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Representatividade e aventura para crianças
Crítica: Helô em busca do baobá sagrado
Por Pollyanna Diniz*

Em seu primeiro livro para crianças, Meu crespo é de rainha, bell hooks escreve: “Feliz com o meu crespo! O meu crespo é de rainha! Feliz com o meu cabelo firme e forte, com cachos que giram, e o fio feito mola se enrola, vira cambalhota!”. Em Amoras, livro de Emicida, a filha diz ao pai: “Papai, que bom, porque eu sou pretinha também!”. O pequeno príncipe preto, de Rodrigo França, que primeiro nasceu como peça e depois foi publicado em livro, traz como personagem um menino preto que vive com um baobá num país muito pequeno. O menino fala sobre sua ancestralidade, tem orgulho da sua cor da pele, dos olhos, do nariz, do cabelo: “Eu sou negro. Um pouco mais claro que alguns negros e um pouco mais escuro que outros. É como a cor verde…Tem o verde-escuro e o verde-claro, mas nenhum dos dois deixa de ser verde. Eu gosto muito da minha cor e dos meus traços”. Helô em busca do baobá sagrado, peça que estreou no 24º Festival Recife do Teatro Nacional, no Teatro Hermilo Borba Filho, faz parte dessa linhagem de obras artísticas significativas, voltadas às infâncias, que carregam em suas narrativas a capacidade de aproximar crianças e adultos de suas próprias vivências, de quem são, e estimular autoestima, orgulho e empoderamento.

A criação de Helô…começou no contexto da pandemia: Talles Ribeiro e Helô, Heloísa Ribeiro de Melo, sua filha, viviam a circunstância do isolamento social – a realidade de ser criança (ou parentar) sem poder ter contato físico com o mundo externo, com outras crianças, com a natureza. Como antídoto, experimentando a liberdade da imaginação, inventaram uma história que tinha a menina como protagonista. Uma nova doença, perigosa e desconhecida, havia se espalhado pelo mundo, e Helô recebia a missão de, com o seu pai, ir atrás do fruto sagrado do Baobá, que livraria todos daquele mal. A aventura foi colocada no papel e, em outubro de 2022, contada no YouTube do grupo O Poste Soluções Luminosas, do qual Agrinez Melo, atriz, companheira de Talles e mãe de Helô, é fundadora.

Agrinez Melo e Cecilia Chá em Helô em busca do baobá sagrado. Foto: Marcos Pastich/PCR

O suporte da literatura foi trampolim para que Agrinez Melo idealizasse o espetáculo, assinando dramaturgia, direção, composição das letras musicais e criação de figurino. Talles Ribeiro está no palco, ao lado da própria Agrinez, e dos jovens atores Cecilia Chá, Ester Soares e Fábio Henrique. Se a história traz uma narrativa de afirmação da cultura negra no contexto das infâncias, exemplificando a tristeza, por exemplo, como consequência do racismo e do bullying com crianças pretas, o fato de termos esse elenco potencializa esse discurso, dando concretude à representatividade.

Num cenário para as infâncias no qual as Cinderelas – ainda – têm o protagonismo e as lojas de brinquedos estão amontoadas de Barbies (isso está mudando, embora mais lentamente do que gostaríamos), ver um elenco inteiro de artistas pretos numa peça voltada às crianças é um manifesto representativo. Olhar para a plateia e perceber crianças negras se identificando com aqueles personagens, pessoas que se parecem com elas, se configura como possibilidade de transformação e de futuro. Deveria ser comum, trivial até, mas ainda não é; e por isso esse ponto precisa ser ressaltado neste texto. Ainda mais quando todo o elenco é bom, equilibrado, afinado e, além de uma atriz com a experiência e o talento de Agrinez Melo, traz atores jovens, que vislumbro como promessas, como Cecília Chá, que ainda canta lindamente, e Ester Soares.

Música é uma das potências do espetáculo. Foto: Marcos Pastich/PCR

No teatro, Helô em busca do baobá sagrado não faz citações diretas à pandemia: a doença que impede o povo de Helô de sorrir é a tristeza. Aconselhada por sua avó, a Velha Cachimbeira, Helô e o pai vão à Floresta Negra para encontrar o fruto sagrado do Baobá. Acompanhamos essa trajetória dos dois, um mergulho na ludicidade, na aventura, na permissão para brincar e vivenciar uma história que tem como personagens um Baobá de 800 anos, um pé de jaca de 100 anos, o médico Dr. Sapão, a Corujita, além da Comadre Fulozinha, dos encantados e de muitos outros. Alguns desses personagens vão ajudar Helô na sua missão, como a sua amiga Anahí, mas outros representam os obstáculos a serem superados, como Seu Quadrado, que fez o mundo ficar cinza e chato com seu preconceito. O espetáculo exalta a ancestralidade, os orixás, a natureza.

A aventura proposta é um deleite à imaginação. Ainda assim, nas montagens infantis, um dos vícios dramatúrgicos é a tentativa de falar sobre temas como coragem com textos diretos, que podem resvalar para uma positividade desmesurada. Sou da geração que cresceu cantando “Tudo pode ser…só basta acreditar” e esse mesmo espírito está na dramaturgia quando, por exemplo, o pai diz que está pensando em desistir da missão na Floresta, e a criança retruca: eles não teriam tentado direito ainda; ou quando o pai fala que a missão é impossível e eles deveriam desistir, e é a criança quem impede que isso aconteça, mostrando ao pai que supostamente não há impossíveis. Em Helô…, a história incorpora a coragem em sua narrativa, de modo muito mais efetivo e sem a necessidade de discursos simplórios. Essa criança – e a sua amiga Anahí – são motores de mudança e instigam os adultos nesse movimento.

Talles Ribeiro e Cecilia Chá. Foto: Edpo César

Numa história colorida, de muitos personagens “incríveis”, aventura e suspense, as soluções cênicas do espetáculo são geralmente inventivas e adicionam camadas à possibilidade da brincadeira, como os diversos tipos de bonecos que compõem a cena, e os atores que se desdobram em mais de um personagem. Especialmente no caso de Talles Ribeiro, quando essa mudança acontece de forma instantânea – na mesma cena ele sai de um personagem para assumir o outro – o pacto lúdico com a plateia é reforçado e gera boas surpresas e risadas.

Um dos elementos de encantamento do espetáculo é a música, uma das dramaturgias da peça. A criação musical foi realizada por Beto Xambá e Thúlio Xambá, músicos do grupo Bongar, as letras, como já dito, são de Agrinez Melo, e a criação da sonoplastia e a execução musical ao vivo são de Monique Sampaio e Paulinho Folha.

Helô em busca do baobá sagrado reafirma a importância da representatividade, das crianças se enxergarem em todos os campos da nossa sociedade, inclusive no teatro, e terem orgulho de si mesmas e de sua ancestralidade. É uma peça que exalta o valor da cor na criança preta, os seus cabelos crespos e frondosos, as suas experiências de vida em comunidade, alimentando a alegria, a criatividade e a brincadeira como potências instigadoras de transformação.

Dr. Sapão (Fábio Henrique) é um dos personagens desta aventura. Foto: Edpo César

Ester Soares como Anahí, amiga de Helô. Foto: Edpo César

Cecilia Chá é a protagonista Helô. Foto: Edpo César

* A cobertura crítica da programação do 24º Festival Recife do Teatro Nacional é apoiada pela Prefeitura do Recife.

Ficha técnica:
Helô em busca do baobá sagrado
Elenco: Agrinez Melo, Cecilia Chá, Ester Soares, Fábio Henrique e Talles Ribeiro
Dramaturgia, direção, composição das letras musicais e criação de figurino: Agrinez
Melo
Criação musical: Beto Xambá e Thúlio Xambá
Criação sonoplastia e execução musical: Monique Sampaio e Paulinho Folha
Preparação de canto, cenografia, máscaras e adereços: Douglas Duan
Preparação vocal de atores: Naná Sodré
Criação de maquiagem: Vinicius Vieira
Criação e confecção de bonecos: Célia Regina
Iluminação: André Cordeiro
Execução de figurino: Francis Souza e Monique Nascimento, Álcio Lins e Ágata Gabrielli
Consultoria coreográfica: Washi San’s
Assistente de produção e social mídia: Brunna Martins
Produção geral e realização: DoceAgri

 

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Vozes do mangue
Crítica de Narrativas Encontradas Numa Garrafa Pet na Beira da Maré,
do Grupo São Gens de Teatro, do Recife

Narrativas Encontradas Numa Garrafa Pet na Beira da Maré fez curtas temporadas em São Paulo e outros estados e participou de festivais. Foto Vinícius Elizário

Grupo São Gens de Teatro, do Recife. Foto Vinícius Elizário / Divulgação

Marginalidade e marginal, esses conceitos difusos, correm pelas bordas na peça Narrativas Encontradas Numa Garrafa Pet na Beira da Maré. Concebido nas entranhas de um rio do Recife, o espetáculo entende-se com a lama e dela tira sua sustância. Quando chama para si essa ideia de margem, o grupo São Gens posiciona o perfil sociológico dos integrantes: de quem mora ou viveu na periferia, que nunca teve as mesmas oportunidades dos privilegiados de classe, que sofreu na carne os preconceitos dos que estão na mira da polícia.

Essa experiência é transformada em poética, em atuação cultural viva e pulsante com as marcas desse tempo. Os vínculos estabelecidos entre criação teatral e realidade social são fortes e estão entranhados nos corpos dos atores. De muitas formas eles falam de si.

Ao assistir à peça lembro das concepções do médico e geógrafo, cientista social, político e ativista de combate à fome Josué de Castro (1908 – 1973) – convocado por Chico Science e trupe para dar sustentação ao Manguebeat – que apontava que o Recife é filho dos mangues. Na cidade aterrada, essa origem é muitas vezes abafada, disfarçada, apagada. Autor de uma extensa obra – entre Geopolítica da fome, Fatores de localização da cidade do Recife e Homens e caranguejos – Castro tirou o mangue do mangue, valorizando a paisagem com seu olhar científico e estético e dissecou esse lugar dos “excluídos sociais”. 

Na sua ambição de ser um cidadão integral, o geógrafo Milton Santos (1926 – 2001) escrutinou a existência de uma cidadania brasileira. E analisou a distribuição das pessoas desigualmente nos espaços a partir de atividades econômicas e da herança social; o que determina o acesso (ou não) aos bens e serviços oferecidos pela rede urbana e sistema das cidades.

As interpretações de mundo de Castro e Santos fertilizam essa dramaturgia, erguida a partir da vivência do dramaturgo Anderson Leite (também ator e diretor do espetáculo) na comunidade ribeirinha do Pina, no Recife. Quando a pandemia da Covid-19 fechou tudo, milhares de artistas foram atingidos de imediato, pois foram os primeiros a ficar sem remuneração. Anderson foi um deles. E, naquele momento, sem nenhuma ajuda oficial do Estado, ele voltou a trabalhar com a pesca artesanal de marisco e sururu, atividade da família.

É nesse estágio da grande ferida da pandemia que nasce o texto e as imagens de encenação. Na medula do assombro daquele presente palpita o fato de que, para muitos trabalhadores precarizados, ficar em casa nunca foi uma opção. O trançado do risco real de ir às ruas para não morrer de fome dessas figuras recua ao passado de histórias brasileiras. E entra como fala na peça, de algo que aconteceu e que não finda. “Mais uma vez tive que me arriscar. E esse vírus me tirou o paladar. Fazer o quê, tive que trabalhar. Pois, mesmo sem sentir gosto a família tem que se alimentar”.

No elenco estão Anderson Leite, André Lourenço, Cristiano Primo, Fagner Fênix, HBlynda Morais e Monique Sampaio. Foto: Gabriel Melo / Divulgação

Quando a peça começa, os atores estão amontoados numa escada que vira barco e outras coisas. Ao fundo, um painel estampa o barraco, a favela. No chão, conchas indicam rotas, produzem som, reposicionam a memória.  Há resquícios de cheiros de mangue, de maré. É forte, é ancestral.

A iluminação cuida de acelerar a cena, mas em outros momentos retarda. Trabalha feito editor de imagens. Corta, assinala, destaca, faz fantasmagoria, inverte, cria clima, faz drama, faz técnica, manipula nosso olhar.  

A dramaturgia se move em oito partes, entre solos e ações coletivas. Abscessos da sociedade são rasgadas nas temáticas que se entrelaçam entre vida e morte, as vidas que importam e os procedimentos de violência para aniquilar o outro. As classes populares que povoam a cena, elas mesmas nas suas misérias reproduzem sistematicamente o machismo e todo o tipo de preconceito contra o próximo – racismo, misoginia, lgbtqifobia, aporofobia, etarismo, etc. alimentando as chagas e não reconhecimento da opressão.

É interessante perceber que nem o dramaturgo nem o grupo optam por pegar leve com sua classe, com as figuras do seu entorno. Eles escancaram no palco as ambiguidades; alguns hábitos de convivência naquela favela inspirada no real, que pode coincidir com muitas outras práticas de pobres e estigmatizados pelo Brasil.

Sim, os pobres podem introjetar os valores que os oprimem. “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor” a frase do educador, filósofo, advogado, professor, pesquisador, pedagogo, pensador, escritor Paulo Freire (1921-1997) é conhecida. Ai, Freire! Como é urgente aprender a fazer leituras de mundos, construindo e acolhendo sujeitos com consciência da realidade.

A cidadania se aprende, a liberdade é uma conquista.

Ao expor o processo de dominação reproduzido naquela quebrada recifense, o espetáculo sacode com fúria a lógica que mantém essa estrutura. 

O título da peça aponta quase para um pedido de socorro. Mesmo que lembre procedimentos de lançar mapas de tesouros ou de desejos de falar ao futuro produzidos em romances juvenis, essa garrafa pet se despe de possíveis pompas na formulação imaginária. O material está mais próximo do descartável, mesmo que seja reciclável. E esse fluxo insiste feito uma ladainha.

A força dessas Narrativas se expande no trabalho coletivo. Há uma energia coral. Mesmo assim é possível destacar momentos individuais vigorosos. Um gesto, um jeito de corpo, uma fala, uma agonia, um desespero. Algumas pequenas fragilidades de atuação no trabalho também existem. A dicção de parte do elenco e qualquer traço de melodrama em cenas pontuais são duas delas.

Alfinetar a classe média branca que come ostras em frente ao Acaiaca (prédio à beira-mar em Boa Viagem, no Recife), os versos do poeta performático Miró da Muribeca (1960-2022), pneus, escada, rede de pescar, essas coisas conversam e os próprios atores manipulam os elementos cênicos. Eles citam a bandeira-poema de Hélio Oiticica, Seja Marginal Seja Herói (1968). Entre baculejos e sussurros, eles vão soltando suas verdades inquietantes.

“Qual o problema de eu subir?”, pergunta um deles que tenta subir a escada e é puxado pelos cabelos, pelos braços e pernas, pela camisa. Existe a “lenda do caranguejo” no Recife, que conta que toda vez que um caranguejo tenta subir (na vida) é derrubado por outros. No espetáculo, a sonoridade das conchas marca as puxadelas.  

Monique  Sampaio numa cena da marisqueira que perdeu o filho de cinco anos baleado pela polícia. Foto: Gabriel Melo / Divulgação

Uma cena terrivelmente tocante chama-se Separando O Sururu da Bucha, quando Monique Sampaio assume o papel de uma marisqueira traumatizada, que flutua entre sanidade e loucura, com a morte do filho de cinco anos, baleado pela polícia enquanto brincava com um graveto. Num estado de oscilante,  a personagem comove com suas falas: “Os ‘homi’ num só protege, não, os ‘homi’ mata, barata… matou meu Dinho. Meu pretinho se foi com dois tiros na cabeça… Os ‘homi’ mata!”.

A filósofa Judith Butler já levantou questões biopolíticas com as perguntas: as vidas de quem importam? As vidas de quem não importam como vidas, não são reconhecidas como vivas, ou contam apenas ambiguamente como vivas? Para dizer que “não podemos dar por certo que todos os seres humanos vivos têm o status de um sujeito que é digno de direitos e proteções, com liberdade e um sentimento de pertença política; ao contrário, esse estatuto deve ser assegurado por meios políticos, e quando negado, a privação deve ser manifestada”. 

As experiências e elaborações compartilhadas também falam do vínculo de entre criação teatral e realidade social.  Em algum momento, alguém ressalta a dificuldade de fazer teatro com fome, não ter dinheiro para a passagem, ou a falta de acolhida por parte de outros grupos estabelecidos. Mas a opção é seguir fazendo arte para espelhar na cena “um bocado de nós, nossa gambiarra”.

Mas o grupo também celebra a resistência e existência de seus pares negros que com arte e cultura fazem suas microrrevoluções.  São personalidades do teatro, mas também da literatura, da militância, figuras de projeção nacional e pernambucanas e pernambucanos contemporâneos. Diante de um cotidiano implacável, o São Gens rega as ideias de coletivo para fortalecer a luta.

Ficha técnica
Espetáculo Narrativas encontradas numa garrafa pet na beira da maré
Dramaturgia e encenação: Anderson Leite  
Elenco: Anderson Leite, André Lourenço, Cristiano Primo, Fagner Fênix, HBlynda Morais e Monique Sampaio.
Direção musical: Arnaldo do Monte 
Figurino: André Lourenço  
Cenário e iluminação: Anderson Leite 
Operação de luz: Cristiano Primo e Grupo 
Adereços: Anderson Leite  e André Lourenço
Produtora Cultural: HBlynda Morais
Realização:  Grupo São Gens de Teatro

Este texto integra o projeto arquipélago de fomento à crítica, com apoio da Corpo Rastreado.

 

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