experiências infantis de perda e reconstrução.

Foto: Laura Testa / Divulgação 

A trilha sonora criada por Paola Kirst e Álvaro RosaCosta constitui uma dramaturgia sonora potente. A montagem cria “paisagens sonoras” que situam os espectadores no ambiente da enchente. Sons de água, vento, chuva e silêncios são organizados de forma a criar ambiências que amplificam o impacto emocional e estético da peça.

Optando por uma entrada poética que não explora o sensacionalismo das imagens de destruição, o espetáculo evita cuidadosamente a espetacularização do sofrimento dos refugiados climáticos. O trabalho busca tornar sensível a experiência e ampliar nossa capacidade de perceber e compreender esta realidade, criando condições para novas formas de engajamento.

A Menina dos Olhos d’Água destaca-se pela conjunção entre excelência artística e coragem ética, focalizando temas urgentes sem concessões sentimentais ou simplificações. A montagem oferece uma criação artística exemplar diante dos desafios de nosso tempo: como representar a catástrofe climática e como falar às crianças sobre temas complexos sem mentir ou edulcorar.

A encenação não escamoteia a dor da personagem criança que perde casa e animal de estimação, mas também não perde a esperança. Isso evita tanto o pessimismo paralisante quanto o otimismo ingênuo, constituindo uma grande conquista estética e política. Diante da complexidade dos desafios climáticos contemporâneos, oferece uma poética que pode formar espectadores críticos e sensíveis – uma peça necessária que envolve por sua beleza comovente frente à dureza do real.

* A cobertura crítica da programação do 24º Festival Recife do Teatro Nacional é apoiada pela Prefeitura do Recife.

Ficha técnica:

A Menina dos Olhos d’Água, do Coletivo Gompa

Concepção: Liane Venturella e Camila Bauer
Direção: Camila Bauer
Atuação e manipulações: Liane Venturella
Dramaturgia do movimento: Ceren Oran
Dramaturgia de bonecos: Kenia Rodriguez e Dayane Deulafeu Canto
Criação de bonecos e máscara: Pedro Girardello
Cenografia: Élcio Rossini
Criação de miniaturas e figurino: Liane Venturella
Desenho de vídeo: Pablo Mois
Montagem de vídeos: Raoni Ceccim
Trilha sonora: Paola Kirst e Álvaro RosaCosta
Desenho de luz: Ricardo Vivian
Assistência técnica: Thiago Ruffoni
Produção: Venturella Produções LTDA e Coletivo Gompa
Assistência de produção: Rômulo Venturella
Produção na Alemanha: Karolina Hejnova
Realização: Coletivo Gompa
Assessoria de imprensa: Léo Sant’Anna
Arte gráfica: Jéssica Barbosa
Fotografia: Jéssica Barbosa, Laura Testa e Wallace Gonçalves
Financiamento: International Coproduction Fund Goethe-Institut e Iberescena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Memórias em dispersão
Crítica: Ensaio do agora
Por Ivana Moura

Ensaio do agora, com Natali Assunção, Domingos Jr e Analice Croccia. Foto: Ricardo_Maciel / Divulgação

O teatro já testou muita coisa, a ponto de às vezes parecer um laboratório saturado. Mas isso não significa que “tudo” foi testado. Em arte, o “novo” raramente é uma invenção absoluta; nasce da combinação singular de materiais conhecidos tensionados por um ponto de vista, um contexto, um gesto ético, uma regra de jogo e mais… O inédito vem do “como” e do “porquê”, muito mais do que do “o quê”.

Pós-dramático, documental, imersivo, participativo, site-specific, verbatim, teatro-jogo, teatro-cinema, bioficção… tudo isso já existe e segue fértil. Ainda assim, cada criação reconfigura o campo: quando se escolhem certas regras, tempos, modos de estar com a plateia e um problema ético-político-poético, pode-se criar um dispositivo único. Mas que tensão ainda não explorada entre dramaturgia, jogo e presença poderia gerar algo ímpar desse arranjo de regras, fricções e apostas?

Chamemos Zygmunt Bauman e seu conceito de “modernidade líquida”, onde vínculos e identidades se tornam instáveis. Quando as formas se dissolvem rapidamente, o desafio artístico se desloca: como criar presenças duradouras em um mundo que privilegia o escorregamento?

Byung‑Chul Han aprofunda o diagnóstico ao mostrar como a “sociedade do cansaço” esvazia a experiência através da hiperatividade. É preciso negatividade: pausas, silêncio, ritmos que prolonguem a combustão do sentido. Sem intervalos, não há ressonância (conceito de Hartmut Rosa) – aqueles momentos em que o mundo nos toca e respondemos, criando vibração transformadora.

É a partir dessas premissas que analiso o espetáculo Ensaio do agora, exibido no OFFRec 2025 compondo a programação do 24º Festival Recife do Teatro Nacional. A peça faz parte do projeto Contornos do tempo, com idealização e pesquisa de Natali Assunção.

Natali Assunção, Domingos Jr numa cena de DR. Ricardo_Maciel / Divulgação

A cenografia dispõe mesa lateral, telão central com projeções e figurinos esportivos luminosos dos anos 1970, criando anacronismo visual. Os três atores – Analice Croccia, Domingos Jr e Natali Assunção – vestem esses figurinos que remetem a uma estética retrô.

Anunciado como espetáculo documental nascido de conversas com nove mulheres 60+, a obra se propõe a investigar narrativas reais de afeto, dor, desejo, trabalho, cuidado e reinvenção. A questão central é criar estruturas que sustentem o encontro com as vozes que chegam e com quem as escuta.

A dramaturgia, construída pelos três intérpretes, estabelece um “entrelugar”. Natali Assunção revela que começou essa história com muitas dúvidas e algumas certezas. “As dúvidas vão se multiplicando… e, com sorte, vamos sair daqui com mais perguntas do que respostas. […] Eu falaria sobre as histórias de nove mulheres acima de 60 anos e também sobre a vida da escritora Sylvia Plath que se matou aos 30…mas na sala de ensaio, como é de costume, as coisas tomaram outros rumos”. Essa confissão metateatral sobre as metamorfoses do processo criativo poderia ter sido explorada como estratégia dramatúrgica central, transformando a instabilidade do processo em material cênico.

Os depoimentos reconstituídos em cena ou exibidos em gravações revelam momentos de genuína potência dramática. A memória de Maria José, que aos 17 anos se apaixonou por Amaro, de 25, mas foi impedida pelo pai de viver esse romance e forçada a casar-se com outro homem, é atravessada por uma melancolia que ressoa décadas depois. Sua reflexão sobre “não ter tido tempo para si” ecoa as limitações impostas às mulheres de sua geração (e não somente), criando um diálogo tácito com questões feministas contemporâneas.

A história da “penca de balangandãs” de Vera atua como uma poderosa metáfora histórica. O objeto – originalmente usado por mulheres escravizadas que compravam sua alforria através de pagamentos representados por frutas adicionadas à penca – conecta memória pessoal e história coletiva, movendo individual e político em uma imagem marcante.

A trajetória de Raquel, que encontrou no teatro um refúgio contra o preconceito, especialmente através do acolhimento de Guilherme Coelho no Grupo Vivencial, constrói um testemunho que dialoga diretamente com o próprio meio teatral. Já a memória narrada por Analice sobre abuso infantil, fuga para o convento e descoberta salvadora do teatro atinge picos de força expressiva.

Contudo, essas histórias preciosas são constantemente interrompidas por procedimentos que fragmentam a experiência sem criar uma dinâmica produtiva de tensões. O “jogo de perguntas e respostas” com metrônomo a 60 BPM e o olhar pendular das atrizes criam um ritmo hipnótico que poderia funcionar como contraponto às narrativas, mas acaba sendo mais um elemento na saturação de estratégias.

O que seria um documentário sobre nove mulheres 60+ atravessado pela poesia de Sylvia Plath ganhou outros rumos na sala de ensaio Foto: Ricardo_Maciel / Divulgação

Memórias entrelaçadas de um aniversário. Foto: Ricardo_Maciel / Divulgação

A ideia de que o presente é um campo de forças encontra na poeta Sylvia Plath (1932-1963) um contraponto estratégico. Ensaio do agora investiga o que se acumula e o que se apaga, o que dói e o que pulsa, como o passado se insinua no hoje e como o hoje reinscreve o passado. Esse contraste entre intensidade breve e duração longa poderia funcionar como mecanismo de refiguração, criando anacronismos que fazem o passado cintilar no presente.

No entanto, ao assistir à montagem, a ambição conceitual da dramaturgia não se sustenta na transposição cênica. A tentativa de dar conta de tantos assuntos, questões e procedimentos resulta numa experiência que não entrega o que promete.

Particularmente revelador é o momento em que a dramaturgia confessa que a cena do jogo de auditório “foi construída com o auxílio de inteligência artificial” e que “o elenco tem emoções conflitantes sobre isso”. Essa transparência, embora interessante como gesto ético, exemplifica a “positividade” excessiva de que fala Byung‑Chul Han: quando tudo deve ser dito, a experiência teatral se aproxima de um relatório de processo criativo. A tentativa de “abarcar o mundo” de possibilidades, embora bem-intencionada, diluiu a potência dos elementos individuais.

Tricilomelo, uma brincadeira com as mãos que chama o público jovem para participar

Parecia que a minha crítica tinha terminado, mas resolvi esticar mais um pouquinho o texto. 

A aproximação do elenco com a plateia se inicia já na entrada do público, com a organização da cena, escolha de playlist colaborativa e o tricilomelo. São opções legítimas para estabelecer um “encontro”, mas a experiência revelou os riscos inerentes de escolhas mal calibradas.

Quando solicitada a sugerir uma música, uma espectadora propõe Naquela Mesa (canção gravada por Nelson Gonçalves em 1974), que é prontamente executada. Posteriormente, um dos atores comenta que a música era “lenta”, gerando constrangimento para quem havia feito a sugestão de boa-fé. Esse episódio exemplifica uma “fratura do pacto”, pois a espectadora se sentiu julgada publicamente como hierarquia de gosto, minando a conexão que a encenação pretendia estabelecer. Similarmente, a convocação da “juventude Mucilon” para a brincadeira do tricilomelo enquanto a encenação se professa falar de “mulheres velhas”, reforça as divisões geracionais dentro da audiência. O tricilomelo é um jogo com as mãos, que se assemelha a outros muito parecidos de gerações anteriores, mas é apregoado com uma grande novidade. 

A formatação de “programa de auditório” chamado Agora se propõe a ironizar a espetacularização da vida e a banalização de urgências sociais. As perguntas sobre carga horária, ganhos de entregadores, expectativa de vida de mulheres trans e cachês de artistas transformam a cena num tribunal pop, mas o humor não ganha a voltagem crítica pretendida.

Num dos quadros, identifiquei na interpretação de Domingos Jr. um pastiche que remete à atuação de Erivaldo Oliveira em montagens do Magiluth, como Ensaio Nº 1 – Morte e Vida e Édipo Rec. A vocalização, entonação, pausas características e o uso da sineta como se fosse um leque traçam intertextualidade e sugere a influência do Magiluth na construção cênica. Mas essa referência se dilui na constante variação tonal entre ludicidade e trauma.

As questões de temporalidade ganham complexidade na presença da poesia de Sylvia Plath, introduzida como contraponto entre intensidade breve (Plath, que partiu aos 30) com a duração longa (mulheres que sustentam décadas de vida), mas essa potência permanece não realizada na sua totalidade.

No 24º Festival Recife do Teatro Nacional, Ensaio do agora espelha nosso tempo fragmentado, mas falha em transformar essa fragmentação em crítica. Ao tentar abarcar todas as urgências contemporâneas, o espetáculo perdeu a oportunidade de criar aquele momento de ressonância em que somos tocados e respondemos, deixando as preciosas histórias das nove mulheres soterradas numa encenação que não soube honrar sua própria riqueza documental.

* A cobertura crítica da programação do 24º Festival Recife do Teatro Nacional é apoiada pela Prefeitura do Recife.

Ficha Técnica 

Ensaio do Agora
com Analice Croccia, Domingos Júnior, Natali Assunção
Idealização e pesquisa: Natali Assunção
Criação de luz e de vídeo: Canela Vermelha/Domingos Júnior
Edição compilação das mulheres: Neto Soares
Edição para as projeções e trilha sonora: Heidi Trindade
Arte: Analice Croccia
Figurino: Gabriela Holanda
Assistência de produção: Duda Araújo
Produção: Analice Croccia, Domingos Jr. e Natali Assunção
Realização: Memória em chamas/Natali Assunção

Domingos Jr. em cena do espetáculo Ensaio do Agora. Foto: Foto: Ricardo_Maciel / Divulgação

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