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Jorge Lafond e a memória adiada
Crítica e bate-papo:
Jorge pra Sempre Verão

Jorge pra Sempre Verão. Em primeiro plano Aretha Sadick e Alexandre Mitre. Foto Guará Siqueira / Divulgação

Poucos espetáculos recentes do teatro brasileiro assumem com tanta frontalidade a tarefa de disputar a memória quanto JORGE pra Sempre VERÃO. A peça dirigida por Rodrigo França, com dramaturgia de Aline Mohamad e Diego do Subúrbio, surge da vontade de homenagear Jorge Lafond, eternizado no imaginário popular como Vera Verão. Mas parte, antes, de uma espécie de atraso histórico de um país que consagrou a imagem do artista em horário nobre, transformou seu corpo em signo reconhecível da cultura de massa, mas não converteu essa centralidade em um esforço de preservação e reconhecimento à altura da complexidade de sua trajetória, nem em vida nem depois da morte. Mais do que relembrar um ícone cômico dos anos 1990 ou promover uma justiça sentimental em torno de um artista querido, a montagem interroga os mecanismos que fazem certos corpos virarem patrimônio e outros, caricatura. Nesse sentido, a peça acerta ao recolocar Jorge Lafond para além da moldura estreita do bordão, da gargalhada fácil e da memória televisiva achatada. A encenação insiste em perguntar quem foi esse homem negro, afeminado, popular, inteligente e solitário – e o que a sociedade brasileira fez com ele.

Mas a peça não escolhe o caminho mais óbvio. Em vez de construir uma biografia convencional, organizada em marcos de vida, ascensão, fama e queda, opta por uma dramaturgia de memória fragmentária e biografia coletiva. Essa é uma de suas escolhas mais potentes. Aline não pretende falar em nome total de Jorge, nem reconstituir uma verdade definitiva sobre ele. O espetáculo prefere assumir o recorte, a falta, o fragmento, a memória incompleta. E, com isso, realiza um movimento particularmente interessante: desloca Jorge do lugar de indivíduo isolado e o reinscreve numa constelação de experiências negras, suburbanas, LGBTQIA+, afeminadas e periféricas.

É daí que vem a força mais política da peça. Jorge não aparece apenas como “ele mesmo”, mas como ponto de convergência de muitas histórias. A ofensa “Vera Verão” como apelido de humilhação, a vergonha de ser associado a um corpo afeminado, o processo de ressignificar isso como potência, o convívio com a exclusão dentro e fora de casa, a tentativa de sobreviver a uma sociedade racista e homofóbica: tudo isso é convocado para que o espetáculo fale não só de Jorge, mas a partir de Jorge. A recepção do público confirma esse movimento. Repetidamente, surgem relatos de identificação – menos no sentido de reconhecer apenas a trajetória de uma figura pública e mais no de se perceber na cena em pedaços de si, de suas feridas, da infância e das próprias experiências de exclusão.

No plano artístico, a montagem também encontra soluções expressivas. A divisão entre Jorge e Vera em corpos distintos é uma escolha feliz, porque dramatiza o desdobramento entre sujeito e entidade, pessoa e figura pública, homem e símbolo. Em vez de repetir a mímica da personagem televisiva, o espetáculo a desloca para outro plano. Vera deixa de ser somente caricatura humorística e ganha espessura mítica, política e afetiva. A presença de Aretha Sadick nesse eixo é decisiva. Ao assumir Vera como uma mulher preta e trans, a peça atualiza o debate sobre gênero e dissidência, como propõe uma leitura crítica daquilo que Jorge talvez não pudesse nomear ou viver publicamente em seu tempo. Essa decisão é reforçada por um projeto de cena coerente: corpos pretos retintos no palco, figurinos e direção de arte que não banalizam a imagem de Lafond, uso de imagens de arquivo que ajudam a contextualizar sua trajetória e uma iluminação que costura, com precisão, os movimentos entre documento, evocação e rito.

Outro ponto alto está na forma como a montagem lê o desamparo estrutural de Jorge Lafond como condição persistente de um artista que ocupava um lugar ao mesmo tempo central e sem amparo. Jorge foi um rosto nacionalmente reconhecido, um corpo que sustentou humor, audiência e impacto popular por anos. Ainda assim, a peça insiste em mostrar que ele seguia só. O episódio relacionado à entrada de Padre Marcelo Rossi no programa em que Lafond atuava é tratado como síntese desse mecanismo: a dor maior não está na exposição pública em si, mas na descoberta de que a estrutura que lucra com você não necessariamente o sustenta. O espetáculo é especialmente forte quando identifica que o sofrimento de Jorge vem do preconceito da sociedade, mas também da ausência de respaldo das engrenagens que se beneficiaram de sua presença.

Também merece atenção a maneira como a obra se posiciona no debate sobre apagamento histórico. O espetáculo já realizou mais de 100 apresentações, circulou por diferentes cidades e chega ao Recife carregando a marca de uma trajetória de resistência material. Não por acaso, o tema do financiamento aparece com força no bate-papo. A comparação feita por Aline Mohamad com o reconhecimento póstumo dado a Paulo Gustavo é incômoda, mas eficaz. Enquanto alguns artistas se tornam rapidamente nome de rua, musical, filme, lei e grande projeto de memória, Jorge Lafond precisou esperar décadas por uma peça montada com orçamento muito mais precário. A observação não vale como competição simplista entre trajetórias, e sim como denúncia da desigualdade racial na administração da memória cultural brasileira.

Espetáculo também expõe os limites, as lacunas e os impasses de uma obra que tenta devolver humanidade a ao artista Jorge Lafond. Foto Guará Siqueira / Divulgação

E é justamente por ser forte que a peça também pede leitura crítica. E aqui vamos pensar em suas zonas mais tensas. A primeira delas está no tratamento dado ao subúrbio, à família e ao entorno social. O espetáculo tem razão ao reivindicar a cultura suburbana carioca como matriz sensível e política. Mas acontece que, em alguns momentos, essa reivindicação parece excessivamente protegida pela própria dramaturgia. Há afeto, há pertencimento, há memória coletiva – mas nem sempre há fricção suficiente. O resultado é que certas dimensões da violência cotidiana, da homofobia doméstica, do conservadorismo comunitário e das ambiguidades familiares surgem suavizadas em excesso. Em vez de expor plenamente essas rachaduras, a peça por vezes prefere uma forma de acolhimento que as amortece.

Mais do que individualizar a violência em figuras isoladas, a peça parece interessada em mostrar como racismo, homofobia e apagamento circulam de forma difusa, atravessando linguagem, afetos, instituições e sociabilidades. Esse enfoque tem força, porque impede uma leitura simplificadora em que bastaria localizar “culpados evidentes” para dar conta do problema. Ao mesmo tempo, essa opção faz com que, em certos momentos, a violência apareça mais como atmosfera histórica e social do que como conflito efetivamente tensionado em cena.

Há também passagens em que a peça parece reencenar, sem atrito suficiente, resíduos de violência internalizada. Isso aparece, por exemplo, na conversa entre Jorge e Vera sobre a cor do batom – “charque” ou “carne de sol” – e no gesto usado para indicar que uma tia era “sapata”. Nos dois casos, a cena pode ser lida menos como simples reprodução de uma fala social e mais como reativação de um imaginário preconceituoso que a montagem nem sempre desarma por completo. São momentos breves, mas significativos, porque introduzem uma ambiguidade importante: a peça critica a violência, mas, em alguns instantes, também deixa escapar traços dela sem submetê-los a maior tensão crítica.

Outra questão é a reiteração. Mesmo que, em alguma medida, a repetição pareça deliberada – ao insistir na dor, no insulto, no apagamento e na exclusão, como quem sabe que uma única formulação não basta para enfrentar a amnésia social -, há trechos em que a ênfase retorna mais como reafirmação do já dito do que como desdobramento novo.

Tudo isso mostra que JORGE pra Sempre VERÃO é um espetáculo vivo, que admite disputa, leitura e tensão. Sua força está também em não se esgotar na reverência. A peça busca restituir complexidade a Jorge Lafond e ao mesmo tempo discutir o país que o transformou em sucesso e o deixou à margem de sua memória oficial. Ao fazer isso, revela que a cultura brasileira ainda escolhe com profunda desigualdade quais mortos quer monumentalizar e quais prefere apenas recordar de maneira superficial. O teatro, aqui, não reverte sozinho a violência histórica. Mas contribui para desnaturalizá-la.

Aline Mohamad (autora, prima de Jorge e atriz), Alexandre Mitre (ator) e Aretha Sadick (atriz). Foto: Ivana Moura

 

 

A voz dos criadores

Principais pontos do bate-papo com a plateia e a equipe da peça – Aline Mohamad (autora, prima de Jorge e atriz), Alexandre Mitre (ator) e Aretha Sadick (atriz) após a sessão de 26 de junho, na Caixa Cultural Recife. Mais do que celebrar Jorge Lafond, a conversa evidencia que o espetáculo se propõe a disputar a memória pública em torno de sua trajetória, interrogando quais nomes o Brasil escolhe preservar, sob quais enquadramentos os preserva e por que certos artistas ainda precisam lutar contra o apagamento para permanecer na história cultural do país.

A peça nasceu de um pedido de perdão

Aline Mohamad: “Tudo começou com uma carta. Uma carta de pedido de perdão que escrevi para o Jorge depois que ele já tinha falecido. Eu mandei para algumas pessoas, incluindo o Rodrigo França, e cheguei a apagar, mas o impacto foi imediato. Cinco pessoas me disseram que tínhamos a obrigação de montar essa peça. Demoramos cerca de dois anos e meio para captar recursos, enfrentando todas as barreiras possíveis, até que conseguimos realizar em 2022. A peça nasce desse desejo de cruzar histórias, porque descobrimos que todos nós temos uma grande história com o Jorge, tenhamos conhecido ele pessoalmente ou não.”

A recusa da biografia tradicional

Aline Mohamad: “Eu tinha uma única certeza: não seria uma biografia estrita. Eu não tinha o direito de tentar fazer isso. O que queríamos era construir a nossa biografia. A biografia de quem foi xingado de ‘Jorge Lafond’ ou ‘Vera Verão’ na infância. Para muitos de nós, esses nomes eram usados como ofensa. O texto, escrito com o Diego do Subúrbio, mistura as vivências das ‘bichas pretas’ urbanas com a minha história familiar. É uma costura de memórias fragmentadas, fotos e relatos orais para preencher os vazios que a história oficial deixou.”

O critério das escolhas dramatúrgicas

Aline Mohamad: “A gente foi descobrindo que todos nós tínhamos uma grande história com o Jorge, independente de ter conhecido ou não. Então a dramaturgia foi sendo montada a partir dessas vivências cruzadas. Era a minha história, a do Diego, a de outras pessoas, e tudo isso foi costurado para virar uma biografia coletiva.”

Alexandre Mitre: “Muitas vezes, na leitura do texto, eu travava porque aquilo me tocava num lugar muito pessoal. E isso acontece também com o público. Muitas pessoas chegam e falam: ‘você estava falando do que aconteceu comigo’.”

A solidão e a violência institucional

Alexandre Mitre: “A violência física que mostramos no palco não é maior que a dor da rejeição. Imagine um artista negro, nos anos 1990, sustentando sozinho o peso de ser o único corpo daquele tipo em um programa de humor líder de audiência. Quando ele precisou de apoio, após ser retirado do palco por uma pressão institucional externa e branca, ele se viu só. A emissora onde ele se fez não o protegeu. Essa falta de acalanto é o que desmonta o artista. Por que voltar para o camarim? Qual o fundamento de continuar se tudo o que você construiu cai diante da decisão de outro homem?”

A memória como quebra-cabeça e responsabilidade coletiva

Aretha Sadick: “A vida pessoal dele foi muito pouco registrada. Então o espetáculo também é um recorte de memórias. Tem o que alguém contou, tem o que apareceu numa foto, tem um relato daqui, outro dali. Isso faz com que a peça também compartilhe com o público a responsabilidade de manter essas histórias vivas, para que os próximos Jorges não sejam esquecidos da mesma forma.”

Corpos negros e trans no centro da cena

Aretha Sadick: “É raro termos um elenco 100% de pessoas pretas retintas no palco. Levar esses corpos escuros para os teatros do Brasil é uma demarcação política necessária. No nosso espetáculo, a Vera é deliberadamente uma mulher trans. Queríamos explorar essa possibilidade: se Jorge já sofria tanto por ser negro e afeminado, como seria se ele pudesse ter expressado essa identidade trans? Além disso, temos uma política de entrada gratuita para pessoas trans, porque queremos que esses corpos se vejam refletidos e reconhecidos.”

Aline Mohamad: “No nosso espetáculo, a Vera sempre será uma mulher preta e trans. Isso também faz parte da política da peça, assim como a decisão de montar uma equipe majoritariamente negra e LGBT.”

Dinheiro, racismo e o valor da memória

Aline Mohamad: “A comparação é inevitável. Nada contra o Paulo Gustavo, mas quando ele morreu, virou lei, musical, filme e rua. Jorge Lafond não teve nada disso, e ele abriu as portas para que muitos chegassem onde chegaram. Montamos essa peça com R$ 100.000,00, o que deve ser 10% do orçamento de um grande musical do eixo Rio-São Paulo. Existe um projeto de apagamento das nossas histórias. Precisamos que as instituições entendam que essas trajetórias importam e que precisamos de dignidade e recursos para circular além dos grandes centros.”

Alexandre Mitre: “Muitas personalidades pretas importantes para o entretenimento brasileiro pereceram no mais puro ostracismo, sem investigação, sem valorização. Jorge Lafond foi mais um desses nomes. Contar a história dele é também impedir que esse esquecimento continue.”

O apagamento como projeto de sociedade

Aretha Sadick: “A gente não gosta muito da palavra dívida, mas ao mesmo tempo é um projeto de sociedade: o apagamento, o esquecimento da história, propositalmente. A gente mantém a memória dessas pessoas vivas porque existe um projeto para que essas histórias sejam apagadas o tempo todo, como se passasse uma borracha.”

Ficha técnica

Espetáculo: JORGE pra Sempre VERÃO
Direção: Rodrigo França
Dramaturgia: Aline Mohamad e Diego do Subúrbio
Elenco na temporada atual: Alexandre Mitre, Aline Mohamad e Aretha Sadick; Noêmia Oliveira em etapas anteriores da montagem
Direção de movimento: Tainara Cerqueira
Trilha original: Dani Nega
Direção de imagens: Carolina Godinho
Iluminação: Ana Luzia de Simoni
Cenário: Rodrigo França e Wanderley Wagner
Figurinos: Marah Silva
Visagismo: Diego Narang

Serviço
JORGE pra Sempre VERÃO
Local: Caixa Cultural Recife
Endereço: Av. Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife, Recife–PE

Quando: 2, 3 e 4 de julho de 2026, 19h30; Sessão extra no sábado: 16h30
Bate-papo com a plateia: após a apresentação de 3 de julho
Acessibilidade: sessões de sábado com tradução em Libras
Ingressos: R$ 30 e R$ 15

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Ser antirracista é um exercício constante
Crítica da peça Para Meu Amigo Branco

Reinaldo Junior e Alex Nader. Foto: Sabrina da Paz / Divulgação

Cenário branco. Foto: Sabrina da Paz

O espetáculo Para Meu Amigo Branco traça um cruzamento instigante entre racismo e o privilégio da branquitude, conceitos que se manifestam de maneiras distintas, mas estão relacionados. O sistema de desigualdade baseado na raça, discrimina, marginaliza e oprime pessoas pretas, pardas e outras, enquanto o privilégio da branquitude confere vantagens sociais, políticas e econômicas às pessoas brancas. Muitos sabemos. Poucos admitem perder os privilégios.

Numa reunião de escola de classe média alta, ou de elite, entre pais e educadores, Monsueto Ferreira (interpretado pelo ator Reinaldo Júnior), o pai da pequena Zuri de 8 anos, relata que sua filha foi vítima de racismo por um colega, tendo sido chamada pejorativamente de “negra fedorenta”. Este incidente é o ponto de partida da peça Para Meu Amigo Branco, dirigida por Rodrigo França e inspirada no livro homônimo do jornalista e ativista Manoel Soares. França e Mery Delmond assinam a adaptação do texto, que expõe com humor e verdade o racismo estrutural da sociedade brasileira.

A história desafia a visão simplista da escola que tenta enquadrar o ato de racismo como um caso de bullying, enquanto o pai da menina esforça-se para evidenciar a complexidade do preconceito racial e chamar os envolvidos à responsabilidade. Sim, porque o pequeno racista é a ponta de uma cadeia de outros conectores da mesma sintonia e a escola assume uma postura, no mínimo, omissa.

Já sabemos, ou deveríamos saber, que o racismo não é apenas um conjunto de preconceitos individuais, mas uma construção social que permeia as instituições e a cultura. Então, o racismo é uma realidade social construída que se movimenta através da linguagem, práticas institucionais e interações cotidianas. Quando um homem branco é confrontado com seu racismo, o que acontece?

Personagem André  Schneider (Alex Nader), tenta convencer o inconvencível. Foto: Sabrina da Paz / Divulgação

É muito interessante, inteligente e perspicaz como o espetáculo Para Meu Amigo Branco desvela as camadas de negação e autoengano presentes em indivíduos que não reconhecem seu próprio racismo. Existe um humor cáustico nesse procedimento de expor a dissonância cognitiva, teoria desenvolvida por Leon Festinger que esmiúça a inconsistência entre as crenças de uma pessoa e suas ações. O personagem André  Schneider (Alex Nader), pai do pequeno Júnior não consegue interpretar o mundo fora de seu próprio quadro de referência.

A escritora feminista norte-americana, ativista antirracista e acadêmica Peggy McIntosh, em seu trabalho Unpacking the Invisible Knapsack, explora o conceito de privilégio branco como uma coleção invisível de vantagens não merecidas (vamos sublinhar) que os brancos podem contar, mas que frequentemente ignoram ou não reconhecem como tal. McIntosh argumenta que o privilégio é como uma mochila invisível de provisões especiais, mapas, passaportes, códigos, vistos e ferramentas que indivíduos brancos carregam inconscientemente. Essa metáfora ilustra como o privilégio branco permeia as experiências cotidianas, afetando a percepção de si e as interações sociais sem que haja necessariamente uma consciência ativa dessas vantagens.

O personagem André  Schneider é assim. Em princípio ele se solidariza com a violência racial sofrida pela filha de Mansueto. Até descobrir que quem cometeu o crime foi seu próprio filho. As capas e máscaras começam a cair. Como num ringue em que os pais, o preto e o branco, atuam para defender suas posições. Os melhores argumentos, os mais racionais e humanos de Mansueto recebem aplausos e apoio da plateia (foi assim quando assisti).

O cenário de Clebson Prates busca sublimar os padrões de conduta da branquitude dominante e hegemônica de uma escola de elite. Para isso, ele utiliza um linóleo, a lousa e as carteiras escolares na cor branca. Ao mesmo tempo, diversos livros de autores negros estão suspensos no ar,  como os de Rodrigo França, Nei Lopes, Marilene Felinto, Mario Medeiros, Jarid Arraes, Sonia Rosa, Emicida, Mery Delmond, Elisa Lucinda, Miró, Mário de Andrade, Lázaro Ramos, entre outros.

A escolha da figurinista Marah Silva de usar cores específicas para diferenciar os personagens brancos e negros é uma estratégia visual rica para projetar as dinâmicas raciais. As figuras brancas estão vestidas de roupas em branco e as personagens negras em tons de marrom. O branco, além de associado a ideias de pureza e blábláblá, pode ser visto como uma caricatura da “folha em branco”, sugerindo uma posição de neutralidade ou até de ignorância em relação às complexidades das questões raciais. Já o marrom para as personagens negras reflete uma conexão com a cor da pele, além de invocar a terra, sugerindo raízes, resistência e uma conexão com a ancestralidade.

Alguns espectadores ficam sentados nas carteiras, dispostas em formato circular, participando do conjunto da reunião. Os atores interagem com essa plateia e com o todo para questionar as violências raciais muitas vezes veladas ou minimizadas como “brincadeiras”. Aliás, alguns jogos são inseridos no espetáculo. 

AS atrizes Mery Delmond e Marya Bravo. Foto: Sabrina da Paz / Divulgação

Quando convocada para mediar o conflito, a professora Valéria Oliveira (Mery Delmond) praticamente desenha para quem ainda não entendeu que o racismo está entrelaçado nas estruturas de poder da sociedade. Ela explica a Teoria Crítica da Raça e as manifestações de privilégio racial e que a capacidade de permanecer ignorante das realidades do racismo é um luxo sustentado por estruturas de poder desiguais. Pode chegar como didático para quem já tem letramento no assunto, mas chega a ser bonita a progressão. Dizer pedagógico não é um problema, é um processo.

A jornada da professora Magda Antunes (Marya Bravo) – de técnica alienada que apoia os posicionamentos de poder dos brancos, que não se solidariza com a dor de uma criança preta e que acha possível simular pacificação em conflitos complexos – à uma tomada de consciência dos problemas profundos – é praticamente uma utopia em sua rapidez. Vale apostar na utopia, mas parece um trajeto mais intricado. Mas vamos confiar trabalhando por mudanças. 

De todo modo, reconhecer os emaranhados dessas dinâmicas é um passo crucial para desmontar as estruturas de poder que perpetuam as desigualdades raciais. Essa produção teatral vibrante e dinâmica faz a sua parte.

Desejo que Para Meu Amigo Branco, com suas performances impactantes e sua narrativa crítica e antirracista, corra o Brasil e frequente muitos lugares para sacodir as ordens injustas estabelecidas. 

Reinaldo Junior interpreta o pai dedicado que defende sua filha do racismo. Sabrina da Paz / Divulgação

 

FICHA TÉCNICA

Para Meu Amigo Branco
Inspirado no livro de Manoel Soares
Texto: Rodrigo França e Mery Delmond
Direção: Rodrigo França
Elenco: Reinaldo Junior e Alex Nader
Atrizes convidadas: Stella Maria Rodrigues, Mery Delmond e Marya Bravo
Direção de movimento: Tainara Cerqueira
Cenário: Clebson Prates
Figurino: Marah Silva
Iluminação: Pedro Carneiro
Trilha sonora original: Dani Nega
Consultoria pedagógica: Clarissa Brito
Consultoria de representações raciais e de gênero: Deborah Medeiros
Fotografia: Afroafeto por Gabriella Maria, Sabrina da Paz e Agátha Flora
Identidade visual: Nós Comunicações
Assessoria de imprensa: Canal Aberto — Márcia Marques, Daniele Valério e Marina Franco
Operação de som: Hugo Charret
Operação de luz: Lucas da Silva
Assistência de produção: Ludimila D´Angelis e Eduardo Rio
Produção executiva: Júlia Ribeiro
Contabilidade: Cristiano Geraldo Costa dos Santos
Idealização e direção de produção: João Bernardo Caldeira
Produção: São Bernardo

Este texto integra o projeto arquipélago de fomento à crítica, com apoio da Corpo Rastreado.

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