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Zona Zami: um arquivo de automitobiografias*
Crítica: Zona lésbica
Por Annelise Schwarcz*

O elenco de Zona lésbica compartilha, em primeira pessoa, suas vivências em torno do ser lésbica. Foto: Marcos Pastich/PCR

O filme The Watermelon Woman (1996) – dirigido, produzido e estrelado por Cheryl Dunye – tem como protagonista uma jovem negra e lésbica que trabalha numa videolocadora em Filadélfia, interpretada pela própria Cheryl como uma espécie de personagem de si mesma. Seu hobby é assistir a produções hollywoodianas da década de 30. Em um desses filmes, intitulado Plantation Memories (Memórias da Plantação), Cheryl percebe que a atriz negra que a arrebatou pela sua interpretação aparece apenas como “Watermelon Woman” (Mulher Melancia) nos créditos finais. Não é a primeira vez que isso acontece. Cheryl observa como frequentemente as atrizes negras nessas produções não têm seus nomes mencionados nos créditos e, quando tem, são mencionadas através de apelidos. Da mesma forma que suas participações são eclipsadas ou até mesmo invisibilizadas, os papéis destinados a essas atrizes são secundários e estereotipados, sempre como escravizadas ou ex escravizadas, serventes, babás, amas de leite, etc, como no caso da Watermelon Woman (Mulher Melancia), fazendo papel de nanny (babá) no filme. 

Intrigada, Cheryl decide revirar arquivos e entrevistar pessoas para descobrir quem foi essa atriz, sua vida e sua história. Sua pesquisa é registrada e compõe o documentário com nome homônimo ao apelido da atriz que disparou sua investigação. À medida que a protagonista se aprofunda na pesquisa, ela não só descobre o nome da atriz (Fae Richards), como também descobre que Fae era lésbica. Isso, por si só, justificaria a identificação de Cheryl com a atriz. Só tem um detalhe: o “documentário” em questão é ficcional. A personagem Watermelon Woman (Mulher Melancia), o filme Plantation Memories (Memórias da Plantação), Fae Richards e muitos de seus registros não existem, mas são criados para retratar e superar a falta de registros históricos, assim como a marginalização de mulheres negras e lésbicas no cinema. Enquanto protagonista do próprio filme, em paralelo aos registros da pesquisa fictícia em torno de Fae Richards, Cheryl Dunye documenta a sua vida, seu trabalho, interesses, relações amorosas e amizades, inscrevendo a si mesma enquanto parte da história das mulheres negras e lésbicas no audiovisual. O filme de Cheryl Dunye é considerado disruptivo e pioneiro para além de questões relacionadas à representatividade. Watermelon Woman denuncia que o arquivo não é neutro e que as trajetórias de mulheres negras e queer têm sido esquecidas ou apagadas. Caso levado às últimas consequências, o documentário de Cheryl resultaria em uma tentativa frustrada de resgatar um passado irrecuperável. Somente através da ficcionalização de um arquivo é possível contar essas histórias do passado (nem sempre tão distante) que, em sua artificialidade, não deixam de ser reais. 

É possível dizer que o mesmo exercício de ficcionalização do real/ realização da ficção está presente em Zona lésbica. Na peça idealizada por Carolina Godinho, Dani Nega e Monique Vaillé com dramaturgia de Verônica Bonfim, sete mulheres lésbicas estão em busca de Zami, “um espaço utópico imaginado como um refúgio. Esse lugar simbólico representa o desejo coletivo das personagens de viverem sem medo, em plenitude e acolhimento, construindo uma realidade onde o amor e a liberdade prevalecem” – como descrito na sinopse. 

A narrativa se passa em quatro anos distintos: 1954, 1984, 2014 e 2025. De 1954 – momento em que os direitos para pessoas LGBT+ eram inexistentes – viajamos no tempo para 1984, um ano após o levante no Ferro’s Bar em São Paulo. Conhecido como o “Stonewall lésbico brasileiro” – fazendo referência aos protestos ocorridos no bar Stonewall Inn, nos E.U.A, nos quais a comunidade LGBT se manifestava contra a repressão policial –, o levante no Ferro’s foi deflagrado após as atividas do GALF (Grupo Ação Lésbica Feminista) serem impedidas de divulgarem sua revista Chanacomchana dentro do estabelecimento. O evento ocorreu no mês de agosto e é por isso que, em 2008, a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo definiu que o mês de agosto seria o mês do Orgulho Lésbico. 

Da ditadura militar até o ano de 2025 – marcado por avanços institucionais e a consolidação de políticas públicas, mas que nem sempre se fazem presentes nas micropolíticas das relações cotidianas – Zona lésbica nos apresenta as formas de organização e resistência lésbica no Brasil ao longo dos últimos setenta anos através da ficcionalização de cenas que remontam as dinâmicas dessas mulheres. Como era amar outra mulher nos anos 50? Elas dividiam a casa com a sua parceira? Será que os vizinhos achavam que eram apenas amigas? E se descobrissem que não era apenas isso? Será que as parceiras das mulheres marchando contra o feminicídio e lesbofobia durante a ditadura militar sabiam que poderia ser a última vez que veriam seu amor? Essas cenas são interpretadas por Carolina Godinho, Dani Nega, Dandara Azevedo, Jessica Lamana, Monique Vaillé, Nely Coelho e Simone Beghinni e entrecortadas por relatos pessoais de quando e como entraram na zona lésbica. Assim, a especulação dessas existências no passado se soma às vivências compartilhadas pelas atrizes na construção de um arquivo sáfico. A aposta nos relatos endereçados diretamente ao público estabelece um vínculo mais íntimo, através desse olhar que nos olha de volta, mas a ilusão de espontaneidade é quebrada, vez ou outra, devido a algumas dicções roteirizadas ou movimentações muito bem marcadas. 

Esse arquivo ainda conta com as vozes de ícones da música brasileira como Zélia Duncan, Cássia Eller, Ludmilla, Ana Carolina, Adriana Calcanhotto, Martnália, Leci Brandão, Cátia de França, Bia Ferreira, Marina Lima, Maria Bethânia e Gal Costa compondo a mixagem que atravessa as cenas com trechos de suas canções, como uma rádio sintonizando em busca de frequências. A trilha sonora se relaciona com a Rádio Melodrama Lésbico que, na dramaturgia, estava sendo sonhada desde 2014 pelo trisal composto pelas personagens de Carolina Godinho, Dandara Azevedo e Jéssica Lamana e em 2025, após a superação de obstáculos, está no ar. 

A peça aborda as existências e formas de resistência lésbica em quatro temporalidades: 1954, 1984, 2014 e 2025. Foto: Marcos Pastich/PCR

No início da peça, somos informadas/os de que existem ondas na frequência Alfa e frequência Beta. Em estudos sobre hipnose, a onda Beta é associada a um estado de consciência, vigília ou até mesmo estresse, enquanto as ondas Alfa são associadas a um estado de relaxamento, pré sono, além de ser o estado mais propício para a hipnose. Na peça, uma voz em off nos diz enquanto assistimos a projeções coloridas, em uma tela no fundo do palco, que estamos na zona Alfa e que a zona Beta é um pouco melhor, como quem nos quer acordadas/os, conscientes, atentas/os, mas logo em seguida afirma que a zona realmente almejada pelas sapatões é Zami.

Zami está no centro da narrativa e, ao mesmo tempo, à margem. Nas diversas cenas ao longo das quatro temporalidades encenadas, Zami aparece como um lugar mítico ou utópico registrado em um livro eventualmente encontrado por alguma das personagens, questionado por outras, mas não exatamente delimitado. Por que tem esse nome? Quem idealizou? Zami é uma zona espacial ou uma frequência que podemos nos sintonizar independentemente de onde estejamos? É possível estar na zona e não estar na frequência Zami? Apesar de não mencionado ao longo da peça, para mim é difícil ouvir “Zami” e não pensar no livro Zami. Uma nova grafia de meu nome, uma biomitografia (originalmente publicado em 1982) de Audre Lorde. O título “Zami” vem de um termo criolo que se refere a mulheres que trabalham juntas, sinalizando a centralidade das alianças entre mulheres no livro. O termo também pode ser associado a uma espécie de eufemismo para se referir a mulheres lésbicas. 

Zami é o livro autobiográfico de Audre Lorde. Como sabemos, toda autobiografia tem um quê de ficção, por isso Lorde o define como uma “biomitografia”: uma mistura de biografia, mito, memórias, reflexões políticas e poéticas acerca de temas como pertencimento, trabalho, opressões, amor, amizades, gênero, raça e sexualidade. A obra narra a formação identitária de Lorde enquanto filha de pais caribenhos, nascida nos Estados Unidos, mulher negra, lésbica, poeta e feminista, desde sua infância até o início da vida adulta. Operando de forma semelhante, podemos dizer que os relatos das atrizes de Zona lésbica também são fragmentos de suas biomitografias.

Os relatos quebram a quarta parede, se dirigindo em primeira pessoa diretamente à plateia, e operam como uma espécie de suspensão da cena dos casais. Dani Nega falou sobre a origem de seu percurso no teatro com o grupo paulistano Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, famoso pelos experimentos que mixam teatro, hip hop, rap e slam, e de que forma – por conta desses atravessamentos – a palavra se tornou a sua zona lésbica. A primeira experiência na zona lésbica de Monique Vaillé foi em 2003 no chat do UOL. Simone Beghinni sempre soube – como que “por instinto” – que pertencia à zona lésbica. Nely Coelho, por sua vez, só entrou na zona lésbica na faculdade de teatro, mas não sem antes atravessar a depressão e o isolamento por parte dos amigos da época. Dandara Azevedo veio do Maranhão fazer teatro em São Paulo. Nunca tinha nenhuma conversa específica com a sua família sobre sua zona lésbica, apenas avisava com quem estava. Um dia entendeu que assumir era tomar para si, como a própria etimologia do termo sugere, e decidiu se posicionar diante da sua família como lésbica. Carolina Godinho, diferentemente das demais, faz o seu relato na terceira pessoa. A atriz conta que sempre gostou de “coisas de menino” e relembra a música “Maria sapatão” que seu irmão costumava cantar para implicar com ela, quando tinha apenas 10 anos. O padrasto, homofóbico e racista, também contribuia com o clima hostil, então Carolina decide sair de casa, se muda para o Rio de Janeiro e ingressa na faculdade de teatro, onde se apaixona e adentra – dessa vez com os próprios pés – na zona lésbica. Jéssica Lamana, a última a se apresentar, toca o louvor Faz um Milagre em mim, de Regis Danese, no saxofone e é acompanhada por algumas vozes na plateia sussurrando a letra. A zona lésbica de Jéssica começou na casa do Senhor, mas a alegria da descoberta veio embrenhada em culpa e medo de ter pecado. 

O fato dos depoimentos divertirem ou gerarem empatia faz com que essa dimensão da peça se sobressaia com relação às demais, fazendo com que a narrativa em torno da construção da rádio, das personagens e até mesmo a própria fuga para Zami, assim como o vislumbre de um futuro utópico, fiquem ofuscados diante dessa espécie de “excesso de presente e passado”, materializado pela apresentação desse arquivo sáfico das atrizes. Ao longo da peça, algumas questões como “o que é ter cara de sapatão?”, se ser lésbica é uma escolha ou questão de “instinto” e delicadezas em torno de relações interraciais – mesmo entre pessoas do mesmo gênero –, são lançadas, mas não aprofundadas, também se diluindo em meio a tantos acontecimentos. O que há aqui, talvez, seja justamente uma exploração da ambiguidade do termo “zona”, por vezes sendo compreendido como uma dimensão espacial – um território, seja ele real ou imaginário –, mas também nos permitindo uma interpretação na qual “zona” seja compreendido como “bagunça”: um excesso de signos, gírias, debates, corpos, referências, associações – todo um universo sendo apresentado sem que necessariamente se efetue uma organização. No fundo, essa é a experiência de se adentrar em um mundo: toda essa profusão de imagens, a fome por devorar esse universo, a ânsia por recuperar o tempo perdido, o desejo de pertencer, de entender, de conhecer mais e melhor, de se perder nessa floresta de signos. Floresta? Não. Trata-se, mais precisamente, de um brejo – como a própria sonoplastia da peça sugere, ao nos receber com sons de sapo enquanto buscamos nossos lugares, antes da peça começar. 

Da mesma forma que Lorde constrói a si mesma a partir das suas alianças, do poder do desejo e do erotismo, da história da sua família e da sua relação com a poesia, o elenco em cena vai tecendo uma sensibilidade compartilhada com a plateia, cada uma puxando um fio específico. Fios que são, ao mesmo tempo, singulares – pois trata-se de uma vida singular com uma trajetória específica – sem deixar de nos remeter, de alguma forma, a lugares comuns: um lugar que já estivemos, uma história que já ouvimos ou uma situação arquetipicamente familiar. Entre as que se assumiram e as que foram tiradas do armário, entre as que sempre souberam e as que nunca suspeitaram, os múltiplos relatos e relações possíveis com a zona lésbica vão compondo uma miscelânia de afetos que transitam por paisagens de culpa, dúvidas, medo, isolamento a euforia, empoderamento e pertencimento. E quem nunca habitou alguma dessas paisagens? 

Zona lésbica foi a última apresentação do último dia do 24º Festival Recife do Teatro Nacional. Para encerrar a noite, o elenco convidou um casal na plateia para subir ao palco e ambas se declararam mutuamente em uma cena de enternecer o coração. Todas as atrizes do elenco também formaram casais ou trisais e se beijaram selando a última zona lésbica. O palco se configura em Zami, um aqui e agora que se faz possível porque aqueles corpos em cena se fazem presentes e desejantes.

* A cobertura crítica da programação do 24º Festival Recife do Teatro Nacional é apoiada pela Prefeitura do Recife.

Ficha técnica:
Zona lésbica
Idealização: Carolina Godinho, Dani Nega e Monique Vaillé
Texto e dramaturgia: Verônica Bonfim
Adaptação e Textos “Zonas Lésbicas”: Elenco
Elenco: Carolina Godinho, Dandara Azevedo, Dani Nega, Jéssica Lamana, Monique Vaillé, Nely
Coelho e Simone Beghinni
Direção Artística: Simone Beghinni
Voz off: Cesar Augusto, Leci Brandão, Rômulo Chindelar e Zélia Duncan
Direção de Movimento: Iasmin Patacho
Direção Musical: Dani Nega
Direção de Imagem e mapping: Carolina Godinho
Cenógrafa: Carla Ferraz
Iluminadora: Lara Cunha
Figurino: Marah Silva
Visagismo e Maquiagem: Diego Nardes
Direção de Produção: Monique Vaillé e Nely Coelho
Produção Executiva: Nuala Brandão
Técnica e Operação de Luz: Tayná Maciel
Operação de Som e Vídeo: Igor Borges
Programação Visual: Yasmin Lima
Fotos: Íra Barillo
Realização: Delas Cultural e Ginja Filmes

 

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Como é que se escreve “família”?
Crítica: Tem bastante espaço aqui
Por Annelise Schwarcz*

“Por que você é flamengo e meu pai botafogo? O que significa impávido colosso? Por que os ossos doem enquanto a gente dorme? Por que os dentes caem? Por onde os filhos saem? Por que os dedos murcham quando estou no banho? Por que as ruas enchem quando está chovendo? Quanto é mil trilhões vezes infinito? Quem é Jesus Cristo? Onde estão meus primos?”
Oito anos – Adriana Calcanhotto

Juliane Cruz interpreta Joana, uma criança em busca de sua origem. Foto: Monica Ramalho

Oito anos, como sugere a música escrita por Paula Toller e interpretada por Adriana Calcanhotto, é conhecida como a fase dos “porquês”. Com sensibilidade o suficiente é possível fazer filosofia, música, um filme ou uma peça de teatro com os espantos com o mundo que essa fase traz. É o caso, por exemplo, da peça Tem bastante espaço aqui.

Baseada no curta O Fundo dos Nossos Corações (2021), escrito e dirigido por Letícia Leão, a dramaturgia de Tem bastante espaço aqui – também assinada por Letícia Leão –, conta a história de Joana (Juliane Cruz), uma menina de sete para oito anos que vive com suas duas mães, Beatriz e Isabel (Carolina Godinho e Monique Vaillé, respectivamente), em Lumiar – uma cidade em meio à Mata Atlântica fluminense. Durante uma aula online sobre a reprodução dos ovíparos, um colega da turma de Joana faz uma pergunta sobre a reprodução dos humanos: “de onde vêm as crianças? Será que vêm da cegonha? Vêm em ovos?” A curiosidade se espalha para o restante da turma até que Nanda, amiga de Joana, parece ter a resposta e relembra quando sua mãe estava grávida de seu irmão. Agora, Joana precisava saber qual das suas duas mães a gestou. Ou será que era possível que ela tenha vindo de duas barrigas? 

O enredo se desdobra a partir das dúvidas de Joana e do acolhimento que suas mães oferecem ao encaminhar suas questões. A peça se relaciona, ao mesmo tempo, com o público infantil e adulto, lançando mão de dispositivos que prendem a atenção das/os pequenas/os por meio de uma linguagem acessível e interativa, além de abordar com coragem e honestidade temas como famílias LGBT+ e criação de filhas/os pela via da adoção. Assistimos ao dia a dia dessa família se desenrolar, com Isabel e Beatriz cuidando da alimentação e da higiene da filha, respeitando os momentos em que Joana prefere ficar sozinha, lembrando o horário da aula e de ir para a cama, sempre amorosas e brincalhonas  – momentos que dialogam diretamente com as crianças na plateia, vendo suas atividades diárias sendo ali encenadas e reforçadas. 

Juliane Cruz, Carolina Godinho e Monique Vaillé em apresentação única no 24º Festival Recife do Teatro Nacional com a peça Tem bastante espaço aqui. Foto: Marcos Pastich/PCR

Ao adentrar o teatro Apolo, durante o 24º Festival Recife do Teatro Nacional, já encontramos as três atrizes no palco repetindo uma cena de pique pega até que todas as pessoas da plateia tenham encontrado seus lugares. Atrás das atrizes, é possível ver cinco painéis brancos onde serão projetadas as aulas online e algumas imagens da natureza ao redor da casa de Lumiar, por exemplo, todas transmitidas como se estivessem sendo gravadas ao vivo. Embora a peça seja repleta de estímulos – interações com o público e as já mencionadas projeções –, eles não nos sobrecarregam com informações e nem resultam em um acúmulo irrefletido de acontecimentos: cada detalhe contribui para uma transição de cena, para a construção de vínculo com a plateia ou acrescenta uma camada de sentido ao espetáculo. 

Além de Joana e suas mães, a peça conta com ainda mais três personagens: o vento, o sol e o rio. Carolina Godinho e Monique Vaillé se transformam em elementos da natureza através dos criativos figurinos de Carla Ferraz e, em cenas que parecem saídas de um sonho – dada a beleza dos elementos cenográficos –, falam sobre a pluralidade das famílias, com breves mas importantes conselhos sobre como controlar a ansiedade e mensagem de conscientização sobre os efeitos do aquecimento global pinceladas entre os diálogos.

Na busca por sua origem, Joana descobre que o encontro com suas mães foi decidido após uma conversa sobre haver tanto espaço na casa e tanto amor entre elas, que poderia caber mais alguém ali. Tem bastante espaço aqui é daquelas peças de sair de coração quentinho e se perceber emocionada ao lembrar desse amor que transborda – tanto na cena entre as personagens, quanto entre as pessoas na plateia. Pais, mães, crianças, pessoas sozinhas ou casais: todos sorrindo com os olhinhos brilhando. Inclusive eu. 

* A cobertura crítica da programação do 24º Festival Recife do Teatro Nacional é apoiada pela Prefeitura do Recife.

Ficha técnica:
Idealização e dramaturgia: Letícia Leão
Direção artística/encenação: Juliana França e Letícia Leão
Elenco: Carolina Godinho, Juliane Cruz e Monique Vaillé
Direção de movimento: Camila Rocha
Direção musical: Dani Nega
Direção de imagem: Clara Acioli
Cenografia: Alice Cruz
Assistente de cenógrafa: Lara Aline
Operação de luz: Tayná Maciel
Operação de som e vídeo: Igor Borges
Figurino: Carla Ferraz
Visagismo e maquiagem: Diego Nardes
Assistente de visagismo: Lucas Tetteo e Nata Di Paula
Direção de produção: Monique Vaillé
Produção executiva: Nely Coelho
Assistente de produção: Thiago Miyamoto
Produção da logística do projeto: Fabíola Godoi
Produção de acessibilidade: Gaby Krüger
Administração financeira: Delas Cultural
Prestação de contas: Marejar Produções e Delas Cultural
Assessoria de imprensa: Monica Ramalho e Mario Camelo
Programação visual: Fernanda Varella e Pablo Meijueiro
Mídias sociais: Sofia Paiva
Imagens de videochamada retiradas do filme O Fundo dos Nossos Corações

Peça aborda com coragem e honestidade temas como famílias LGBT+ e criação de filhas/os pela via da adoção. Foto: Monica Ramalho

 

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FarOFFa no Sofá prossegue até domingo

Ham-let, com direção de José Celso Martinez Corrêa, em montagem do Teatro Oficina

Cia. do Atores utiliza um computador portátil como instrumento de articulação cênica e de interação com o público, no espetáculo de 2009

Atriz Nena Inoue transforma o luto em luta na peça Para não morrer. Foto: Divulgação

FarOFFa no Sofá é uma verdadeira maratona de teatro, dança e performance em formato digital. A mostra começou na terça-feira (11) e segue até domingo (16), contabilizando 130 obras na programação. Há uma diversidade de gêneros e estilos, um programa afinado com a prática democrática, com o debate de ideias, com as experimentações estéticas e uso ético dessas escolhas. Trabalhos incríveis para ver ou rever.

Neste fim de semana é possível conferir gravações de espetáculos da Cia dos Atores (RJ), com Talvez; do Teatro Oficina Uzyna Uzona (SP) com Bacantes e Ham-let, do Bando de Teatro Olodum (BA) com Áfricas, da Motoserra Perfumada (SP) com Respublica, da Lia Rodrigues Companhia de Danças (RJ) com Encarnado; Companhia Brasileira de Teatro (PR) com KRUM,; Cia. Les Commediens Tropicales (SP), com (VER[ ]TER) À DERIVA, Nena Inoue, do Espaço Cênico (PR) em Para Não Morrer, Grupo de Teatro Clowns de Shakespeare (RN), com Abrazo; a atriz Maria Alice Vergueiro e o Grupo Pândega (SP) em Why The Horse e muitas peças memoráveis.

Além dos espetáculos também foram disponibilizadas as gravações de mesas de debates do Ecum (Encontro Mundial das Artes Cênicas) e alguns ainda podem ser vistos como a palestra Tradições e Inovações: Artes do Espetáculo e Novas Tecnologias, com Béatrice Picon-Vallin (França).

“A FarOFFa se debruça em trajetórias, em memória, contexto de criação dos espetáculos, dos artistas, da pesquisa, um envolvimento intenso com a obra e com quem a criou”, atesta a “cuidadoria”. Gabi Gonçalves, da Corpo Rastreado. Ela diz que a cuidadoria tem investido em “não considerar esse período como um hiato, uma espera para o futuro, mas ser um tempo de valorizar os recursos digitais e considerá-los parceiros importantes e indissociáveis das obras artísticas”.

Mesmo gratuita, a mostra sugere o sistema “pague quanto puder”. A quantia arrecadada será doada às instituições #SolidarizaGoiânia (GO), Arte Salva (PR), Associação Redes de Desenvolvimento da Maré (RJ), Campo Arte Contemporânea (PI), Casa Aurora (BA), É Da Nossa Cor (SC), Em Cena Arte e Cidadania (PE), Fundo Marlene Colé / APTI – Associação de Produtores Teatrais Independentes (SP), Haja Amor – A Revolução (RJ), IBCM – Instituição Beneficente Conceição Macedo (BA), Instituto Raiz da Serra (SP), N’Zinga – Coletivo de Mulheres Negras de BH (MG), Pela Vida de Nossas Mães (RJ) e Sim! Rede Solidária (PI), que atendem pessoas em situação de extrema vulnerabilidade.

PROGRAMAÇÃO

Sala Teatro Vila Velha

14/08/20 às 18h
JULIA | Christiane Jatahy (RJ)
Teatro | 18 anos | 75 min

14/08/20 às 20:30
TALVEZ | Cia dos Atores (RJ)
Teatro | 12 anos | 40 min

Versão do Teatro Oficina Uzyna Uzona para o texto de Eurípedes . Jennifer Glass / Divulgação 

14/08/20 às 21h30
BACANTES | Teatro Oficina Uzyna Uzona (SP)
Teatro | 18 anos | 295 min

15/08/20 às 10h30
FILMINHO | Natália Mallo (SP)
Para Crianças | 60 min

15/08/20 às 12h | Maurício Florez (COL)
BOLERO
Dança | Livre | 40 min

15/08/20 às 13h
AZIRILHANTE | Flavia Melman (SP)
Teatro | 14 anos | 80 min

15/08/20 às 15h
CORPOS OPACOS | Sara Antunes (SP) e Carolina Virguez (RJ/COL)
Teatro | 12 anos | 50 min

15/08/20 às 16h30 
LOS POSIBLES | Grupo KM29 + La Unión de los Rios (ARG)
Dança | Livre | 50 min

15/08/20 às 18h
NÃO POSSO ESQU CER | Valeria Braga e Maria Ângela Ambrosis (GO)
Performance | 14 anos | 20 min

15/08/20 às 19h
CRAVO, LÍRIO E ROSA | Lume Teatro (SP)
Teatro  Livre | 90 min

15/08/20 às 22h
NEVA | Ernani Sanchez, Michelle Gonçalves, Flavia Melman, Diego Moschkocivh (SP)
Teatro | 16 anos | 70 min

16/08/20 às 11h
INIMIGOS | Cia de Feitos (SP)
Para Crianças | Livre | 55 min

Áfricas, do Bando Olodum, da Bahia. Foto: João Meirelles / Divulgação

16/08/20 às 13h30
ÁFRICAS | Bando de Teatro Olodum (BA)
Teatro | Livre | 50 min

16/08/20 às 15h
RESPUBLICA 2023 | A Motoserra Perfumada (SP)
Teatro | 18 anos | 110 min

16/08/20 às 18h
LO ÚNICO QUE NECESITA UNA GRAN ACTRIZ, ES UNA GRAN OBRA Y LAS GANAS DE TRIUNFAR | Vaca 35 (MX)
Teatro | 14 anos | 50 min

16/08/20 às 19h30
AFROLOVE | Muato (RJ)
Música | Livre | 60 min

Espetáculo de 2005 explora os múltiplos sentidos da palavra Encarnado.Foto: Sammi Landweer

16/08/20 às 20h
ENCARNADO | Lia Rodrigues Companhia de Danças (RJ)
Dança | 18 anos | 60 min

Sala Galpão Cine Horto

14/08/20 17h
ME MATO EL 24
Teatro
16 anos
90 min.
Corporación Teatriados (COL)

14/08/20 19h
PALESTRA: Música Tradicional da infância no Brasil
Livre
70 min.
Lydia Hortélio (Brasil)

14/08/20 20h30
PALESTRA: Porque eu Odeio Palhaços
Palestra
Livre
90 min.
Sue Morrisson (Canadá)

15/08/20 11h
PRESENTE! FEITO DA GENTE
Para Crianças
60 min.
Balangandança Cia (SP)

15/08/20 12h30
O FIGURANTE
Teatro
12 anos
60 min.
Teatro Voador Não Identificado (RJ)

15/08/20 14h
ANIMAL
Teatro
16 anos
80 min.
Animal
Gustavo Miranda (COL)

Parede livremente inspirada na vida e obra de Qorpo-Santo. Foto:  Helena Wolfenson / Divulgação

15/08/20 16h
PAREDE
Teatro
14 anos
110 min.
28 Patas Furiosas (SP)

15/08/20 19h
PALESTRA: Enquanto recusarmos a pagar com a ingratidão com benefícios morreremos na escravidão.
Palestra
Livre
30 min.
Adama Traoré (Mali)

15/08/20 20h
NOMES DO PAI
Teatro
12 anos
80 min.
Companhia da Memória (SP)

15/08/20 22h
LA BALADA LA P…
Teatro
18 anos
40 min.
Casa del Teatro de Medellín (COL)

16/08/20 10h
A FAMOSA INVASÃO DOS URSOS NA SICÍLIA
Para Crianças
55 min.
Companhia Delas de Teatro (SP)

16/08/20 12h
HISTÓRIAS POR TELEFONE
Para Crianças
55 min.
Companhia Delas de Teatro (SP)

16/08/20 14h
MARY E OS MONSTROS MARINHOS
Para Crianças
60 min.
Companhia Delas de Teatro (SP)

ver ter à deriva na região da Pauilsta_Foto: Mariana Chama 

16/08/20 16h
(VER[ ]TER) À DERIVA
Teatro
Livre
60 min.
Cia. Les Commediens Tropicales (SP)

16/08/20 17h30
DESVIOS TÁTICOS – ESTRATÉGICOS PARA SOBREVIVER A VIDA URBANA
Dança
Livre
30 min.
Três em Cena (GO)

16/08/20 19h
PALESTRA: Expressão como a transmissão da experiência humana

Palestra
Livre
65 min.
Viliam Docolomansky (Eslováquia)

Pesquisadora francesa especialista em Teatro, Beatrice Picon Vallin

16/08/20 20h30
PALESTRA: Tradições e Inovações: Artes do Espetáculo e Novas Tecnologias

palestra
Livre
100 min.
Béatrice Picon-Valin (França)

Sala Teat(r)o Oficina

14/08/20 17h
HYSTERIA
Teatro
18 anos
100 min.
Grupo XIX de Teatro (SP)

14/08/20 19h
PARA NÃO MORRER
Teatro
14 anos
75 min.
Nena Inoue / Espaço Cênico (PR)

14/08/20 20h30
KRÍSIS – Fragmento Hades
Teatro
16 anos
7 min.
Companhia Nova de Teatro (SP)

14/08/20 20h30
CONVERSA COM GRUPO TEAT(R)O OFICINA UZYNA UZONA
Teatro
Livre
30 min.
Teatro Oficina Uzyna Uzona (SP)

14/08/20 21h
HAM-LET
Teatro
18 anos
Ham-let
Teatro Oficina Uzyna Uzona (SP)

15/08/20 12h
QUANDO EU MORRER VOU CONTAR TUDO A DEUS
Para Crianças
60 min.
O Bonde (SP)

15/08/20 13h30
ESPÉCIE
Performance
14 anos
20 min.
Valeria Braga e Rodrigo Cunha (GO)

15/08/20 14h
PULSO
Teatro
14 anos
50 min.
VULCÃO [criação e pesquisa cênica] (SP)

15/08/20 15h
TRINDADE (a drag, o cavalo e o xaile).
Dança
16 anos
55 min.
Só Homens Cia de Dança (PI)

15/08/20 16h
SÍSIFOS
Teatro
12 anos
70 min.
Companhia Candongas e Outras Firulas (MG)

15/08/20 18h
SEGUNDA QUEDA
Teatro
16 anos
65 min.
Ave Terrena (SP)

15/08/20 20h
DEZEMBRO
Teatro
12 anos
70 min.
Ernani Sanchez, Carolina Fabri, Michelle Gonçalves, Diego Moschkocivh (SP)

15/08/20 22h
GUANABARA CANIBAL
Teatro
14 anos
80 min.
Aquela Cia (RJ)

Espetáculo do Grupo Clowns de Shakespeare, de Natal, sofreu censura na temporada na Caixa Cultural Recife

16/08/20 11h
ABRAZO
Para Crianças
50 min.
Abrazo
Grupo de Teatro Clowns de Shakespeare (RN)

16/08/20 13h
CELESTE – Cosmologia de um salto
Dança
Livre
45 min.
Marina Guzzo (SP)

16/08/20 14h30
PASSAGEIROS
Teatro
12 anos
75 min.
César Gouvêa e Gustavo Miranda (SP/COL)

Habitam o mundo de KRUM seres pequenos, sem pudor na palavra, vivendo sob um teto baixo. Foto: Nana Moraes / Divulgação

16/08/20 16h
KRUM
Teatro
14 anos
100 min.
Companhia Brasileira de Teatro (PR)

16/08/20 16h
O PINTOR
Circo
LIvre
60 min.
Esio Magalhães / Barracão Teatro (SP)

16/08/20 18h
OS CORVOS
Dança
16 anos
70 min.
Luis Ferron (SP)

16/08/20 19h30
PARAÍSØ EM PEDAÇØS
Teatro
16 anos
50 min.
Cia Paraladosanjos (SP)

16/08/20 20h30
KRÍSIS – Fragmento Tirésias
Teatro
16 anos
7 min.
Companhia Nova de Teatro (SP)

A atriz Maria Alice Vergueiro, falecida recentemente, encenou o próprio enterro

16/08/20 22h
WHY THE HORSE
Teatro
14 anos
90 min.
Grupo Pândega (SP)

Ficha técnica da FarOFFa no Sofá
Cuidada e feita por: Todes
Pensada por: Corpo Rastreado e Périplo Produções
Junte de: Canal Aberto, Casarini Produções, Ecum – Encontro Mundial das Artes Cênicas, MITsp – Mostra Internacional de Teatro, Junta Festival Internacional de Dança, Trema Festival e Manga de Vento.
Equipe digital:
Alba Roque, Aline Mohamad, Ariane Cuminale, Danusa Carvalho, David Costa, Gabi Gonçalves, Gisely Alves, Graciane Diniz, Leonardo Devitto, Ludmilla Picosque, Monique Vaillé, Murilo Chevalier, Natasha Bueno, Pedro de Freitas, Ricardo Suzart, Rodrigo Fidelis, Tamara Andrade, Thaís Cris e Thaís Venitt.

 

Serviço

FarOFFa no Sofá
Abertura: 10 de agosto, a partir das 19h, com shows de Marina Mathey, Luiza Loroza e Juliana Linhares
De 11 e 16 de agosto de 2020
Onde: www.faroffa.com.br
Quanto: pague quanto quiser.
A verba será destinada às instituições #SolidarizaGoiânia (GO), Arte Salva (PR), Associação Redes de Desenvolvimento da Maré (RJ), Campo Arte Contemporânea (PI), Casa Aurora (BA), É Da Nossa Cor (SC), Em Cena Arte e Cidadania (PE), Fundo Marlene Colé / APTI – Associação de Produtores Teatrais Independentes (SP), Haja Amor – A Revolução (RJ), IBCM – Instituição Beneficente Conceição Macedo (BA), Instituto Raiz da Serra (SP), N’Zinga – Coletivo de Mulheres Negras de BH (MG), Pela Vida de Nossas Mães (RJ) e Sim! Rede Solidária (PI).
Redes sociais da FarOFFa:
Instagram: @faroffasp
Facebook: facebook.com/faroffasp

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