Da lama ao caos do encontro

A cidade dos rios invisíveis. Foto: Jennifer Glass

A cidade dos rios invisíveis. Foto: Jennifer Glass

X Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo

O trajeto entre as estações Brás e Jardim Romano dura algo em torno de 40 minutos. Antes mesmo de começar o caminho, se você entrou no trem assim que ele abriu as portas, a espera é um pouco maior: até quem parece enfadado depois de um dia de trabalho, desenvolve certa solidariedade por aquele que desce as escadas correndo apressado para não perder o transporte. Ah, até porque os papeis sempre podem se inverter no dia seguinte. Em tudo na vida.
Fechadas as portas, enquanto o trem avança em direção ao extremo leste de São Paulo, temos tempo suficiente para nos perdemos em nós mesmos. Os olhos vagueiam pela janela e dentro do próprio trem, no encontro visual com personagens anônimos. Quanto mais longe do Centro, mais as pessoas se entregam à exaustão, dormem; mais as paisagens e a arquitetura mudam. As verticalizações da “cidade-progresso” dão espaço a outros arranjos habitacionais, geralmente bem mais coloridos e diversos.

Nesse percurso, ouvindo uma gravação no mp3 (sim, o som alto, que se instaura para a coletividade, é proibido no trem) que incluiu o barulho do rio, textos poéticos, reflexões e depoimentos, começa o espetáculo A cidade dos rios invisíveis, do grupo Estopô Balaio (De)Criação, Memória e Narrativa. Foram três sessões dentro da X Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, todas marcadas pela chuva que caiu na capital nesses últimos dias.

Os criadores do grupo chegaram ao Jardim Romano no ano de 2011, pouco depois que as águas haviam baixado. Durante quatro meses, o rio que passa por trás da comunidade entrou mais uma vez nas casas que ficam na parte mais baixa do bairro. Da mesma forma que, muitas vezes sem pedir licença, tomamos o espaço da natureza, vez ou outra, recebemos um sinal. Talvez não seja nem uma resposta desaforada, mas é assim mesmo que geralmente encaramos. O rio que invadiu e alagou as casas deixou marcas em diversos âmbitos na comunidade.

Montagem da Estopô Balaio começa na estação  Brás e vai até o Jardim Romano, extremo leste de São Paulo

Montagem da Estopô Balaio começa na estação Brás e vai até o Jardim Romano, extremo leste de São Paulo

Enquanto as crianças diziam que tinham visto peixes “pularem” no meio da enchente, jovens e adultos carregavam outras memórias e experiências normalmente bem menos lúdicas. Desde então, tendo a comunidade como parte efetiva do grupo, o Estopô Balaio já fez outros dois trabalhos a partir das vivências no Jardim Romano. O terceiro é justamente A cidade dos rios invisíveis, que usou como uma das referências o livro As cidades invisíveis, de Ítalo Calvino.

O movimento de travessia em direção ao encontro está no cerne do projeto. Na itinerância do Brás ao Jardim Romano, no caminho pelas ruas e becos até o rio. No encontro entre os atores “profissionais” e atores “moradores”, entre esses e o espectador. No encontro entre a poesia e os relatos da vida cotidiana. Os atores vão conduzindo a itinerância: que, dependendo da chuva, tem até 13 momentos, a maioria deles marcados por personagens do próprio bairro. Na Rua Miguel de Quadros Marinho, por exemplo, ouvimos a entrevista de Dona Jacira, nordestina, que fala sobre a condição da mulher. Na Rua Cochonilha, o público se depara com invenções, para ver a vida de outra forma. No Beco da Rata, mais poesia. Crianças da comunidade acompanham o percurso inteiro empolgados (até que algum pai ou mãe chama) e também participam da encenação.

Se as relações, inclusive na arte, podem ser mais rápidas e fortuitas, não foi o que aconteceu entre o Estopô Balaio e o Jardim Romano. Isso é muito claro para quem acompanha a apresentação e faz a diferença completamente nesse projeto, que diz muito mais sobre respeito e empoderamento do que só sobre arte e teatro em si. Foi no bairro, por exemplo, que o grupo instalou sua sede, numa demonstração efetiva de que o olhar estrangeiro queria ser tomado, fundido, pelo olhar local.

Atores "moradores" participam da encenação

Atores “moradores” participam da encenação

Esse talvez seja o principal mérito desse trabalho. Ao mesmo tempo em que os atores “profissionais” realmente acumulam experiências de vida e não só simulacros e memórias, os atores “moradores” atravessam o caminho em direção à própria voz. Estão todos no mesmo barco, na mesma rua de paralelepípedo, no mesmo beco enlameado que tem as paredes cobertas de poesia. Todos se influenciam, se misturam, se deixam afetar.

É um espetáculo também que desperta a noção de pertencimento, discute a cidade que queremos, a vida que desejamos levar, os sonhos pelos quais lutamos. Se durante muito tempo na comunidade, era o rio quem vinha ao encontro dos moradores, impondo como eles mesmo dizem, os tempos da água, da lama e do pó, agora somos nós que vamos ao rio, num movimento não só de autocompreensão, mas de tentativa de diálogo com o mundo no qual estamos inseridos.

Ficha Técnica
Ideia original, roteiro e direção: João Júnior
Dramaturgia: Estopô Balaio
Atores: Ana Carolina Marinho, Juão Nin, Johnny Salaberg e Renato Caetano
Atores-moradores: Adrielle Rezende, Bruno Cavalcante, Bruno Fuziwara, Keli Andrade e Paulo Oliveira
Participação: Emerson Alcade
Trilha Sonora: Marko Concá
Sonoplastia: Carol Guimaris e Doutor Aeiuton
Poesias: Debora Fiúza “Rata”, Emerson Alcade e Jacira Flores
Canções: Diane Oliveira, Dustin Mc e Matheus Farias, Juão Nin, Marko Concá
Figurino: João Júnior
Artes Visuais: Paula Mendes, Renato Caetano e Clayton Lima
Dança de Rua: Kel Look, Popper Diniz, Jeans, Bia Ferreira, Big Baby e Mell Reis
Produção: Wemerson Nunes, Clayton Lima e Ana Maria Marinho
Comunicação: Ramilla Souza

Montagem terminou sob chuva forte, no rio. Foto: Reprodução facebook/Estopô Balaio

Montagem terminou sob chuva forte. Foto: Reprodução facebook/Estopô Balaio

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***A cobertura crítica da X Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo é uma ação da DocumentaCena – Plataforma de Crítica, que articula ideias e ações do site Horizonte da Cena, do blog Satisfeita, Yolanda?, da Questão de Crítica – Revista Eletrônica de Críticas e Estudos Teatrais e do site Teatrojornal – Leituras de Cena. Esses espaços digitais reflexivos e singulares foram consolidados por jornalistas, críticos ou pesquisadores atuantes em Belo Horizonte, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. A DocumentaCena realizou cobertura da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, a MITsp (2014 e 2015); do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília (2014 e 2015); da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, em São Paulo (2014); e do Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto, em Belo Horizonte (2013).

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“A memória é uma força, não um fardo.”*

Arqueologias do presente – A batalha da Maria Antônia. Foto: Jennifer Glass

X Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo

A citação que intitula esse texto é um comentário do programa da exposição de Tadeusz Kantor, atualmente em cartaz no Sesc Belenzinho, a que tive oportunidade de assistir logo antes da apresentação de Arqueologias do presente – A batalha da Maria Antônia do grupo Opovoempé na Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo. Menciono aqui a exposição não apenas para contextualizar a citação, mas para lembrar que a recepção de uma obra é sempre trabalhada pela sua poética. O estado do corpo em uma exposição que nos interessa é uma mistura interessante de atenção e distração. O início desse trabalho do Opovoempé opera a passagem para esse estado.

O espaço cênico é formado por mesas, painéis, paredes e um espaço vazio, com o número 68 no centro de uma forma circular, em referência ao ano de 1968. Os painéis contêm frases que enquadram os tópicos propostos com documentos de diferentes procedências: cópias de matérias de jornal, artigos publicados nos anais da AMPUH, monografias, impressos de páginas na Internet, projetos de lei, um mapa cujas ruas devem ser renomeadas, etc. Nas mesas, jogos e outros documentos como livros e dispositivos de áudio com fones de ouvido para cada um ler ou escutar gravações de discursos ou depoimentos acerca da ditadura militar no Brasil e da situação análoga em outros países latino-americanos.

Entre os livros, me chamaram a atenção os de Educação Moral e Cívica em uma mesa que lembra uma mesa de professor na sala de aula, com aquela típica bandeirinha do Brasil. Sobre a mesa, uma sinalização que dizia algo como “Criança Anos 70”. Tendo nascido em 1976, me lembro de ter aula de Moral e Cívica, mas não me lembrava do conteúdo dessas aulas. Em dois livros, encontrei narrativas – pretensamente históricas – sobre índios. Em um deles, uma narrativa praticamente eliminava os índios do Brasil, falando deles no pretérito: “O índio, que era o homem primitivo do Brasil, vivia, na oportunidade da descoberta deste, no regime da mais rudimentar cultura, aproximando-se esta, da Idade da Pedra.” Tirei uma foto da página para não esquecer, mas não tenho a referência bibliográfica.

Acima, dei ênfase ao fato de que se tratam de narrativas “pretensamente” históricas porque a premissa básica da escrita da história é o compromisso com a verdade. Só que não em países que sofreram processos ditatoriais. Nesses casos, a história, bem como parte significativa do jornalismo, serve para criar ficções de acordo com interesses específicos. O trabalho do grupo Opovoempé me aprece apresentar a ideia da construção deliberada de discursos mentirosos ao oferecer essas evidências para o espectador encontrar de uma forma que prescinde de qualquer estratégia de convencimento.

Depois de um tempo em que os espectadores estão no espetáculo como se estivessem em uma exposição ou em uma sala de jogos, um dos atores inicia um jogo em que os espectadores respondem a perguntas ao se deslocar no espaço, de acordo com o grupo a que pertencem. Por exemplo: o ator propõe que quem nasceu antes de 1964 deve ficar no ponto X e quem nasceu depois, no outro X. Assim, com algum humor, vai se apresentando uma espécie de cartografia da formação do público. Com esse movimento, os espectadores trocam olhares, riem, às vezes aplaudem o outro grupo ou o reprimem em tom de brincadeira. Os atores administram o tempo das propostas com tranquilidade e com isso o público vai se adequando ao tempo de permanecer, que também é o tempo de escutar. Até que parte do elenco começa a narrar os fatos da Batalha da Maria Antônia. Eles estão com fones de ouvido e falam na medida em que escutam depoimentos gravados. A preparação do ritmo interno do espectador me parece bem eficaz, embora tenha ficado com a impressão de que o público, no dia da apresentação que eu vi, estava excessivamente tímido para a proposta da peça.

O espaço cênico é formado por mesas, painéis, paredes e um espaço vazio, com o número 68 no centro

O espaço cênico é formado por mesas, painéis, paredes e um espaço vazio, com o número 68 no centro

Os criadores de Arqueologias do presente se propõem um risco real quando optam por fazer a temperatura do espetáculo depender bastante do público de cada dia. Para o bem ou para o mal das apresentações isoladamente, é interessante que a poética do espetáculo tenha essa dimensão de risco e essa abertura concreta para o trajeto de pensamento que o espectador vai percorrer.

De qualquer modo, penso que a forma como a peça lida com o espectador é exemplar do desejo de convívio e partilha que o trabalho propõe. Até nos momentos em que um ou outro ator faz uma pergunta diretamente para um espectador, o tom é de conversa, não de interrogatório nem de desafio. A relação é sempre horizontal. Mesmo quando eles tomam a palavra para dar os depoimentos, a fala é entre iguais, sem pretensão de autoridade.

Vejo duas formas documentais distintas na peça. A primeira é composta pelos objetos, por coisas materiais, por imagens e textos impressos. A outra é feita de vozes, depoimentos falados, entonações, expressões físicas do corpo, pessoas reais. É como se a peça nos convidasse a escutar a história de outra maneira, convocando uma humanidade, um corpo a corpo para esse processo.

Em determinado momento, um dos atores perguntava qual era o X da questão, indagando o porquê das coisas estarem como estão. Talvez seja possível responder que há um vício tautológico geral de dizer que as coisas estão assim porque sempre foram assim. E o que vemos com essa e outras peças que buscam formas singulares de lidar com a história é, primeiramente, o obvio: que o país em que vivemos agora é o resultado do projeto de cinco décadas atrás. Mas a peça também sugere que a força da memória pode ser a de entender que se as estruturas que (ainda) cultivam a violência e a ignorância são uma construção, também podemos acreditar na sua desconstrução e trabalhar por ela.

Temperatura do espetáculo depende bastante do público

Temperatura do espetáculo depende bastante do público

*Crítica escrita por Daniele Avila Small – Questão de Crítica/DocumentaCena**
**A DocumentaCena – Plataforma de Crítica articula ideias e ações do site Horizonte da Cena, do blog Satisfeita, Yolanda?, da Questão de Crítica – Revista Eletrônica de Críticas e Estudos Teatrais e do site Teatrojornal – Leituras de Cena. Esses espaços digitais reflexivos e singulares foram consolidados por jornalistas, críticos ou pesquisadores atuantes em Belo Horizonte, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. A DocumentaCena realizou cobertura da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, a MITsp (2014 e 2015); do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília (2014 e 2015); da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, em São Paulo (2014); e do Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto, em Belo Horizonte (2013).

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Falemos exaustivamente daquele (do nosso) tempo

 Arqueologias do presente – A batalha da Maria Antônia. Foto:  Jennifer Glass

Arqueologias do presente – A batalha da Maria Antônia. Foto: Jennifer Glass

X Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo

Se a ignorância aprisiona as possibilidades do sujeito, o conhecimento é capaz de transformá-lo. Como já pregava Paulo Freire, a maneira mais efetiva de construir esse conhecimento talvez seja respeitando individualidades, levando-se em conta o que enxergamos do mundo ao nosso redor e as nossas potencialidades como seres em desenvolvimento. Sabedores disso, os atores do grupo Opovoempé, de São Paulo, propõem a experiência e a partilha no espetáculo Arqueologias do presente – A batalha da Maria Antônia como forma de reconstituir o que foram os anos da Ditadura Militar no Brasil, tendo como elemento disparador da dramaturgia a batalha entre estudantes da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, no ano de 1968.

Quando entra no espaço cênico, uma instalação visual, o público logo se depara com um local repleto de informações e proposições; e, sendo assim, com a necessidade real de se fazer presente efetivamente na construção daquela experiência, baseada prioritariamente na informação. A responsabilidade é dividida entre todos que, de alguma forma, se percebem integrantes de um sistema que só funciona com a colaboração e a participação consciente: algo está sendo elaborado em conjunto, somos todos coautores de um processo que trata da apropriação da nossa própria história.

Notícias de jornais, documentos, livros e estudos estão disponíveis ao público

Notícias de jornais, documentos, livros e estudos estão disponíveis ao público

Nas várias mesas dispostas no Anexo do Centro Cultural São Paulo, na X Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, jogos propunham a convivência e a discussão a partir de diferentes questões. Em determinada mesa, as pessoas debatiam como seria a sociedade ideal. O que de fato poderia caracterizar essa sociedade? Haveria a presença do Estado? O trabalho se faz necessário? Logo ali ao lado, no jogo de cartas, a proposta era elaborar construções de pensamentos a partir de determinadas palavras-chave. No jogo da memória, as imagens se sucedem em associações, em negociações semânticas. Enquanto uns jogavam, outros caminhavam pelo espaço, se demorando nos painéis com manchetes de jornais, nos livros, nas imagens, nos áudios disponíveis.

Através de depoimentos reais, os atores reconstroem o que foi o episódio da Rua Maria Antônia, quando estudantes de direita e de esquerda se enfrentaram com a conivência do poder estabelecido, causando muita destruição, pavor e morte. O prédio da antiga Faculdade de Filosofia da USP era considerado um reduto de resistência ao regime militar. Outras histórias se sucedem para fazer perceber o que de fato acontecia naqueles anos de repressão, como era comum que alguém desaparecesse, como alguém do alto escalão do Exército poderia estar sentado ao seu lado na sala de aula, como um professor, um catedrático, era espancado em plena luz do dia.

Opovoempé constrói um espetáculo de teatro documentário pleno de potência justamente porque se revela capaz de fazer refletir não só sobre os fatos históricos, mas aponta os indícios do quanto o passado ainda se configura como presente na sociedade brasileira. A nossa democracia impregnada por resquícios de um regime ditatorial. Somos capazes de pensar o nosso presente e as suas mazelas justamente a partir do empoderamento trazido pela consciência do que já passamos como coletividade. Nesse sentido, a montagem se faz ainda mais necessária quando percebemos, entre o público, a presença de muitos jovens, crianças até, que só ouviram falar da ditadura pelos livros de história, pelo professor do colégio.

Se vivemos novamente um momento de crise ideológica, se nos assustamos e nos sentimos perplexos quando o vizinho levanta a bandeira da volta da ditadura militar, o presente nos exige posicionamentos, exatamente como naqueles anos de repressão declarada, quando não havia a possibilidade de manter qualquer tentativa de imparcialidade. O trabalho do Opovoempé nos faz perceber o quanto ainda precisamos tratar de forma quase exaustiva de ditadura, dos nossos traumas, da nossa história. Talvez na experiência de contar e recontar e contar de novo, possamos de alguma forma nos libertar e construir novas perspectivas de presente.

O conflito entre estudantes foi contado através de depoimentos

O conflito entre estudantes foi contado através de depoimentos

Arqueologias do presente é um carimbo de quanto a arte é fundamental nesse processo de construção de memória coletiva. Cada vez que nos apropriamos dos acontecimentos do passado, estamos mais aptos a dialogar com as experiências do hoje, que não se revelam menos opressoras. Que liberdade queremos? A nossa realidade carece dessa capacidade de interpretação. Como lidar diariamente com os “Amarildos”? Com o fato de que grande parcela da população não tem o menor apreço pelos direitos humanos? Com o fato de que seu parente policial militar, na conversa na roda de amigos, diz que, sim, tortura bandido.

As memórias da ditadura precisam ser expostas, com urgência, como forma de resistência e luta contra uma política do esquecimento que não tem a menor intenção de nos empoderar. Na experiência artística circunscrita pelo tempo finito, em pouco mais de uma hora e meia de duração do espetáculo, encontramos, como um respiro, mesmo que doído, a possibilidade de convivência e de superação de realidades. Estamos tratando aqui de um teatro absolutamente necessário. O público impregnado nem aplaude, como se não coubesse o êxtase depois daquela partilha sensível. Vai saindo aos poucos… mas os resquícios permanecem em cada um. E isso não pode ser mensurado.

Ficha Técnica
Concepção, direção e dramaturgia: Cristiane Zuan Esteves
Atores criadores: Manuela Afonso, Ieltxu Martinez, Mariana Senne / Atriz convidada: Andrea Tedesco
Iluminação: Grissel Piguillem
Direção de arte: Vânia Medeiros
Direção de produção: Manuela Afonso e Anayan Moretto
Núcleo artístico opovoempé: Ana Luiza Leão, Cristiane Zuan Esteves, Manuela Afonso, Paula Possani

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***A cobertura crítica da X Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo é uma ação da DocumentaCena – Plataforma de Crítica, que articula ideias e ações do site Horizonte da Cena, do blog Satisfeita, Yolanda?, da Questão de Crítica – Revista Eletrônica de Críticas e Estudos Teatrais e do site Teatrojornal – Leituras de Cena. Esses espaços digitais reflexivos e singulares foram consolidados por jornalistas, críticos ou pesquisadores atuantes em Belo Horizonte, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. A DocumentaCena realizou cobertura da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, a MITsp (2014 e 2015); do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília (2014 e 2015); da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, em São Paulo (2014); e do Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto, em Belo Horizonte (2013).

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Circo até umas horas!

 Espetáculo francês Oktobre abriu festival no Teatro Luiz Mendonça e faz mais duas sessões, hoje e amanhã. Foto: Daniel Michelon

Espetáculo francês Oktobre abriu festival e faz mais duas sessões, hoje e amanhã. Foto: Daniel Michelon

Desde ontem, algumas versões do circo contemporâneo se espalham por Recife e chegam a Olinda, dentro da programação do Festival de Circo do Brasil, em sua 11ª edição que segue até o dia 8. Uma exposição com figurinos e fotos de A luneta do tempo, filme de Alceu Valença, na Galeria Janete Costa e o espetáculo francês Oktobre, comandado pelo mágico Yann Frisch, no Teatro Luiz Mendonça, abriram a maratona nos dois equipamentos culturais localizados no Parque Dona Lindu, em Boa Viagem.  A exposição fotográfica A luneta e o tempo é composta por imagens de Toinho Melcop, que retratam os bastidores do filme.

Oktobre leva o circo a outra dimensão. E faz mais duas sessões, hoje e amahhã, às 20h. A fantasia está lá, com seus artistas extravagantes sentados ao redor de uma mesa: um trapezista de tirar o fôlego , um campeão de mágica, um acrobata atormentado. Ele vão ao limite na manipulação e velocidade para provocar sensações de risco. As cenas que se repetem, mas não parecem as mesmas. Jogo de aparência, truques de desaparecimento, números distorcidos. As regras da realidade são alteradas, os corpos são transformados, vozes modificadas. Humor negro, melancolia e surrealismo intrigante.  Participam Pauline Dau, Eva Ordonez-Benedetto, Jonathan Frau, Yann Frisch, sob direção de Florent Bergal.

Com patrocínio da Petrobrás, da Empetur e do Institut Français, entre outros, o evento – que tem curadoria e direção de Danielle Hoover, ocupa durante esses dias os teatros Luiz Mendonça e Santa Isabel, as salas do Centro Cultural Apolo-Hermilo, a Livraria Cultura e as praças de São José em Abreu e Lima e do Carmo, em Olinda entre outros.

Ao todo, o festival contabiliza 40 espetáculos, entre apresentações e intervenções. Soma-se a isso oficinas, exposição, lançamento e exibição de filmes. Na programação estão espetáculos da França, Espanha e Inglaterra e Brasil.

O Parque Dona Lindu abriga uma programação gratuita sábado e domingo, partir das 16h, com apresentações ao ar livre de Rapha Santacruz (PE), Duo Morales (RJ), Victor Abreu (SP), Chocobrothers (Espanha) e Chipolatas (Inglaterra). Uma estrutura para espetáculos e vivências circenses, como o slackline, além de uma praça de alimentação de food trucks está montada no local.

A montagem Uma surpresa para Benedita, do grupo Trampulim (MG), ocupa neste fim de semana o Teatro Hermilo Borba Filho às 11. E Acorda, do Trampulim, apresenta-se no mesmo teatro às 17h.

As menias da Cia Animé preparam o primeiro disco de As Levianinhas

As meninas da Cia Animée preparam o primeiro disco de As Levianinhas

A Cia. Animée (PE) rodou o Brasil com Trueque, fez 45 apresentações, sendo apenas cinco no Recife. Quem não viu ou quiser rever a hora é essa. Hoje e amanhã, ), às 16h, no Teatro Apolo. Trueque significa troca. E as palhaças Tan Tan e Mary En compartilham com as crianças essa experiência de música ao vivo, mágica e palhaçadas.  E a peça As Levianas em Pocket Show traz novidades em músicas e outros elementos nas sessões das 20h de hoje e amanhã, também no Apolo.

E essa Cia. Animée (PE) está para prosa e poesia. As Levianinhas preparam seu primeiro CD com músicas autorais e outras cedidas por artistas como Chico Cezar, Arnaldo Antunes, Pedro Luís e a Parede, Lula Queiroga e Luck Luciano, com produção da Luni. Vem coisa boa por aí. Além disso, a trupe de garotas aprovou a itinerância internacional da peça Levianas em Cabaré Vaudeville e com isso o grupo faz seis apresentações em 2016 em terras lusitanas.

A programação prossegue durante a semana com várias atrações. O documentário Circo Debre Berhan, do cineasta e jornalista Luís Nachbin, vai ser exibido na terça, às 19h30, no Cinema da Fundação e na quarta-feira às 19:30h, na Livraria Cultura. Já a pré-estreia do filme A luneta do tempo será na terça-feira, às 20h30, no Cinema da Fundação do Derby. Ainda na terça-feira, às 22h30, o mágico Yann Frsich mostra seu talento no bar Haus Lajetop, no Pina. Nos dias 6, 7 e 8, uma das atrações é o Cirque Hirsuthe, da França, com o espetáculo Les Butors. A nova criação de Mathilde Sebald et Damien Gaumet é do ano passado e mostra um engraçado e delicado namoro nas alturas.

 

Programação

30/10 – Sexta-Feira
20hrs Exposição A Luneta e o Tempo – Figurinos e fotos do filme de Alceu Valença. Fotos: Toinho Melcop e Montagem: Antônio Guido Galeria Janete Costa
21h OKTOBRE (FRA) Teatro Luiz Mendonça
31/10 – Sábado
11h Uma Supresa para Benedita (MG) Teatro Hermilo
16h Vivências Circenses Parque D. Lindu
16h Trueque (PE) Teatro Apolo
17h Acorda (MG) Teatro Hermilo
20h OKTOBRE (FRA) Teatro Luiz Mendonça
20h As Levianas em Pocket Show (PE) Teatro Apolo
A partir das 16h A Roda (PE) / A Jornada do Herói (SP) / Duo Morales (RJ) / Chocobrothers (ESP) / Chipolatas (UK) Esplanada do Parque Dona Lindu
01/11 – Domingo
11h Uma Supresa para Benedita (MG) Teatro Hermilo
16h Vivências Circenses Parque D. Lindu
16h Trueque (PE) Teatro Apolo
17h Acorda (MG) Teatro Hermilo
20h OKTOBRE (FRA) Teatro Luiz Mendonça
20h As Levianas em Pocket Show (PE) Teatro Apolo
A partir das 16h A Roda (PE) / A Jornada do Herói (SP) / Duo Morales (RJ) / Chocobrothers (ESP) / Chipolatas (UK) Esplanada do Parque Dona Lindu
02/11 – Segunda
9h às 17h Laboratório de Criação Circus Next Teatro Hermilo
10h O Homem Foca (RJ) Galeria Janete Costa
16h Chipolatas (UK) Praça do Carmo (Olinda)
16h Chocobrothers (ESP) Parque da Jaqueira
17h às 19h Encontro de Mágicos com Yann Frisch (FRA) Espaço Villa
03/11 – Terça-Feira
9h às 17h Laboratório de Criação Circus Next Teatro Hermilo
19h30 Documentário: “Circo Debre Berhan”- de Luís Nachbin Cinema da Fundaj(Derby)
20h30 Filme: “A Luneta do Tempo”- de Alceu Valença Cinema da Fundaj(Derby)
22h30 Yann Frisch (FRA) – Solo
Natasha Jascalevich (SP) – O Poder da Cachaça
Haus
04/11 – Quarta-Feira
9h às 17h Laboratório de Criação CircusNext Teatro Hermilo
16h O Homem Foca (RJ) Praça Central de Camaragibe
19h Lançamento do livro “Cravo na Carne- Fama e Fome” Livraria Cultura(Paço Alfândega)
19h30 Documentário: “Circo Debre Berhan”- de Luís Nachbin Livraria Cultura(Paço Alfândega)
05/11 – Quinta-Feira
9h às 17h Laboratório de Criação Circus Next Teatro Hermilo
20h Resultado Work in Progress 2014- Memórias da Dor em Tempos de Liberdade (PE) Teatro Hermilo
21h Concerto para Ri Maior (PR) Teatro Apolo
06/11 – Sexta-Feira
9h às 17h Laboratório de Criação Circus Next Teatro Hermilo
20h Work in Progress – Aéreo Improvisado (PE) Teatro Hermilo (aberto público)
21h Les Butors (FRA) Teatro Santa Isabel
21h Concerto para Ri Maior (PR) Teatro Apolo
07/11 Sábado
9h às 17h Laboratório de Criação Circus Next Teatro Hermilo
11h Flor do Lixo (PE) Teatro Apolo
16h Meu Chapéu é o Céu (DF) Parque Santana(aberto)
17h Les Butors (FRA) Teatro Santa Isabel
18h Um Café da Manhã (SP) Teatro Luiz Mendonça
20h Work in Progress – Aéreo Improvisado (PE) Teatro Hermilo(aberto público)
20h Concerto para Ri Maior (PR) Teatro Apolo
08/11 – Domingo
11h Flor do Lixo (PE) Teatro Apolo
16h Meu Chapéu é o Céu (DF) Praça São José (Abreu e Lima)
17h Les Butors (FRA) Teatro Santa Isabel
18h Um Café da Manhã (SP) Teatro Luiz Mendonça

 

 

Serviço
Festival de Circo do Brasil 2015 – Mais circo impossível!
Quando: De 30 de outubro a 8 de novembro em Pernambuco.
Programação gratuita, exceto apresentações em teatros.
Ingresssos: www.compreingresso.com.br/:

  • Teatros Santa Isabel e Teatro Luiz Mendonça: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia)
  • Teatro Apolo e Teatro Hermilo: R$ 10,00 (valor único)
  • Teatro Santa Isabel: (81) 3355-3323
  • Teatros Apolo e Teatro Hermilo: 3355-3320
  • Teatro Luiz Mendonça: (81) 3355-9821
  • Cinema da Fundaj(Derby): (81) 3073-6689 Os ingressos serão distribuídos 1h antes da sessão.
  • Livraria Cultura(Paço Alfândega): (81) 2102-4231

Informações: Luni Produções (81) 3441-1241

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Programação lotada no fim de semana

Eu Em Pessoa faz sessão única no Capiba. Foto: Américo Cavalcante

Eu Em Pessoa faz sessão única no Capiba. Foto: Américo Cavalcante

Além do espetáculo Ópera do Malandro e da apresentação do grupo Corpo, o fim de semana ainda tem algumas outras opções inéditas. No Teatro Capiba, por exemplo, o ator Amarílio Sales interpreta Teté, na montagem Eu Em Pessoa, da Bahia. O espetáculo está no Recife graças ao Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz 2014. Com roteiro do próprio Sales e direção de Flavia Pucci, o espetáculo reflete sobre preconceitos e liberdades, trazendo à cena um homem que foge de sua cidade para viver a sua sexualidade e encontra refúgio na obra de Fernando Pessoa.

Já no Teatro Marco Camarotti, os participantes da oficina A arte do presente, ministrada pelo grupo Magiluth, apresentam WAR NAM NIHADAM ou qual o nome do suco?. A demonstração de trabalho é influenciada pelas pesquisas que o Magiluth empreendeu para montar o espetáculo mais recente do grupo, O ano em que sonhamos perigosamente. São mais de 20 pessoas em cena, depois de dois meses de oficina na nova sede do grupo, no terceiro andar do Edf. Texas, no Pátio de Santa Cruz.

Assombrações é livremente inspirada em obra de Freyre. Foto: Toni Rodrigues

Assombrações é livremente inspirada em obra de Freyre. Foto: Toni Rodrigues

No Teatro Luiz Mendonça, no Parque Dona Lindu, os alunos da Cênicas Cia de Repertório apresentam Assombrações, espetáculo livremente inspirado na obra de Gilberto Freyre, com texto assinado por Álcio Lins e Antônio Rodrigues. De acordo com Rodrigues, que também assina a direção, o realismo fantástico dá o tom da montagem, que conta a história dos Guimarães, família tradicional do Recife, com foco no noivado de Malvina, filha primogênita da família.

Serviço:

Eu Em Pessoa
Onde: Teatro Capiba (Sesc Casa Amarela)
Quando: sábado (24), às 20h
Quanto: R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada)

WAR NAM NIHADAM ou qual o nome do suco?
Onde: Teatro Marco Camarotti (Sesc Santo Amato)
Quando: sábado (24) e domingo (25), às 20h
Quanto: Gratuito. Os ingressos podem ser retirados na bilheteria uma hora antes do espetáculo

Assombrações
Onde: Teatro Luiz Mendonça (Parque Dona Lindu)
Quando: domingo (25), às 20h
Quanto: R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada)

Magiluth encerra oficina com demonstração de trabalho

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