Canto das Gerais abre Mostra de Dança

Espetáculo Entre o Céu e as Serras. Fotos: Wellington Dantas

Espetáculo Entre o Céu e as Serras. Fotos: Wellington Dantas

mbd-22233As cantilenas místicas acenam para a origem barroca das Minas Gerais. As cores, de terra batida, se apoderam dos corpos dos bailarinos no espetáculo Entre o Céu e as Serras, da Cia. de Dança Palácio das Artes (MG). A encenação abriu a 12ª edição da Mostra Brasileira de Dança, ontem, no Teatro de Santa Isabel. Uma montagem com ambições épicas. Traçar as riquezas históricas do estado de Guimarães Rosa, realiza um mergulho na formação da cultura mineira imbricada com a identidade de dança contemporânea da companhia, dirigida por Cristina Machado.

Entre o Céu e as Serras faz a segunda apresentação hoje, às 20h30, também no Santa Isabel. É um espetáculo bonito, de muito fôlego dos bailarinos e tem uma narrativa de brasilidade, com cenas simultâneas e quadros visualmente muito tocantes. E a música é um deleite para os ouvidos

A criação contemporânea da Cia. de Dança Palácio das Artes seguiu um caminho pedregoso e ousado de retraçar um curso de mineiridade e dispor no corpo da cena. Para realizar o feito aglutinou um série de profissionais que estabelecem uma tensão estética muito produtiva ao espetáculo. As manifestações populares do congado (Glaura Lucas) a pesquisa sobre o bailarino-intérprete (Graziela Rodrigues), a sonoridade urbana (Claudia Cimbleris).

De uma pesquisa exaustiva fez grudar episódios na memória corporal do bailarino. O rumo de investigação incluiu experimentações e vivências para aflorar a subjetividade do coreógrafo e também deixar brechas para o espectador ressignificar a obra que pulsa nesse mundo da ruptura e do fragmento.

Os bailarinos têm o corpo pintados por um pigmento marrom avermelhado e usam tratamento especial no cabelo para endurecer

Os bailarinos têm os corpos pintados por uma tinta marrom avermelhada

Entre os Céus e as Serras é marcado por três etapas. Na primeira situação o humano está envolvido com seu habitat natural, reforçado por sons de tambores e de gritos guturais e os movimentos coreográficos de ataque e defesa.

Na segunda fase da rota, as tradições familiares e os interesses econômicos da coroa portuguesa no Brasil e a influência da igreja católica produzem marcas socioculturais naquele século 18 da exploração do ouro. A terceira parte desse roteiro, assinado por Walmir José e Cândida Najar, direciona para novos horizontes e inquietações que dialogam com o mundo .

Com 21 bailarinos em cena, a rede de contrastes e o jogo de atração e resistência é reforçada pelo projeto de iluminação do cantor Ney Matogrosso e dos figurinos de Marco Paulo. Os intérpretes estão cobertos com um pigmento marrom avermelhado, alusão aos minérios e barro das Gerais.

Há sequências de elementos da corrida, saltos, rolamentos de outros festivais. Mas a reflexão do movimento avança numa pesquisa mais subjetiva, numa dança mais autoral em que incorpora as fronteiras borradas entre os fenômenos artísticos.

A narrativa leva ao palco personagens típicos da história de Minas e do Brasil: famílias tradicionais, senhorinhas, aristocratas, escravos, mineradores, religiosos, santos e as esculturas. O ouro, o sangue, as paixões, a violência,a alegria, a religiosidade, a dança típica, os embates, a sensualidade são reveladas com potência, nessa montagem que guarda uma surpresa para o final.

A religiosidade foi explorada na dança

A religiosidade foi explorada na dança

A Mostra Brasileira de atrasou cerca de 40 minutos da abertura oficial. Os organizadores Íris Macedo e Paulo de Castro, em seus discursos, seguiram por caminhos distintos. Ela fez as honras do evento, agradecendo aos patrocinadores. E Paulo resolveu reclamar dos ausentes, já que algumas cadeiras do Teatro de Santa Isabel estavam vazias, porque muita gente confirmou a reserva e não apareceu.

Uma sugestão para a direção da Mostra. A leitura do release com dados do grupo ficou enfadonha, longa e causou impaciência. Já existe um catálogo em que o público pode conferir detalhes sobre as companhias. Ou então é melhor fazer uma apresentação mais sucinta.

FICHA TÉCNICA
Entre o Céu e as Serras
Direção:
Cristina Machado
Orientação de pesquisa de movimento:
Luiz Mendonça
Cocriação coreográfica original:
Suzana Mafra, Marcio Alves, Lydia del Picchia e bailarinos da Cia. de Dança Palácio das Artes
Concepção musical:
Glaura Lucas e Cláudia Cimbleris
Roteiro:
Walmir José e Cândida Najar
Direção de laboratórios de pesquisa de campo:
Graziela Rodrigues
Trilha sonora original:
Cláudia Cimbleris
Cenário:
Wanda Sgarbi
Figurino:
Marco Paulo Rolla
Vídeo:
Chico de Paula
Design de luz:
Ney Matogrosso e Juarez Farinon
Operação de luz:
Elias do Carmo
Remontagem da coreografia:
Suzana Mafra e Rodrigo Giése
Figurino:
Marco Paulo Rolla
Assistente de figurino:
Miriam Menezes
Pesquisa histórica:
Mauro Werkema
Coordenação técnica:
Márcio Alves
Camareiras:
Cláudia de Sousa e Marcela Moreirah
Pesquisa de maquiagem:
Regina Mahia, Marco Paulo Rolla e bailarinos da CDPA
Elenco:
Alex Silva, Amanda Sant’ana, Andréa Faria, Ariane de Freitas, Carlos Gomes, Christiano Castro, Cláudia Lobo, Fernando Cordeiro, Gustavo Silvestre, Igor Pitangui, Ivan Sodré, Lívia Espírito Santo, Lucas Medeiros, Lucas Roque, Mariângela Caramati, Naline Ferraz e Paulo Chamone

SERVIÇO
12ª Mostra Brasileira de Dança
Espetáculo Entre o Céu e as Serras
Quando: Hoje, às 20h30
Onde: Teatro de Santa Isabel.
Ingressos: R$ 20 e R$ 10.

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O Recife dança com desenvoltura

Grupo mineiro abre programação com espetáculo Entre os Céus e as Serras. Foto: Guto Muniz

Grupo mineiro abre programação com espetáculo Entre os Céus e as Serras. Foto: Guto Muniz

mbd-22233A 12ª edição da Mostra Brasileira de Dança começa hoje com uma programação que inclui mais de 30 apresentações de grupos e companhias de nove estados brasileiros. A abertura oficial no Santa Isabel, às 20h, conta com o espetáculo Entre os Céus e as Serras, com direção cênica de Cristina Machado. A Cia. de Dança Palácio das Artes explora diversas referências culturais do período barroco e da formação da identidade do povo mineiro. A religiosidade, o domínio português e a resistência da cultura negra, o contato do homem com a natureza e os desdobramentos dessas vivências ganham forma nos corpos dos bailarinos e nas coreografias do grupo.

Desde o dia 27 de julho que a Mostra Brasileira de Dança (MBD) realiza algumas atividades culturais como parte da movimentação pré-Mostra. Até 15 de agosto serão totalizadas cerca de 50 atividades culturais em nove equipamentos da cidade. Confira as programação completa dos espetáculos abaixo.

Paulo de Castro e Íris Macedo, produtores da MBD. Foto: Rogério Alves

Paulo de Castro e Íris Macedo, produtores da MBD. Foto: Rogério Alves

Nesse momento de crise é um feito manter a estrutura do festival, organizado pela diretora Íris Macedo e pelo produtor cultural Paulo de Castro. A iniciativa conseguiu R$ 650 mil em dinheiro e em serviços: Patrocínio master dos Correios, no valor de R$ 350 mil, e apoios em serviços da Prefeitura do Recife (R$ 40 mil) e do Governo do Estado (R$ 30 mil), além de incentivo da Fundação Nacional de Arte (Funarte).

O evento preza pela diversidade, inclui na programação grupos locais e grandes companhias que têm dificuldade de acesso e circulação. A maior característica da mostra é não ter caráter competitivo. A expectativa de público é de 15 mil pessoas, contra 12 mil do ano passado. Os ingressos para todos os espetáculos custam R$ 20 e R$ 10 (meia).

Saudades de mim é dirigido pelo coreógrafo da comissão de frente da Unidos da Tijuca, Alex Neoral Foto: Paula Kossatz

Saudades de mim é dirigido pelo coreógrafo Alex Neoral Foto: Paula Kossatz

Saudade de mim, é uma montagem que faz parte das celebrações de 15 anos da Focus Cia de Dança. Nessa encenação, o coreógrafo Alex Neoral junta vários personagens de várias músicas de Chico Burarque. Pedro, Maria, Bárbara, Juca, Nina, entre outros que passam a se relacionar entre as canções Construção, Olha Maria, Trocando em miúdos, Valsinha. O espetáculo cruza pinturas históricas de Cândido Portinari – como O espantalho, Casamento na roça e O mestiço – para construir a narrativa.

Cantata é inspirada na cultura italiana. Foto: Mauro Bigonzetti / Divulgação

Cantata é inspirada na cultura italiana. Foto: Mauro Bigonzetti / Divulgação

O Balé da Cidade de São Paulo comparece com três coreografias: Uneven, do catalão Cayetano Soto; o duo O Balcão de Amor, do israelense Itzik Galili; e Cantata, do italiano Mauro Bigonzetti. Convite praticamente irresistível. Uneven apresenta o sentimento de estar fora do eixo, esboçando o sentido de desequilíbrio físico. O Balcão de Amor é peça cheia de energia, um dueto sexy e com ingredientes absurdos, inspirada pela música homônima, do cantor cubano Pérez Valdez (1916-89). Já Cantata é uma explosão coreográfica com as cores vibrantes do sul da Itália. A relação amorosa é repleta de gestos apaixonados que evocam uma beleza selvagem do Mediterrâneo.

A MBD também é uma oportunidade de conferir espetáculos pernambucano que estiveram por pouco tempo em cartaz. Três Mulheres e Um Bordado de Sol, da Compassos Cia. de Danças investe em três personalidades femininas da música, das artes plásticas e da literatura. Uma pernambucana nascida na Ucrânia, Clarice Lispector; a francesa Edith Piaf e Frida Kahlo, que transformou sua dor em cores do México.

O Grupo Experimental de dança faz sessões do Breguetu (brega é tu). O espetáculo investiga, a partir de uma narrativa de dança-teatro o universo brega na música, moda ou dança, buscando também despertar um pensamento crítico sobre o gênero.

Imagens Não Explodidas, da Cia. Etc. com direção de Marcelo Sena (E)

Imagens Não Explodidas, da Cia. Etc. com direção de Marcelo Sena (E)

Imagens Não Explodidas, da Cia Etc tem como uma das inspirações o livro Filosofia da Música, do filósofo Giovanni Piana. O espetáculo busca estabelecer um diálogo entre o pensamento musical e o coreográfico, a partir das experiências e estudos do bailarino Marcelo Sena.

A religiosidade do compositor baiano Dorival Caymmi, filho de Xangô, menino abandonado pela mãe quando contava três anos e que foi educado num terreiro de candomblé para ser o obá (um tipo de coordenador do terreiro), são ingredientes do espetáculo Dorival Obá. A coreografia do grupo Vias da Dança é assinada pelo ator e bailarino Juan Guimarães. No elenco estão Thomas de Aquino Leal, Júlia Franca, Natália Brito, Rayssa Carvalho e Simone Carvalho.

PROGRAMAÇÃO

Entre o céu e as serras tem direção de . Foto: Guto Muniz

Entre o Céu e as Serras tem direção de Cristina Machado. Foto: Guto Muniz

05/08 – 20h
Onde: Teatro de Santa Isabel
Entre o Céu e as Serras
Cia. de Dança Palácio das Artes (Belo Horizonte/MG)
Direção: Cristina Machado

06/08- 19h
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho
Três Mulheres e Um Bordado de Sol
Compassos Cia. de Danças (Recife/PE)
Direção: Raimundo Branco

06/08 – 20h30
Onde: Teatro de Santa Isabel
Entre o Céu e as Serras
Grupo: Cia. de Dança Palácio das Artes (Belo Horizonte/MG)
Direção: Cristina Machado

07/08 – 19h
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho
Caminhos
Grupo:Fábio Soares (Condado/PE)
Direção: Fábio Soares (Fabinho)

Dança embalada pelos sons de Chico e os tons de Portinari. Foto: Bel Acosta

Dança embalada pelos sons de Chico e os tons de Portinari. Foto: Bel Acosta

07/08 – 21h
Onde: Teatro Luiz Mendonça (Parque Dona Lindu)
Saudade de Mim
Grupo:Focus Cia. de Dança (Rio de Janeiro/RJ)
Direção: Alex Neoral

08/08- 19h
Onde: Teatro Apolo
Toque
Grupo: Aria Social (Jaboatão dos Guararapes/PE)
Direção: Carla Machado

08/08- 19h
Onde: Teatro Apolo
Les Sylphides
Grupo: Academia Fátima Freitas (Recife/PE)
Direção: Fátima Freitas

08/08- 19h
Onde: Teatro Apolo
Pé de Raiz
Grupo: Step Evolution (Recife/PE)
Direção: Levi Costa

08/08 – 19h
Onde: Teatro Apolo
Mostra Coreográfica de Grupos Em FormaçãoTudo Em Um Corpo Por Liberdade
Grupo: Grupo InterCruzados (Recife/PE)
Direção: Carla Santana

08/08 – 19h
Onde: Teatro Apolo
Mostra Coreográfica de Grupos Em FormaçãoLa Fille Mal Gardée / II Ato
Grupo: Ballet Cláudia São Bento (Recife/PE)
Direção: Cláudia São Bento

08/08 – 19h
Onde: Teatro Apolo
Nêga, Que Baque é Esse?
Grupo: Núcleo de Formação de Bailarinos da Cia. Nós em Dança (Paulista/PE)
Direção: Élide Leal

08/08- 19h
Onde: Teatro Apolo
Alegria Em Movimento
Grupo: Rafael Guimarães (Recife/PE)
Direção: Rafael Guimarães

08/08 – 19h
Onde: Teatro Apolo
Suíte Clássica
Grupo: Grupo de Ballet Stúdio de Danças (Recife/PE)
Direção: Cláudia São Bento

08/08 – 19h
Onde: Teatro Apolo
Catirinada
Grupo: Cia. Pé-Nambuco de Dança (Recife/PE)
Direção: Wagner Max

08/08 – 19h
Onde: Teatro Apolo
O Duelo
Grupo: Cia. Cadências (Recife/PE)
Direção: Liliana Martins

08/08 – 19h
Onde: Teatro Apolo
Muito Obrigado Axé
Grupo: Cia. Malungo (Recife/PE)
Direção: Marina Souza

08/08 – 19h
Onde: Teatro Apolo
Graciosa
Grupo: Babi Johari (Recife/PE)
Direção: Babi Johari

08/08 – 19h
Onde: Teatro Apolo
Mostra Coreográfica de Grupos Em FormaçãoVariações Clássicas
Grupo: Aria Social (Jaboatão dos Guararapes/PE)
Direção: Maria Inêz Lima

08/08 – 20h30
Onde: Teatro de Santa Isabel
Uneven – O Balcão do Amor – Cantata
Grupo: Balé da Cidade de São Paulo – BCSP (São Paulo/SP)
Direção: Iracity Cardoso

09/08 – 16h30
Onde: Teatro Luiz Mendonça (Parque Dona Lindu)
Lágrimas da Lua – Um Musical Villa-Lobos
Grupo: Cia. Sopro-de-Zéfiro/Cecília Brennand e Aria Social (Jaboatão dos Guararapes/PE)
Direção: Cecília Brennand

09/08 – 18h e 20h
Onde:: Espaço Experimental
Breguetu
Grupo: Grupo Experimental (Recife/PE)
Direção: Mônica Lira

09/08 – 20h
Onde: Teatro de Santa Isabel
Uneven – O Balcão do Amor – Cantata
Grupo: Balé da Cidade de São Paulo – BCSP (São Paulo/SP)
Direção: Iracity Cardoso

12/08 – 19h
Onde: Teatro Apolo
Imagens Não Explodidas
Grupo: Cia. Etc. (Recife/PE)
Direção: Marcelo Sena

12/08 – 20h
Onde: Teatro de Santa Isabel
Plagium?
Grupo: Cia. Dançurbana (Campo Grande/MS)
Direção: Marcos Mattos

13/08 – 19h
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho
Dorival Obá
Grupo: Cia. Vias da Dança (Recife/PE)
Direção: Juan Guimarães

13/08 – 20h
Onde: Teatro Luiz Mendonça (Parque Dona Lindu)
Naipí & Tarobá – A Lenda das Cataratas do Iguaçú
Grupo: Cia. Eliane Fetzer de Dança Contemporânea (Curitiba/PR)
Direção: Eliane Fetzer

14/08 – 19h
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho
Diafragma: Dispositivo Versão Beta
Grupo: Coletivo Mazdita (Recife/PE)
Direção: Flávia Pinheiro

14/08 – 21h
Onde: Teatro de Santa Isabel
A Sagração da Primavera
Grupo: Corpo de Dança do Amazonas – CDA (Manaus/AM)
Direção: Getúlio Lima

15/08 – 19h
Onde: Teatro Apolo
Mostra Coreográfica de Grupos Profissionais Suíte Clássica
Grupo: Ballet Cláudia São Bento (Recife/PE)
Direção: Jane Dickie

15/08 – 19h
Onde: Teatro Apolo
Mostra Coreográfica de Grupos Profissionais8 BITZ
Grupo: Animatroonicz (Recife/PE)
Direção: Will Robison da Silva

15/08 – 19h
Onde:: Teatro Apolo
Mostra Coreográfica de Grupos Profissionais – Trecho do espetáculo Pangeia
Grupo: Grupo Acaso (Recife/PE)
Direção: Bárbara Aguiar e Fran Nunez

15/08 – 19h
Onde: Teatro Apolo
Mostra Coreográfica de Grupos ProfissionaisAusências
Grupo: Grupo Peleja (Recife/PE)
Direção: Tainá Barreto

15/08 – 19h
Onde: Teatro Apolo
Mostra Coreográfica de Grupos ProfissionaisClown
Grupo: Cia. de Dança Fátima Freitas (Recife/PE)
Direção: Fátima Freitas

15/08 – 20h
Onde: Área externa do Parque Dona Lindu
Performance Reflexos
Grupo: Acupe Grupo de Dança (Recife/PE)
Direção: Paulo Henrique Ferreira

15/08 – 21h
Onde: Teatro Luiz Mendonça (Parque Dona Lindu)
Zhu
Grupo: Cia. Mário Nascimento (Belo Horizonte/MG)
Direção: Mário Nascimento

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Um massacre para não esquecer

Salmo 91 estreia hoje no Recife. Fotos : Wilson Lima / divulgação

Outubro de 1992. Oficialmente, 111 presos foram mortos na casa de detenção de São Paulo, conhecida pelo nome de Carandiru. Comenta-se, no entanto, que foram mais de 250. A chacina chocou o país e o mundo. Esse episódio virou livro, Estação Carandiru, de Drauzio Varella, e depois teatro. Com texto do jornalista e dramaturgo Dib Carneiro Neto, Salmo 91 aborda o cotidiano selvagem de personagens que se digladiam entre domínios e desejos. Ao dar voz aos prisioneiros, a peça mostra como o sistema carcerário brasileiro está falido.

Composta por dez monólogos, Salmo 91 conta o drama de cada personagem. Dadá, um sobrevivente do massacre inicia a narração. Em seguida, os outros nove presos expõem suas questões.

O texto teve sua primeira montagem em 2007, com direção de Gabriel Vilela, e conquistou o prêmio Shell de melhor autor no ano seguinte. Além da montagem de Vilela, a peça teve outras duas montagens: uma no Uruguai e outra na Bahia. Hoje estreia a versão pernambucana com o grupo Cênicas Cia de Repertório, na sede do grupo, no Bairro do Recife, com direção de Antônio Rodrigues. É a primeira montagem que o grupo fez especificamente para estrear na sede, espaço alternativo importante da cidade, que vem recebendo ao longo dos anos cada vez mais apresentações e projetos. Os ingressos para a estreia já estão esgotados.

Entrevista // Antônio Rodrigues

Antônio Rodrigues, diretor e ator do espetáculo

Salmo 91 é uma peça teatral escrita por Dib, adaptação do livro Estação Carandiru, de Drauzio Varella. O texto já foi encenado várias vezes e ganhou muitos prêmios. O que lhe motivou a encenar esse texto agora, no Recife de 2015?
A relação com o texto, mesmo que indireta, já é antiga. Antes de montarmos Senhora dos Afogados, tínhamos interesse em um texto do Sergio Roveri que era inspirado no conto Barbara, do Drauzio Varella, que tinha o Carandiru como tema. Passamos um tempo procurando textos para o elenco masculino do grupo, mas não montamos na ocasião. Depois do Nelson (Rodrigues) mergulhamos no texto A filha do teatro, montagem com o elenco feminino do grupo. Quando voltamos à ideia de montar um espetáculo com os atores da cia, fomos pesquisar textos dentro do universo carcerário. Foi aí que entramos em contato com Dib Carneiro Neto, que nos enviou o livro com o texto Salmo 91 e a identificação foi imediata. Não somente pelo universo retratado, uma vez que, apesar de terem se passado 23 anos do massacre, essa questão permanece atual e urgente, como também pelo caráter confessional dos monólogos, que nos permitiria uma encenação onde a relação próxima e íntima com o público fosse potencializada, em espaços alternativos, uma vez que tínhamos o desejo de estrear um espetáculo feito no Espaço Cênicas.

Você assistiu a alguma das outras montagens?
Não tivemos a possibilidade de assistir nenhuma montagem anterior. Em nossas pesquisas tivemos conhecimento da montagem do Gabriel Vilela em São Paulo, da montagem baiana e de uma montagem fora do Brasil, no Uruguai.

Qual a sua abordagem nessa encenação?
A peça pretende construir uma ambientação que condense essa atmosfera trágica dos muros e paredes do Carandiru. O público precisa sentir-se dentro desse ambiente, na intimidade dos narradores e com a proximidade como estratégia de ligação com o universo carcerário. A cena se passa no espaço interno do presídio, o público é levado para dentro da cadeia, seja na intimidade das celas ou nos corredores das galerias. As cadeiras serão dispostas nas laterais da cena, fazendo da assistência um espectador próximo e íntimo dos relatos. Além desta pretensa proximidade, a iluminação será pontual valorizando o jogo de claro e escuro, sombra e luz, que revelam ou escondem as dores e agruras expostas. Os depoimentos do texto sugerem uma composição, tanto em termos cênicos como interpretativos, que oscila entre uma mobilidade pulsante dos personagens e das imagens, como em movimentos muitos precisos e limitados pelo ambiente do claustro. As imagens e visualizações potencializam a composição e construção das personagens, revelando as sensações e pulsações da cena. As narrativas dos monólogos têm caráter íntimo e devastador.

Como funcionou o processo de criação – os ensaios, a escolha do elenco?
O elenco é formado pelos atores da Cênicas Cia de Repertório. Fizemos um levantamento de pesquisa sobre o universo da montagem: assistimos documentários, lemos o livro Estação Carandiru e só não fomos ao presídio porque estourou uma rebelião nos presídios de Pernambuco no período dos ensaios. A mola propulsora da encenação é o trabalho de corpo e voz dos atores, que atuam como coautores das cenas, criando uma nova dramaturgia, a dramaturgia do ator. Toda uma experimentação envolvendo contensão física e expansão energética será combustível na criação de um corpus interpretativo que desenvolva no ator a apropriação da atmosfera densa, da construção de personagem e de uma relação próxima com o público. No início foram trabalhados laboratórios com o universo do texto, sem definição de papeis. Só após uma apropriação das possibilidades que os personagens foram sendo construídos. Todos os atores passaram pelos 10 personagens na sala de ensaio. Tivemos a assistência de direção e preparação de elenco de Sônia Carvalho.

A narrativa explora em dez monólogos intercruzados a visão pessoal dos presos em relação à vida e ao crime. Como você elaborou as cenas e conduziu a visão de cada personagem?
Além de dar voz à margem, cada cena, cada diálogo, é um retrato real daquelas vidas, tirando-as do anonimato e colocando-as em destaque para questionar a violência das paredes e daqueles que a habitam. A cena traz a história de 10 detentos do pavilhão 9, onde oficialmente 111 foram assassinados, mas de acordo com a voz dos detentos foram mais de 250 mortos. A peça não é um relato realista do massacre e foca na perspectiva do preso sobre a vida marginal. Por meio da subjetividade das personagens, o drama desenrola questionamentos sociais sobre a marginalidade, colocando em foco as sensações de medo, desejo, vaidade e violência, revelando uma representação do teor do livro que expõe o que realmente acontecia dentro e fora das celas.

O que você acha de ter no Recife outra peça que dialoga com essa questão do cárcere – no caso , Sistema 25?
O massacre do Carandiru, que ficou conhecido como a maior chacina do sistema penitenciário brasileiro, não é um fato isolado. Ter mais de um espetáculo abordando essa temática, revela que o tema é uma questão que urge, o nosso sistema carcerário padece de reforma. Questões como redução da maioridade penal, pena de morte, entre outras, não são verdadeiramente abordadas buscando as reais soluções. O problema é em toda estrutura do sistema. A violência velada desse sistema é algo urgente e atual.

Ficha Técnica:

Texto: Dib Carneiro Neto (adaptação do best-seller Estação carandiru, de Drauzio Varella)
Encenação: Antônio Rodrigues
Preparação de elenco e Assistência de Direção: Sonia Carvalho
Elenco: Álcio Lins, Gustavo Patriota, Raul Elvis, Rogério Wanderley e Antônio Rodrigues
Ator coringa: Tarcísio Vieira – standy by
Figurinos: Álcio Lins, Antônio Rodrigues e Sônia Carvalho
Adereços: Álcio Lins, Felipe Lopes, Sônia Carvalho e o Grupo
Máscaras: Grupo
Cenário: Antônio Rodrigues
Execução de Cenografia: Felipe Lopes
Execução de Figurino: Francis Souza
Maquiagem: Álcio Lins
Sonoplastia: Antônio Rodrigues
Operação de som: Tarcísio Vieira
Fonoaudióloga: Sandra Carmo
Iluminação: Luciana Raposo
Operação de luz: Nardonio Almeida
Design Gráfico: Antônio Rodrigues
Contra Regra: Monique Nascimento
Produção Executiva: Sônia Carvalho e Antônio Rodrigues
Realização: Cênicas Cia de Repertório

Peça expõe sofrimentos, desejos, frustrações, revoltas dos presos do Carandiru

Serviço:

Salmo 91
Quando: De 1º de agosto a 6 de setembro, sábados às 20h; e domingos, às 18h. Os ingressos para a estreia estão esgotados.
Onde: Espaço Cênicas (Rua Marquês de Olinda, 199 – segundo andar. Bairro do Recife Antigo – Entrada pela Vigário Tenório).
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada mediante apresentação de carteira de estudantes ou RG em caso de maiores de 65 anos.).
Ingressos antecipados no link: http://www.eventick.com.br/salmo-91
Capacidade:65 lugares

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Confissões do invisível

Flavia Pinheiro em  Ensaio sobre a Impermanência

Flavia Pinheiro em Diafragma – Ensaio sobre a Impermanência. Foto: Martin Raabe

Corpo e tecnologia ajustados para produzir ruídos, imagens e sensações. Terreno fértil da arte contemporânea, que desafia subjetividade e inventa outras funções para o artefato material. Os artistas Flavia Pinheiro e Leandro Olivan (do Coletivo Mazdita) trafegam por interfaces interativas para gerar, compor e subverter performances, intervenções urbanas, instalações e vídeos. Flavia Pinheiro entra com a concepção e performance. Leandro Olivan com a programação de imagens e software.

Em Diafragma – Ensaio sobre a Impermanência a arte atravessa o território da virtualidade. Um sensor (Kinect) fisga os movimentos do corpo da artista e lança imagens dos deslocamentos.

Hoje e amanhã e nos dias 6 e 7 de agosto, sempre às 19h, o Coletivo Mazdita faz apresentações gratuitas desse experimento no Porto Mídia, no Bairro do Recife.

Ensaio sobre a Impermanência conjectura com as noções de tempo, espaço, duração, matéria e energia. Diafragma é exibido como o motor de uma grande máquina. Nos procedimentos Diafragma é arrastado da materialidade para o universo da imagem digital. Nessa simulação é possível conceber as relações manifestas entre matéria e energia. O fenômeno é aplicado através da plataforma Openframeworks para evidenciar uma animação. Com o movimento dos olhos (fechado e entreabertos) a performer procura acionar a conexão entre o interno e o externo.

Essa percepção dos acontecimentos do interior funciona como uma tentativa de dilatar o tempo através de rastro de sua permanência. A ação da gravidade sobre as substâncias em circulação no interior do corpo projeta o imaginário visual do universo. Segundo a performer Flavia Pinheiro, esse ensaio busca torna visível os micro movimentos invisíveis e questionar as possibilidades de existência na virtualidade.

Serviço
Diafragma, Ensaio sobre a impermanência
Onde: Porto Mídia (Galeria de exposições) – Rua do Apolo 181
Quando: 30 e 31 de julho, às 19h; 6 e 7 de agosto, às 19h
Entrada gratuita ( máximo 50 pessoas)
Duração: 33 minutos

Ficha técnica
Produção e Criação: Coletivo Mazdita
Concepção e Performance: Flavia Pinheiro
Programação de imagens e software: Leandro Olivan
Fotografia e video: Martin Raabe

Diafragma, Ensaio sobre a impermanência from Colectivo Mazdita on Vimeo.

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Crítica no Teatro para Infância

Dib Carneiro Neto. Foto: Reprodução facebook

Dib Carneiro Neto. Foto: Reprodução facebook

O dramaturgo, jornalista e crítico Dib Carneiro Neto está no Recife para ministrar a palestra A crítica no Teatro para Infância e Juventude. A atividade integra o 12º Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco, realizado pela Metron Produções. Autor do livro Pecinha é a Vovozinha, Dib Carneiro é um dos principais nomes na crítica de peças voltadas para a infância e juventude. Atualmente, atualiza uma coluna de críticas no site da revista Crescer. A palestra será nesta quinta-feira (30), às 19h, na Sala Multimídia da Caixa Cultural. A entrada é gratuita.

Em tempo, é bastante oportuna a visita de Dib Carneiro ao Recife – já que, neste sábado (1), a Cênicas Companhia de Repertório estreia Salmo 91, texto de Carneiro Neto, pelo qual ganhou o prêmio Shell de melhor dramaturgo em 2008. O diretor da Cênicas, Antônio Rodrigues, manteve contato com o autor pela internet e por telefone. “Ele acompanha tudo sobre a peça, inclusive divulgando nas redes sociais”, conta Rodrigues. Dib Carneiro aproveita a vinda à cidade para assistir à estreia.

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