A luz brilhante de Helena Ignez
na Ocupação Itaú Cultural

 

Aos 87 anos, Helena Ignez se torna a primeira cineasta mulher homenageada pela série Ocupação do Itaú Cultural. Foto: filme A alegria é prova dos nove / Reprodução

Helena Ignez não cabe em uma definição. Atriz, diretora, cineasta, antimusa – talvez o termo mais preciso seja força em movimento. Desde que ingressou na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia em 1956, ainda nos anos de formação que a levariam ao encontro com Glauber Rocha e o Cinema Novo, Helena construiu uma trajetória que desafia qualquer tentativa de enquadramento. A Ocupação que o Itaú Cultural inaugura neste 22 de julho, na Avenida Paulista, busca entregar a narrativa em primeira pessoa para a própria artista, deixando que sua voz, seu corpo e sua prática experimental guiem o visitante.

É a 74ª edição da série Ocupação, e a primeira a homenagear uma cineasta mulher. Mas a exposição, que fica em cartaz até 18 de outubro com entrada gratuita, faz questão de escavar um território da produção de Helena que o grande público conhece menos: o teatro. Não por acaso. Foi nos palcos que ela aprendeu a ocupar o espaço com a inteireza de quem entende o gesto como linguagem e a cena como campo de batalha política.

Helena está no elenco do espetáculo teatral Fim de partida, que circula pelo Brasil . Foto: Fernando Young 

O teatro como raiz e retorno

A mostra dedica um núcleo significativo à produção teatral de Helena, reunindo programas de espetáculos, críticas históricas – incluindo uma de Nelson Rodrigues – e documentos de processo de trabalho que revelam décadas de dedicação aos palcos. É um aspecto que a própria artista faz questão de sublinhar: o teatro sempre teve importância absoluta em sua vida, mesmo que sua imagem pública tenha sido forjada sobretudo pelas telas.

Neste momento, Helena está em plena atividade teatral. Integra o elenco de Fim de Partida, o clássico de Samuel Beckett dirigido por Rodrigo Portella, ao lado de Marco Nanini, Guilherme Weber e Ary França. A peça – que esteve em cartaz em São Paulo e no Rio de Janeiro e faz apresentações no Recife (de 23 a 26 de julho, no Teatro Luiz Mendonça) e Porto Alegre (17 e 18 de outubro, no Teatro Simões Lopes Neto) – coloca Helena no centro de um dos textos mais contundentes do teatro moderno, marcado por humor ácido, silêncios dilacerantes e a espera por um fim que nunca chega.

Em entrevista recente ao portal bahia.ba, Helena colocou Beckett no mesmo patamar de Shakespeare. Para ela, ambos são escritores cuja inteligência se manifesta em cada camada da obra e atravessam o tempo com a mesma potência. Shakespeare segue atual porque fala das paixões humanas, dessa imprevisibilidade que nós somos. Beckett, por sua vez, fala do absurdo – da existência sem sentido, da espera que nunca se completa, de personagens presas em ciclos dos quais não conseguem escapar.

Sobre a personagem que interpreta em Fim de Partida, Nell, a atriz destaca o paradoxo que a torna tão fascinante: moradora de uma lata de lixo, é ao mesmo tempo a única mulher da peça e a única que efetivamente rompe com o outro personagem. “Ela fala o que quer, expressa sua loucura, mas é livre dentro disso”, disse Helena. “Acho uma peça maravilhosa para refletirmos. E continuará sendo atual.”

A atriz no filme A Mulher de Todos, de 1969, dirigido por Rogério Sganzerla

Antimusa: o gesto de recusar o lugar de objeto

A exposição não se furta a enfrentar a imagem que a sociedade tentou colar em Helena. Um dos eixos mais potentes da curadoria é dedicado ao conceito de antimusa – termo que a própria artista mobiliza para recusar o papel de musa inspiradora e afirmar seu lugar como sujeito criador. O visitante encontra ali um conjunto impactante de manchetes históricas, imagens e vídeos que mostram como Helena subverteu os papéis de gênero impostos às atrizes, especialmente durante os anos de chumbo da ditadura militar.

Desse núcleo, emerge com força A Mulher de Todos (1969), dirigido por Rogério Sganzerla, frame central da exposição. O filme, exibido em cópia restaurada, apresenta Ângela Carne e Osso – personagem que Helena encarnou com uma irreverência que atravessou o tempo. Ninfomaníaca que faz os homens de gato e sapato, Ângela foi uma interpretação revolucionária no cinema brasileiro justamente por recusar a passividade feminina em plena repressão.

Já o espaço dedicado à produtora Belair mergulha em 1970, ano em que Helena, ao lado de Rogério Sganzerla e Júlio Bressane, realizou seis longas-metragens em poucos meses – uma explosão criativa que a ditadura tratou de interromper. A exposição reúne frames, vídeos, materiais de bastidores e, especialmente, um documento em que Helena se posiciona contra a censura. É ali que a resistência se materializa em papel e película.

O Bandido da Luz Vermelha

Em parceria com a Cinemateca Brasileira, o projeto também realizou ações de preservação fundamentais, como a captura fotográfica digital de películas de títulos emblemáticos. Três desses filmes merecem destaque: O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Sganzerla, um clássico do cinema marginal que até hoje influencia gerações, com Helena no papel de Janete Jane; O Padre e a Moça (1966), de Joaquim Pedro de Andrade, um drama inspirado no poema homônimo de Carlos Drummond de Andrade, com Helena no papel de Mariana e O Grito da Terra (1964), de Olney São Paulo, uma raridade do período pré-Cinema Novo, drama sertanejo que ganhou uma nova cópia digital e volta a ser apresentado ao público. 

A cineasta por trás da câmera

A Ocupação evidencia ainda o trabalho de Helena como diretora. Roteiros, cadernos de processo, vídeos e bastidores de filmes como A Alegria é a Prova dos Nove (2023), Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha (2010) e o documentário Fakir (2019) estão acessíveis ao público. Como atriz, a mostra dialoga com sua produção mais recente, incluindo o longa Nosferatu (2025).

Há também um mural de fotos que é, por si só, uma aula de história cultural brasileira: as imagens registram parcerias longevas com Sganzerla, Antônio Pitanga, Paulo Villaça, Cristiano Burlan e Jean-Claude Bernardet, além de encontros com Jô Soares, Maria Gladys, Zé Celso Martinez Corrêa e Ney Matogrosso.

Programação paralela: uma temporada inteira dedicada a Helena

Fora do espaço expositivo, a programação é igualmente ambiciosa. A Itaú Cultural Play disponibiliza uma retrospectiva gratuita com 23 filmes – entre obras dirigidas e estreladas por Helena – que fica no ar durante todo o período da exposição, de 22 de julho a 18 de outubro de 2026. O acesso é gratuito pelo site itauculturalplay.com.br e pelos aplicativos para smart TVs, dispositivos móveis (Android e iOS) e Chromecast.

A plataforma também será o destino final do curta-metragem inédito Des-criação, codirigido por Helena e André Guerreiro Lopes em formato híbrido que dialoga com a videoarte e o cinema de invenção; uma imersão no universo interior da artista, suas reflexões sobre arte, tempo, vida e morte.

Haverá exibições presenciais em setembro no Cine Glauber Rocha (Salvador) e em outubro na sede do Itaú Cultural (São Paulo). E, coroando a programação teatral, o teatro do Itaú Cultural recebe em outubro a remontagem de Savannah Bay, de Marguerite Duras, com direção de André Guerreiro Lopes e Helena no elenco; revisitando o texto que ela já havia interpretado em 1999 e 2001 sob a direção de Rogério Sganzerla.

Ficha técnica

Helena Ignez – 74ª edição da série Ocupação
Concepção e realização: Itaú Cultural
Curadoria: Equipe Itaú Cultural
Consultoria de conteúdo: Djin Sganzerla
Projeto expográfico: Renata Mota
Assistência de expografia: Lanussi Pasquali, Livia Fauaze e Louise Braga
Abertura: 22 de julho de 2026, às 19h30
Visitação: De 23 de julho a 18 de outubro de 2026. Terça a sábado, 11h às 20h. Domingos e feriados, 11h às 19h
Local: Itaú Cultural – Avenida Paulista, 149, São Paulo (próximo ao metrô Brigadeiro)
Entrada: Gratuita

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