Entre cisnes e aves de rapina
Crítica: 16 gramas:
peça para Emagrecer
Por Annelise Schwarcz*

Eu vivi com raiva, a ignorando, me alimentado dela, aprendendo a usá-la antes de ela destruir minhas visões, durante a maior parte da minha vida. Uma vez respondi em silêncio, com medo do peso. Meu medo da raiva não me ensinou nada. Seu medo da raiva não irá te ensinar nada também.
Audre Lorde

116 gramas: peça para Emagrecer, com Letícia Rodrigues. Foto de Marcos Pastich/PCR.

“Eu nunca vi uma pulsão de morte tão desnuda em cena.” Escrevi para um amigo após sair de 116 gramas: peça para emagrecer. Não que eu possa falar com muita propriedade sobre o que é pulsão de morte e é certo que, caso eu pare para pensar, eu vá me lembrar de mais meia dúzia de peças que eu poderia estampar com esse slogan: “que bela maneira de encenar a pulsão de morte”. O fato é que eu respeito muito a intuição e gosto de manter frescas as primeiras palavras, as primeiras impressões. E foi assim que veio. Dito isso, sendo verdade ou não, fiquemos com essa frase inicial. Entendo pulsão de morte – talvez até de forma muito vulgar – como a tendência à autodestruição, ao desligamento, à aniquilação, ao desfazer-se. O que não significa que não haja a possibilidade de criar, construir e produzir atravessada/o por essa tendência. Esse é o ponto aqui. Tem ligações que só podem ser feitas após alguns desligamentos; caminhos que só podem ser atravessados depois de termos deixado para trás certa bagagem. Ou ainda, para ficar com as palavras de Gilberto Gil:  “tem que morrer para germinar”. 

A protagonista de 116 gramas: peça para emagrecer, uma personagem chamada “a Gorda”, é resultado de um encontro entre a autoficção e a autobiografia da atriz e dramaturga Letícia Rodrigues, que assina também a direção da montagem, em parceria com João Pedro Ribeiro. Ao longo do espetáculo, vemos no palco, junto com a atriz, apenas um biombo transparente, uma amarração de plástico branco que remete a um saco de pancadas ou uma ave, uma roupa preta de bailarina e um telão ao fundo. São as operações de luz e som feitas por Felipe Stucchi e Lana Scott, respectivamente, as responsáveis por adicionar textura e dinamismo às cenas. 

A chegada da atriz, vinda do fundo da plateia, interrompe os dez minutos de lavagem cerebral a que nós, espectadores e espectadoras, estávamos sendo submetidos/as enquanto aguardávamos o início do espetáculo assistindo a um compilado de propagandas da Pepsi nas quais Britney Spears participou. O foco, na maioria dos planos, era a fina silhueta de Britney ou das demais cantoras com ela, como na propaganda com Pink e Beyoncé cantando We will rock you. A peça já havia começado. Já estávamos sendo introduzidos/as a um dos principais eixos da peça: a pressão estética sobre os corpos de mulheres e os efeitos físicos e psíquicos deixados pelas tentativas de se adaptar. 

A montagem – que compõe a programação do 24ª Festival Recife Nacional de Teatro, cujo tema é  “Vozes Femininas” – cresce em relevância nesse cenário. Ao falar sobre Britney Spears ou Gisele Bündchen como referências da adolescência, a personagem traz luz à forma como nós, enquanto mulheres, crescemos com essas referências femininas de magreza, branquitude e fragilidade, expostas irrefletidamente a todos esses padrões e, hoje, vemos que nem mesmo aquelas mulheres que definiram para as demais o que é um ideal de beleza, conseguiram sobreviver a esse padrão. Mesmo a Britney é vítima da estrutura que ela – conscientemente ou não – reforçou durante anos e que segue produzindo novas vítimas; moída pelo mesmo sistema que a levou à fama. 

O sonho da Gorda, como nos diz a personagem, era ser atriz; dançar e causar o efeito que Britney causava. Ela – que já teve o Índice de Massa Corpórea (IMC) 50, o que corresponde à obesidade mórbida de acordo com os números estipulados pela Organização Mundial de Saúde – tinha que emagrecer, mas não sustentava ir para crossfit, nadar, lutar, essas coisas todas achava um saco e acabava abandonando. Então ela decide criar uma peça para emagrecer, porque se ela tivesse que fazer todo esse esforço físico, que fosse em um palco, que fosse uma peça. Após muitos cálculos e pesquisas, a Gorda conclui que ela precisa perder 116 gramas por peça para atingir aquilo que foi estipulado como o peso/o IMC ideal. Para isso, é preciso dançar, lutar, se agitar, fazer polichinelo, pensar, etc. Tudo isso realizado em cena, após se pesar nua em uma balança e dizer em voz alta o quanto está pesando naquela apresentação.

E é aí que entra com força a pulsão de morte descrita no parágrafo inicial: a vertigem entre o desejo de emagrecer, pois supostamente ela só seria feliz quando fosse magra, caminhando junto com a ideia de que para isso é preciso “eliminar metade de mim”, de que vai perder 116g em 116g até não restar mais nada. Apesar do medo de emagrecer e do medo de não se reconhecer após anos conformando sua subjetividade em torno do “ser gorda”, a personagem segue fazendo exercícios físicos enquanto repete inúmeras vezes o quanto odeia o próprio corpo, como odeia ser gorda e como odeia a ideia de ter que ser “body positive” (aceitar e amar o próprio corpo, positivando até mesmo as características fora do padrão de beleza). Ela segue fazendo polichinelos, deixando a pele sobressalente espancá-la a cada salto, o som de tapas ritmados que o polichinelo produz ou como na cena em que empreende uma luta contra uma sacola de plástico – que dentro da peça faz o papel de um cisne, remetendo ao balé Lago dos Cisnes que ela nunca pode dançar enquanto bailarina devido ao seu peso – ao som de Hit me baby one more time de Britney Spears mixado com violinos de balé clássico. 

A raiva do mundo – das cadeiras de plástico, das catracas de ônibus, das pessoas que dizem que ela é bonita de rosto ou das lojas de departamento que só produzem roupas femininas com zíperes frágeis –  se mistura com uma raiva de si mesma, mas essa raiva não estagna num lugar ressentido ou amargurado. Pelo contrário: abre espaço. Não encontrando as oportunidades para dançar balé ou ser atriz em um mundo de angels da Victoria’s Secret, a raiva da Gorda se torna um motor para criar sua cena, seu palco, seu balé, seus termos e, nesse processo, fazer as pazes consigo e com o mundo que a rejeitou. Nessa chave de interpretação, é possível ler o espetáculo como uma fresta para a intimidade de alguém – momento em que a ficção soa demasiadamente biográfica. A montagem não pretende falar em nome das pessoas gordas enquanto um coletivo homogêneo e nem se pretende uma cartilha didática. E, na minha perspectiva, esse é um ponto forte da montagem: estamos assistindo a uma singularidade, isto é, à forma singular que essa pessoa empreendeu uma saída de um circuito asfixiante. Nós, enquanto plateia, independente da nossa relação com a balança, assistimos como voyeurs o desnudar-se não apenas das roupas da Gorda, mas de todo um fluxo de pensamentos íntimos sobre ela mesma e sobre o mundo: suas metáforas, seus gostos, desgostos, histórias, referências, etc. 

A metáfora do Prometeu ao contrário é particularmente tocante. No mito grego, após ter roubado o fogo dos deuses e dado aos homens, o titã Prometeu é castigado por Zeus e tem todo dia seu fígado comido por um pássaro, mas à noite o fígado se regenera. Assim segue pelo restante da sua existência imortal. No caso da protagonista, o pássaro a alimenta. Todo dia ela emagrece um pouco e toda noite esse pássaro deposita comida em sua boca e a engorda mais. “Comer, comer até morrer”, ela cantarola. 

Digamos, com o perdão do trocadilho, que a montagem não tem medo de deixar o peso acontecer. Os expurgos de raiva da Gorda são seguidos por silêncios, respiros, pausas para beber água que não se preocupam em correr com algum alívio cômico para desfazer o desconforto. Os momentos de humor, como a longa viagem em torno da sociedade secreta dos Illuminati, por exemplo, não vem para desfazer o nó. Pelo contrário, adiciona mais uma volta, como uma espécie de desvio: endereçando críticas a essa sociedade secreta, a dramaturgia poupa a plateia de ouvir diretamente suas críticas à sociedade [nada secreta] do nosso convívio. O deboche em torno dos procedimentos estéticos a que figuras públicas precisam se submeter para continuarem na mídia não entra em contradição com os humores mobilizados em cenas anteriores ou posteriores. Todos os afetos habitam as mesmas paisagens, compõem uma mesma coreografia: o balé do Lago dos Cisnes com as aves de rapina.

*A cobertura crítica da programação do 24º Festival Recife do Teatro Nacional é apoiada pela Prefeitura do Recife

Ficha técnica:

Idealização, dramaturgia e atuação: Letícia Rodrigues
Direção: Letícia Rodrigues e João Pedro Ribeiro
Direção de arte: Eliseu Weide
Direção de movimento e coreografia: Luaa Gabanini
Direção musical: Natália Nery
Composição e arranjo de trilha sonora: Lana Scott e Natália Nery
Gravação e mixagem: Lana Scott
Direção e edição audiovisual: Lana Scott
Técnica e operação de som: Lana Scott
Motion graphics: Pablo Vieira
Mapping e operação de vídeo: Lana Scott
Desenho de luz: Camille Laurent
Operação de luz: Felipe Stucchi
Coordenação de produção: leo Birche
Produção: Jéssyca Rianho
Comunicação visual e fotografia: Maria Luiza Graner
Planejamento estratégico de divulgação: Thiago Dias
Assessoria de imprensa: Pombo Correio.

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Teatro que reescreve a história
Crítica: Restinga de Canudos
Por Pollyanna Diniz*

Restinga de Canudos, da Cia do Tijolo, no Festival Recife do Teatro Nacional. Foto: Marcos Pastich

“Nordeste é uma ficção. Nordeste nunca houve! Não! Eu não sou do lugar dos esquecidos. Não sou da nação dos condenados! Não sou do sertão dos ofendidos!”. No final da década de 1970, seis anos antes do fim da ditadura militar no Brasil, Belchior lançava Conheço o meu lugar. Um dos versos cita “Botas de sangue na roupa de Lorca”, em referência ao poeta e dramaturgo Federico García Lorca, assassinado por militares durante a guerra civil espanhola em 1936. Na noite de domingo de 23 de novembro de 2025, o ator e diretor Dinho Lima Flor, nascido em Tacaimbó, no Agreste pernambucano, morador da cidade de São Paulo há mais de 30 anos, emprestou sua voz à música de Belchior no Teatro Luiz Mendonça, no bairro de Boa Viagem, capital pernambucana.

Em poucos minutos, a apresentação única da peça Restinga de Canudos, da Cia do Tijolo, no Festival Recife do Teatro Nacional, que durou cerca de três horas, iria acabar, mas continuaria ressoando. Requerendo o direito à imaginação e à poesia. Entrelaçando o tempo da memória, do presente e de um futuro que quiçá possamos inventar. Revisando o passado como o conhecemos, como nos foi contado nos livros didáticos e nos jornais. Reivindicando o direito de enterrar corpos – e cabeças decapitadas – de brasileiros.

 A história, nos lembra o texto do espetáculo, está acontecendo agora e logo ali pertinho: é só voltar uma mãe, uma avó, uma bisavó. Nesse movimento, estamos de frente para pessoas pretas escravizadas no Brasil. Estamos diante da Lei de Terras, de 1850, que beneficiou latifundiários e impediu o acesso dos negros às terras. Vemos a comunidade de Belo Monte, liderada por Antônio Conselheiro, tomar forma em 1893, no Sertão da Bahia. As tentativas de massacre a partir de 1896 pelo Exército brasileiro do povo que se reuniu ali. O extermínio de 25 mil pessoas em dois anos, 1896 e 1897. O lançamento do livro Os Sertões, publicado cinco anos depois, que transformaria essa história – qual história mesmo? A partir de qual viés? – em literatura e tornaria seu autor, Euclides da Cunha, defensor da República e do progresso, imortal da Academia Brasileira de Letras e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Restinga de Canudos nos coloca hoje, de frente ao açude Cocorobó – como diz uma das músicas inéditas da trilha sonora – , que inundou Belo Monte em 1969, durante a ditadura civil-militar. No site do Departamento Nacional de Obras Contras as Secas, vinculado ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, a inundação de Canudos não é questionada: são apresentadas versões de especialistas que dizem que aquele seria o melhor lugar para a construção da barragem. Pelo contrário, há um tom de celebração do “movimento da vida, onde antes era seca, passou a ser fonte de água e subsistência para o povo sertanejo”. Não bastava exterminar a população de Belo Monte. Era preciso inundá-la, apagá-la, fazê-la desaparecer. E ainda usar para isso a relação entre a seca, que ajudou a construir a ideia que o Brasil possui de Nordeste, e a água, que chega graças à “benevolência” do Estado brasileiro.

A peça da Cia do Tijolo mergulha em Canudos e, ao fazer isso, mergulha dentro da gente – diz o texto se referindo à equipe que se dedicou a erguer o trabalho a partir de estudos e ensaios que levaram mais de um ano. Criada em 2008, com integrantes oriundos de grupos significativos da cena de São Paulo, especialmente o Ventoforte, a Cia do Tijolo é um coletivo de teatro de pesquisa que pode ser caracterizado pela verticalização das suas investigações, que perpassam a relação com a música, e que resultam em trabalhos cênicos que, geralmente, possuem tempo expandido. 

O espetáculo de estreia, de 2008, era sobre Patativa do Assaré e, desde então, se dedicaram a figuras históricas como Federico Garcia Lorca, Paulo Freire, Dom Helder Câmara, montaram a obra Guará Vermelha, de Maria Valéria Rezende e, agora, esquadrinharam a Guerra de Canudos. O primeiro trabalho de rua do grupo, estreado em 2022, Corteja Paulo Freire, foi apresentado no Parque Dona Lindu, no sábado, 22 de novembro, também dentro da programação do festival.

Em Restinga de Canudos, estavam em cena no Recife Dinho Lima Flor, Rodrigo Mercadante, Karen Menatti, Maria Alencar, Jaque da Silva, Artur Mattar, Danilo Nonato, Vanessa Petroncari, Leandro Goulart e João Bertolai, além dos músicos Marcos Coin, Nanda Guedes e Ju Vieira. Alguns elementos são marcantes na construção cênica do espetáculo, como a música, inclusive com composições autorais de Jonathan Silva; e o cenário, que tem assinatura da companhia e de Douglas Vendramini, cujo principal elemento é o bambu, vários deles, movimentados pelo elenco a cada cena. 

O espetáculo começa celebrando a possibilidade de existência instaurada pelo arraial de Belo Monte. Antes de ser guerra, Canudos era festa, diz o texto. Mesa farta com promessa de manás: o cuscuz com leite foi compartilhado entre todos da plateia logo no início do espetáculo. De mala e cuia, forró de Flávio Leandro, famoso na voz de Flávio José, e agora na regravação do projeto Dominguinho, de João Gomes, Mestrinho e Jota.Pê, tocado e cantado pelo grupo, lembrou que nesse arraial sobra espaço para quem estiver disposto a chegar e a compartilhar. Onde come 1, comem 2, comem 3, se a lógica não é a neoliberal. As cenas partem da festa, mas podem se transformar em aulas das professoras de Belo Monte, em emboscadas no meio do Sertão, em encontros inéditos de personagens históricos.

Dinha Lima Flor interpreta Antônio Conselheiro. Foto: Marcos Pastich

Restinga de Canudos é teatro que reescreve a história. O espetáculo não se contenta com as versões oficiais: a intenção é escovar a história a contrapelo, como propõe Walter Benjamin, questionando a historiografia, se insurgindo contra as lógicas que decantaram e foram repetidas ao longo das décadas. Trata-se de instaurar um ambiente de exercício dialético, que propõe o questionamento e a tomada de posição ao espectador. O que fazer, por exemplo, com um capitão do Exército que assassinou, sem motivos, a sangue frio, um jovem preto? A violência da vingança seria capaz de aplacar o desejo por justiça?

Nesse processo de investigar a história, encontros se tornam possíveis graças à ficção. Duas professoras de Belo Monte – professoras em tempos de paz, combatentes e enfermeiras em tempos de guerra –, interpretadas por Karen Menatti e Maria Alencar, personagens  responsáveis por narrar a história, têm a chance de se encontrar e discutir com Euclides da Cunha, vivido por Rodrigo Mercadante, enviado pelo jornal O Estado de S. Paulo em 1897 para cobrir a Guerra de Canudos. Foram dois meses de cobertura, textos publicados sob a categorização de “Diário de uma expedição”. Desse tempo, Euclides da Cunha esteve em Salvador por 23 dias, esperando autorização do Exército para seguir para a região do conflito. As duas atrizes e o ator que fazem a cena desse debate desceram do palco para que a discussão se desse na plateia, em meio aos espectadores.

O que se revela nessa conversa é a imagem de dois Brasis: o Norte do atraso e do messianismo (O Nordeste seria instituído em 1941, na primeira divisão regional do Brasil, e abrangia os estados de Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Pernambuco) e o Sul do progresso e da civilização (o Sudeste só foi oficializado em 1970). O primeiro seria miscigenado, o outro, branco, mesmo que essa brancura não fosse necessariamente comprovada pela aparência física. São ideias e oposições de Brasis que o livro de Euclides da Cunha, mesmo que tenha assumido a barbárie da República em Belo Monte, ajudou a estruturar, assim como a própria ideia do que viria a ser o Nordeste.

Coletivo reconta a história do arraial de Belo Monte. Foto: Marcos Pastich

“O sertanejo é antes de tudo um forte”, trecho de Os Sertões que se tornou máxima, não diz tudo sobre a categorização de sertanejo que o autor propunha. É preciso ler o trecho inteiro, se deparar com o preconceito em relação aos “mestiços neurastênicos do Litoral”, e à aparência e postura do sertanejo, “Hércules quasímodo”. Para Euclides da Cunha, o progresso inevitável trazido pela República livraria o povo da loucura messiânica. As professoras propõem outra forma de organização social e discutem a validade desse progresso que esmaga as populações mais vulneráveis.

Em determinado momento, uma cisão na ficção se estabelece. A encenação é momentaneamente suspensa para abrir espaço ao ensino formal. Em cada apresentação, uma professora é convidada pela produção para subir ao palco e falar sobre Canudos. Aqui no Recife, a convidada foi a professora de literatura Renata Pimentel, que fez um percurso inspirador indo de Silvia Federici e da invenção do amor romântico que nos subjuga como mulheres ao patriarcado, passando pelas guerreiras de Tejucupapo, pela resistência à colonização, seja qual for a língua do colonizador, por Paulo Freire e por Antônio Bispo dos Santos que, inclusive, é citado no texto do espetáculo, na aproximação entre colonização e adestramento.

Depois desse momento, a encenação volta a se estruturar, numa operação difícil de retomada, que se potencializa graças a mais um encontro ficcional: Antônio Conselheiro e Euclides da Cunha. Dinho Lima Flor e Rodrigo Mercadante, em atuações sensíveis e tocantes. Mas é preciso falar das mulheres nesse espetáculo, de Karen Menatti, de sua voz e atuação lindas; da versatilidade, coragem e competência de Maria Alencar, substituta de Odília Nunes, pernambucana que não conseguiu participar desta apresentação. E de todos os ótimos atores que assumem papéis coadjuvantes, mas que são esteio nesse espetáculo que funciona como uma ciranda, tem cadência, tem respiro, tem profundidade, demanda tempo de existência. Jonathan Silva, músico e compositor das músicas inéditas do espetáculo, também não conseguiu estar no Recife e faz falta, mas o grupo contou com músicos ótimos que assumem a tarefa de transformar música em dramaturgia.

O espetáculo da Cia do Tijolo é um mergulho duro e lúcido na nossa história e, ao mesmo tempo, lúdico, poético, musical, inspirador. É emocionante acompanhar tanta gente no palco – atores e músicos – construindo, desconstruindo e reconstruindo o arraial de Belo Monte com os bambus manejados pelo elenco como se uma dança colaborativa se estabelecesse. É o teatro de grupo, de pesquisa, que resiste, que insiste, que faz sentido de existir. Sabe quando você vai ver uma peça e não entende muito bem o porquê aquelas pessoas estão dedicadas àquele projeto? Isso não acontece com a Cia do Tijolo: é um teatro de pertinência para o nosso tempo e é lindo de ver.

*A cobertura crítica da programação do 24º Festival Recife do Teatro Nacional é apoiada pela Prefeitura do Recife

Ficha técnica:

Restinga de Canudos, da Cia do Tijolo
Criação e dramaturgia: Dinho Lima Flor e Rodrigo Mercadante
Direção geral: Dinho Lima Flor
Elenco: Dinho Lima Flor, Rodrigo Mercadante, Karen Menatti, Maria Alencar, Jaque da Silva, Artur Mattar, Danilo Nonato, Vanessa Petroncari, Leandro Goulart e João Bertolai
Músicos: Marcos Coin, Nanda Guedes e Ju Vieira
Movimento e corpo: Viviane Ferreira
Composições originais: Jonathan Silva
Direção musical: Cia. do Tijolo e William Guedes
Desenhos: Artur Mattar
Cenário: Cia. do Tijolo e Douglas Vendramini
Assistência de cenotécnica: Tati Garcez e Gonzalo Dorado
Figurino: Cia. do Tijolo e Silvana Marcondes
Iluminação: Cia. do Tijolo e Rafael Araújo
Som: Hugo Bispo
Direção de produção: Garcez Produções (Suelen Garcez)
Produção executiva: Suelen Garcez
Assistência de produção: Tati Garcez

A criação e a dramaturgia são de Dinho Lima Flor e Rodrigo Mercadante. Foto: Marcos Pastich

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Entre o humor e a melancolia:
vozes femininas no limite
Crítica: Tudo que eu queria te dizer
por Ivana Moura

Ana Beatriz Nogueira fez duas apresentações no 24º Festival Recife do Teatro Nacional. Foto: Marcos Pastich / PCR

“Sorte sua não ter envelhecido, é a única vantagem de a morte ter lhe buscado aos 58. Você não precisou passar pelo constrangimento nessa terra de apressados”. A octogenária Clô, escrevendo ao marido morto há duas décadas, também confessa: “Não é de propósito que eu ando devagar, que eu esqueço minhas falas”. Ambas as frases expõem com ironia melancólica uma realidade brasileira urgente: o etarismo – discriminação de idade que se intensifica em uma nação em rápido envelhecimento populacional.

Estas e outras passagens provocam risos na plateia, cumprindo exatamente a função social que Henri Bergson identificou: o humor como mecanismo coletivo de reflexão sobre nossas próprias intolerâncias. Particularmente relevante para mulheres, que enfrentam dupla discriminação – etária e de gênero.

Tudo que eu queria te dizer expõe realidades ficcionalizadas de forma deliberadamente breve e pouco esmiuçada, seguindo a proposta do projeto. Uma comédia construída a partir de relatos rápidos. Durante o 24º Festival Recife do Teatro Nacional, Ana Beatriz Nogueira deu vida a seis personagens criadas por Martha Medeiros: Renata abandona o casamento para reencontrar um beijo apaixonado da adolescência; Andressa confronta a esposa de seu ex-amante após dois anos de relacionamento extraconjugal; Clô compartilha com o marido falecido as limitações impostas pela velhice; Vanda busca orientação esotérica após revelações de uma cartomante; Dirce expõe ao analista preconceitos ocultos e inconfessáveis que muita gente mantém em segredo, mas ela escreve sem filtros, arrancando gargalhadas da plateia; Clarissa enfrenta dilema ético ao se apaixonar pela cliente.

No palco do Teatro do Parque, Ana Beatriz estabelece cumplicidade instantânea com o público. Trajando calça e camisa pretas, ela conta que a pessoa que tossia nos bastidores era ela, pois está com virose contraída no Rio de Janeiro, solicitando compreensão para eventuais episódios de tosse – e sugerindo, divertidamente, que a plateia aproveitasse para tossir em coro. Tal estratégia transforma potencial desconforto em pacto cênico.

Posteriormente, ela apresenta prólogo explicando a gênese do projeto de adaptar as cartas fictícias de Martha Medeiros. Inclusive lê correspondência enviada pela escritora, traçando ponte entre realidade e ficção. Quando as luzes se apagam, inicia-se a metamorfose interpretativa.

Virtuosismo Interpretativo de Ana Beatriz Nogueira. Foto de Marcos Pastich/PCR.

Martha Medeiros é mestra em criar material que ressoa imediatamente com o público de classe média urbana. Especialista em transformar crises existenciais cotidianas em entretenimento reflexivo, a escritora gaúcha domina a arte de temperar separações, traições e questionamentos identitários com inteligência humorística.

Ana Beatriz montou esta adaptação teatral em parceria com Victor Garcia Peralta em 2010. A experiência de 15 anos com o material reforça uma encenação que privilegia a palavra desde sua origem. Comunicação direta constitui a estratégia cênica fundamental.

Com trajetória que inclui desde o Urso de Prata berlinense (1987) pelo filme Vera até muitos sucessos televisivos, Ana Beatriz exibe domínio técnico excepcional. Seu registro vocal distintivo – que seleciona palavras específicas e constrói frases com precisão matemática – converte ritmo em instrumento cômico de alta eficácia.

Transformações sutis de postura e entonação criam personalidades distintas. Renata manifesta determinação ao comunicar sua fuga amorosa. Andressa Sá envia uma carta para Ester, fazendo da humilhação um poder destrutivo, usando a verdade como lâmina para retalhar tanto o microhomem que a rejeitou quanto a esposa; uma espécie de vingança para tentar reconquistar algum senso de dignidade perdida. Vanda explora gestualidade cômica, que passa por religiões e credos. O momento interpretativo mais impactante surge com a octogenária Clô: curvatura corporal, voz frágil e movimentos delicadamente trêmulos que fundem melancolia e ironia ao refletir sobre envelhecimento, em construção cênica evidenciando o brilho interpretativo de Ana Beatriz.

Cenário despojado e figurino neutro delegam à imaginação do público a tarefa de vestir as personagens, gerando cumplicidade colaborativa entre palco e plateia.

Atriz levou ao palco “loucuras domesticadas que ocasionalmente se rebelam”. Foto de Marcos Pastich/PCR.

A inteligência cômica de Medeiros explora variados contextos sem condescendência. Risos emergem da identificação imediata – espectadores reconhecem situações familiares, convertendo constrangimentos pessoais em alívio coletivo. Embora breves e sem densidade psicológica, as histórias expõem questões através de sagacidade que promove alívio emocional.

Mantendo tom consistentemente “alto astral”, a peça dialoga com classe média que se reconhece nestas “loucuras domesticadas que ocasionalmente se rebelam”. Cada protagonista gera empatia espontânea, diverte e relativiza problemas mediante riso compartilhado.

Victor Garcia Peralta assina direção que reconhece parâmetros e potencialidades do material. Nessa perspectiva, o despojamento cênico surge como opção estética consciente, concentrando toda energia dramática na atuação da artista. Complementarmente, o ritmo calibrado à estrutura epistolar permite que cada carta se desenvolva em sua particularidade, respeitando o tempo interno de cada missiva.

A trilha sonora destaca a parceria Juliano Holanda e Zélia Duncan em Vou Gritar Seu Nome e conecta narrativas. A iluminação assinala transições entre personagens sutilmente. O conjunto de recursos serve integralmente à simplicidade almejada.

Tudo que eu queria te dizer opera dentro de seus propósitos. Um teatro que honra seus compromissos com o entretenimento, que sinaliza questões sem ambição sociológica profunda. Ana Beatriz constrói performance de alta qualidade, oferecendo o prazer de assistir a uma intérprete em pleno domínio de seu ofício. Ao tocar em temas pertinentes como etarismo, relações contemporâneas e dilemas de classe média, a montagem prioriza superfície bem-humorada sobre densidade dramática, com força que reside na comunicação precisa com público que procura entretenimento inteligente. Suas qualidades se destacam: performance virtuosística, texto espirituoso, direção eficiente e diálogo certeiro com audiência-alvo. Um teatro que cumpre integralmente o prometido: diversão que faz pensar.

FICHA TÉCNICA

Texto original: Martha Medeiros
Direção: Victor Garcia Peralta
Elenco: Ana Beatriz Nogueira
Luz: Paulo César Medeiros
Figurino e cenário: Victor Garcia Peralta e Ana Beatriz Nogueira
Produção: Trocadilhos 1000 Prod Art Ltda
Realização: Ana Beatriz Nogueira
Assessoria de Imprensa: Dobbs Scarpa

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Eu quero é botar meu bloco na rua
Crítica do espetáculo
On veut/a gente quer
Por Annelise Schwarcz

On Veut / A Gente Quer, com Cia Ktha e elenco pernambucano: Guara Rios, Rodrigo Hermínio, Anna Batista, Maria Pepe, Caru dos Santos e Lucas Vinícius (FR/PE). Foto de Marcos Pastich/PCR.

A gente quer ser feliz, a gente quer amor, a gente quer históricas de amor, a gente quer passear de bicicleta, a gente quer sorrir, a gente quer ver cores sobre o mar, a gente quer ver pássaros voando, a gente quer se sentir bonito, a gente quer rir, a gente quer conhecer a Lua, a gente quer poder se maquiar sem pressa, a gente quer nossos amigos com a gente, a gente quer ser amada/o, a gente quer coisas contraditórias, mas as queremos mesmo assim, a gente quer riquezas distribuídas, a gente quer usar a raiva, a gente quer mudar o mundo, a gente quer ser justa/o, corajosa/o, reta/o, a gente quer ser sem medo, a gente quer crescer, a gente quer ter escolha, a gente quer justiça, a gente quer florestas de pé, a gente…

Com texto de Nicolas Vercken, On veut/ a gente quer é um manifesto por um mundo mais justo, igualitário, menos preocupado com o acúmulo de riquezas e mais preocupado com a qualidade de vida humana e não humana na Terra. O que nós queremos? Onde deixamos esse querer? Quem convidamos para querer com a gente? E o que acontece quando queremos juntas/os? Como quem aposta que querer é um verbo que se conjuga no coletivo, a companhia francesa Ktha tem reunido, nos últimos anos, artistas ao redor do mundo para interpretar o texto de On veut nas ruas de cidades como, por exemplo, Aurillac, Séoul e Recife.

O dispositivo performativo de On veut, devido à sua relativa simplicidade, é capaz de ser encenado e reinventado com diferentes grupos em diferentes línguas. O projeto começou na França em 2021, ainda durante a pandemia de COVID-19, e tem como objetivo reunir um coletivo temporário de performers – que podem variar entre 1 a 100 artistas – para interpretar a lista de quereres idealizados por Vercken para um público na rua. Sem personagens ou atribuições específicas de texto a determinada/o performer, a montagem consiste no uso de bancos ou cadeiras onde as/os artistas vão se alternar na interpretação da lista. A condução do espetáculo depende do entrosamento do grupo no revezamento ou sobreposição das falas, que ocorre de forma espontânea e, portanto, pode variar de uma apresentação a outra mesmo quando realizada pelo mesmo elenco.

No site da Ktha, é possível conferir um portfólio com os últimos projetos da companhia francesa, dentre eles: Tu es là [você está aqui] (2023), Demain arrive (je suis une autre toi) [amanhã virá (eu sou outro você)] (2020), Il n’y a plus (de ville) [não há mais (cidade)] (2016) e Juste avant que tu ouvres les yeux [assim que você abrir os olhos] (2015). Cada um desses projetos possui um dispositivo performativo distinto que opera como um manual de instruções – ou um jogo – para a montagem de um espetáculo independente de uma cidade ou elenco específico. Por exemplo, em Juste avant que tu ouvres les yeux [assim que você abrir os olhos], o manual tem a seguinte instrução: “uma performance a 3,5 km/h dentro de um caminhão rodando pela cidade com 3 performers”.

Para o 24º Festival Recife do Teatro Nacional, a companhia Ktha – representada por Nicolas Vercken e Laetitia Lafforgue – convocou seis artistas locais (Guara Rios, Rodrigo Herminio, Anna Batista, Maria Pepe, Ana Carolina dos Santos e Lucas Vinicius Silva de Lima) e se reuniu com elas/es primeiramente de forma remota e, a 10 dias do festival, se reuniram presencialmente para preparar o elenco. O resultado do processo foi apresentado entre o Paço da Alfândega e a Igreja Madre de Deus nos dias 22 e 23 de novembro. A montagem, com duração média de 50 minutos, flerta com um tom monótono ao longo da sequência de “a gente quer”, por vezes dispersando a atenção, que é recuperada a cada mudança de performer e/ou de dicção (aumentando o volume da voz, ou mantendo o volume padrão) e/ou mudando de plano (por vezes, as/os artistas estão sentadas/os, por vezes estão em pé sobre as cadeiras).

Os quereres assumiam diferentes afetos: transitando entre feições serenas e sorrisos a gritos de indignação e expurgos de raiva, as demandas de Nicolas Vercken, traduzidas para o português, foram endereçada através das/os intérpretes diretamente ao público como quem nos convida a querer junto, como quem aposta que suas demandas irão encontrar as nossas. Será que essas demandas são universalizáveis a ponto de rodarem o mundo e reverberarem em diferentes plateias da Coreia do Sul ao nordeste brasileiro? Eu, por minha vez, estava ansiosa pelo momento em que a plateia poderia adicionar alguns “a gente quer…” à lista. Não como quem quer consertar ou fazer recortes na lista original, mas como quem se afetou e quer colocar algumas demandas em praça pública também. Mais do que buscar uma identificação com todo e qualquer querer ali colocado, a montagem nos convida a tirar nosso desejo do âmbito privado e colocá-lo na rua; nos impele a tecer uma rede de desejos coletivamente, a falá-los em voz alta, a ouvir os quereres que nos circulam e a – por fim – conspirar juntas/os um outro mundo: o primeiro passo é querer. Você quer?

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Força e resistência
de Lady Tempestade
no palco recifense
Crítica do espetáculo por Ivana Moura

Andréa Beltão em Lady Tempestade. Foto: Marcos Pastich / PCR

Madeira do Rosarinho (Madeira que cupim não rói) traduz o ethos pernambucano: força, garra, determinação e orgulho, tudo junto e misturado. Nascida como resposta a uma injustiça – quando o bloco perdeu um concurso em 1963 para o Batutas de São José, numa decisão considerada parcial – a canção foi além do seu contexto original.

O verso “Queiram ou não queiram os juízes, o nosso bloco é de fato campeão” ecoou para além do carnaval, consolidando-se como hino de afirmação coletiva, força diante da opressão. Integrada à trilha sonora de Lady Tempestade, é executada no meio da peça e foi ouvida em silêncio reverente na estreia do 24º Festival Recife do Teatro Nacional – demonstração de respeito e comunhão com a luta retratada.

Criação Artística de Alta Voltagem – Lady Tempestade é um monólogo teatral que não reproduz biograficamente a vida de Mércia Albuquerque, mas surge como criação artística potente inspirada nos diários pessoais da advogada pernambucana. Uma ficção dramatúrgica de Sílvia Gomez que honra a memória de quem defendeu mais de 500 presos políticos durante a ditadura militar.

A dramaturgia revela maturidade impressionante – uma jovem com sabedoria cênica invejável, capaz de criar jogos teatrais, desconcertar com dribles narrativos e demonstrar a força transformadora da palavra.

Essas coisas aconteceram acontecem acontecerão, articula a protagonista, lembrando a todos nós que o jogo não está ganho. Vemos no palco uma luta angustiante de uma mulher contra uma máquina de triturar brasileiros pensantes que defendiam justiça social. Ela, que avança exausta contra os gafanhotos que estão em toda parte.

A mão de Yara de Novaes na direção permite que a história de Mércia respire e sangre no palco. Sílvia Gomez, sua sobrinha, já trabalhou com a diretora em outras montagens – existe uma intimidade artística entre elas que se traduz em colaboração criativa fluida e orgânica.

Juntas, constroem um espetáculo que preserva a dignidade da memória de Mércia através de uma abordagem que doseia densidade histórica com momentos de respiração e umas faíscas de humor. A direção de Novaes é dinâmica e envolvente: vai costurando estados mentais, subverte tempos, conecta e desconecta personagens numa dança cênica precisa. É método nos vários postos. 

A trama se inicia quando a intérprete (Andréa Beltrão) recebe de forma inesperada os manuscritos dos diários de Mércia. Esse encontro fortuito desencadeia um mergulho reflexivo entre passado e presente, estabelecendo ligações com capítulos silenciados da história brasileira.

A cenografia utiliza simbologias poéticas: uma caixa de papelão dos correios e xícaras ofertadas que apontam para madrugadas insones de Mércia. Há surpresas do “subsolo” que surpreendem ao final. 

Em cena com seu filho Chico, que faz a sonoplastia

20 de novembro de 2025, Teatro de Santa Isabel, Recife. Momento extraordinário – aquilo que só o teatro, arte da presença na presença, pode proporcionar. Andréa Beltrão no palco, Yara de Novaes (direção), Sílvia Gomez (dramaturgia), Verônica Prates e Valencia Losada (produção) nos bastidores. Casa lotada, público extasiado, choros baixinhos ecoando durante a apresentação.

A atriz, dona de técnica invejável, traz as forças da natureza para sua interpretação – raios, trovões, relâmpagos, a raiva da senhora tempestade. Trabalha voz, fisicalidade, intenções, transitando entre as personagens Mércia e A. (com suas alusões aos gafanhotos).

Uma questão sensível merece destaque: frequentemente causa incômodo quando artistas sudestinos interpretam personagens nordestinas, geralmente pela artificialidade do sotaque construído. Nesta montagem, contudo, o sotaque que Andréa Beltrão carrega em determinados momentos e ganha dimensão de propriedade e consciência. Não é imitação ou caricatura, mas apropriação respeitosa que nasce da verdade da figura retratada e da entrega integral da intérprete. A prosódia nordestina emerge organicamente, sem forçar, sem soar postiça – resultado de um trabalho de pesquisa e sensibilidade que honra tanto Mércia quanto o território que ela representa.

Durante a apresentação, um celular tocou na plateia. Beltrão segurou o tempo, atrasou propositalmente a partitura, se ajeitou, e num movimento de cabeça fez os óculos voarem até nossos pés – demonstração de presença cênica e domínio do palco. Precisa ser atriz extraordinária para dançar aquela sofrência e transformar o ridículo da situação em versos que viram protesto.

A trilha sonora, executada ao vivo por Chico Beltrão (seu filho), cria um elo poderoso com todas as mães que tentam proteger seus filhos, especialmente aquelas que os perderam para a barbárie – metáfora maternal que atravessa gerações.

Santa Isabel lotado, o público da luta e do luto. Foto: Foto: Marcos Pastich / PCR

Uma das aberturas mais impactantes da história do Festival Recife do Teatro Nacional. A prefeitura atendeu cerca de 540 pessoas – um público que misturava frequentadores habituais de teatro com jovens engajados politicamente e pessoas que nunca haviam entrado num teatro, motivadas pelo componente histórico-político.

Exemplo tocante: uma filha de preso político que descobriu a verdadeira história do pai somente este ano. Cresceu acreditando que ele era bandido, descobriu que era um resistente, e assistiu teatro pela primeira vez.

Conexões: Mércia e Soledad – A história de Mércia se entrelaça com outras trajetórias da resistência. A advogada foi responsável pelo reconhecimento dos corpos de seis integrantes da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) no IML, incluindo Soledad Barrett Viedma.

Em Soledad, espetáculo com a atriz Hilda Torres, direção de Malú Bazán, há uma cena onde a artista algema Soledad (representada por uma boneca) narrando: “A advogada Mércia Albuquerque foi ao IML e encontrou o corpo de Soledad” – momento que conecta as duas lutas, as duas memórias, as duas resistências.

Interpretação técnica e encantadora

Humanidade Sempre em Risco – Há múltiplas entradas para este espetáculo – políticas, estéticas, sociais – todas fascinantes. A peça emociona pela humanidade das personagens, uma humanidade sempre em risco, e faz imaginar a dor inexorável de quem perdeu entes queridos, de quem viu transformada em pó sua própria humanidade.

Lady Tempestade estabelece pontes entre passado autoritário e desafios democráticos contemporâneos, questionando como as violências estatais se perpetuam. “Essas coisas aconteceram acontecem acontecerão”. Nossa humanidade permanece em perigo, nossa jovem democracia sempre em risco.

Uma montagem de envergadura. Essa criação dá motivos para múltiplas análises e considerações que atravessam questões de memória, resistência, técnica teatral e urgências contemporâneas.

A recepção tem sido eloquente: indicações a prêmio demonstram o reconhecimento técnico. Mais revelador ainda é o impacto junto ao público – casas lotadas, lágrimas durante as apresentações, e o fenômeno de atrair espectadores que nunca haviam pisado em um teatro, mobilizados pela força política da narrativa.

Desde a estreia no Rio de Janeiro, em janeiro de 2024, o espetáculo tem percorrido o país gerando discussões necessárias. Lady Tempestade consegue o que poucos espetáculos alcançam – ser simultaneamente rigoroso artisticamente e acessível politicamente. A peça opera numa zona de risco controlado: evoca fantasmas, denuncia, emociona. É teatro que nos fazer pensar e sentir, simultaneamente, sobre quem fomos, quem somos e quem podemos ser. E há muito por dizer.

Ficha Técnica

Lady Tempestade com Andrea Beltrão

Direção: Yara de Novaes
Dramaturgia: Silvia Gomez
Cenografia: Dina Salem Levy
Desenho de luz: Ricardo Vívian e Sarah Salgado
Criação e operação de trilha sonora: Chico Beltrão
Desenho de som: Arthur Ferreira
Figurinos: Marie Salles
Assistente de direção: Murillo Basso
Assistente de cenografia: Alice Cruz
Operador de luz: Sarah Salgado e Luana Della Crist
Direção de Palco e Pintura de Arte: Antônio Lima
Contrarregra: Nivaldo Vieira e Márcio Rodrigues
Fotografia: Nana Moraes
Fotografia de Cena: Nana Moraes e Felipe Ovelha
Vídeos: Gil Tuchtenhagen
Projeto Gráfico: Fabio Arruda e Rodrigo Bleque | Cubículo
Assessoria de Comunicação: Vanessa Cardoso | Factoria Comunicação
Assessoria de Imprensa: Daniella Cavalcanti
Administração do Perfil Andrea Beltrão (Instagram): Rosa Beltrão
Gestão de Performance: Lead Performance
Produção: Quintal Produções
Diretora Geral: Verônica Prates
Coordenadora de Projetos: Valencia Losada
Produtora Executiva: Camila Camuso
Realização: Sesc São Paulo

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