Arquivo da tag: Teatro de Santa Isabel

No Recife, palcos são ocupados por produções
comerciais e projetos experimentais

Circo Godot faz curta temporada no Teatro Hermilo Borba Filho de 24, 25 e 26 de julho. Foto: Divulgação

Édipo REC faz sessões no Luiz Mendonça nos dias 25 e 26 de julho. Foto: Camila Macedo

Os teatros do Recife são ocupados neste final de julho por grandes produções que desembarcam de outros centros e experimentos que brotam do próprio território pernambucano. De um lado, nomes consagrados da televisão brasileira como Antonio Fagundes e Christiane Torloni garantem bilheteria apoiados na familiaridade que décadas de presença televisiva construíram – fenômeno que leva o público a transformar a proximidade fictícia da tela em desejo de encontro presencial no teatro; do outro, artistas locais investigam desde metáforas biológicas sobre estruturas sociais até releituras de clássicos do teatro mundial. Entre esses extremos, o teatro infantil garante seu festival e a arte negra encontra território próprio em programação especializada.

É um período que permite ao público transitar entre diferentes estéticas – da intimidade televisiva às provocações experimentais, do entretenimento familiar às reflexões sobre ancestralidade -, revelando como a cena recifense acomoda desde apostas comerciais seguras até pesquisas de linguagem que desafiam convenções.

Para uma cidade com a tradição cultural do Recife, contudo, a oferta ainda se mostra aquém das possibilidades. A ausência de perfis curatoriais mais específicos para os equipamentos resulta em semanas onde a maioria dos teatros se encontra ocupada simultaneamente por comédias ligeiras e entretenimento comercial, enquanto o teatro experimental contemporâneo, a dramaturgia nacional de risco e as pesquisas cênicas mais ousadas circulam timidamente pela cidade. 

A programação dá indícios que Recife ainda não explorou plenamente seu potencial como polo de criação teatral nacional. E esse é um assunto que precisamos debater mais profundamente. A cidade possui artistas talentosos e dedicados, público interessado e tradição cultural sólida – elementos que, bem articulados, poderiam gerar cena teatral de projeção nacional. Embora o Grupo Magiluth seja atualmente reconhecido como grande representante da cena pernambucana, demonstrando que a excelência teatral é possível na cidade, os talentos teatrais estão espalhados por todo o Recife e precisam de maior investimento e visibilidade para florescer plenamente. As condições para um salto qualitativo existem, mas permanecem dispersas, aguardando articulação institucional que conecte políticas públicas consistentes, iniciativa privada comprometida com diversidade estética e movimentos artísticos independentes. 

A riqueza cultural que caracteriza Recife historicamente merece programação teatral à altura de sua relevância no cenário cultural brasileiro. A pergunta que emerge desta análise é inevitável: quando a cidade decidirá investir no teatro com a seriedade e a visão estratégica que sua tradição cultural não apenas permite, mas exige?

VAMOS DAR UM ROLÊ PELA PROGRAMAÇÃO

 

Christiane Torloni e Antonio Fagundes na peça Dois de Nós. Foto: Renata Casagrande

🎭 Dois de Nós – O Peso dos Nomes

Antonio Fagundes e Christiane Torloni ocupam o Teatro Luiz Mendonça carregando décadas de presença no imaginário brasileiro através da televisão. São figuras que se tornaram presenças familiares nas casas , e essa intimidade construída pela TV se traduz em garantia de plateia quando migram para os palcos.

O texto de Gustavo Pinheiro explora um dispositivo dramático simples de uma comédia romântica: dois casais de gerações distintas confinados em quarto de hotel, onde segredos emergem através de revelações e mentiras – opera em terreno conhecido, apostando mais na competência interpretativa dos protagonistas que em inovações dramatúrgicas.

A direção de José Possi Neto aposta na química entre os intérpretes – Fagundes, Torloni, Thiago Fragoso e Alexandra Martins – para sustentar uma dramaturgia que se apoia mais na competência interpretativa do que em inovações formais. O cenário único de Fábio Namatame e a iluminação de Wagner Freire criam a atmosfera intimista necessária para que as confissões ganhem peso dramático.

Uma experiência única oferecida é o tour pelos bastidores guiado pelo próprio Antonio Fagundes, incluindo visita aos camarins e sessão de fotos, disponível por R$ 120 adicionais. O tour VIP  exemplifica como o teatro comercial contemporâneo monetiza até mesmo o making-of da experiência teatral.

Fagundes, conhecido por sua intransigência com atrasos – traço que acompanha toda sua carreira -, mantém a política rígida: “quem chegar atrasado não entra”. É postura que revela tanto profissionalismo quanto compreensão de que a experiência teatral exige pacto temporal entre palco e plateia. 

📍 SERVIÇO:
Teatro Luiz Mendonça (Parque Dona Lindu)
19 de julho, 20h
20 de julho, 17h sessão extra
R$ 125 a R$ 250 
Tour VIP: R$ 120 (adicional)


 

Tania Bondezane Fabiana Karla, Foto: Divulgação

🎭“Radojka” – Dramaturgia Internacional

Fernando Schmidt e Christian Ibarzabal construíram texto que aborda dilemas contemporâneos – precariedade laboral, etarismo, desespero econômico – através do filtro da comédia de situação. A trama das duas cuidadoras que escondem a morte da patroa para preservar o emprego funciona como alegoria das condições trabalhistas atuais.

Tania Bondezan, que assina tradução e atua ao lado de Fabiana Karla, encontrou na peça uruguaia material que dialoga diretamente com a realidade brasileira do trabalho doméstico. A direção de Odilon Wagner busca equilibrar momentos farsescos com instantes de melancolia social, evitando que o humor neutralize a crítica implícita.

O sucesso da obra em mais de quinze países demonstra como certas ansiedades laborais atravessam fronteiras culturais, ganhando contornos específicos em cada contexto nacional.

SERVIÇO:
Teatro Santa Isabel (Praça da República)
18-20 de julho (Sex 20h, Sáb 19h, Dom 16h)
R$ 40 a R$ 150


🎭 Um Sábado em 30 – História e Comédia Pernambucana

A montagem do Grupo Teatro de Raízes de Pernambuco retrata uma família do interior de Timbaúba durante a Revolução de 1930. Com sessão única, o espetáculo mistura romance proibido, conflitos familiares e crítica social, tudo temperado com o humor característico do teatro pernambucano.

📍 SERVIÇO
Um Sábado em 30
Teatro do Parque (Rua do Hospício, 81, Boa Vista)
20 de julho (sessão única), às 19h
Ingressos: R$ 50 a R$ 100

🎭 TBT do Matuto nas Férias – Tradição do Humor Regional

Zé Lezin celebra quatro décadas de carreira com seu personagem matuto, figura que atravessou gerações e mantém relevância no imaginário humorístico pernambucano. O espetáculo funciona como retrospectiva afetiva, reunindo causos e histórias que consolidaram o artista como referência do humor nordestino.

A participação de Carlos Santos adiciona camada geracional ao espetáculo, criando diálogo entre diferentes momentos da comédia local. É formato que privilegia a conexão emocional com o público sobre inovações formais, apostando na nostalgia como elemento de coesão.

📍 SERVIÇO
TBT do Matuto nas Férias, com Zé Lezin
Teatro Boa Vista (Rua Dom Bosco, s/n, Boa Vista)
19 de julho, 20h
R$ 50 a R$ 100

Vitor Trindade no Espaço O Poste. Foto: Divulgação

🎭 Espaço O Poste: Território da Arte Negra

Vítor da Trindade – Pedagogia Ancestral

O Espaço O Poste desenvolve programação consistente focada na valorização da cultura afro-brasileira, oferecendo alternativa aos modelos esporádicos de muitos equipamentos culturais. A presença de Vítor da Trindade exemplifica essa curadoria política.

A Vela Branca de Oxalá – Performance poético-musical inspirada no livro homônimo de Vítor da Trindade. Entre crônicas, canções e versos sobre cotidiano, amor e ancestralidade negra, ele é acompanhado da bailarina Elis Trindade, que traduz em movimento corporal o lirismo da obra.

Esta programação representa o compromisso do Espaço O Poste com a valorização da cultura afro-brasileira e a criação de espaços de diálogo sobre questões étnico-raciais através da arte.

📍 SERVIÇO:
A Vela Branca de Oxalá
Espaço O Poste (Rua do Riachuelo, 641, Boa Vista)
Show: 19/07, 19h (R$ 10-20)

 

TEATRO INFANTIL: 21º FESTIVAL DE TEATRO PARA CRIANÇAS E MONTAGENS OUTRAS

Cantigas de Fiar. Foto: João Fernando Bonfim

Cantigas de Fiar(19/07, 16h30) – Companhia Fiandeiros de Teatro Show teatral que reúne crianças, jovens e adultos explorando o tema da saudade através de músicas de André Filho e Samuel Lira. O espetáculo homenageia André Filho, demonstrando como o teatro infantil local constrói memória artística própria. A abordagem de sentimento complexo – a saudade – através de linguagem acessível respeita a capacidade infantil de lidar com emoções profundas.

📍 SERVIÇO
Cantigas de Fiar (Companhia Fiandeiros de Teatro – Recife / PE)
Teatro do Parque (Boa Vista – Recife / PE)
19/07 (Sábado) – 16h30 –
Ingressos: R$ 60,00 (inteira) / R$ 30,00 (meia)

O Mágico de Oz – Foto Christian Farias

O Mágico de Oz (20/07, 16h30) – Capibaribe Produções Adaptação da obra de L. Frank Baum com direção de Roberto Oliveira. A montagem, com duração de 1h10, traz reflexões sobre coragem, amizade e superação através da jornada de Dorothy, embalada por trilha sonora no estilo de grandes musicais. Elenco numeroso inclui Letícia Galeno, Thiago Ambrieel, Janine Aroucha e outros, criando espetáculo de grande formato para público infantil.

📍 SERVIÇO
O Mágico de Oz (Capibaribe Produções / Moreno – PE)
Teatro do Parque (Boa Vista – Recife / PE)
20/07 (Domingo) – 16h30 –
Ingressos: R$ 80,00 (inteira) / R$ 40,00 (meia)

Tatu-do-bem. Foto:_ Luiza Costa

Tatu-do-Bem (19/07, 16h) – Catalumari e os Giguiotes Aventura ambiental que acompanha Andrezinho, filho de atores nômades, em descoberta da caatinga através dos tatus-bolas Tuta e Teteu. A montagem articula educação ambiental com estética regional, escolhendo a caatinga como cenário fantástico e valorizando bioma pouco presente no imaginário infantil urbano. Texto de Lucas Carvalho e direção de Guilherme Mergulhão demonstram maturidade da cena infantil local.

📍 SERVIÇO
Tatu-do-Bem (Catalumari e os Giguiotes / Recife–PE)
Teatro Barreto Júnior (Pina)
19/07 (Sábado) 
Ingressos: R$ 40,00 (inteira) / R$ 20,00 (meia-entrada)

A Batalha de Botas. Foto: Thercles Silva

A Batalha de Botas Fábula que questiona conceitos de civilização através do encontro entre aviador militar e nativo de ilha. Inspirada em Fernando Arrabal e Plínio Marcos, a obra traz figuras do circo tradicional para abordar questões sociais contemporâneas. A montagem paraibana demonstra circulação regional do teatro infantil de qualidade.

📍 SERVIÇO
A Batalha de Botas – Trupe Arlequin (João Pessoa-PB)
Teatro Barreto Júnior
(20/07, 16h)
:R$ 60 (inteira) / R$ 30 (meia)

OUTRAS MONTAGENS PARA CRIANÇAS

Hélio o balão que não consegue voar Foto Ricardo Maciel / Divulgação

Hélio, o Balão que Não Consegue Voar

Produção pernambucana do Coletivo de Artistas que aborda com sensibilidade poética o Transtorno do Espectro Autista. Baseada no texto premiado de Cleyton Cabral, a obra de formas animadas evita tanto invisibilização quanto vitimização, criando narrativa que celebra diferenças através de metáfora delicada.

📍 SERVIÇO
Hélio, o Balão que Não Consegue Voar
CAIXA Cultural Recife 
18 a 20 de julho, 16h
R$ 30 (inteira) / R$ 15 (meia)

A Cigarra e a Formiga. Foto: Renan Andrade

A Cigarra e a Formiga (20/07, 15h) – Teatro RioMar

A clássica fábula de Esopo ganha formato musical sob a direção e adaptação de Roberto Costa, A Cigarra e a Formiga reúne cinco atores – Luan Alves, Ashila Moraes, Isabela Leão, Maycon Douglas e Ania Cellos – que dão vida aos habitantes da floresta, desde a cantante Cigarra até as trabalhadoras formigas, passando por Dona Joaninha, Abelhão, Abelhuda e Borboleta.

O espetáculo conta com três músicos – Luiz Henrique, Linaldo Lima e Arthur Correia – responsáveis pela execução ao vivo de todas as canções que compõem a trama. A adaptação mantém a estrutura narrativa original, acompanhando a cigarra que dedica o verão ao canto enquanto as formigas se concentram no trabalho de estocagem de alimentos para enfrentar o inverno, com a participação dos demais insetos que compartilham o mesmo ambiente florestal. A montagem inclui acessibilidade em Libras e combina humor, música ao vivo e efeitos especiais em uma apresentação voltada ao público infantil e familiar

📍 SERVIÇO

Musical A Cigarra e a Formiga
Domingo, 20 de julho, 15h
Teatro RioMar Recife
Ingressos: A partir de R$ 50
Vendas: Bilheteria do teatro
Acessibilidade: Libras

🎪 PRÓXIMA SEMANA (24 A 27 DE JULHO)

Circo Godot, com Asaías Rodrigues e Charles de Lima. Foto: Divulgação

Experimentação e Pesquisa – Circo Godot

Quiercles Santana dirige Asaías Rodrigues e Charles de Lima em adaptação livre de Esperando Godot que substitui angústia existencial pelo humor circense brasileiro. Gatropo e Tropino (referências a Lucky e Pozzo) comunicam-se através de “blablação” – língua inventada que universaliza a experiência da incomunicabilidade.

A escolha pela linguagem inventada, “gromelô”, elimina barreiras de classe e educação formal, criando comunidade temporária entre público e intérpretes. A participação ativa da plateia transforma reflexão filosófica beckettiana em jogo coletivo, demonstrando como clássicos podem ser reinventados através de filtros culturais locais.

A iluminação de Luciana Raposo e a produção de Juan Saucedo garantem estrutura técnica que sustenta a precariedade voluntária da estética circense. O Teatro Hermilo, com apenas 90 lugares, cria intimidade necessária para que o experimento funcione.

📍 SERVIÇO:
Circo Godot
Teatro Hermilo Borba Filho
24, 25 e 26 de julho
R$ 40 (inteira) / R$ 20 (meia)
Apenas 90 lugares

 

Erivaldo Oliveira interpreta o Coro-drag em Édipo REC. Foto: Foto: Camila Macedo / Divulgação

Tragédia grega na Manguetown

Édipo REC celebra duas décadas de experimentação do Grupo Magiluth, transformando a tragédia de Sófocles em uma experiência contemporânea. Após percorrer o Brasil, a montagem retorna ao Recife, convertendo o Teatro Luiz Mendonça em uma arena onde público e performers se entrelaçam numa dança entre realidade e representação. A direção de Luiz Fernando Marques (Lubi) e a dramaturgia de Giordano Castro criam um fluxo teatral em tempo real, onde câmeras, projeções ao vivo e vídeo mapping constroem uma Tebas reinventada como Recife-Pompéia – território onde a hiperexposição digital encontra a catástrofe ancestral, questionando como editamos nossas próprias vidas numa era de imagens.

A dramaturgia em dois atos conduz o espectador: da euforia de uma festa performática saturada de códigos pop à revelação da tragédia pessoal, onde todas as narrativas implodem. O elenco constrói um mosaico humano – Nash Laila ressignifica Jocasta com uma presença que marca o retorno feminino ao grupo, enquanto Erivaldo Oliveira comanda como Coro-drag, destilando humor e verdades. Giordano Castro molda um Édipo que é ícone pop e vítima de seu próprio narcisismo digital, navegando entre disputas de poder e a ilusão de controle. Mais que uma adaptação, Édipo REC funciona como um autorretrato do próprio Magiluth, interrogando: numa época onde somos diretores e personagens de nossas próprias tragédias virtuais, o teatro ainda possui a força de nos confrontar com quem realmente somos?

📍 SERVIÇO
Édipo REC – Grupo Magiluth
Teatro Luiz Mendonça, Parque Dona Lindu
25 e 26 de julho, às 20h
Ingresso: 30 a 120

Caliuga faz duas apresentações no Teatro Joaquim Cardozo

Caliuga

A Cia. de Teatro Negro Macacada constrói em “Caliuga” uma narrativa que espelha realidades enfrentadas cotidianamente por milhões de brasileiros, utilizando o palco como espaço de reflexão sobre as intersecções entre identidade racial e inserção no mercado de trabalho. O protagonista da obra se torna um representante de experiências coletivas que transcendem a ficção, navegando por situações que revelam as camadas sutis e explícitas de discriminação presentes nos processos seletivos e ambientes corporativos. A escolha dramatúrgica de centrar a ação na busca por emprego permite que questões estruturais sejam exploradas através de situações concretas e reconhecíveis, criando pontes entre a experiência individual do personagem e os desafios sistêmicos enfrentados pela população negra no Brasil.

A produção reconhece que as questões raciais e trabalhistas não podem ser simplificadas ou romantizadas. A Cia. de Teatro Negro Macacada se posiciona dentro de um movimento teatral que utiliza a arte como ferramenta de visibilidade e discussão, contribuindo para um panorama cênico que valoriza narrativas historicamente marginalizadas nos palcos brasileiros. O espetáculo se insere em um contexto cultural onde o teatro negro ganha cada vez mais espaço e reconhecimento, não apenas como expressão artística, mas como plataforma de debate sobre transformações sociais necessárias e urgentes na sociedade contemporânea.

📍 SERVIÇO:
Teatro Joaquim Cardozo – Centro Cultural Benfica
25 e 26 de julho, 19h30
R$ 20 (inteira) / R$ 10 (meia)

 

Dan Stulbach . Foto: Ronaldo Gutierrez. 

RELEITURA DE SHAKESPEARE

O Mercador de Veneza chega à CAIXA Cultural Recife de 24 de julho a 2 de agosto, de quinta-feira a sábado, sempre às 20h. Esta montagem dirigida por Daniela Stirbulov transporta o clássico da Itália do século 16 para um cenário contemporâneo inspirado nos anos 1990, década marcada pela aceleração da globalização e pelo surgimento de uma nova ordem mundial.

A trama acompanha Antônio, um mercador que contrai uma dívida com Shylock para ajudar seu amigo Bassânio. Como garantia para o empréstimo, Antônio oferece uma libra de sua própria carne. O não pagamento da dívida leva a um julgamento dramático, trazendo à tona temas como justiça e preconceito. A Bolsa de Valores dos anos 1990 se torna o espaço simbólico central da narrativa, onde o dinheiro rege as relações humanas, refletindo a aceleração da globalização.

Nesta versão, Shylock assume o papel de protagonista e a história é contada a partir de sua perspectiva, invertendo a estrutura tradicional da peça shakespeariana. 

A cenografia inclui uma estrutura acrílica transparente elevada no centro do palco que cria um tablado dinâmico para os atores, um painel LED circular posicionado no alto que desenha palavras e frases ligadas à ação em tempo real, um operador de câmera que capta imagens em tempo real também projetadas no painel, e uma baterista que executa a trilha sonora ao vivo no palco, criando uma atmosfera imersiva.

O elenco principal é formado por Dan Stulbach como Shylock, Cesar Baccan como Antônio, Gabriela Westphal como Pórcia e Marcelo Ullmann como Bassânio, além de um elenco de apoio que inclui Augusto Pompeo, Amaurih Oliveira, Júnior Cabral, Marcelo Diaz, Marisol Marcondes, Rebeca Oliveira, Renato Caldas e Thiago Sak. A equipe técnica conta com cenografia de Carmem Guerra, figurino e visagismo de Allan Ferc, desenho de luz de Wagner Pinto e Gabriel Greghi, e trilha sonora executada por Caroline Calê.

 

OUTRAS COMÉDIAS

NÂO

NÃO! com Adriana Birolli

A atriz Adriana Birolli retorna ao Recife com comédia de Diogo Camargos que aborda dificuldade de estabelecer limites pessoais. O monólogo, que já percorreu o Brasil com sessões lotadas, explora tema através da perspectiva de mulher que faz terapia há dezoito anos para aprender a dizer não.

A montagem representa teatro comercial contemporâneo: uma atriz conhecida da televisão em texto que combina humor com autoajuda, criando identificação imediata com público urbano de classe média. Adriana Birolli comenta que a resposta positiva de profissionais da saúde mental comprova a pertinência do tema.

SERVIÇO:
Teatro Santa Isabel
25 a 27 de julho (Sex 20h, Sáb 19h, Dom 18h)
R$ 40 a R$ 140

Wilson de Santos intepreta a rmã Maria José. Foto: Divulgação

A Noviça Mais Rebelde

A trajetória de mais de uma década nos palcos brasileiros consolida A Noviça Mais Rebelde  como um fenômeno teatral que conquistou públicos das mais diversas regiões do país. Wilson de Santos constrói um personagem que navega entre a devoção religiosa e as memórias mundanas com uma naturalidade que transforma cada apresentação em uma experiência única, já que a natureza improvisacional do espetáculo permite variações que mantêm a obra sempre renovada.

A habilidade do ator em conduzir a interação com a plateia, alternando entre momentos de reflexão espiritual e explosões de humor irreverente, demonstra sua versatilidade cênica desenvolvida ao longo de colaborações com importantes nomes do teatro nacional. O formato de monólogo interativo, que coloca o público como parte integrante da narrativa, quebra a quarta parede de forma orgânica, criando uma atmosfera de intimidade que faz com que cada espectador se sinta pessoalmente conectado às confissões e travessuras da Irmã Maria José. Esta longevidade artística

📍 SERVIÇO:
A Noviça Mais Rebelde
Teatro do Parque
25 e 27 de julho (Sex 20h, Dom 19h)
R$ 60 a R$ 120

Postado com as tags: , , , , , , , , ,

Pesquisador lança livro digital gratuito
sobre crítica teatral no Recife dos séculos 19 e 20

Leidson Ferraz apresenta Ponto de Vista: crítica e cena pernambucana no Teatro de Santa Isabel nesta quinta-feira. Foto: Léo Mota / Divulgação

O Teatro de Santa Isabel, palco histórico que testemunhou 175 anos de arte pernambucana, recebe nesta quinta-feira (10 de julho) o lançamento de uma obra que resgata justamente essa memória teatral. A partir das 19h, o jornalista, crítico e historiador Leidson Ferraz apresenta o livro-pesquisa Ponto de Vista: crítica e cena pernambucana, um mergulho inédito nos primórdios da crítica teatral recifense.

A publicação digital gratuita, com 236 páginas, é fruto de uma extensa pesquisa em periódicos e foi viabilizada pela Lei Aldir Blanc (LAB/PE), com apoio do Governo Federal e do Estado de Pernambuco. O evento, que deveria ter ocorrido em maio durante as comemorações dos 175 anos do teatro, foi adiado devido às fortes chuvas da época.

Um mergulho nos bastidores da crítica teatral

O trabalho de Ferraz, Doutor em Artes Cênicas pela UNIRIO, desvenda as primeiras publicações de resenhas críticas nos jornais, inicialmente assinadas por pseudônimos intrigantes como O Kapla, O Espectador, Os R. R., O Sentinela e O Apreciador do Mérito. A pesquisa avança até revelar colaboradores identificados do século 19, como João Ferreira Villela, Antônio Pedro de Figueiredo (Abdalah-el-Kratif) e Luiz Caetano Pereira Guimarães Júnior (Luciano d’Athayde).

“A intenção é revelar detalhes dos gêneros teatrais daqueles tempos, o formato dos espetáculos, os artistas de maior destaque, a relação que o público mantinha com o palco e como a imprensa reagia a tudo isso. Os embates de opiniões, claro, foram inevitáveis e a gente vai ver que o passado, às vezes, se assemelha bastante ao presente, claro que cada qual com seu contexto específico”, explica Ferraz.

Polêmicas e embates do século 19

O livro concentra-se especialmente na segunda metade do século 19, período posterior à inauguração do Teatro de Santa Isabel em 18 de maio de 1850. A obra documenta a chegada de grandes companhias visitantes, incluindo astros como João Caetano dos Santos, considerado o maior nome do teatro brasileiro da época, e Germano Francisco de Oliveira.

Uma das curiosidades mais marcantes relatadas por Ferraz ocorreu em 1869, ano em que o teatro sofreria um devastador incêndio. Meses antes da tragédia, a exibição das primeiras óperas-buffa causou tumultos memoráveis:

“Para se ter uma ideia, em 1869, no mesmo ano em que o Teatro de Santa Isabel sofreria um terrível incêndio, pouco antes disso a exibição das primeiras óperas-buffa já havia causado alvoroço naquela casa de espetáculos, com agressões a artistas, quebra pau e presença de polícia para conter os espectadores mais indignados”, relembra o historiador.

Do romantismo aos gêneros ligeiros

A pesquisa também aborda a transição do teatro romântico e realista para os gêneros ligeiros, como opereta, mágica e teatro de revista, mudança que causou estranhamento tanto na crítica quanto no público recifense. O trabalho inclui ainda a atuação de empresários como o português Antônio José Duarte Coimbra, que mais tempo administrou o Teatro de Santa Isabel.

Nos primeiros anos do século 20, a obra documenta o trabalho de jornalistas contratados como Manoel Arão, Mário Melo, Samuel Campello e Valdemar de Oliveira, mostrando a evolução e profissionalização da crítica teatral local.

Ferraz preparou uma palestra com projeção de imagens raras e promete contar curiosidades sobre a tríade formada pelas peças apresentadas, os espectadores e a imprensa teatral – um sistema repleto de embates e polêmicas que moldou a cena cultural pernambucana.

 

Serviço

Lançamento do livro-pesquisa Ponto de Vista: crítica e cena pernambucana
Quando: Quinta-feira, 10 de julho de 2025, às 19h
Onde: Teatro de Santa Isabel – Praça da República, s/n, Santo Antônio, Recife
Entrada Franca
Apoio: Lei Aldir Blanc (LAB/PE), Governo Federal e Governo do Estado de Pernambuco

Para baixar o livro gratuitamente: Livro BAIXE AQUI

 

Sobre o autor
Leidson Ferraz é jornalista, Mestre em História pela UFPE e Doutor em Artes Cênicas pela UNIRIO. É organizador e autor de diversas publicações sobre teatro pernambucano, incluindo a coleção Memórias da Cena Pernambucana e os livros Teatro Para Crianças no Recife – 60 Anos de História no Século XX (Volume 01) e O Teatro no Recife da Década de 1930: outros significados à sua história.

Postado com as tags: , , , , ,

Teatro de Santa Isabel:
175 Anos de Palco,
Resistência e Memória

Tombado pelo IPHAN em 1949, o TSI é um 14 teatros-monumentos do país. Foto: Andréa Rêgo Barros / PCR

É impactante sua arquitetura neoclássica. Foto: Andréa Rêgo Barros / PCR

Lançamento de livro e apresentação do Grupo Magiluth na celebração de aniversário. Foto: Andréa Rêgo Barros

Em 2025, o Teatro de Santa Isabel completa 175 giros em sua espiral temporal, entrelaçando passado e presente no coração do Recife. Esse corpo arquitetônico respira memórias e performa histórias que se acumulam em camadas, como uma máquina do tempo em movimento, onde cada apresentação deixa seus rastros invisíveis. Inaugurado em 18 de maio de 1850, o edifício neoclássico é um organismo cultural que pulsa, absorve e reflete as vibrações sociais de quase dois séculos.

Concebido pelo Barão da Boa Vista e materializado pelo engenheiro francês Louis Léger Vauthier, suas paredes testemunharam momentos da história, desde os debates da Revolução Praieira até os discursos que culminaram na declaração de Joaquim Nabuco: “Aqui vencemos a causa da abolição”. O incêndio de 19 de setembro de 1869, que destruiu quase toda a estrutura do teatro, deixando apenas paredes laterais, alpendre e pórtico, não silenciou sua importância. Em 16 de dezembro de 1876, o teatro ressurgiu para continuar sua missão como palco da efervescência cultural pernambucana.

Desse palco, revoluções saltaram para as ruas. Suas colunas sustentam ideais de liberdade que permeiam gerações. Ao visitá-lo hoje, conectamo-nos diretamente com um capítulo fundamental da história cultural do Brasil, apreciando tanto sua relevância arquitetônica quanto sua contribuição para a formação da identidade pernambucana. Em um país que luta para não esquecer sua memória, esperamos que o Santa Isabel permaneça – resistente, vivo e necessário – como artéria pulsante da cultura que segue reinventando o futuro a partir das lições do passado.

Para a celebração de aniversário, o Santa Isabel recebe no domingo, dia 18 de maio, às 19h, o Grupo Magiluth com o espetáculo Estudo Nº 1: Morte e Vida, uma releitura do poema de João Cabral de Melo Neto. E nesta sexta-feira (16 de maio), às 19h, ocorre o lançamento do livro digital Ponto de Vista: crítica e cena pernambucana, pesquisa minuciosa do jornalista e historiador Leidson Ferraz, que faz uma palestra sobre os primórdios da crítica no Recife.

 

Estudo Nº 1: Morte e Vida

Uma reconfiguração contemporânea do clássico severino

Cena faz alusão à precarização do trabalho, e a Thiago Dias, trabalhador de aplicativo que morreu de exaustão Foto_Vitor Pessoa/ Divulgação

Essa cena do canavial, cruza Michael Jacson com maracatu rural, com Bruno Parmera. Foto_Vitor Pessoa

 

Crises climáticas e migrações são discutidas no espetáculo. Foto_Vitor Pessoa/ Divulgação

Como parte das celebrações de 175 anos, o Teatro de Santa Isabel recebe no domingo, 18 de maio, uma das mais instigantes produções do teatro pernambucano contemporâneo. Estudo Nº 1: Morte e Vida, do Magiluth, sob direção de Luiz Fernando Marques (Lubi) e assistência de Rodrigo Mercadante, propõe uma releitura radical do clássico Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. Os ingressos  para o espetáculo são distribuídos na bilheteria do teatro, a partir das 18h.

A dramaturgia expandida torna-se um “manifesto-palestra” que entretece o texto original com narrativas urgentes do presente, preservando a força poética cabralina, amplificando-a nas discussões atuais, evidenciando como as questões de migração, precarização do trabalho e crise climática permanecem dolorosamente atuais.

Podemos pensar sobre episódios trágicos do mundo real, que, embora não estejam diretamente em cena, chegam por associação, como a brutalidade sofrida por Moïse Mugenyi Kabagambe – refugiado congolês no Brasil, assassinado em 2022 no Rio de Janeiro após cobrar salários atrasados. Ou em um dos  episódios centrais da encenação, que reflete a precarização do trabalho e o desprezo pela vida, a história de Thiago Dias – trabalhador nordestino que sucumbiu em 2020 por exaustão após jornadas extenuantes como entregador de aplicativo em São Paulo.

Essas tragédias estabelecem pontes temporais que apontam a persistência das desigualdades sociais, que vem muito antes da publicação de Morte e Vida Severina (1955).

A força do texto cabralino não fica aprisionada em uma redoma de contemplação, mas, ao contrário, é potencializada ao ecoar em narrativas urgentes do presente. Quando os atores alternam entre os versos e intervenções performativas que incorporam narrativas atuais, criam um campo dialógico onde passado e presente se interpenetram, expondo as estruturas de poder e as continuidades históricas da exploração no contexto das novas configurações das ordens mundiais.

A encenação rompe radicalmente com a ilusão teatral ao expor deliberadamente seus mecanismos de produção. Microfones, mesas técnicas à vista, projeções em painéis desnudos – todos estes elementos compõem um dispositivo metateatral que transforma o espetáculo em uma “oficina” visível de criação.

A estrutura espiral da montagem sobrepõe camadas temporais através de projeções que justapõem imagens de arquivo, recortes digitais e colagens visuais. Esta fragmentação sensorial reflete a própria natureza caótica da experiência contemporânea, criando uma malha de significados que desafia interpretações lineares. O título “Estudo” não é casual: carrega a natureza investigativa de um teatro que se propõe como pesquisa contínua e menos como produto acabado.

Um dos aspectos mais provocativos da montagem é seu questionamento da própria figura do “Severino”. Ao utilizar ferramentas de busca digital para expor representações estereotipadas do nordestino, o espetáculo desnaturaliza imagens cristalizadas no imaginário nacional. O personagem insiste em dizer que não é uma entidade fixa para mostrar-se como um conceito em constante movimento, atravessado por muitas vozes e experiências.

 

Primórdios da crítica teatral no Recife

Leidson Ferraz lança livro digital e faz palestra. Foto: Léo Mota. Capas do livro. Design: Claudio Lira.

Uma investigação sem precedentes sobre os primórdios da crítica teatral pernambucana será apresentada ao público nesta sexta-feira (16 de maio), às 19h, no Teatro de Santa Isabel. Fruto de meticuloso trabalho em vários periódicos dos séculos 19 e 20, o livro Ponto de Vista: crítica e cena pernambucana, de Leidson Ferraz, doutor em Artes Cênicas pela UNIRIO, inaugura as celebrações pelos 175 anos da casa de espetáculos. A obra desvenda o universo das primeiras publicações críticas sobre teatro na imprensa recifense, reconstruindo o panorama cultural da época através de documentos raros e análises. O acesso ao evento é gratuito.

Durante a palestra, o pesquisador compartilha curiosidades sobre os embates e polêmicas que marcaram a cena teatral pernambucana, desde os críticos anônimos que usavam pseudônimos como “O Kapla” e “O Sentinela” até a profissionalização da crítica no início do século 20. Entre os destaques da pesquisa está o momento de transição dos gêneros teatrais, quando as operetas e o teatro de revista substituíram o teatro romântico e realista, causando reações intensas como a ocorrida em 1869, quando apresentações de óperas-buffa provocaram tumultos no mesmo ano em que o teatro sofreria um devastador incêndio. A publicação, que contou com incentivo da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB/PE), já está disponível gratuitamente em formato digital no link Livro

 

Entrevista – Romildo Moreira – diretor do Teatro de Santa Isabel

Romildo Moreira. Foto: Pedro Portugal / Divulgação

Aproveitando o momento significativo das comemorações dos 175 anos do Teatro de Santa Isabel, realizamos uma entrevista com Romildo Moreira, atual diretor dessa casa histórica das artes pernambucanas. Com experiência na gestão cultural e conhecimento sobre o legado deste patrimônio, Moreira compartilha reflexões sobre os desafios de preservar e administrar um espaço que testemunhou importantes capítulos da história brasileira desde 1850.

– O Teatro de Santa Isabel é um verdadeiro patrimônio cultural e arquitetônico. Quais aspectos da história e da vocação do teatro o senhor destacaria como fundamentais para sua identidade?

Romildo Moreira – O Teatro Santa Isabel é um patrimônio cultural e arquitetônico, sim. Foi tombado pelo IPHAN em 1949, já ressaltando exatamente esse patrimônio com uma ênfase da cultura local, na cidade do Recife, e patrimônio nacional da arte e da cultura, como depois ele foi eleito a esta condição.

Ele participa dos 14 teatros-monumentos do país e hoje ele é considerado pelo próprio IPHAN como um dos teatros antigos do Brasil, um dos mais bem equipados e com programação permanente.

O tanto que a gente aqui fica recebendo solicitações de pauta o tempo inteiro e já está com a pauta para 2025, por exemplo, lotada até o dia 21 de dezembro. Ou seja, tanto a produção local quanto a produção nacional e até produções internacionais, quando vem para o Nordeste, pensa no Recife e no Teatro de Santa Isabel.

De fato, ele é almejado não só pela produção local, mas, como falei, nacional e internacional.

 – Considerando a importância histórica e a relevância na cena cultural do Recife, como o teatro se posiciona para cumprir seu papel frente aos desafios contemporâneos?

Romildo Moreira – Com relação aos desafios contemporâneos, mesmo o teatro sendo muito antigo, com 175 anos de existência, a gente não faz discriminação de espetáculos contemporâneos, de teatro, dança, circo, ópera etc., desde que não haja nenhum prejuízo físico ou moral para casa, a gente tem todo o prazer em receber essas produções aqui no palco do Teatro Santo Isabel. Isso tem ocorrido frequentemente. Inclusive, a nossa comemoração dos 175 anos do Teatro Santo Isabel é com o Grupo Magiluth, que tem um espetáculo muito contemporâneo, um espetáculo que não tem uma pegada cênica de antigamente, muito pelo contrário, é um espetáculo jovem, atemporal, contemporâneo etc.

Gostaria de entender melhor o que significa “prejuízo físico ou moral para casa”.

Romildo Moreira – Prejuízo físico é que danifique alguma coisa de palco, da plateia, das cadeiras, do gradil que é tombado etc. Então, prejuízo físico seria exatamente danificar algo que caracteriza o patrimônio. E prejuízo moral seria espetáculos de cenas explícitas, de pornografias, de sexo etc.

Só lembrando também que prejuízo moral também seria espetáculos pornográficos. A gente não teria esta condição de recebê-lo pela própria história e relevância do Teatro Santo Isabel.

 O mês de maio reserva uma programação especial para o aniversário do teatro.

Romildo Moreira – Para a celebração dos 175 anos, na programação oficial nossa aqui do Teatro de Santa Isabel, temos o lançamento do livro Ponto de Vista: Crítica e Cena Pernambucana, de Leidson Ferraz,  na sexta-feira, 16/05, (às 19h) e no domingo, 18/05, a apresentação gratuita de Estudo nº1: Morte e Vida, do grupo Magiluth, em comemoração ao aniversário

Quanto à Orquestra Sinfônica do Recife, os concertos (27/05 e 28/05, às 20h) fazem parte da programação mensal. Não está diretamente vinculado ao aniversário do teatro, mas também não deixa de ser uma oportunidade das pessoas estarem aqui nesta semana de comemoração desta data tão importante para um teatro que está permanentemente ativo. Não é verdade?

– O que motivou a escolha dessa programação especial?”

Romildo Moreira – Com relação ao que motivou essa programação que você chama de especial para o aniversário do teatro, é uma coisa muito simples. Primeiro, o lançamento do livro de Leidson Ferraz trata-se de teatro, e nada melhor do que lançar num teatro, como o Teatro de Santa Isabel, porque muita pesquisa ele fez aqui também, no nosso material. E na própria descrição do livro se fala muito no Teatro de Santa Isabel. E quanto ao Grupo Magiluth, a escolha do Grupo Magiluth é porque é um grupo local importantíssimo que faz apresentações aqui esporadicamente por outras questões, por falta de pauta etc., e pela qualidade do grupo, a qualidade dos espetáculos do grupo, inclusive trazendo uma peça baseada em João Cabral, do Melo Neto. Então a pernambucanidade do espetáculo tem tudo a ver também com a pernambucanidade do Teatro de Santa Isabel. Enfim, mas independente dessa coisa bairrista mesmo, é a qualidade artística que o grupo Magiluth tem nos seus espetáculos.

E esta é a razão mais forte que a gente encontra para dizer que este grupo vai entrar nesse aniversário do teatro tranquilamente.

– O teatro possui algum projeto de curadoria específico para contornar questões contemporâneas e potencializar o uso do espaço cultural? Como esse projeto tem influenciado a escolha e a execução dos eventos?”

Romildo Moreira – Bem, não existe uma curadoria para escolhas dos espetáculos a acontecer no Teatro de Santa Isabel. Existe um decreto de número 21-924, de 10 de maio de 2006, que normaliza as pautas que a gente pode oferecer, pode receber aqui. Então, não pode ter excesso de som, som até 95 decibéis, não pode ter abundância de água em cena, não pode ter fogo, não pode ter drone etc., coisas que possam pôr em risco o patrimônio cultural do Teatro de Santa Isabel. Então isso a gente leva em conta quando recebe as propostas de pauta se esse espetáculo pode ser apresentado aqui ou não. Quando não pode ser apresentado aqui, a gente explica o motivo e sugere uma outra casa de espetáculos. Normalmente, a produção local já sabe disso e não traz esse problema para a gente resolver, mas as produções de fora, quando ocorre, a gente explica e eles entendem completamente bem.

Quais são os critérios adotados para escolher as pautas e os eventos executados no teatro ao longo do ano? Há uma linha diretriz definida para a programação?

Gostaria de compreender com mais profundidade como funciona o processo de distribuição de pautas ao longo do ano no Teatro. Poderia descrever, de forma detalhada, o passo a passo desse procedimento? Por exemplo, se uma produtora local tem interesse em reservar uma pauta para maio de 2026, qual seria o período ideal para entrar em contato, e quais os documentos e informações necessários para formalizar a solicitação?

Romildo Moreira – Não há linha definida para a ocupação da pauta, o que há é a não aceitação de eventos artísticos e culturais que não tem perfil para o Teatro de Santa Isabel. Por exemplo: concurso de miss, eventos evangélicos, espetáculo pornográficos…

Se eu, como produtora cultural, precisar de uma pauta, como consigo? Quais os critérios? Não tem critérios?

Romildo Moreira – Se você precisar de uma pauta, é só encaminhar para o nosso e-mail a solicitação de pauta dizendo o que vai ser utilizado nessa pauta, qual é o espetáculo, se é teatro, dança, circo, ópera, como é que ele se porta, mandar fotos, mandar material em geral sobre a peça, para a gente saber o que é etc.

É isso. Se houver alguma impossibilidade de recebê-lo pela data, já é uma coisa óbvia, porque já está ocupado. Ou então porque o espetáculo não se porta dentro do que a gente já falou antes, se é pornográfico, se tem danos físicos ou morais para o teatro.

É isso, não tem outro critério, que a gente não vai fazer censura estética, entendeu?

Há variação também nos valores dos aluguéis e nas condições de contratação nesses casos, ou são uniformes para todos?

Romildo Moreira – O pagamento da pauta do Teatro de Santa Isabel tem uma diferença da produção local para a produção visitante. A produção local paga 10% da bilheteria bruta com o valor mínimo de R$ 2 mil por apresentação. A produção visitante paga 10% da bilheteria bruta com valor mínimo de R$4.000 por cada apresentação. Só isso que difere, é só o valor mesmo, porque a produção local tem esse abatimento de 50% do valor da pauta.

Por fim na questão das pautas, gostaria de saber se existem restrições específicas para espetáculos destinados ao público infantil ou juvenil e como essas particularidades influenciam a distribuição de pautas.

Romildo Moreira – Inclusive, no mês de julho, existe o Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco, da Metro Produções, e o Teatro de Santa Isabel também recebe esse festival. Então, nós temos o maior prazer também de apresentar espetáculo para criança, que é o público do futuro.

– O Teatro de Santa Isabel, com sua longa trajetória, sempre enfrentou desafios de manutenção e sustentabilidade. Quais estratégias e parcerias têm sido implementadas para garantir sua sobrevivência e modernização sem perder sua essência histórica?

Romildo Moreira – Quanto à manutenção e sustentabilidade, existe uma questão bem presente, como o teatro é da Prefeitura do Recife, a Prefeitura, através da Fundação de Cultura e da Secretaria de Cultura, faz a manutenção permanente através de empresas que são licitadas para tal. Então, a gente tem uma empresa que cuida da manutenção do ar-condicionado, outra que cuida da manutenção estrutural, enfim, e por aí vai. São empresas que permanentemente, como por exemplo os elevadores, têm um problema no elevador, então tem a empresa de manutenção do elevador  que vem e conserta na hora e por aí vai. Isso facilita, porque é um órgão público. Se fosse pela bilheteria do teatro, jamais isso ocorreria, porque a gente não teria disponibilidade financeira para tal. Mas, ao contrário, a gente mantém sempre essas questões em dia por conta dessas parcerias que são com a Fundação de Cultura e Secretaria de Cultura para a manutenção de empresas com esta obrigatoriedade.

– Quantos funcionários compõem a equipe que trabalha no teatro e quais têm sido os principais desafios enfrentados na gestão do espaço atualmente?

Romildo Moreira – 49 funcionários

– Qual tem sido o papel do investimento público no fortalecimento e na manutenção do teatro? De que forma esses recursos têm contribuído para a preservação e renovação do espaço?

Romildo Moreira – Reforçando. Acho importante também falar sobre a manutenção do teatro. Todo mês de fevereiro, anualmente, a gente não abre pautas, não abre para atividades artísticas, a gente faz uma manutenção de equipamento, de som, de luz, de toda parte estrutural do teatro, fazendo também alguns reparos de pintura, etc., para manter o teatro sempre bem quisto e bem visto pela sociedade.

– Como o cidadão, de todas as classes sociais, pode ter acesso ao teatro? Existem projetos ou estratégias que promovem a participação popular e a democratização do espaço?

Romildo Moreira – Quando se trata de sociedade, o teatro tem esse cuidado de não ser uma casa distante da população. Por isso que temos muitos espetáculos gratuitos.

A Orquestra Sinfônica do Recife faz quatro concertos aqui no teatro mensalmente, com sessões gratuitas. Além disso, o teatro tem um projeto chamado Santa Isabel em Cena, que tem duas vertentes. A primeira vertente é que, às terças-feiras, a gente recebe uma média de 300 jovens, entre alunos de escolas públicas, escolas privadas e de ONGs que trabalham com essa faixa etária. Essas pessoas vêm aqui para conhecer o teatro e assistem um espetáculo gratuitamente, um espetáculo local.

E a segunda versão desse Santa Isabel em Cena é que acontece aos domingos, uma vez por mês, um espetáculo direcionado mais à terceira idade, que é uma forma também de a gente trazer e manter este público. Na primeira versão é para os novos frequentadores do teatro, com essa juventude, e nessa segunda versão é para a manutenção desse povo que já acostumou vir ao teatro e assistir a um espetáculo, principalmente de música camerística. Enfim, de forma que a gente tem essa preocupação de um público sempre ampliado e renovado nas apresentações do Teatro de Santa Isabel.

Também temos tido o cuidado de negociar com as produções que vêm para cá, para o Teatro de Santa Isabel, de não fazerem preços muito altos, até mesmo porque o pagamento da pauta é muito pequeno, é 10% da bilheteria bruta, de forma que os ingressos aqui não são de preço tão volumosos exatamente para facilitar uma camada mais ampla de pessoas poderem assistir, já que os ingressos não são tão caros.

– Considerando a situação do entorno do teatro, com calçadas em péssimo estado, a presença de moradores de rua e mendicância, há alguma estratégia integrada ou parceria com órgãos públicos para revitalizar a área?

Romildo Moreira – Com relação a essa questão de moradores de rua, quando o teatro fecha, fica invadido, pessoas dormindo aí, a gente não tem como resolver isso aqui. A prefeitura passa toda quarta-feira aqui, oferece abrigo para essas pessoas, umas já foram, outras já tiveram a família inteira abrigada, mas tem gente que não quer. Então, rua é rua, a gente não tem como fazer. Isso não seria com a Secretaria de Cultura nem com a Fundação de Cultura, muito menos com o teatro. Mas a prefeitura, de um modo geral, tem tido uma ação permanente de fazer com que essas pessoas não agridam o espaço etc. Mas é bem complexo em função disso. Tem gente que não quer sair da rua, enfim. Quando chove, principalmente, eles vão para os lugares onde tem abrigo, como tem aqui no Teatro de Santa Isabel, nessa Dantas Barreto, na Guararapes, é o que mais se vê, como se vê também em outras capitais, Rio de Janeiro, São Paulo etc.

– Que mensagem o senhor deixaria para o público e a comunidade?

Romildo Moreira – A mensagem que deixo para o público e o mundo geral é que não temos aqui a preocupação de fazer censura estética com a utilização do teatro de Santa Isabel. Tanto espetáculo, teatro, dança, circo, ópera, música, enfim, temos só a preocupação prevista no decreto, como já falei anteriormente, porque é para a pluralidade de público mesmo.

Enquanto a gente recebe um espetáculo que requer mais um público jovem, o público jovem vem. Quando requer mais um público mais maduro, terceira idade, etc., esse público vem. E é importante saber que, quando eles vêm, eles veem um bom espetáculo aqui quer mais um público mais maduro, terceira idade etc., esse público vem.

E é importante saber que, quando eles vêm, eles veem um bom espetáculo aqui e ficam sempre aguardando novas oportunidades para retornar, porque o Teatro Santa Isabel é a casa do povo do Recife, e o povo do Recife é plural. E essa pluralidade também a gente mantém na programação exatamente para atender todos os desejos e necessidades de uma sociedade tão ampla como é a nossa.

 

 

 

 

 

 

 

Postado com as tags: , , , , , , , ,

Shakespeare esteja conosco!
O relato de uma substituição plena de afeto
e amor ao teatro*

José Roberto Jardim e Paulo de Pontes no Teatro de Santa Isabel, em 18 de novembro. Foto: Marcos Pastich

Tay Lopez substituindo Paulo de Pontes no dia 19 de novembro. Foto: Arquivo pessoal

Terminou neste domingo, 26 de novembro, a 22ª edição do Festival Recife do Teatro Nacional (FRTN). Infelizmente, o Satisfeita, Yolanda? não conseguiu acompanhar de perto a programação, pois não havia recursos para arcar com o trabalho da crítica. É uma pena. Pode ser tema de conversas e reflexões vindouras.

Mas, desde o dia 16, histórias aconteceram: nos palcos e fora deles. Muitas, nem ficamos sabendo, são quase restritas, tiveram como cenário coxias, plateias, bares pós-espetáculo. Mas uma delas, em especial, nós soubemos e achamos que merecia ser registrada.

Sueño é um espetáculo livremente inspirado em Sonho de uma noite de verão, de William Shakespeare, com direção e dramaturgia do pernambucano Newton Moreno, um dos homenageados do FRTN ao lado de André Filho.

A peça de 2h30 de duração, dois atos, estreou em São Paulo em novembro de 2021, na retomada do teatro presencial, nos jardins do Teatro João Caetano. Em agosto deste ano, fez uma temporada no Itaú Cultural.

Um dos destaques do elenco é o pernambucano Paulo de Pontes, que voltou ao Recife há alguns anos, depois de duas décadas morando em São Paulo. Paulinho, como é conhecido, brilha em cena. E havia uma grande expectativa por sua apresentação em casa, no Teatro de Santa Isabel.

Imaginamos que seria uma consagração, merecida. Mas as coisas nem sempre estão no nosso controle. E no dia 18 de novembro, logo depois da primeira cena de Paulo de Pontes, o espetáculo foi interrompido. O ator passou mal e não conseguiu continuar a peça.

Mesmo assim, no dia seguinte, o espetáculo aconteceu: Paulo de Pontes foi substituído por Tay Lopez, ator pernambucano que mora em São Paulo, mas tinha acabado de gravar um filme na Paraíba e estava de férias na cidade. Lopez fez uma leitura encenada do texto.

Diante dessa história cheia de inesperados e de ode ao teatro e a sua efemeridade, pedimos ao ator Tay Lopez que, no calor do momento, na segunda-feira, dia 20 de novembro, escrevesse um relato de experiência. Queríamos ouvir como foi viver tudo isso, deixar essa história registrada e compartilhá-la com outras pessoas.

É esse o texto que postamos aqui.

Obrigada, Tay Lopez, por atender ao convite de Newton Moreno e ao nosso.

Paulo de Pontes está bem.

Infelizmente, não conseguimos registros de imagem profissionais da sessão do dia 19 de novembro, então publicamos fotos amadoras, feitas de celulares por amigos que estavam na plateia.

“Shakespeare esteja conosco! O relato de uma substituição plena de afeto e amor ao teatro” *

Por Tay Lopez

Sábado, 18 de novembro, Festival Recife do Teatro Nacional, importantíssimo festival da cidade, que foi retomado bravamente este ano.

O cenário é o Teatro de Santa Isabel, lugar tão significativo para a cidade e para mim: me recordo quantas histórias vivi nesse teatro!

Peça: Sueño, do consagrado autor e amigo Newton Moreno, homenageado pelo festival juntamente com André Filho.

No foyer do teatro, um encontro festivo. Amigos de longa data, afetos, abraços. Feliz em estar na cidade de férias. Feliz em estar com minha mãe para vermos juntos uma peça que tanto gosto e que eu já tinha visto duas vezes em São Paulo. Há 2 anos, na estreia, retomada do teatro presencial, vi a montagem no Teatro João Caetano. E, há poucos meses, em agosto, revi na sua segunda temporada, no Itaú Cultural.

Espetáculo começa no Santa Isabel. Paulo de Pontes, irmão, amigo, confidente, entra em cena com seu Shakespeare maravilhoso. Plateia na mão.

Todos estavam na expectativa em ver Sueño na cidade, mas o espetáculo é interrompido, pois Paulinho não conseguiu voltar ao palco depois da primeira cena. Ela passou mal e precisou ser atendido por especialistas em um hospital próximo.

Vou ao camarim, procuro informações, me comunico com a família, com amigos e fico sabendo que, graças a Deus, não é nada grave. Volto para casa, durmo. Sonho com Paulinho. Estamos indo fazer um espetáculo juntos em algum lugar.

Acordo, procuro saber notícias sobre a saúde de meu amigo e recebo informações de que tudo está melhor, ele está bem, tinha sido só um susto. Fico aliviado.

Horas depois, o telefone toca. Newton Moreno me convida, sem rodeios, para uma tarefa. Na verdade, uma missão: substituir Paulo de Pontes. Não era um convite para encenar os mesmos personagens de Paulinho, o que seria impossível, mas para fazer uma leitura encenada.

Moreno me deixa muito à vontade para dizer não. Mas como dizer não para amigos tão queridos? Como não aceitar esse desafio? Como não homenagear Paulinho e tranquilizá-lo em saber que o espetáculo, de alguma forma, irá acontecer? Respondo que sim. E que essa decisão, na verdade, tinha que ser mais do grupo do que minha.

Newton fica feliz, agradece e já me manda o texto on-line. Domingo, 19 de novembro, 11h30, começo a ler a dramaturgia de Sueño.

Pouco tempo depois, decido parar. Vou à praia, mergulho no mar e volto. Tomo banho, almoço e sigo para o teatro.

Chegando lá, fui recebido com tanto amor, tanta atenção, que o mínimo que eu poderia fazer era tentar responder à altura. Tanta gente que admiro nesse elenco, nessa equipe.

Tay Lopez, José Roberto Jardim e Sandra Corveloni. Foto: arquivo pessoal

O espetáculo que seria às 16h foi transferido para às 20h.  Ensaiamos as cenas. Alguma ideia de marcação, de intenção, mas de liberdade e improviso.

Newton, como maestro, conduzindo tudo. Sandra Corveloni e José Roberto Jardim me ajudando nas cenas em que estaríamos juntos. Leopoldo Pacheco assessorando com os figurinos. Erica Rodrigues nos movimentos, Gregory Slivar nas intervenções musicais, Simone Evaristo na força puckiana. Almir Martines no olhar amoroso. Michele Boesche com palavras de encorajamento. Todos me passando confiança e acreditando que tudo daria certo.

Fui com serenidade, amor e espírito aberto para que a magia do teatro acontecesse naquela noite. “Há mais mistérios entre o céu e a terra do que julga nossa vã filosofia”, frase de Shakespeare, primeiro personagem de Paulo de Pontes.

Findado o ensaio, vou ao camarim. Léo Pacheco faz a minha maquiagem. Separamos os figurinos.

Paulinho me manda mensagem. Já está em casa e se recuperando bem. Eu tenho que dizer que ainda nutria esperanças de que ele poderia fazer a peça, mas não.

Fazemos a famosa roda de teatro. Dedicamos a apresentação a Paulinho e jogamos ao etéreo a força que nos guiaria naquela sessão.

Eis que a sala é aberta, o público se acomoda. Terceiro sinal e lá vamos nós. O público é avisado da minha entrada em substituição e do fato de eu estar com o texto na mão.

Primeira entrada. O público, muito generoso, embarca na experiência de ver uma sessão única. Teatro já é único, mas nesse dia, mais do que nunca, seria único para os outros atores que estavam em cena também. Um elemento novo estava ali. Um novo corpo, uma nova voz, um novo ritmo. Sobretudo, a memória da contracena com um jogador tão pleno que é Paulo de Pontes.

Paulinho é gênio! E sei de perto a importância que essas apresentações em Recife tinham para ele. Puxei meu amigo em meus pensamentos e tentei trazê-lo para perto. Sim, estávamos juntos. E assim aconteceu. Primeiro ato, segundo ato, público disponível.

Foi emoção à flor da pele. Que texto belo o de Newton! Tantas camadas.

Foi divertido, na medida do possível. Foi de verdade, com olhos e ouvidos presentes. Foi o que pude fazer. Foi teatro, jogo, “to play or not to play?”. Entre o “ser ou não ser”, escolhemos o ser e fomos. Um só corpo. Como o teatro tem que ser.

Sinto que só agora estou acordando desse grande Sueño. Torço muito para que o espetáculo volte ao Recife, com Paulo de Pontes no lugar que lhe cabe, mas preciso dizer o quanto foi uma experiência inesperada, louca e incrível. Teatro! Evoé!

Registro no palco do Teatro de Santa Isabel. Foto: arquivo pessoal

 

Postado com as tags: , , , , , , , ,

A Visita da Velha Senhora reacende debate entre ética e sobrevivência

Denise Fraga protagoniza espetáculo de Friedrich Dürrenmatt e divide a cena com mais doze atores, incluindo o pernambucano Tuca Andrada. Foto: Cacá Bernardes

Denise Fraga protagoniza espetáculo de Friedrich Dürrenmatt e divide a cena com mais doze atores, incluindo o pernambucano Tuca Andrada. Foto: Cacá Bernardes

Ao chegar ao Recife em 2016 com a peça Galileu Galilei, de Bertolt Brecht, Denise Fraga disse, em mais de uma entrevista, que encenou o espetáculo para refletir sobre o incômodo que sentia ao ver pessoas justificando o injustificável e fazendo cara de paisagem para os mais diversos absurdos. É com o mesmo espírito que ela vem novamente ao Recife com o espetáculo A Visita da Velha Senhora, peça de Friedrich Dürrenmatt que se tornou um clássico instantâneo do teatro contemporâneo. A peça terá quatro sessões no Teatro de Santa Isabel, desta quinta (24) até o domingo (27). Junto com A alma boa de Setsuan, que a atriz protagonizou em 2008, Denise diz ter encenado uma trilogia que põe no palco o dilema entre ser ético e sobreviver em um mundo que incentiva a injustiça.

Quem conta essa história é um elenco de 13 pessoas, incluindo, além de Denise, o pernambucano Tuca Andrada. A bilionária Claire Zahanassian chega a Güllen, cidade onde viveu os primeiros anos de sua vida, e a encontra falida. Seu objetivo é colocar a localidade inteira a serviço de seu plano de vingança, propondo doar um bilhão aos seus habitantes se eles matarem Alfred Krank, uma antiga paixão que a abandonou grávida para se casar com outra por interesse. De início, todos acham a oferta um absurdo, mas a ricaça desarma, aos poucos, a resistência da cidade com a frase “eu posso esperar”, instalando-se no hotel da cidade com seu séquito. Previsivelmente, a morte de Krank passa de algo absurdo a necessário.

Como poucas coisas no mundo, o humor pode servir, ao mesmo tempo, como instrumento de cumplicidade e reflexão. É o que parece ser a opinião de Denise, mais uma vez mergulhando no teatro épico. “A peça não só é atual como dá a impressão de ser quase encomendada para os dias de hoje. Dürrenmatt escreve uma série de cenas que demonstram como nossos valores morais vão se adequando ao poder econômico. Ele é genial porque escreveu uma tragédia em timing cômico. A Claire é a encarnação do capital na figura de uma mulher que foi massacrada. O autor não a concebeu como uma vilã absoluta. Ela é simpática, espirituosa, muito carismática e, além disso, a dor dela está em cena. Luiz Vilaça [diretor do espetáculo] inclui a plateia como cidadãos dessa cidade. Quem vê a peça fica dividido, pois fica com raiva mas diz entender o lado dela”.

O pernambucano Tuca Andrada, que interpreta Alfred Krank, volta à cidade com A visita da velha senhora após mais de dez anos longe dos palcos locais. De acordo com o ator, o caráter duvidoso do personagem vai sofrer uma transformação profunda ao longo do espetáculo. “Krank é o único personagem verdadeiramente trágico da peça. Os outros são o que são. Ele percebe a amplitude de seu crime e começa a refletir quando não encontra mais saída. É preciso ter muita atenção ao fazer um personagem como esse, pois ele não é vilão e nem mocinho. Todos nós cometemos erros, todos nós somos vítimas. A situação dele é uma metáfora da sociedade, pois o texto traz uma discussão muito inteligente sobre o que é justiça e a quem ela serve. No Brasil, por exemplo, quem rouba milhões não vai preso, mas um pobre que rouba um pão morre dentro da cadeia. São muitas discussões e recusei outros trabalhos para vivenciar isso, especialmente com um elenco tão bom de 13 pessoas. Não sei quando vou ter essa chance de novo”.

Denise também diz ser questionada pelas pessoas sobre o porquê de ser vista muito mais em trabalhos cômicos. Embora, em A visita da velha senhora, o tema tenha um quê trágico, a atriz afirma que o humor é uma escolha ética, além de estética, para sua carreira. “Acredito no humor e na ironia como trilha para o pensamento. A peça diverte e, ao mesmo tempo, dá voz à nossa angústia. Talvez essa seja uma das maiores funções do teatro hoje: dar a palavra às pessoas. A arte funciona como um espelho para a gente se ver”.

Serviço:
A Visita da Velha Senhora, de Friedrich Dürrenmatt
Quando: Dias 24, 25, 26 e 27 de maio – quinta a sábado, às 20h; domingo, às 18h
Onde: Teatro de Santa Isabel (Praça da República, s/n, Santo Antônio)
Classificação indicativa: 14 anos
Duração: 120 min
Gênero: Comédia Trágica
Ingressos: R$ 70 e R$ 35 (meia) para a plateia e R$ 50 e R$ 25 (meia) para o terceiro piso
Informações: (81) 3355-3323

Ficha Técnica: 
Autor: Friedrich Dürrenmatt
Stage rights by Diogenes Verlag AG Zürich
Tradução: Christine Röhrig
Adaptação: Christine Röhrig, Denise Fraga e Maristela Chelala
Direção Geral: Luiz Villaça
Direção de Produção: José Maria
Elenco: Denise Fraga, Tuca Andrada, Fábio Herford, Romis Ferreira, Eduardo Estrela, Maristela Chelala, Renato Caldas, Beto Matos, David Taiyu, Luiz Ramalho, Fernando Neves, Fábio Nassar e Rafael Faustino
Direção de Arte: Ronaldo Fraga
Direção Musical: Dimi Kireeff
Trilha Sonora Original: Dimi Kireeff e Rafael Faustino
Desenho de Luz: Nadja Naira
Produção Executiva: Marita Prado
Preparação Corporal e Coreografias: Keila Bueno
Direção Vocal: Lucia Gayotto
Preparação Vocal: Andrea Drigo
Visagismo: Simone Batata
Assistente de Direção: André Dib
Assistente de Produção Musical: Nara Guimarães
Engenheiro de Mixagem: Fernando Gressler
Camareira: Cristiane Ferreira
Assistente de Iluminação e Operador de Luz: Robson Lima
Operador de Som: Janice Rodrigues
Cenotécnicos: Jeferson Batista de Santana, Edmilson Ferreira da Silva
Assessoria Financeira: Cristiane Souza
Fotografia: Cacá Bernardes
Making Of: Pedro Villaça e Flávio Torres
Redes Sociais: Nino Villaça
Programação visual: Gustavo Xella
Assessoria de Imprensa BH: Personal Press
Projeto realizado através da Lei Federal de Incentivo à Cultura
Produção Original: SESI São Paulo
Patrocínio Exclusivo: Bradesco
Realização: NIA Teatro, Ministério da Cultura e Governo Federal

Postado com as tags: , , , , , ,