O Janeiro de grandes espetáculos se garante

Matheus Nachtergaele abres festival com Processo de Conscerto do Desejo.Foto Marcos Hermes

Matheus Nachtergaele abres festival com Processo de Conscerto do Desejo.Foto Marcos Hermes

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De 8 a 24 de janeiro vai acontecer a 22ª edição do Janeiro de Grandes Espetáculos – Festival Internacional de Artes Cênicas de Pernambuco. Até a semana passada, a realização do programa era incerta por conta de uma crise, que ouço falar todos os anos para a cultura, mas este ano parece que agravou-se. Serão ao todo 36 espetáculos, entre shows, peças teatrais para adultos e crianças e produções de ópera e dança, além de oito concertos por Recife, Olinda, Goiana e Caruaru pelo Circuito BNDES de Música – Do Erudito ao Popular.

A realização é da Associação de Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco (Apacepe), sob o comando dos produtores Paula de Renor, Paulo de Castro e Carla Valença, com patrocínio do BNDES, Prefeitura do Recife, Empetur e Secretaria de Cultura do Estado de Pernambuco/ Fundarpe.

Quatro espetáculos brasileiros (de outros estados do país) participam do festival. Processo de Conscerto do Desejo, solo com Matheus Nachtergaele (RJ), abre o festival. Sua mãe, Maria Cecília morreu quando o ator ainda era bebê e os poemas dela são para ele um elo de ligação e um oásis afetivo. A partir da obra do poeta Manoel de Barros, o diretor Moacir Chaves ergueu Inutilezas, da Inutilezas Produções e Arte Limitada (RJ), com os intérpretes Bianca Ramoneda e Gabriel Braga Nunes.

Questionamentos sobre identidades e investigação com recursos do metateatro marcam a peça Maria que Virou Jonas ou A Força da Imaginação, da Cia. Livre (SP), dirigida por Cibele Forjaz, com Lúcia Romano e Edgar Castro. E a estreia nacional de O Lugar Escuro, na qual três gerações de mulheres da mesma família precisam enfrentar o Mal de Alzheimer. Estão no elenco, as atrizes Sandra Dani, Vika Schabbach e Gabriela Poester, sob direção de Luciano Alabarse.

Os ingressosvariam de R$ 10 a R$ 50 (estarão à venda pelo site www.compreingressos.com em breve), mas há apresentações gratuitas também.

Espetáculo espanhol Uma casa na Ásia. Foto: Nacho Gómez

Espetáculo espanhol Uma casa na Ásia. Foto: Nacho Gómez

O projeto Janela Espanhola, traz dois convidados da cena contemporânea Da Espanha. Uma Casa na Ásia toma episódio da invasão à casa de Osama Bin Laden  para compor uma visão pop da década recheada de atentados. Os integrantes do Agrupación Señor Serrano utilizam  maquetes, videoprojeções, manipulação de vídeo em tempo real, videojogos, mundos virtuais e performance.

O outro é Por Favor, Continue (Hamlet), de Roger Bernat e Yan Duvyendak, que leva Hamlet a ser julgado em um tribunal, depois de ter matado Polônio, pai de sua noiva Ofélia. As apresentações dos dois espetáculos no Janeiro recebem o apoio da Acción Cultural Española em seu Programa de Internacionalização da Cultura Espanhola (PICE).

Montagem pernambucana O açougueiro. Foto: Lucas Emanuel-Curinga Comunique

Montagem pernambucana O açougueiro. Foto: Lucas Emanuel-Curinga Comunique

PROGRAMAÇÃO

Processo  de  Conscerto  do  Desejo  (Pássaro  da  Noite  Produções  –  Rio  de  Janeiro/RJ)
Quando: Dias 8 e 9 de janeiro de 2016 (sexta e sábado), 21h
Onde: Teatro de Santa Isabel
Ingressos: R$ 50 e R$ 25

Sabores e Saberes do Milho (Comedoria Popular Arte e Gastronomia – Recife/PE)
Quando: Dias 9 e 10 de janeiro de 2016 (sábado e domingo), 16h30,
Onde: Teatro Marco Camarotti (SESC Santo Amaro)
Ingressos: R$ 20 e R$ 10

Musical o Abraço - Nunca Estaremo Sós, Foto: Fernanda Acioly

Musical o Abraço – Nunca Estaremo Sós, Foto: Fernanda Acioly

Abraço – Nunca Estaremos Sós (Dispersos Cia. de Teatro – Recife/PE)
Quando: Dia 9 de janeiro de 2016 (sábado), 20h
Onde: Teatro Apolo
Ingressos: R$ 20 e R$ 10

Saudosiar… A Noite Insone de Um Palhaço…(Paulo de Castro Produções Artísticas  e Fafe Cidade das Artes – Recife/Brasil/Fafe/Portugal)
Quando: Dias 9 e 10 de janeiro de 2016 (sábado, 20h, domingo, 18h)
Onde: Teatro Capiba (SESC Casa Amarela)
Ingressos: R$ 20 e R$ 10

Passo (Compassos Cia. de Danças – Recife/PE)
Quando: Dia 10 de janeiro de 2016 (domingo), 17h
Onde: Passo do Frevo
Quanto: R$ 6 e R$ 3 (entrada no local)

Fraturas, com o coletivo trippé (PE). Foto: Fernando Pereira

Fraturas, com o coletivo trippé (PE). Foto: Fernando Pereira

Fraturas (Coletivo Trippé – Petrolina/PE)
Onde: Teatro Apolo
Quando: Dia 10 de janeiro de 2016 (domingo), 20h,
Quanto: R$ 20 e R$ 10

Obsessão (Produção: Nilza Lisboa, Simone Figueiredo e Sílvio Pinto – Recife/PE)
Quando: Dia 10 de janeiro de 2016 (domingo)
Onde: Teatro de Santa Isabel
Quanto: 20h, R$ 20 e R$ 10

Please,  Continue  (Hamlet)  /  Por  Favor,  Continue  (Hamlet)  (Roger  Bernat  –  Espanha) Quando: Dias  12  e  13  de  janeiro  de  2016  (terça  e  quarta),  19h30,
Onde: Local a confirmar
Quanto: gratuito  (distribuição  de  senhas a partir de 2h antes)

Cabaré Diversiones (Produção: Henrique Celibi – Olinda/PE)
Quando: Dia 12 de janeiro de 2016 (terça), 20h,
Onde: Teatro Apolo
Quanto: R$ 20 e R$ 10

A Visita, com o ator Severino Florêncio (PE). Foto: Marcos Nascimento

A Visita, com o ator Severino Florêncio (PE). Foto: Marcos Nascimento

A Visita (Grupo de Teatro Arte­Em­Cena – Caruaru/PE)
Quando: Dias 12 e 13 de janeiro de 2016 (terça e quarta), 20h
Onde: Teatro Capiba (SESC Casa Amarela)
Quanto: R$ 20 e R$ 10

Sistema  25  (Grupo  Cênico  Calabouço  e  Grupo  Teatral  Risadinha  –  Recife/Camaragibe/PE) Quando: Dia 13 de janeiro de 2016 (quarta), 17h,
Onde: Teatro Marco Camarotti (SESC Santo Amaro)
Quanto: R$ 20 e R$ 10

Cante Comigo – Ayrton Montarroyos (Produção: Rita Chaves – Recife/PE)
Quando: Dia 13 de janeiro de 2016 (quarta), 20h
Onde: Teatro de Santa Isabel
Quanto: R$ 40 e R$ 20

A House in Asia / Uma Casa na Ásia (Agrupación Señor Serrano – Espanha)
Quando: Dias 14 e 15 de janeiro de 2016 (quinta e sexta), 20h
Onde: Teatro Apolo
Quanto: R$ 20 e R$ 10

(L)a (P)lage (Grupo Acaso, Apacepe e Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto –  Recife/ Brasil/ Basto/ Portugal)
Quando: Dias 14 e 15 de janeiro de 2016 (quinta e sexta), 20h
Onde: Teatro Marco Camarotti (SESC Santo Amaro)
Quanto: R$ 20 e R$ 10

O Ano Em Que Sonhamos Perigosamente (Grupo Magiluth – Recife/PE)
Quando: Dia 14 de janeiro de 2016 (quinta-­feira), 21h
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho
Quanto: R$ 20 e R$ 10

A  Invenção  da  Palavra  (Parêa Teatro, Janela  Projetos e  Fafe Cidade  das  Artes –  Recife/ Brasil/Fafe/ Portugal)
Quando: Dias 15 e 16 de janeiro de 2016 (sexta e sábado), 20h
Onde: Teatro Capiba (SESC Casa Amarela)
Quanto: R$ 20 e R$ 10

Inutilezas (RJ) - Foto: Marco Terra Nova

Inutilezas (RJ) – Foto: Marco Terra Nova

Inutilezas (Inutilezas Produções e Arte Limitada – Rio de Janeiro/RJ)
Quando: Dias 15 e 16 de janeiro de 2016 (sexta e sábado), 21h
Onde: Teatro de Santa Isabel
Quanto: R$ 40 e R$ 20

Luzia no Caminho das Águas (Grupo Engenho de Teatro – Recife/PE)
Quando: Dias 16 e 17 de janeiro de 2015 (sábado e domingo), 16h30
Onde: Teatro Marco Camarotti (SESC Santo Amaro)
Quanto: R$ 20 e R$ 10

Maria Que Virou Jonas ou A Força da Imaginação (SP), com direção de Cibele Forjaz. Foto: Cacá Bernardes

Maria Que Virou Jonas ou A Força da Imaginação (SP), com direção de Cibele Forjaz. Foto: Cacá Bernardes

Maria Que Virou Jonas ou A Força da Imaginação (Cia. Livre – São Paulo/SP)
Quando: Dias 16 e 17 de janeiro de 2016 (sábado e domingo), 19h
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho
Quanto: R$ 20 e R$ 10

Salmo 91 (Cênicas Cia. de Repertório – Recife/PE)
Quando:Dia 16 de janeiro de 2016 (sábado), 20h
Onde: Espaço Cênicas (Av. Marquês de Olinda, 199, sala 201, 2º andar, Bairro do Recife)
Quanto: R$ 20 e R$ 10

Ópera Cordelista Lua Alegria (Paulo Matricó – Recife/PE)
Quando: Dias 16 e 17 de janeiro de 2016 (sábado, 21h,  domingo
Onde: Teatro Luiz Mendonça (Parque Dona Lindu)
Quanto: R$ 20 e R$ 10

Elke Canta e Conta, com Elke Maravilha (SP) - Foto: Estúdio Mandala

Elke Canta e Conta, com Elke Maravilha (SP) – Foto: Estúdio Mandala

Elke Canta e Conta (Produção: Maurílio Domiciano – São Paulo/SP)
Quando: Dia 17 de janeiro de 2016 (domingo), 20h
Onde: Teatro de Santa Isabel
Quanto: R$ 50 e R$ 25

Soledad – A Terra é Fogo Sob Nossos Pés (Cria do Palco – Recife/PE)
Quando: Dia 18 de janeiro de 2016 (segunda), 20h
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho
Quanto: R$ 20 e R$ 10

Luas de Há Muito Sóis (Papelão Produções e Fafe Cidade das Artes – Recife/Brasil/  Fafe/ Portugal)
Quando: Dias 18 e 19 de janeiro de 2016 (segunda e terça), 20h
Onde: Teatro Capiba (SESC Casa Amarela)
Quanto: R$ 20 e R$ 10

O Açougueiro (Alexandre Guimarães – Recife/PE)
Quando: Dia 19 de janeiro de 2016 (terça), 19h
Onde: Teatro Marco Camarotti (SESC Santo Amaro)
Quanto: R$ 20 e R$ 10

Quarteto Encore (Produção: Rafaela Fonsêca – Recife/PE)* *Integrando o Circuito BNDES de Música – Do Erudito ao Popular
Quando: Dia 20 de janeiro de 2016 (quarta), 20h
Onde: Teatro de Santa Isabel
Quanto: gratuito

Jr. (Operários de Teatro – OPTE – Recife/PE)
Quando: Dias 20 e 21 de janeiro de 2016 (quarta e quinta), 20h
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho
Quanto: R$ 20 e R$ 10

Bailaora, com a Cia. Karina Leiro (PE). Foto: Lane Hans

Bailaora, com a Cia. Karina Leiro (PE). Foto: Lane Hans

Bailaora (Cia. Karina Leiro – Recife/PE)
Quando: Dia 20 de janeiro de 2016 (quarta), 20h30
Onde: Teatro Luiz Mendonça (Parque Dona Lindu)
Quanto: R$ 20 e R$ 10

Gota  d’Água  –  Fragmentos  e  Outras  Canções  (VI  Turma  de  Iniciação  Teatral  Cênicas Cia. de Repertório –Recife/PE) Dia 21 de janeiro de 2016 (quinta), 20h
Onde: Teatro Apolo
Quanto: R$ 10 (preço único promocional)

Homenagem ao Malandro (Curso de Interpretação para Teatro do SESC Piedade – Jaboatão dos Guararapes/PE)
Quando: Dia 22 de janeiro de 2016 (sexta), 20h
Onde: Teatro Apolo
Quanto: R$ 10 (preço único promocional)

Grito de Guerra, Grito de Amor (Duas Companhias, Coletivo Grão Comum, Apacepe e Fafe Cidada das Artes – Recife /Brasil / Fafe /Portugal)
Quando: Dias 22 e 23 de janeiro de 2016 (sexta e sábado), 20h
Onde: Teatro Capiba (SESC Casa Amarela)
Quanto: R$ 20 e R$ 10

Cavaco e Sua Pulga Adestrada (Caravana Tapioca – Recife/PE)
Quando: Dia 23 de janeiro de 2016 (domingo), 16h30
Onde: Teatro Marco Camarotti (SESC Santo Amaro)
Quanto: R$ 20 e R$ 10

O Lugar Escuro (Artworks Produções – Porto Alegre/RS)
Quando: Dias 23 e 24 de janeiro de 2016 (sábado e domingo), 19h
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho
Quanto: R$ 20 e R$ 10

Angelicus Prostitutus (Grupo  Matraca  de Teatro  e SESC Piedade  –  Jaboatão  dos  Guararapes/PE)
Quando: Dia 23 de janeiro de 2016 (sábado), 21h
Onde: Teatro Luiz Mendonça (Parque Dona Lindu)
Quanto: R$ 20 e R$ 10

Pernambuco Sonoro (P Castro Produções – Recife/PE)
Quando: Dia 23 de janeiro de 2016 (sábado), 21h
Onde: Teatro de Santa Isabel
Quanto: R$ 40 e R$ 20

Sebastiana e Severina(Teatro Kamikaze – Olinda/PE)
Onde: Dia 24 de janeiro de 2016 (sábado), 16h30
Onde: Teatro Marco Camarotti (SESC Santo Amaro)
Quanto: R$ 20 e R$ 10

Quatro Pianos no Choro (Paulo de Castro Produções Artísticas – Recife/PE)* *Integrando o Circuito BNDES de Música – Do Erudito ao Popular
Quando: Dia 24 de janeiro de 2016 (domingo), 18h
Onde: Teatro de Santa Isabel
Quanto: Gratuito

Em Nome do Pai (PE). Crédito: Zé Barbosa

Em Nome do Pai (PE). Crédito: Zé Barbosa

Em Nome do Pai (REC Produtores Associados – Recife/PE)
Quando: Dia 24 de janeiro de 2016 (domingo), 21h,
Onde: Teatro Apolo
Quanto: R$ 20 e R$ 10

Circuito BNDES de Música – Do Erudito ao Popular Programação no interior pernambucano

Caruaru (local e horário a confirmar)

Dia 10 de janeiro de 2016 (domingo)
Orquestra de Câmara de Pernambuco

Dia 11 de janeiro de 2016 (segunda)
Spock Quinteto

Goiana (local e horário a confirmar)

Dia 12 de janeiro de 2016 (terça)
Spock Quinteto

Dia 13 de janeiro de 2016 (quarta)
Quarteto Encore

Olinda (local e horário a confirmar)

Dia 14 de janeiro de 2016 (quinta)
Orquestra de Câmara de Pernambuco

Dia 15 de janeiro de 2016 (sexta)
Spock Quinteto

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Pela livre circulação de identidades complexas

Spiritus Mundi VS Aztec Ouroborus é o nome da performance do coletivo La Pocha Nostra. Foto: reprodução Facebook Tusp

Spiritus Mundi VS Aztec Ouroborus é o nome da performance do coletivo La Pocha Nostra. Foto: reprodução Facebook Tusp

No recém-inaugurado Centro Compartilhado de Criação, na Barra Funda, em São Paulo, as pessoas tomam um café, bebem uma cerveja, se reúnem em pequenos grupos de conversas animadas. Nada muito diferente dos minutos que antecedem qualquer espetáculo; mas esse não era o caso. Pouco antes do horário marcado, performers começaram a circular pelo espaço. Uma garota vestia calcinha de algodão e, por cima, outra com renda vermelha, além de um corpete na mesma cor. Cordas amarravam seu corpo. Nos braços, pernas e no bumbum, palavras ou frases sobre exploração sexual. Uma delas, por exemplo, relacionava a Fifa e o turismo sexual. Outra performer, de vestido preto elegante, tinha a cabeça presa por uma gaiola. E assim outros também andavam por ali, chegavam perto das pessoas, iniciavam um contato.

Quando o espaço para apresentações, um galpão bem grande, foi aberto, o público pode ter uma noção mais exata de como seriam os próximos minutos compartilhados com o coletivo La Pocha Nostra, criado no México, que começava a performance Spiritus Mundi VX Aztec Ouroborus. Isso foi no último dia 12 de dezembro, dentro da programação II Bienal Internacional de Teatro da USP.

A profusão de ações e imagens que se estabeleceu por todos os cantos, simultaneamente, faz com que, acreditem, seja difícil tentar descrever o que se passou ali, embora isso talvez seja bem importante para que quem não acompanhou a performance, possa tentar reproduzir mentalmente o que estou falando. Um homem deitado, com o corpo coberto por alguma coisa comestível, e o pênis encalacrado por um adereço prata; uma mulher que mostra os seios, mas, ao mesmo tempo, também tem pau. Figuras de índias, bailarinas, comunistas, “macho power”. A música alta variou muito – teve muita eletrônica, rock, samba e até Chico Sciense, além da projeção de imagens diversas, inclusive performances antigas do coletivo.

O público circulava livremente no espaço, podendo entrar e sair do galpão, pegar uma bebida, voltar; e, em certa medida, foi até convidado a interagir, mas de uma forma muito soft, sem nenhuma pressão ou agressividade – a não ser quando, já no final, os espectadores foram estimulados a atirar garrafas na parede, que estilhaçavam ao baterem em figuras de políticos, por exemplo, ou em números de homicídios de mulheres ou índios.

O Coletivo La Pocha Nostra, que tem integrantes espalhados por vários lugares do mundo, trabalhou alguns dias com performers em São Paulo. Essas pessoas ajudaram a compor as ações principais, fazendo uma certa “assistência” aos membros do coletivo. O que presenciamos, ou melhor, construímos juntos, performers e espectadores, aquela noite, foi uma performance diversa, rica, ampla em possibilidades de aproximação reflexiva. Uma espécie de instalação performática de corpos inteiramente presentes e disponíveis. Prontos para questionarem todos os padrões estabelecidos, desde aqueles que podem ser mais pessoais, que passam pela discussão de gênero, até os econômicos e sociais.

Performances questionaram e quebraram padrões

Performances questionaram e quebraram padrões

Embora a questão de gênero tenha sido uma das vertentes que permeou praticamente todas as performances, é interessante notar como, de fato, a discussão não é se alguém é homem, mulher, transgênero, travesti. A mulher de seios, moicano, cabelo no sovaco e pau está ali para levantar outras problematizações, que vão além do seu direito de existir. O seu direito de existir é inalienável e a personificação dele de forma tão natural mostra o quanto a nossa sociedade está atrasada no que se refere ao respeito, à garantia de liberdades e igualdades.

A colonização, o capitalismo, as migrações, o consumo, a corrupção, todas essas questões estão intrinsecamente ligadas às performances dos artistas que se colocam na cena como ativistas. Um lugar onde é impossível dissociar a arte e o político no sentido mais amplo do termo. Recentemente, durante o 1º Encontro sobre Curadoria em Artes Cênicas, realizado pela Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp), em parceria com o Goethe Institut e o Observatório dos Festivais, discutiu-se um texto do curador independente e dramaturgo Florian Malzacher, no qual ele retomava a ideia do teatro político na Europa nos anos 1970 e 1980, afirmando que à época, embora o teatro fosse capaz de propor uma compreensão das questões que estavam sendo discutidas, geralmente essa representação se tornava muito mais uma representação das misérias e das realidades que desejava combater.

As possibilidades hoje estão muito mais amplas e complexas quando pensamos no que significa teatro político. E o trabalho do coletivo La Pocha Nostra amplia nossas percepções com relação a uma arte capaz de trazer à tona questões da realidade, ligadas ao consumo, ao capital, às opressões, mas subvertendo o caminho, sem linearidades e enxergando o espectador como suficientemente preparado para lidar com as idiossincrasias que possam surgir a partir do trabalho. Embora alguns textos lidos durante a performance ofereçam caminhos (muito bem-vindos, inclusive), chaves interpretativas para que o público possa perceber todas aquelas ações e signos, há uma compreensão por parte do grupo, atuando de uma maneira não-autoritária, da emancipação do espectador, para lembrar um conceito de Jacques Rancière.

Público assistiu à várias ações simultaneamente, como uma instalação

Público assistiu à várias ações simultaneamente, como uma instalação

Caminhando por esses trilhos e ainda seguindo o texto de Malzacher (que faz parte do livro Not just a mirror, looking for the political theater of today), podemos pensar exatamente na situação do público dentro do universo das performances, da arte política, do ativismo. O autor diz que o teatro político contemporâneo precisa evitar uma falsa participação do espectador, mas ao mesmo tempo reivindicar a sua participação. Pensando na performance do La Pocha Nostra, percebemos de fato como os caminhos são múltiplos. Não é preciso que o público suba no palco para participar de uma ação, nem ao menos que seja tocado fisicamente (não que isso não possa acontecer e ser bastante interessante), para que aquele trabalho possa reverberar e se mostrar extremamente potente em significados e simbologias e o público esteja de fato numa situação ativa. Precisamos somente de espectadores disponíveis para enveredar por espaços de trânsito, especialmente transgressores e capazes de despertar novos sentidos. Assim como dizia uma placa que circulou com a ajuda do público, um local de “livre circulação de identidades complexas”, como a arte e o teatro.

Ficha técnica:
Criação Coletiva de Guillermo Gómez-Peña, Michèle Ceballos, Saul Garcia Lopez, Daniel B., Dani d’Emilia.

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***A cobertura crítica da II Bienal Internacional de Teatro da USP é uma ação da DocumentaCena – Plataforma de Crítica, que articula ideias e ações do site Horizonte da Cena, do blog Satisfeita, Yolanda?, da Questão de Crítica – Revista Eletrônica de Críticas e Estudos Teatrais e do site Teatrojornal – Leituras de Cena. Esses espaços digitais reflexivos e singulares foram consolidados por jornalistas, críticos ou pesquisadores atuantes em Belo Horizonte, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, respectivamente. A DocumentaCena realizou coberturas da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, da MITsp (2014 e 2015); do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília (2014 e 2015); da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, em São Paulo (2014 e 2015); e do Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto, em Belo Horizonte (2013).

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Obsessões rodrigueanas

Ricardo Guilherme em Flor de obsessão. Foto: Bruno Soares

Ricardo Guilherme em Flor de obsessão. Foto: Bruno Soares

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Em Flor de obsessão, o ator e diretor de teatro cearense Ricardo Guilherme trilha um caminho de desejo dual oposto ao mundo de incerteza e extrema insegurança em que vivemos. As fragilidades nas relações sociais de que fala Zygmunt Bauman são substituídas por uma ideia obsessiva de amor, a partir de três contos de Nelson Rodrigues (Morte pela boca, Missa de sangue e Unidos na vida e na morte). O material fez parte da coluna A vida como ela é, publicada pelo escritor em jornais cariocas nos anos 1950.

Na montagem, erguida em 1993, a dramaturgia de Flor de obsessão traz figuras transpassadas pelo trágico, que enxergam como única saída a morte. Além de dois depoimentos, em primeira pessoa, que formam o prólogo e o epílogo.

Largada pelo amante, a personagem de Morte pela boca revela ao marido a prevaricação e ordena que o traído abata o rival com um tiro na boca. Em Missa de sangue, a infidelidade só é constatada pelo homem enganado nos delírios de febre da mulher, que clama pelo amante. O amor também é uma prisão em Unidos na vida e na morte, mas dessa vez nem a morte configura-se como liberdade.

Na encenação, o ator Ricardo Guilherme dramatiza e comenta as ações narradas. Quando o público entra no teatro, o artista já está no palco, deitado em uma bancada que lembra um caixão. Nos informes sobre o espetáculo, o ator (que também é o diretor da peça) diz que são dois movimentos para cada um dos tópicos narrados. Ao todo, oito movimentos matriciais. No prólogo, de pé, Ricardo Guilherme usa as mãos para realizar ações verticais para cima e para baixo no rosto, formando máscaras da comédia e da tragédia. Em Morte pela boca, com os dedos em forma de garras, simula ferir alguém ou a si mesmo. O gesto de Missa de Sangue, apresenta o ator de braços abertos e cruzados, imagens que aludem ao abraço esperado/ desejado e abraço rejeitado. Já em Unidos na vida e na morte, enlaça e desenlaça as mãos. E por fim, no prólogo, levanta-se, fala ao público e sai.

Os traços expressionistas são evidenciados com grande potência pelo intérprete de grandes recursos técnicos, vocais e corporais. Criador do que chama de teatro radical (método em que a figura do ator traça os significados, a partir de imagens do corpo, que permitam ao espectador participar com sua imaginação e projetar sua subjetividade), ele utiliza o conceito de repetição criativa: a ação se reproduz, mas a repetição lhe acrescenta novos significados. Uma luz quase na penumbra valoriza as expressões.

Autor com gosto pelos paradoxos, como afirma o estudioso Eudinyr Fraga, Nelson Rodrigues coloca a mulher – historicamente massacrada pelos crimes provocados por ciúme doentio e mórbido – como as detonadoras das pulsões de vida e morte nos contos escolhidos para a peça. Em Flor de obsessão as mulheres são possessivas, manipuladoras e se não são por suas mãos que os homens matam, ou se suicidam, são elas quem incitam o ato.

O crítico Sábado Magaldi, também estudioso de Nelson Rodrigues, assinala que a obra do autor de Senhora dos Afogados carrega consigo a fórmula cristã: desejo, pecado, punição/redenção. O personagem mata ou se suicida para se redimir do sentimento de culpa.

A frase de Nelson Rodrigues “Todo amor é eterno e, se acaba, não era amor”, que sustenta a ideia do espetáculo, e é dita no início da peça remete, talvez, a um ideal romântico em que era bonito até morrer por amor. Na primeira vez em que assisti ao espetáculo, lá pelos anos 1990, fiquei absolutamente encantada com as frases do texto em harmonia com o gestual do artista, o que era música para meus olhos cansados de uma desilusão amorosa. Anos depois, tenho outra visão do espetáculo.

Ator inicia peça deitado sobre um plataforma. Foto: Suewellyn Cassimiro

Ator inicia peça deitado sobre um plataforma. Foto: Suewellyn Cassimiro

Bem, Flor de obsessão não está estruturada no social, mas é palco de revelações de desejos íntimos e inconfessáveis, tablado para lançar luz a deformidades psíquicas. Mas mesmo tendo a mulher como o ser mais algoz, que trai e dissimula (e como já disse o paradoxo rodrigueano não pode ser entendido somente como misoginia; penso no texto com uma tendência para o anedótico), a construção do espetáculo não me parece dialogar com as atuais questões que pulsam na sociedade. E disso sinto falta.

O controle social dos impulsos é estudado por Freud em Totem e Tabu e o pai da psicanálise aponta que o sujeito nunca internaliza completamente a interdição. Daí ocorre o conflito de duas grandes forças: o desejo da violação das normas e o recalque do desejo. Nelson Rodrigues faz emergir nas ações de seus personagens os impulsos mais secretos.

Fazendo uma aproximação com a ideia de Bauman, que está lá no começo do texto, a qualidade das relações diminui vertiginosamente no mundo contemporâneo, ou como ele define, na modernidade líquida. E, para compensar esse dado, a tendência é o aumento no número de parceiros. Bauman chama isso de conexão e a característica é não haver responsabilidade mútua.

O sociólogo polonês trabalha com conceitos de Afinidade e Parentesco para expor sua defesa de que vivemos em uma sociedade de extrema descartabilidade. O parentesco seria o laço irredutível e inquebrável. E a afinidade, eletiva.

Mesmo que o cenário do amor em Nelson Rodrigues seja povoado por prisões emocionais, que escravizam e clamam pela morte, é preciso não esquecer que esse autor genial era um provocador. Para alguns, reacionário, por suas posições conservadoras sobre temas polêmicos à época em que viveu.

Seus personagens se revestem de ambiguidades. No livro A menina sem estrela: memórias, Nelson Rodrigues. Defende: “O amor normal não tem imaginação, nem audácia, nem as grandes abjeções inefáveis. É um sentimento que vive de pequenos escrúpulos, de vergonhas medíocres, de limites covardes”.

Na ótica desse autor, o sofrimento humano é um processo de redenção para redimir a culpa. Nesse contexto de Flor de obsessão, outras camadas de afetos poderiam fazer vibrar outras notas, inclusive as dissonantes, desse universo doentio que o autor pinta nos seus textos com tintas bem carregadas.

Ficha técnica:
Texto, direção e atuação: Ricardo Guilherme
Produtora executiva: Elisa Gonçalves de Alencar
Assistente de produção: Suewellyn Cassimiro Sales

Escrito no contexto da II Bienal Internacional de Teatro da USP (27/11 a 18/12).

DocumentaCena – Plataforma de Crítica articula ideias e ações do site Horizonte da Cena, do blog Satisfeita, Yolanda?, da Questão de Crítica – Revista Eletrônica de Críticas e Estudos Teatrais e do site Teatrojornal – Leituras de Cena. Esses espaços digitais reflexivos e singulares foram consolidados por jornalistas, críticos ou pesquisadores atuantes em Belo Horizonte, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. A DocumentaCena realizou cobertura da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, a MITsp (2014 e 2015); do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília (2014 e 2015); da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, em São Paulo (2014 e 2015); e do Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto, em Belo Horizonte (2013).

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Cubalândia traça imagens da decadência

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Solo da atriz Mariela Brito, do grupo El Ciervo Encantado de Cuba

As dimensões territoriais de Cuba são inversamente proporcionais às paixões que essa ilha já despertou em gente de todo mundo. O cromatismo afetivo compõe um paradoxo de julgamentos, o que inclui sua própria população. Da revolução socialista à abertura ao capitalismo, cabe todo tipo de interpretação dos que estão de fora aos que estão lá dentro. O solo Cubalândia, do grupo El Ciervo Encantado de Cuba, com a atriz Mariela Brito e direção geral de Nelda Castillo, – exibido dentro da programação II Bienal Internacional de Teatro da USP – aplica a chave do grotesco para criticar a política dos irmãos Castro e seus companheiros e expor uma visão de decadência cultural, daquele país que já foi apontado como o utópico laboratório do socialismo.

A figura que surge nessa reorganização da economia cubana, apresentada no espetáculo, é a “cuenta-propista” – a empresária por conta própria, a empreendedora. Yara, a Chinesa, tem três licenças para trabalhar e oferece excursões pelos lugares paradisíacos da ilha. Ela salienta o tempo todo que viajar, com ela, para Varadero, Viñales, Trinidad ou Santiago de Cuba é um investimento e, consequentemente, terá retorno.

Seus clientes potenciais são os próprios cubanos, os que recebem seus salários em CUP (moeda nacional). A outra é o peso cubano conversível (chamado de CUC), usada para comprar alimentos, pagar viagens e hotéis. Então, correm duas moedas no país, uma com mais valor que outra. Talvez aí resida uma crítica severa à simulação de igualdade a partir dos dois dinheiros: dois pesos e duas medidas. Mas se a ideia era realmente essa em Cubalândia, de detonar com a economia subterrânea, essa sutileza parece que não acertou o alvo para a plateia brasileira.

Não é possível conferir o desempenho de Mariela Brito descolado da realidade da ilha, que já foi o ideal refúgio socialista. Nem deixar de pensar na mundialização da cultura, com todos os prejuízos que isso acarreta.

A protagonista vende a ilha para turistas e nativos. Além das belezas edênicas, ela propõe uma restituição financeira a partir de alguma atividade escusa: contrabandear charutos ou coisas parecidas. Yara China é uma cubana que acumulou bens baratos e é capaz de quase tudo para sobreviver. Ela é uma figura festiva, otimista, que fala o tempo todo de maneira apressada e nem dá para entender o que ela está dizendo direito (tem as legendas, que ajudam). A protagonista se apresenta vestida de forma espalhafatosa. Peruca, unhas excessivamente longas, lábios pintados com cores brilhantes, as roupas apertadas e curtas (short e mini blusa), sapatos plataforma e um conjunto de pulseiras e brincos dourado formam sua indumentária. A maquiagem pesada e um contorno preto, que lembra a pintura do palhaço, e dois dentes de ouro completam o layout desse rosto que termina ganhando ar de pouca confiabilidade.

atriz Mariela Brito

Uma pequena estátua de um índio é utilizada pela personagem Yara, a Chinesa, contra mau olhado

Para armar sua tenda e estabelecer o seu negócio, Yara, a Chinesa, carrega consigo um mapa fragmentado da ilha, chamado de “Doble Moneda”, criado pelo artista Lázaro Saavedra. Instala um cartaz de Fidel e Raul Castro e uma pequena estátua de um índio contra mau olhado.

Nesse jogo ela procura desmitificar ícones. Se a montagem de sua figura já compõe o exagero, os códigos gestuais clamam pela vulgaridade. O riso é disparado pelo mau gosto da cena, do grotesco, do ridículo. Em sua atuação como marqueteira para vender a ilha, a personagem dança, com requebros que lembram o funk ou pagode em que a linguagem chula predomina e isso é acompanhado pelos movimentos do corpo. Yara, a Chinesa parece uma mistura de personagens popularescas de Zorra Total, Gretchen, falsa cigana e as novas celebridades da música apelativa.

atriz Mariela Brito

atriz Mariela Brito

O discurso é cínico e exagerado. Sua sátira aos encantos da Cuba que tenta vender desperta um desconforto. Parece-me que há um fundo ético e estético nessas escolhas. De denúncia de algo podre dentro do arquipélago. Mas muitas questões me vieram à mente durante a apresentação carregada de zombaria e escárnio, piadas e ridicularização da realidade atual, que remete à história cubana, seus mais de 50 anos de revolução e do embargo econômico à Cuba socialista provocado pelos Estados Unidos.

Espero que minha percepção não seja muito idealista de uma Cuba que visitei há mais de 15 anos, que se abria aos poucos e, mesmo com as controversas opiniões do povo cubano, ainda guardava uma aura de resistência. A Revolução Cubana sempre defendeu seu estado de perfeição, com as conquistas revolucionárias. A pressão externa (e interna) para desestabilizar o governo já passou por muitas etapas. Fica a sensação de uma construção inacabada. Diante de um possível fracasso, o espetáculo grita em alto e bom som que a alienação se instalou também na sociedade de José Martí.

Talvez a “elegância” de decadência seja uma forma de mostrar a precariedade de um povo, projetada na figura patética da agente de turismo de uma Cuba temática. Talvez fale alto de uma miséria espiritual que chegou depois de tantos anos de adversidades. Quem sabe uma crítica mordaz ou um espelho a alertar dos erros e excessos sem precedentes.

Se o cubano sabe zombar assim de seus infortúnios; o ridículo, o infame, o kitsch de Cubalândia que aciona seu arsenal contra a política interna de reposicionamento do país conduzida por Raul Castro leva a crer que as novas estratégias de dominação dos Estados Unidos são esquecidas ou sublimadas no espetáculo.

De todo modo, para uma plateia como a brasileira, que está exausta com os personagens caricatos da indústria cultural, que visam o riso fácil e sem grandes reflexões, a figura de Yara, a Chinesa parece mais uma dessa galeria bizarra e descartável.

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Valdi Coutinho: amante do teatro, futebol e Carnaval

Jornalista e crítico teatral Valdi Coutinho, homenageado do Festival Recife do Teatro Nacional deste ano. Foto: Inaldo Lins

Jornalista e crítico teatral Valdi Coutinho, homenageado do Festival Recife do Teatro Nacional 2015. Foto: Inaldo Lins

Talvez os artistas de teatro mais jovens de Pernambuco não conheçam o trabalho de Valdi Coutinho. Aqueles com mais anos de estrada, certamente sim. Muitos desses, como bem disse Paula de Renor na abertura do Festival Recife do Teatro Nacional, no último dia 21 de novembro, iam à redação do jornal entregar o release impresso dos seus espetáculos. O jornal era possivelmente a principal ferramenta de divulgação das peças.

Como os tempos mudaram, os críticos de teatro que atuam hoje em jornal não têm o mesmo prestígio e poder de persuasão que Coutinho exerceu durante praticamente três décadas – 1970, 1980, 1990. Ele assinou uma coluna diária no Diario de Pernambuco, além de escrever artigos mais longos e entrevistas. Impulsionou muitas carreiras numa época em que não existia internet ou mídias sociais. Fez muitos amigos e poucos inimigos. Foi um crítico moderado: admite que preferia o silêncio quando considerava a qualidade do espetáculo muito comprometida.

Por muitos anos, na labuta diária do jornalismo, se dividiu entre duas paixões: o teatro e o futebol. Em entrevista ao Satisfeita, Yolanda?, Valdi Coutinho conta, por exemplo, que acompanhou quatro Copas do Mundo. Ele é também apaixonado por Carnaval e é um dos idealizadores do Baile dos Artistas.

Homenageado do 17º Festival Recife do Teatro Nacional, em reconhecimento ao seu trabalho como jornalista, ator e incentivador do teatro pernambucano, Valdi Coutinho emocionado, na abertura do evento, disse que era o dia mais lindo de sua vida. Muita gente de teatro estava lá para prestigiar esse tributo, como as atrizes Maria de Jesus Baccarelli, Suzana Costa, Ivonete Melo, os diretores Antonio Cadengue, João Denys e José Manoel Sobrinho.

ENTREVISTA // VALDI COUTINHO

Valdi, você trabalhou muito anos no Diario de Pernambuco. Você fez parte da editoria de Esportes também? Como eram divididas suas tarefas?
Passei quase 30 anos no DP e durante algum tempo me dividi entre Esportes, com o editor Adonias de Moura, e Viver – artes cênicas – com a editora Leda Rivas, o que não criava problema nenhum, pois os dois editores compreendiam minha simbiose entre o futebol e o teatro. Quando viajava, – e viajei muito, conheci toda a América do Sul, Estados Unidos, e fiz quatro Copas do Mundo (Argentina, Espanha, México e Itália), passando dois meses em cada um desses países,- era substituído na coluna diária de artes cênicas por jornalistas-colegas maravilhosos, tais como Sanelvo Cabral, Inês Cunha, Marilourdes Ferraz, entre outros, e nunca houve problemas. Grato, então a Leda Rivas e ao saudoso Adonias de Moura. José Maria, esse último foi quem me entregou  a missão de fazer a coluna de artes cênicas (substituindo Adeth Leite, quando ele faleceu), todos os dois de saudosa memória.

No período em que você atuou, o teatro pernambucano era mais vibrante? Tinha mais projeção?
Não, quando eu comecei a escrever sobre artes cênicas só havia o TAP, chamado de Jardim dos Oliveiras, o Tucap, Leandro Filho e seu teatro infantil. Aí eu fui incentivando, abrindo espaço, dando notícias sobre outras produções e começou o rebuliço, e passamos a ter um movimento teatral, chegando o Recife a ser o 3º polo de produção teatral. Enfim, sem falsa modéstia, o Recife começou a ter projeção nacional.

Como foi o seu encontro com o teatro? Como ator, diretor, crítico?
Naquela época não existia Internet nem redes sociais. O jornalista tinha que estar por dentro de tudo, bem informado sobre o que ia escrever, e eu estava até demais, só assim tinha informações, críticas e resenhas para escrever sobre teatro, diariamente. Aos 10 anos já fazia teatro interpretando Tarcísio, o mártir da Eucaristia, no Seminário de Nazaré da Mata, sob a direção do professor Higino. Depois, no Seminário de São Pedro, em Natal, comandava o show Xô Arara, Arara Show, aos domingos, para fugirmos da sala de estudos, à noite. Aos 16 anos, na cidade de Gurupi, Goiás, dirigi vários espetáculos musicais apresentados no Cine Boa Sorte, de sr. Moisés, com coreografias, esquetes dramáticos e cômicos, etc, que lotavam a casa. Quando jornalista, no Recife, fiz estreia na peça A Falecida, de Nelson Rodrigues, pelo elenco dos aspirantes ao TAP, direção de Valter de Oliveira. Depois fui presidente do Teatro Ambiente, do MAC, substituindo Petrúcio Nazareno, fundei o Teatro Experimental de Olinda, TEO, onde despontaram inúmeros talentos, como o hoje famoso José Manoel.E não parei mais, fazendo e escrevendo sobre teatro.

Uma crítica de teatro ainda tem alguma serventia?
Uma crítica de teatro ainda tem incomensurável valor não só para o público mas especialmente para os que fazem teatro.

Você ainda escreve críticas? O que você acha importante analisar?
Não escrevo mais críticas. Mas, acho tudo muito importante na crítica, desde a análise do texto até da contrarregragem.

Como se forma um bom crítico de teatro?
Um bom crítico, ao meu ver tem que compreender tudo, desde os bastidores até o produto final de uma encenação.

Uma das grandes polêmicas da produção pernambucana foi a estreia, e a curta temporada, da montagem Um Bonde chamado desejo, da qual você era assessor de imprensa. A crítica, num caso raríssimo, foi publicada duas vezes em página inteira no JC, porque trocaram a assinatura do autor da matéria. E não era uma crítica favorável ao espetáculo. O que diria sobre isso?
Naquela época existia uma guerra demolidora, amarga, azeda, de bastidores. Conheço produtores que ligavam para os teatros a fim de saber quantas pessoas tinham ido ver o outro espetáculo em cartaz para compará-lo com o seu. Um Bonde Chamado Desejo foi vítima dessa discórdia, sobrou até pra mim, foram pedir minha cabeça no jornal porque eu fiz assessoria de imprensa do espetáculo. Sofri muito na época. Sobrou para a produtora e protagonista do espetáculo Suzana Costa, na época namorada do presidente da FCCR, injustamente perseguida. Foi uma baixaria. Saímos incólumes dessa violência, o espetáculo fez sucesso e eu permaneci escrevendo sobre artes cênicas. Não mexe comigo, eu não ando só…

O que acha da cena teatral brasileira contemporânea? Estamos mais ricos ou mais pobres artisticamente
Acho que estamos mais pobres. O valor comercial do espetáculo prevalece, o público adora ver pintas no palco. Mas isso está passando graças a uma nova geração que está chegando com excelentes espetáculos

Na sua carreira de crítico tem algum texto que você se arrependeu de ter escrito. Por quê? Ou alguma crítica que você lamentou não ter escrito. Por quê?
Não, não. Quando eu achava que o espetáculo era pobre demais eu simplesmente não fazia crítica para não prejudicá-lo.

Quais as melhores peças que você já conferiu?
As melhores que conferi são muitas, mas eu destacaria as dirigidas por Antonio Cadengue, Carlos Bartolomeu, José Pimentel, Guilherme Coelho, José Francisco Filho, Geninha Rosa Borges, entre outros, os citados são os melhores encenadores para mim.

Você tem alguma mágoa do teatro ou do jornalismo pernambucanos?
Não tenho. Mágoas e ressentimentos provocam câncer, infarto, depressão, já não sei o que são esses sentimentos. Se houve, passaram, hoje eu vivo o presente e cada dia como se fosse o último.

O que você faz do seu tempo?
Amo. A Deus, à vida, ao mundo, antenado e animado pelas redes socais, pela Internet.

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