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Um mês de “Janeiro de Grandes
Espetáculos” com 140 atrações
celebra Chico Science

Desfile da coleção Anamauê – Ecoando a Transformação, assinada pelo estilista Mendx, com a participação de  Louise França, filha de Chico Science, abre o Janeiro. Foto: Rasta Click / Divulgação

Chico Science é celebrado nessa edição do festival. Foto: Divulgação

Zambo, do Grupo Experimental, foi criada em 1997 como homenagem a Chico Science e ao Manguebeat

Circo Science: Do Mangue ao Picadeiro, da Escola Pernambucana de Circo. Foto: Divulgação

O Janeiro de Grandes Espetáculos (JGE) chega à sua 32ª edição com uma trajetória que espelha as próprias transformações da cena cultural pernambucana. Além do teatro, o JGE abriga sob seu guarda-chuva múltiplas linguagens artísticas e festivais específicos, cada um com sua identidade e propósitos.

Se no início de sua trajetória o Janeiro almejou e conseguiu reunir o que existia de mais expressivo no cenário nacional em termos de linguagem cênica, ousadia ou experimentação, isso já se modificou ao longo dessas três décadas. Hoje, os realizadores são categóricos ao afirmar que o festival se tornou uma vitrine da produção local, com impressionantes 95% de montagens pernambucanas compondo sua programação entre 7 de janeiro e 4 de fevereiro de 2026.

O tema deste ano é uma homenagem a Chico Science, que completaria 60 anos em 2026. Embora não seja um conceito que articule profundamente todos os participantes, a celebração permeia o festival, marcando sua 32ª edição com um tributo ao legado do artista.

Isso está sintetizado neste 7 de janeiro no Teatro de Santa Isabel. Pela primeira vez na sua história o JGE inicia saudando a moda pernambucana, como linguagem central da cena de abertura. 

A partir das 18h30, a artista Michelly Cross apresenta no hall de entrada a performance musical Meso’Mangue’Potamos no violoncelo, um pocket show de 30 minutos que faz uma ponte simbólica entre os rios Eufrates e Tigre do Oriente Médio e os rios Capibaribe e Beberibe do Recife. A apresentação conta com a participação especial de dança e expressão corporal de Ruth Mila.

Simultaneamente, acontece o lançamento de dois livros significativos: Chico Science e o Movimento Mangue (2ª edição), de Moisés Monteiro de Melo Neto, obra que revisita a trajetória de Chico Science e do Manguebeat com análise histórica e cultural do movimento que transformou a música brasileira, e Pedagogia Axiológica Emergente para o Teatro, de Benedito José Pereira – Didha Pereira, que propõe uma pedagogia teatral decolonizadora voltada à formação crítica, valores sociais e acesso democrático à arte.

O ponto alto da noite ocorre às 19h30 com a coleção Anamauê – Ecoando a Revolução, assinada pelo estilista Marcelo Mendx, conduzindo o público a uma abertura inédita do Janeiro de Grandes Espetáculos. Inspirada na estética do Movimento Manguebeat, a coleção apresenta 20 figurinos que dialogam com a diversidade cultural, urbana e ancestral do Recife, tendo a batida de Chico Science como guia simbólico.

O desfile reúne um elenco formado por artistas consagrados da dança, do teatro, do circo e da música. Entre elas e eles, estão as atrizes e bailarinas Íris e Iara Campos, os passistas Pinho e Minininho, a atriz e apresentadora Nínive Caldas, a atriz e palhaça Fabiana Pirro e a cantora, compositora e atriz Louise França, filha de Chico Science. 

A homenagem a Chico Science se desdobra em outras produções que integram o festival. Circo Science: Do Mangue ao Picadeiro figura entre as melhores encenações produzidas na cidade nos últimos anos, uma criação da Escola Pernambucana de Circo com direção de Ítalo Feitosa e dramaturgia de Fátima Pontes, que poderia muito bem abrir o festival, pois carrega uma força energética e fala do Chico a partir de hoje; mas vai para o final da maratona cênica. Através de números circenses, coreografias e expressões corporais e com músicas originais de Science remixadas por DJ Vibra e equipe, o espetáculo conecta o legado mangue com as manifestações culturais contemporâneas das periferias do Recife. Está agendado para 1º de fevereiro no Teatro do Parque.

Zambo, do Grupo Experimental, dirigido por Mônica Lira, constitui outro trabalho de referência direta ao músico. Criada em 1997 como homenagem a Chico Science e ao Movimento Manguebeat, a obra se atualizou ao longo dos anos, mantendo a força da diversidade e da identidade cultural pernambucana.

Um caleidoscópio teatral

Remontagem Auto da Compadecida estreia no JGE. Foto Divulgação

Um Sábado em 30, remontagem de comédia de Luiz Marinho consagrada pelo Teatro de Amadores de Pernambuco – TAP. Foto: Divulgação

Memórias Póstumas de Brás Cubas, solo com Marcos Damigo. Foto: Divulgação

O teatro, que permanece como a espinha dorsal do JGE, apresenta mais de 60 peças adultas e infantis, distribuídas entre os principais espaços cênicos da cidade. São tantas montagens oferecidas que o espectador precisa fazer uma verdadeira garimpagem para encontrar o tipo de trabalho que lhe convém, pois há um impressionante sortimento de atrações e de variáveis qualidade de produção nesse repertório.

Entre as estreias, Auto da Compadecida – Uma Farsa Modernesca, dos diretores recifenses Célio Pontes e Eron Villar, revisita a dramaturgia de Ariano Suassuna propondo um diálogo entre a cultura popular nordestina e o teatro contemporâneo. Outra remontagem notável é a do clássico da dramaturgia pernambucana Um Sábado em 30, comédia de Luiz Marinho que esteve em cartaz por várias décadas com o elenco do Teatro de Amadores de Pernambuco. O solo musical cômico-fantástico Memórias Póstumas de Brás Cubas, com Marcos Damigo, é uma produção carioca que faz sucesso há anos em várias temporadas e prova a atemporalidade do clássico machadiano.

É interessante notar que Machado de Assis vai ao palco em diversas montagens: além de Memórias Póstumas, há Dom Casmurro, adaptação de Moisés Monteiro de Melo Neto que explora as relações de amor, traição e desconfiança no oitocentismo fluminense, e O Alienista – Casa dos Loucos, do Grupo Cena Livre, que transforma a quase-novela machadiana em farsa de ritmo veloz, própria do nosso tempo, com os quatro atores nunca saindo de cena e se transformando aos olhos do público através de adereços.

Ophélia, com Pollyanna Monteiro. Foto: Divulgação

Fabiana Pirro e Jr Sampaio em Cúmplices – Transgressões de um Ricardo III. Foto: Divulgação

Medeia – Da Lama ao Caos, dirigida por Antônio Rodrigues. Foto: Divulgação

Vossa Mamulengecência tem texto de Arthur Cardoso inspirado na obra de Ariano Suassuna. Foto: Divulgação

Lucinha Guerra em Cantigas à Pedra do Reino, que trabalha o universo suassuniano através de músicas

A multiplicidade teatral se estende às novas versões de clássicos: Ophélia, da Cia. de Teatro e Dança Pós-Contemporânea d’Improvizzo Gang, com Pollyanna Monteiro, oferece uma versão feminista da personagem shakespeariana, contada por uma mulher em meio à violência extrema, enquanto Cúmplices – Transgressões de um Ricardo III, com Fabiana Pirro e Júnior Sampaio, mergulha nas contradições de dois artistas que encenam Shakespeare, explorando não apenas o texto, mas os subtextos que emergem das tensões em cena.

Como releitura de clássico diretamente influenciada pelo Manguebeat, Medeia – Da Lama ao Caos, dirigida por Antônio Rodrigues e com Beatriz Kemily, Gabriela Cicarello, Gabriela Moreira e elenco, reinventa o mito grego para o coração do Recife, onde o mangue é palco de traição, vingança e resistência contra o avanço voraz do falso progresso e da especulação imobiliária.

A obra de Ariano Suassuna ganha múltiplas abordagens. Além da já mencionada estreia de Auto da Compadecida – Uma Farsa Modernesca, o festival apresenta Vossa Mamulengecência, releitura autoral do universo suassuniano com dramaturgia e direção de Arthur Cardoso. Formado por um grupo de jovens artistas, o espetáculo mergulha no universo fantástico de Cheiroso Dorabela – mestre de mamulengos e vendedor de perfumes – que usa suas histórias para questionar figuras de autoridade. E Cantigas à Pedra do Reino, idealizado pela multiartista Lucinha Guerra, com direção de Romero de Andrade Lima, sobrinho de Ariano, celebra o legado suassuniano através de músicas, cantigas e loas que preservam a essência do Movimento Armorial.

A Paixão Segundo José Francisco Filho, conecta a história de Cristo com a figura de Antônio Conselheiro

Francisco – Um Instrumento de Paz, uma produção de Roberto Costa

Circo Godot, dirigido por Quiercles Santana e interpretado por Charles de Lima e Asaías Rodrigues 

Noite, com Fátima Aguiar, Karine Ordonio e Sônia Biebard num texto de Ronaldo Correia de Brito, com direção de Cláudio Lira 

Há espaço significativo para montagens com inspiração cristã: A Paixão Segundo José Francisco Filho, dirigida por José Francisco Filho com texto de Moisés Monteiro de Melo Neto e produção de Mísia Coutinho, conecta a história de Cristo com a realidade brasileira através da figura de Antônio Conselheiro. Enquanto o musical Francisco – Um Instrumento de Paz, da produção de Roberto Costa, retrata a jornada de São Francisco de Assis com música ao vivo e cenários que reportam à Assis do século XIII.

Entre as apostas locais que dialogam com questões urgentes do presente, encontra-se A Divina & o Esplendor – Uma Farsa Forçada, que combina farsa, melodrama, comédia e teatro de formas animadas para criticar a manipulação cultural. Já consolidado no cenário teatral pernambucano e internacional, Circo Godot, da Companhia Circo Godot de Teatro, dirigido por Quiercles Santana e interpretado por Asaías Rodrigues e Charles de Lima, comprova que o diálogo com grandes dramaturgos – neste caso, Samuel Beckett – pode gerar reflexões poderosas sobre o sadismo dos que detêm o poder.

A literatura brasileira encontra eco em F.A.M.A – Feliz Aniversário Meu Amor, livre adaptação do conto Feliz Aniversário de Clarice Lispector que transporta para o palco o retrato cruel, cômico e pungente de uma reunião familiar onde a celebração deveria trazer alegria, mas revela solidão e introspecção em meio às complexas dinâmicas familiares. Uma atmosfera semelhante de confinamento e reflexão sobre os laços afetivos permeia Noite, do dramaturgo Ronaldo Correia de Brito, com direção de Cláudio Lira e Sônia Biebard, Fátima Aguiar e Karine Ordonio no elenco, que acompanha duas velhas irmãs isoladas numa antiga casa em ruínas enquanto revisitam valores, família e amores perdidos. Já Um Minuto pra Dizer que te Amo, do Matraca Grupo de Teatro, dirigido por Rudimar Constâncio, explora as fragilidades humanas através de cenas alternadas que acompanham a relação entre um homem idoso e seu filho, e uma mulher e sua cuidadora, todos separados pelo Alzheimer, criando um mosaico afetivo onde recordações perdidas se embaralham com memórias impossíveis de esquecer e lembranças inventadas, numa visão tocante da vida em seu ocaso.

O ator Júnior Sampaio marca presença em duas montagens: no solo Atores, que explora as dificuldades da profissão artística, e em Cúmplices, já citada, baseada na peça Ricardo III de Shakespeare, onde divide a cena com Fabiana Pirro.

Gonzaga Leal em Antonin Artaud – Entre a Ordem e a Vertigem. Foto: Divulgação

Germano Hauit em O Futuro Dura Muito Tempo. Foto: Divulgação

Suzy Brasil – Uma Noite Horripilante. Foto: Divulgação

O Ciclo Iluminuras apresenta três monólogos dirigidos por Gonzaga Leal: Antonin Artaud – Entre a Ordem e a Vertigem, com interpretação do próprio Gonzaga Leal, percorrendo momentos de internações psiquiátricas e criação absurda; O Futuro Dura Muito Tempo, com Germano Hauit adentrando a narrativa de Althusser; e Carta a Spinoza, com Maria Oliveira atravessando pensamentos e sentimentos sobre a loucura e a humanidade.

A presença drag marca território no JGE com Suzy Brasil – Uma Noite Horripilante, produção carioca que mistura conto de fadas, sátira e interação com o público, explorando as múltiplas camadas da performance drag através do humor e da fantasia. Também abordando questões de gênero, mas de uma perspectiva mais íntima e autobiográfica, HBlynda em Trânsito apresenta o solo da atriz HBlynda Morais, que após 15 anos no campo das artes cênicas compartilha seu processo de transição de gênero através de uma linguagem que combina dança e música para narrar sua jornada pessoal.

Sugerimos que o espectador visite o site do JGE para explorar a programação e encontrar as atrações que mais o atraem.

Teatro para Infância e Juventude

Cantigas de Fiar, da Companhia Fiandeiros de Teatro. Manuel Carlos é um dos atores-cantores

A Cigarra e a Formiga, da Roberto Costa Produções. Foto: Divulgação

O JGE 2026 dedica uma seção especial ao público mais jovem, com uma programação diversificada de Teatro para Infância e Juventude que explora desde questões ambientais até adaptações de grandes clássicos da literatura mundial. Ao todo, são 14 espetáculos distribuídos ao longo do festival, prometendo encantar e educar através da magia do teatro.

A programação infantojuvenil se inicia no dia 8 de janeiro com Tatu-do-bem, da Companhia Catalumari e os Giguiotes, no Teatro Apolo. O espetáculo apresenta Andrezinho, filho de atores nômades que inicialmente detesta a profissão dos pais, mas que ao conhecer Tuta e Teteu, dois tatus-bolas apaixonados por arte, embarca em uma aventura lúdica pela caatinga. A montagem utiliza visualidades e ritmos da cultura pernambucana para contar uma história que enfrenta Caco, o carcará ditador que ameaça o bioma nordestino.

O universo da fantasia se expande com O Segredo da Arca de Trancoso, da Cênicas Cia de Repertório. Neste espetáculo repleto de reviravoltas, um menino recebe da feiticeira K’Temeré a perigosa missão de entregar uma arca misteriosa sem jamais abri-la. Sua jornada revela o poder mágico do objeto, que oferece conteúdos diferentes para cada pessoa – premiando uns e castigando outros – numa narrativa que dialoga com o imaginário popular brasileiro sobre tesouros e mistérios.

A Cigarra e a Formiga, da Roberto Costa Produções, apresenta uma adaptação musical da clássica fábula de Esopo com 5 atores e 3 músicos, trazendo personagens como Dona Joaninha, Abelhão e Borboleta para falar sobre responsabilidade, solidariedade e amizade através de figurinos caprichados e efeitos especiais. Em contrapartida, Cantigas de Fiar, da Companhia Fiandeiros de Teatro, oferece uma opção mais intimista ao explorar o tema da saudade em um show leve e interativo que percorre trilhas sonoras de espetáculos infantis recifenses, funcionando como uma homenagem às crianças, ao teatro e ao poeta André Filho, com toda a execução musical – textos e instrumentos – realizada pelos próprios atores da companhia.

Entre os clássicos adaptados para o público jovem, temos O Pequeno Príncipe, também da Cênicas Cia de Repertório. A adaptação dirigida por Antônio Rodrigues, com direção musical de Douglas Duan, transporta o público para o reencontro com a criança interior através da inesperada amizade entre um homem perdido no deserto e um garoto vindo de outro planeta. O musical apresenta trilha sonora original executada ao vivo pelos atores, revelando a jornada do Pequeno Príncipe por diferentes mundos e seus encontros com a rosa devotada e a raposa afetuosa.

Shakespeare também encontra espaço na programação infantil através de duas adaptações criativas que aproximam o dramaturgo inglês do universo lúdico das crianças. Hamilet no Circo transporta o drama shakespeariano para o universo circense, criando uma releitura que busca combinar a profundidade dos conflitos humanos com a magia e o espetáculo do picadeiro. Já Sonho de uma Noite de Verão encerra a programação infantil oferecendo ao público jovem uma entrada encantada no mundo da comédia shakespeariana através de suas criaturas fantásticas e tramas de amor e confusão.

Programação completa de Teatro para Infância e Juventude:

08 JAN – 16h30: Tatu-do-bem no Teatro Apolo
10 JAN – 16h30: Jeremias e as Caraminholas no Teatro Barreto Júnior
11 JAN – 16h30: Histórias Pontilhadas na Caixa Cultural
11 JAN – 16h30: A Princesa dos Mares no Teatro Santa Isabel
11 JAN – 17h: O Segredo da Arca de Trancoso no Teatro do Parque
17 JAN – 16h: Matilda no Cine Teatro Samuel Campelo
18 JAN – 16h: A Cigarra e a Formiga no Teatro do Parque
18 JAN – 16h30: Hamilet no Circo no Teatro Apolo
18 JAN – 17h: O Pequeno Príncipe no Teatro Santa Isabel
24 JAN – 16h: Cantigas de Fiar  no Teatro André Filho – Espaço Fiandeiros
25 JAN – 16h: Cantigas de Fiar no Teatro André Filho – Espaço Fiandeiros
25 JAN – 16h30: Tudo Começou Assim no Teatro Apolo
27 JAN – 17h: Os Protetores do Oceano no Teatro Capiba
01 FEV – 16h30: Sonho de uma Noite de Verão no Teatro Apolo

Música: Entre Tradição e Experimentação

Moreno Veloso e Igor de Carvalho. Foto: Divulgação

Revoredo e Gabi da Pele Preta no show Encruzilhada Agreste. Foto: Divulgação

Show de João Fenix, Luz e Fé, com direção cênica de Jean Wyllys. Foto: Divulgação

No campo da música, o festival traz quase 20 apresentações, numa curadoria que busca tanto celebrar nomes consolidados quanto abrir espaço para novas sonoridades. O encontro de Igor de Carvalho e Moreno Veloso, que dividem o palco com a participação especial de Lula Queiroga e Karina Buhr, promete um diálogo íntimo e afetuoso, trazendo à tona as ricas sonoridades dos terreiros.

O projeto Elas Cantam Elba reúne  Cristina Amaral, Deusa nordestina do forró, Liv Morais e Natasha Falcão e faz um passeio pelo repertório da cantora paraibana. A incorporação da ópera, com o espetáculo Anastácia, sinaliza uma ampliação do escopo musical do festival.

A programação musical apresenta desde Janga, show de Ylana inspirado nas memórias de infância no bairro homônimo, em Paulista, até Maestro Duda – Uma Visão Nordestina, espetáculo com nuances de concerto-aula que celebra a trajetória do maestro.

Encruzilhada Agreste, protagonizado por Revoredo e Gabi da Pele Preta, celebra as raízes agrestinas na música contemporânea, enquanto Do Frevo ao Jazz, concerto do Maestro Edson Rodrigues, constrói pontes entre a tradição pernambucana e a linguagem jazzística.

O frevo ganha destaque em Felipe Costta Trio – Frevo Sanfonado, espetáculo instrumental que exalta o ritmo em diálogo com a sanfona. Luz e Fé, show de João Fenix, com direção cênica de Jean Wyllys, conduz o público por um repertório de fé e esperança, apresentado pela voz singular do cantor pernambucano que conquistou o mundo. A presença internacional marca-se com Concerto de Música Européia e Latina, do músico eslovaco Adam Marec.

A ancestralidade afro-brasileira encontra expressão em Ọ̀ṣun Oxum Ochun – Afoxé Oxum Pandá + Luiz de Aquino, um ritual contemporâneo que celebra a força da água doce através de uma experiência sensorial, experimental e afrofuturista, com roteiro, concepção e direção geral de Jorge Féo.

O Festival de Palhaçaria: Território de Mulheres

Espetáculo As Charlatonas faz sessão na Praça do Campo Santo Amaro. Foto: Divulgação

Cabaré Janeiro de Palhaças, na Caixa Cultural. Foto: Divulgação

Mary En em Riso e Caos, com Enne Marx na Casa de Alzira. Foto: Divulgação

O PalhaçAria – Festival Internacional de Palhaças do Recife chega à sua 5ª edição em formato pocket, reafirmando seu papel como um dos mais importantes encontros de palhaçaria feminina no Brasil, criado e realizado pela Cia Animée, sob direção de Enne Marx. O festival, que acontece entre 13 e 23 de janeiro, enaltece a valorização da comicidade feminina com 8 espetáculos, um fórum de debates, um lançamento de livro e uma websérie.

A programação oferece um panorama da palhaçaria feminina contemporânea:

13 JAN – 19h: Mary En em Riso e Caos na Casa de Alzira. Uma performance que explora a comicidade através do riso e do caos.
13 JAN – 20h30: Lançamento do livro Cegonha de Mim na Casa de Alzira. Um evento literário que acompanha a programação artística.
14 JAN – 19h: Bem Me Quero na Casa de Alzira. Um espetáculo que celebra o autocuidado e a autoaceitação com humor e poesia.
15 JAN – 19h: Cabaré Janeiro de Palhaças na Caixa Cultural. Uma noite especial reunindo diversas palhaças em números variados de humor e arte circense.
16 JAN – 19h: As Testemunhas Duo: A Aparição no Teatro Apolo. Uma peça de circo-teatro que promete momentos de surpresa e reflexão.
17 JAN – 19h: Umana no Teatro Santa Isabel. Um solo ou duo que aborda a condição humana com a leveza e a profundidade da palhaçaria.
18 JAN – 11h: Fórum Entre Narizes e Fronteiras: Palhaçaria Feminina em Diálogo Brasil–Portugal na Caixa Cultural. Mediado por Enne Marx, este fórum promove um intercâmbio de ideias e práticas entre artistas brasileiras e portuguesas, explorando a pesquisa e a formação em palhaçaria.
18 JAN – 15h30: As Charlatonas na Praça do Campo Santo Amaro. Uma apresentação ao ar livre que brinca com a figura da vendedora de ilusões e o universo da charlatanaria.
18 JAN – 16h30: As Testemunhas Duo: A Aparição no Sesc Camaragibe. Uma segunda oportunidade para assistir à performance de circo-teatro.
18 JAN – 18h: A Oração no Teatro Arraial Ariano Suassuna. Um espetáculo que pode explorar temas espirituais ou sociais sob a ótica do palhaço.
23 JAN – 19h: O encerramento acontece com a websérie Mary En 20 Anos, transmitida pelo YouTube da Cia Animèe, celebrando a trajetória da artista Mary En.

Enne Marx, reconhecida internacionalmente por seu trabalho de pesquisa e formação em palhaçaria, traz uma perspectiva acadêmica que dialoga com a prática artística no fórum, promovendo intercâmbio entre artistas brasileiras e portuguesas. O festival se conecta com a Rede de Festivais de Palhaças do Brasil, que hoje reúne mais de 20 iniciativas, consolidando Recife como polo difusor da palhaçaria feminina.

Dança e Circo: Corpos em Movimento

V Festival Pole Dance de Pernambuco integra o JGE. Foto: Divulgação

Corpos em Travessia que inclui no elenco pessoas com deficiência. Foto: Divulgação

A diversidade é palavra-chave na programação de dança do JGE, que abrange desde o clássico O Lago dos Cisnes da Cia Fátima Freitas – tradicional montagem do balé de Tchaikovsky com Helena Fink e Maria Júlia Cavalcanti nos papéis principais – até manifestações contemporâneas como o V Festival Pole Dance de Pernambuco, que sob a direção de Alexandra Valença, pioneira da modalidade no Brasil, ressignifica o mesmo clássico através da força e elegância do pole dance.

Entre essas polaridades, o Festival Florescer de Danças Árabes e Fusões, criado por Simone Mahayla e dedicado ao talento das escolas da Região Metropolitana, dialoga com Corpos em Travessia, espetáculo que demonstra como a dança contemporânea pernambucana busca um vocabulário corporal que mescle técnicas do flamenco, dança clássica e contemporânea, baseado no poema de Josimar Lourenço e desenvolvido por um elenco que inclui pessoas com deficiência.

No universo circense, o JGE apresenta um leque que se estende do tradicionalíssimo Eu, Você e o Circo Alakazan a propostas contemporâneas que dialogam com questões sociais urgentes, como Sem Nome o Desempregado, que conta a história de um palhaço que, após perder o pai na pandemia e ver o circo esvaziado pela preferência do público pelas telas digitais, luta para manter a tradição familiar funcionando. Quando a realidade se impõe, ele se vê obrigado a procurar emprego fora da lona.

Cinema: A Sétima Arte no Janeiro

Kátia Mesel realizadora do filme Recife de Dentro pra Fora, de 1997. Foto: Divulgação

A incorporação do cinema como linguagem fixa significa mais do que ampliação de escopo – reconhece a força do audiovisual pernambucano. A escolha do Cinema São Luiz valoriza um espaço que carrega a memória cinematográfica da cidade.

Os quatro curtas-metragens selecionados traçam um panorama da produção audiovisual local: “Recife de Dentro pra Fora“, de Katia Mesel, e “O Mundo é uma Cabeça“, de Bidu Queiroz e Cláudio Barroso, somam-se a “Sim ou Não?“, estreia de Tiago Leitão, e “Recife Frio“, de Kleber Mendonça Filho. A sessão (2 de fevereiro) tem entrada mediante doação de 1kg de alimento, reforçando o caráter social do festival.

A Mostra de Cenas Curtas

A Mostra Janeiro de Cenas Curtas ocupará o Teatro Barreto Júnior entre 16 e 18 de janeiro. Com 27 cenas de 8 a 15 minutos cada, a mostra funciona como laboratório onde atores e autores estreantes podem experimentar diante do público.

A premiação dos três melhores trabalhos e a entrega de troféus para melhor direção e melhores atuações cria um circuito de legitimação que pode ser decisivo para carreiras artísticas. O formato permite experimentação que seria mais difícil em espetáculos de longa duração, funcionando como termômetro das tendências da cena teatral emergente.

Dimensão Territorial

O JGE 2026 se expande do Recife para Jaboatão dos Guararapes, Camaragibe, Goiana e Limoeiro. A programação internacional conta com obras da Argentina, Portugal e Eslováquia, complementada por produções de Brasília, Rio de Janeiro, Maceió e São Paulo.

Homenageados

Maestro Duda. Foto Divulgação

Ator, diretor, dramaturgo e jornalista José Mário Austragésilo. Foto: Divulgação

Severino Florêncio no espetáculo A visita. Foto: Divulgação

Os homenageados desta edição representam diferentes gerações e linguagens que contribuíram para a construção da cena cultural pernambucana. José Mário Austragésilo e Severino Florêncio, no teatro, são nomes fundamentais da dramaturgia e da direção teatral no estado. Austragésilo é reconhecido como um dos principais responsáveis pela modernização do teatro pernambucano, tendo dirigido espetáculos que marcaram época e formado gerações de atores.

Severino Florêncio defende uma vertente popular do teatro pernambucano, com trabalhos que dialogam diretamente com as tradições culturais do estado. Sua obra inclui adaptações de folhetos de cordel, autos natalinos e espetáculos que incorporam elementos do mamulengo e outras manifestações populares.

Mestra Nice, homenageada na dança, é uma das principais responsáveis pela preservação e renovação das danças populares pernambucanas. Seu trabalho de pesquisa e ensino tem formado bailarinos que atuam tanto em grupos tradicionais quanto em companhias contemporâneas.

A Escola Pernambucana de Circo, homenageada na categoria circo, constitui um marco na formação circense do estado. Fundada com o objetivo de profissionalizar e democratizar o acesso às artes circenses, a escola tem formado gerações de artistas que hoje atuam em companhias nacionais e internacionais.

Rose Mary Martins, na ópera, é pioneira na difusão desta linguagem em Pernambuco. Seu trabalho como cantora, professora e produtora tem sido fundamental para a criação de um público e de uma cena operística no estado.

Maestro Duda, homenageado na música, é um dos maiores compositores, arranjadores e instrumentistas do frevo pernambucano. Sua obra inclui arranjos para orquestras sinfônicas, grupos de frevo e big bands, além de composições próprias que se tornaram clássicos do repertório carnavalesco.

Troféus e parcerias

Quanto ao Prêmio JGE Copergás será entregue no dia 4 de fevereiro no Teatro do Parque, com 30 troféus distribuídos em seis categorias, apontado como um termômetro da produção artística do estado. 

A realização do JGE une diferentes instâncias através da parceria entre a Apacepe (Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco), o Sesc e um conjunto de apoiadores institucionais. Suape figura como patrocinador máster, enquanto Fundarpe (Governo do Estado de Pernambuco), Fundação de Cultura Cidade do Recife e Secretaria de Cultura da Prefeitura do Recife atuam como parceiros institucionais. A Copergás mantém o tradicional patrocínio do prêmio que encerra o festival.

Os ingressos variam entre R$ 10 e R$ 140, com opções de espetáculos gratuitos mediante doação de 1kg de alimento não perecível, democratizando o acesso à cultura.

SERVIÇO

Abertura : Moda e Manguebeat
Em 7 de janeiro no Teatro de Santa Isabel, pela primeira na história do festival, o JGE inicia celebrando a moda pernambucana.
Anamauê – Ecoando a Revolução
Estilista: Mendx
Conceito: 20 figurinos inspirados na estética do Movimento Mangue
Elenco: Artistas como Íris e Iara Campos, Pinho, Minininho, Fabiana Pirro e Louise França (filha de Chico Science)

Estrutura e Alcance do Festival
📍 Locais no Recife
Teatro de Santa Isabel
Teatro do Parque
Teatro Apolo
Teatro Hermilo Borba Filho
Teatro Barreto Júnior
Teatro Capiba
Arraial Ariano Suassuna
Teatro André Filho (Espaço Fiandeiros)
Casa de Alzira
Praça do Campo Santo
Cinema São Luiz

🌍 Expansão Regional
Jaboatão dos Guararapes
Camaragibe
Goiana
Limoeiro

🌎 Participação Internacional
Além das produções nacionais (Brasília, Rio de Janeiro, Maceió, São Paulo), o festival recebe obras da 
Argentina
Portugal
Eslováquia

Destaques Especiais
🏆 Homenageados 2026
Teatro: José Mário Austragésilo e Severino Florêncio
Dança: Mestra Nice
Circo: Escola Pernambucana de Circo
Ópera: Rose Mary Martins
Música: Maestro Duda

🎭 Mostra Janeiro de Cenas Curtas
Local: Teatro Barreto Júnior (16-18 de janeiro)
Objetivo: Dar visibilidade a atores e autores iniciantes
Formato: 27 cenas de 8 a 15 minutos
Premiação: Melhores trabalhos, direção e atuações

🏅 Prêmio JGE Copergás
Data: 4 de fevereiro no Teatro do Parque
Categorias: 30 troféus em Teatro Adulto, Teatro Infantil, Dança, Circo e Música

Informações Práticas
🎫 Ingressos: R$ 10 a R$ 140 (disponíveis na Sympla)
🆓 Opções gratuitas: Mediante entrega de 1kg de alimento não perecível

🌐 Programação completa: www.festivaljge.com.br
Realização: Apacepe (Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco)
Parcerias: Sesc, Suape, Fundarpe, Fundação de Cultura Cidade do Recife

🗓️ PROGRAMAÇÃO POR DATA

07 DE JANEIRO
19h – ABERTURA DO 32º JANEIRO DE GRANDES ESPETACULOS (Teatro Santa Isabel) – Teatro Adulto – Livre
19h – OPHÉLIA (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 14 anos

08 DE JANEIRO
16h30 – TATU-DO-BEM (Teatro Apolo) – Teatro Infantil – Livre
19h – A PAIXÃO SEGUNDO JOSÉ FRANCISCO FILHO (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – Livre
20h – DOM CASMURRO (Teatro Capiba) – Teatro Adulto – 14 anos

09 DE JANEIRO
18h – HERMANOS – UMA COMÉDIA DE IRMÃOS (Teatro Barreto Júnior) – Teatro Adulto – 14 anos
19h – MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS (Teatro do Parque) – Teatro Adulto – 14 anos
19h30 – A DIVINA & O ESPLENDOR – UMA FARÇA FORÇADA (Teatro Apolo) – Teatro Adulto – 12 anos
20h – AUTO DA COMPADECIDA – UMA FARSA MODERNESCA (Teatro Santa Isabel) – Teatro Adulto – 12 anos
20h – MISTURA NORDESTINA (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Música – Livre
20h – JANGA (Teatro Hermilo Borba Filho) – Música – Livre
20h – DOM CASMURRO (Teatro Capiba) – Teatro Adulto – 14 anos

10 DE JANEIRO
15h – Oficina: “Maestro Edson Rodrigues – Do Frevo ao Jazz” (Caixa Cultural) – Música – 14 anos – GRATUITO
16h30 – JEREMIAS E AS CARAMINHOLAS (Teatro Barreto Júnior) – Teatro Infantil – Livre
16h30 – EU, VOCÊ E O CIRCO ALAKAZAM (Teatro Hermilo Borba Filho) – Circo – Livre
18h – MOINHO (Teatro Capiba) – Teatro Adulto – 18 anos
19h30 – Maestro Duda – Uma Visão Nordestina (Caixa Cultural) – Música – Livre – GRATUITO
19h30 – POLI DA RAIZ AO CANTO (Teatro do Parque) – Música – Livre
20h – AUTO DA COMPADECIDA – UMA FARSA MODERNESCA (Teatro Santa Isabel) – Teatro Adulto – 12 anos
20h – O ALIENISTA – CASA DOS LOUCOS (Teatro Apolo) – Teatro Adulto – 12 anos
20h – PERNAMBUCO ARRETADO (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Música – Livre

11 DE JANEIRO
16h – VOSSA MAMULENGECÊNCIA (Teatro Capiba) – Teatro Adulto – 14 anos
16h30 – HISTÓRIAS PONTILHADAS (Caixa Cultural) – Teatro Infantil – Livre 
16h30 – A PRINCESA DOS MARES (Teatro Santa Isabel) – Teatro Infantil – Livre
17h – NORDESTINADOS IN CIRCUS (Teatro Apolo) – Circo – Livre
17h – O ÚLTIMO CIGARRO (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Teatro Adulto – 12 anos
17h – SEM NOME O DESEMPREGADO (Teatro Hermilo Borba Filho) – Circo – Livre
17h – O SEGREDO DA ARCA DE TRANCOSO (Teatro do Parque) – Teatro Infantil – Livre
19h – VOSSA MAMULENGECÊNCIA (Teatro Capiba) – Teatro Adulto – 14 anos

13 DE JANEIRO
18h30 – WICKED (Teatro Santa Isabel) – Teatro Adulto – 12 anos
19h – Mary En em Riso e Caos (Casa de Alzira) – Circo – 16 anos
19h30 – HBLYNDA EM TRASITO (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 16 anos
20h30 – LANÇAMENTO LIVRO “CEGONHA DE MIM” (Casa de Alzira) – Circo – Livre – GRATUITO

14 DE JANEIRO
18h30 – WICKED (Teatro Santa Isabel) – Teatro Adulto – 12 anos
19h – BEM ME QUERO (Casa de Alzira) – Circo – Livre
19h – TURBANTES (Teatro Capiba) – Dança – Livre
19h – ENCRUZILHADA AGRESTE (Teatro Hermilo Borba Filho) – Música – 12 anos

15 DE JANEIRO
19h – CABARÉ JANEIRO DE PALHAÇAS (Caixa Cultural) – Circo – 16 anos 
19h – ATORES (Teatro Santa Isabel) – Teatro Adulto – 12 anos
19h30 – LUZ E FÉ (Teatro Capiba) – Música – Livre
20h15 – NOITE (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 14 anos

16 DE JANEIRO
19h – AS TESTEMUNHAS DUO: A APARIÇÃO (Teatro Apolo) – Circo – Livre
19h30 – O DIÁRIO QUASE RIDÍCULO DE AURORA (Teatro Capiba) – Teatro Adulto – 14 anos
19h30 – Maestro Duda – Uma Visão Nordestina (Caixa Cultural) – Música – Livre – GRATUITO
19h30 – CANTIGAS A PEDRA DO REINO (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 14 anos
19h30 – O LAGO DOS CISNES (Teatro Santa Isabel) – Dança – Livre
20h – MCP – O SONHO NÃO ACABOU (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Teatro Adulto – 14 anos
20h – SUZY BRASIL – UMA NOITE HORRIPILANTE (Teatro do Parque) – Teatro Adulto – 16 anos

17 DE JANEIRO
16h – MATILDA (Cine Teatro Samuel Campelo) – Teatro Infantil – Livre
18h – FRANCISCO – UM INSTRUMENTO DE PAZ (Teatro do Parque) – Teatro Adulto – 14 anos
19h – UMANA (Teatro Santa Isabel) – Circo – Livre
19h30 – Do Frevo ao Jazz (Caixa Cultural) – Música – Livre – GRATUITO

18 DE JANEIRO
11h – FÓRUM Entre Narizes e Fronteiras: Palhaçaria Feminina em Diálogo Brasil–Portugal (Caixa Cultural) – Circo – Livre – GRATUITO
14h – Oficina: Já que sou do pandeiro (Caixa Cultural) – Música – 14 anos – GRATUITO
15h30 – AS CHARLATONAS (Praça do Campo Santo Amaro) – Circo – Livre – GRATUITO
16h – A CIGARRA E A FORMIGA (Teatro do Parque) – Teatro Infantil – Livre
16h30 – HAMILET NO CIRCO (Teatro Apolo) – Teatro Infantil – Livre
16h30 – AS TESTEMUNHAS DUO: A APARIÇÃO (Sesc Camaragibe) – Circo – Livre – GRATUITO
17h – O PEQUENO PRINCIPE (Teatro Santa Isabel) – Teatro Infantil – Livre
18h – FEVEREIRO (Teatro Capiba) – Teatro Adulto – 16 anos
18h00 – A ORAÇÃO (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Circo – 16 anos

20 DE JANEIRO
10h – Oficina: O universo clássico-popular (Caixa Cultural) – Música – Livre – GRATUITO
14h – Oficina: O universo clássico-popular (Caixa Cultural) – Música – Livre – GRATUITO
19h – A BELA ADORMECIDA (Teatro Santa Isabel) – Dança – Livre
19h30 – DO JACKSON AO PANDEIRO por Lucinha Guerra (Caixa Cultural) – Música – Livre 

21 DE JANEIRO
19h – ELAS CANTAM ELBA (Teatro do Parque) – Música – Livre
19h30 – Rock Bossa (Caixa Cultural) – Música – Livre 
19h30 – PELA NOITE (Teatro Santa Isabel) – Teatro Adulto – 16 anos
20h – CÚMPLICES – TRANSGRESSÕES DE UM RICARDO III (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 12 anos

22 DE JANEIRO
19h – CÚMPLICES – TRANSGRESSÕES DE UM RICARDO III (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 12 anos
19h – UM MINUTO PRA DIZER QUE TE AMO (Teatro Santa Isabel) – Teatro Adulto – 14 anos
20h – FELIPE COSTTA TRIO – FREVO SANFONADO (Teatro Capiba) – Música – Livre

23 DE JANEIRO
19h – WEBSÉRIE MARY EN 20 ANOS (Youtube da Cia Animèe) – Circo – Livre – PELO YOUTUBE
19h – UM SÁBADO EM 30 (Teatro do Parque) – Teatro Adulto – Livre
19h30 – CONCERTO DE MÚSICA EUROPÉIA E LATINA (Teatro André Filho – Espaço Fiandeiros) – Música – Livre – 
19h30 – MPB BRASIL (Teatro Santa Isabel) – Música – Livre
20h – MEDEIA – DA LAMA AO CAOS (Teatro Barreto Júnior) – Teatro Adulto – 16 anos
20h – CIRCO GODOT (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Teatro Adulto – Livre
20h – CÚMPLICES – TRANSGRESSÕES DE UM RICARDO III (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 12 anos

24 DE JANEIRO
16h – CANTIGAS DE FIAR (Teatro André Filho – Espaço Fiandeiros) – Teatro Infantil – Livre
16h30 – CAMINHOS (Teatro Capiba) – Circo – 12 anos
18h – UM SÁBADO EM 30 (Teatro do Parque) – Teatro Adulto – Livre
19h – MM BEAUTY UNIVERSAL PERNAMBUCO (Teatro Barreto Júnior) – Dança – Livre – GRATUITO
19h – CORPOS EM TRAVESSIA (Teatro Apolo) – Dança – Livre
19h – CIRCO GODOT (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Teatro Adulto – Livre
20h – PURO TRANSE AO VIVO (Casa de Alzira) – Música – Livre
20h – MILAGRES (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 12 anos
20h – ZAMBO (Teatro Santa Isabel) – Dança – Livre

25 DE JANEIRO
16h – CANTIGAS DE FIAR (Teatro André Filho – Espaço Fiandeiros) – Teatro Infantil – Livre
16h30 – TUDO COMEÇOU ASSIM (Teatro Apolo) – Teatro Infantil – Livre
17h – SÓ RESTA A POEIRA PRA TRÁS (Teatro Capiba) – Teatro Adulto – Livre
17h – CIRCO GODOT (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Teatro Adulto – Livre
18h – MM BEAUTY UNIVERSAL PERNAMBUCO (Teatro Barreto Júnior) – Dança – Livre – GRATUITO
18h – SANTERIA AFOXÉ OXUM PANDÁ (Teatro Santa Isabel) – Música – Livre
19h – MILAGRES (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 12 anos

27 DE JANEIRO
17h – OS PROTETORES DO OCEANO (Teatro Capiba) – Teatro Infantil – Livre
18h30 – ROUBANDO A CENA (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Teatro Adulto – 12 anos
19h30 – FEUZA – ROCK / ÓPERA (Teatro do Parque) – Música – Livre
19h45 – SAUDADE, SENTIMENTO SEM TRADUÇÃO (Teatro Apolo) – Teatro Adulto – 12 anos
20h – MILAGRES (Galpão das Artes – Sesc Limoeiro) – Teatro Adulto – 12 anos – INGRESSO NO LOCAL

28 DE JANEIRO
16h – F.A.M.A – FELIZ ANIVERSÁRIO MEU AMOR (Teatro do Parque) – Teatro Adulto – Livre – GRATUITO
19h – AUTO DA COMPADECIDA – UMA FARSA MODERNESCA (Cine Teatro Samuel Campelo) – Teatro Adulto – 12 anos
19h30 – IMORAIS (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 18 anos
19h30 – TUDO ACONTECE NA BAHIA (Teatro Santa Isabel) – Dança – Livre
20h – MILAGRES (Galpão das Artes – Sesc Limoeiro) – Teatro Adulto – 12 anos – INGRESSO NO LOCAL

29 DE JANEIRO
19h – AUTO DA COMPADECIDA – UMA FARSA MODERNESCA (Cine Teatro Samuel Campelo) – Teatro Adulto – 12 anos
19h – MEUS 20 MINUTOS DE RECREIO (Teatro Apolo) – Teatro Adulto – 14 anos
19h – ANTONIN ARTAUD – ENTRE A ORDEM E A VERTIGEM (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Teatro Adulto – 16 anos
19h – TEREZINHA CORAÇÃO DE BARRO (Teatro Santa Isabel) – Teatro Adulto – 12 anos
19h30 – SENHORA DO ENGENHO ENTRE A CRUZ E A TORÁ (Teatro André Filho – Espaço Fiandeiros) – Teatro Adulto – 14 anos
19h30 – PEDRAS, FLOR E ESPINHO (Teatro Barreto Júnior) – Teatro Adulto – 14 anos – INGRESSO NO LOCAL
20h – CÚMPLICES – TRANSGRESSÕES DE UM RICARDO III (Galpão das Artes – Sesc Limoeiro) – Teatro Adulto – 12 anos – INGRESSO NO LOCAL

30 DE JANEIRO
19h – AUTO DA COMPADECIDA – UMA FARSA MODERNESCA (Teatro do Parque) – Teatro Adulto – 12 anos
19h – O FUTURO DURA MUITO TEMPO (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Teatro Adulto – 16 anos
19h30 – SENHORA DO ENGENHO ENTRE A CRUZ E A TORÁ (Teatro André Filho – Espaço Fiandeiros) – Teatro Adulto – 14 anos
19h30 – PEDRAS, FLOR E ESPINHO (Teatro Barreto Júnior) – Teatro Adulto – 14 anos – INGRESSO NO LOCAL
19h30 – IGOR DE CARVALHO E MORENO VELOSO (Teatro Santa Isabel) – Música – Livre
20h – CASA VAZIA (Teatro Capiba) – Dança – 16 anos
20h – MEUS 20 MINUTOS DE RECREIO (Teatro Apolo) – Teatro Adulto – 14 anos
20h – Ọ̀ṢUN OXUM OCHUN – AFOXÉ OXUM PANDÁ + LUIZ DE AQUINO (Teatro Hermilo Borba Filho) – Música – Livre

31 DE JANEIRO
17h – AUTO DA COMPADECIDA – UMA FARSA MODERNESCA (Teatro do Parque) – Teatro Adulto – 12 anos
19h – CARTA A SPINOZA (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Teatro Adulto – Livre
19h – ANASTÁCIA (Teatro Santa Isabel) – Música – 16 anos
19h30 – O JARDIM DAS FLORES MORTAS (Teatro Apolo) – Teatro Adulto – 14 anos
20h – ASTEROIDE AP162 (Teatro Capiba) – Teatro Adulto – 14 anos
20h – CORAÇÃO SAUDOSIANO EM VERSO E CANTO (Teatro Hermilo Borba Filho) – Música – Livre
21h – ANASTÁCIA (Teatro Santa Isabel) – Música – 16 anos

1º DE FEVEREIRO
15h – FESTIVAL FLORESCER DE DANÇAS ÁRABES E FUSÕES (Teatro Barreto Júnior) – Dança – Livre 
16h30 – SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO (Teatro Apolo) – Teatro Infantil – 14 anos
18h – FESTIVAL FLORESCER DE DANÇAS ÁRABES E FUSÕES (Teatro Barreto Júnior) – Dança – Livre 
18h – FESTIVAL POLE DANCE DE PERNAMBUCO (Teatro Santa Isabel) – Dança – Livre
19h – BOCA SECA (Teatro Capiba) – Dança – 18 anos
19h – CIRCO SCIENCE DO MANGUE AO PICADEIRO (Teatro do Parque) – Circo – Livre

03 DE FEVEREIRO
20h – AUTO DA COMPADECIDA – UMA FARSA MODERNESCA (Sesc Ler Goiana) – Teatro Adulto – 12 anos – INGRESSO NO LOCAL

04 DE FEVEREIRO
19h – PRÊMIO JGE COPERGÁS (Teatro do Parque)

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Potência criativa
em busca de amplitude 
eis as artes cênicas no Recife

Édipo REC, do Grupo Magiluth. Foto: Camila Macedo

Pedro Wagner como Tirésias em Édipo REC. Foto: Camila Macedo

Circo Godot, com direção de Quiecles Santana, já viajou por vários países

O Grupo Magiluth está em casa, no Recife, neste fim de semana festejando duas décadas de pesquisa cênica que posicionam o coletivo como uma das companhias mais inventivas do teatro brasileiro contemporâneo. Édipo REC, com dramaturgia de Giordano Castro e direção de Luiz Fernando Marques (Lubi), abarca o amadurecimento de uma linguagem que atravessa experimentalismo, teatro político e reinvenção de clássicos. A montagem exige execução complexa ao articular teatro, performance, música e cinema com projeções ao vivo – um desafio técnico que encontra no Teatro Luiz Mendonça, no Parque Dona Lindu, o espaço adequado para sua realização.

A temporada meteórica do Magiluth se soma a uma programação que revela um “flagrante” de diversidade do circuito teatral recifense: o giro de O Mercador de Veneza, com Dan Stulbach e elenco, pela estrutura nacional da Caixa Cultural, montagens como Circo Godot, dirigido por Quiercles Santana, ocupando o Teatro Hermilo Borba Filho (equipamento municipal vocacionado para trabalhos mais experimentais) e Caliuga no Teatro Joaquim Cardozo, espaço universitário da UFPE que abriga a reflexão da Cia. de Teatro Negro Macacada sobre identidade racial e mercado de trabalho.

O Diário de Villeneuve apresenta o teatro de terror da Cia Imaginarium; Histórias do Meu Povo desenvolve trabalho decolonial no Espaço O Poste, o 21º Festival de Teatro para Crianças celebra inclusão e tradição, e o fenômeno de longevidade que é A Noviça Mais Rebelde, com 16 anos consecutivos em cartaz, mais de 600 mil espectadores, um sucesso que se renova.

Esta movimentação, contudo, também expõe limitações estruturais. Enquanto teatros municipais Santa Isabel, Parque e Hermilo são ocupados intensamente, o Teatro Arraial Ariano Suassuna passa sem programação neste fim de semana, assim como os teatros Marco Camarotti e Capiba do SESC.

Para uma capital de 1,7 milhão de habitantes – 4 milhões na região metropolitana – que já presenteou o mundo com o Manguebeat e faz o público se orgulhar do cinema brasileiro, com suas produções audiovisuais, a cena teatral atual, por mais qualificada que seja, ainda opera aquém de seu potencial.

Recife é uma metrópole que pulsa cultura em suas veias desde os tempos coloniais. Capital que gerou movimentos estéticos inovadores, mantém tradições seculares e continua produzindo artistas que conquistam o país, a cidade possui criadores, público e vocação para sustentar um circuito teatral muito mais amplo.

Faltam políticas públicas mais ousadas e consistentes para as artes cênicas pernambucanas: tanto no fomento institucional a grupos locais quanto na modernização e ampliação dos equipamentos culturais.

Mas será que o problema se resume apenas ao poder público? Recife também carece de investidores privados que compreendam o valor cultural e econômico de uma cena teatral articulada – e aqui cabe perguntar: ainda existem mecenas verdadeiros, amantes do teatro dispostos a apostar nesta arte viva?

Narrativas encontradas numa garrafa pet na beira da maré. Foto: Jorge Farias

Uma provocação recente de um diretor e curador bem conceituado, que conhece bem a realidade teatral recifense, merece reflexão: além do Magiluth, que circula nacionalmente com seu repertório diversificado, e do Grupo São Gens de Teatro, que recentemente com Narrativas Encontradas Numa Garrafa Pet na Beira da Maré furou a bolha, percorreu festivais e conquistou o Brasil, quantos outros espetáculos produzidos no Recife estariam verdadeiramente “prontos” para encarar uma temporada em São Paulo, por exemplo?

Para esse curador, o problema central não são os recursos: falta desejo de fazer, de ousar, de quebrar paradigmas, de marcar a diferença para além dos circuitos locais. Falta ambição artística que tenha potência para uma circulação nacional sem perder a identidade pernambucana.

E você, leitora, leitor? O que pensa sobre essa provocação? Concorda que falta ousadia criativa ou acredita que a questão é mesmo estrutural?

Grupo Experimental leva Zambo com a 5ª geração para a França

Há evidências de que quando o incentivo chega, a arte pernambucana demonstra sua força. O Grupo Experimental de Dança, que desde 1993 assume lugar de destaque na dança contemporânea nordestina pela originalidade e contribuição para a profissionalização da cena recifense, comprova essa potência. Enfrentando o quadro geral das artes cênicas em Pernambuco – escassez de recursos, poucos editais, dificuldades estruturais –, o grupo resiste e insiste, como muitos outros. Agora, através do Programa Funarte Brasil Conexões Internacionais, no âmbito do Ano Cultural Brasil-França 2025, leva o espetáculo Zambo para terras francesas.

Da andada pelo mangue à travessia do oceano, cantarola o grupo. Zambo, criado em 1997 como homenagem ao Movimento Manguebeat e a Chico Science, será apresentado no Festival Baluê, em Lyon, com a 5ª geração de bailarinos da obra. Quase 30 anos depois de sua criação, o espetáculo reforça a atemporalidade do movimento mangue e a importância da manutenção cultural através da resistência artística. É vida o que brota desse mangue fértil recifense, e quando há incentivo adequado, essa vida corre e move o mundo.

VAMOS AOS ROLÊS CÊNICOS NO RECIFE

Magiluth redefine a tragédia clássica em chave contemporânea

Édipo REC faz festa e chama para a reflexão sobre o “destino”. Foto: Camila Macedo / Divulgação

Vinte anos de investigação cênica do Grupo Magiluth culminam em Édipo REC, espetáculo que chega como confluência poética e política de uma trajetória que redesenhou fronteiras do teatro experimental brasileiro. Desde 2004, o coletivo pernambucano estabeleceu-se como laboratório de linguagens híbridas, circulando por festivais nacionais e internacionais com propostas que interrogam obsessões do tempo presente. Esta montagem configura-se como o ápice dessa pesquisa: uma reflexão vertiginosa sobre identidade, poder e representação na era digital.

A inventividade de Luiz Fernando Marques (Lubi) na direção materializa-se na construção de um dispositivo cênico que dissolve hierarquias tradicionais entre palco e plateia, transformando o teatro em arena participativa onde espectadores se tornam testemunhas ativas da tragédia. A dramaturgia de Giordano Castro opera em estratos temporais simultâneos, tecendo conexões inesperadas entre o mito sofocliano e neuroses contemporâneas, criando uma experiência que é simultaneamente espetáculo teatral, happening performático e ensaio crítico sobre nossos vícios imagéticos.

O universo sonoro e visual da montagem está repleto de sofisticação técnica : Jathyles Miranda assina design de luz que dialoga com as projeções ao vivo, enquanto Chris Garrido desenvolve figurinos que transitam entre referências clássicas e estética digital. A trilha sonora, executada em tempo real pelo próprio grupo, atua como outra voz dramatúrgica, comentando e amplificando tensões narrativas. Clara Caramez coordena o vídeo maping que transforma o espaço em território instável, onde realidade e simulacro se confundem deliberadamente.

Nash Laila injeta energia quase juvenil em Jocasta, construindo uma matriarca que oscila entre vulnerabilidade e manipulação midiática. Erivaldo Oliveira comanda o Coro-drag com maestria afiada, destilando crítica social através de humor corrosivo que expõe contradições do espetáculo político brasileiro. Giordano Castro, além de dramaturgo, interpreta um Édipo dilacerado entre sede de fama e terror da exposição, personificando o sujeito contemporâneo viciado em likes e aterrorizado pela própria imagem.

Bruno Parmera desenvolve performance notável como Corifeu-cameraman, figura que questiona a própria natureza do olhar teatral. Lucas Torres transforma o Mensageiro em personagem complexo, dotado de densidade que supera a função tradicional de porta-voz dos acontecimentos. A interpretação ganha dimensões adicionais quando descobrimos que, diferentemente das tragédias clássicas, este Mensageiro possuía intimidade especial com Laio, tornando-se depositário de segredos e cúmplice de rituais privados.

Reconhecido do audiovisual brasileiro por atuações marcantes em Irmandade (Netflix), O Jogo que Mudou a História (Globoplay) e mais recentemente em Guerreiros do Sol (Globoplay), além de participações em Cangaço Novo (Prime Video) e no filme Lispectorante, de Renata Pinheiro, Pedro Wagner constrói um Tirésias de múltiplas identidades. Seu figurino que combina elementos femininos e masculinos faz referência à metamorfose mitológica do personagem e comenta a fluidez de gênero e performance identitária. Mário Sergio encarna Creonte, irmão de Jocasta e político pragmático que ambiciona o poder através de alianças estratégicas.

Édipo REC opera como um caleidoscópio crítico de nossa época. Tempo em que todos produzimos, editamos e performamos versões idealizadas de nós mesmos, alimentando algoritmos que nos observam e julgam incessantemente. O espetáculo expõe engrenagens de uma sociedade obcecada por autorrepresentação, investigando como a fronteira entre pessoa e personagem se torna cada vez mais porosa e problemática.

SERVIÇO
📍 Teatro Luiz Mendonça – Parque Dona Lindu
📅 25 e 26 de julho, às 20h
🎟️ R$ 30 a R$ 120
Mais Informações: @magiluth | @teatroluizmendonca

FICHA TÉCNICA
Criação: Grupo Magiluth, Nash Laila e Luiz Fernando Marques
Direção: Luiz Fernando Marques
Dramaturgia: Giordano Castro
Elenco: Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, Mário Sergio Cabral, Nash Laila e Pedro Wagner
Design de luz: Jathyles Miranda
Designe gráfico: Mochila Produções
Figurino: Chris Garrido
Trilha sonora: Grupo Magiluth, Nash Laila e Luiz Fernando Marques
Cenografia e montagem de vídeo: Luiz Fernando Marques
Cenotécnico: Renato Simões
Vídeo maping e operaçao: Clara Caramez
Captação de imagens: Bruno Parmera, Pedro Escobar e Vitor Pessoa
Equipe de produção de vídeo: Diana Cardona Guillén, Leonardo Lopes, Maria Pepe e Vitor Pessoa
Produção: Grupo Magiluth

 

O Mercador de Veneza na Caixa Cultural 

O Mercador de Veneza. Foto: Ronaldo Gutierrez / Divulgação

A montagem de O Mercador de Veneza que chega ao Recife propõe uma leitura contemporânea radical de um dos textos mais controversos de William Shakespeare. Sob a direção de Daniela Stirbulov, a adaptação desloca o foco narrativo tradicional para construir Shylock como protagonista absoluto, transformando o agiota judeu de vilão shakespeariano em centro moral da história. Esta escolha dramatúrgica ressignifica completamente a obra, revelando as estruturas de poder e preconceito que sustentam a sociedade veneziana – e, por extensão, a nossa.

A transposição temporal para os anos 1990 vai além da estética. A direção identifica nessa década o momento de aceleração da globalização e emergência de uma nova ordem mundial, contexto que dialoga diretamente com o capitalismo emergente do século XVI retratado por Shakespeare. Stirbulov cria um universo onde as tensões entre tradição e modernidade, local e global, se materializam através de conflitos religiosos e econômicos que ecoam tanto na Veneza renascentista quanto na sociedade neoliberal contemporânea.

O núcleo dramático permanece o mesmo: Antônio, o mercador cristão, contrai empréstimo com Shylock para financiar os planos românticos de seu amigo Bassânio. A garantia macabra – uma libra de carne humana – funciona como metáfora sobre os custos humanos do sistema financeiro. Quando a dívida não é quitada, o julgamento que se segue expõe a sede de vingança de Shylock e a hipocrisia de uma sociedade que pratica antissemitismo sistemático enquanto se beneficia dos serviços financeiros dos judeus.

A cenografia concebida para a montagem materializa essas tensões através de linguagem visual que utiliza uma estrutura acrílica transparente no centro do palco como tablado elevado, criando múltiplos níveis de representação que sugerem tanto tribunal quanto mercado financeiro. O painel circular de LED no alto do palco desenha palavras e frases conectadas à ação, funcionando como comentário visual que amplifica subtextos da narrativa. A presença de um operador de câmera captando imagens em tempo real, projetadas simultaneamente no painel, estabelece diálogo direto com nossa era de vigilância digital e espetacularização da vida privada.

A trilha sonora executada ao vivo por uma baterista no palco adiciona pulsação contemporânea à dramaturgia, criando atmosfera que oscila entre tensão financeira e violência urbana. Dan Stulbach, no papel de Shylock, constrói interpretação que humaniza o personagem sem romantizá-lo, revelando as contradições de um homem que é simultaneamente vítima do preconceito social e algoz implacável quando obtém poder de retaliação.

A montagem confronta o público com questões sobre intolerância, identidade e justiça que permanecem urgentes, evidenciando como vilões e heróis se confundem nas máscaras sociais. A obra, atravessada por tensões religiosas e preconceitos, mantém sua relevância ao abordar transformações nas relações humanas e tensões sociais que atravessam séculos.

A produção chega ao Recife após temporada de sucesso na CAIXA Cultural do Rio de Janeiro, consolidando-se como uma das adaptações shakespearianas mais provocativas em cartaz no país.

FICHA TÉCNICA
Texto: William Shakespeare
Direção: Daniela Stirbulov
Tradução, Adaptação e Assistência de Direção: Bruno Cavalcanti
Elenco: Dan Stulbach, Augusto Pompeo, Amaurih Oliveira, Cesar Baccan, Gabriela Westphal, Júnior Cabral, Marcelo Diaz, Marcelo Ullmann, Marisol Marcondes, Rebeca Oliveira, Renato Caldas, Thiago Sak
Baterista em Cena: Caroline Calê
Cenografia: Carmem Guerra
Cenotécnico: Douglas Caldas
Desenho de Luz: Wagner Pinto e Gabriel Greghi
Figurino e Visagismo: Allan Ferc
Assistente de Figurino: Denise Evangelista
Peruqueiros: Dhiego Durso e Raquel Reis
Direção de Movimento: Marisol Marcondes
Aderecista: Rebeca Oliveira
Consultoria sobre Shakespeare: Ricardo Cardoso
Vídeo e Imagem: André Voulgaris
Fotos: Ronaldo Gutierrez
Design Gráfico: Rafael Oliveira Branco
Operação de Luz: Jorge Leal
Operação de Som: Rodrigo Rios
Assistente de Produção: Amanda Nolleto
Produção Executiva: Raquel Murano
Direção de Produção: Cesar Baccan e Marcelo Ullmann
Produção: Kavaná Produções e Baccan Produções
Realização: CAIXA Cultural

SERVIÇO
📍CAIXA Cultural Recife – Av. Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife
📅 24 de julho a 2 de agosto (quinta a sábado)
🕐20h
🎟️ R$ 30 (inteira) | R$ 15 (meia-entrada para clientes CAIXA e casos previstos em lei)
📞(81) 3425-1915
<
🔞Não recomendado para menores de 12 anos
♿Acesso para pessoas com deficiência

 

Circo Godot é comédia física que espelha relações de poder

Asaías Rodrigues e Charles de Lima em Circo Godot. Foto: Divulgação

A Companhia Circo Godot de Teatro, fundada em 2010 por Asaías Rodrigues, Andrezza Alves e Damiano Massachesi, com posterior chegada de Charles de Lima, desenvolve há mais de uma década uma linguagem cênica singular que entrelaça teatro físico, circo e crítica social. O coletivo de artistas encontrou na fusão dessas linguagens uma forma potente de comunicação que atravessa barreiras culturais e geracionais, como comprova a circulação internacional do grupo por países como Grécia, Tunísia e Itália.

O espetáculo Circo Godot constrói-se sobre alicerces dramatúrgicos sólidos: a comicidade rústica dos bufões medievais e a tradição da comédia pastelão se combinam ao teatro físico contemporâneo e ao gromelô – linguagem gestual que prescinde de palavras para comunicar emoções e situações complexas. Esta escolha estética permite que a obra dialogue com públicos diversos, independentemente de idioma ou origem cultural.

A inspiração beckettiana surge de forma livre e criativa através dos personagens Pozzo e Lucky, figuras de Esperando Godot que aqui ganham nova roupagem como Gatropo e Tropino. Asaías Rodrigues e Charles de Lima constroem uma dupla de vagabundos que perambula pelo mundo oferecendo entretenimento para sobreviver, mas que carrega em sua dinâmica relacional uma crítica feroz às estruturas de poder que permeiam nossa sociedade.

A força da proposta reside na simplicidade aparente que revela múltiplas possibilidades de leitura: Gatropo emerge como o chefe autoritário que ordena, explora, desconfia e intimida, empunhando o chicote como símbolo de sua autoridade. Tropino, por sua vez, representa o subalterno ingênuo e alegre, faz-tudo que aceita sua condição com resignação aparente. A tensão dramática nasce da mesquinhez do primeiro e da ameaça latente que o segundo representa ao posto de comando estabelecido.

O desenvolvimento dramatúrgico conduz a plateia através de ações cotidianas que gradualmente revelam a toxicidade da relação hierárquica entre os personagens. Conforme evoluem os números circenses – equilibrismo, malabarismo, acrobacias -, emergem sentimentos mútuos de desprezo que culminam em reviravolta inesperada provocada por um descuido aparentemente insignificante. Esta estrutura narrativa espelha como pequenos eventos podem desestabilizar sistemas de poder aparentemente sólidos.

A direção de Quiercles Santana solicita participação ativa da plateia, transformando cada apresentação em experiência única e irrepetível. O espetáculo se apresenta como provocação reflexiva sobre ganância dos poderosos e sadismo inerente às relações de dominação, ativando o que o diretor define como “sentido lúdico do existir”.

A versatilidade da montagem manifesta-se em sua capacidade de adaptação a diferentes espaços: teatros convencionais, ruas, praças e pátios se transformam em palcos para esta comédia física que prescinde de cenários elaborados. O desenho de luz delicado de Luciana Raposo valoriza a expressividade corporal dos intérpretes, enquanto a produção executiva de Juan Saucedo garante a circulação eficiente do espetáculo.

A temporada recifense oferece oportunidade rara de contato com uma proposta original do teatro físico brasileiro contemporâneo, trabalho que demonstra como poucos recursos cênicos podem gerar grande impacto teatral quando sustentados por pesquisa artística consistente e olhar crítico sobre a realidade social.

SERVIÇO:
📍Teatro Hermilo Borba Filho
📅 24 e 25 de julho (quinta e sexta), às 20h
📅 26 de julho (sábado), às 17h
🎟️Ingressos www.sympla.com.br e na bilheteria do teatro (abre 1h antes do evento)

FICHA TÉCNICA
Criação e Interpretação: Asaías Rodrigues e Charles de Lima
Direção: Quiercles Santana
Desenho de Luz: Luciana Raposo
Fotos: Walton Ribeiro
Produção Executiva: Juan Saucedo
Companhia: Circo Godotde Teatro

 

Caliuga, teatro negro em diálogo com a luta contemporânea

Caliuga da Cia. de Teatro Negro Macacada. Foto: Gabriel Mesgo / Divulgação 

Caliuga da Cia. de Teatro Negro Macacada mergulha nas intersecções entre identidade racial e  mercado de trabalho. Através de situações concretas e reconhecíveis, a produção explora discriminação estrutural, construindo narrativa que provoca reflexão genuína sobre realidades complexas. O espetáculo faz duas apresentações no Teatro Joaquim Cardozo, espaço universitário da UFPE,

Luiz Apolinário assina dramaturgia e direção que transformam a jornada de Caliuga em espelho das contradições sociais brasileiras. Com assistência de direção de Roby Nascimento – ambos estudantes de teatro na UFPE -, a encenação parte da morte da avó protetora para explorar como a busca por trabalho se converte em luta contra destinos impostos pela própria família. Entre a maldição familiar e o sonho de cavalgar, a protagonista navega por territórios onde emprego e liberdade se entrelaçam de forma indissociável, revelando como questões raciais permeiam desde processos seletivos até a construção da identidade pessoal.

A trilha sonora concebida por César Seco e Raul Vaubruma subverte expectativas ao empregar instrumentos infantis para abordar temáticas adultas e complexas. Sons de brinquedos ganham densidade dramática inesperada, criando paisagem sonora que oscila entre nostalgia da infância perdida e dureza da realidade laboral. Diana Paraiso, comandando a produtora GRAVE!, articula produção executiva com concepção de iluminação e técnica, construindo unidade estética onde cada elemento cênico dialoga organicamente com os demais, potencializando a força narrativa do espetáculo.

Ashley Gouveia, Eva Oliveira, Roby Nascimento, Ruibeni Sales e Yastricia Santos formam elenco que materializa as múltiplas facetas da experiência negra no mundo corporativo. Inserindo-se no movimento crescente do teatro negro brasileiro, a montagem contribui para diversificação do panorama cênico.

FICHA TÉCNICA
Dramaturgia e Direção: Luiz Apolinário
Assistente de Direção: Roby Nascimento
Produção Executiva: Diana Paraiso
Assistente de Produção: Grazielly Santana
Elenco: Ashley Gouveia, Eva Oliveira, Roby Nascimento, Ruibeni Sales, Yastricia Santos
Figurino: Ruibeni Sales
Criação de Sonoplastia: Raul Vaubruma + Seconuncaraso
Cenografia: Luiz Apolinário
Concepção de Iluminação e Técnica: Diana Paraiso
Fotografia: Gabriel Mesgo
Companhia: Cia. de Teatro Negro Macacada

SERVIÇO
📍 Teatro Joaquim Cardozo – UFPE
📅 25 (sexta) e 26 (sábado) de julho
🕰️ 19h30
🎟️ Inteira R$ 20 | Meia R$ 10
🔞 Classificação: 16 anos

 

O Diário de Villeneuve: o terror que vem de longe

Espetáculo explora o suspense psicológico. Foto: Kurt Correia

O Diário de Villeneuve da Companhia Imaginarium mergulha no território do teatro de terror para recriar parte do imaginário colonial brasileiro sob ótica sombria. Com roteiro autoral de Paiva Teodósio e direção de Ester Soares, a obra explora suspense e terror psicológico através da chegada de um forasteiro misterioso ao Brasil em 1596, carregando um diário, passado repleto de sombras e sede de vingança.

Villeneuve, imigrante italiano que desembarca em terras brasileiras no século XVI, protagoniza jornada entre pactos e manipulações onde encontra figuras históricas como Branca Dias, Antônia Maria (a Senhora dos Mortos), o temido Barão de Beberibe e a enigmática Felícia Tourinho. A dramaturgia utiliza personagens reais do período colonial para construir narrativa que reconstitui Recife e Olinda através de perspectiva gótica, transformando a história em material para exploração de medos ancestrais e tensões sociais do período.

A Companhia Imaginarium, fundada em 2015 e reativada em 2022, reúne Ester Soares, Núbia Ketly e Carlos Teodósio, artistas com mais de dez anos de trajetória teatral em Jaboatão dos Guararapes e região metropolitana do Recife. O grupo tem histórico de trabalho com montagens de terror, experiência que se materializa agora em O Diário de Villeneuve, onde elementos sobrenaturais e atmosferas tensas ganham contornos através da temática colonial brasileira.

O espetáculo conta com elenco de 14 atores, demonstrando ambição cênica que permite representar múltiplas camadas da sociedade colonial. Realizada através do Sistema de Incentivo à Cultura (SIC), a produção conta com apoio da Fundarpe, Secretaria de Cultura do Recife, Solo Gens e Catamaran Tours, sendo realizada pela ONG Arco em parceria com a própria Imaginarium. A montagem oferece acessibilidade com intérprete de libras, garantindo democratização do acesso cultural.

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Paiva Teodósio
Direção: Ester Soares
Preparação de Elenco: Carlos Teodósio
Direção de Produção: Núbia Ketly
Design: Carlos Santos
Figurino: Altino Francisco
Coordenação Geral: Ester Soares
Fotografia: Matheus Bento
Sonoplastia: SECOnuncaraso
Iluminação: Anderson G-zuis
Elenco: Ester Soares, Núbia Ketly, Carlos Teodósio, Gusttavo Revorêdo, Stephan Levita, Nando Araújo, Larissa Lira, Lucas Cardoso, Cora Lima, Gui Vicente, Luna, Lucas Vinícius, Kallin Alves, Marina Lino
Apoio: Sistema de Incentivo à Cultura (SIC), Fundarpe, Secretaria de Cultura do Recife, Solo Gens, Catamaran Tours
Realização: ONG Arco e Cia Imaginarium

SERVIÇO:
📍 Teatro do Parque (24/07) e Teatro Apolo (15/08)
📅 Quinta (24) e 15 de agosto, às 19h
🎟️ R$ 20 (meia) e R$ 40 (inteira)
♿ Apresentação com intérprete de libras

 

Histórias do Meu Povo: Decolonialidade em Ação

Roma Júlia apresenta Histórias do Meu Povo. Foto: Reprodução do Instagram

O Espaço O Poste confirma sua vocação como território de experimentação e resistência cultural ao receber Histórias do Meu Povo, projeto que desde 2015 desenvolve trabalho consistente de valorização de narrativas ancestrais. Roma Julia, contadora de histórias e pedagoga, conduz uma experiência que constrói um ambiente sensorial e afetivo para celebra culturas afro-indígenas através de múltiplas linguagens.

A proposta engloba contos africanos, narrativas indígenas, itãs de orixás e histórias de lavadeiras, tudo embalado por música ao vivo e elementos visuais que incluem flores, folhas e objetos que fazem referência ao nordeste brasileiro. Para aproximar pessoas cegas e com baixa visão, aromas suaves de folhas e café são inseridos ao longo da narração, criando acessibilidade que vai além de protocolos técnicos para se tornar parte integrante da experiência estética.

O projeto se insere na programação decolonial do Espaço O Poste, que conta com apoio da Funarte através do Programa de Apoio a Ações Continuadas 2023. Esta parceria exemplifica como políticas públicas podem fomentar trabalhos que valorizam memórias historicamente marginalizadas, contribuindo para a diversidade do panorama cultural recifense. Roma Julia transforma o espaço em “jardim de memórias” onde tradição oral encontra contemporaneidade, provando que narração ancestral continua sendo ferramenta poderosa de transmissão cultural e transformação social.

SERVIÇO:
📍Espaço O Poste – Rua do Riachuelo, 641, Boa Vista
📅26 de julho, às 16h
🎟️Entrada gratuita (retirar no Sympla

 

Comédias Consolidadas

A Noviça mais rebelde, irreverência (con)Sagrada

Wilson de Santos em A Noviça mais rebelde. Foto: João Caldas / Divulgação

Wilson de Santos retorna ao Recife com um fenômeno teatral brasileiro que desafia as regras de longevidade artística. A Noviça Mais Rebelde celebra 16 anos ininterruptos em cartaz – número impressionante em qualquer contexto cultural, mas especialmente notável tratando-se de um monólogo que se reinventa a cada apresentação através da espontaneidade entre ator e plateia.

Irmã Maria José surge como personagem que desafia estereótipos religiosos: uma freira cujo passado “nada católico” serve de combustível para um show beneficente improvisado, criando tensão cômica entre vocação atual e memórias mundanas.  A inteligência da criação se finca no aspecto familiar do conflito – quem nunca precisou conciliar diferentes versões de si mesmo? Wilson constrói identificação imediata ao apresentar uma religiosa que lida com as mesmas contradições humanas do público, transformando confessionário num palco de comedia.

A interatividade torna cada apresentação um evento único, onde jogos e números musicais emergem do diálogo espontâneo com os espectadores. Esse procedimento exige maturidade cênica, desenvolvida por Wilson ao longo de carreira que inclui trabalhos com Bibi Ferreira, Jorge Takla e Charles Möeller, além de passagem marcante pela Cia Baiana de Patifaria nos anos 1990 – quando já encantava plateias recifenses.

SERVIÇO:

A Noviça Mais Rebelde
📍 Teatro do Parque – R. do Hospício, 81, Recife
📅 25 (sexta) e 27 (domingo) de julho
🕰️ Sexta às 20h | Domingo às 19h
🎟️ Inteira: R$ 120 | Meia: R$ 60 | Social: R$ 60 + 1kg de alimento não perecível
⏱️ Duração: 90 minutos
🔞 Classificação: 12 anos
📱 Informações: (81) 98463-8388

FICHA TÉCNICA
Criação e Interpretação: Wilson de Santos
Figurino: Celso Werner
Fotografia: João Caldas
Arte Gráfica: Vicente Queiroz
Direção de Produção: Leonardo Leal
Realização: Teatro do Riso e Roberto Costa Produções
Vendas: Sympla (antecipadas) | Bilheteria no local (1h antes do espetáculo)

 

NÃO!, a terapia que virou comédia 

O!, com Adriana Birolli  e texto e direção de Diogo Camargos,

Dezoito anos de terapia para aprender uma palavra de duas letras. Se isso não merece aplausos pela persistência, pelo menos pode motivar uma gargalhada coletiva. A atriz Adriana Birolli retorna ao Recife carregando um dilema bem constrangedor da vida contemporânea: a incapacidade crônica de recusar convites, pedidos e obrigações que preferíamos evitar.

NÃO!, com direção e texto de Diogo Camargos, transforma em comédia a tragédia cotidiana de quem vive dizendo sim quando o coração grita não. A protagonista enfrenta situação reconhecível por qualquer pessoa que já se viu presa entre a educação social e a sanidade mental: não quer ir ao próprio jantar de aniversário, mas não consegue simplesmente… não ir. O drama dela pode ser a diversão do público.

 Enquanto se arruma relutantemente, mensagens bombardeiam de todos os lados – mãe, irmã, namorado, chefe – cada uma com um tipo diferente de pressão social que conhecemos intimamente. O trunfo está em mostrar como essa dificuldade aparentemente simples contamina todos os aspectos da vida: pessoal, profissional, familiar. É o tipo de reconhecimento que faz o público rir e se sentir levemente atacado ao mesmo tempo.

A resposta do público confirma que a questão afeta muito mais gente do que se imagina.

No Teatro Santa Isabel, espaço que já presenciou dramas épicos e comédias memoráveis, NÃO! promete três apresentações para quem quer rir das próprias neuroses enquanto questiona por que diabos é tão difícil estabelecer limites básicos. 

SERVIÇO

📍 Teatro Santa Isabel – Praça da República, s/n, Recife
📅 25 (sexta), 26 (sábado) e 27 (domingo) de julho
🕰️ Sexta às 20h | Sábado às 19h | Domingo às 18h
🎟️ Ingressos: R$ 40 a R$ 140 (conforme setor)
💳 Vendas: Sympla (parcelamento em até 12x)

FICHA TÉCNICA

Texto e Direção: Diogo Camargos
Atuação: Adriana Birolli
Iluminação: Leandro Mariz
Cenário e Adereços: A Dupla Dinâmica
Figurino: Letícia Birolli
Execução do Figurino: Artha Atelier
Direção Musical: Carlito Birolli
Produção Musical: Eugênio Fim
Fotografia: Nando Machado
Vídeos: Mauro Marques
Participações em Off: Dida Camero, Ivan Zettel, Juliana Knust, Letícia Birolli, Maria Joana
Realização: Casona Produções
Produção: Lakshmi Produções e Camargos Camargos Produções

 

Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco:
Duas décadas formando plateias

Hélio o balão que não consegue voar Foto Ricardo Maciel

Os super três porquinhos, numa produção de Roberto Costa 

O 21º Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco encerra sua programação neste fim de semana reafirmando seu papel como um dos mais longevos festivais do Brasil dedicados ao público infantil. Com duas décadas de existência ininterrupta, o evento se consolidou como referência nacional na promoção de espetáculos.

Os números impressionam pela magnitude e consistência: 270 espetáculos presenciais realizados em mais de 485 apresentações, 154 mil espectadores entre pagantes e gratuitos, e mais de 5.200 trabalhos diretos e indiretos gerados ao longo destas duas décadas. Estes dados comprovam que o FTCPE se transformou em plataforma de formação de plateia e circulação de produções infantis, contribuindo significativamente para o desenvolvimento do setor teatral pernambucano.

Hélio, o Balão que Não Consegue Voar, que se apresenta neste sábado (26) às 16h30 no Teatro do Parque, aposta no que há de mais articulado no teatro infantil inclusivo contemporâneo. Baseado no livro homônimo do escritor pernambucano Cleyton Cabral – vencedor do Prêmio Ariano Suassuna de Cultura Popular e Dramaturgia da Fundarpe -, o espetáculo utiliza formas animadas e manipulação de objetos para abordar poeticamente o Transtorno do Espectro Autista. A narrativa de Hélio, um balão que não consegue voar em uma loja mágica chamada Festa de Ar, transforma diferenças em potencialidades, ensinando que a verdadeira magia está em encontrar caminhos próprios mesmo quando eles divergem das expectativas sociais.

Os 3 Super Porquinhos, programado para domingo (27) no mesmo horário e local, investe  nas tradições clássicas. A adaptação de Roberto Costa para o conto tradicional insere questões contemporâneas sobre paz mundial e preservação ambiental. Segundo o próprio Roberto, produtor e adaptador, este é “disparado o mais querido pelas famílias para iniciação da vida cultural de seus pequenos”, característica que mostra a importância de espetáculos que conseguem dialogar simultaneamente com crianças e adultos.

Ambas as apresentações contarão com acessibilidade em Libras. Os ingressos estão disponíveis pela plataforma Sympla, através do site www.teatroparacrianca.com.br , e nas bilheterias dos teatros duas horas antes das apresentações. 

Realizado pela Métron Produções, sob coordenação de Edivane Bactista e Ruy Aguiar, o festival conta com incentivo do SIC (Sistema de Incentivo à Cultura), Fundação de Cultura Cidade do Recife, Secretaria de Cultura e Prefeitura da Cidade do Recife. A curadoria é assinada por Marcondes Lima, Ruy Aguiar e Williams Sant’Anna, garante critérios artísticos rigorosos que mantêm a qualidade das seleções. 

SERVIÇO:

“Hélio, o Balão que Não Consegue Voar”
📅 Sábado (26) de julho
🕰️ 16h30
📍 Teatro do Parque – Rua do Hospício, 81, Boa Vista
🎟️ R$ 60 (inteira) | R$ 30 (meia-entrada)
⏱️ Duração: 50 minutos
🔞 Classificação: Livre
♿ Apresentação com intérprete de Libras

Os 3 Super Porquinhos
📅 Domingo (27) de julho
🕰️ 16h30
📍 Teatro do Parque – Rua do Hospício, 81, Boa Vista
🎟️ R$ 80 (inteira) | R$ 40 (meia-entrada)
⏱️ Duração: 45 minutos
🔞 Classificação: Livre
♿ Apresentação com intérprete de Libras

🌐 Ingressos:

www.teatroparacrianca.com.br
(Sympla)

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“Amem-se, exageradamente. Jesus, já veio!”
Crítica de Pontilhados em Olinda

Pontilhados Olinda. Fotos: Rogério Alves / Divulgação

Cena inicial, com a noiva em frente à Igreja da Sé, de Olinda. Fotos: Rogério Alves / Divulgação

Sinalizações das cenas. Foto: Rogério Alves / Divulgação

Pontilhados – Intervenções humanas em ambientes urbanos é travessia. Uma experiência performática-urbana tecida pelo Grupo Experimental, do Recife, sob direção de Mônica Lira, que mergulha na pesquisa entre corpo, cidade, memória e presença. Trata-se de um espetáculo com roteiro, dramaturgia, direção e trilha sonora cuidadosamente elaborados: intérpretes e dançarinos apresentam cenas enquanto o público os acompanha pelas ruas. A obra integra som, poesia, música, deslocamentos, paradas e ações coreográficas. Contudo, é no processo subjetivo de cada participante que Pontilhados se amplia e se reinventa: percepções, lembranças e afetos individuais se entrelaçam ao tecido coletivo da experiência. Pontilhados é dança, caminhada, peregrinação, rito de passagem, arte do encontro e da escuta — e é desse diálogo entre estrutura e vivência que a obra se mantém viva a cada edição.

A peça é proposição sensorial: o convite propõe ver e sentir, habitar, perder-se, reconhecer-se, reaprender a olhar e escutar. A rota nunca é neutra: há camadas urbanas, marcas sociais, marcas no corpo da cidade e dos dançadores, marcas nos olhos de quem caminha junto; memórias pessoais colidem com memórias coletivas, criando uma trama plural e aberta.

Pontilhados, que teve sua primeira edição em 2016, surge com a urgência de existir poeticamente no espaço público, em tensão constante com os desafios das grandes cidades: suas dores, abismos sociais, festas de resistência e histórias de apagamento e reinvenção. É obra afetiva, política e profundamente viva, tornando-se sempre diferente, pois cada cidade, chão, grupo e plateia refaz o bordado de suas linhas a cada montagem.

O Grupo Experimental já apresentou Pontilhados no Recife (duas versões), São Paulo, Porto Alegre, Salvador, Garanhuns, Fortaleza, Arcoverde e Medellín (Colômbia), levando para cada espaço um processo singular de reinvenção. Nesta 10ª edição, em Olinda (que ocorreu nos dias 9, 10 e 11 de maio), uma residência reuniu 20 artistas de diferentes territórios – entre eles Jean Souza (participante de Pontilhados em Salvador), Georgia Palomino (de São Paulo, que atuou em Salvador e Garanhuns) e Álefe Passarin (no elenco de Arcoverde), que trouxeram sabedoria de outros territórios para costurar junto o fluxo olindense.

O espetáculo conta com os intérpretes-criadores Rafaella Trindade, Everton Gomes, Henrique Braz, Marcos Teófilo e Anne Costa (convidada). A coordenação de Mônica Lira, fundadora do grupo, potencializa o intercâmbio de saberes, integrando diferentes trajetórias e experiências em uma mesma tessitura cênica. A participação dos residentes — Aline Sou, Camila Ribeiro, Dadinha Gomes, Daniel Dias, Isaac Souza, Jair Simão, Jonas Alves, Marcela Rabelo, Marcia Luz, Márcio Allan, Marcos Júnior, Maya Ferreira, Maysa Toledo, Natália Marinho, Salomé Archanjo, Yanca Lima e Yuri Barbosa — amplia ainda mais o coro de vozes e corpos.

Público percorre sítio histórico de Olinda, com a audioguia Paula Call e a diretora Mônica Lira à frente. 

A caminhada propõe um mergulho sensorial mediado pela tecnologia: o público percorre as ruas com fones de ouvido, ouvindo um audioguia transmitido em tempo real. Vozes poéticas, trilhas cuidadosamente escolhidas e palavras emergem misturadas ao som da cidade. O desafio exige presença: é preciso subir e descer ladeiras, caminhar por calçadas antigas, enfrentar o calor, o vento ou a chuva inesperada que altera o percurso, sentir o cheiro da terra e perceber o tempo próprio da cidade.

Olinda acolheu Pontilhados de maneira intensa e singular. Suas ladeiras sinuosas, casarios coloniais e mirantes oferecem terrenos irregulares ao corpo, impondo a cada passo um novo ritmo e convidando a respirar no compasso da cidade. Lá, raízes indígenas e o legado africano se manifestam em cada traço urbano e na força vibrante da cultura popular. Esta edição constrói pontes entre histórias de resistência, convivência e transformação.

Mais profundamente, Olinda carrega a radicalidade da sobrevivência: o peso das invasões, o legado das festas populares — carnavais de maracatus, frevos, caboclinhos — e o misticismo de seus santos e orixás. É raro encontrar um lugar onde arquitetura, história, resistência cultural e religiosidade dancem tão em harmonia. Em Olinda, Pontilhados se reinventa como um tecido que recebe novos fios e cores sem perder o desenho-matriz.

Ao mesmo tempo, Olinda se torna protagonista e interlocutora do espetáculo. Cada recanto, cada curva das ruas, cada memória do povo dialoga com as perguntas lançadas pelo Grupo Experimental. A cidade responde – seja no silêncio, seja nas palavras recolhidas pela dramaturgia -, abrindo novas possibilidades de encontro entre intenções artísticas e vida real.

As atrizes dançarinas trazem questões do feminino: da luta por existir à violência sofrida. Foto: Rogério Alves

Os cães de rua entram na cena e parecem guardar a integridade do corpo. Foto: Rogério Alves / Divulgação

O itinerário de Pontilhados atravessa marcos emblemáticos do Sítio Histórico, transformando o espaço em dramaturgia viva. A caminhada começa na imponente Catedral da Sé – São Salvador do Mundo. O toque dos sinos, ouvido pelos fones ou imaginado em nossas mentes, marca um mergulho poético no início do trânsito.

Ali, diante da Catedral, uma mulher vestida de branco – figura tradicional dos rituais de casamento – surge sozinha, evocando mistério e poesia. Sob o olhar feminista e antimisógino de Pontilhados, essa presença solitária transforma-se em protagonista da própria história. Muito além do clichê da mulher abandonada, ela se revela sinal de autonomia, resistência e reinvenção. Suas emoções e silêncios se abrem a muitas leituras: não à espera da perda, mas afirmando a potência do feminino em sua complexidade, longe de narrativas engessadas.

O trajeto segue pela Ladeira da Sé, com o Palácio de Iemanjá testemunhando as águas e heranças de matriz africana. No Alto da Sé, a escadaria diante do Preto Velho convida a uma pausa de espiritualidade e ancestralidade: a cidade e o mar se revelam como paisagem e memória.

No Mirante do Observatório Astronômico – onde Emmanuel Liais, em 26 de fevereiro de 1860, observou e registrou o cometa Olinda (primeira descoberta do gênero na América do Sul e no Brasil) -, o horizonte se desdobra e o céu flerta com a dramaturgia dos corpos. Assistimos atentamente aos movimentos das bailarinas de vermelho, que encarnam a luta cotidiana das mulheres por existência e visibilidade.

Durante a caminhada, ouvimos em nossos fones, na voz de Silvinha Goes, evocação da trajetória de Branca Dias, mulher que desafiou opressões e lutou por direitos femininos ao lado de tantas companheiras. Em cena e na vida, essas mulheres dançam e enfrentam os algozes patriarcais — corpo a corpo, passo a passo, constroem uma coreografia de coragem e resistência. Até mesmo cães, vigias silenciosos das ruas, parecem zelar pela dignidade dos corpos que ali circulam ou já circularam.

O percurso se expande em paradas marcantes: a porta da Igreja da Misericórdia, a sombra generosa do Mirante das Flores, o popular Beco do Bajado, a Rua do Amparo, a calçada da Bodega do Veio, a varanda do Amparo, a Sede do Homem da Meia-Noite, até culminar na ladeira que leva à Igreja do Rosário. Cada etapa é imersão no sagrado e no profano, reconhecendo a cidade em sua vitalidade pulsante.

Irreverêcia inspirada no Grupo Vivencial. Foto: Rogério Alves

Maracatu no Largo do Amparo. Foto: Rogério Alves

Quando o cortejo chega à Varanda do Amparo, a atmosfera carnavalesca se intensifica. Os artistas ocupam os dois níveis — em cima e embaixo — evocando o espírito irreverente do icônico Grupo Vivencial, referência fundamental da cena alternativa olindense/recifense, cuja ousadia inspirou o filme Tatuagem. No espaço, poesia e performance se cruzam em cenas que desconstroem a caretice de ontem e de hoje, colocando em xeque todas as normatividades. O audioguia ecoa essa energia subversiva em frases provocativas, como: “Tenho a mim mesma de coração exposto…cago nessa humanidade inteira, essa humanidade de coração engolido, cheio de proteção.” A irreverência ganha ainda mais força com a trilha sonora Polka do Cu (Cuica Feat – Tatuagem), entre risos, corpos em trânsito e afronta criativa.

Em seguida, no Largo do Amparo, o espetáculo mergulha na celebração coletiva do carnaval pernambucano. Enquanto os clássicos — como o Hino de Pernambuco, Maracatu Nação, Hino do Elefante de Olinda, orquestras e frevos — embalam o ambiente, o audioguia celebra a multidão, a alegria que brota da esperança e a força coletiva da festa: a cidade, feita de arte, gente e contrastes, se transforma em cenário e personagem, revelando todo o vigor do carnaval. Neste trecho, foliões solitários, pequenos grupos de passistas e agremiações de maracatu ocupam os espaços, surgindo em aparições fugazes e surpreendentes, como se fossem sonhos de carnaval materializados no caminho. A música, os corpos e os sentidos se fundem, tornando o percurso uma ode à criatividade popular e à vitalidade urbana.

Ao atravessar Olinda, não se pode ignorar a dor: as marcas históricas de exclusão, violência e desumanidade inscritas nessas ladeiras. Mas Pontilhados não transforma essa realidade em espetáculo da miséria. Ao contrário, coloca a dor em diálogo com o desejo de libertação, com o corpo em festa, a política da transgressão lúdica, a força dos rituais populares e a ressurreição poética da arte. O carnaval, nos becos e ladeiras, é síntese de política, resistência, afeto e esperança uma explosão coletiva onde drama, utopia e luta se encontram sem hierarquia, no terreno fértil das subjetividades em movimento.

Na frente da Igreja da Misericórdia, em Olinda. Foto: Rogério Alves

Olinda é paisagem, personagem, cenário em constante mutação. Ao longo da caminhada, a natureza se faz presente: o cheiro das árvores, a iluminação que se transforma ao entardecer, a brisa vinda do mar. A natureza dialoga com o roteiro, os pássaros se entrelaçam à trilha sonora, o vento sopra ou leva embora palavras – tudo contribui para uma dramaturgia ampliada, convidando todos à presença atenta.

Silvia Góes, responsável pela dramaturgia (também atuante como a Noiva e a voz do audioguia, em Olinda) constrói um fluxo de sensibilidade que se adapta a cada lugar. Sua escrita dialoga com vozes recolhidas em entrevistas, documentos históricos e palavras que atravessam o tempo, como paráfrases e diálogos de autores como Clarice Lispector, Affonso Romano de Sant’Anna, Mario Quintana, Hilda Hilst e a polonesa Wisława Szymborska. São trechos que questionam a fluidez da identidade, o lugar do humano na cidade, o caos e a esperança coletiva.

Sua dramaturgia flui ora lírica, ora cortante, conduzindo do poético ao político, do íntimo ao social. Fala de liberdade sem camuflar prisões, de amor como experiência radical de alteridade, de utopia como persistência mesmo diante da falta. A palavra se reinventa em cada edição, filtrada pelo tempo, pelos gestos e pela escuta singular de cada lugar. O percurso em Olinda se faz entre perguntas -“O que é pertencer?” – em vozes, músicas, poesia e no próprio rumor da cidade.

Diálogo com a pulsação da cidade. Foto: Rogério Alves

As sonoridades dialogam com o ritmo coletivo do caminhar, fazendo ecoar o tempo da cidade, com suas pausas e abrindo passagem para o fluxo da palavra falada. Em certos momentos, a trilha se deixa atravessar pelos sons do ambiente: buzinas, conversas de moradores, latidos — autores reais da festa e do cotidiano, compondo uma orquestra viva e imprevisível.

As músicas escolhidas fazem ponte com a história e cultura pernambucana: do Afoxé Omunile Ogunja à voz de Aurinha do Coco, de Alceu Valença ao hino do carnaval, do maracatu às orquestras de frevo, e também o experimentalismo sonoro de Chico Science e Nação Zumbi. Cada trilha reverbera nos corpos, ativa memórias, convoca pertencimento. A música dialoga com a dramaturgia, ora potencializando o fluxo poético, ora criando pausas e transições, organizando o pulso do coletivo, a densidade do que é dito e sentido.

Pontilhados propõe ao público novas maneiras de pertencer e perceber o território – de modo que a cidade nunca é a mesma ao final da travessia. Cada microcena transforma-se em experiência, feita de paixão, estranhamento, dor, surpresa, comunhão, alegria e deslocamento.

Ao final, é do lado subjetivo que Pontilhados se projeta: na memória de cada participante, na marca deixada pela natureza e pela paisagem urbana, nos rastros dos que caminharam juntos e nos silêncios que residem após cada estação. Pontilhados é, sobretudo, experiência viva, plural, aberta ao imprevisto e em permanente reinvenção.

Corações espalhados nas ladeiras de Olinda. Rogério Alves

Ficha Técnica

Realização: Grupo Experimental
Direção, concepção e dramaturgia: Mônica Lira
Assistente de direção: Rafaella Trindade
Dramaturgia, voz-guia e artista convidada: Silvia Góes
Coordenação de produção: Chris Galdino
Comunicação e intérprete-guia: Paula Caal
Assessoria de imprensa: Lança Comunicação
Elenco: Rafaella Trindade, Everton Gomes, Henrique Braz, Marcos Teófilo
Artista convidada: Anne Costa
Artistas residentes: Álefe Passarin, Aline Sou, Camila Ribeiro, Dadinha Gomes, Daniel Dias, Georgia Palomino, Isaac Souza, Jair Simão, Jean Souza, Jonas Alves, Marcela Rabelo, Marcia Luz, Márcio Allan, Marcos Júnior, Maya Ferreira, Maysa Toledo, Natália Marinho, Salomé Archanjo, Yanca Lima, Yuri Barbosa
Figurino: Carol Monteiro
Identidade visual: Carlos Moura
Montagem da trilha e apoio de produção: Silvio Barreto, Iramaia Dália, Georgia Trindade, Bianca Alencar
Pesquisa musical: Ivo Thavora
Transmissão da trilha: Alexandre Nascimento
Fotografia: Rogério Alves

Apoios: Secretaria de Patrimônio e Cultura da Prefeitura de Olinda, Homem da Meia-Noite, Centro Cultural Mercado Eufrásio Barbosa, Catedral Sé de Olinda, Alma Arte Café, MST

Incentivo: Ministério da Cultura [Governo Federal], PNAB Pernambuco/Nacional, Secretaria de Cultura do Estado de Pernambuco.

O espetáculo Pontilhados Olinda foi apreentado nos dias 9,10 e 11 de maio de 2025, com concentração na Igreja da Sé, em Olinda 

Leia também a crítica da apresentação de Pontilhados em São Paulo, postada em 30 de novembro de 2018 aqui 

O Satisfeita, Yolanda? faz parte do projeto arquipélago de fomento à crítica,  apoiado pela produtora Corpo Rastreado, junto às seguintes casas : CENA ABERTA, Guia OFF, Farofa Crítica, Horizonte da Cena, Ruína Acesa e Tudo menos uma crítica

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“Os ratos não estão no porão”,
uma provocação em
videodança de Mônica Lira

Mônica Lira questiona as políticas públicas para as artes. Foto: Ivan Dantas / Divulgação

Em trabalho solo, mas com uma grande equipe nos bastidores, a artista reflete inquietações atuais. Foto: Ivan Dantas

Com o sugestivo título Os ratos não estão no porão, a diretora, coreografa e bailarina do Grupo Experimental, do Recife, Mônica Lira elabora uma inquietante reflexão sobre as políticas públicas e os sacrifícios que artistas exercem para garantir a mínima dignidade de seus trabalhos. A videodança solo dessa artista pernambucana assume-se como um “manifesto” dançado, no intuito de explicitar o descaso que os artistas sofrem no cenário pandêmico e as angústias vividas por muitos, que fazem parte da cadeia cultural.

Financiado pela Lei Aldir Blanc, no edital de Criação, Fruição e Difusão do Governo de Pernambuco, a videodança estreia nesta terça, 16 de março, às 19h, em uma live no Instagram do grupo (@grupoexperimental).

“Ser um trabalhador
de arte é, antes
de tudo, indagar o
tempo presente e
questionar o tempo
futuro”.

Mônica Lira dança um desassossego antigo: o desamparo do trabalhador de arte. Para isso desenha em movimentos a própria labuta, repleta de inseguranças, enigmas e abandono vivido pelo setor cultural, que mesmo diante dos recursos das leis emergenciais, fica refém dos governantes e de suas vontades políticas.

A obra Os ratos não estão no porão foi concebida num casarão antigo do bairro do Recife, sem teto, Rede Moinho, que sedia o atelier a céu aberto do artista Sérgio Altenkirch, também cenógrafo da obra. A videodança faz uma analogia irônica da reexistência do artista contemporâneo, que encara um panorama de extrema vulnerabilidade.

“O grupo Experimental carrega
muita história e muita gente,
e todas elas estão comigo na
poesia e nas narrativas desse
trabalho”,

A própria Mônica relata as adversidades, sem perspectivas, que enfrenta com seu grupo: “Antes da pandemia fomos para as ruas com a nossa obra Pontilhados, um passeio dançado por algumas cidades com um elenco de quase 20 artistas. Há quase 3 anos ficamos sem teto, sem a casa desse corpo Experimental, onde podíamos criar, dançar, pesquisar, fazer aulas, assistir espetáculos e realizar projetos. E agora, neste momento sem horizontes, como continuar dançando?”, indaga.

A arte de Os ratos não estão no porão quer provocar as pessoas a pensarem nos motivos de termos chegado a esse lugar de incertezas e sofrimento. “Ser um trabalhador de arte é, antes de tudo, indagar o tempo presente e questionar o tempo futuro. E sendo assim, como poderemos viver, continuar a existir, quando opera no nosso país uma política que pode nos exterminar?”. Pergunta que não quer calar.

FICHA TÉCNICA:
 
Concepção, direção geral, figurino e intérprete: Mônica Lira
Direção artística e figurino: Rafaella Trindade
Direção de fotografia, câmera e montagem: Silvio Barreto
Desenho cenográfico e criação das peças: Sérgio Altenkirch
Desenho de luz e execução: Beto Trindade
Produção e assistente de iluminação: Caio Trindade
Ambiente sonoro e trilha original: Diego Drão e Ivo Thavora
Registro fotográfico: Ivan Dantas
Locação filmagem: RedeMoinho da Ilha (Sergio Altenkirch)
Design gráfico: Carlos Moura
Assessoria de comunicação: Marta Guimarães

SERVIÇO:
Lançamento do videodança: Os ratos não estão no porão
Quando: Terça-feira, 16 de março, 20h
Onde: Instagram do Grupo Experimental – @grupoexperimental

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Breguetu em São Paulo

Henrique Celibi é homenageado pelo Experimental. Foto: Divulgação

Henrique Celibi (de noiva) é homenageado pelo Experimental. Foto: Divulgação

Nesta sexta-feira, 24 de novembro, o ator e diretor Henrique Celibi completaria 54 anos. Esse artista inquieto e provocador nos deixou antes, em maio. Faz uma falta! O espetáculo Breguetu, do Grupo Experimental de Dança, do Recife, faz curtíssima temporada no Sesc Belenzinho, em São Paulo, e a sessão de hoje é dedicada a Celibi, que soube como poucos transformar materiais descartáveis em moda, em luxo. Celibi fazia uma participação especial e nas apresentações paulistanas Fabio Caio defende esses papeis.

Sabemos que cada ambiente cultiva o brega do seu jeito. A montagem do Experimental coreografa esse estilo de vida das periferias do Recife, nos movimentos, nas cenas tragicômicas, nos dramas do cotidiano de gente comum. Pintar o cabelo é das formas de se valorizar, acrescentar detalhes ao corpo e ter atitude são outras.

A música trata das paixões, dos dramas afetivos, das calamidades e sucessos da vida cotidiana. De abandonos, do homem da outra, da mulher cobiçada, de solidão e superação. Breguetu convida o público para ser cúmplice dessas intimidades nas ruas, nos bares, em lugares  intimistas.

Concebida pela diretora da companhia, Mônica Lira, a peça coreográfica encara o movimento brega em ampla análise, do contexto social às características que marcam a identidade como música, moda ou mesmo estilo de vida. “O brega, ritmo que definimos e defendemos aqui, vai muito além da música. Brega é estado de felicidade e modo de vida”, atesta a diretora Mônica Lira.

Em Breguetu, a vida é intensa, exagerada, sofrida; segue de mãos dadas entre a felicidade e o desespero. Mas com muita poesia no corpo, no rosto, na alma. A montagem estreou em 2015 e é fruto da pesquisa do Grupo A dança no corpo desse lugar, através da qual a equipe estudou, de forma teórica e prática, manifestações e movimentos culturais do Recife.

Paixão, movimento e sensualidade na peça coreográfica do grupo recifense. Foto: Paula Alencastro / Divulgação

Paixão, movimento e sensualidade na peça coreográfica do grupo recifense. Foto: Paula Alencastro / Divulgação

Olhar amoroso sobre o brega. Foto: Paula Alencastro / Divulgação

Olhar amoroso sobre o brega. Foto: Paula Alencastro / Divulgação

Serviço
Breguetu – Grupo Experimental de Dança
Quando: Sexta e sábado, 24 e 25 de novembro, às 20h, e no domingo, 26, às 17h.
Onde: Sesc Belenzinho – Sala de Espetáculos II (Rua Padre Adelino, 1000 Quarta Parada – Leste São Paulo – SP (11) 2076-9700)
Ingressos: R$ 20, R$ 10 (meia-entrada) e R$ 6 (credencial do Sesc)

Ficha técnica
Concepção e direção: Mônica Lira (Grupo Experimental)
Intérpretes-criadores: Jennyfer Caldas, Jorge Kildery, Rebeca Gondim, Rafaella Trindade, Gardênia Coleto e Ramon Milanez.
Ator convidado: Fabio Caio.
Projeto de iluminação: Beto Trindade
Trilha sonora: Marcelo Ferreira e João Paulo Oliveira
Sonoplastia: Adelmo do Vale
Figurino: Carol Moneiro
Design: Carlos Moura
Cabelo e maquiagem: Jennyfer Caldas
Produção: Emeline Soledade
Cenotécnico: Eduardo Autran
Assessoria de comunicação: Paula Caal
Duração: 60 minutos
Indicação etária: 16 anos

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