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Feteag confirma Caruaru como
epicentro de descentralização cultural
Peças dos primeiros dias

Entrado do Teatro Lycio Neves no dia da apresentação do Magiluth. Foto: Jorge Farias

Plateia do Teatro Lycio Neves no dia da apresentação de Neva. Foto: Jorge Farias

Fabio Pascoal, diretor e curador do Feteag. Foto: Jorge Farias / Divulgação

A 34ª edição do Festival de Teatro do Agreste (Feteag) acontece sob a égide de uma provocação contemporânea urgente: como manter a humanidade em um mundo hiperconectado? A resposta do Teatro Experimental de Arte (TEA), idealizador e realizador do festival, parece estar na própria escolha curatorial desta edição – uma seleção que equilibra conexão global com intimidade humana, velocidade tecnológica com desaceleração contemplativa.

Em um momento histórico em que a digitalização ameaça fragmentar experiências coletivas, o Feteag 2025 se posiciona como um laboratório de resistência. As escolhas artísticas desta edição arquitetam encontros. Encontros entre públicos diversos, entre linguagens teatrais distintas, entre o cosmopolita e o regional – mas, sobretudo, encontros genuinamente humanos. A participação de La cocina Pública, do grupo chileno Teatro Container no  Assentamento Normandia é inspiração para muitos debates políticos e estéticos.

A curadoria demonstra maturidade ao compreender que estar “conectado com o mundo” não significa necessariamente aderir aos seus ritmos sufocantes. Pelo contrário: a programação funciona como um convite à desaceleração reflexiva, criando espaços onde a experiência teatral pode operar como antídoto ao frenesi urbano contemporâneo.

A aposta em reforçar o território de Caruaru mostra-se cada vez mais acertada. A cidade, que já não corresponde às memórias mais remotas de uma urbe menor, se posiciona como metrópole cultural em potencial. O crescimento urbano veio acompanhado de uma ampla oferta de serviços, mas é no setor cultural que reside ainda o maior espaço para desenvolvimento – lacuna que o Feteag vem preenchendo sistematicamente há mais de três décadas.

O que se observa nesta edição é uma inversão de fluxos culturais tradicionalmente centrípetos. Ao invés de drenar talentos e públicos para os grandes centros, o festival transforma Caruaru em um ímã cultural, atraindo artistas, críticos, curadores e espectadores de diversas regiões. Essa descentralização é geográfica e simbólica, questionando hierarquias culturais estabelecidas.

Talvez o fenômeno mais fascinante desta edição seja o engajamento de uma legião de jovens com o teatro. Estudantes que se transformam em multiplicadores culturais, divulgando, debatendo, vibrando com as propostas artísticas. Esse movimento de apropriação juvenil do festival sugere que estamos diante de uma mudança geracional no consumo e na produção cultural da região.

À mon seul désir (Ao meu único desejo), de Gaëlle Bourges (França)

À mon seul désir, na abertura do Feteag no Recife. Foto: Walton Ribeiro / Divulgação

A abertura do Feteag no Recife (9 e 10 de outubro) com a obra À mon seul désir, de Gaëlle Bourges, sublinha a ousadia curatorial do festival. Espetáculo faz uma desconstrução crítica e performática de um dos ícones da arte medieval, a série de tapeçarias A Dama e o Unicórnio. Bourges utiliza a obra original, rica em simbolismo alegórico sobre os cinco sentidos e o “único desejo”, como ponto de partida para um exame perspicaz da representação feminina na arte ocidental e das construções sociais em torno da feminilidade, pureza e desejo.

As tapeçarias originais, datadas do século XV, apresentam uma figura feminina idealizada, cercada por animais fantásticos e elementos florais, frequentemente interpretada como um emblema de virtude e castidade. Bourges, no entanto, subverte essa leitura ao despir as intérpretes, expondo a vulnerabilidade e a força do corpo feminino em sua forma mais crua. A encenação, com quatro artistas nuas, explora a dualidade entre a figura idealizada da Dama e os simbolismos contidos no bestiário da tapeçaria, como o leão e o unicórnio. Ao vestir as intérpretes com máscaras de animais como o coelho — tradicionalmente associado à fertilidade e, por vezes, à luxúria — e questionar a virgindade da Dama através da exposição do corpo feminino em diferentes perspectivas e movimentos, Bourges provoca e convida o público a repensar os códigos morais e estéticos que moldam nossa percepção da história da arte e da identidade feminina.

A transição de um movimento gracioso e quase pictórico para uma sarabanda frenética de Coelhos pode ser interpretada como uma libertação catártica dessas convenções, um rompimento com a passividade e a idealização atribuídas historicamente à mulher na arte. É um ato de reencarnação dos símbolos, onde o corpo presente e vivo das bailarinas se torna o veículo para uma nova narrativa. A bagagem da diretora, com seu interesse no corpo feminino como ferramentas de análise e expressão sobre autonomia, permeia toda a construção cênica, promovendo a ressignificação da imagem da mulher e a crítica ao olhar patriarcal na história da arte. À mon seul désir é, portanto, uma abertura que celebra a artea, mesmo tempo que a questiona, a transforma e a recontextualiza, proposta alinhada com a escolha curatorial deste ano do Feteag de ampliar diálogos e estéticas desafiadoras.

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Dancemos… que o mundo se acaba! (Bailemos… que se acaba el mundo!), de BiNeural-MonoKultur (Argentina)

Florencia Baigorrí e Maximiliano Carrasco Garrido, comandam as coreografias. Foto: Kari Carvalho / Divulgação

A performance Dancemos… que o mundo se acaba! (Bailemos… que se acaba el mundo!), do coletivo argentino BiNeural-MonoKultur, apresentada em Caruaru, é um exemplo notável de teatro imersivo e participativo que dialoga diretamente com o contexto social contemporâneo. A escolha de um espaço não-convencional como a Estação Ferroviária de Caruaru adiciona camadas de significado. Uma estação, por sua natureza, é um local de trânsito, de chegadas e partidas, de encontros e despedidas, e evoca a ideia de uma jornada coletiva e individual, ressoando com a temática da peça. A proposta de uma experiência coletiva mediada por fones de ouvido ressalta o desejo de romper com as barreiras tradicionais entre palco e plateia, convidando o público a ser co-criador da obra.

A peça é particularmente ressonante por ter sido concebida durante a pandemia de COVID-19, estabelecendo um paralelo provocador com a Epidemia da Dança de Estrasburgo de 1518. Essa conexão histórica explora a dança como uma resposta primal e, por vezes, incontrolável, a momentos de crise, ansiedade coletiva e incerteza existencial. A “Epidemia da Dança” foi um fenômeno em massa, onde centenas de pessoas dançaram incontrolavelmente por dias, muitas vezes até a exaustão ou morte. A ideia de dançar “como se o mundo estivesse acabando” chega como um ato de resistência, libertação e celebração da vida em meio à incerteza, seja ela o contágio dançante de 1518, a pandemia recente, ou as crises climáticas e sociais atuais.

A companhia, conhecida por envolver o público de forma ativa, transforma cada espectador em um cocriador da experiência. Os fones de ouvido criam “bolhas” individuais de percepção sonora – cada participante ouve instruções, músicas e narrativas que guiam seus movimentos e emoções. Paradoxalmente, essa individualização auditiva fomenta uma unidade coletiva, pois todos estão sincronizados por uma mesma “voz” invisível, mas livres para interpretar e expressar-se corporalmente. A coreografia e as instruções compartilhadas forjam uma unidade coletiva, permitindo que cada participante explore sua própria relação com o movimento, a música e o corpo em um espaço compartilhado. Dancemos… é um convite à catarse, à reconexão com o prazer físico e social da dança, e à redescoberta da capacidade do corpo de se expressar e de se libertar, um poderoso antídoto em tempos de isolamento e angústia.

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Magiluth honra local da construção de Édipo REC, em Caruaru

Giordano Castro e Gabriela Cicarello, com Édipo e Jocasta, na sessão do Feteag. Foto: Jorge Farias

Édipo REC é uma releitura vibrante e provocadora da tragédia clássica, concebida pelo Grupo Magiluth como um “jogo” cênico. A peça transforma o mito de Édipo em uma experiência imersiva que dissolve a fronteira entre palco e plateia. Utilizando uma linguagem que mistura teatro, festa e cinema, a montagem transforma Tebas em um Recife contemporâneo e fantasmagórico. Com um DJ no comando da trilha sonora pop e um Corifeu que filma a ação em tempo real, o espetáculo questiona a relevância da tragédia hoje e usa a tecnologia para refletir sobre a era da superexposição e das narrativas digitais.

Em sua apresentação em Caruaru, durante o Feteag 2025, a peça envolveu o público desde antes do início, com os atores interagindo e distribuindo cervejas do lado de fora do Teatro Lycio Neves. A primeira hora se desenrolou como uma festa efervescente, com os espectadores em pé, dançando ao som de ritmos pop. A reação da plateia foi selvagem e contagiante, com uma entrega total à atmosfera de festa. No entanto, essa mesma audiência mostrou-se surpreendentemente tímida quando provocada a um “beijaço” geral, revelando as complexidades e limites da participação mesmo em um ambiente de intensa interação.

O elenco demonstrou um entrosamento comparável a uma orquestra sinfônica, onde cada músico domina seu instrumento em perfeita harmonia com o conjunto. Roberto Brandão assumiu Tirésias com um cinismo elegante e debochado, enquanto Gabriela Cicarello entregou uma Jocasta altiva, permeada por uma melancolia profunda que transbordava em cada gesto. Um momento inesperado e marcante da sessão foi a ação de um espectador anônimo que lançou lixo orgânico no palco no final do primeiro ato. O cheiro pútrido de laranjas estragadas invadiu o teatro, atacando violentamente o olfato da plateia e materializando sensorialmente a “praga” de Tebas. Embora não fizesse parte do roteiro, o gesto adicionou uma camada visceral de caos e decadência que prenunciava tragicamente o segundo ato.

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A potência da indignação articulada em Fábulas de Nossas Fúrias

Coletivo Atores à Deriva (RN) transforma raiva em arte política. Foto: Jorge Farias

Fábulas de Nossas Fúrias, do Coletivo Atores à Deriva, do Rio GRande do Norte, foi apresentado no Feteag como um trabalho teatral que reverbera intensamente, soltando a voz de um acúmulo de silêncios e indignações historicamente reprimidas. Alex Cordeiro assina a direção e constrói a dramaturgia em parceria com Giordano Castro, criando um tecido dramatúrgico que se apropria dos conceitos de “fábula” e “fúria” como estruturas para uma análise das contradições humanas e sociais. A criação do espetáculo contou com a colaboração de Alex Cordeiro, Álvaro Dantas, Mattheus Corpo, Doc Câmara e Thuyza Fagundes, configurando um processo criativo coletivo que se reflete na multiplicidade de vozes e perspectivas presentes em cena.

A peça estabelece uma confrontação direta com a “Justa Raiva” teorizada por Paulo Freire, conceito que reconhece a indignação como um direito legítimo dos oprimidos e como força motriz para a transformação social. Essa perspectiva freireana entende a raiva como uma resposta consciente e necessária às injustiças, diferenciando-a da revolta cega ou do ódio destrutivo, posicionando-a como uma energia pedagógica e libertadora.

Os 17 anos de pesquisa do Atores à Deriva encontram neste espetáculo um tema que ressoa profundamente com as vivências e inquietações dos integrantes do grupo. O trabalho se constrói como um grito articulado, utilizando a fábula como estratagema narrativo para expor opressões contemporâneas de forma alegórica, mas impactante. 

O trabalho corporal desenvolvido pelo elenco (Álvaro Dantas, Doc Câmara, Mattheus Corpo e Alex Cordeiro), sob a direção de movimento e preparação corporal de Dudu Galvão, constitui um dos pilares fundamentais do espetáculo. O corpo em cena assume o território de expressão da fúria e da vulnerabilidade. Através de uma “animalização da existência”, os atores exploram fisicamente os impulsos e essas urgências. Movimentos que variam entre a contorção, a explosão e o recolhimento, respirações que ecoam a angústia, e olhares que carregam histórias de opressão, comunicam dimensões que a palavra sozinha não consegue abarcar. Na gestualidade que transita entre referências animais e a fragilidade humana, a peça encontra um de seus momentos mais potentes, estabelecendo uma comunicação direta e emotiva com a plateia.

Estruturada em fábulas contemporâneas protagonizadas por um macaco, uma baleia e um veado, a dramaturgia, aposta na capacidade de encarar frontalmente as violências do racismo, da misoginia e da homofobia. Cada fábula, embora autônoma, tece uma crítica direta a sistemas de poder e preconceito. A escolha de valorizar o termo “veado”, historicamente usado de forma pejorativa, para afirmar subjetividades gay e seus modos de amar, afirma-se como um ato de subversão linguística e política que espelha a proposta central da peça. Nesse contexto, ações cotidianas como “beijar na rua” adquirem caráter de “fúria” afirmativa, desafiando a heteronormatividade compulsória e as tentativas de invisibilidade. A dramaturgia inverte a lógica conservadora que hierarquiza identidades para celebrar resistências e modos diversos de existir.

A dramaturgia também evidencia a importância das redes de apoio e afetos na construção de subjetividades LGBTQIA+, demonstrando como a solidariedade coletiva se torna estratégia de sobrevivência e resistência em contextos hostis.

Grupo reflete sobre a masculinidade hegemônica. Foto: Jorge Farias

É fundamental ressaltar a relevância política de um grupo formado majoritariamente por homens que encara frontalmente as fragilidades e contradições da masculinidade hegemônica. O espetáculo desnaturaliza padrões machistas ao expor como as pressões de gênero afetam  os corpos masculinos, criando espaço para discussões sobre orientações sexuais e identidades de gênero que desafiam a rigidez dos papéis sociais impostos. Para um coletivo de homens, assumir publicamente as vulnerabilidades da masculinidade e os atravessamentos das questões de gênero constitui um ato de coragem artística e política que amplia os territórios possíveis para a expressão das diversidades.

No entanto, as próprias fissuras dramatúrgicas do espetáculo funcionam como dobras de articulação que revelam camadas complexas da experiência teatral. As transições entre as fábulas não operam por continuidade linear, mas por contaminação emocional e temática – um procedimento que exige do espectador uma disponibilidade para ir além de seus limites nessa construção receptora. Essas lacunas intencionais entre os núcleos narrativos constituem espaços de respiração onde o público processa as camadas de violência e resistência apresentadas. As aparentes descontinuidades se atuam, na verdade, como estratégias dramatúrgicas que permitem que cada fábula ressoe de forma independente antes de se articular com as demais.

Para alguns espectadores, essas dobras podem gerar momentos de desconexão; para outros, constituem territórios férteis onde as indignações pessoais encontram eco nas fúrias cênicas. A dramaturgia assume, assim, o risco de uma incompletude proposital, convidando cada plateia a preencher os intervalos com suas próprias experiências de opressão e resistência.

Beijo inspirado no espetáculo do Grupo Magiluth. Foto: Jorge Farias

Enquanto construção cênica, a dramaturgia e encenação explicitam suas influências e referências, como no beijo francamente inspirado na peça Dinamarca, do Magiluth, estabelecendo um diálogo intertextual que enriquece as camadas interpretativas do trabalho. Essas citações funcionam como reconhecimentos de uma genealogia teatral comprometida com a discussão de sexualidades e identidades dissidentes.

Apesar das questões estruturais apontadas, Fábulas de Nossas Fúrias confirma-se como um espetáculo relevante que articula um trabalho corporal consistente com uma dramaturgia provocativa. Sua capacidade de convocar o público a refletir sobre suas próprias indignações e os lugares de onde elas emergem faz da peça uma experiência marcante. O trabalho  impulsiona discussões sobre direitos de existência e expressão, consolidando o teatro como espaço fundamental para a articulação de afetos transformadores e para a celebração da resistência.

Neva, montagem de Marianne Consentino

Peça pensa a arte em tempos de colapso. Foto Jorge Farias

Neva, na montagem dirigida por Marianne Consentino apresentada no Teatro Lycio Neves durante o Feteag, afirma-se como um espetáculo de complexa densidade, que questiona os limites e contradições entre arte e política, entre a necessidade de criar e a urgência de agir. A peça, escrita pelo dramaturgo chileno Guillermo Calderón em 2005, explora paixões e desencantos que permeiam o universo teatral: a paixão pelo palco, pela arte de interpretar, pelo ofício de representar, mas também interroga as inércias que se justificam em nome da arte, os descompassos entre criação artística e compromisso político, e as dificuldades inerentes a uma arte efêmera que luta constantemente por sua própria sustentabilidade e relevância social.

No centro desta tensão encontra-se uma protagonista que insiste em encontrar o fio condutor de sua personagem enquanto o mundo literalmente desmorona do lado de fora do teatro, metáfora potente para os dilemas do artista contemporâneo diante das crises sociais e da constante necessidade de justificar a existência da arte em meio ao caos.

A escolha de Marianne Consentino por esta dramaturgia, integrada à sua pesquisa de pós-doutorado desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia, sob supervisão da professora Dra. Sonia Rangel, transforma a montagem em um laboratório de investigação sobre as relações entre teatro e memória, entre criação artística e contexto histórico. A diretora constrói um espetáculo que dialoga tanto com as urgências do texto original quanto com as ressonâncias que a obra adquire no contexto brasileiro contemporâneo, especialmente em um momento de polarização política e questionamentos sobre o papel da arte em tempos de crise democrática e de constantes ataques às políticas culturais.

O elenco formado por Vika Schabbach, Igor de Almeida, Gardênia Fontes e Guilherme Mergulhão constrói a atmosfera claustrofóbica de três atores refugiados em um teatro de São Petersburgo no fatídico Domingo Sangrento de 9 de janeiro de 1905. Neste dia histórico, manifestantes que marchavam pacificamente para entregar uma petição ao Czar, reivindicando melhores condições de trabalho, foram brutalmente fuzilados pela Guarda Imperial, evento que se tornaria o estopim da Revolução Russa de 1917.

A protagonista Olga Knipper, viúva de Anton Tchekhov e primeira atriz do Teatro de Arte de Moscou, surge como uma figura emblemática desta tensão entre luto pessoal e catástrofe coletiva. Incapaz de representar após a morte do marido por tuberculose seis meses antes, ela insiste em encenar repetidamente a morte de Tchekhov com seus colegas Masha e Aleko, numa compulsão que revela tanto a necessidade de elaborar o luto quanto a incapacidade de se conectar com a tragédia histórica que se desenrola nas ruas.

Vika Schabbach constrói essa complexa protagonista com notável sensibilidade e leveza, expondo as nuances das contradições de uma atriz que exterioriza suas próprias inseguranças através da arte. Suas interações com Igor de Almeida e Gardênia Fontes criam momentos de extrema cumplicidade, recriando a intimidade peculiar de uma sala de ensaio onde os limites entre pessoa e personagem se dissolvem, tornando visíveis os segredos íntimos do ofício teatral.

Um tecido visual com referências clássicas e registros da realidade atual. Foto: Jorge Farias

O material imagético construído por Consentino constitui um dos aspectos mais ricos e provocativos da montagem. A diretora elabora um tecido visual que trabalha deliberadamente com ironias e contrastes entre o que é dito no texto e as imagens projetadas, criando camadas interpretativas que expandem temporalmente a reflexão proposta por Calderón. As referências visuais transitam das clássicas sequências do Encouraçado Potemkin de Eisenstein, com sua famosa escadaria e a violência revolucionária, passando por filmes de propaganda stalinista, até alcançar vídeos contemporâneos que documentam opressões no Brasil e em toda a Nossa América Latina no século XXI. Esta montagem imagética inclui ainda registros dos movimentos patrióticos bolsonaristas, com suas ações frequentemente risíveis e grotescas, estabelecendo uma ponte provocativa entre a repressão czarista de 1905, os autoritarismos do século XX e as manifestações neofascistas atuais.

Particularmente instigante é a incorporação da dramaturgia incidental Estudo Nº 1 Morte e Vida do Grupo Magiluth, que funciona na linha do “plágio e combinação”, seguindo a estética antropofágica de Tom Zé. Esta inserção metateatral, onde uma cena do espetáculo do Magiluth surge dentro do próprio Neva, cria um efeito de mise en abyme que questiona as fronteiras entre criação e citação, entre originalidade e apropriação. Esta estratégia reforça o questionamento central da peça sobre a relevância e a serventia do teatro, ecoando a pergunta que atravessa toda a obra: para que serve a arte quando o mundo está em chamas?

A montagem de Consentino consegue, assim, atualizar a urgência do texto de Calderón para o contexto latinoamericano destes tempos. A questão sobre a importância da memória das ditaduras para a América Latina e o papel do teatro contemporâneo no avivamento desta memória traumática encontra na encenação uma pulsação cênica complexa.

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Édipo REC mais que vibrante
na sua incubadora em Caruaru
Crítica

Giordano Castro e Gabriela Cicarello, com Édipo e Jocasta. Foto: Jorge Farias

Erivaldo Oliveira como Coro no prólogo fora do teatro. Foto: Jorge Farias / Divulgação

Édipo REC, do Grupo Magiluth, do Recife, é um acontecimento cênico vibrante e desafiador. Gestada no Teatro Lycio Neves, em Caruaru, local que acolheu seu retorno no Festival de Teatro do AgresteFeteag 2025, a peça se apropria de uma narrativa trágica para questionar a sua perene relevância e a capacidade do teatro de provocar, desestabilizar e dialogar com as sensibilidades contemporâneas. A concepção do Magiluth, ligada ao conceito de “jogo” (escolha que valoriza a experimentação, a interação e a imprevisibilidade, convidando o espectador à coautoria da experiência), transforma o palco em um espaço de vivência contínua. Aqui, a plateia é ativamente convidada a participar de uma peça que desestrutura a cronologia linear e as expectativas tradicionais de fruição teatral.

O espetáculo começa antes mesmo da abertura formal dentro do teatro, com os atores circulando entre os espectadores no exterior do teatro, inaugurando um clima de cumplicidade e imersão imediata. Essa introdução festiva, pontuada pela distribuição de cervejas e a presença de personagens já em cena – como Kréonte, Tirésias, o Mensageiro e Corifeu que, munido de uma câmera, filma incessantemente – cria uma ponte fluida entre o cotidiano do espectador e o ritual cênico. O palco se transmuta em uma balada efervescente, com DJ Édipo (interpretado por Giordano Castro) mixando ritmos que vão de Rihanna e Pabllo Vittar a MC Poze do Rodo. Essa trilha sonora pop serve como uma lente para a atemporalidade dos dilemas humanos, justapondo o hedonismo contemporâneo à iminência da tragédia.

Nesse cenário de frenesi, o Coro, interpretado por Erivaldo Oliveira em um figurino provocativo e andrógino de Chris Garrido, assume o papel de anfitrião-provocador e de voz da consciência coletiva. Ele anuncia a festa, mas também alerta para a “vida decepcionante” que se esconde sob o verniz da celebração, encarnando a dualidade entre o júbilo e a premonição.
A plateia, especialmente na sessão em Caruaru, foi rapidamente arrastada para essa atmosfera de confluência entre o hedonismo e a premonição. A primeira hora do espetáculo, vivenciada em pé, em meio a uma balada caótica, permitiu experimentar o teatro como acontecimento, como uma troca mútua e palpável entre quem o faz e quem o assiste. A entrega do público de Caruaru, que se mostrou “animal” e “contagiante”, diz muito da estratégia do Magiluth em estabelecer uma conexão, utilizando a proximidade física e a quebra de protocolos para intensificar a experiência e desmantelar a barreira convencional entre palco e plateia.

Em um dos momentos de maior engajamento, o Coro estimula a “não-monogamia” e um “beijaço” geral. No entanto, apesar da efervescência desde o início da peça para a dança, a resposta do público ao estímulo do “beijaço” foi notavelmente discreta, até mesmo acanhada. 

Roberto Brandão, como Tirésias. Foto: Jorge Farias

Lucas Torres como Mensageiro. Foto Jorge Farias

Gabriela Cicarello como Jocasta

A atuação do elenco – dirigido com criatividade e irreverência por Luiz Fernando Marques, Lubi – assemelha-se a uma partida de basquete em que os jogadores, além de entrosados e estrategicamente alinhados através de um rigoroso trabalho de conjunto, têm espaço para o brilho individual, e todos contribuem para a “cesta” – um jogo perfeito de entrega e colaboração na sessão em Caruaru. Roberto Brandão, assumindo o papel de Tirésias, o cego vidente, com um cinismo elegante e um deboche quase felino, cumpre com dignidade a tarefa de suceder o impacto de Pedro Wagner, injetando uma nova camada de complexidade e impertinência ao profeta.

Enquanto isso, Gabriela Cicarello, substituindo Nash Laila como Jocasta, entrega uma figura altiva e permeada por lutos não verbalizados, transmitindo através de sua postura e olhar uma profundidade melancólica à sua personagem, capaz de transitar entre diferentes estados emocionais e funções narrativas, do desdém à desesperança.

A trilha sonora, festiva e dramática, serve como um motor potente da dramaturgia, carregada de ironia e pensamento. O karaokê de Toda forma de amor, de Lulu Santos, é uma instigação que ressoa com as tensões da peça, indagando sobre os limites e as complexidades do amor, que abarca inclusive os proibidos e os incestuosos, reverberando os dilemas intemporais da tragédia.

As referências a outras obras, como Beijo no Asfalto de Nelson Rodrigues, enriquecem o intertexto, conectando a tragédia grega a outras explorações da paixão, do destino e do julgamento social na dramaturgia brasileira, especialmente no contexto urbano e suas hipocrisias.

Linguagem audiovisual utilizada na reconstrução da tragédia Foto: Jorge Farias / Divulgação

A linguagem audiovisual é um pilar fundamental na construção de Édipo REC. O espetáculo se inspira fortemente no cinema, transformando Tebas em um Recife fantasmagórico e presentificado, onde o Corifeu, munido de uma câmera em tempo real, atua como um olho onipresente e, por vezes, intrusivo. Ele registra e transmite imagens para telões estrategicamente posicionados, como também media a realidade, manipulando a percepção do público e posicionando-o como voyeur e cúmplice.

Essa escolha tecnológica espelha a superprodução de imagens da era das redes sociais, a vigilância constante e a construção de narrativas digitais, onde a verdade é frequentemente moldada pela perspectiva da câmera e pela curadoria do conteúdo. A integração da tecnologia confere uma camada metalinguística à narrativa, explorando a relação intrínseca entre o real e o encenado, entre o que é filmado e o que é vivido.

O grupo Magiluth buscou referências no cinema experimental e underground, explorando como diferentes estéticas cinematográficas poderiam dialogar com a tragédia clássica e contemporânea. Desde o seminal Édipo Rex (1967) de Pier Paolo Pasolini, que explora a tragédia grega com uma estética brutalista, arcaica e quase documental, utilizando não-atores e locações desérticas para enfatizar os instintos primais e a inevitabilidade do destino de forma crua, Édipo REC absorve essa crueza na performance e na representação de um Recife desolado, onde a miséria e a beleza se entrelaçam sem filtros. O vanguardista Funeral das Rosas (1969) de Toshio Matsumoto, um mergulho no universo contracultural das drag queens de Tóquio, com sua subversão de gênero, fluidez da identidade e fragmentação narrativa, influenciou a estética não-linear e a desconstrução de papéis em Édipo REC, onde a identidade de Édipo é constantemente questionada e reconfigurada pela lente da câmera e pela interação com o Corifeu.

Outros filmes como Hiroshima, meu amor (1959) de Alain Resnais, com sua estrutura não linear e a forma como aborda a memória e o trauma, influenciaram a maneira como Édipo REC lida com o tempo e a persistência do passado no presente, utilizando montagens rápidas e justaposição de imagens para evocar a fragmentação da memória e o peso do trauma coletivo. Cinema Paradiso (1990) de Giuseppe Tornatore, que celebra o poder do cinema e da nostalgia, contribuiu para a reflexão sobre a capacidade das imagens de construir e preservar memórias, e como elas moldam nossa compreensão da realidade e do afeto; em Édipo REC, as imagens capturadas e projetadas tornam-se o registro “oficial” da tragédia, o que será lembrado e transmitido. E Cabaret” (1972) de Bob Fosse, que retrata a decadência social e política da Alemanha pré-Nazista através do microcosmo de um clube noturno, influenciou a estética de performance e a crítica social, mostrando como o entretenimento pode mascarar ou, inversamente, expor as tragédias iminentes, utilizando a teatralidade da encenação e a interação com a plateia para desnudar as tensões sociais latentes na Tebas-Recife.

Transformação do amor de Édipo e Jocasta no segundo ato, do Velório. Foto: Jorge Farias

A transição entre os atos é impactante, como quebra narrativa e também como dispositivo que força o público a uma reorientação. Os espectadores são solicitados a se retirar do espaço cênico por alguns minutos, um ato que simula uma interrupção técnica, como se a cena anterior precisasse ser ‘refilmada’ ou o set ‘reajustado’. Esta pausa deliberada para a interrupção da festividade e da ilusão, um reset forçado prepara o terreno para a iminente catástrofe que assola Tebas-Recife ou Caruaru-Tebas.

Se o primeiro ato foi a “festa” de uma grande celebração, onde Édipo ainda se agarrava à esperança de fugir de seu destino através do hedonismo e da negação, o segundo ato é o “velório”, o “enterro” simbólico da ilusão e da inocência. Os espectadores são arrastados para o olho do furacão da tragédia, acompanhando o protagonista em um mergulho implacável nas consequências devastadoras de suas ações e do destino.

A dramaturgia de Giordano Castro, com sua crueza, escancara as feridas da humanidade e as verdades dolorosas detectadas por Sófocles, revelando as consequências inevitáveis do destino e do conhecimento proibido. O amor, antes celebrado e idealizado, assume-se como “horror” para a família de Édipo

Adicionalmente, um evento que marcou o final do primeiro ato – uma “performance” inesperada onde alguém lançou lixo orgânico, com laranjas estragadas, no palco, exalando um cheiro forte e desagradável – adicionou uma camada de caos e crueldade à cena. Ficamos na dúvida sobre a espontaneidade do ato, parecendo até uma cena combinada. Mas não foi. De todo modo, esse gesto metateatral além de mimetizar a desordem e a decadência na cena, materializou a “praga” que assola Tebas, atacando os sentidos do público. A experiência olfativa e visual do lixo orgânico serviu como um presságio sensorial da putrefação moral e social que se revela no segundo ato.

Bruno Parmera. Foto: Jorge Farias

Mário Sérgio e Giordano Castro. Foto: Jorge Farias e Giordano Castro, Kreonte e Édipo. Foto: Jorge Farias

No segundo ato denso, os personagens travam embates de acusação e defesa em um clima crescente do estado de desespero. No desenvolvimento do retorno da memória de Édipo, ganha destaque a projeção de uma gravação em que o protagonista, pilotando uma motocicleta, encontra e mata Laio.

A integração das tecnologias audiovisuais é central para a narrativa e a estética. A presença constante do Corifeu vertido em operador de câmera em cena, que registra e interfere ativamente nos acontecimentos, reflete a ubiquidade da mídia em nossa sociedade e questiona a natureza da verdade e da representação, transformando o público em voyeurs cúmplices da tragédia. A atmosfera torna-se inescapável, remetendo à reflexão de Sófocles sobre a verdadeira medida da vida e da felicidade de uma pessoa, que só pode ser avaliada quando chega ao seu desfecho.

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Magiluth celebra poeta e questiona hierarquias narrativas em Miró: Estudo n°2

Miró da Muribeca construiu uma poética urbana que desafiou hierarquias culturais estabelecidas. Magiluth honra essa trajetória. Foto: Jorge Farias 

A metateatralidade estrutura integralmente Miró: Estudo n°2 do Grupo Magiluth como metodologia de questionamento social, revelando suas potencialidades críticas através de cada escolha cênica. O espetáculo constrói um laboratório onde as fronteiras entre realidade e representação se dissolvem para expor mecanismos de poder que determinam quais vidas merecem ser teatralizadas. Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira e Giordano Castro desenvolvem uma dramaturgia expandida que problematiza fundamentalmente a legitimidade de quem narra histórias de resistência urbana.

Erivaldo Oliveira imprime uma atuação que dialoga visceralmente com a memória coletiva recifense, capturando gestualidades e cadências vocais que reconstituem a presença poética de Miró através de uma abordagem que evita reducionismos estereotipados. O próprio grupo dirige um jogo cênico onde as posições de protagonista, antagonista e coadjuvante se desestabilizam constantemente, questionando privilégios de representação através de estratégias performáticas que evidenciam tensões sociais contemporâneas.

Crítica social e experimentação formal se articulam ao incorporar linguagens tecnológicas como extensões orgânicas do discurso teatral, reconhecendo manifestações culturais periféricas como produtoras de inovação estética própria. Fragmentação narrativa espelha a própria experiência urbana, construindo uma poética cênica que recusa linearidades coloniais em favor de perspectivas múltiplas e simultâneas. Estudo n°2 opera como dispositivo de questionamento que desloca hierarquias narrativas estabelecidas.

Em cena, Bruno Parmera, Giordano Castro e Erivaldo Oliveira. Foto: Jorge Farias 

Particular potência emerge da exploração de espacialidades teatrais expandidas, materializando deslocamentos geográficos e simbólicos que redefinem relações entre centro e periferia. Esta escolha cênica corporifica o conceito de cidade como organismo político, onde cada território carrega marcas simultâneas de violência e resistência. O espetáculo constrói uma dramaturgia que questiona processos de apagamento histórico sem recorrer a idealizações que despolitizam conflitos reais.

João Flávio Cordeiro da Silva, o Miró da Muribeca (1960-2022), construiu uma poética urbana que desafiou hierarquias culturais estabelecidas, e Estudo n°2 honra essa perspectiva ao questionar como biografias periféricas podem ocupar centralidade cênica mantendo sua potência transformadora. O trabalho do Magiluth reconhece Miró da Muribeca como produtor de conhecimento estético autônomo, recusando lógicas de inclusão que mantêm estruturas coloniais intactas.

SERVIÇO
🎭 Miró: Estudo n°2
19, 20 e 21 de agosto, às 20h
📍 Centro Apolo Hermilo. Teatro Apolo, Recife
️ Ingressos de R$ 30 a R$ 60 + taxas no Sympla  

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Vamos ao teatro Recife!

O primeiro ato de Édipo REC é pra dançar até o pé inchar. Foto: Camila Macedo

Caliuga, da Cia. de Teatro Negro Macacada. Foto: Divulgação

Circo Godot, com Asaías Rodrigues e Charles de Lima. Foto: Divulgação

Dan Stulbach em O Mercador de Veneza. Foto Ronaldo Gutierrez. Foto: Divulgação

Fico feliz quando tem opções teatrais nesta cidade de pontes, rios e lama. Mangue que resiste e pulsa cultura apesar das dificuldades, Recife oferece neste fim de semana uma programação teatral diversificada que comprova como os artistas locais seguem criando, mesmo diante da escassez de espaços e investimentos. É uma alegria rara ver tantas opções simultâneas numa cidade onde a produção teatral enfrenta desafios constantes de infraestrutura e financiamento.

A programação deste fim de semana oferece um caleidoscópio de linguagens que vai do experimental ao infantil, passando por clássicos reinventados e comédias que espelham nossas neuroses contemporâneas. É uma demonstração de que, quando há oportunidade, a criatividade pernambucana floresce com força total.

O teatro experimental ganha destaque com Édipo REC, do Grupo Magiluth, que redefine a tragédia clássica em chave contemporânea no Teatro Luiz Mendonça. Vinte anos de investigação cênica culminam nesta montagem que articula teatro, performance, música e cinema com projeções ao vivo, transformando o mito sofocliano em reflexão vertiginosa sobre identidade, poder e representação na era digital. A direção de Luiz Fernando Marques (Lubi) materializa um dispositivo cênico que dissolve hierarquias tradicionais entre palco e plateia, enquanto a dramaturgia de Giordano Castro opera em estratos temporais simultâneos, criando conexões inesperadas entre neuroses antigas e contemporâneas.

No mesmo território experimental, Caliuga, da Cia. de Teatro Negro Macacada, mergulha nas intersecções entre identidade racial e mercado de trabalho no Teatro Joaquim Cardozo. Luiz Apolinário assina dramaturgia e direção que transformam a jornada da protagonista em espelho das contradições sociais brasileiras, explorando como a busca por trabalho se converte em luta contra destinos impostos. A trilha sonora de César Seco e Raul Vaubruma subverte expectativas ao empregar instrumentos infantis para abordar temáticas adultas, criando paisagem sonora que oscila entre nostalgia da infância perdida e dureza da realidade laboral.

A comédia física encontra sua expressão mais refinada em Circo Godot, no Teatro Hermilo Borba Filho. A Companhia Circo Godot de Teatro, com mais de uma década de pesquisa, entrelaça teatro físico, circo e crítica social através da dupla Gatropo e Tropino – versões livres dos personagens beckettianos Pozzo e Lucky. Asaías Rodrigues e Charles de Lima constroem vagabundos que perambulam oferecendo entretenimento, mas carregam em sua dinâmica relacional uma crítica feroz às estruturas de poder. A direção de Quiercles Santana solicita participação ativa da plateia, transformando cada apresentação em experiência única.

O teatro clássico reinventado se faz presente com O Mercador de Veneza, na CAIXA Cultural, onde Dan Stulbach entrega um Shylock magistral que suscita com maestria todos os temas complexos da obra shakespeariana: antissemitismo, intolerância religiosa, ganância, justiça versus misericórdia. A direção de Daniela Stirbulov desloca o foco narrativo para construir Shylock como protagonista, transformando o agiota judeu de vilão em centro moral da história. A transposição temporal para os anos 1990 dialoga com o capitalismo emergente retratado por Shakespeare, criando pontes entre a Veneza renascentista e nossa sociedade neoliberal.

Wilson de Santos em A Novica Mais Rebelde. Foto: João Caldas

Não! com Adriana Birolli.

Hélio o balão que não consegue voar Foto Ricardo Maciel

Histórias do Meu Povo, no Espaço O Poste, onde Roma Julia. Reprodução da internet

As comédias contemporâneas ganham força com A Noviça Mais Rebelde, onde Wilson de Santos celebra 16 anos ininterruptos de um fenômeno teatral que desafia regras de longevidade artística. Irmã Maria José surge como personagem que concilia vocação religiosa com memórias mundanas, criando identificação imediata através de contradições humanas universais. No Teatro Santa Isabel, NÃO! transforma em comédia a tragédia cotidiana de quem vive dizendo sim quando o coração grita não. Adriana Birolli enfrenta a incapacidade crônica de recusar convites numa terapia cênica que pode ser a diversão do público.

A programação infantil se destaca com duas produções do 21º Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco. Hélio, o Balão que Não Consegue Voar utiliza formas animadas para abordar poeticamente o Transtorno do Espectro Autista, lembrando que a verdadeira magia está em encontrar caminhos próprios. Os 3 Super Porquinhos adapta o conto tradicional inserindo questões sobre paz mundial e preservação ambiental, dialogando simultaneamente com crianças e adultos.

A diversidade se completa com Histórias do Meu Povo, no Espaço O Poste, onde Roma Julia conduz experiência que celebra culturas afro-indígenas através de contos africanos, narrativas indígenas e itãs de orixás. O projeto inclui acessibilidade sensorial com aromas de folhas e café, transformando o espaço em “jardim de memórias” onde tradição oral encontra contemporaneidade.

Yerma Atemporal. Foto: Divulgação

No interior, Yerma Atemporal se apresenta em Caruaru – uma produção recifense em circulação estadual que revisita a obra de Lorca em chave contemporânea, e O Massacre de Angico – A Morte de Lampião, uma encenação ao ar livre em Serra Talhada que recria um dos momentos mais emblemáticos da história do cangaço. Teatro acontecendo também fora da capital.

PROGRAMAÇÃO
TEATRO EXPERIMENTAL
🎭 Édipo REC
Grupo Magiluth
📍 Teatro Luiz Mendonça – Parque Dona Lindu
📅 25 e 26 de julho, às 20h
🎟️ R$ 30 a R$ 120
Produção: Grupo Magiluth

🌙 Caliuga
Cia. de Teatro Negro Macacada
📍 Teatro Joaquim Cardozo (UFPE)
📅 25-26/07, às 19h30
🎟️ Inteira R$ 20 | Meia R$ 10
Produção: Cia. de Teatro Negro Macacada

🎪 Circo Godot
Companhia Circo Godot de Teatro
📍 Teatro Hermilo Borba Filho
📅 25, às 20h e 26/07, às 17h
🎟️ Sympla e bilheteria do teatro
Produção: Circo Godot de Teatro

CLÁSSICOS REINVENTADOS
⚔️ O Mercador de Veneza
Kavaná Produções e Baccan Produções
📍 CAIXA Cultural
📅 24/07-02/08, 20h
🎟️ R$ 30 e 15
Produção: Kavaná Produções e Baccan Produções

COMÉDIAS CONTEMPORÂNEAS
🙏 A Noviça Mais Rebelde
Teatro do Riso e Roberto Costa Produções
📍 Teatro do Parque
📅 25/07, 20h e 27/07, 19h
🎟️ R$ 60 a R$ 120
Produção: Teatro do Riso e Roberto Costa Produções

🚫 NÃO!
📍 Teatro de Santa Isabel
📅 25/07, 20h, 26/07, 19h e 27/07, 18h
🎟️ R$ 40 a R$ 140
Produção: Casona Produções

TEATRO INFANTIL
🎈 Hélio, o Balão que Não Consegue Voar
21º Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco
📍 Teatro do Parque
📅 26/07, 16h30
🎟️ R$ 30 a R$ 60
Produção: Métron Produções

🐷 Os 3 Super Porquinhos
📍 Teatro do Parque
📅 27/07, 16h30
🎟️ R$ 40 a R$ 80
Produção: Roberto Costa Produções

NARRATIVAS ANCESTRAIS
📚 Histórias do Meu Povo
Roma Julia
📍 Espaço O Poste
📅 26/07, 16h
🎟️ Entrada gratuita
Produção: Projeto independente com apoio Funarte

INTERIOR DO ESTADO
🎭 Yerma Atemporal
Projeto de Simone Figueiredo
📍 Teatro Rui Limeira Rosal, Caruaru
📅 25/07, às 19h
Produção: Circulação estadual

⚔️ O Massacre de Angico – A Morte de Lampião
📍 Estação do Metrô, Serra Talhada
📅 25 a 27, 20h
Produção: Projeto regional

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Potência criativa
em busca de amplitude 
eis as artes cênicas no Recife

Édipo REC, do Grupo Magiluth. Foto: Camila Macedo

Pedro Wagner como Tirésias em Édipo REC. Foto: Camila Macedo

Circo Godot, com direção de Quiecles Santana, já viajou por vários países

O Grupo Magiluth está em casa, no Recife, neste fim de semana festejando duas décadas de pesquisa cênica que posicionam o coletivo como uma das companhias mais inventivas do teatro brasileiro contemporâneo. Édipo REC, com dramaturgia de Giordano Castro e direção de Luiz Fernando Marques (Lubi), abarca o amadurecimento de uma linguagem que atravessa experimentalismo, teatro político e reinvenção de clássicos. A montagem exige execução complexa ao articular teatro, performance, música e cinema com projeções ao vivo – um desafio técnico que encontra no Teatro Luiz Mendonça, no Parque Dona Lindu, o espaço adequado para sua realização.

A temporada meteórica do Magiluth se soma a uma programação que revela um “flagrante” de diversidade do circuito teatral recifense: o giro de O Mercador de Veneza, com Dan Stulbach e elenco, pela estrutura nacional da Caixa Cultural, montagens como Circo Godot, dirigido por Quiercles Santana, ocupando o Teatro Hermilo Borba Filho (equipamento municipal vocacionado para trabalhos mais experimentais) e Caliuga no Teatro Joaquim Cardozo, espaço universitário da UFPE que abriga a reflexão da Cia. de Teatro Negro Macacada sobre identidade racial e mercado de trabalho.

O Diário de Villeneuve apresenta o teatro de terror da Cia Imaginarium; Histórias do Meu Povo desenvolve trabalho decolonial no Espaço O Poste, o 21º Festival de Teatro para Crianças celebra inclusão e tradição, e o fenômeno de longevidade que é A Noviça Mais Rebelde, com 16 anos consecutivos em cartaz, mais de 600 mil espectadores, um sucesso que se renova.

Esta movimentação, contudo, também expõe limitações estruturais. Enquanto teatros municipais Santa Isabel, Parque e Hermilo são ocupados intensamente, o Teatro Arraial Ariano Suassuna passa sem programação neste fim de semana, assim como os teatros Marco Camarotti e Capiba do SESC.

Para uma capital de 1,7 milhão de habitantes – 4 milhões na região metropolitana – que já presenteou o mundo com o Manguebeat e faz o público se orgulhar do cinema brasileiro, com suas produções audiovisuais, a cena teatral atual, por mais qualificada que seja, ainda opera aquém de seu potencial.

Recife é uma metrópole que pulsa cultura em suas veias desde os tempos coloniais. Capital que gerou movimentos estéticos inovadores, mantém tradições seculares e continua produzindo artistas que conquistam o país, a cidade possui criadores, público e vocação para sustentar um circuito teatral muito mais amplo.

Faltam políticas públicas mais ousadas e consistentes para as artes cênicas pernambucanas: tanto no fomento institucional a grupos locais quanto na modernização e ampliação dos equipamentos culturais.

Mas será que o problema se resume apenas ao poder público? Recife também carece de investidores privados que compreendam o valor cultural e econômico de uma cena teatral articulada – e aqui cabe perguntar: ainda existem mecenas verdadeiros, amantes do teatro dispostos a apostar nesta arte viva?

Narrativas encontradas numa garrafa pet na beira da maré. Foto: Jorge Farias

Uma provocação recente de um diretor e curador bem conceituado, que conhece bem a realidade teatral recifense, merece reflexão: além do Magiluth, que circula nacionalmente com seu repertório diversificado, e do Grupo São Gens de Teatro, que recentemente com Narrativas Encontradas Numa Garrafa Pet na Beira da Maré furou a bolha, percorreu festivais e conquistou o Brasil, quantos outros espetáculos produzidos no Recife estariam verdadeiramente “prontos” para encarar uma temporada em São Paulo, por exemplo?

Para esse curador, o problema central não são os recursos: falta desejo de fazer, de ousar, de quebrar paradigmas, de marcar a diferença para além dos circuitos locais. Falta ambição artística que tenha potência para uma circulação nacional sem perder a identidade pernambucana.

E você, leitora, leitor? O que pensa sobre essa provocação? Concorda que falta ousadia criativa ou acredita que a questão é mesmo estrutural?

Grupo Experimental leva Zambo com a 5ª geração para a França

Há evidências de que quando o incentivo chega, a arte pernambucana demonstra sua força. O Grupo Experimental de Dança, que desde 1993 assume lugar de destaque na dança contemporânea nordestina pela originalidade e contribuição para a profissionalização da cena recifense, comprova essa potência. Enfrentando o quadro geral das artes cênicas em Pernambuco – escassez de recursos, poucos editais, dificuldades estruturais –, o grupo resiste e insiste, como muitos outros. Agora, através do Programa Funarte Brasil Conexões Internacionais, no âmbito do Ano Cultural Brasil-França 2025, leva o espetáculo Zambo para terras francesas.

Da andada pelo mangue à travessia do oceano, cantarola o grupo. Zambo, criado em 1997 como homenagem ao Movimento Manguebeat e a Chico Science, será apresentado no Festival Baluê, em Lyon, com a 5ª geração de bailarinos da obra. Quase 30 anos depois de sua criação, o espetáculo reforça a atemporalidade do movimento mangue e a importância da manutenção cultural através da resistência artística. É vida o que brota desse mangue fértil recifense, e quando há incentivo adequado, essa vida corre e move o mundo.

VAMOS AOS ROLÊS CÊNICOS NO RECIFE

Magiluth redefine a tragédia clássica em chave contemporânea

Édipo REC faz festa e chama para a reflexão sobre o “destino”. Foto: Camila Macedo / Divulgação

Vinte anos de investigação cênica do Grupo Magiluth culminam em Édipo REC, espetáculo que chega como confluência poética e política de uma trajetória que redesenhou fronteiras do teatro experimental brasileiro. Desde 2004, o coletivo pernambucano estabeleceu-se como laboratório de linguagens híbridas, circulando por festivais nacionais e internacionais com propostas que interrogam obsessões do tempo presente. Esta montagem configura-se como o ápice dessa pesquisa: uma reflexão vertiginosa sobre identidade, poder e representação na era digital.

A inventividade de Luiz Fernando Marques (Lubi) na direção materializa-se na construção de um dispositivo cênico que dissolve hierarquias tradicionais entre palco e plateia, transformando o teatro em arena participativa onde espectadores se tornam testemunhas ativas da tragédia. A dramaturgia de Giordano Castro opera em estratos temporais simultâneos, tecendo conexões inesperadas entre o mito sofocliano e neuroses contemporâneas, criando uma experiência que é simultaneamente espetáculo teatral, happening performático e ensaio crítico sobre nossos vícios imagéticos.

O universo sonoro e visual da montagem está repleto de sofisticação técnica : Jathyles Miranda assina design de luz que dialoga com as projeções ao vivo, enquanto Chris Garrido desenvolve figurinos que transitam entre referências clássicas e estética digital. A trilha sonora, executada em tempo real pelo próprio grupo, atua como outra voz dramatúrgica, comentando e amplificando tensões narrativas. Clara Caramez coordena o vídeo maping que transforma o espaço em território instável, onde realidade e simulacro se confundem deliberadamente.

Nash Laila injeta energia quase juvenil em Jocasta, construindo uma matriarca que oscila entre vulnerabilidade e manipulação midiática. Erivaldo Oliveira comanda o Coro-drag com maestria afiada, destilando crítica social através de humor corrosivo que expõe contradições do espetáculo político brasileiro. Giordano Castro, além de dramaturgo, interpreta um Édipo dilacerado entre sede de fama e terror da exposição, personificando o sujeito contemporâneo viciado em likes e aterrorizado pela própria imagem.

Bruno Parmera desenvolve performance notável como Corifeu-cameraman, figura que questiona a própria natureza do olhar teatral. Lucas Torres transforma o Mensageiro em personagem complexo, dotado de densidade que supera a função tradicional de porta-voz dos acontecimentos. A interpretação ganha dimensões adicionais quando descobrimos que, diferentemente das tragédias clássicas, este Mensageiro possuía intimidade especial com Laio, tornando-se depositário de segredos e cúmplice de rituais privados.

Reconhecido do audiovisual brasileiro por atuações marcantes em Irmandade (Netflix), O Jogo que Mudou a História (Globoplay) e mais recentemente em Guerreiros do Sol (Globoplay), além de participações em Cangaço Novo (Prime Video) e no filme Lispectorante, de Renata Pinheiro, Pedro Wagner constrói um Tirésias de múltiplas identidades. Seu figurino que combina elementos femininos e masculinos faz referência à metamorfose mitológica do personagem e comenta a fluidez de gênero e performance identitária. Mário Sergio encarna Creonte, irmão de Jocasta e político pragmático que ambiciona o poder através de alianças estratégicas.

Édipo REC opera como um caleidoscópio crítico de nossa época. Tempo em que todos produzimos, editamos e performamos versões idealizadas de nós mesmos, alimentando algoritmos que nos observam e julgam incessantemente. O espetáculo expõe engrenagens de uma sociedade obcecada por autorrepresentação, investigando como a fronteira entre pessoa e personagem se torna cada vez mais porosa e problemática.

SERVIÇO
📍 Teatro Luiz Mendonça – Parque Dona Lindu
📅 25 e 26 de julho, às 20h
🎟️ R$ 30 a R$ 120
Mais Informações: @magiluth | @teatroluizmendonca

FICHA TÉCNICA
Criação: Grupo Magiluth, Nash Laila e Luiz Fernando Marques
Direção: Luiz Fernando Marques
Dramaturgia: Giordano Castro
Elenco: Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, Mário Sergio Cabral, Nash Laila e Pedro Wagner
Design de luz: Jathyles Miranda
Designe gráfico: Mochila Produções
Figurino: Chris Garrido
Trilha sonora: Grupo Magiluth, Nash Laila e Luiz Fernando Marques
Cenografia e montagem de vídeo: Luiz Fernando Marques
Cenotécnico: Renato Simões
Vídeo maping e operaçao: Clara Caramez
Captação de imagens: Bruno Parmera, Pedro Escobar e Vitor Pessoa
Equipe de produção de vídeo: Diana Cardona Guillén, Leonardo Lopes, Maria Pepe e Vitor Pessoa
Produção: Grupo Magiluth

 

O Mercador de Veneza na Caixa Cultural 

O Mercador de Veneza. Foto: Ronaldo Gutierrez / Divulgação

A montagem de O Mercador de Veneza que chega ao Recife propõe uma leitura contemporânea radical de um dos textos mais controversos de William Shakespeare. Sob a direção de Daniela Stirbulov, a adaptação desloca o foco narrativo tradicional para construir Shylock como protagonista absoluto, transformando o agiota judeu de vilão shakespeariano em centro moral da história. Esta escolha dramatúrgica ressignifica completamente a obra, revelando as estruturas de poder e preconceito que sustentam a sociedade veneziana – e, por extensão, a nossa.

A transposição temporal para os anos 1990 vai além da estética. A direção identifica nessa década o momento de aceleração da globalização e emergência de uma nova ordem mundial, contexto que dialoga diretamente com o capitalismo emergente do século XVI retratado por Shakespeare. Stirbulov cria um universo onde as tensões entre tradição e modernidade, local e global, se materializam através de conflitos religiosos e econômicos que ecoam tanto na Veneza renascentista quanto na sociedade neoliberal contemporânea.

O núcleo dramático permanece o mesmo: Antônio, o mercador cristão, contrai empréstimo com Shylock para financiar os planos românticos de seu amigo Bassânio. A garantia macabra – uma libra de carne humana – funciona como metáfora sobre os custos humanos do sistema financeiro. Quando a dívida não é quitada, o julgamento que se segue expõe a sede de vingança de Shylock e a hipocrisia de uma sociedade que pratica antissemitismo sistemático enquanto se beneficia dos serviços financeiros dos judeus.

A cenografia concebida para a montagem materializa essas tensões através de linguagem visual que utiliza uma estrutura acrílica transparente no centro do palco como tablado elevado, criando múltiplos níveis de representação que sugerem tanto tribunal quanto mercado financeiro. O painel circular de LED no alto do palco desenha palavras e frases conectadas à ação, funcionando como comentário visual que amplifica subtextos da narrativa. A presença de um operador de câmera captando imagens em tempo real, projetadas simultaneamente no painel, estabelece diálogo direto com nossa era de vigilância digital e espetacularização da vida privada.

A trilha sonora executada ao vivo por uma baterista no palco adiciona pulsação contemporânea à dramaturgia, criando atmosfera que oscila entre tensão financeira e violência urbana. Dan Stulbach, no papel de Shylock, constrói interpretação que humaniza o personagem sem romantizá-lo, revelando as contradições de um homem que é simultaneamente vítima do preconceito social e algoz implacável quando obtém poder de retaliação.

A montagem confronta o público com questões sobre intolerância, identidade e justiça que permanecem urgentes, evidenciando como vilões e heróis se confundem nas máscaras sociais. A obra, atravessada por tensões religiosas e preconceitos, mantém sua relevância ao abordar transformações nas relações humanas e tensões sociais que atravessam séculos.

A produção chega ao Recife após temporada de sucesso na CAIXA Cultural do Rio de Janeiro, consolidando-se como uma das adaptações shakespearianas mais provocativas em cartaz no país.

FICHA TÉCNICA
Texto: William Shakespeare
Direção: Daniela Stirbulov
Tradução, Adaptação e Assistência de Direção: Bruno Cavalcanti
Elenco: Dan Stulbach, Augusto Pompeo, Amaurih Oliveira, Cesar Baccan, Gabriela Westphal, Júnior Cabral, Marcelo Diaz, Marcelo Ullmann, Marisol Marcondes, Rebeca Oliveira, Renato Caldas, Thiago Sak
Baterista em Cena: Caroline Calê
Cenografia: Carmem Guerra
Cenotécnico: Douglas Caldas
Desenho de Luz: Wagner Pinto e Gabriel Greghi
Figurino e Visagismo: Allan Ferc
Assistente de Figurino: Denise Evangelista
Peruqueiros: Dhiego Durso e Raquel Reis
Direção de Movimento: Marisol Marcondes
Aderecista: Rebeca Oliveira
Consultoria sobre Shakespeare: Ricardo Cardoso
Vídeo e Imagem: André Voulgaris
Fotos: Ronaldo Gutierrez
Design Gráfico: Rafael Oliveira Branco
Operação de Luz: Jorge Leal
Operação de Som: Rodrigo Rios
Assistente de Produção: Amanda Nolleto
Produção Executiva: Raquel Murano
Direção de Produção: Cesar Baccan e Marcelo Ullmann
Produção: Kavaná Produções e Baccan Produções
Realização: CAIXA Cultural

SERVIÇO
📍CAIXA Cultural Recife – Av. Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife
📅 24 de julho a 2 de agosto (quinta a sábado)
🕐20h
🎟️ R$ 30 (inteira) | R$ 15 (meia-entrada para clientes CAIXA e casos previstos em lei)
📞(81) 3425-1915
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🔞Não recomendado para menores de 12 anos
♿Acesso para pessoas com deficiência

 

Circo Godot é comédia física que espelha relações de poder

Asaías Rodrigues e Charles de Lima em Circo Godot. Foto: Divulgação

A Companhia Circo Godot de Teatro, fundada em 2010 por Asaías Rodrigues, Andrezza Alves e Damiano Massachesi, com posterior chegada de Charles de Lima, desenvolve há mais de uma década uma linguagem cênica singular que entrelaça teatro físico, circo e crítica social. O coletivo de artistas encontrou na fusão dessas linguagens uma forma potente de comunicação que atravessa barreiras culturais e geracionais, como comprova a circulação internacional do grupo por países como Grécia, Tunísia e Itália.

O espetáculo Circo Godot constrói-se sobre alicerces dramatúrgicos sólidos: a comicidade rústica dos bufões medievais e a tradição da comédia pastelão se combinam ao teatro físico contemporâneo e ao gromelô – linguagem gestual que prescinde de palavras para comunicar emoções e situações complexas. Esta escolha estética permite que a obra dialogue com públicos diversos, independentemente de idioma ou origem cultural.

A inspiração beckettiana surge de forma livre e criativa através dos personagens Pozzo e Lucky, figuras de Esperando Godot que aqui ganham nova roupagem como Gatropo e Tropino. Asaías Rodrigues e Charles de Lima constroem uma dupla de vagabundos que perambula pelo mundo oferecendo entretenimento para sobreviver, mas que carrega em sua dinâmica relacional uma crítica feroz às estruturas de poder que permeiam nossa sociedade.

A força da proposta reside na simplicidade aparente que revela múltiplas possibilidades de leitura: Gatropo emerge como o chefe autoritário que ordena, explora, desconfia e intimida, empunhando o chicote como símbolo de sua autoridade. Tropino, por sua vez, representa o subalterno ingênuo e alegre, faz-tudo que aceita sua condição com resignação aparente. A tensão dramática nasce da mesquinhez do primeiro e da ameaça latente que o segundo representa ao posto de comando estabelecido.

O desenvolvimento dramatúrgico conduz a plateia através de ações cotidianas que gradualmente revelam a toxicidade da relação hierárquica entre os personagens. Conforme evoluem os números circenses – equilibrismo, malabarismo, acrobacias -, emergem sentimentos mútuos de desprezo que culminam em reviravolta inesperada provocada por um descuido aparentemente insignificante. Esta estrutura narrativa espelha como pequenos eventos podem desestabilizar sistemas de poder aparentemente sólidos.

A direção de Quiercles Santana solicita participação ativa da plateia, transformando cada apresentação em experiência única e irrepetível. O espetáculo se apresenta como provocação reflexiva sobre ganância dos poderosos e sadismo inerente às relações de dominação, ativando o que o diretor define como “sentido lúdico do existir”.

A versatilidade da montagem manifesta-se em sua capacidade de adaptação a diferentes espaços: teatros convencionais, ruas, praças e pátios se transformam em palcos para esta comédia física que prescinde de cenários elaborados. O desenho de luz delicado de Luciana Raposo valoriza a expressividade corporal dos intérpretes, enquanto a produção executiva de Juan Saucedo garante a circulação eficiente do espetáculo.

A temporada recifense oferece oportunidade rara de contato com uma proposta original do teatro físico brasileiro contemporâneo, trabalho que demonstra como poucos recursos cênicos podem gerar grande impacto teatral quando sustentados por pesquisa artística consistente e olhar crítico sobre a realidade social.

SERVIÇO:
📍Teatro Hermilo Borba Filho
📅 24 e 25 de julho (quinta e sexta), às 20h
📅 26 de julho (sábado), às 17h
🎟️Ingressos www.sympla.com.br e na bilheteria do teatro (abre 1h antes do evento)

FICHA TÉCNICA
Criação e Interpretação: Asaías Rodrigues e Charles de Lima
Direção: Quiercles Santana
Desenho de Luz: Luciana Raposo
Fotos: Walton Ribeiro
Produção Executiva: Juan Saucedo
Companhia: Circo Godotde Teatro

 

Caliuga, teatro negro em diálogo com a luta contemporânea

Caliuga da Cia. de Teatro Negro Macacada. Foto: Gabriel Mesgo / Divulgação 

Caliuga da Cia. de Teatro Negro Macacada mergulha nas intersecções entre identidade racial e  mercado de trabalho. Através de situações concretas e reconhecíveis, a produção explora discriminação estrutural, construindo narrativa que provoca reflexão genuína sobre realidades complexas. O espetáculo faz duas apresentações no Teatro Joaquim Cardozo, espaço universitário da UFPE,

Luiz Apolinário assina dramaturgia e direção que transformam a jornada de Caliuga em espelho das contradições sociais brasileiras. Com assistência de direção de Roby Nascimento – ambos estudantes de teatro na UFPE -, a encenação parte da morte da avó protetora para explorar como a busca por trabalho se converte em luta contra destinos impostos pela própria família. Entre a maldição familiar e o sonho de cavalgar, a protagonista navega por territórios onde emprego e liberdade se entrelaçam de forma indissociável, revelando como questões raciais permeiam desde processos seletivos até a construção da identidade pessoal.

A trilha sonora concebida por César Seco e Raul Vaubruma subverte expectativas ao empregar instrumentos infantis para abordar temáticas adultas e complexas. Sons de brinquedos ganham densidade dramática inesperada, criando paisagem sonora que oscila entre nostalgia da infância perdida e dureza da realidade laboral. Diana Paraiso, comandando a produtora GRAVE!, articula produção executiva com concepção de iluminação e técnica, construindo unidade estética onde cada elemento cênico dialoga organicamente com os demais, potencializando a força narrativa do espetáculo.

Ashley Gouveia, Eva Oliveira, Roby Nascimento, Ruibeni Sales e Yastricia Santos formam elenco que materializa as múltiplas facetas da experiência negra no mundo corporativo. Inserindo-se no movimento crescente do teatro negro brasileiro, a montagem contribui para diversificação do panorama cênico.

FICHA TÉCNICA
Dramaturgia e Direção: Luiz Apolinário
Assistente de Direção: Roby Nascimento
Produção Executiva: Diana Paraiso
Assistente de Produção: Grazielly Santana
Elenco: Ashley Gouveia, Eva Oliveira, Roby Nascimento, Ruibeni Sales, Yastricia Santos
Figurino: Ruibeni Sales
Criação de Sonoplastia: Raul Vaubruma + Seconuncaraso
Cenografia: Luiz Apolinário
Concepção de Iluminação e Técnica: Diana Paraiso
Fotografia: Gabriel Mesgo
Companhia: Cia. de Teatro Negro Macacada

SERVIÇO
📍 Teatro Joaquim Cardozo – UFPE
📅 25 (sexta) e 26 (sábado) de julho
🕰️ 19h30
🎟️ Inteira R$ 20 | Meia R$ 10
🔞 Classificação: 16 anos

 

O Diário de Villeneuve: o terror que vem de longe

Espetáculo explora o suspense psicológico. Foto: Kurt Correia

O Diário de Villeneuve da Companhia Imaginarium mergulha no território do teatro de terror para recriar parte do imaginário colonial brasileiro sob ótica sombria. Com roteiro autoral de Paiva Teodósio e direção de Ester Soares, a obra explora suspense e terror psicológico através da chegada de um forasteiro misterioso ao Brasil em 1596, carregando um diário, passado repleto de sombras e sede de vingança.

Villeneuve, imigrante italiano que desembarca em terras brasileiras no século XVI, protagoniza jornada entre pactos e manipulações onde encontra figuras históricas como Branca Dias, Antônia Maria (a Senhora dos Mortos), o temido Barão de Beberibe e a enigmática Felícia Tourinho. A dramaturgia utiliza personagens reais do período colonial para construir narrativa que reconstitui Recife e Olinda através de perspectiva gótica, transformando a história em material para exploração de medos ancestrais e tensões sociais do período.

A Companhia Imaginarium, fundada em 2015 e reativada em 2022, reúne Ester Soares, Núbia Ketly e Carlos Teodósio, artistas com mais de dez anos de trajetória teatral em Jaboatão dos Guararapes e região metropolitana do Recife. O grupo tem histórico de trabalho com montagens de terror, experiência que se materializa agora em O Diário de Villeneuve, onde elementos sobrenaturais e atmosferas tensas ganham contornos através da temática colonial brasileira.

O espetáculo conta com elenco de 14 atores, demonstrando ambição cênica que permite representar múltiplas camadas da sociedade colonial. Realizada através do Sistema de Incentivo à Cultura (SIC), a produção conta com apoio da Fundarpe, Secretaria de Cultura do Recife, Solo Gens e Catamaran Tours, sendo realizada pela ONG Arco em parceria com a própria Imaginarium. A montagem oferece acessibilidade com intérprete de libras, garantindo democratização do acesso cultural.

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Paiva Teodósio
Direção: Ester Soares
Preparação de Elenco: Carlos Teodósio
Direção de Produção: Núbia Ketly
Design: Carlos Santos
Figurino: Altino Francisco
Coordenação Geral: Ester Soares
Fotografia: Matheus Bento
Sonoplastia: SECOnuncaraso
Iluminação: Anderson G-zuis
Elenco: Ester Soares, Núbia Ketly, Carlos Teodósio, Gusttavo Revorêdo, Stephan Levita, Nando Araújo, Larissa Lira, Lucas Cardoso, Cora Lima, Gui Vicente, Luna, Lucas Vinícius, Kallin Alves, Marina Lino
Apoio: Sistema de Incentivo à Cultura (SIC), Fundarpe, Secretaria de Cultura do Recife, Solo Gens, Catamaran Tours
Realização: ONG Arco e Cia Imaginarium

SERVIÇO:
📍 Teatro do Parque (24/07) e Teatro Apolo (15/08)
📅 Quinta (24) e 15 de agosto, às 19h
🎟️ R$ 20 (meia) e R$ 40 (inteira)
♿ Apresentação com intérprete de libras

 

Histórias do Meu Povo: Decolonialidade em Ação

Roma Júlia apresenta Histórias do Meu Povo. Foto: Reprodução do Instagram

O Espaço O Poste confirma sua vocação como território de experimentação e resistência cultural ao receber Histórias do Meu Povo, projeto que desde 2015 desenvolve trabalho consistente de valorização de narrativas ancestrais. Roma Julia, contadora de histórias e pedagoga, conduz uma experiência que constrói um ambiente sensorial e afetivo para celebra culturas afro-indígenas através de múltiplas linguagens.

A proposta engloba contos africanos, narrativas indígenas, itãs de orixás e histórias de lavadeiras, tudo embalado por música ao vivo e elementos visuais que incluem flores, folhas e objetos que fazem referência ao nordeste brasileiro. Para aproximar pessoas cegas e com baixa visão, aromas suaves de folhas e café são inseridos ao longo da narração, criando acessibilidade que vai além de protocolos técnicos para se tornar parte integrante da experiência estética.

O projeto se insere na programação decolonial do Espaço O Poste, que conta com apoio da Funarte através do Programa de Apoio a Ações Continuadas 2023. Esta parceria exemplifica como políticas públicas podem fomentar trabalhos que valorizam memórias historicamente marginalizadas, contribuindo para a diversidade do panorama cultural recifense. Roma Julia transforma o espaço em “jardim de memórias” onde tradição oral encontra contemporaneidade, provando que narração ancestral continua sendo ferramenta poderosa de transmissão cultural e transformação social.

SERVIÇO:
📍Espaço O Poste – Rua do Riachuelo, 641, Boa Vista
📅26 de julho, às 16h
🎟️Entrada gratuita (retirar no Sympla

 

Comédias Consolidadas

A Noviça mais rebelde, irreverência (con)Sagrada

Wilson de Santos em A Noviça mais rebelde. Foto: João Caldas / Divulgação

Wilson de Santos retorna ao Recife com um fenômeno teatral brasileiro que desafia as regras de longevidade artística. A Noviça Mais Rebelde celebra 16 anos ininterruptos em cartaz – número impressionante em qualquer contexto cultural, mas especialmente notável tratando-se de um monólogo que se reinventa a cada apresentação através da espontaneidade entre ator e plateia.

Irmã Maria José surge como personagem que desafia estereótipos religiosos: uma freira cujo passado “nada católico” serve de combustível para um show beneficente improvisado, criando tensão cômica entre vocação atual e memórias mundanas.  A inteligência da criação se finca no aspecto familiar do conflito – quem nunca precisou conciliar diferentes versões de si mesmo? Wilson constrói identificação imediata ao apresentar uma religiosa que lida com as mesmas contradições humanas do público, transformando confessionário num palco de comedia.

A interatividade torna cada apresentação um evento único, onde jogos e números musicais emergem do diálogo espontâneo com os espectadores. Esse procedimento exige maturidade cênica, desenvolvida por Wilson ao longo de carreira que inclui trabalhos com Bibi Ferreira, Jorge Takla e Charles Möeller, além de passagem marcante pela Cia Baiana de Patifaria nos anos 1990 – quando já encantava plateias recifenses.

SERVIÇO:

A Noviça Mais Rebelde
📍 Teatro do Parque – R. do Hospício, 81, Recife
📅 25 (sexta) e 27 (domingo) de julho
🕰️ Sexta às 20h | Domingo às 19h
🎟️ Inteira: R$ 120 | Meia: R$ 60 | Social: R$ 60 + 1kg de alimento não perecível
⏱️ Duração: 90 minutos
🔞 Classificação: 12 anos
📱 Informações: (81) 98463-8388

FICHA TÉCNICA
Criação e Interpretação: Wilson de Santos
Figurino: Celso Werner
Fotografia: João Caldas
Arte Gráfica: Vicente Queiroz
Direção de Produção: Leonardo Leal
Realização: Teatro do Riso e Roberto Costa Produções
Vendas: Sympla (antecipadas) | Bilheteria no local (1h antes do espetáculo)

 

NÃO!, a terapia que virou comédia 

O!, com Adriana Birolli  e texto e direção de Diogo Camargos,

Dezoito anos de terapia para aprender uma palavra de duas letras. Se isso não merece aplausos pela persistência, pelo menos pode motivar uma gargalhada coletiva. A atriz Adriana Birolli retorna ao Recife carregando um dilema bem constrangedor da vida contemporânea: a incapacidade crônica de recusar convites, pedidos e obrigações que preferíamos evitar.

NÃO!, com direção e texto de Diogo Camargos, transforma em comédia a tragédia cotidiana de quem vive dizendo sim quando o coração grita não. A protagonista enfrenta situação reconhecível por qualquer pessoa que já se viu presa entre a educação social e a sanidade mental: não quer ir ao próprio jantar de aniversário, mas não consegue simplesmente… não ir. O drama dela pode ser a diversão do público.

 Enquanto se arruma relutantemente, mensagens bombardeiam de todos os lados – mãe, irmã, namorado, chefe – cada uma com um tipo diferente de pressão social que conhecemos intimamente. O trunfo está em mostrar como essa dificuldade aparentemente simples contamina todos os aspectos da vida: pessoal, profissional, familiar. É o tipo de reconhecimento que faz o público rir e se sentir levemente atacado ao mesmo tempo.

A resposta do público confirma que a questão afeta muito mais gente do que se imagina.

No Teatro Santa Isabel, espaço que já presenciou dramas épicos e comédias memoráveis, NÃO! promete três apresentações para quem quer rir das próprias neuroses enquanto questiona por que diabos é tão difícil estabelecer limites básicos. 

SERVIÇO

📍 Teatro Santa Isabel – Praça da República, s/n, Recife
📅 25 (sexta), 26 (sábado) e 27 (domingo) de julho
🕰️ Sexta às 20h | Sábado às 19h | Domingo às 18h
🎟️ Ingressos: R$ 40 a R$ 140 (conforme setor)
💳 Vendas: Sympla (parcelamento em até 12x)

FICHA TÉCNICA

Texto e Direção: Diogo Camargos
Atuação: Adriana Birolli
Iluminação: Leandro Mariz
Cenário e Adereços: A Dupla Dinâmica
Figurino: Letícia Birolli
Execução do Figurino: Artha Atelier
Direção Musical: Carlito Birolli
Produção Musical: Eugênio Fim
Fotografia: Nando Machado
Vídeos: Mauro Marques
Participações em Off: Dida Camero, Ivan Zettel, Juliana Knust, Letícia Birolli, Maria Joana
Realização: Casona Produções
Produção: Lakshmi Produções e Camargos Camargos Produções

 

Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco:
Duas décadas formando plateias

Hélio o balão que não consegue voar Foto Ricardo Maciel

Os super três porquinhos, numa produção de Roberto Costa 

O 21º Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco encerra sua programação neste fim de semana reafirmando seu papel como um dos mais longevos festivais do Brasil dedicados ao público infantil. Com duas décadas de existência ininterrupta, o evento se consolidou como referência nacional na promoção de espetáculos.

Os números impressionam pela magnitude e consistência: 270 espetáculos presenciais realizados em mais de 485 apresentações, 154 mil espectadores entre pagantes e gratuitos, e mais de 5.200 trabalhos diretos e indiretos gerados ao longo destas duas décadas. Estes dados comprovam que o FTCPE se transformou em plataforma de formação de plateia e circulação de produções infantis, contribuindo significativamente para o desenvolvimento do setor teatral pernambucano.

Hélio, o Balão que Não Consegue Voar, que se apresenta neste sábado (26) às 16h30 no Teatro do Parque, aposta no que há de mais articulado no teatro infantil inclusivo contemporâneo. Baseado no livro homônimo do escritor pernambucano Cleyton Cabral – vencedor do Prêmio Ariano Suassuna de Cultura Popular e Dramaturgia da Fundarpe -, o espetáculo utiliza formas animadas e manipulação de objetos para abordar poeticamente o Transtorno do Espectro Autista. A narrativa de Hélio, um balão que não consegue voar em uma loja mágica chamada Festa de Ar, transforma diferenças em potencialidades, ensinando que a verdadeira magia está em encontrar caminhos próprios mesmo quando eles divergem das expectativas sociais.

Os 3 Super Porquinhos, programado para domingo (27) no mesmo horário e local, investe  nas tradições clássicas. A adaptação de Roberto Costa para o conto tradicional insere questões contemporâneas sobre paz mundial e preservação ambiental. Segundo o próprio Roberto, produtor e adaptador, este é “disparado o mais querido pelas famílias para iniciação da vida cultural de seus pequenos”, característica que mostra a importância de espetáculos que conseguem dialogar simultaneamente com crianças e adultos.

Ambas as apresentações contarão com acessibilidade em Libras. Os ingressos estão disponíveis pela plataforma Sympla, através do site www.teatroparacrianca.com.br , e nas bilheterias dos teatros duas horas antes das apresentações. 

Realizado pela Métron Produções, sob coordenação de Edivane Bactista e Ruy Aguiar, o festival conta com incentivo do SIC (Sistema de Incentivo à Cultura), Fundação de Cultura Cidade do Recife, Secretaria de Cultura e Prefeitura da Cidade do Recife. A curadoria é assinada por Marcondes Lima, Ruy Aguiar e Williams Sant’Anna, garante critérios artísticos rigorosos que mantêm a qualidade das seleções. 

SERVIÇO:

“Hélio, o Balão que Não Consegue Voar”
📅 Sábado (26) de julho
🕰️ 16h30
📍 Teatro do Parque – Rua do Hospício, 81, Boa Vista
🎟️ R$ 60 (inteira) | R$ 30 (meia-entrada)
⏱️ Duração: 50 minutos
🔞 Classificação: Livre
♿ Apresentação com intérprete de Libras

Os 3 Super Porquinhos
📅 Domingo (27) de julho
🕰️ 16h30
📍 Teatro do Parque – Rua do Hospício, 81, Boa Vista
🎟️ R$ 80 (inteira) | R$ 40 (meia-entrada)
⏱️ Duração: 45 minutos
🔞 Classificação: Livre
♿ Apresentação com intérprete de Libras

🌐 Ingressos:

www.teatroparacrianca.com.br
(Sympla)

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