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Os rumos de um festival

Coletiva de imprensa do Festival Recife do Teatro Nacional. Foto: Luciano Ferreira/divulgação

Coletiva de imprensa do Festival Recife do Teatro Nacional. Foto: Luciano Ferreira/divulgação

“Começou nesta sexta-feira (22) mais uma edição do Festival Recife do Teatro Nacional”. Talvez essa não seja a frase mais apropriada para iniciar esse texto. Talvez não seja só “mais uma edição”. Depois de 15 anos, é a primeira vez em que o festival sofreu realmente uma alteração no seu perfil. Se quando foi criado e ao longo de todos esses anos, a mostra serviu para trazer ao Recife espetáculos de grupos que estivessem se destacando no cenário nacional, fosse pela excelência artística, pelas novas proposições à cena, pelas experimentações de linguagem (além de congregar os espetáculos locais, mas nunca como foco principal), desta vez, esses não foram elementos norteadores.

Como explicou o gerente do Centro Apolo-Hermilo e coordenador do festival, Carlos Carvalho, durante a coletiva de imprensa do lançamento do FRTN, realizada no Teatro Apolo, “o que se apresenta para este presente e para o futuro é que aqui agora não vão estar só os grandes. Os grandes neste sentido daqueles que têm os melhores patrocínios, os melhores esteticamente, etc. Vai (sic) estar os grandes, os pequenos que fazem o melhor naquele lugar, etc, etc. A gente não está negando o passado. A gente está tentando encontrar um caminho novo”.

Para que a grade do festival fosse montada – com apenas dois espetáculos de grupos de fora de projeção realmente nacional – o Galpão e a Armazém Cia de Teatro, um edital foi colocado na praça para que os grupos se inscrevessem. De acordo com o coordenador do festival, 150 inscrições foram recebidas.

“O recorte é o teatro do possível do Brasil. Isso é lindo. Isso é lindo. Com todo o respeito, eu não sei qual seria o curador que iria a Taboão da Serra ou iria a uma tribo indígena. Mas a tribo indígena poderia dizer: olha, eu estou fazendo um teatro aqui na minha taba. E por isso ele não é moderno, ele não é contemporâneo, ele não é bom? Ele é bom no possível dele para o Brasil. Essa diversidade nos interessa neste momento. Eu acho que não tem nenhuma questão de ser contra ou a favor. É questão de opção política”, explica Carlos.

Uma comissão formada pela atriz, diretora e gestora cultural Maria Clara Camarotti, pelo ator e representante do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife Paulo Maffe, e o ator, diretor e gestor Williams Sant’Anna escolheu os 18 espetáculos que serão apresentados no festival deste ano.

Segundo Gustavo Catalano, gerente Geral de Ações Culturais da Fundação de Cultura da Cidade do Recife, a participação da comissão retirada no Fórum de Artes Cênicas realizado em agosto, no Mamam, foi “efetiva” na construção da mostra.

Além de Carlos Carvalho e Gustavo Catalano, a secretária de Cultura Leda Alves também participou da coletiva de imprensa.

……

Questões que talvez devessem fazer parte de uma discussão com a classe:

– É importante para a cidade que o perfil do Festival Recife do Teatro Nacional (assim como o Janeiro de Grandes Espetáculos e o Palco Giratório têm os seus perfis) seja mantido?
– O FRTN precisa ser repensado. Mas esse é o melhor caminho de o festival fazer diferença para a cidade?
– Os grupos de maior projeção no país, que não necessariamente são ricos e têm patrocínio (na maioria das vezes não tem, como sabemos!), vão realmente se inscrever em editais para virem ao Recife?
– Como deve ser a valorização da classe artística na política cultural da Prefeitura do Recife? Garantindo, por cota e norma, que 50% das vagas do festival são dos pernambucanos?
– E as condições dos teatros no Recife?
– E o SIC?
– E o fomento municipal?
– E a formação?

……

Usando as palavras de Ivana Moura durante a coletiva de imprensa, nossa posição aqui no Satisfeita, Yolanda? sempre foi e será o questionamento.

…….

Uma das perguntas de Ivana Moura durante a coletiva foi sobre o gerente de teatro, já que estamos em novembro e a equipe de gestão relacionada às artes cênicas ainda não estava completa:

Ivana Moura: O nosso gerente de teatro já existe?
Leda Alves: Você está desinformada?
Ivana Moura: Estou perguntando. É porque devo estar, né? (risos)
Leda Alves: Há quase um mês que é Romildo.
Ivana Moura: Romildo é das artes cênicas, não?
Leda Alves: Das artes cênicas.
Ivana Moura: E o de teatro?
Leda Alves: Que teatro?

Gustavo Catalano: O gerente de teatro já está com nome, estamos só para publicá-lo. Ainda não podemos falar.

Leda Alves: Dos equipamentos, né?

Gustavo Catalano: Exato. Na realidade, na Fundação de Cultura existem o gerente de artes cênicas e mais três gerentes: circo, dança e teatro. Nomeamos o gerente de circo, de dança, o de artes cênicas e o de teatro já estamos com nome, já foi discutido com dona Leda e estamos só aguardando a autorização para publicação. E acreditamos que até o final do mês deve ser publicado.

Bom, ontem à noite tivemos a informação de que o novo gerente de teatro foi finalmente escolhido: Jorge Clésio.

……

Coletiva de imprensa contou com as presenças de Leda Alves, Gustavo Catalano e Carlos Carvalho

Coletiva de imprensa contou com as presenças de Leda Alves, Gustavo Catalano e Carlos Carvalho

Trechos da coletiva de imprensa do Festival Recife do Teatro Nacional

Como foi a seleção dos espetáculos para o festival através de edital?
Carlos Carvalho: Tenho certeza que, para o (próximo) ano, consolidado o processo público de seleção, a gente terá com certeza a participação de mais espetáculos de diversas partes do Brasil. No entanto, tivemos 150 projetos inscritos. É um número significativo para um primeiro ano de edital. Desses 150 projetos inscritos, 36 projetos foram selecionados por uma comissão que selecionou esses projetos composta por um represente do Conselho Municipal de Políticas Culturais, um representante da Secretaria de Cultura, e teríamos a participação de um representante da Universidade Federal de Pernambuco. No entanto, nós recebemos uma comunicação do Centro (Departamento) de Teoria da Arte, que não era possível enviar um professor, uma vez que eles estavam com muitos problemas de reposição de aulas. Então nós tivemos que indicar outra pessoa para ocupar esse espaço que seria da Universidade Federal de Pernambuco. Mas isso em nenhum momento diminuiu a grandeza e a qualidade do processo de seleção. Então, desses 36 projetos que a comissão indicou, nós fizemos contatos, e aí começa um processo difícil que é de adequação daqueles projetos aos nossos espaços, adequação de espaços físicos, adequação de possibilidades técnicas, e adequação orçamentária. Então depois de passado esse processo de adequações e também de agenda dos grupos – uma vez que o grupo quando manda, ele diz que quer vir, mas do dia em que ele se inscreve até o dia em que ele é comunicado que está selecionado, a vida continua, então, muitas vezes, aparecem problemas de agenda e a gente não teria aquele grupo naquele dia, etc, etc, etc. Bom, então desses projetos indicados pela comissão, nós tiramos 18. A outra seleção se deu porque o edital previa, que também é novo isso, a garantia de que 50% da programação de espetáculos seria de espetáculos locais. Então a gente garantia, estamos garantindo, dentro dessa vitrine do festival, que na verdade o festival é uma vitrine de difusão, a participação da produção local, com 50% da grade de programação. E o edital também previa 30% de convites. A Secretaria de Cultura e a Fundação de Cultura ainda teriam a possibilidade de fazer 30% de convites da grade. Mas só convidamos um grupo, que foi o grupo Galpão, de Minas Gerais, que está abrindo o festival, no Sítio da Trindade, no dia 22 de novembro, às 20h, e também fará uma récita no dia 23, também lá, no Sítio da Trindade.

Agradecimentos à equipe
Carlos Carvalho: Gostaria aqui de registrar o meu agradecimento a três pessoas, fora o pessoal aqui do teatro, que tem trabalhado incansavelmente. A Ivo Barreto, a Eron Villar e a Margot. Que tem dado sangue, suor, lágrimas e risos, de manhã, de tarde e de noite para que a gente pudesse estar hoje aqui fazendo essa coletiva. E também a Catalano e a toda a sua equipe e também a todo o pessoal de comunicação da prefeitura, que é muito gentil, e também o pessoal da gerência de literatura….

Leda Alves: Desculpe interromper, mas eu não me referi e é uma exigência dentro de mim, que eu não posso adiar. A presença de Catalano nas nossas equipes. (….) E aqui a gente faz realmente o trabalho colegiado, todo trabalho aqui é de baixo pra cima. Ele tem contribuído muito e a gente tem aprendido também com ele. Então o projeto não é só da Secretaria. É da Secretaria e da Fundação de Cultura.

Homenageado do festival
Carlos Carvalho: Nesse processo de criação, a gente chega a quem homenagear? Durante os 15 anos de festival, sempre se homenageou alguma personalidade, um teatrólogo, um ator, etc, que contribuiu no teatro brasileiro e no teatro pernambucano. E chegamos então a Samuel Campelo e não por acaso. Quando a gente diz que depois do debut, a gente precisava repensar, depois de 15 anos, repensar e retomar outro caminho, nada melhor do que ter sido Samuel. Parece que foi escrito. Porque Samuel é a pessoa que começa no estado de Pernambuco e um dos primeiros no Brasil, a tornar possível um teatro brasileiro. Depois de Samuel, depois do grupo Gente Nossa, vem o Teatro de Amadores de Pernambuco e aí sucede-se uma série de realizadores, o Teatro do Estudante de Pernambuco, o TPN, e aí todas as outras experiências já nos anos 70, 80, e por aí vai. Então Samuel é importantíssimo. Samuel está no mesmo quilate de um Arthur de Azevedo, Samuel está no mesmo quilate de um Martins Pena. Ele funda a possibilidade de um teatro pernambucano e brasileiro com temática brasileira. E ele advogava também que, naquela época, como todos os teatros naquela época eram ocupados os seus tablados pelas operetas e burlescas francesas, que o teatro pernambucano e brasileiro precisaria, assim como Martins Pena fez, trazer o tema brasileiro, a problemática brasileira, e partindo da diversão. O que, de alguma forma, vem de encontro quando Hermilo – e é a minha frase predileta – que Hermilo Borba Filho diz que “ninguém se diverte na missa”. Então esse lugar sagrado que você não vai para se divertir, você vai para se religar, você vai para ter foco, no caso de Samuel, ele dizia que naquela época o teatro precisava tirar o foco do cotidiano e fazer diversão para fazer plateia. E ele foi um dos primeiros, digamos assim, grandes diretores do Teatro de Santa Isabel, do qual dona Leda foi uma grande diretora e eu tive o prazer de trabalhar com ela. (…)

Gustavo Catalano: Carlos, eu queria só fazer uma observação. Carlos falou sobre os 50% de artistas pernambucanos. Isso é uma determinação tanto da secretaria quanto do nosso prefeito Geraldo Júlio, da valorização dos artistas pernambucanos. Por consequência, isso transfere a nós uma responsabilidade de fazer com que isso aconteça e o edital nos ajudou muito a isso, não é verdade, Carlos? A gente sentiu que os grupos pernambucanos se interessaram, entraram mais dentro do processo, quando a gente colocou o edital na rua. Então acho que ele foi muito importante também neste sentido, no sentido de integrar os artistas pernambucanos nesse processo, e nesses novos festivais, para que a gente conseguisse executar as diretrizes da nossa secretária e do prefeito Geraldo Júlio na valorização dos artistas pernambucanos.

(…)

Perguntas dos jornalistas:

Ivana Moura: Quais grandes festivais vocês usaram como modelo para montar a programação do Festival Recife do Teatro Nacional através de edital?
Carlos Carvalho: Não conheço. Ou não tenho conhecimento assim geral de quais são os festivais que são por edital. Acho que a maioria é por curadoria. Mas isso também não quer dizer, assim, da gente mudar, que um é ruim e o outro é bom. É questão de opção. Quando é um curador, a opção é que alguém vai ter um recorte sobre uma vasta produção dentro de um tema. O tema é, sei lá, política. E o cara faz um recorte, mas o olhar é dele. No caso, ele vai procurar aqueles grupos, aquelas produções, que satisfazem aquela perspectiva que ele está fazendo um recorte. No caso do edital, é o inverso. Quando eu digo: eu procuro você, não é você quem me procura. Eu digo: olha, eu estou aqui. Você quer me ver? Então é diferente o olhar. Isso nem coloca pontos positivos nem para um, nem para outro, de dizer esse é melhor, esse é pior. É questão de opção. A opção que nós fizemos foi: se a gente se abre para o Brasil e os grupos do Brasil têm a possibilidade de dizer eu quero ir a Recife. Com isso você vai ter um olhar mais alargado. Nesse caso aqui, por exemplo, o festival deste ano não tem um recorte. O recorte é o teatro do possível do Brasil. Isso é lindo. Isso é lindo. Com todo o respeito, eu não sei qual seria o curador que iria a Taboão da Serra ou iria a uma tribo indígena. Mas a tribo indígena poderia dizer: olha, eu estou fazendo um teatro aqui na minha taba. E por isso ele não é moderno, ele não é contemporâneo, ele não é bom? Ele é bom no possível dele para o Brasil. Essa diversidade nos interessa neste momento. Eu acho que não tem nenhuma questão de ser contra ou a favor. É questão de opção política. É uma política de se abrir mais e essa eu acho que é a questão. Assim como também no carnaval, no são João, assim como foi no festival de inverno de Garanhuns, que não era por edital e nem por conta disso diminuiu a qualidade dos espetáculos, abriu-se para a diversidade. A gente não pautou nessa decisão “agora vamos romper com o passado”. De jeito nenhum. O que pautou foi nós vamos ter outro olhar para o futuro.

Leda Alves diz que edital é um instrumento da democracia

Leda Alves diz que edital é um instrumento da democracia

(….)

Leda Alves: O edital vai ser usado como um instrumento da democracia. A gente quer, que é uma das funções e missões da secretaria, criar ou abrir espaços para todas as pessoas que produzem cultura, que fazem a cultura, para todos os artistas, da capital e do interior. Você veja: o nosso São João foi alimentado por muita gente do interior. Como Carlos tinha passado sete anos trabalhando pelo interior com o Governo do Estado e estava disponível para vir para cá, ele integrou o meu grupo de trabalho e ele trazia informações de conhecer, de conviver, de testar, de saber que é bom. E foi uma coisa comentada pelas comunidades que conheceram grupos que nunca tinham conhecidos e ouvir deles a chance de virem ao Recife se apresentar, mostrar sua arte. É essa troca, esse angu que a gente quer que a cultura seja, dando acesso a todos. Segunda liberação para nós da democracia que o edital nos dá: sem injunção de pedidos. Uma das coisas mais difíceis pra gente: os amigos, os parentes, os políticos, a pedirem e a provarem que os seus candidatos são os melhores do mundo. E a gente tem essa grande arma de dizer: o edital está na praça. Se inscreveu? Não? Agora, inscreveu-se? Então fique tranquilo! Que a gente vai analisar cá e você entra. Então isso também facilita muito a democracia e dá credibilidade ao artista de que ele irá, de que é verdade o que ele assinou ali, e que nós realizaremos. Isso vem ao encontro, não é de encontro, ao encontro, a uma determinação do prefeito: a prioridade é o da terra.

(…)

Ivana Moura: O Festival Nacional ele foi pensado, inclusive você está no nascedouro desse pensamento, em busca de uma excelência artística, que ela estivesse espalhada pelo Brasil e que se pudesse buscar isso. Você acha que, com esse edital, foi possível conseguir essa excelência para este ano?

Carlos Carvalho: Sim. A excelência do possível.

Ivana Moura: Pode ser possível, mas pode não ser excelência. Daqui a pouco vamos começar a filosofar!

Carlos Carvalho: A excelência pra quem? O edital abriu as possibilidades, os grupos se inscreveram, uma comissão analisou os projetos e a gente adequou os projetos às condições. Eu não sou um curador do festival. Eu não sou um curador. O curador é o edital e a comissão.

Leda Alves: Então foi feito por uma equipe de especialistas. O objetivo dele é principalmente a troca de experiências, de aprendizados, daí haver várias oficinas. Agora, geralmente, a gente só pode avaliar a eficácia e o fruto desse edital, quando avaliar o festival. É um caminho novo. O edital a gente lançou, respondeu, a gente montou o festival, vamos ver. Essa pergunta você faz a gente quando acabar.
(…)

Ivana Moura: É porque nós temos 15 anos de edição de festival antes desse festival. 15 edições conhecidas e acompanhadas.

Leda Alves: E o que é que tem?

Ivana Moura: O que tem é que, durante esse tempo, os grandes grupos brasileiros estiveram presentes nesse festival. O que estou pontuando…

Leda Alves: Vamos acabar o festival para ver.

Carlos Carvalho: Eu concordo. Agora, o que se apresenta para este presente e para o futuro é que aqui agora não vão estar só os grandes. Os grandes neste sentido daqueles que têm os melhores patrocínios, os melhores esteticamente, etc. Vai estar os grandes, os pequenos que fazem o melhor naquele lugar, etc, etc. A gente não está negando o passado. A gente está tentando encontrar um caminho novo.

Ivana Moura: O que é um caminho novo?

Carlos Carvalho: O edital para os 15 anos é novo. É o caminho.

Ivana Moura: Edital é um caminho novo? É porque edital eu acho que é um caminho já pensado, exercitado noutras situações.

Leda Alves: Não estou dizendo a peça jurídica edital não. A utilização dele para o acesso ao festival, para a pessoa participar desse festival está sendo através deste instrumento legal chamado edital.

Carlos Carvalho: Deixa eu perguntar uma coisa. Quando você me pergunta isso você está me dizendo que você é contra o edital?

Ivana Moura: Eu não sou contra nada. Minha posição aqui é perguntar.

Carlos Carvalho: E eu estou perguntando a você também.

Leda Alves: A pergunta transparecia isso. Você tem direito de estranhar, até de desconfiar, é um direito que você tem.

Ivana Moura: Eu me preocupo com a qualidade da programação de um festival que eu acompanho desde o começo.

(…)

Carlos Carvalho: “Eu estou dizendo que é preciso a gente discutir, mas discutir com o coração aberto. Porque não é interessante a gente ter uma discussão que seja sempre sólida e todo mundo estar a favor. O que é bom é que a gente tenha os discursos diferentes para a gente encontrar um caminho. Assim como o Janeiro encontrou um caminho que eu, inclusive, acho que não é o melhor. Eu, particularmente, Carlos Alberto Carvalho Correia, não acho que é o melhor. Já discuti isso com Paula (de Renor). Mas é uma opção de três pessoas ou quatro, mas três que assinam o festival. Nós estamos agora olhando outro espaço, outra forma de conduzir. E a gente pode ter, inclusive, a humildade, se fosse o caso, de dizer: olha, não deu certo. Mas porque não deu certo? Tem que fazer primeiro.

(….)

Ivana Moura: Qual foi a efetiva participação no festival daquela comissão de artes cênicas que foi tirado lá no Mamam, no Fórum de Artes Cênicas?
Gustavo Catalano: Após uma reunião que fizemos com o fórum temático de artes cênicas foi tirada duas comissões: uma comissão para o festival de dança e outra para o festival de teatro. E essas comissões vieram para que, junto com os gerentes, nomeados para coordenar cada festival, montassem a estrutura deles. O que seriam eles? Se o edital seria o edital, se o edital seria uma curadoria. Naquele momento em que já estava muito próximo já dos festivais. E a gente apresentou o edital, discutiu esse edital, discutimos texto, discutimos tudo dentro desse contexto. E aí após essa aprovação, após essa discussão toda, foi que a gente lançou o edital. A gente não lançou oficialmente da nossa cabeça.

Ivana Moura: Então esse grupo teve uma participação efetiva na formulação dessa história? Que são os representantes da classe?

Gustavo Catalano: Efetiva.

Carlos Carvalho: Ele foi consultado.

Leda Alves: Não só isso.

Gustavo Catalano: Também. Uma participação efetiva. Várias reuniões. Vieram.

Carlos Carvalho: O grupo foi consultado. Todos os pontos foram elencados, a gente discutiu. Samuel (Santos), Rodrigo Dourado…é….

Gustavo Catalano: A gente não excluiu a sociedade civil do processo não. Muito pelo contrário. A intenção é incluir a sociedade civil na discussão dos festivais.

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Um encontro com Boal

Augusto Boal.

Augusto Boal

 

 

 

 

 

 

 

 

 

” 

Teatro do Oprimido pode ser realizado em qualquer parte do planeta, visto que em toda parte há seres humanos e também há opressão

 

É um método de descoberta do desejo e de ensaio de realização deste desejo.

Ele surgiu em São Paulo, no início dos anos 1970. No princípio chamava-se Teatro Jornal.

Na Argentina tive uma experiência  com o Teatro Invisível, que é uma forma de utilizar o teatro dentro da realidade sem revelar que é teatro
A censura se dá de duas formas. Uma delas é a policial, usada no regime autoritário no Brasil.  A outra – tão ruim quanto – é aquela que se dá na forma da sedução.
Isso é o padrão de censura dominante no Brasil. É a coerção pelo poder econômico.
São as empresas que determinam o que pode ser feito e o artista não está livre para fazer suas experiências.
O que ocorre no Brasil é a privatização da cultura. O patrocinador vê a produção artística como parte de seu projeto de marketing.
Isso vai torna a arte asséptica. O que os patrocinadores geralmente querem é reproduzir um mundo velho, já conhecido e aprovado.
O pressuposto de que cultura tem de dar lucro é dos neoliberais.
A cultura tem que ser subsidiada.
O lucro da arte se dá de outro jeito. Enriquecendo a forma de pensar do espectador. É um lucro do crescimento humano, de um valor muito difícil de ser medido já que não se trata de uma mercadoria vulgar.
A arte faz o homem mais rico

 

Augusto Boal e o Teatro do Oprimido em Paris, 1975. Cedoc-Funarte

Augusto Boal e o Teatro do Oprimido em Paris, 1975. Foto: Cedoc-Funarte

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Augusto Boal era puro amor ao teatro. Um  mito. Uma bússula.  Um libertário que apostava  que essa arte aparentemente tão frágil poderia mudar o mundo, fazer a revolução.

Lembro do teatrólogo com um sorriso sempre aberto e entusiasmo pela vida que contagiava seu interlocutor. Ele veio ao Recife para um encontro e eu tive o prazer e a honra de passar algumas horas ao seu lado, ouvindo suas ideias. Sua sede por justiça. Sua fome de oportunidades para todos.

Boal faz falta.

A entrevista abaixo foi publicada em 20 de setembro de 2000, no Diario de Pernambuco.

 

Augusto Boal

Augusto Boal esteve no Recife em 2000, durante a Conferência Internacional Mudança de Cena II

O teatrólogo Augusto Boal foi tratado como sujeito de extrema periculosidade pelo regime militar. Foi preso, torturado e exilado em 1971. Nessa temporada forçada no exterior, criou técnicas de teatro. O Teatro do Oprimido foi lançado em 1974, traduzido para dezenas de idiomas e até hoje é uma publicação bem vendida. O livro reúne experiências do autor/diretor com o teatro invisível, quando o espectador participa do espetáculo e de técnicas para colocar no centro da cena quem está à margem. O seu método é praticado em mais de 70 países em todo mundo. Boal sempre lutou por um mundo mais justo para todos. Figura central do Teatro de Arena nos anos 1950 e 1960, em São Paulo, ele fez espetáculos como Arena conta Zumbi. O dramaturgo, que lançou recentemente sua autobiografia, Hamlet e o Filho do Padeiro, da editora Record, chega hoje ao Recife para participar da conferência internacional Mudança de Cena II.

ENTREVISTA // Augusto Boal

Como o senhor vê o atual momento do teatro brasileiro, dominado pelo besteirol e pelas constantes reclamações dos artistas e público de que o teatro brasileiro vai mal?

Augusto Boal – Vai de mal a pior. O teatro segue o País que vai de pior em pior, como dizia a canção do João do Vale. Hoje nós vivemos escravos em um País escravo. Não nos damos conta disso porque se trata de uma nova forma de escravidão, na qual os senhores são invisíveis – FMI, bolsa de NY, Hong-Kong, bancos internacionais. Onde estão? Não os vemos, mas somos escravos porque o que caracteriza a escravidão é a total ausência de livre arbítrio – nós não temos mais livre arbítrio, os brasileiros não podem decidir o que fazer com um salário mínimo de 151 reais, com o pagamento mensal de um bilhão e 500 milhões de dólares de juros e serviços da dívida externa. Sobram as migalhas. Dana-se a educação, a saúde, a cultura. Enquanto o Brasil não se libertar desse jugo odioso, o teatro irá sempre mal, de mal a pior… A privatização da cultura faz com que muitos artistas estejam deixando de ser donos de suas vozes para se transformarem em vozes dos seus donos. É triste.

Hoje, o senhor faria revisões à metodologia do Teatro do Oprimido?

Boal – Não são necessárias. O que é necessário á incluir novas técnicas que dêem conta de novos problemas. O método é o mesmo, mas nestes quase 30 anos tem sido constantemente enriquecido: teatro imagem, teatro fórum, teatro invisível, arco-íris do desejo, teatro legislativo. Nada disto é inútil, precisamos apenas saber em que momento usar uma técnica ou uma outra. T.O. não é moda nem modismo: é método mesmo, método de pensar, forma de inventar.

Como o senhor identifica os trânsitos possíveis entre a arte e a realidade brasileira?

Boal – A arte é uma representação do real, não é o real. Como tal, de algum ponto no mundo essa representação é feita – isso mostra que o artista está localizado em algum lugar e vê o mundo – por isso, toda arte é sempre política. Além do mais, ao contrário da pintura, por exemplo, que representa um instante do real, o teatro representa o movimento desse real. Maior ainda a nossa responsabilidade: O que mostrar? Para onde vai o mundo e para onde poderá ir?

“O teatro é uma forma de se entender a dor, dominá-la. Fazemos teatro para sermos maiores que a dor”. Este é um poético conceito do senhor sobre o fazer artístico e até das motivações da opção pela arte. Quando isso pode se materializar?

Boal – Qualquer ato artístico criador concretiza esse sonho. Ser artista é ser humano. Ser humano é ser capaz de transformar o mundo. É verdade que uma boa parte da humanidade está desumanizada, mas ainda existem muita gente que respira, vive, trabalha para que o mundo – principalmente o Brasil e outros países igualmente miseráveis no que se refere à sua população – se transforme!

O mundo de hoje está numa maré de despolitização. O individualismo é a principal tendência em todos os segmentos. Como é possível fazer conexões com as utopias de uma sociedade mais justa para todos diante da globalização, que continua impondo a exclusão?

Boal – Existem dois sonhos: O que substitui a realidade e o que é posto à nossa frente para que alcancemos a mudança. Nada se pode mudar se não for antes sonhado. Chame-se a isto utopia, pouco importa – é o sonho bom. O mau é quando vemos o povo olhando TV e vendo na tela a mesa farta enquanto que em sua casa nem sequer tem mesa, menos ainda comida; na tela, felicidade e piscinas de água quente; na casa do telespectador, nem água corrente nem felicidade.

Nas décadas de 1960 e 1970 a discussão das relações entre política e teatro animavam o fazer teatral no Brasil. Como este debate pode ser feito atualmente?

Boal – Através da ação. Fazendo Teatro do Oprimido, por exemplo.

As técnicas do Oprimido foram adotadas em várias cidades do mundo. A que o senhor atribui o sucesso internacional do seu método?

Boal – Ao fato de que é verdadeiramente um método democrático e não uma cartilha, não um catecismo. É socrático e sinceramente pergunta, interroga, quer saber e não ordena, não força ninguém a fazer o que talvez não possa. É criativo, é saudável, é terapêutico, é divertido. Como não fazer sucesso no mundo inteiro se assim é? Hoje, o T.O. se pratica em mais de 70 países do mundo.

O senhor tem uma agitada agenda internacional. O que o público de outros países questiona nas suas conferências?

Boal – Dialogamos. Os temas que os participantes em qualquer país sempre querem tratar são principalmente: a opressão da mulher, o racismo, e a falta de dinheiro, emprego, etc.

Como o senhor vê a política no Brasil nesse final de século?

Boal – Precisamos lutar por uma nova abolição. Basta de escravidão! Eu me sinto como Bolívar: sou (somos!!!) lavradores do mar – tudo o que fizemos ficou por fazer. O Brasil se libertou do colonialismo português e caiu sob o domínio feroz e humilhante da globalização atual.

Qual sua expectativa sobre o futuro? O senhor é otimista?

Boal – Acredito no trabalho, na luta, na criatividade, na solidariedade, no trabalho conjunto, acredito em tudo que é bom. Sou otimista sim, mas não sou bobo!

Qual o seu sentimento sobre a “globalização cultural”?

Boal – Querem nos transformar em robôs, em clones, em ovelhas Dolly, em números. Querem nos arrancar nosso nome. E eu quero que cada um de nós seja capaz de dizer “eu” para que possa logo depois dizer “nós”! Quero a unificação de todos os que lutam e os globalizantes querem a uniformização, isto é, a destruição da identidade!

 

Boal protagonizou debates contra a opressão

Boal protagonizou debates contra a opressão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Só depois de concluir o curso de química na Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1950 é que Boal foi atrás de sua formação teatral. Ele estudou teatro na Universidade de Columbia , em Nova Iorque, foi aluno de John Gassner e assistiu aulas do Actor’s Studio.

Após esse aprendizado tornou-se diretor e dramaturgo e depois teórico teatral.

No Teatro de Arena, Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri e José Renato protagonizam uma revolução cênica a partir do pensamento. Boal dirigiu clássicos da dramaturgia mundial de Molière, Lope de Vega, Gogol, Maquiavel. Colocou em cena o homem comum, em montagens como Arena Conta Zumbi e Arena Conta Tiradentes.

Na Argentina ele criou a estrutura teórica dos procedimentos do Teatro do Oprimido.

 

Ele retornou de vez ao Brasil em meados da década de 1980.

Montou:

O Corsário do Rei (1985), texto de sua autoria com música de Edu Lobo e letras de Chico Buarque;

Fedra (1986), de Racine, com Fernanda Montenegro no papel-título.

 

Em 2009, ano de sua morte, foi nomeado embaixador mundial do teatro pela UNESCO.

 

Espetáculos de Augusto Boal no Teatro de Arena

1956. Ratos e Homens. De John Steinbeck. Direção: Augusto Boal.
1957. Juno e o Pavão. De Sean O’Casey. Direção: Augusto Boal.
1957. Marido Magro, Mulher Chata. Texto e direção: Augusto Boal.
1958. A Mulher do Outro. De Sidney Howard. Direção: Augusto Boal.
1959. Chapetuba Futebol Clube. De Oduvaldo Vianna Filho. Direção: Augusto Boal.
1959. A Farsa da Esposa Perfeita. De Edy Lima. Direção: Augusto Boal.
1959. Gente como a Gente. De Roberto Freire. Direção: Augusto Boal.
1960. Revolução na América do Sul. De Augusto Boal. Direção: José Renato.
1960. Fogo Frio. De Benedito Ruy Barbosa. Direção: Augusto Boal.
1961. Pintado de Alegre. De Flavio Migliaccio. Direção: Augusto Boal.
1961. O Testamento do Cangaceiro. De Chico de Assis. Direção: Augusto Boal.
1962. A Mandrágora. De Maquiavel. Direção: Augusto Boal.
1963. O Melhor Juiz, o Rei. De Lope de Vega. Direção: Augusto Boal.
1963. O Noviço. De Martins Pena. Direção: Augusto Boal.
1964. Show Opinião. De Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes e Augusto Boal. Direção: Augusto Boal.
1964. Tartufo. De Molière. Direção: Augusto Boal.
1965. Arena Conta Zumbi. De Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri. Direção: Augusto Boal.
1965. Tempo de Guerra. De Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal. Direção: Augusto Boal.
1966. O Inspetor Geral. De Nikolai Gogol. Direção: Augusto Boal.
1966. A Criação do Mundo Segundo Ary Toledo. De Augusto Boal e Guarnieri. Direção: Augusto Boal.
1967. Arena Conta Tiradentes. De Augusto Boal e Guarnieri. Direção: Augusto  Boal.
1967. O Círculo de Giz Caucasiano. De Brecht. Direção: Augusto Boal.
1967. La Moschetta. De Angelo Beolco. Direção: Augusto Boal.
1968. Mac Bird. De Bárbara Garson. Direção: Augusto Boal.
1968. Primeira Feira Paulista de Opinião. Vários autores. Direção: Augusto Boal.
1968. Sérgio Ricardo na Praça do Povo. Texto e direção: Augusto Boal.
1969. Chiclete e Banana. Texto e direção: Augusto Boal.
1969. O Comportamento Sexual Segundo Ary Toledo. Direção: Augusto Boal.
1970. Arena Conta Bolívar. Texto e direção: Augusto Boal.
1970. A Resistível Ascensão de Arturo Ui. De Brecht. Direção: Augusto Boal.
1970. Teatro Jornal Primeira Edição. Vários autores. Direção: Augusto Boal.

 

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Paixão avassaladora e mal-entendido cômico

Sessão deste sábado de A Saga Amorosa dos Amantes Píramo e Tisbe está marcada para às 17h30

Sessão deste sábado de A Saga Amorosa dos Amantes Píramo e Tisbe está marcada para às 17h30

Satisfeita, Yolanda? no Palco Giratório

Choveu tanto no Recife (e RMR) ontem que a cidade virou um caos. Ruas inundadas, engarrafamentos, suspensão de alguns serviços. O Festival Palco Giratório cancelou a sessão de sexta do espetáculo A Saga Amorosa dos Amantes Píramo e Tisbe. A apresentação será neste sábado, no mesmo local, na Praça do Campo Santo (ao lado do SESC e em frente ao Cemitério de Santo Amaro), mas o horário mudou para as 17h30. A Cena Bacante, programação agendada para as sextas-feiras de maio, também foi adiada para hoje, a partir das 23h, no Centro de Articulação dos Sabores Artísticos (C.A.S.A), que fica na Av. Visconde de Abaetê, 166, na Tamarineira.

A comédia farsesca A Saga Amorosa dos Amantes Píramo e Tisbe, do Grupo Teatral Gota, Pó e Poeira (ES) participa do Palco dentro do projeto Diálogos Capixabas. Píramo e Tisbe é uma lenda sobre uma paixão avassaladora entre dois jovens vizinhos (estão separados por uma parede, mas eles trocam juras de amor por uma fresta, que só eles viram), mas que os pais proíbem o relacionamento. Um dia eles resolvem fugir para vivenciar esse amor, mas ocorre uma tragédia movida por pistas falsas.

Grupo Teatral Gota, Pó e Poeira participa do Palco dentro do projeto Diálogos Capixabas

Conta a lenda que eles combinaram de se encontrar no no túmulo de Nino, ao pé de uma amoreira branca. Tisbe chegou primeiro e teve que se esconder de uma leoa, que acabara de trucidar algum animal. Mas deixou cair a capa. Quando Píramo aparece encontra o véu da amada rasgado e ensanguentado e decide tirar a vida com sua própria espada. Ao voltar ao local, Tisbe encontra seu amado morto e resolve ter o mesmo fim. O sangue dos dois, derramado aos pés da amoreira, comoveu os deuses, que pintou as amoras de vermelho.

Essa história influenciou Shakespeare na elaboração de Romeu e Julieta. Na montagem do Grupo Teatral Gota, Pó e Poeira, uma trupe de teatro deve apresentar ao rei e à rainha uma peça que junte amor e comédia. O bando apresenta esse fragmento do Sonho de uma Noite de Verão, uma paródia do bardo ao Romeu e Julieta.

Fotos: Keily Dias/Divulgação

Fotos: Keily Dias/ Divulgação

Serviço:

A Saga Amorosa dos Amantes Píramo e Tisbe, do Grupo Teatral Gota, Pó e Poeira (ES)
Quando: hoje(18), às 17h30
Onde: Praça do Campo Santo (ao lado do Sesc e em frente ao Cemitério de Santo Amaro)
Quanto: Grátis

Ficha técnica:

Atriz/contrarregra: Aline Saraiva
Ator/diretor: Carlos Ola
Ator/músico: Dyonathas Silveira
Atrizes: Danielle Lino, Eliane Correia e Neuza de Souza
Atores: Edmar da Silva e João Batista Ferreira de Moraes
Músico: Jovani Anacleto

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Lugar de criança é no teatro!

Babau abre a Mostra Marco Camarotti de Teatro para a Infância e Juventude. Foto: Pollyanna Diniz

Babau abre a Mostra Marco Camarotti de Teatro para a Infância e Juventude. Foto: Pollyanna Diniz

No fim de 2009, o Sesc inaugurava o Teatro Marco Camarotti, uma homenagem ao professor, diretor, ator, encenador, escritor e arte-educador falecido em 2004. Desde então já havia um foco para o espaço: abrigar e tentar difundir a produção para a infância e juventude. Uma das ações nesse sentido é a Mostra Marco Camarotti de Teatro para a Infância e Juventude que está em sua 3ª edição e começa neste domingo (3).

A escolha dos espetáculos não é tarefa fácil – e não é só pela curadoria em si, pelas escolhas estéticas ou afins. Mas por conta da produção pouco numerosa mesmo. Problema enfrentado, aliás, pelo Janeiro de Grandes Espetáculos este ano. “Acho que ano passado tivemos uma produção forte no teatro adulto, mas sentimentos falta de mais espetáculos infantis”, explica Rodrigo Cunha, coordenador pedagógico do curso de interpretação para teatro do Sesc Santo Amaro.

“São muitos fatores. Mas uma das coisas que percebemos é que a produção está muito amarrada ao Funcultura (Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura). Os projetos só são realizados quando aprovados. Mas existem sim vários grupos interessados no teatro para a infância”, complementa Ailma Andrade, supervisora de Cultura do Sesc Santo Amaro. “Não seria possível, por exemplo, fazer uma mostra seguindo alguma temática, por exemplo. Mas geralmente são grupos com um trabalho continuado neste segmento”, finaliza Ailma.

Olhando a programação, o que disse a supervisora de Cultura do Sesc se confirma. Este ano, a mostra presta homenagem, por exemplo, ao grupo Mão Molenga Teatro de Bonecos, que tem 27 anos de trajetória. Será uma ótima oportunidade para rever ou conhecer de forma mais ampla o grupo – só do repertório do Mão Molenga serão cinco montagens: Babau ou a vida desembestada do homem que tentou engabelar a morte (3), Fio mágico (10), Era uma vez (12), A cartola encantada (19) e Algodão doce (17 e 24).

E a mostra tem ainda Seu rei mandou… (7), da Cia Meias Palavras (leia aqui as críticas ao espetáculo); Pindorama, caravela e malungo (9), do Quadro de Cena; Baú encantado: Conta daí que eu conto de cá (14), com Adriano Cabral e Hilda Torres; As Levianinhas em pocket show para crianças (16), da Cia Animé (também já escrevemos sobre o espetáculo); Passaredo (21), do grupo Proscênio; e a estreia Le Petit Grandezas do Ser (23), da Companhia Circo Godot de Teatro.

Seu Rei Mandou..., espetáculo da Cia Meias Palavras

Seu Rei Mandou…, espetáculo da Cia Meias Palavras

Os ingressos para os espetáculos da mostra custam R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada), mas escolas públicas com prévio agendamento não pagam. O agendamento pode ser feito através do telefone (81) 3216-1728.

Confira a programação:

03/3, às 16h
Babau ou a vida desembestada do homem que tentou engabelar a morte, do Mão Molenga Teatro de Bonecos
Sinopse: Babau é um espetáculo que ilustra o processo de criação dos mamulengueiros de Pernambuco. Mostra como esses artistas desenvolvem suas práticas e técnicas, a importância e a graça da arte do mamulengo e a difícil realidade na qual os mestres populares estão inseridos. O universo do espetáculo é baseado na vida e obra de bonequeiros reconhecidamente virtuosos, misturando informações obtidas em conversas com mestres Zé Lopes e Zé Divina. O elo entre vários mamulengueiros é Babau, um boneco que passa de geração em geração pelas mãos dos mestres. Ele é o personagem que sempre consegue enganar a morte, numa situação inversa a de seus manipuladores e criadores, muitos dos quais morrem esquecidos e miseráveis.
*O ESPETÁCULO CONTARÁ COM OS RECURSOS DE ÁUDIODESCRIÇÃO E TRADUÇÃO EM LIBRAS.
Faixa etária indicativa: 8 anos

07/3, às 10h
Seu Rei Mandou…, da Cia Meias Palavras
Sinopse:Inspirado pela tradição oral, o espetáculo narra, com música ao vivo, humor e poesia, a trajetória de tirania, bravura, esperteza e bonanças de três reis através das histórias: A Lavadeira Real, O Rato que roeu a Roupa do Rei de Roma e O Rei chinês Reinaldo Reis. Todas recontadas e criadas pelo escritor, ator, palhaço, bonequeiro e contador de histórias Luciano Pontes, pesquisador desse ofício desde 2005, acompanhado pela flauta e tambor do músico Gustavo Vilar.
Faixa etária indicativa: 06 anos

09/3, às 16h
Pindorama, caravela e malungo, do Grupo Quadro de Cena
Sinopse: Pindorama, caravela e malungo é uma história sobre uma expedição às águas profundas da formação do povo brasileiro. História cheia de bichos, de coisas de mar, de índio, de negro e de branco, de heróis, de bonecos, de verdade verdadeira e de mentira que virou verdade, que se aninham ao universo infanto-juvenil para lembrar da poesia da origem do Brasil.
*O ESPETÁCULO CONTARÁ COM OS RECURSOS DE ÁUDIODESCRIÇÃO E TRADUÇÃO EM LIBRAS.
Faixa etária indicativa: Livre

Fio mágico conta a história de um garoto que descobre que pode adiantar o tempo. Foto: Mão Molenga

Fio mágico conta a história de um garoto que descobre que pode adiantar o tempo. Foto: Mão Molenga

10/3, às 16h
Fio mágico, do Mão Molenga Teatro de Bonecos
Sinopse: A peça é uma parábola sobre o tempo e a importância de se viver e aprender com cada experiência vivida. Conta a história de um menino impaciente, que recebe o dom de adiantar o tempo manipulando o fio de sua própria vida. Esta montagem foi contemplada com o Prêmio Funarte Myriam Muniz 2007.
Faixa etária indicativa: 6 anos

12/3, às 15h
Era uma vez, do Mão Molenga Teatro de Bonecos
Sinopse: Um grupo de bonecos resolve encenar uma adaptação do tradicional conto de fadas Rapunzel. Acontece que a bruxa, orgulhosa da sua beleza, decide inverter os papeis. Tenta de todas as formas ser a princesa da história e provoca um rebuliço geral na Companhia de Bonecos. A verdadeira princesa, indignada, decide defender seu posto. Trava-se uma disputa bem humorada pelo papel de princesa. Entre mágicas, números musicais, aparições fantasmagóricas e brincadeiras a história toma rumos inesperados.
Público alvo – Crianças a partir dos quatro anos de idade.
Faixa etária indicativa: Livre

14/3, às 10h
Baú Encantado: conta daí que eu conto de cá, com Adriano Cabral e Hilda Torres
Sinopse: Traz a história de dois idosos que nunca largaram o “faz de conta” e para tanto quando se encontram transformam-se em duas crianças: Aninho e Didinha (processo que resgata a infância dos próprios atores). Toda história será contada com muita ludicidade: o texto das Sete Saias da Lua será norteador; em paralelo serão contadas histórias de autores pernambucanos e a última intervenção será das crianças que também contarão estórias.
Faixa etária indicativa: Livre

Palhaças-cantoras-divertidíssimas! As Levianinhas em pocket show para crianças. Foto: Pollyanna Diniz

Palhaças-cantoras-divertidíssimas! As Levianinhas em pocket show para crianças. Foto: Pollyanna Diniz

16/3, às 16h
As Levianinhas em pocket show para crianças, da Cia Animé
Sinopse: Além do repertório infantil, a banda de palhaças apresenta algumas canções que agradam a todas as idades, a exemplo de Biquíni de bolinhas amarelinho. Com histórico de sucesso com seu pocket show para adultos, agora a Companhia apresenta a versão para crianças do espetáculo.
*O ESPETÁCULO CONTARÁ COM TRADUÇÃO EM LIBRAS.
Faixa etária indicativa: Livre

19/3, às 16h
A Cartola Encantada, do Mão Molenga Teatro de Bonecos
Sinopse: A peça começa com o Sapinho que decide realizar um show de mágicas com sua cartola encantada. Apesar de todos os seus esforços, algo sai errado e ao invés de coelhos, o que sai da cartola é um rato vilão que vem sabotar o show. Personagens como a macaca Heleninha, flores, abelhas e uma cobra dançarina conduzem a história.
Faixa etária – Crianças a partir dos quatro anos de idade.

21/3, às 10h
Passaredo, do Grupo Proscênio (Sesc Surubim)
Sinopse: Utilizando o universo do diálogo entre o humano e aves, Passaredo conta de forma lúdica uma ‘história de gente e pássaro’ – as mais lindas (ou não) relações que estabelecemos com a natureza. Além da poesia e vida de Luiz Gonzaga, o espetáculo se apropria de elementos trágicos para contar a saga fictícia de um pequeno “herói”, que por causa da sua amada, aventura-se no sertão em busca do seu amor.
Faixa etária indicativa: 10 anos

23/3, às 16h
Le Petit – Grandezas do Ser, da Cia Circo Godot de Teatro
Sinopse: Livremente inspirado na mais famosa personagem de Antoine de Saint-Exupéry, Le Petit Grandezas do Ser apresenta um universo fabular em que a corrida contra o relógio, a fidelidade a um amigo doente e o medo da solidão são os princípios dramatúrgicos para ações que fundam uma narrativa lúdica e poética, a qual, abolindo por completo o uso da palavra, como um filme mudo, propõe uma diversidade de imagens, sonoridades e situações.
Faixa etária indicativa: 8 anos

17/3 e 24/3, às 16h
Algodão Doce, do Mão Molenga Teatro de Bonecos
Sinopse: A peça marca os 25 anos de trabalho da companhia pernambucana Mão Molenga Teatro de Bonecos. É um espetáculo infanto-juvenil de teatro-dança e de formas animadas, onde atores-manipuladores, bailarinos, bonecos e objetos ilustram o processo de construção da chamada Civilização de Açúcar. As situações dramáticas e as criações coreográficas baseiam-se nesse rico imaginário. Sua concepção foi criada a partir de dados históricos, das narrativas populares e de elementos presentes em manifestações espetaculares genuinamente nordestinas como o Mamulengo e o Cavalo-Marinho.
*O ESPETÁCULO CONTARÁ COM TRADUÇÃO EM LIBRAS.
Faixa etária indicativa: 8 anos

Algodão doce tem bonecos com textura de algodão doce e ainda bonecos maiores do que os manipuladores. Foto: Ivana Moura

Algodão doce tem bonecos com textura de algodão doce e ainda bonecos maiores do que os manipuladores. Foto: Ivana Moura

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Deolinda Vilhena avalia Festival Recife do Teatro Nacional

Festival foi aberto com espetáculo sobre Gonzagão. Foto: Pollyanna Diniz

Avaliação do 15º FESTIVAL RECIFE DO TEATRO NACIONAL
Por Deolinda Catarina França de Vilhena (BA)

PRÓLOGO

Não sei quantas horas ao longo desses últimos dias passei diante da tela do computador tentando imaginar um começo para essa Avaliação. Li e reli, diversas vezes, os textos de meus antecessores nessa missão em busca de inspiração. E nada. Pelas regras da boa educação talvez devesse começá-la com os agradecimentos de praxe, mas apaixonada e entusiasmada que sou, aos agradecimentos de praxe prefiro aqueles feitos pelo coração e esses hão de aparecer no momento que quiserem e não obrigatoriamente no prólogo dessa conversa.

Uma outra possibilidade era começar citando uma frase de um pernambucano ilustre, e não são poucos os que admiro. No quesito poesia, por exemplo, há os que prefiram Drummond, mas declaro publicamente que entre os poetas brasileiros, o meu preferido é um pernambucano de boa cepa chamado Manuel Bandeira. Mas hoje em dia o Facebook banalizou o efeito das citações. E depois, isso aqui não é um trabalho acadêmico para que eu desate a inserir notas de rodapé.

E imaginando todas as possibilidades de como seduzi-los desde o começo desse texto, encontrei um detalhe interessante, pode não ser suficiente para conquistá-los, mas pelo menos apresenta um dado novo: nesses 15 anos do Festival Recife do Teatro Nacional é a primeira vez que a avaliação foi entregue a uma Produtora. Talvez tenha sido um descuido, pois a produtora que sou tornou-se Pós-Doutora, e como tal é Professora da Escola de Teatro e do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia, aposentando por uns tempos a produtora, que com 36 anos de experiência ainda dá de dez na professora-pesquisadora. Diria mesmo que meu olhar de produtora, ao mesmo tempo atormenta e alimenta a professora-pesquisadora.

Isso significa que nossa conversa de hoje será construída em função do olhar de uma produtora, que escreve como uma jornalista e tenta articular o pensamento com a seriedade de uma professora-pesquisadora ligada à instituição e à academia, ainda que lutando obstinadamente para fugir do ranço eventualmente cultivado por alguns colegas.

Dito isso, vamos ao que interessa, antes que Ivana Moura não se sinta satisfeita e escreva que comecei essa Avaliação com um tremendo nariz de cera.

Deolinda Vilhena, na ponta à esquerda, foi a avaliadora do 15º Festival Recife do Teatro Nacional. Também na foto Jorge Clésio, Roberto Lúcio, Albemar Araújo e Lúcia Machado. Foto: Marcelo Lyra/divulgação

ATO 1 – FESTIVAIS

Em outubro de 2011 realizei na Universidade Federal da Bahia o I Colóquio Internacional No Reino dos Festivais – Festival: instrumento ou pretexto para as políticas culturais? como parte de um projeto de pesquisa intitulado Artes do espetáculo no Brasil e seus impactos econômico, político e social na primeira década do século XXI. Entre os convidados estava Bernard Faivre D’Arcier – diretor de 16 edições do Festival de Avignon – e foi Bernard que chamou minha atenção para algo que andamos esquecendo por aqui, e eu cito: “devemos pensar os festivais por sua utilidade artística e não unicamente por seus benefícios econômicos e turísticos. Da mesma forma que é preciso defender, junto às instâncias políticas, a cultura como um componente essencial da sociedade, da atividade humana e não somente como um setor de emprego entre outros, ou um simples fator de desenvolvimento social.“1

Não poderia encontrar definição melhor para o que imagino ser um festival de artes cênicas. Nunca quis que a cultura fosse um braço da economia, mas que soubéssemos ser capazes de usar os instrumentos disponíveis na economia a nosso favor e não apenas em benefício dela.

Um festival de artes cênicas é hoje espaço privilegiado de intercâmbio artístico, circulação de ideias, conferência de linguagens e estéticas, oportunidade para diálogos e conhecimento, marco para futuros desafios. Quando concebido e organizado a partir dessas premissas é, também, uma ocasião oportuna para que os apreciadores desta arte recebam não só o melhor, mas também o que há de novo, provocador e polêmico no panorama da produção contemporânea. Mas funciona também como uma forma de luta contra a exclusão, pela integração dos jovens em dificuldade, envolvendo a participação deliberada e organizada de uma ação coletiva ao mesmo tempo lúdica, pedagógica e formativa. Afinal, além da programação artística, os festivais apresentam uma rica agenda de formação, programando encontros com os grupos, oficinas de interpretação, de circo, de preparação de espaços culturais, dramaturgia e diversos seminários.

Claro que não devemos ignorar o caráter de evento dos festivais, eventos garantem as cidades que os acolhem um impacto de notoriedade frequentemente muito importante em relação ao esforço financeiro empenhado. Em parte por essa razão, os festivais têm um papel importante na redescoberta, na reabilitação e na promoção de lugares históricos, que servem como pano de fundo para uma grande parte deles, e o exemplo da Europa – desculpem mas faço parte dos que ainda têm o Velho Continente como referência, acredito que antiguidade é posto e hierarquia deve ser respeitada – onde os festivais colocaram diversas cidades no mapa-múndi da cultura, e entre elas destaco Avignon, na França e Edimburgo, na Escócia.

Por outro lado, um festival bem sucedido pode ser o detonador de uma série de ações municipais abertas à juventude local, ou de operações de iniciação à cultura e à ação cultural em escolas e universidades. Histórias de sucesso mostram que a ação cultural, declinação de um evento cultural, da mesma maneira que o esporte pode ajudar a libertar os jovens da sua solidão. A cidade ganha com isso uma maior coesão social. Em algumas ações nas RPAs pude constatar que isso acontece aqui em Recife, com grupos que surgiram de ações passadas do festival e foram capazes de criar, de maneira espontânea, grupos improvisados. Alguns, pelo seu entusiasmo, sua originalidade, sua criatividade inspirada mesmo em sua condição social, alcançaram o profissionalismo e buscam agora o seu lugar na profissão.

Mas produzir e organizar um festival significa ultrapassar as infinitas problemáticas de organização decorrentes de um processo de mudança constante, que exige, cada vez mais, inúmeras habilidades diferentes. Os profissionais precisam desenvolver a versatilidade e a competência para participar efetivamente da sua organização. Entre os muitos aspectos a serem levados em consideração destacamos: criação, difusão, mediação cultural, desenvolvimento local, meios de comunicação, enquadramento jurídico e fiscal, o estudo do desenvolvimento sustentável e público. Tudo isso tendo como pano de fundo as novas exigências dos festivais e sua capacidade de adaptação à evolução e as novas realidades do mundo cultural.

Exatamente por conhecer, intimamente, as dificuldades de realização de um evento desse porte, na prática e na teoria, que esta avaliação é, antes de tudo uma declaração de amor e respeito a todos os membros da equipe de realização do 15o Festival Recife do Teatro Nacional. Isso não significa que concordarei com eles em gênero, número e grau ou que não irei fazer as críticas e sugestões necessárias, afinal, como para Deleuze “opor-se é construir”, é o que busco aqui por acreditar ser necessário construir antes de mais nada, opor-se vem como uma consequência, opor-se sem construir é insuficiente e sem sentido.

ATO 2 – AS ATIVIDADES ESPECIAIS DO 15º FESTIVAL RECIFE DO TEATRO NACIONAL

A importância que atribuo a formação e a qualificação na área da cultura, área de pesquisa na qual atuo, tendo mesmo organizado em maio último o 1o Seminário Internacional de Formação e Capacitação em Cultura, realizado no Teatro Vila Velha em Salvador, numa parceria da UFBA com a Universidade Paris Ouest Nanterre – La Défense, na França, me fez acompanhar de perto as atividades especiais do festival tão bem pensadas, articuladas e colocadas em prática por Roberto Lúcio e Maria Clara Camarotti sob o olhar atento de Lúcia Machado.

Curso O teatro brasileiro em dois tempos foi ministrado por Elton Bruno. Foto: Victor Jucá

CURSO

O teatro brasileiro em 2 tempos. Ministrado pelo Prof. Doutor Bruno Siqueira (PE) na Sala de Ensaio do Teatro de Santa Isabel, com um conteúdo programático em total acordo com o tema do festival e a figura do homenageado Marcus Siqueira. Credito a participação de 20 alunos, estudantes e profissionais de artes cênicas e áreas afins, ao período e ao horário escolhido para a realização do curso: de 17 a 22 de novembro, portanto começando antes mesmo do festival e acontecendo no horário noturno (19h às 22h). Estive no curso apenas uma vez, conversei com o professor e colhi impressões dos alunos, e todos foram unânimes em ressaltar a importância de um espaço de reflexão no festival, uma atividade para exercitar a atividade cerebral e não voltado para o corpo, numa reaproximação muito bem recebida entre corpo e mente tida por eles como indispensável para a formação de atores, a grande maioria dos presentes.

SEMINÁRIO

Seminário sobre Marcus Siqueira, homenageado do Festival. Foto: Victor Jucá / Divulgação

Passei as tardes de 26 e 27 de novembro no Salão Nobre do Teatro de Santa Isabel assistindo ao seminário A politização do teatro brasileiro. Acompanhei a mesa 4 intitulada Marcus Siqueira em sintonia com a cena brasileira dos anos 70 com direito a uma emocionante palestra-depoimento de João Denys Araújo Leite e tendo como debatedores Romildo Moreira e Luís Augusto Reis. Pude estar presente ainda na mesa Realidade e ficção: a cidade como cena e figura com palestra de José Fernando Azevedo (SP) e tendo como debatedora minha colega da Escola de Teatro da UFBA, Hebe Alves (BA).

Infelizmente, por alterações e acertos de agenda não acompanhei a terceira e última mesa da série: Os (des) caminhos do teatro político na cena contemporânea e deixei de ouvir a palestra de Márcio Marciano (PB), responsável por um dos espetáculos mais aplaudidos por mim no festival Milagre Brasileiro – do Coletivo de Teatro Alfenim do qual ele é diretor e dramaturgo, perdendo ainda a oportunidade de ouvir as considerações mais do que especiais de Aimar Labaki.

Divulgado em todo o material promocional do festival, com ampla difusão na internet – e-mails e redes sociais, com convites feitos por telefone aos representantes dos grupos teatrais da cidade, as entidades representativa das artes cênicas, ao SESC e pessoalmente aos alunos e ex-alunos do curso de Teatro da UFPE e alunos e professores da Escola Municipal de Arte João Pernambuco, o seminário reuniu em três tardes apenas 95 pessoas, sendo 35 na primeira, 40 na segunda e 20 na terceira. Vale registrar que entre as 40 pessoas da tarde do dia 27 de novembro estavam os integrantes (14) do Teatro de Narradores dirigido pelo palestrante do dia José Fernando Azevedo.

Ou seja, senti falta de público no belíssimo Salão Nobre desse não menos belo Teatro de Santa Isabel. Senti falta dos alunos da licenciatura, futuros arte-educadores, do curso de teatro da Universidade Federal de Pernambuco. Senti falta dos professores desse mesmo curso. Senti falta da classe artística. Mas sobre essa “ausência” de público falaremos no bate-papo.

WORKSHOPS

Em companhia dos três mosqueteiros – Lúcia Machado, Roberto Lúcio e Maria Clara Camarotti – visitei quatro das seis Regiões Político-Administrativas do Recife: RPA 01 – Centro; RPA 02 – Norte, RPA O3 – Nordeste, RPA 06 – Sul para acompanhar os workshops. Fui por eles informada que esses locais foram pensados estrategicamente pela Coordenação dos Eventos Especiais em harmonia com a assessoria de articulação da Secretaria de Cultura a partir da necessidade e tradição do festival de levar as atividades do festival para as RPAs da cidade.

Workshop com integrantes do Grupo Bagaceira, do Ceará. Foto: Marcelo Lyra/Divulgação

Confesso, num primeiro momento, ter achado bastante interessante a tarefa, era uma possibilidade de conhecer a cidade de uma outra maneira, indo a locais que não constam da programação turística e, mais do que isso, iria conhecer o maior patrimônio desses lugares: seus habitantes. E mais ainda, aqueles que entre eles se interessam por essa arte que nos fascina e seduz.

Entretanto, já no primeiro dia pude constatar o quanto seria invasivo e inútil passar 20/30 minutos como “ouvinte/observadora” de um trabalho conduzido em média durante três horas e, em alguns casos, com um número extremamente reduzido de participantes. Constrangedor para o ministrante, para os inscritos e para a avaliadora.

Na impossibilidade de um acompanhamento da totalidade da atividade após acompanhar os workshops Jogos teatrais, ministrado por Samya de Lavor e Rogério Mesquita/Grupo Bagaceira de Teatro (CE) na RPA 1 – Santo Amaro e na RPA 6 – Escola Apolonio Sales – Ibura; Improvisação teatral, a cargo de Elaine Cardim (BA) na sede do Grupo Daruê Malungo – Chão de Estrelas, na RPA 2 e Workshop para atores aplicado pela atriz Dani Barros (RJ) na RPA 3 – Sitio da Trindade – Casa Amarela, em comum acordo com Maria Clara Camarotti e Roberto Lúcio, renunciei aos outros, minha presença nada acrescentaria, ao contrário, e essas quatro participações foram mais do que suficientes para constatar alguns problemas a serem contornados nas próximas edições.

Um deles é a escolha do espaço físico para a realização da atividade, por mais que tenhamos consciência de que estamos nos dirigindo à comunidades carentes não acho produtivo e aconselhável que os locais de trabalho disponibilizados sejam sujos e inadequados. Em dois deles o estado das salas – com um odor forte e desagradável e a ausência de banheiros em condição de uso transformam em momento de terror o trabalho da avaliadora, e com certeza, o de todos os envolvidos. Em outro, vi Maria Clara Camarotti e Roberto Lúcio de balde e vassoura na mão, tentativa desesperada, de levar a cabo a missão que lhes foi confiada, mas que certamente não passava pela faxina.

Workshop com Dani Barros. Foto: Victor Jucá

O segundo problema, e com certeza mais importante do que o anterior, é a ausência de público interessado nas propostas oferecidas. Em Santo Amaro, por exemplo, apesar de ter sido informada de que é um dos bairros mais perigosos da cidade, com direito a divisões na comunidade o que implica em não deslocamento entre áreas de grupos rivais, do cuidado de encontrar uma zona neutra do bairro, da mudança de local da atividade, com carro disponibilizado para buscar os alunos no local marcado anteriormente para transportá-los ao novo local, mesmo com toda essa meticulosa articulação só se apresentaram para a atividade dois alunos.

Mesmo a atividade ministrada por Dani Barros – Prêmio Shell de Melhor Atriz e com um dos espetáculos mais concorridos do festival Estamira – voltada para atores não conseguiu atingir sua capacidade de vagas disponíveis. Confesso que fiquei intrigada com o aparente desinteresse pela ocasião de trabalhar com uma das mais importantes atrizes de sua geração. Talvez, na nossa conversa, vocês possam me esclarecer melhor pois busco compreender se há um efetivo desinteresse ou um excesso de oferta, em função da febre da contrapartida exigida pelas leis de incentivo, como se a contrapartida da arte não pudesse ser a própria arte. Mas fica o registro: mais uma vez a “ausência de público interessado” nos é sinalizada. Sinal que o assunto requer atenção.

OFICINAS

Residência artística realizada no Espaço Fiandeiros. Foto: Victor Jucá /Divulgação

Das duas oficinas programadas pude acompanhar apenas a Oficina-Residência Artística Teatro de Narradores | Oficina Cidadematerial ministrada por José Fernando Azevedo, Lucienne Guedes e Danilo Eric/ Teatro de Narradores (SP), no Espaço Cultural Fiandeiros de Teatro. Tendo como público alvo estudantes de teatro, atores, diretores, dramaturgos, cenógrafos a oficina incluiu em seu processo de seleção a necessidade de uma carta de intenção e um minicurrículo, ambos analisados e selecionado pelos professores. Esse aparente detalhe pode ter contribuído para o sucesso da mesma no quesito número de inscritos: 26. Mas a euforia é momentânea: se ultrapassou as 20 vagas inicialmente previstas, apenas 13 participantes participaram do trabalho.

Ao longo dos anos acompanhando oficinas e workshops, dos primórdios há mais de 30 anos até a febre imposta dos dias de hoje, confesso que o trabalho realizado pelo Teatro de Narradores é dos mais interessantes – ao lado do método desenvolvido por Antônio Araújo e seu Teatro da Vertigem – que vi nos últimos cinco anos. Ouso creditar, em grande parte, a ausência de público a uma repetição do que é ensinado/compartilhado nessas ocasiões.

José Fernando Azevedo ao tirar os “alunos” do casarão dos Fiandeiros e jogá-los nas ruas do bairro, incentivando o diálogo com os passantes, os habitantes e/ou trabalhadores da área, usando imediatamente o trabalho realizado nessas “saídas” para compor o conteúdo programático da oficina do meu ponto de vista, seduz, fascina e desperta para o ouvir o outro, e compreender que sem o outro não é apenas teatro que não fazemos, não se faz nada. Pude observar o retorno desses “alunos” e vi que havia energia e vida pulsando na volta à sala.

Digno de observação: o processo de seleção mais meticuloso e a elaboração da oficina. Ao acenar com algo fora do padrão convencionado e estabelecido, como fez o Teatro de Narradores, talvez possamos trazer para as indispensáveis atividades formativas esse público perdido. A debater. A questionar.

LANÇAMENTO DE LIVROS

João Denys com a família de Marcus Siqueira. Foto: Victor Jucá/Divulgação

Marcus Siqueira: um teatro novo e libertador, de João Denys Araújo Leite, Palavra de ator – espetáculo-conferência, de Maurice Durozier, em edição bilíngue e Festival Recife do Teatro Nacional – 15 anos em cena, ambos organizados por nossa batalhadora incansável, Lúcia Machado. Três livros, três momentos fortes dessa edição.

Por acreditar no papel, por acreditar na palavra escrita e na necessidade de cultivarmos a memória, memória essa que quando é esquecida permite que se escreva a história do teatro brasileiro pautada apenas no eixo São Paulo-Rio de Janeiro, saio do Recife impressionada com a quantidade de livros retratando a vida teatral dessa cidade, desse estado, levo em minhas malas parte da história do teatro brasileiro e creiam irei dividi-las com meus alunos e meus leitores do Terra Magazine.

Não pude ainda avaliar a qualidade, apenas passei os olhos nos livros, tempo ocioso foi algo escasso em minha vida nesses últimos 13 dias, mas os nomes envolvidos funcionam como uma griffe. Não posso deixar de registrar um fato excepcional, na maior linha “santo de casa não faz milagre”: o festival deu quinau na França ao publicar em primeira mão, em edição bilíngue, o livro de Maurice Durozier, uma jóia para todo e qualquer apaixonado pelo teatro.

Ainda no quesito editorial sou obrigada a confessar que algo me impressionou, e muito: o fato dos livros serem oferecidos gratuitamente a todas as pessoas que vieram aos lançamentos.

Essa gratuidade me surpreendeu porque sou radicalmente contra a gratuidade na área da cultura, no verão passado fui das primeiras a apoiar um movimento criado por Márcio Meirelles em Salvador, De graça não tem graça. Todos os estudos – sérios! – que conheço realizados nos quatro cantos do planeta afirmam categoricamente que ingresso de graça nunca aumentou o número de espectadores nas salas de espetáculos ou nos museus. Não se pode desejar aquilo que não se conhece, e cabe a todos nós despertar esse interesse nas pessoas e isso não passa pela gratuidade. Há anos digo que meu sonho de consumo é ver pessoas poupando para assistir uma peça de teatro, com a mesma euforia que poupam para comprar fantasias para as Escolas de Samba do Rio de Janeiro e abadás para os blocos no carnaval de Salvador. Nesse dia meus anos como mulher de teatro na prática e na academia terão valido à pena.

Lúcia Machado lançou catálogo em comemoração aos 15 anos do festival. Foto: Victor Jucá/divulgação

Logo, ver esses livros ofertados ao público presente aos lançamentos me causou um misto de surpresa e alegria. Surpresa porque não esperava jamais que isso acontecesse, alegria porque estou cansada de ver dinheiro público utilizado em publicações que apodrecem nas salas de nossas repartições públicas, quando poderiam ser distribuídas aos alunos das escolas e universidades desse país continente.

Parabéns pela iniciativa. Livros sobre teatro são, com certeza, instrumentos indispensáveis na formação de plateias.

LEITURAS DRAMÁTICAS

Um grito parado no ar, de Gianfrancesco Guarnieri, com direção de Bruno Siqueira (PE) com os alunos do curso O teatro brasileiro em 2 tempos (PE) e Por telefone, de Antonio Fagundes, com direção de Reinaldo de Oliveira, com Reinaldo de Oliveira e Clenira Bezerra de Melo (Teatro de Amadores de Pernambuco) no Salão Nobre do Teatro de Santa Isabel.

Leitura dramática do texto Por telefone, com Reinaldo de Oliveira e Clenira Bezerra. Foto: Victor Jucá/Divulgação

Entusiasta que sou da leitura dramática, por gostar da sensação de trocar a experiência individual e solitária de leitura pela coletiva, da troca que se estabelece, da interlocução que possibilita leituras individuais em cada um dos presentes, tendo como guia apenas a voz humana e, ainda assim, traduzir sentimentos do personagem, despertando o público e colocando o texto em evidência, passei bons momentos no Salão Nobre.

Em tempos onde o tempo é cada vez mas escasso, considero um luxo e um privilégio estar numa sala diante de atores para ouvir uma leitura dramática. Vi apenas duas, das três programadas, e ambas tiveram um gosto especial: a leitura de Um grito parado no ar por ter utilizado os alunos do curso de Teatro Brasileiro, unindo teoria e prática; além de ter me proporcionado a redescoberta de um texto, 38 anos após o espetáculo dirigido por Fernando Peixoto ao qual tive a oportunidade de assistir aos 15 anos de idade. Para minha surpresa ele é totalmente atual.

Quanto a leitura de Por Telefone, registro a emoção de ter visto Reinaldo de Oliveira, ocasião rara para uma “estrangeira” de ver em cena um dos grandes nomes do teatro brasileiro. Inclusive pedi para ser apresentada a ele, pois estava diante do filho de Valdemar de Oliveira. Momento emocionante.

ATO 3 – A MOSTRA DOS ESPETÁCULOS

Pensando em Marcus Siqueira, o homenageado e no tema-conceito – O teatro que forma e transforma – da décima quinta edição do Festival Recife do Teatro Nacional, encontrei no texto de Roberto Lúcio para o programa do festival a “deixa” perfeita: “A homenagem a Marcus Siqueira pelo XV Festival Recife do Teatro Nacional, por si só, constitui um ato político. Ela reafirma o Festival como um espaço de reflexão, um lugar de trocas e de pedagogias, plurais, multifacetadas, que revigoram a força do atual panorama do teatro brasileiro. A programação de espetáculos e as ações formativas elencadas em 2012 fazem jus à trajetória de Marcus Siqueira (1940-1981), referência fundamental no teatro pernambucano nas décadas de 1970 e 1980, desde os anos 1960 um ator e diretor teatral marcante, combativo, questionador, amante e defensor do teatro de grupo e do aspecto pedagógico da arte do teatro.“.

A quase morte de Zé Malandro encenada no bairro de Campo Grande. Foto: Marcelo Lyra

As ações formativas confirmaram o que disse Roberto Lúcio. E foi com entusiasmo que constatei que a mostra de espetáculos seguiu o mesmo mote.

Em entrevista concedida a repórter Beth Nespóli, em julho de 2007, Paulo Arantes chamava à atenção para o fenômeno “teatro de grupo” em São Paulo capital e dizia que “ao lado da explosão do hip-hop, com o qual tem muito a ver malgrado as diferenças de escala e classe, não sou por certo o único a reconhecer no atual renascimento do teatro de grupo o fato cultural público mais significativo hoje em São Paulo. Fala-se em mais de 500 coletivos, por assim dizer, dando combate no front cultural que se abriu com a ofensiva privatizante. Não são só os números que impressionam, mas também a qualidades das encenações, cuja contundência surpreende, ainda mais quando associada a uma ocupação inédita de espaços os mais inesperados da cidade, gerando pelo menos o desenho de uma mistura social que ninguém planejou, simplesmente está acontecendo como efeito colateral das segregações e hierarquias que o novo estado do mundo vai multiplicando.”.2

A programação de espetáculos do 15 Festival Recife do Teatro Nacional – com 19 espetáculos entre locais e nacionais – faz com que eu ouse transformar em pergunta essa afirmação de Paulo Arantes: será que cinco anos depois não podemos falar nesses termos em nível nacional? Afinal, dos 19 espetáculos, salvo engano de minha parte, usando como fonte o programa do festival, 13 têm sua origem em grupos oriundos de estados diversos, como Ceará, Paraíba, Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo.

Textos de criação coletiva, textos de autores como João Falcão, Rafael Martins, Nelson Rodrigues, Fábio Espírito santo, Claudia Schapira, Noëlle Renaude, Maurice Durozier, Ronaldo Corrêa de Britto, José Fernando Azevedo, Beatriz Sayad, Dani Barros, Ariano Suassuna, Elizabeth Mazev, adaptações/inspirações de Brecht, Sófocles, Strindberg e Joaquim Cardozo, só do lado do texto dramatúrgico temos um panorama diverso, elevado ao cubo quando passamos para a cena. E, graças ao trabalho de grupo, comprovando a necessidade do coletivo, da mais coletiva das artes, o que vimos nos palcos dos teatros e das ruas e praças do Recife foi, quase sempre, fruto de um trabalho de pesquisa, suado, sofrido, elaborado mas quão prazeroso para os que o fazem e para os que o aplaudem.

Isso te interessa?, da Cia Brasileira de Teatro, foi um dos destaques da programação. Foto: Marcelo Lyra/Divulgação

Não farei uma análise ou mesmo comentário sobre a qualidade dos espetáculos, não sou e sempre me recusei a ser crítica de teatro, sou mera palpiteira-observadora com algum grau de conhecimento na matéria, mas deixei a tarefa de analisar os espetáculos aos críticos convidados pelo festival, Sebastião Milaré e Alexandre Figueirôa, que escreveram e publicaram diariamente seus artigos sobre cada uma das peças encenadas ao longo desses 12 dias de festival, e eles estão disponíveis para consulta dos interessados no site do festival.

Acompanho atentamente o movimento teatral no Brasil e noto que uma corrente cada vez mais forte aparece como reação contra o esgotamento, quase total, por que vinha passando o nosso teatro. (…) Reconhecemos que este movimento renovador ainda está em sua fase caótica, que é preciso tempo para que esta onda se acalme em textos e espetáculos, com medidas exatas. Porque a invasão da música, os textos aparentemente sem enredo, a desvinculação ator-personagem, tudo isso está sendo feito ainda desordenada e violentamente. Estamos procurando novos caminhos para o teatro brasileiro, errando muito, acertando às vezes, mas procurando sempre, sem medos ou preconceitos. A arte não estaciona nunca e o teatro é, de todas as artes ma mais dinâmica, a que mais necessita transformar-se.“. Esse texto de Marcus Siqueira, originalmente publicado no programa de Calabar em 1965, e acessível a todos nós no livro escrito por João Denys Araújo Leite poderia ser escrito por qualquer um de nós, hoje, quarenta e sete anos depois ao fazer um balanço dos espetáculos levados à cena no festival.

Não quero citar um ou outro espetáculo, apenas registrar o prazer de passar doze dias vendo espetáculos de qualidade, uma ou outra exceção para confirmar a regra, mas sou professora de Ética, e acreditar no que ensino me impede de tornar pública minhas preferências, preservando meu direito de tecer comentários com a organização e a curadoria do festival.

Abro exceção para falar de Gonzagão – a lenda, que abriu o 15o Festival Recife do Teatro Nacional para parabenizar a apostar da coordenação e da curadoria do festival num espetáculo que contagiasse o público. Não poderiam ter feito escolha melhor. Entre risos e lágrimas, uma plateia atenta respondeu ao convite de Lúcia Machado, feito no texto escrito para o programa, e celebrou o teatro, na figura de Luiz Gonzaga, um dos maiores ícones dessa terra pernambucana e ainda ovacionou o diretor João Falcão que, apesar de ser prata da casa e reconhecido nacionalmente, precisou esperar a 15a edição para fazer sua estreia. João Falcão brincou com a liberdade poética em busca de novas formas para contar a história de Luiz Gonzaga, recorreu ao metateatro e colocou em cena uma trupe que incendiou o Teatro de Santa Isabel. Como bem disse Sebastião Milaré “um espetáculo emblemático” porque “traz resolvidas, a seu modo e com maestria, tendências vigorosas do novo teatro nordestino.”.3

Foi uma noite de festa, onde no lugar da valsa dos quinze anos dançamos baião e xaxado. Plateia lotada, frisas, camarotes, idem. Presenças da secretária de Cultura do Recife, Simone Figueiredo; do presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife (FCCR), André Brasileiro; da curadora do 15o Festival Recife do Teatro Nacional, Lúcia Machado; do representante da Fundação Nacional de Artes/Funarte, Naldinho Freire; do idealizador do Festival, o dramaturgo, diretor e ator Romildo Moreira; e das irmãs do homenageado Marcus Siqueira, Maria Júlia Nogueira e Germana Siqueira. Essas as presenças oficiais. Mas o mais importante, de acordo com as informações da jornalista de plantão que sou, foi a presença maciça da classe artística pernambucana, renovando os laços com o festival depois de alguns nós desfeitos.

Não esquecerei as lágrimas da secretária de Cultura, Simone Figueiredo, tampouco suas palavras: “como atriz e ex-diretora desse teatro, não posso deixar de dizer que estou emocionadíssima por fazer parte dessa celebração. O teatro é um sonho feito de carne, osso, papel e tinta. A Prefeitura da Cidade do Recife quer que esse sonho se transforme em trabalho, festa e pão.”.

Vou encerrar esse ato destinado aos espetáculos com uma frase de Emmanuel Wallon, especialista em políticas públicas para o teatro e um festivaleiro de marca maior: “os festivais mundialmente reconhecidos que servem hoje como modelos para os “operadores culturais”, quer se tratem de artistas, de administradores ou responsáveis políticos, debutaram, na sua maior parte, através de arriscadas aventuras, conduzidas contra as correntes dominantes da estética e do consumo, por indivíduos associados, cujo desejo de partilhar era o motivo, e o gosto pelo risco, o motor.“4. Que o desejo de partilhar e o gosto pelo risco continuem a guiar o Festival Recife de Teatro Nacional.

Júlia discutiu os limites entre cinema e teatro. Foto: Pollyanna Diniz

EPÍLOGO

Tenho como um dos meus livros de cabeceira As regras da arte, de Pierre Bourdieu, que funciona como um modelo teórico daquilo que, de maneira intuitiva, a prática me ensinou: no campo artístico, os bens criados têm uma natureza dupla, mercadoria e significado, e um valor também duplo, comercial e simbólico.

Bourdieu distingue dois tipos de lógicas que determinam a paisagem artística e cultural: por um lado, a lógica da arte pura, sem preocupação com lucros, que privilegia a criação artística e que, a longo prazo, pode gerar capital econômico. Por outro lado, a lógica do bem cultural, bem comercial, que privilegia a divulgação e ajusta-se a lei da oferta e da procura, que visa a acumulação de capital econômico.

Um processo de especialização indicou com o passar do tempo, por um lado uma produção cultural destinada ao mercado e, por outro lado uma produção artística dita pura destinada à apropriação simbólica. No entanto, as empresas de produção não devem desenvolver estratégias extremas, sejam elas de subordinação total ou independência absoluta às leis do mercado e por conseguinte ao pedido, mas devem encontrar uma via mediana.

É o movimento que observo hoje, onde coexistem dois modos de produção com lógicas antagônicas que se encaixam num modo de produzir que defende a insubmissão às leis do comércio associado a um desejo de fazer um teatro diferente, um teatro independente e não-conforme, capaz de inventar a sua própria economia, o que significa isso?

Encontrar o seu próprio equilíbrio financeiro através de um modo próprio de organização, como por exemplo, o grupo, baseando-se na igualdade dos salários, na divisão de tarefas e sem que isso implique uma não-especialização do trabalho. Um modo de produzir artesanal nadando contra a corrente que nos obriga muitas vezes a ceder a uma exploração capitalista. Mas para se chegar a isso é necessário estar disposto a trabalhar muito, pois nadar contra a corrente, num contexto de consensos frouxos, é para poucos. Um teatro de experimentação e de investigação tanto no processo de criação como no seu resultado, merece ser preservado. Afinal, investigação e questionamentos são consubstanciais à liberdade.

Entretanto, é necessário compreender a necessidade vital do acesso aos meios de produção, trata-se de constituir um poder suficientemente importante para não ser marginalizado. Existe uma relação entre o centro e a margem que é fundamental. Você pode optar por pertencer à margem porque se sente bem lá, porque acredita que à margem você poderá criar melhor. Mas, a partir de lá para ser ouvido, é necessário atacar-se ao centro com as armas do centro. Se não se evolui nesta interação entre a periferia e o centro rapidamente se é marginalizado. E para não ser marginalizado um elemento é muito importante: a qualidade do conteúdo. Único verdadeiro ponto de apoio forte. A partir dai, trata-se de instaurar o sistema que permite ao conteúdo ser protegido e valorizado. Mas só serão capazes de se inscrever numa linha diretriz exigente aqueles que, como Francis Scott Fitzgerald compreenderem que “a marca de uma inteligência de primeiro plano é que ela é capaz de fixar-se sobre duas ideias contraditórias sem, no entanto, perder a possibilidade de funcionar. Deveríamos por exemplo poder compreender que as coisas são sem esperança e contudo estarmos decididos a mudá-las.”5

Isso tudo para fazer um agradecimento especial à Prefeitura do Recife, pois tudo o que vivi nesses dias reforçou a minha certeza de que a cultura não é uma mercadoria como as outras, mesmo se as leis do mercado insistem em querer nos provar o contrário, o que justifica a necessidade de apoio do poder público à atividade cultural. Esse apoio é a única maneira dos festivais, assim como outros vetores de criação e difusão, contribuirem à dupla missão tão bem expressa pelo primeiro ministro da cultura da França, o grande André Malraux: enriquecer o patrimônio da humanidade e permitir o acesso do maior número de pessoas à cultura.

Festival Recife do Teatro Nacional completou 15 anos. Foto: Victor Jucá/divulgação

Antes de finalizar, gostaria de fazer – agora sim – os agradecimentos. E preciso agradecer a muita gente porque é preciso muita gente para dar cabo de uma empreitada desse porte. Não posso citar aqui todos os nomes, e agradeço a toda essa equipe do fundo do meu coração, ser produtora faz com que eu saiba exatamente o que significa estar no lugar de cada um de vocês, mas gostaria de citar ao menos aqueles com os quais estabeleci um contato mais próximo e em ordem alfabética para facilitar a minha vida, o meu obrigada mais sincero para Albemar Araújo, André Brasileiro, Angélica Gouveia, Geraldo Berardinelli, Iza Alves, Jorge Clésio, Lúcia Machado, Maria Clara Camarotti, Paulo Docas, Roberto Lúcio, Simone Figueiredo e Zacaras Garcia. E aos meus parceiros de aventura Alexandre Figueirôa e Sebastião Milaré.

Cheguei em Recife tendo na cidade uma tia, a única irmã de minha mãe mora aqui há 50 anos; um tio e um primo…treze dias depois sairei daqui deixando uma família, a minha família teatral que, em Pernambuco, tinha suas bases lá em Caruaru onde Argemiro Pascoal e Arary Marrocos criaram o Teatro Experimental de Arte, mas depois do 15o Festival Recife do Teatro Nacional sinto que a família aumentou consideravelmente.

Que os Deuses do Teatro nos abençoem e que os artistas de teatro desta terra não esqueçam nunca que têm uma missão: “levar aos barcos que vagam na obscuridade, o brilho obstinado de um farol …”.6

Obrigada!

Teatro Apolo (Recife-PE), 3 de dezembro de 2012.

Deolinda Catarina França de Vilhena Jornalista, Produtora teatral e Professora da Escola de Teatro e do Programa de Pós- Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia, Mestre e Doutora em Estudos Teatrais pela Université Sorbonne Nouvelle – Paris 3

Email: deolindavilhenaufba@gmail.com

 

Notas

1 Bernard FAIVRE D’ARCIER. Panorama e futuro dos festivais um exemplo: o Festival d’Avignon. Conferência de abertura do I Colóquio Internacional No Reino dos Festivais, Salvador (Ba), out. 2011.

2 Paulo ARANTES. Paulo Arantes analisa a arte teatral como fenômeno social. Entrevista a Beth Néspoli. Jornal O Estado de S. Paulo, 12 de julho de 2007.

3 MILARÉ, Sebastião. Gonzagão – A lenda. Disponível em http://www.15frtn.com/#!blog/cmsn página visualizada em 2 de dezembro de 2012.

4 Emmanuel WALLON. Festival: instrumento ou pretexto para as políticas culturais? Programa do I Colóquio Internacional No Reino dos Festivais, Salvador (Ba), out. 2011.

5 Francis Scott FITZGERALD. Citado por Jack Ralite in Ce n’est qu’un début. Culture publique. Opus 1, « L’imagination au pouvoir ». Paris, (Mouvement) SKITe et Sens&Tonka, 2004, p.218.

6 Frase de Os Náufragos da Louca Esperança, criação coletiva do Théâtre du Soleil em parceria com Hélène Cixous, inspirada no romance póstumo de Júlio Verne, Os Náufragos do Jonathan.

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