O presidente que o Brasil nunca teve

Marcio Fecher no espetáculo Meu Nome é Enéias. Foto:

Marcio Fecher no espetáculo Meu Nome é Enéias. Foto:

As campanhas políticas no Brasil têm como principal canal de convencimento o horário eleitoral. Boas propostas podem até ficar submersas em meio a um mar de bizarrices, que apelam para nomes estranhos, paródias e muitas invenções. Os candidatos ao Executivo têm mais tempo que os do Legislativo. Mas a distribuição do espaço é bem desigual. E aqui não vamos discutir se isso é justo ou não, porque o capitalismo não é justo. Mas um candidato a presidência por três vezes criou uma estratégia para se sobressair da monotonia.

Com 15 segundos para falar, Enéas Ferreira Carneiro chegou ao 12º lugar entre 21 candidatos, nas eleições de 1989. Em 1994, galgou o terceiro lugar, na base do discurso de um minutos e dezessete segundos na propaganda eleitoral gratuita. E garantiu o quarto lugar em 1998, com o tempo de 35 segundos. Se fosse no esporte, seria recorde.

Meu Nome É Enéas – O Último Pronunciamento, um solo do ator Marcio Fecher, estreia no Trema! Festival de Teatro, nesta sexta-feira, no Espaço Cênicas, às 21h.

A montagem vende a imagem de um homem humilde e de poucos recurso que se tornou médico cardiologista, físico, matemático, professor e nos últimos 18 anos de sua vida se dedicou a um plano de se tornar presidente do Brasil. Por seu projeto de uma nova política nacional perdeu quase tudo, casamento, bens conquistados e morreu no esquecimento.

Entrevista Márcio Fecher

Marcio Fecher é ator, dramaturgo, diretor e videasta. Foto: Tiburtino Caio

Márcio Fecher é ator, dramaturgo, diretor e videasta. Foto: Tiburtino Caio

Qual a motivação para esta montagem?
Depois que iniciei meus estudos com a Trilogia Vermelha, com o afastamento temporário quando criei Andarte Andarilho, meu primeiro solo, depois a volta para o projeto de Junior Aguiar que eu voltei a produzir, comecei a ver vários vídeos do Dr. Enéas viralizados na Internet e eu gostei do discurso. De cara percebi a aparência física, e depois disso procurei onde tinha informações sobre ele, sua vida, sua trajetória e encontrei três livros, que na verdade são voltados para a sua defesa política, seu livro sobre cardiologia O Eletrocardiograma, e não tinha nada sobre sua vida particular, filhas, mulher e subsídios que como ator eu acreditava importantes.
De fato, todas as informações que consegui sobre ele foram recolhidas das entrevistas concedidas por ele e também os vídeos produzidos por ele mesmo para o PRONA, e todos estes vídeos estão disponíveis para qualquer pessoa no canal do Youtube do Espaço Dr. Enéas. Senti segurança em ouvir o Dr. Enéas falando, porque não tinha como a fonte ser mentirosa, era ele ali, dizendo aquelas palavras.
Entendi que seu discurso, por vezes difícil e talvez contraditório – digo talvez porque depende do referencial- era atual e necessário para este momento que estamos vivendo.
Seu nome está na memória da política nacional como sinônimo de verdade, transparência e também contradições, mas não podemos negar que, acende várias discussões acerca de questões importantes para o entendimento político que estamos vivendo. Por isso escolhi viver este personagem.

O que o Dr. Enéas teria a dizer sobre os acontecimentos do Brasil atual, a partir do que se tornou público do pensamento dele?
Durante sua vida pública, que durou 18 anos, seu discurso por várias vezes se repetia. Afirmava ele que nossa classe de políticos é composta de indivíduos semianalfabetos, e a diferença é que alguns são completamente analfabetos. Afirma que o Brasil tem tudo o que um país precisa para se colocar de pé – riquezas minerais de alta categoria, que são vendidas a preço de banana para o exterior; fontes de energia sustentável, por exemplo a luz solar que em um dia de sol no Brasil pode-se gerar energia comparável a 120 mil usinas de Itaipu funcionado a todo o vapor. Afirma que nada do que for feito dará certo, porque o cidadão comum não acredita no governo. Isso é a pior coisa eu se pode acontecer. Que estamos vivendo uma total desordem. Que precisamos checar tudo o que noticia a imprensa, porque ética está praticamente extinta entre os jornalistas da grande mídia. Sua conduta é retilínea, o que revela sua formação no exército e sua conduta transparente o fez ganhar a simpatia do povo.

Na sua opinião, o que faz um homem que para o senso comum venceu na vida – de origem humilde se tornou médico e professor – a se envolver com política?
Como diz o próprio Dr. Enéas, após entender o processo político em que estamos inseridos, ficou indignado com a realidade nacional. E com o conteúdo que absorveu em anos de estudos, por acreditar em sua postura enérgica e na criação em um novo modelo político, decidiu entrar no processo para modifica-lo, não por que ele precisava de cargo público, ele era médico e professor, não precisou de troca de favores para ocupar cargo público porque tinha de onde ganhar seu dinheiro.

Esse homem, esse político foi injustiçado?
Com certeza! Pense você, ele falava para o povo brasileiro através dos meios de comunicação! Teve nas eleições de 1989, 15 segundos para falar e ficou em 12º lugar em um total de 21 candidatos. Nas eleições de 1994, teve um minutos e dezessete segundos na propaganda eleitoral gratuita, e ficou em 3º lugar. Em 1998 com 35 segundos ficou em 4º, imagina se o Dr. Enéas tivesse tempo de se colocar devidamente para o povo brasileiro o que podia ter acontecido?! Ele foi vítima de um processo de histrionismo na imprensa, foi ridicularizado, foi chamado de fascista. Fazer este espetáculo, também é dar voz a um homem que tinha ideias claras e que não tinha medo de se exprimir. Que estava aberto para o diálogo, que apesar de exaltar o exército, sabe muito bem criticá-lo a apontar erros e equívocos históricos praticados por esta instituição.

Quais os procedimentos da encenação Meu Nome É Enéas – O Último Pronunciamento?
Como ele foi um homem muito reservado em sua vida particular, eu também o deixei reservado neste campo. Com o material recolhido nos vídeos, entendi sua vida desde seu nascimento até sua morte. Como o grande conflito em sua vida pública era o tempo, e sua proximidade com o relógio era tamanha, pensei em como seria se ele tivesse a oportunidade de ter um último pronunciamento feito por ele. E que mesmo assim ele não tivesse o tempo necessário para falar tudo o que pode para contribuir para uma sociedade melhor.

Serviço:
MEU NOME É ENÉAS – O último pronunciamento
Quando:
Sexta-feira (5), às 21h
Onde:
Espaço Cênicas
Ingressos:
R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)

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Borghi encara clima pós-apocalíptico de Beckett

Foto: Patricia Cividanes

Elcio Nogueira Seixas e Renato Borghi em Fim de Jogo, peça de Samuel Beckett. Foto: Patricia Cividanes /Divulgação

 O ator Renato Borghi, 80 anos, merece ser reverenciado, paparicado, celebrado, acarinhado por tudo que ele já fez. Seis décadas de teatro não é para qualquer um, não. Só para os fortes. Um dos fundadores do Teatro Oficina, Borghi estreou profissionalmente em 1958, com o espetáculo Chá e Simpatia, com direção de Sérgio Cardoso, no Rio de Janeiro. O intérprete do dissoluto Abelardo I em O Rei da Vela, montagem emblemática do Teatro Oficina, em 1967, mergulhou em grandes personagens. Contracenou com Etty Fraser em A Incubadeira, fez Galileu e Na Selva das Cidades, do alemão Bertolt Brecht (1898-1956) e As Três Irmãs, de Anton Tchekhov (1889-1860), pelo Teatro Oficina. No ano passado transformou a sala de visitas de seu apartamento, em São Paulo, em um teatro de bolso para as apresentações da peça Fim de Jogo. A ideia de fazer a peça ocorreu quando Renato Borghi se recuperava de duas cirurgias na coluna e utilizava cadeira de rodas devido a limitações motoras.

Essa versão da tragicomédia do dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989), chega ao Recife para seis apresentações, de hoje a sábado e nos dias 11, 12 e 13, na Caixa Cultural. A encenação é do Teatro Promíscuo, companhia criada há 25 anos por Borghi e Elcio Nogueira Seixas, seu parceiro de cena. Ontem foi apresentada a palestra ilustrada Borghi em Revista, quando o artista passeou pela história do Teatro Brasileiro. No dia 10, quarta-feira, a palestra gratuita será reapresentada na Sala Multimídia da Caixa Cultural, às 19h, com o conteúdo que vai das revistas dos anos 1930 até os movimentos da cena contemporânea no Brasil. E na próxima quinta-feira, dia 11, os atores vão conversar com o público após a apresentação da peça.

Os retratos dos pais de Borghi, , representam os personagens

Os retratos dos pais de Borghi representam os personagens Nell e Nagg

O veterano ator já assistiu muitas montagens de Fim de Jogo mas sempre lhe intrigava o modo semelhante na interpretação, que ele pensava que abriam um abismo entre o texto e o público. Sua encenação traz uma pegada mais intimista. Criada na sala de seu apartamento, a sua encenação traz essa atmosfera, de um contato mais próximo.

Os personagens beckettianos povoam um mundo pós-colapso, devastado e sem perspectiva de futuro. Escrita em 1957, Fim de jogo expõe o convívio de quatro figuras, sobreviventes, que dividem um exíguo abrigo. Borghi considera que a peça pode se conectar a um tempo pós-atômico como aos dias de hoje.

Borghi faz o velho Hamm, cego e paralítico, que vive na dependência de Clov (Elcio Nogueira Seixas), que sofre de uma enfermidade que o impede de sentar. Então Clov narra a Hamm o que enxerga da terra devastada.

A direção é assinada por Isabel Teixeira que optou por utilizar fotografia dos pais de Renato, Maria de Castro e Adriano Borghi, como os outros dois personagens do texto de Beckett, Nell e Nagg.

FICHA TÉCNICA

Autor: Samuel Beckett
Tradução: Fábio Rigatto de Souza Andrade
Elenco:
Renato Borghi (Hamm)
Elcio Nogueira Seixas (Clov)
Maria de Castro Borghi (Nell)
Adriano Borghi (Nagg)
Direção: Isabel Teixeira
Direção de Arte: Karlla Girotto
Iluminação: Alessandra Domingues
Trilha Sonora: Aline Meyer
Diretor Assistente e “O Ponto”: Lucas Brandão
Assistência de Direção de Arte: Gabriela Cherubini
Assistência de Iluminação: Laiza Menegassi
Adaptação de iluminação para Recife: Roberto Setton
Direção de palco: Tiago Moro
Filmagem e Edição: Eliana César e Lucas Brandão
Fotos: Roberto Setton e Patrícia Cividanes
Programação gráfica: Patrícia Cividanes
Direção de Produção: Anayan Moretto
Produção executiva: Rick Nagash
Produção Recife: Tadeu Gondim
Realização: Teatro Promíscuo

Serviço

Fim de Jogo
Quando: De 4 a 6/05 e de 11 a 13/05/2017 (Bate-papo com os atores no dia 11/05, após a peça) às 20h
Onde: Caixa Cultural Recife (Avenida Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife)
Quanto: R$ 10,00 (inteira) | R$ 5,00 (meia-entrada)
Venda de ingressos: a partir do dia 03/05 (para as apresentações de 04 a 06/05) e do dia 10/05 (para as apresentações de 11 a 13/05/2017), das 10h às 20h, na bilheteria da CAIXA Cultural Recife.
Fone: (81) 3425-1915

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TREMA!, Entre utopias e distropias

Noite. Foto José Caldeira

Espetáculo português Noite abre programação do festival. Foto José Caldeira / Divulgação

Teatro serve para quê? Não tenho respostas daquelas definitivas ou complexamente articuladas. Sinto necessidade dessa arte como os dependentes químicos dizem sentir da droga. O teatro é meu vício maior e melhor. Mas deixando essa sentimentalidade de lado, recebo com entusiasmo a chegada da quinta edição do TREMA! Festival de Teatro, que começa nesta quarta-feira, e segue ate o dia 14 movimentando os teatros no Recife.

São 15 peças em sua programação que, em 12 dias, reúne oito montagens nacionais, uma internacional e seis pernambucanas. Abre com o espetáculo português Noite, inspirado na obra do poeta lusitano Al Berto, que vibra com música manipulada ao vivo por um DJ e no bailado frenético de três homens de energia selvagem e caótica. A encenação remete para subúrbios e subterrâneos.

Os cariocas do Coletivo Complexo Duplo trazem Cabeça (um documentário cênico), calcado no álbum Cabeça Dinossauro, da banda paulistana de rock Titãs. As músicas guardam um feroz posicionamento político e são tocadas ao vivo pelos atores. É o Brasil dos anos 1980 com suas problematizações sobre violência e estado, capitalismo e família tradicional. Dizem muito sobre hoje.

Das inspirações sonoras para as inspirações literárias. Erguido a partir da obra homônima de Chico Buarque de Holanda, Leite Derramado põe uma lupa sobre motivos éticos e os procedimento políticos da História do Brasil. Encenado pelo dramaturgo e diretor Roberto Alvim (SP).

Orgía ou de como os corpos podem substituir as ideias, baseado no livro de Tulio Carella, narra as aventuras eróticas e intelectuais do professor argentino que veio parar no Recife da década de 1960. A montagem do Teatro Kunyn (SP) – destinada a apenas 30 espectadores por sessão – começa no Espaço Pasárgada, antiga casa de Manoel Bandeira e depois segue para o Parque Treze de Maio.

A Primeira Guerra Mundial é pano de fundo da montagem cearense Diga que você está acordado! MáquinaFatzer , a partir da obra inacabada do dramaturgo alemão Bertolt Brecht.

Já o grupo paulista Tablado de Arruar traz a Trilogia Abnegação, que investiga cenicamente as contradições de um partido de esquerda quando chega ao poder. Obra polêmica que envereda pelas operações do mundo político, suas escolhas e consequências, e a realidade fraturada das pressões internas e externas pelo poder.

De Pernambuco, participam o Coletivo Angu de Teatro, com Ossos e Ópera; o ator Marcio Fecher com Meu nome é Enéas; Carolina Bianchi (SP) e Flávia Pinheiro (PE) com Utopyas to every day life; Flávia Pinheiro com o solo Diafragma 1.0: como manter-se vivo? e o Núcleo de Teatro do Sesc Petrolina em parceria com a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, grupo gaúcho, apresenta Procura-se um corpo – Ação nº3, sobre feridas ainda abertas pela ditadura militar.

Leite Derramado, Trilogia Abnegação, Ossos e Utypias.

Leite Derramado, Trilogia Abnegação, Ossos e Utopyas to every day life

O Trema! Festival de Teatro cresceu em relevância no panorama pernambucano e nacional desde sua primeira edição. Na cidade, enquanto eventos da mesma natureza foram se descaracterizando, precarizando sua programação e as intersecções com a potência da arte, o Trema! fortaleceu sua identidade nômade dentro de um campo do teatro experimental e de pesquisa.

As inquietações com o contemporâneo marcam a trajetória de sua curadoria, assinada pelo encenador e ator Pedro Vilela e que este ano vem com as provocações de distopias e realidades. Realizado pela Trema! Plataforma de Teatro, o festival conta ainda na realização com Mariana Rusu e Thiago Liberdade.

Se, no primeiro ano, o programa foi realizado sem verba, o quinto chega robustecido mesmo diante da crise. Voltado para um público jovem (não só em idade) e inquieto, a produção junta no seu programa obras que refletem o clima de inconformismo e perplexidade porque que passa o país.

Entrevista // Pedro Vilela

Pedro Vilela é o curador do Trema! Foto: Reprodução do Facebook

Pedro Vilela é o curador do Trema! Foto: Reprodução do Facebook

“Já não sabemos o que podemos fazer em torno desta inércia”, diz você no catálogo. Então o que fazer com essa distopia, que evidencia a plena decadência humana?
Hoje se iniciarmos a reflexão sobre o atual estado pode se configurar como um paradigma inicial. E arte nos aponta horizontes, pelo menos desconfiamos disso. Na história da humanidade ela teve esse papel, a de ser agente transformador de realidade, de escancarar distopias. E neste sentido, estamos falando de arte, não de entretenimento. Estamos mergulhados numa sociedade fugaz que preza por possíveis “diversões” em suas horas vagas, pós-trabalho. Então o festival, infelizmente, não poderá te dar só isto… é isso, e é também uma tentativa de reviravolta dentro de si, para enfim poder revirarmos nossa sociedade. É uma tentativa de caminho…

A reflexão do escritor Aldo us Huxléya: ¨E se esse mundo for o inferno de outro planeta?¨ É uma bela frase de efeito!
É? É, né? Talvez por isto nos encante tanto! E me encanta ainda mais por se tratar de um questionamento! Por nos apequenar de alguma maneira… logo nós, tão especiais, seres únicos neste universo imenso, detentores de tantas verdades…

São 24 sessões, de 15 espetáculos, dos quais 1 é internacional, 8 nacionais e 6 pernambucanos. Você diz “Quando montamos um festival, não temos controle sobre as conexões que o público fará….”. Mas então quais as conexões que os diretores do Trema! fizeram?
Acho que a principal seja com o festival do ano passado… se anteriormente apontávamos para uma necessidade de ré-construção de nossa sociedade, neste afirmamos nosso mergulho à barbárie e nossa inércia em combater isto, porque no fundo talvez sejamos bárbaros mesmos… mas ainda que indiretamente podemos também ver um mergulho em tornos de questões que se tornaram ainda mais urgentes em nosso País…

Por que o teatro de pesquisa é melhor que os outros?
Isso você está a afirmar (risos). Escolhemos este recorte pois é a partir dele que pensamos arte e mundo. Quando você cria algo objetivando “sucesso” e dinheiro na maioria das vezes esquece de sua função principal de agente modificador de realidades. Outros veículos sabem “entreter” o público com mais tenacidade do que o teatro e tenho visto que reside no teatro de grupo esta “escolha” pelo caminho mais tortuoso, onde artistas muitas vezes abdicam de certas “regalias” sociais por tentar construir uma sociedade mais justa, solidaria… no fundo somos bastante utópicos! (Risos)

Qual o orçamento do Trema neste ano? Como vocês conseguiram os recursos? E o que ficou faltando?
O orçamento neste ano é de 230 mil, fruto desta trajetória que vem sendo criada. A parceria com Itaú é bastante frutífera, pois percebemos a busca desta instituição por projetos como o nosso, haja vista as ações que realizam como a própria manutenção do instituto Itaú Cultural e o programa Rumos. Louvável também pela descentralização dos recursos e potencialização de uma ação com este caráter em pleno Nordeste. Já estamos de olho em 2018 e consolidando-se estas parcerias, podermos ampliar a presença de espetáculos internacionais no festival.

PROGRAMAÇÃO COMPLETA

NOITE
Circolando (Portugal)
3 e 4 de maio – Teatro Barreto Júnior, 20h

PROCURA-SE UM CORPO – AÇÃO Nº 3
Núcleo de Teatro do Sesc Petrolina & Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz
13 de maio – Casa da Cultura, 11h
14 de maio – Recife Antigo, 15h

DIGA QUE VOCÊ ESTÁ DE ACORDO! MÁQUINAFATZER
Teatro Máquina (Ceará)
05 de maio – Teatro Hermilo Borba Filho, 20h
06 e 07 de maio – Teatro Hermilo Borba Filho, 18h

MEU NOME É ENÉAS – O ÚLTIMO PRONUNCIAMENTO
Márcio Fecher (PE)
05 de maio – Espaço Cênicas, 21h

CABEÇA (UM DOCUMENTÁRIO CÊNICO)
Coletivo Complexo Duplo (RJ)
06 de maio – Teatro Apolo, 20h
07 de maio – Teatro Apolo, 19h

UTOPYAS TO EVERY DAY LIFE
Carolina Bianchi (SP) e Flávia Pinheiro (PE)
08 e 09 de maio – Museu de Artes Afro Brasil, 16h

ORGÍA OU DE COMO OS CORPOS PODEM SUBSTITUIR AS IDEIAS
Teatro Kunyn (SP)
10, 11 e 12 de maio , Espaço Pasárgada, 15h

TRILOGIA ABNEGAÇÃO
Tablado de Arruar (SP)
8, 9 e 10 de maio, Teatro Hermilo Borba Filho, 20h

OSSOS
Coletivo Angu de Teatro (PE)
11 de maio – Teatro Marco Camarotti, 20h

ÓPERA
Coletivo Angu de Teatro (PE)
12 de maio , Teatro Apolo, 20h

DIAFRAGMA 1.0: COMO MANTER-SE VIVO?
Flávia Pinheiro (PE)
11 de maio , Teatro Hermilo Borba Filho, 20h

SALMO 91
Cênicas Cia de Repertório (PE)
12 de maio , Espaço Cênicas, 18h

LEITE DERRAMADO
Morente Forte Produções Teatrais e Club Noir (SP)
13 de maio – Teatro de Santa Isabel, 20h
14 de maio – Teatro de Santa Isabel, 18h

ENCONTROS TREMÁTICOS

DIÁLOGOS TREMÁTICOS 1
Experiências Compartilhadas em Gestão (BRA/PT)
06 de maio , Centro Apolo-Hermilo, 15h

DIÁLOGOS TREMÁTICOS 2
Demonstração pública de processo criativo (Máquina/CE)
07 de maio , Centro Apolo-Hermilo, 15h

DIÁLOGOS TREMÁTICOS 3
Debate ¨Esquerda Brasileira – distopias e realidades¨
10 de maio , Centro Apolo-Hermilo, 18h

DIÁLOGOS TREMÁTICOS 4
Encontro com programadores do Palco Giratório SESC
13 de maio , Centro Apolo-Hermilo, 15h

ATIVIDADES FORMATIVAS

OFICINA 1
TEATRO DOCUMENTÁRIO CONTEMPORÂNEO IBERO-AMERICANO
Dias 05, 06 e 07 de maio , Sesc Santa Rita, 10h as 13h

OFICINA 2
DERIVA com participação no espetáculo ORGÍA
Dias 07 a 12 de maio , Espaço Pasárgada, 13h às 18h

LANÇAMENTO DE PUBLICAÇÕES

REVISTA , TREMA ! Revista de Teatro

LIVRO , O menino na gaiola, Cleyton Cabral
04 de maio , Teatro Barreto Junior, 19h30

LIVRO , Trilogia Abnegação, Alexandre Dal farra
10 de maio , Centro Apolo-Hermilo, 19h

SERVIÇO
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)
Canal de Venda Web: www.compreingresso.com.br

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Peça reconstrói assassinato de João Pessoa

05022016-Antonio_David_104O dramaturgo e diretor do espetáculo De João Para João não compactua com a ideia de que a professora e poeta Anayde Beiriz tenha sido o pivô do estopim da Revolução de 1930, tese defendida por alguns historiadores. A montagem paraibana que faz única apresentação no Teatro de Santa Isabel, no próximo sábado dia 6 de maio, aponta como a mídia incendiou os ânimos já acirrados entre os adversários paraibanos. A peça é construída levando em conta o ponto de vista do assassino. A ação ocorre na tarde do dia 26 de Julho, na confeitaria Glória, no centro do Recife.

Na versão oficial mais oficial do episódio, João Pessoa, da Aliança Liberal, governante da Paraíba e candidato à vice-presidência da República na chapa de Getúlio Vargas, foi assassinado por questões políticas pelo advogado João Dantas, afilhado do principal dirigente do Partido Republicano da Paraíba, o coronel Zé Pereira. A historiografia transformou João Pessoa em herói, Dantas em vilão e Anayde foi apagada do mapa (ou demonizada) por muito tempo.

Eram muitos interesses nesse jogo de poder dos dois partidos. O grupo de João Dantas é apontado como arcaico na defesa dos  negócios tradicionais de latifundiários e comerciantes do Sertão da Paraíba e de Recife. Grupos que recebiam os benefícios da  política do café-com-leite, do governo federal. Os defensores da Aliança Liberal são tidos como os que anunciavam mudanças.

Mas os conflitos se dão no campo oligárquico, com autoritarismo de lado a lado e esferas pública e privada entrelaçadas. Entre as ações truculentas estão invasões a territórios particulares. Um ataque à fazenda da família de João Dantas, com ameaças de morte. A casa do advoga também é violada pela polícia, que confisca os diários íntimos e poesias do casal, além das fotos de nudez de Anayde  para expor publicamente na delegacia.

Por sua vez, João Dantas publicou no Jornal do Comércio, do Recife, um texto com o título Às Voltas com um Doido, com acusações ao governante João Pessoa. A carta é uma dos principais documentos de inspiração da peça de Tarcísio Pereira, que atua ao lado de Flávio Melo.

No cinema a atitude de Anayde ganhou protagonismo no filme Parayba, mulher macho (1983), da cineasta brasileira Tizuka Yamazaki, que é baseado em documentos históricos e no livro no livro Anayde Beiriz, paixão e morte na revolução de 30, de autoria de José Joffily. Anayde é apresentada como uma jovem de ideias libertárias, inconformada com os costumes da sociedade brasileira na década de 1920. Essa obra deixa a  o confronto político entre a Aliança Liberal e o Partido Republicano, como pano de fundo. Tizuka defende em sua obra que a motivação do assassinato foi essencialmente de ordem passional.

Na entrevista abaixo, Tarcísio Pereira fala sobre a pesquisa realizada para a montagem do espetáculo De João Para João, as opções dramatúrgicas para construir cenicamente esse episódio que teve o Recife como cenário, mudou a história do Brasil e desencadeou a chamada Revolução de 1930.

Entrevista: Tarcísio Pereira, dramaturgo e diretor

Tarcísio Pereira, dramaturgo e diretor

Tarcísio Pereira é autor, diretor e ator da peça De João para João. Foto: Reprodução do Facebook

De João para João. O que propõe o espetáculo?
Recontar uma história que abalou a estrutura política deste país há 87 anos, buscando lançar um novo ângulo de visão em torno de um episódio que divide opiniões até hoje. Colocamos o teatro como plataforma de reflexão em torno de fatos ocasionados pela influência da mídia. Recontamos os últimos instantes de um crime sob o ponto de vista do assassino – colocando em cena, pela primeira vez, o vilão e a vítima que entraram para a história do nosso país, num fato ocorrido na cidade do Recife. Além disso, procuramos desenvolver uma experiência cênica sob o foco de uma tragédia nacional que tem levado a diversas interpretações, utilizando o testemunho pessoal de um homem que mudou a história de um estado brasileiro e que redundou numa tomada de poder no âmbito nacional.

A partir da sua pesquisa, o que o senhor conclui sobre a participação da poeta Anayde Beiriz nesse episódio?
Anayde foi inocente em toda essa história, embora tenha se tornado uma grande mártir como consequência desse assassinato. Essa história teve muitos mártires, começando pelo próprio João Pessoa. Depois, o assassino foi também um mártir, pela forma brutal como foi assassinado na prisão, na época a Casa de Detenção no Recife, quando as forças “revolucionárias” de Getúlio (Vargas) tomaram a Presidência da República. Outro mártir, na sequência, foi João Suassuna, pai do escritor Ariano Suassuna, que era deputado federal e levou um tiro nas costas, numa rua do Rio de Janeiro. Ele tinha governado a Paraíba antes de João Pessoa, eram aliados e acabou virando adversário. Além de outras famílias e lideranças políticas na Paraíba que eram adversários de João Pessoa.
Mas voltando a Anayde, para mim foi a maior vítima – uma mulher que, ao que parece, não tinha muito envolvimento político e que pagou pelo fato de ser a namorada do assassino de João Pessoa. Ela não suportou a pressão na capital paraibana, sendo chamada de “amante” ou “putinha” de João Dantas e teve que se exilar no Recife num instituto de freiras, onde acabou tomando veneno. Hoje, Anayde é uma mulher reverenciada na Paraíba, tem até escola e conjunto residencial com o nome dela. Mas durante uns trintas anos ela foi um tanto amaldiçoada na própria terra, mesmo depois de morta. Para se ter uma ideia, nenhuma criança que nascesse do sexo feminino podia ser batizada com o nome de Anayde.

Em linhas gerais, o que foi publicado no jornal A União, sobre a correspondência íntima entre João Dantas e Anayde?
Há uma confusão sobre esse fato. Na verdade, a correspondência íntima nunca foi publicada no jornal A União. O jornal oficial apenas noticiou que foram encontradas cartas “comprometedoras” de João Dantas, quando invadiram a casa e o escritório dele. E todo esse material ficou exposto numa das dependências do jornal para quem quisesse ver. O jornal apenas divulgou que o mural estava disponível à visitação, mas não chegou a publicar as cartas propriamente.

O que o senhor diria sobre o filme Parahyba Mulher Macho.
Gosto imensamente desse filme da Tizuka Yamasaki. Muito, muito mesmo. Mas falo enquanto realização fílmica, enquanto obra da nossa cinematografia. Do ponto de vista histórico, particularmente de alguns aspectos abordados na película, eu tenho alguns questionamentos, principalmente em relação à figura de Anayde Beiriz, que o filme apresenta de uma maneira como eu não tenho encontrado em toda a pesquisa que fiz. Mas isso é um detalhe e apenas um ponto de vista meu, não falo como um defeito. Além do mais, talvez o filme não tenha tido o propósito de ser tão fiel assim à história, o que é uma opção e não um problema. Mas, no geral, é um filme bonito e emocionante, muito bem feito e que também integrou a minha fonte de pesquisa para realizar o espetáculo De João para João.

                                          “A encenação é mais simples e direta porque                                                                                    teve esse propósito de focar na palavra                                                                                            e na força da interpretação”

Quais os motivos que o senhor atribui à posição histórica de herói que ostenta a figura de João Pessoa?
O assassinato, por si só (pela formal como aconteceu), já foi algo que causou comoção e contribuiu para a construção desse mito. Mas, além disso, a forma como João Pessoa governou a Paraíba, num momento em que os coronéis davam as cartas, acabou colocando-o como aquele administrador que teve coragem de quebrar os velhos vícios da política de caudilhos. Quando João Pessoa veio do Rio para governar a Paraíba, disse que ia dar uma “vassourada”, e realmente fez. Não sei com que intenção, mas realmente foi um administrador de coragem, organizou as finanças do estado em pouco tempo, colocou a folha dos funcionários em dia (que estava com meses de atraso), e passou a cobrar imposto dos coronéis do Sertão, os quais costumavam exportar o algodão pelas fronteiras com Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte. João Pessoa criou uma guerra tributária com a presença intensa do Fisco nas fronteiras, cobrando pedágios até de carroça de burro. Com isso, ele ganhou muita popularidade. Depois, ele teve também a coragem de negar apoio ao presidente da República na campanha presidencial, a ponto de figurar como candidato a vice na chapa de Getúlio Vargas. O tal “Nego”, que ganhou tanta repercussão, também contribuiu para essa popularidade. Depois veio o seu assassinato e, no rastro de tudo isso, a figura de herói. Mas era um homem muito difícil também, de temperamento forte e intransigente.

Qual o teor da carta Às Voltas com um Doido, publicada pelo advogado João Duarte Dantas, no Jornal do Comercio, do Recife?
É uma carta muito, muito violenta. Escrita com muito ódio por quem se sentia perseguido pelo governo. João Dantas traz muitas denúncias nessa carta, questionando a fortuna de João Pessoa e acusando-o, inclusive, de ter tentado matar o pai por duas vezes. Como bem diz o título do artigo publicado (que na verdade era uma carta ao governante paraibano), ele trata João Pessoa como “Doido”. Imagino que João Pessoa deve ter sofrido horrores quando leu esse texto no jornal do Comércio. Por coincidência, dias depois veio a invasão da casa de João Dantas, num momento que este se encontrava em Olinda e se aproveitaram da ausência dele. E depois dessa invasão, veio o crime. Ou seja: uma retaliação atrás da outra, que culminou numa grande tragédia.

Afinal, o assassinato de João Pessoa foi um crime político? Por quê?
Creio que a motivação foi pessoal, por conta da invasão da casa dele. Mas tudo isso tendo a política como pano de fundo. João Pessoa estava no meio de uma guerra com o coronel Zé Pereira, do município de Princesa Isabel, e João Dantas vinha atuando em favor de Zé Pereira, de quem era aliado. Ou seja: João Dantas, pelos jornais, atacava o governo o tempo inteiro devido às medidas duras de João Pessoa, e os artigos dele sempre faz referências à “Guerra de Princesa”. Isso levou a uma situação que extrapolou a seara política e entrou no campo pessoal. Então esse crime foi político e pessoal ao mesmo tempo, uma mistura das duas coisas.

                                       “Outro mártir, na sequência, foi João Suassuna,                                                                              pai do escritor Ariano Suassuna, que era deputado                                                                        federal e levou um tiro nas costas, numa rua do Rio de Janeiro”

Como o senhor situa a encenação? Utiliza os procedimentos convencionais?
Temos uma linguagem que vai da estética convencional ao experimentalismo cênico. Utilizamos elementos que dialogam com a simbologia e aquela forma tradicional do gabinete. Aliás, diria que este último fator tem mais predominância, isso em virtude da própria narrativa e do nosso cuidado com o público alvo. O texto é como um roteiro cinematográfico, que joga com a ação presente e a fantasia numa fusão de tempos alternados. Mas a encenação é mais simples e direta porque teve esse propósito de focar na palavra e na força da interpretação, pois estamos tratando de uma história real que geralmente atrai um público curioso por aquela história e não para ver uma experiência cênica. De toda forma, é um espetáculo que tem agradado aos dois tipos de público.

Quais os principais trunfos da montagem?
Talvez eu seja suspeito para apontar dois trunfos que passam diretamente pelo meu trabalho, mas é como posso avaliar. O primeiro deles está na dramaturgia, por ser um texto de cunho histórico, detalhadamente pesquisado, como uma força dramática que se sustenta do início ao fim, segurando o fôlego dos espectadores. O outro trunfo está na interpretação, são apenas dois atores em cena que não deixam a peteca cair em nenhum momento. E não sou eu que digo, é o público e a crítica que têm nos visto. Atores e texto são os dois grandes trunfos desse espetáculo.

Que aproximações que o senhor faz entre o clima da década de 1930 e os dias atuais?
Tudo a ver. Guardadas, claro, as diferenças entre os acontecimentos, mas o código dramático é o mesmo, o que mostra que a história sempre se repete com capítulos novos. Hoje temos uma situação política instável no Brasil, de muito descrédito e em que se questiona lisuras e procedimentos administrativos. Tínhamos uma presidente que foi banida do poder e um atual administrador que é tido por muitos como golpista ou usurpador, essas coisas… A política de 1930 passava por questionamentos como esses. Houve um presidente que foi banido do poder (Washington Luís), e um que havia sido eleito e não chegou a assumir (Júlio Prestes), quando Getúlio assumiu no lugar dele, embora tenha sido o segundo colocado nas urnas… E essas mudanças aconteceram por causa da morte de João Pessoa. Como João Pessoa tinha sido o vice na chapa de Getúlio, usaram o cadáver dele para comover o Brasil e Getúlio tomou a faixa presidencial. Além disso, todo um clima de instabilidade econômica e mudanças nas leis ocorreram naquele momento. Então o sentimento coletivo é o mesmo dos dias de hoje.

Peça trata de

Qual o papel da imprensa nisso tudo?
Tudo aconteceu por causa da imprensa, é como eu interpreto. Havia uma guerra de mídias entre órgãos de comunicação que pertenciam a facções diferentes. O jornal A União, na capital paraibana, atacava a honra pessoal de João Dantas e este, para não deixar por menos, respondia num jornal pernambucano que era ligado aos Pessoa de Queiroz (por sinal primos de João Pessoa, que mesmo sendo primos eram inimigos dele). Então essa guerra extrapolava os limites da ética, o que era bem comum naquela ocasião. A peça reproduz muitos trechos das notas e artigos publicados na época, um contra o outro, o que ajuda o espectador a tirar uma conclusão sobre as razões dessa tragédia.

O que o senhor diria para atrair um possível espectador para sair de casa e ir até o Teatro de Santa Isabel no dia 6 de maio?
Antes de falar para esse espectador, eu digo o que nós, do grupo, temos conversado sobre o tipo de reação do público recifense. A gente quer ter esse termômetro aqui por uma razão simples: toda a história se passa no Recife; Recife foi o cenário da tragédia política. O núcleo central da ação está na Confeitaria Glória, local em que o crime aconteceu e que ficava na Rua Nova, centro da capital pernambucana. Eu diria isso para o espectador da cidade: nosso espetáculo traz um fato histórico do Recife e não apenas da Paraíba. Os personagens são dois paraibanos, mas o episódio foi no Recife e a cidade está devidamente retratada no espetáculo, concebido e desenvolvido com uma pesquisa rica de detalhes sobre aquele período, o que certamente vai revelar muita coisa que o pernambucano ainda não sabe, principalmente as novas gerações.

SERVIÇO

De João Para João
Quando: 06/05/17, Sábado, às 20h
Onde: Teatro de Santa Isabel
Ingressos: Inteira R$ 40,00 e meia-entrada R$ 20,00.

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Plateia assume protagonismo em Topo da Montanha

Sessão de O Topo da Montanha no Recife, com Lázaro Ramos e Thaís Araújo. Foto: Reprodução do Facebook

Sessão no Recife da peça sobre Martin Luther King, com Lázaro Ramos e Taís Araújo. Foto: Facebook

Teatro Guararapes lotado na sessão de ontem (sábado, 29/04) de O Topo da Montanha, com Taís Araújo e Lázaro Ramos. Há muito tempo eu não presenciava uma movimentação assim. Anos, diria. Praticamente todos os 2.405 lugares, distribuídos entre plateia e balcão, ocupados. E com um público colorido, festivo, aguerrido. Pretos de melanina mais e menos acentuadas. Cabelos Black Power, turbantes e muitos acessórios de “eu sou mais eu”. Depois das 20h, filas gigantescas formavam caracóis no saguão do teatro, se espalhando por todo o piso. Filas ainda para comprar ingressos. Até a produção local ficou surpresa. Afinal a noite desse sábado balançava ao som pesado do Abril pro Rock, ali do lado no Chevrolet Hall; o Teatro de Santa Isabel com ingressos esgotados para apresentação da Orquestra Ouro Preto com The Beatles, sem contar com programas de concentração menor de público de teatro, dança e música.

O Topo da Montanha é um fenômeno de público. E tem muitos bons apelos para isso. O fio da história de Martin Luther King, líder pelos direitos dos negros nos anos 1960, as repercussões dessas ideias e a peleja contra o preconceito nesse século 21. E o celebrado casal de atores brasileiros negros. A representatividade deles, juntos também no programa televisivo Mister Brau, a postura cidadã de ambos e até mesmo o caso de racismo que Tais Araújo foi vítima na internet, denunciou e virou símbolo de luta contra o preconceito.

A dupla multiplica empatia diante da plateia. O Topo da Montanha é um acontecimento. Foi assim no Recife. Com o público de atitude. Devido à demanda, às filas gigantes já mencionadas, a encenação atrasou meia hora em seu início. Depois do terceiro toque, alguém puxa um Fora Temer que parece uma senha para grito de guerra, que não é retórica. Grito que não quer calar diante de qualquer desmando. Arrepiante um teatro com quase 2.500 pessoas a bradar em uníssono Fora Temer.

Conversa vai do banal, passa pelo existencial até o sobrenatural. Foto: _Jorge Bispo / Divulgação

Conversa vai do banal, passa pelo existencial até o sobrenatural. Foto: Jorge Bispo / Divulgação

Território preparado para ouvir as palavras de Luther King em defesa pacífica pela igualdade.
A ação se passa no quarto de um hotel em Memphis, para onde o líder negro se recolheu depois do último discurso, horas antes de ser assassinado, em 4 de abril de 1968. A narrativa retrata de forma ficcional as últimas cinco horas de vida dele, que trava uma conversa com a camareira Camae, que vai do banal, passa pelo existencial e chega ao sobrenatural.

Lázaro faz um Luther King erudito, um doutor, prêmio Nobel da Paz, mas interessado e atencioso com uma mulher comum, sem papas na língua, que contrapõe suas argumentações. 

Teatro convencional, palco com 1.050m² e boca larga. O cenário (André Cortez) do quarto gaiola transparente ocupa o centro. Uma plateia ligada aplaudiu em cena aberta algumas falas sobre a força e a beleza negras ou o estranho silêncio de outros que se dizem de bem. Uma energia circulava de que estávamos ali também contra o retrocesso, para nos fortalecer.

Peleja entre a cmareira e o líder negro

Peleja entre a camareira e o líder negro

Os temas são densos, mas a opção da dramaturgia de Katori Hall e da direção de Ramos é por escapes de comédia. Ambientação realista, com efeitos de raios e trovões (iluminação de Valmyr Ferreira); elementos de comédia romântica e realismo mágico na narrativa e nas soluções. As trepidações políticas são entrecortadas de humor.

Alguns recursos dramáticos são explorados. com ponto de giro para revelar a verdadeira identidade da camareira atraente e falante, que saca do pensamento de Malcolm X na sua argumentação. A reviravolta para falar sobre desígnios divinos e mistérios da vida – que em princípio provoca estranheza – anuncia a pergunta de quem vai conduzir o bastão.

A peça arremata com homenagem às mulheres e homens de fibra e seus fatos históricos que vieram antes de nós, em vídeos e fotos da composição de Rico e Renato Vilarouca.

Apesar da centralidade do texto e da cena estruturada no diálogo, o espectador está potencializado enquanto criador, que sabe que há uma luta em comum. No palco e na plateia; e principalmente fora do teatro. A refletir sobre os vínculos humanos dentro do sistema capitalista. Essa relação de intersubjetividade traduz a luta antirracismo e por direitos civis, que se materializa no corpo dos atores e do público. E esse espectador, que pleiteia o protagonismo, articula esse deslocamento espaço-temporal do discurso de Memphis para o Brasil de hoje.

Ovacionados após a apresentação, os atores Taís Araújo e Lázaro Ramos se posicionam no circuito da esperança, mesmo com a realidade que exige o debate sobre preconceito e racismo. Emocionados com aquele mar de gente, Lázaro comentou “Momento de luta… Grito junto, claro!”, seguido por mais um Fora Temer! Esses dois vibram e estimulam coragem, autoestima e poder do afeto.

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