Greves históricas – primeiros apontamentos

Helena Albergaria faz Joana Paixão / João Batista em O pão e a pedra. Foto: Lenise Pinheiro / Divulgação

Helena Albergaria faz Joana Paixão / João Batista em O pão e a pedra. Foto: Lenise Pinheiro / Divulgação

Há muitas entradas para leituras do espetáculo O pão e a pedra, da Companhia do Latão, escrita e dirigida por Sérgio de Carvalho, em cartaz até domingo, no Teatro Hermilo Borba Filho, às19h, dentro da programação do 18º Festival Recife do Teatro Nacional. O mosaico complexo de contradições sociais é explorado pelo grupo em camadas e fissuras e problematizações. A greve dos operários do ABC Paulista em 1979 e os espelhamentos da crise política atual tencionam o embate no palco dos peões com o cruel mundo do capital, a invisibilidade da mulher, da luta dentro da luta dos nordestinos no mapa da ditadura civil-militar brasileira.

É denso. E não permite simplificações de heróis, salvadores da pátria, bonzinhos versos vilões. Os paradoxos da realidade atual se desdobram no palco a partir da greve histórica do final da década de 1970, que projetou para o Brasil como força política a figura de Luiz Inácio da Silva, o Lula, na época líder do Sindicato dos Metalúrgicos.

A investigação do autor diretor Sérgio de Carvalho passa pelas “dificuldades do aprendizado político daqueles trabalhadores que enfrentaram a polícia da ditadura e o aparato midiático patronal, num processo que durou 60 dias (15 dias de máquinas paradas e 45 dias de “trégua” com mobilização dentro e fora das fábricas). Sob relativa influência do imaginário desses grupos contraditórios, o novo sindicalismo, a Igreja progressista e o movimento estudantil de esquerda, os operários de O Pão e a Pedra travam um embate com a própria vida coisificada” [1].

Lá para o meio da peça, um ator explica que a encenação foi erguida nos tumultuados primeiros meses deste ano e que Lula não será representado. Uma ausência que se faz presente como uma sombra do passado, no presente.

O sumiço do líder sindical que por dois dias saiu de cena em 1979 abre brechas para muitas especulações que pairam no ar do teatro. Desde negociações isoladas com os patrões, até a possível blindagem para não quebrado pela polícia. Entre um ponto, muitas possibilidades expressadas por personagens da cena.

O cenário em que forças regressivas da política brasileira que se alinharam com a grande imprensa e com o judiciário e suas estranhas razões para depor um governo eleito democraticamente invade em ondas de pensamento enquanto acompanhamos a trajetória daquele grupo de trabalhadores fabris de São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Na espiral do tempo, a conta do arranjo vai ser paga pelos trabalhadores cada vez mais acossados por uma realidade surrealista.

Há muitos caminhos para chegar ao coração da greve. Não é possível abarcar muitos em tão pouco tempo. Assisti ao espetáculo ontem e as imagens, as palavras, os procedimentos estão ruminando na minha cabeça, os sentidos se erguem e assustam, são desfeitos, comungam com muitas questões. Preciso de dias, semanas, meses, para desembarcar a bagagem marxista do espetáculo.

É muito. É tanto. É eletrizante. Às vezes parece choque no nervo. A imagem da personagem Luísa (Sol Faganello), uma militante universitária que adentra no campo dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo com a ambição de politizar os peões. O movimento mostra uma amazona montada em cavalo trêmulo, num ritmo frenético, ao som percussivo. É um quadro potente inspirado no conto Na galeria, um texto curto de Franz Kafka, publicada no Brasil no livro Um médico rural. A narrativa do escritor tcheco é visual e de tirar o fôlego. E é incrível como esse “poema em prosa”, como chama o tradutor Modesto Carone, carrega questões importantes para a montagem. O conto expõe uma hipótese, cria uma oposição; anula a primeira disposição, apresenta outra. Dinâmica semelhante faz a montagem.

“Se uma amazona frágil e tísica fosse impelida meses sem interrupção em círculos ao redor do picadeiro sobre o cavalo oscilante diante de um público infatigável pelo diretor de circo impiedoso de chicote na mão, sibilando em cima do cavalo, atirando beijos, equilibrando-se na cintura, e se esse espetáculo prosseguisse pelo futuro que se vai abrindo à frente sempre cinzento sob o bramido incessante da orquestra e dos ventiladores, acompanhado pelo aplauso que se esvai e outra vez se avoluma das mãos que na verdade são martelos a vapor – talvez então um jovem espectador da galeria descesse às pressas a longa escada através de todas as filas, se arrojasse no picadeiro e bradasse o basta! em meio às fanfarras da orquestra sempre pronta a se ajustar às situações.

Mas uma vez que não é assim…”

Foto: Sérgio de Carvalho

Os atores Rogério Bandeira (Fúria Santa) e Ney Piacentini (Arantes). Foto: Sérgio de Carvalho

O círculo do cenário instalado no centro do palco é nomeado de espaço da fábrica – da linha de montagem ao banheiro-, estádio da Vila Euclides palco das assembleias sindicais e outros locais onde os trabalhadores se encontravam, de bares à igreja.

Os peões da lida vão fazer a máquina parar. Na sua luta eles estão sempre ameaçados a serem marcados pelo ferro quente do capital. Nesse cenário masculino, a voz feminina está diluída ganhando um salário menor, carregando em silêncio o filho na barriga. E ganha destaque na metamorfose de personagem Joana Paixão, papel defendido por Helena Albergaria, que se disfarça de homem para poder receber os mesmos salários que seus pares em situações semelhantes.

No elenco da peça estão Míriam (Beatriz Bittencourt), ocupada no início com o bronzeamento; Irene (Érika Rocha), o Fúria Santa (Rogério Bandeira) e Arantes (Ney Piacentini) impõe um ritmo lento a peça, que me pareceu calculado para causar um efeito estético de incômodo no espectador.

Vou assistir novamente ao espetáculo.

O texto vai continuar…

[1] Companhia do Latão, Um tempo diferente, In: Programa O Pão e a Pedra – espetáculo da Companhia do Latão, 2016.

 

Serviço:
O pão e a pedra
Onde:Teatro Hermilo Borba Filho, (R. do Apolo, 121 – Recife)
Telefone: (81) 3355-3320
Quando: De 23 a 27 de novembro, às 19h; de quarta a domingo.
Quanto: R$ 10 e R$ 5
Indicação etária: 16 anos

Ficha técnica:
Autoria e Direção: Sérgio de Carvalho
Elenco: Beatriz Bittencourt, Beto Matos, Érika Rocha, Helena Albergaria, João Filho, Ney Piacentini, Rogério Bandeira, Sol Faganello e Thiago França.
Assistência de direção: Beatriz Bittencourt
Direção musical, composição e execução: Lincoln Antonio
Cenografia e figurinos: Cassio Brasil
Iluminação: Melissa Guimarães e Silviane Ticher
Direção de produção: João Pissara
Assistência de produção: Olívia Tamie
Núcleo de divulgação: Marcelo Berg

Postado com as tags: , , ,

“Para onde vamos?”, pergunta o Grupo Galpão

Personagens do espetáculo NÓS são transpassado por temas contemporâneos como racismo, violência e intolerância. Foto: Guto Muniz

Personagens da peça NÓS são transpassados por temas contemporâneos como racismo, violência e intolerância. Foto: Guto Muniz

Conviver é um exercício constante de humanidade, de escuta, de abraçamento, de indulgência, de envolvimento, de inclusão, de autoconhecimento. Essa fascinante tarefa de estar junto faz suas exigências para afastar a apatia, a brutalidade das relações, a indiferença. O espetáculo Nós, do grupo mineiro Galpão investe nas relações humanas e, portanto, políticas. E questiona os posicionamentos no mundo enquanto coletivo, enquanto indivíduos inquietos diante da realidade brasileiro. A peça faz duas apresentações no Teatro Luiz Mendonça, do Parque dona Lindu, em Boa viagem, dentro da programação do 18º Festival Recife do Teatro Nacional.

Um encontro entre sete pessoas numa mesa de cozinha. Elas preparam uma sopa, num ritual de celebração e despedida. Partilham esperanças e aflições. Mergulham em conversas cotidianas, com frases repetidas e assuntos cruzados a partir dos seus testemunhos: um garoto negro humilhado por policiais, de meninas sequestradas, de escolas públicas que foram fechadas. 

Questões da atualidade são encaradas pelo grupo como alteridade, o que é público ou privado, democracia em tempos de intolerância, violência, crise da esquerda, tragédia em Mariana (MG). A trupe também lançou mão de referências em obras contemporâneas, como Ódio à Democracia, ensaio do francês Jacques Rancière.

São ecos das vozes das ruas, com destaque para a forma como as coisas são ditas

São ecos das vozes das ruas, com destaque para a forma como as coisas são ditas

O texto escrito pelo encenador convidado Marcio Abreu, da Companhia Brasileira de Teatro, e pelo ator Eduardo Moreira foi construída a partir dos improvisos com o elenco. E surgem personagens indefinidos e performáticos. Além de Moreira, estão no elenco Antonio Edson, Chico Pelúcio, Júlio Maciel, Lydia Del Picchia,Paulo André e atriz Teuda Bara.

Desse jogo entre personalidades diferentes o Galpão ergue uma sinfonia cênica, com  justaposição de sons, ritmos, corpos e de reflexões diferentes que ora se harmoniza, coabitam ou se chocam.

A trilha musical e os efeitos sonoros dirigidos por Felipe Storino funcionam como importante elemento dramatúrgico, que se sobressaem nas pausas, nas tensões, nos solos e nas interpretações musicais coletivas como na canção Balada do lado sem luz, de Gilberto Gil.

As dramaturgias estão carregadas de analogias e metáforas formando um complexo quadro de personagens e de discursos. As questões políticas estão abertas a variadas interpretações. Os poderes que vigiam traduzidos em comportamentos. Em determinado momento uma personagem é expulsa do grupo contra sua vontade. E isso pode ser lido como uma alusão ao afastamento da presidenta Dilma Rousseff ou os confrontos de ordem da micropolítica.

Os elementos podem não estar em estreita relação entre si, como a leitura do poema Agradecimento, da polaca Wisława Szymborska (1923-2012). Cada espectador pode ser atravessado por sensações provocadas pelas partituras do elenco. E construir seus sentidos do espetáculo.

SERVIÇO

NÓS, do Grupo Galpão, dentro do 18º Festival Recife do Teatro Nacional
QUANDO Quarta e quinta-feiras, 23 e 24/11, às 20h30
ONDE Teatro Luiz Mendonça, no Parque Dona Lindu, em Boa Viagem, Recife
QUANTO R$ 10 a R$ 5
CLASSIFICAÇÃO 16 anos

FICHA TÉCNICA DO ESPETÁCULO
Elenco
Antonio Edson
Chico Pelúcio
Eduardo Moreira
Júlio Maciel
Lydia Del Picchia
Paulo André
Teuda Bara
Equipe de criação
Direção: Marcio Abreu
Dramaturgia: Marcio Abreu e Eduardo Moreira
Cenografia: Play Arquitetura – Marcelo Alvarenga
Figurino: Paulo André
Iluminação: Nadja Naira
Trilha e Efeitos Sonoros: Felipe Storino
Assistência de Direção: Martim Dinis e Simone Ordones
Preparação musical e arranjos vocais/instrumentais: Ernani Maletta
Preparação vocal e direção de texto: Babaya
Colaboração artística: Nadja Naira e João Santos
Assistência de Figurino: Gilma Oliveira
Assistência de Cenografia: Thays Canuto
Cenotécnica e construção de objetos: Joaquim Pereira e Helvécio Izabel
Operação e assistência de luz: Rodrigo Marçal
Operação de som: Fábio Santos
Assistente técnico: William Teles
Assistente de produção: Cleo Magalhães
Confecção de figurino: Brenda Vaz
Técnica de Pilates: Waneska Torres
Fotos de divulgação: Guto Muniz
Fotos do programa: Fernando Lara, Gustavo Pessoa e Guto Muniz
Imagens escaneadas: Tibério França e Lápis Raro
Registro e cobertura audiovisual: Alicate
Projeto gráfico: Lápis Raro
Design web: Laranjo Design (Igor Farah)
Direção de produção: Gilma Oliveira
Produção executiva: Beatriz Radicchi
Produção: Grupo Galpão

Postado com as tags: , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Agenda 4ª semana de Novembro

FESTIVAL RECIFE DO TEATRO NACIONAL

O PÃO E A PEDRA – Cia. do Latão – SP

Foto: Sérgio de Carvalho

Foto: Sérgio de Carvalho

Pulsa em O pão e a pedra a crise política brasileira, mas sem paralelos explícitos com a atualidade. O novo espetáculo da Companhia do Latão trata dos impasses e esperanças de um grupo de trabalhadores durante a greve do ABC paulista, em 1979. O ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, na época metalúrgico ganhava protagonista naquele momento da pré-fundação do Partido dos Trabalhadores. A encenação acompanha várias personagens do mundo trabalho – esquerdista intelectual, o padre comunista, o jovem militante e o fura-greve, com destaque para uma mulher operária que se disfarça de homem para melhorar de vida. O pão e a pedra leva para o palco discussões sobre religião, poder, sindicalismo e direitos trabalhistas. A direção é de Sérgio de Carvalho.
FICHA TÉCNICA:
DIREÇÃO E DRAMATURGIA: Sérgio de Carvalho.
DIREÇÃO MUSICAL: Lincoln Antonio.
ELENCO: Beatriz Bittencourt / Beto Matos/ Érika Rocha/ Helena Albergaria/ João Filho/ Ney Piacentini / Rogério Bandeira / Sol Faganello / Thiago França
Duração: 170 minutos/ Ato I: 95 min – Intervalo: 15 min – Ato II: 60 min
Quando: 23, 24, 25 e 26/11 (de quarta a domingo), às 19h
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho
Ingresso: R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada)
Duração: 2h50, com intervalo / Indicado para maiores de 16 anos

NÓS – Grupo Galpão – MG

Júlio Maciel, Antonio Edson e Teuda Bara. Foto: Guto Muniz / Divulgação

Júlio Maciel, Antonio Edson e Teuda Bara. Foto: Guto Muniz / Divulgação

O Galpão é um dos mais admiráveis grupos teatrais do Brasil e aos 34 anos não tem medo de se reinventar. O espetáculo de teatro contemporâneo Nós fricciona situações públicas e privadas e encara questões da democracia em tempos de intolerância. A peça trata da ambiguidade em extensão coletiva, que acolhe com festa, mas também exerce o poder de excluir, de rejeitar. A montagem, que leva a assinatura do dramaturgo, diretor e ator Marcio Abreu, expõe amarras dos pertencimentos na celebração de uma última sopa coletiva. Teuda Bara está maravilhosa e já prepara os acordes da emoção no início da peça com os versos “comendo a mesma comida, bebendo a mesma bebida, respirando o mesmo ar”, do samba Lama, antigo sucesso de Paulo Marques e Ailce Chaves. É imperdível.
FICHA TÉCNICA DO ESPETÁCULO
Elenco: Antonio Edson, Chico Pelúcio, Eduardo Moreira, Júlio Maciel, Lydia Del Picchia, Paulo André, Teuda Bara
Equipe de criação
Direção: Marcio Abreu
Dramaturgia: Marcio Abreu e Eduardo Moreira
Cenografia: Play Arquitetura – Marcelo Alvarenga
Figurino: Paulo André
Iluminação: Nadja Naira
Trilha e Efeitos Sonoros: Felipe Storino
Assistência de Direção: Martim Dinis e Simone Ordones
Preparação musical e arranjos vocais/instrumentais: Ernani Maletta
Preparação vocal e direção de texto: Babaya
Colaboração artística: Nadja Naira e João Santos
Assistência de Figurino: Gilma Oliveira
Assistência de Cenografia: Thays Canuto
Cenotécnica e construção de objetos: Joaquim Pereira e Helvécio Izabel
Operação e assistência de luz: Rodrigo Marçal
Operação de som: Fábio Santos
Assistente técnico: William Teles
Assistente de produção: Cleo Magalhães
Confecção de figurino: Brenda Vaz
Técnica de Pilates: Waneska Torres
Fotos de divulgação: Guto Muniz
Fotos do programa: Fernando Lara, Gustavo Pessoa e Guto Muniz
Imagens escaneadas: Tibério França e Lápis Raro
Registro e cobertura audiovisual: Alicate
Projeto gráfico: Lápis Raro
Design web: Laranjo Design (Igor Farah)
Direção de produção: Gilma Oliveira
Produção executiva: Beatriz Radicchi
Produção: Grupo Galpão
Classificação indicativa: 16 anos
18º Festival Recife do Teatro Nacional de Artes Cênicas
Quando: 23 e 24 de novembro, Quarta e quinta – 20h30
Onde : Teatro Luiz Mendonça- Parque Dona Lindu (Av. Boa Viagem, s/nº – Boa Viagem)
Ingresso: R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada)
Informações: (81) 3355-9821
Duração: 1h30 / Indicado para maiores de 14 anos

Saudosear – A noite insone de um Palhaço – Walmir Chagas – PE

Walmir Chagas. Foto Pedro Portugal / Divulgação

Walmir Chagas. Foto Pedro Portugal / Divulgação

O multiartista Walmir Chagas, famoso em Pernambuco por seu personagem Véio Mangaba, comemora 40 anos de carreira com o espetáculo Saudosiar… A Noite Insone de Um Palhaço… A montagem é fruto de um intercâmbio entre o artista e o projeto Fafe Cidade das Artes, liderado pelo espanhol radicado em Portugal Moncho Rodriguez. Walmir leva sua experiência como palhaço e artista popular para a cena. Na peça, um velho palhaço que não consegue dormir revê sua vida como num filme. O espetáculo conta com um repertório música que inclui antigas modinhas, de marchas-de-bloco e duas canções compostas por Beto do Bandolim.
Quando: 24/11 (quinta-feira), às 19h
Onde: Teatro Apolo
Ingresso: R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada)
Duração: 1h10 / Indicado para maiores de 14 anos

Dois idiotas sentados cada qual em seu barril – Borbolina Prod. – SP

Giuliano Caratori e Paulo de Pontes. Foto: Bruno Lemos/ Divulgação

Giuliano Caratori e Paulo de Pontes. Foto: Bruno Lemos/ Divulgação

Um é teimosinho. O outro é mandão. Com Paulo de Pontes e Giuliano Caratori. Essa peça inspirada na obra de Ruth Rocha, mostra dois combatentes de guerra, que carregam cada qual um barril cheio de pólvora e que usam como forma de poder e intimidação do outro. O que pode acontecer quando esses dois idiotas tentam provar sua valentia? Egoístas e autoritários, não conseguem dialogar pacificamente. São personagens que beiram o ridículo e o texto chama a atenção para o fato de que alguns conflitos poderiam ser evitados se o orgulho e o egoísmo fossem freiados nas relações.
Com Paulo de Pontes e Giuliano Caratori.
Dramaturgia: Dario Uzan.
Direção artística: Stella Tobar.
Quando: 25/11 (sexta-feira), às 20h
Onde: Teatro Barreto Jr, no Pina
Ingresso: R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada)
Duração: 50 min – Indicado para todos os públicos

O menino e a cerejeira – Borbolina Produções – SP

Montagem é baseada na obra do escritor humanista Daisaku Ikeda. Foto: Eduardo Petrini

Montagem é baseada na obra do escritor humanista Daisaku Ikeda. Foto: Eduardo Petrini

Baseado na obra do escritor pacifista Daisaku Ikeda, o espetáculo infantil conta a história de sobrevivência de uma árvore. A amizade, carinho e coragem unem o garoto Taiti e a cerejeira. O menino vive em meio aos destroços deixados pela Segunda Guerra Mundial e luta para sobreviver superando os sofrimentos causados pela devastação bélica.
Quando: 26/11 (sábado-feira),  às 16h30
Onde: Teatro Barreto Jr. , no Pina
Ingresso: R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada)
Duração: 60 min / Livre para todos os públicos

Medida por medida – Teatro Popular de Ilhéus – BA

Medida por medida. Foto: Karoline Vital

Medida por medida. Foto: Karoline Vital

Inspirada na obra homônima de William Shakespeare, a comédia Medida Por Medida, do grupo Teatro Popular de Ilhéus (TPI) aborda temas como o poder, a corrupção e os dilemas éticos e morais da vida pública e privada. Na peça as ações se desdobram a partir das decisões de Ângelo, juiz implacável que substitui o Duque de Viena, cumprindo à risca as leis contra a fornicação. A adaptação é dos diretores Romualdo Lisboa (TPI) e Fernando Yamamoto (Clows de Shakespeare), com figurinos e adereços de Shicó do Mamulengo e Justino Vianna ( também responsável pela criação da maquiagem). A direção musical é de Elielton Cabeça (TPI) e Marco França (Clows).
Onde: Teatro Luiz Mendonça, Recife
Quando: 26/11 (sábado-feira), às 20h30
Ingresso: R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada)
Classificação Indicativa: 12 anos
Duração: 1h30h – Indicado para maiores de 12 anos

Vento Forte para Água e Sabão

Vento forte

Montagem do Grupo de Teatro Fiandeiros. Foto: Rogério Alves /Divulgação

Musical mostra a incrível amizade entre uma bolha de sabão chamada Bolonhesa e Arlindo, uma rajada de vento. Os riscos são grandes, mas as recompensas também. É a segunda montagem da Companhia Fiandeiros dedicada ao público infanto-juvenil. O texto é de Giordano Castro, do grupo Magiluth e de Amanda Torres.
Onde: Teatro de Santa Isabel, às 16h
Quando: Dia 27/11 (domingo)
Ingresso: R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada)
Duração: 55 min – Livre para todos os públicos

Sebastiana e Severina – Kamio Kaze – PE

Foto: Pedro Portugal

Foto: Pedro Portugal

Baseado no livro homônimo do pernambucano André Neves, o espetáculo Sebastiana e Severina, conta a história das rendeiras Sebastiana e Severina que, na meia idade acalentam o sonho de se casar. A chegada do forasteiro Chico, na cidade de Umbuzeiro (PB), reacende a chama nas duas. Moço bonito e inteligente e ainda cantador. A paixão estremece a amizade. A peça tem adaptação dramatúrgica e encenação de Claudio Lira. A montagem foi contemplada com o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz 2013.
Quando: Dia 27/11 (domingo)
Onde: Teatro Barreto Junior, às 16h30
Quanto: R$ 10 e R$ 5 (meia).
Duração 1h10 – Indicado para todos os públicos

Fishman – Grupo Bagaceira – CE

Rogerio . foto Lina Sumizonc

Rogerio . foto Lina Sumizonc

Dois homens estão em um pequeno bote sobre as águas de um lago, frente a frente, sem saber o que dizer, sem conseguir fisgar qualquer assunto, qualquer coisa que valha a pena ser dita entre dois seres humanos. Fishman é o o mais recente espetáculo do Bagaceira,
Com texto de Rafael Martins e direção de Yuri Yamamoto. A ação do tempo, as escolhas, a relação com o outro e consigo mesmo, as possibilidades de reinventar-se são tematizados em Fishman.
Ficha Técnica
Texto: Rafael Martins
Direção: Yuri Yamamoto
Assistência de direção: Rafael Martins
Elenco: Ricardo Tabosa e Rogério Mesquita
Colaboração artística: Juliana Galdino
Cenário e figurinos: Yuri Yamamoto
Iluminação: Tatiana Amorim
Técnica: Rafael Martins e Yuri Yamamoto
Interlocução artística: Georgette Fadel e Grace Passô
Produção: Rogério Mesquita
Produção executiva: Mikaelly Damasceno
Onde: Teatro Apolo, 
Quando: Dia 27/11 (domingo), às 19h
Duração: 1h10 – Indicado para maiores de 14 anos
Ingresso: R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada)

Teodorico Majestade – Teatro Popular de Ilhéus – BA

Foto: Larissa Paixão

Foto: Larissa Paixão

A sátira em cordel Teodorico Majestade – as últimas horas de um prefeito é, segundo a produção, um protesto bem-humorado, que amplifica o lado ridículo dos bastidores da política. O prefeito beberrão e corrupto está prestes a ser expulso do seu cargo pela população da cidade fictícia Ilha Bela. acuado em seu gabinete, cercado pela população revoltada com suas trapaças, abandonado por seus comparsas ele tenta negociar com o povo para se manter no poder. Escrita e dirigida por Romualdo Lisboa, a peça surgiu como um posicionamento do Teatro Popular de Ilhéus diante dos escândalos vividos em Ilhéus, em 2006.
Texto e direção: Romualdo Lisboa
Direção musical: Elielton Cabeça
Elenco: Ely Izidro, Tânia Barbosa, Takaro Vítor, Aldenor Garcia, Elielton Cabeça
Quando: Dia 27/11 (domingo)
Onde: Teatro Luiz Mendonça, às 20h30
Duração: 1h30 / Indicado para todos os públicos

MEDEAponto – Grupo Pharcas Sertanejas – PE

Augusta Ferraz em MEDEAponto. Foto: Alcides Ferraz/Divulgação

Augusta Ferraz em MEDEAponto. Foto: Alcides Ferraz/Divulgação

Adaptação da tragédia grega de Eurípedes, com texto da portuguesa Sophia Andersen e atuação de Augusta Ferraz no papel de Medea. O solo expõe a trajetória de uma mulher honrada e respeitada em sua comunidade, filha do rei da Cólquida, que foge para Corinto com Jasão. Esse homem trai Medea ao desposar a filha de Creonte, rei de Corinto. Medea se vinga e chega a matar os próprios filhos para atingir o ex-marido. Na montagem dirigida por Marcondes Lima são utilizadas vozes radiofônicas, celular, televisão e fados interpretados ao vivo por Augusta, com arranjos de Henrique Macedo.
Quando: 21 de novembro, segunda-feira, às 19h
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho (Cais do Apolo, s/n, Bairro do Recife)
Ingresso: R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada)
Informações: (81) 3355-3320
Duração: 1h10 / Indicado para maiores de 14 anos

SEVERINOS, VIRGULINOS E VITALINOS – Dispersos Cia. de Teatro – PE

 SEVERINOS, VIRGULINOS E VITALINOS Foto: Ivana Moura

Lívia Lins e Madson de Paula, na peça dirigida por Samuel Santos. Foto: Ivana Moura

O segundo musical da Dispersos Cia de Teatro mergulha no universo do circo. Dois filhos de artistas tentam encontrar seus pais: um palhaço e uma atriz mambembe que fugiram com o Circo e a Carroça da Divina Inspiração. Eles seguem rumo ao Sertão e encontram no caminho a morte (Severina), a violência (Virgulino) e com o sonho (Vitalino). O texto e a direção são de Samuel Santos. O espetáculo conta com Lívia Lins (Abraço) e Madson de Paula (Cordel do Amor sem Fim) no elenco e Victor Chitunda (Vento Forte Para Água e Sabão; Abraço), Leila Chaves (Abraço), Danielle Sena (Abraço) e Tiago Nunes (A Terra dos Meninos Pelados) executando a trilha sonora ao vivo.
Quando: Dias 20 e 21 de novembro (domingo e segunda-feira), às 19h
Onde: Teatro Apolo.
Quanto: R$ 10 e R$ 5 (meia).
Duração: 1h20 – Livre para todos os públicos
FICHA TÉCNICA
ELENCO
Lívia Lins (Muriquêta /Severina)
Madson de Paula (Tramboêta/ Virgulino)
BANDINHA
Leila Chaves (violão, banjo, zabumba, caixa, kazoo, efeitos)
Victor Chitunda (violão, congas, kazoo, efeitos)
Tiago Nunes (pandeiro, cajón, alfaia, kazoo, efeitos)
Danielle Sena (claves, triângulo, agogô, alfaia, kazoo, efeitos )
EQUIPE DE CRIAÇÃO
Texto e Direção: Samuel Santos
Direção Musical: Leila Chaves e Victor Chitunda
Direção de arte: Álcio Lins
Figurino e adereços: Álcio Lins
Cenário: Samuel Santos e Álcio Lins
Luz: Cleison Ramos
Consultoria de mágicas: Raphael Santacruz
Preparação vocal: Leila Chaves
Fotos: Nathalia Timba e Fernanda Acioly
Produção executiva: Duda Martins
Coordenação de produção: Lívia Lins
Produção: Dispersos Produções Criativas
Duração: 1h10 – Livre para todos os públicos

H(EU)stória – O tempo em transe

Foto Arthur

Júnior Aguiar e Márcio Fecher. Foto Arthur

O cineasta baiano Glauber Rocha alimentou seu cinema com discursos políticos ácidos e uma violenta inquietação social. Seu cinema que começava  com “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça!” desafiou o poder da época e as barbáries. H(EU)stória – O tempo em transe apresenta a trajetória de Glauber na vida brasileira. Júnior Aguiar e Márcio Fecher interpretam o polêmico e incansável Glauber Rocha, um personagem denso, artífice de uma dos mais importantes movimentos de ruptura estética, ideológica e discursiva na produção audiovisual brasileira: o Cinema Novo. No palco, um homem que pensava o seu país, a sua produção cultural, e que pensava a si mesmo como parte dessa história. As cartas trocadas por Glauber Rocha e Jomard Muniz de Britto são a inspiração do texto da peça do Coletivo Grão Comum e da produtora Gota Serena, a que deu início à Trilogia Vermelha.
Ficha técnica
ATORES – Márcio Fecher e Júnior Aguiar
PESQUISA, ENCENAÇÃO, ROTEIRO e ILUMINAÇÃO – Júnior Aguiar
OPERADOR DE LUZ e ÁUDIO – Daniel Barros
PREPARAÇÃO DE ATOR – Quiercles Santana MÚSICA ORIGINAL – Geraldo Maia (Palavra), Juliano Muta (Brisa) e Leonardo Villa Nova (DiAngola)
ÁUDIOS – Glauber Rocha (programa Abertura), Marisa Santanafessa (italiano) e Manuela Ripane (espanhol) e Darcy Ribeiro (enterro de Glauber – Òlme Glauber o Òlme – Labirinto do Brasil). Trecho dos Òlmes Deus e o diabo na terra do Sol e Terra
AUDIOVISUAL – Gê Carvalho
DESENHO DOS FIGURINOS – Asaías Lira
FOTOGRAFIAS – Arthur Canavarro
PROGRAMAÇÃO VISUAL – Arthur Canavarro
ASSISTENTE DE PRODUÇÃO – Rebeka Barros
PESQUISA SONORA – Lambarena (mamoudou), Heitor Villa
Lobos (Bachiana brasileiras nº1), Nativi Americana Eagle Dance,
Leo Artese (caboclo curador – Santo Daime)
PRODUÇÃO e REALIZAÇÃO – Gota Serena e Coletivo Grão
Comum
SERVIÇO
Quando: 22/11 (terça-feira), às 20h 
Onde: Teatro Barreto Jr, às 20h
Ingresso: R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada)
Duração: 1h30 / Indicado para maiores de 14 anos

O MASCATE, A PÉ-RAPADA E OS FORASTEIROS

o mascate. foto: Toni Rodrigues

O mascate. Foto: Toni Rodrigues

Recife e Olinda têm histórias divertidas que o ator Diógenes D. Lima leva à cena com linguagem do teatro de objetos. O espetáculo utiliza fatos históricos das duas cidades para tratar das mazelas e desmandos políticos para criar uma ficção picante, criativa e despudorada.
Quando: 22 de novembro. Terça-feira, às 19h
Onde: Teatro Apolo (Rua do Apolo, Bairro do Recife)
Ingresso: R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada)
Informações: (81) 3355-3320
Duração: 60 min – Indicado para maiores de 14 anos
FICHA TÉCNICA
Texto e Atuação: Diógenes D. Lima
Supervisão Artística: Marcondes Lima e Jaime Santos
Coreografias: Jorge Kildery
Adereços: Triell Andrade e Bernardo Júnior
Iluminação: Jathyles Miranda
Execução de Iluminação: Rodrigo Oliveira
Execução de sonoplastia: Júnior Melo
Programação Visual: Arthur Canavarro
Fotografia: Ítalo Lima
Gerente de Produção: Luciana Barbosa
Produção: AGM Produções

EM CARTAZ

Flávia Pinheiro. Foto: Peter Michael Dietz

Flávia Pinheiro. Foto: Peter Michael Dietz

COMO MANTER-SE VIVO?
A performer Flávia Pinheiro explora os limites da dança como conceito de arte e a sobrevivência do artista no atual estágio do capitalismo e mais especificamente no momento que o Brasil atravessa. Ela transita no espaço com seu corpo pensante e convoca a tecnologia como um procedimento para repensar os próprios códigos de programação.
Quando: 25 ,26, 27 de novembro e 2, 3, 4, 9, 10 e 11 de dezembro; sextas, sábados e domingos, às 19h.
Onde: Tulasi Mercado Orgânico (Rua das Graças, 178, Graças).
Quanto: R$ 10 e R$ 5 (meia).

Marcondes Bispo. Foto: Ricardo Maciel / Divulgação

Marcondes Bispo. Foto: Ricardo Maciel / Divulgação

LUZIR É NEGRO!
Solo autobiográfico do ator e cantor Marconi Bispo investiga o racismo homofobia e intolerância religiosa. A direção é de Rodrigo Dourado.
Quando: 19, 20, 26 e 27 de novembro. Sábados, às 19h e domingos, às 18h.
Onde: Espaço O Poste (Rua da Aurora, 529, Boa Vista.
Quanto: R$ 30 e R$ 15 (meia).
Informações: 99594-0626.
FICHA TÉCNICA:
Realização: Teatro de Fronteira.
Atuação: Marconi Bispo.
Direção: Rodrigo Dourado.
Dramaturgia: Marconi Bispo e Rodrigo Dourado.
Preparação Corporal: Pollyanna Monteiro.
Direção de Arte: Marcondes Lima (figurinos) e Plínio Maciel (elementos cenográficos e adereços).
Coreografias: Edson Vogue.
Iluminação: João Guilherme de Paula.
Edição de trilha: Rodrigo Porto.
Assessoria de Imprensa: Cleyton Cabral.
Músicos: Kiko Santana (guitarra e direção musical) e Basílio Queiroz (contrabaixo).
Fotos e vídeos: Ricardo Maciel.
Identidade Visual: Arthur Canavarro.
Assistência de Produção: Rodrigo Cavalcanti.

Naná Sodré e Agrinês Melo. Foto: Lucas Emanuel/Divulgação

Naná Sodré e Agrinês Melo. Foto: Lucas Emanuel/Divulgação

OMBELA
Inspirada no poema épico Ombela (chuva em português), do escritor africano Manuel Rui, a peça transforma as atrizes Agrinez Melo e Naná Sodré em duas gotas de chuva que se transformam em entidades. A direção é de Samuel Santos. O espetáculo terá audiodescrição e tradução em LIBRAS.
Quando: 18 e 25 de novembro, às 20h.
Onde: Espaço O Poste (Rua da Aurora, 529, Boa Vista.
Quanto: R$ 20 e R$ 10 (meia).
Informações: 99594-0626.

Daniel Barros e Júnior Aguiar. Foto: Léo Caldas/ Divulgação

Daniel Barros e Júnior Aguiar. Foto: Léo Caldas/ Divulgação

pa(IDEIA) – pedagogia da libertação
A peça narra a trajetória do educador pernambucano Paulo Freire, o exílio por 16 anos pela América Latina, Europa e África. A montagem destaca a educação como um instrumento essencial na transformação da humanidade. Com os atores Daniel Barros e Júnior Aguiar. O espetáculo, que integra a Trilogia Vermelha.
Quando: 11 a 26 de novembro. Sextas e aos sábados, às 20h.
Onde: Teatro Arraial Ariano Suassuna (Rua da Aurora, 457, Boa Vista).
Quanto: R$ 30 e R$ 15 (meia).
Informações: 3184-3057.
Classificação: livre.

Este post foi publicado em por .

A barbárie brasileira pelos olhos de um cão

Memóri de um cão. foto: Arthur Chagas

Memórias de um cão abre programação do Festival Recife do Teatro Nacional neste sábado. Foto: Arthur Chagas

O Coletivo de Teatro Alfenim chamou para si um desafio e tanto. Transpor para a cena o romance Quincas Borba, de Machado de Assis. Um trabalho de prospecção interior difícil segundo estudo do crítico e historiador Décio de Almeida Prado, em A Personagem do Teatro[1], sem que essa recriação perca “sua imponderabilidade, a sua atmosfera feita menos de fatos que de sugestões” do original. O teatro ampliou infinitivamente os seus procedimentos da cena desde a década de 1960 e neste sábado a versão do grupo paraibano para a obra machadiana abre o 18º Festival Recife do Teatro Nacional, no Teatro de Santa Isabel, às 20h, com Memórias de um Cão, montagem com direção de Márcio Marciano.  

O protagonista Rubião é um mestre-escola interiorano que, às vésperas da abolição da escravatura, recebe uma herança de seu benfeitor, o filósofo maluco Quincas Borba, com a condição de cuidar do cão de mesmo nome. Rubião se muda para a Corte. No caminho conhece o casal Palha. O herói machadiano se apaixona por Sofia, mulher de Cristiano.  Com toda a falsidade do mundo, Cristiano extraí o dinheiro do mineiro, enquanto incentiva a esposa a alimentar falsas esperanças. O casal leva Rubião à pobreza e à loucura.

Muda a beca, mas os vilões e enganadores são os mesmos de sempre.

A exigência testamentária é uma aplicação prática do “Humanitismo”, doutrina heterodoxa criada por Quincas Borba, que pode ser resumido na frase “Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”. O mais forte sobrevive, e esse não foi Rubião.

Enquanto o protagonista busca implantar-se num meio de relações de favor, são expostas as marcas do preconceito de todas as ordens, o luxo que espelho de futilidades e as aspirações deformadas da elite brasileira de galgar um lugar de nação de primeiro mundo. Nosso pobre Rubião chega ao ponto de pensar ser o próprio imperador francês Napoleão III.

Foto: Arthur Chagas

A elite e suas estratégias de enganação. Foto: Arthur Chagas

Memórias de um Cão esquadrinha criticamente as estratégias de dissimulação, engodo e autoengano das relações sociais do Brasil no campo subjetivo e político. A montagem expõe as contradições do país, como a apropriação da riqueza nacional a partir da instrumentalização do poder público.

A peça começa com uma cena do cortejo, em que um escravo é condenado pelo assassinato de seu senhor e dono. O Coletivo Alfenim investiga a face da barbárie brasileira, amplificada com o desejo de modernização a partir de meados do século XIX, com a equação mercantil e financeira associada ao (in)disfarçável trabalho escravo, e todas as formas de crueldade para gerar lucro.

Brecht, referência estética e política do coletivo teatral,  está presente em outras peças do repertório do grupo paraibano, no exercício dialético de Quebra quilos, Milagre brasileiro, O deus da fortuna e Brevidades.

 

[1]  PRADO, Décio de Almeida. A personagem no teatro, p. 88-89. IN CÂNDIDO, Antonio. A personagem de ficção. São Paulo, Perspectiva, 1968. 

ENTREVISTA: Márcio Marciano

MMárcio Marciano é diretor do Coletivo Alfenim. Foto: Primeiro Sinal / Reprodução do Youtube

Márcio Marciano é diretor do Coletivo Alfenim. Foto: Primeiro Sinal / Reprodução do Youtube

Os títulos sinalizam escolhas. Por que Memórias de um cão?
A ideia surgiu da necessidade de narrar a história a partir de um ponto de vista que pudesse ser ao mesmo tempo objetivo e suspeito: objetivo por se tratar do ponto de vista de uma testemunha dos fatos, no caso o cão Quincas, e suspeito, por serem essas memórias, as memórias de um cão. A escolha do título reproduz em chave derrisória o mesmo mecanismo criado por Machado de Assis em Memórias póstumas de Brás Cubas: se no romance, somos levados a colocar sob suspeição crítica as memórias de um proprietário, aqui, trata-se de colocar em dúvida o quanto a narrativa pode ser fiel à verdade dos fatos narrados. Cabe ao público esse julgamento.

Gostaria que você explicasse como essas estratégias de dissimulação, engodo e autoengano entram na cena concretamente.
O espetáculo procura acirrar as contradições entre ação e discurso de uma elite que procurar refletir-se no espelho da modernidade sem abrir mão de meios bárbaros de dominação e sujeição do outro. Essas estratégias de autoengano e dissimulação são reveladas à medida que as personagens falam de si para os outros, ou tentam convencer a si mesmas de sua civilidade e nobreza de propósitos, ao mesmo tempo em que agem de modo mesquinho, violento e até escabroso.

O Coletivo Alfenim aponta a elite econômica e cultural brasileira como responsável histórica pela barbárie? O que chega aos dias de hoje a partir do palco?
A semelhança entre a atualidade e o modo bárbaro de dominação das elites retratadas na peça não é mera coincidência. Guardando-se as devidas proporções, são os mesmos sujeitos históricos operando num novo estágio da acumulação do capital. Essa responsabilidade histórica não é privilégio apenas da elite econômica e cultural brasileira. O Brasil tem sido desde os tempos mercantilistas apenas um apêndice no concerto das nações. Num certo sentido, nossas elites não passam de capatazes de patrões internacionais. A cor local de nossa barbárie não impede que vejamos suas raízes de além-mar.

De que forma vocês leem a atual escravidão?
Certo verniz antropológico escondeu a chibata por debaixo do tapete das etiquetas politicamente corretas, mas é só adentrarmos um pouquinho rumo ao Brasil profundo para vermos uma nova ordem de práticas escravistas. Seja nas oficinas clandestinas das grifes da moda, seja nos mega-latifúndios do agro-negócio, seja na casa da madame ou no núcleo pobre da novela das oito, a violência e o mandonismo permanecem quase inalterados. O emblema da escravidão assumiu uma diversidade incrível na atualidade, é evidente que não se trata de acorrentar seres humanos, mas a questão de fundo permanece a mesma: a lógica perversa do capital e sua divisão social do trabalho. E isso é só o começo, a direita reacionária e golpista atualmente no comando não parece nada preocupada com as aparências. Como bem diz a máxima do Humanitismo “ao vencido, ódio ou compaixão, ao vencedor as batatas”.

Você está há alguns anos fora de São Paulo, trabalhando com outra realidade do Nordeste. Como você encara as dificuldades de produção e de criação artísticas? E existem vantagens em relação ao sudeste?
É preciso frisar que o Coletivo Alfenim surgiu e vem se mantendo nos últimos dez anos de atividades graças às políticas de fomento à cultura dos governos de Lula e Dilma. A realidade que encontrei no Nordeste não seria nada favorável se não fosse a política de descentralização da cultura colocada em prática durante esses governos, com os devidos apoios em nível municipal e estadual. Muito se diz sobre a diferença de produção entre as regiões do Brasil. De fato, cada localidade tem suas limitações e particularidades, mas o tipo de trabalho que desenvolvemos, de politização da forma e sempre à margem da circulação mercadológica, esse trabalho encontra dificuldades em qualquer lugar do país, seja no Nordeste ou em São Paulo.

Esteticamente vocês se consideram na contramão?
Penso que o público e a crítica podem responder a essa pergunta. De nossa parte, temos consciência de que nossa cena parte da necessidade de acirrar as contradições do assunto de modo a dotar sua forma de algum interesse estético. Se “estar na contramão” significa não ceder às facilitações do “bom-gostismo”, ao sentimentalismo das boas intenções, ao lirismo auto-referente, às formas falseadas de uma metafísica pretensamente universalizante, podemos dizer que estamos contra a corrente, mas isso não significa que não corremos o risco de também nos afogar. Em suma, se o esteticamente vigente se pauta por uma espécie de fruição acrítica e celebratória de nosso lugar no mundo, penso que estamos um pouco fora do lugar.

O que é importante que o público saiba sobre o espetáculo antes de chegar ao teatro?
Que fazemos um convite para a leitura crítica de nossas misérias.

Como equalizar munição crítica, método dialético de construção da narrativa com prazer e divertimento?
Não sei se existe uma fórmula para isso, mas o que tentamos honestamente com nosso Memórias de um cão foi pôr em prática o que pudemos aprender com Machado de Assis.

Foto: Felipe Ando

Cena de abertura do espetáculo. Foto: Felipe Ando

Ficha técnica
Direção e dramaturgia: Márcio Marciano
Assistência dramatúrgica: Gabriela Arruda
Elenco: Adriano Cabral; Lara Torrezan; Paula Coelho; Ricardo Canella; Verônica Cavalcanti; Vítor Blam; e Zezita Matos
Direção musical: Mayra Ferreira; e Nuriey Castro
Composição musical: Márcio Marciano; Marília Calderón; Mayra Ferreira; Nuriey Castro; Paula Coelho; Vítor Blam; e Walter Garcia
Músicos: Mayra Ferreira; e Nuriey Castro
Figurino: Patrícia Brandstatter
Máscaras e caracterização: Coletivo Alfenim
Consultoria Literária: José Antônio Pasta; e Iná Camargo Costa
Produção Executiva: Gabriela Arruda
Realização: Coletivo Alfenim.

SERVIÇO
Memórias de um Cão
Quando: Neste sábado,19 de novembro, às 20h
Onde: Teatro de Santa Isabel (Praça da República, Santo Antonio – Recife – Pernambuco)
Fones: 81 3355.3323 / 81 3355.3324
Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia entrada)
Classificação indicativa: não recomendado para menores de 14 anos

Postado com as tags: , , , , , , , , , , , , , , ,

Seminário de Crítica teatral no Recife

Professora Elena Vássina. Foto: Divulgação

Professora Elena Vássina. Foto: Divulgação

O teatro do século 21 é um espaço propício para a experimentação. A pluralidade de práticas cênicas exige leituras outras da crítica. Os desafios se apresentam e o pensamento crítico se abre para discutir sua atuação. Semana passada o Satisfeita Yolanda participou da 1ª Mostra DocumentaCena, promovida pela DocumentaCena – Plataforma de Crítica, e o Idiomas – Fórum Ibero-Americano de Crítica de Teatro, em Curitiba, numa semana rica de diálogos e reflexões.

No Recife, o Seminário Internacional de Crítica Teatral volta a ser realizado com incentivo do FUNCULTURA, pela Renascer Produções Culturais, com produção executiva é de Luciano Rogério. O evento ocorre de domingo a terça-feira (20 a 22 de novembro), das 14 às 18h, no Teatro Apolo (Bairro do Recife), e tem como tema desta edição o “Teatro como encontro entre mestres e aprendizes”. A crítica e professora de literatura russa da USP Elena Vássina abre programação com a palestra: Como se forma e se quebra a tradição teatral: mestres e discípulos do teatro russo.

O Seminário integra a programação do 18º Festival Recife do Teatro Nacional. Além de Elena Vassina os outros convidados são João Denys, Elton Bruno Siqueira, Ivana Moura (PE), Astier Basílio e Paulo Vieira (PB).

As inscrições gratuitas estão abertas e podem ser feitas pelo https://www.facebook.com/Semin%C3%A1rio-Internacional-de-Cr%C3%ADtica-Teatral-333871086962446/

PROGRAMAÇÃO

Dia: 20/11/2016 (domingo), das 14 às 18h, no Teatro Apolo

Homenagem a Luiz Maranhão Filho, cronista teatral do Diario de Pernambuco na década de 1940, também jornalista, radialista, professor, dramaturgo e diretor teatral.

Palestra: Como se forma e se quebra a tradição teatral: mestres e discípulos do teatro russo, com Elena Vassina (Rússia/SP)

Dia: 21/11/2016 (segunda-feira), das 14 às 18h, no Teatro Apolo

Palestra: A arte solitária do autor.  A criação dramatúrgica. Com João Denys (PE) e Paulo Vieira (PB).

Dia: 22/11/2016 (terça-feira), das 14 às 18h, no Teatro Apolo

Temas das palestras: A arte secreta da crítica. O crítico como leitor de crítica. O exemplo de Sábato Magaldi. Com Ivana Moura (PE), Astier Basílio (PB) e Elton Bruno Siqueira (PE)

Postado com as tags: