Partida de Celibi. Primeiro impacto

Henrique Celibi na peça As Perucas de Bibi. Foto: Ivana Moura

Na peça As Perucas de Bibi, em abril, no Teatro Apolo. Foto: Ivana Moura

A última vez em que encontrei o ator, diretor e dramaturgo Henrique Celibi foi na segunda sessão da peça As Perucas de Bibi, no sábado de Aleluia. Falei com ele rapidinho depois da apresentação, pois aquela noite teria dose dupla de teatro, já que fui ver a Paixão de Cristo do Recife, com José Pimentel. Menos de um mês depois, recebo com pesar a notícia de sua morte. “Levou uma queda, pediu socorro à vizinha que, por sua vez, chamou os Bombeiros. Ele estava todo ensanguentado, com uma perfuração na veia femoral. Foi socorrido, mas sofreu duas paradas cardíacas e não resistiu”, conta a atriz Sharlene Esse, que dividia o palco com Henrique em As Perucas de Bibi. “Quem deu a notícia da morte de Celibi a Américo (Barreto) foi a tia dele, uma senhorinha velhinha”, diz Sharlene. Celibi morava sozinho no bairro do Arruda e inquieto como era já estava articulando os ensaios de uma nova peça, The Celibi Show.

Com ele era assim. Não tinha tempo ruim, nem circunstâncias ideais para fazer algo. Muitas peças surgiram dessa motivação. Cara, coragem e um talento múltiplo. A Bicha Burralheira, a estória que sua mãe não contou; Madleia + ou – doida; Cabaré Diversiones; As Perucas de Bibi.

Poderia achar que foi um acidente estúpido. Mas os acidentes caseiros são traiçoeiros. Logo Celibi, que parecia um homem-aranha a se pendurar em tudo que é lugar, com aquele seu corpinho ágil.

Henrique Celibi, um guerrilheiro dos palcos pernambucanos

Um guerrilheiro dos palcos pernambucanos, em Cabaré Diversiones. Foto: Ivana Moura

Henrique Celibi, ao centro, é autor, diretor, figurinista do espetáculo

Henrique Celibi, ao centro, em Cabaré Diversiones. Foto: Divulgação

Henrique Celibi

Medleia + ou – Doida. Foto: Ivana Moura

Henrique Celibi, Fábio Costa e Guilherme Coelho. Foto: Henrique Celibi/acervo pessoal

Henrique Celibi, Fábio Costa e Guilherme Coelho na época do Vivencial. Foto: Henrique Celibi/ acervo pessoal

Melhor Ator

Melhor Ator do Janeiro de Grandes Espetáculos. Foto: Ivana Moura 

Quando conheci Celibi, em meados da década de 1980, o artista andava às voltas com o texto Cinderela – a história que sua mãe não contou, ainda como esquete  A Bicha Burralheira que apresentou na Boate Misty. Ajudei a divulgar. Gostava daquele menino elétrico e cheio de imaginação. Depois Cinderela virou o megassucesso com a Trupe do Barulho.

Viajamos juntos para o festival de São José do Rio Preto, com uma peça que não sei se foi O Coronel de Macambira ou o Casamento de Catirina. E o que lembro dele desses tempos era uma elegância no andar, uma alegria das pequenas coisas, resistência não alardeada mas que poderia ser captada, persistência na arte e nos sonhos. Mesmo que tudo estivesse desmoronando por dentro, era preciso manter uma pose, uma esperança, alimentar a alegria.

Egresso do Grupo Vivencial, Celibi era um sobrevivente. E criaturas assim têm uma grande capacidade de adaptação aos lugares mais hostis. Com ousadia, garra e criatividade.

Henrique Celibi. Foto: Facebook

Henrique Celibi. Foto: Facebook

Batizado de Valdenou Henrique de Moura, ele entrou no Vivencial aos 14 anos e lá aprendeu a ser ator, diretor, figurinista, cenógrafo, maquiador, dramaturgo e outros sete.

Como decretou Oswald de Andrade, “A alegria é a prova dos nove”. Celibi tinha humor. Um humor que me encantava. Por ser crítico e autocrítico. E era uma voz importante de reflexão no meio da cena teatral recifense, em parte tão autoindulgente e com lentes tão generosas para o seu próprio umbigo.

Quem vai fazer a crítica de dentro das próximas montagens em homenagem ao Vivencial? Enquanto a maioria das vivecas se instalou no conforto de sua sala de jantar, Celibi prosseguia a treinar a iconoclastia que aprendeu no Vivencial.

É bem interessante seu comentário depois da estreia de Puro Lixo, montagem dirigida por Antonio Cadengue, inspirada ou em homenagem ao grupo Vivencial. Celibi ponderou em sua página do Facebook:

“Nunca fomos anjos! Muito pelo contrário, não gostávamos das auréolas. Principalmente as feitas com arminhos. Gostávamos mesmo era de sermos demoníacas: “espelho meu existe alguém pior que eu? Espelho, espelho meu, existe alguém mais terrível do que eu?”… Não. Não existiam! Éramos terríveis, as vivecas! Gostávamos mesmo era de tirar os “chatos” na London, London da virilha de Gal porque éramos nós as tropicais e fatais.

Sabíamos dos demônios que em nós habitavam e como fazer para alimentá-los ou não. E esses deixavam as migalhas das sobras em nossas convivências. Era o que fazíamos com esses demônios que não valem a pena serem alimentados e sim combatidos com gaiatices.
Dávamos muxoxos para as hipocrisias e conceitos estabelecidos. (sem o menor medo de o galo cantar e nos transformarmos em peixes soias da boca torta).

Tínhamos a consciência de que éramos nós as “Cinderelas”, lindas com o vestido de baile, mas, sem o sapatinho de cristal e sim, com os pés sujos da lama em que a sociedade insistia em afundar-se. (ainda insistem).

O espetáculo Puro Lixo é muito bem cuidado, produzido, com um elenco bem dirigido apesar de faltar frescura na “viadagem” vivenciada Por Eduardo Filho, Gil Paz, Marinho Falcao, Paulo Castelo Branco, Samuel Lira. Poderia ser mais vibrante como sugere o título. Com muitos méritos sim. Todos! Mas, o que a mim incomoda no espetáculo é o bem feito, politicamente correto do ser em estar nesse tempo presente.

(…) Nossos manifestos eram quá, quá, quá… Nossos negros eram loiros de cabelos e cabeleiras. Sabíamos de que o certo é na frente mais o que a nós importava era mostrar que o justo mesmo era atrás. Mesmo assim e assim mesmo, com todo o glamour, (que não tínhamos) fico muito gratificado em ser personagem dessa crônica teatral que é um luxo só!”

Ou quando comentou sobre o filme Tatuagem, de Hilton Lacerda. Disse que a obra tem uma atmosfera “Vivencialesca”, mas se cotejada ao grupo Vivencial, o filme é certinho demais. Celibi guardou em si essa anarquia que pautava as peças, ações e intervenções culturais da trupe olindense. “Mangávamos e debochávamos de tudo e de todos”, gostava de dizer.

Seu olhar crítico e debochado, sua língua cheia de humor e, às vezes ferina, sua criatividade transbordante a inventar arte de lixo. Seu carinho pelas pessoas de arte (do teatro, da dança, da performance, do carnaval, do cinema), seu incentivo aos que queriam mergulhar nesse mar.

Ele que vivia sem rede de segurança nos inspirava coragem.

Agora em abril ele postou no Facebook: “Às vezes sinto meu corpo pequeno demais para abrigar meu espirito… E a sensação é muito estranha… Ver que não caibo mais em mim…” Parece um recado para quem acredita em anúncios sobrenaturais.

Mas acho que ele deve estar mangando dele mesmo, desse descuido. Pode estar já se divertindo da saudade que provoca em nós.

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Derivas erótico-sociológicas de Túlio Carella

Orgía Ou De Como Os Corpos Podem Substituir As Ideias, do Teatro Kunyn

Orgía Ou De Como Os Corpos Podem Substituir As Ideias, do Teatro Kunyn

Foi nos anos 1960, na cidade do Recife, que um discreto professor universitário deixou emergir seus secretos desejos homoeróticos e mergulhou na prática homossexual registrada em detalhes no seu caderno. Essas memórias são descritas no livro Orgia, Os Diários de Tulio Carella. A publicação inspirou o Teatro Kunyn, dirigido por Luiz Fernando Marques, a montar a peça itinerante Orgia ou De Como os Corpos Podem Substituir as Ideias, que estreou em 2015. A encenação integra a programação do Trema! Festival de Teatro e faz três apresentações na cidade, de hoje a sexta-feira. A peça começa no Espaço Pasárgada e o público segue para um apartamento, onde será encenado o primeiro ato.

Nessa primeira parte, Carella (interpretado por Ronaldo Serruya, Paulo Arcuri e Luiz Gustavo Jahjah), está de malas prontas para viajar ao Brasil. Contratado pela Universidade Federal de Pernambuco, ele deixa a mulher em Buenos Aires e se encanta com os corpos de homens, do cais do porto e de outros pontos da cidade.O público participa dessa festa de despedida. De lá, segue até o Parque 13 de Maio, munido de aparelhos de MP3 para ouvir as falas sobre as descobertas do dramaturgo argentino.

Serruya, Arcuri e Jahjah circulam e contracenam com os 12 atores pernambucanos selecionados para a oficina Deriva. O espetáculo OrgÍa discute a homoafetividade na esfera pública e vasculha a reação da cidade diante da multiplicidade de desejos.

FICHA TÉCNICA
Criação: Teatro Kunyn (Luiz Fernando Marques, Luiz Gustavo Jahjah, Paulo Arcuri e Ronaldo Serruya)
Direção: Luiz Fernando Marques
Atuação: Luiz Gustavo Jahjah, Paulo Arcuri E Ronaldo Serruya
Dramaturgia Ato I e Ato Ii: Teatro Kunyn
Dramaturgia Ato Iii: Alexandre Dal Farra
Direção De Arte: Yumi Sakate
Iluminação: Wagner Antônio
Assistente De Iluminação: Robson Lima
Desenho De Som: Alessa
Produção: Fernando Gimenes
Realização: Teatro Kunyn E Lei De Fomento Ao Teatro Para A Cidade De São Paulo

SERVIÇO
Orgia Ou De Como Os Corpos Podem Substituir As Ideias
Teatro Kunyn (SP)
Quando: 10, 11 e 12 de maio, às 14h30
Onde: Espaço Pasárgada
Quanto: R$ 20 e R$ 10
Duração: 120 minutos
Recomendação: 18 anos

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O protagonismo é das minas, meu!

Utopyas For Every Day Life com Flávia Pinheiro e Foto: Mayra Azzi

Utopyas For Every Day Life com Flávia Pinheiro e Carolina Bianchi. Foto: Mayra Azzi

19h de uma segunda-feira chuvosa no Recife. Alagamentos nos pontos críticos da cidade, como de costume. No Bairro Velho, no Museu de Artes Afro Brasil, Rua Mariz e Barros, 328, no salão no segundo andar, uma experiência artística potente completava três horas de duração. Das 16 às 19h acompanhamos a movimentação ininterrupta de Flávia Pinheiro e Carolina Bianchi em Utopyas To Everyday Life, numa instalação performática que tem outra sessão hoje como parte da programação do TREMA! Festival de Teatro. Em três horas, as artistas dançaram, se colocaram nos limites de suas forças, palpitaram de vitalidade, se sensibilizaram com violência e levaram para o espaço uma pulsação artística da imaterialidade do presente.

O tempo que pautamos apressado ficou suspenso para o compartilhamento de afetos das performers. Muitos estados transitaram nesse período, estampados no rosto ou corpo das bailarinas. Desânimo (talvez com tudo que ocorre no Brasil de hoje), tristeza (por um amor desfeito, por uma amizade rompida), seguidos por manifestações de alegria, de perseverança, de dor, de força, de cansaço, de prazer, de euforia, de combate ao desprazer, de reconfiguração de crença, de medo passageiro, de coragem sempre.

O título fala dessa perseguição de utopias, que precisa de ânimo, que muitas vezes arranha, mas é uma opção de vida pelo encontro. Confluência das duas artistas, de São Paulo, do Recife e suas geografias nômades. Em oposição ao discurso distópico, essa utopia de fazer arte no país do futebol, de fundar outros territórios legítimos com seus corpos e paixões.

Trabalho no fluxo de destacar a produção feminina

Trabalho no fluxo de destacar a produção feminina

O espaço com muitas janelas abertas permite olhar a realidade distanciada. Um brecha para quem estava dentro dessa Utopya. Sem nenhum apelo à narratividade ou sucessão de fatos, o poder das imagens construídas por essas duas mulheres remete para o caráter brutal do mundo, mas se expõe em outra natureza. De caráter inenarrável.

Sim, elas caminharam pelas veredas da teoria para dar sustentação a essas e outras utopias. Gilles Deleuze, Baruch Espinoza e Eduardo Galeano. Um detalhe aqui, um conceito acolá, uma frase inspiradora para compor esse lugar.

Classificada pela dupla como instalação performática em estado de dança, a peça surgiu da residência artística em São Paulo, em janeiro. Durante 180 minutos elas se mexem ao som de uma playlist de músicas grudadas na memória da pele delas, a incendiar moléculas de ânimo. Uma “goteira infinita” caia em alguns pontos do salão.

O público estava autorizado a se movimentar livremente pelo espaço durante o ato artístico. Uma bailarina entrou no jogo, ajeitou os cabelos de Flávia e se enroscou em contatos de carinho e força.

Nesse processo fragmentado, as artistas correm riscos e aceitam os desafios, exploram possibilidades, aguentam as tensões e diante de limites e impasses inventam novas possibilidades criativas. Utopyas to every day life transita por um espaço – físico e metafórico – em que os corpos se exercem sem lógicas de prescrição.

Performance destaca como se manter vivo e digno

Performance destaca como se manter vivo e digno

Essa Utopya é transformação permanente. Uma guerra cotidiana para se manter vivo e inteiro, com lampejos de pequenos prazeres diários e oásis encontrados no percurso. E o que não chega no fluxo, é produzido com esforço físico / intelectual / energético para criar outra atmosfera.

Muitos vieses políticos podem ser captados na empreitada dessas mulheres que gritam com o suor dos poros contra o machismo e toda e qualquer violência contra a mulher. Que avançam em pernadas para forjar nos deslocamentos a relevância da produção feminina.

O corpo é a arma de combate nesta sociedade heteronormativo. O campo de ação das meninas é ocupado constantemente por elas, que correm saltam, dançam, se unem e separam, transpiram, se machucam no atrito com o chão, com paredes. Se abraçam e se enroscam, perseguem aspirações, estão em guerra, desconstroem-se, viram figuras de arte, tentam voar, ousam flutuar, se tornam memória, cantam baixinho trechos de canções.

Elas se atrevem viver e fazer arte contrapondo o curso do capitalismo, que insiste em transformar tudo em mercadoria. Uma música, um olhar, uma pequena vitória diante dos limites do corpo e das tarefas estressante do cotidiano, alimentam os desejos, dão asas aos impulsos criativos.

Ao entrar nesse jogo, nessa sala, o espectador tem o direito de sair e voltar quantas vezes quiser ou permanecer no recinto o tempo inteiro. A escolha de movimento e posição no espaço se estende ao público, que pode dançar, ficar sentado, deitar e fruir das noções de espetáculo e percepção da composição.

Na estreia, um jovem macho branco e sem noção, não só dançou como também quis competir com as garotas. Da goteira de água que caia do teto ele resolveu jogar pingos nas artistas. Tentou compor cenas e não entendeu que existem limites. Foi derrubado três vezes por Flávia Pinheiro, numa performance incrível da artista. Continuou com a provocação, ou tentativa de roubar o protagonismo da performance, e foi derrubado pela dupla de artistas numa jogada que parecia uma partida de beisebol, aplaudida com entusiasmo pelo público.

Utopyas to every day life segue o caminho errático em que as fronteiras entre vida e arte são constantemente questionadas. E a poesia se inscreve nos corpos de Flávia e Carolina, figuras inquietas que desafiam as formas convencionais de arte. E depois de três horas de trabalho, o espectador leva para casa seu tesouro secreto de imagens, ideias e sensações.

Ficha Técnica
Criação, Direção e Perfomance: Carolina Bianchi e Flavia Pinheiro
Artistas Colaboradores: Marina Matheus, Lucas Vasconcellos, Pedro Gongom, Rodrigo Andreolli, The Macaquinhos (Andrez Lean Ghizze, Thereza Moura Neves, Fernanda Feliz e Caio Cesar)
Cenotécnica: Rafael Limongelli e Zé Andery
Fotos: Mayra Azzi
Vídeos: Ricado Sêco
Produção: Carolina Bianchi e Flavia Pinheiro
Apoio: Trema Festival, Sesc São Paulo, Oficinas Culturais Oswald de Andrade SP, Sexto Andar (PE ) e Casa Liquida (SP)
SERVIÇO
Utopyas to Every Day Life
Quando: Terça-feira, 9 de maio, das 16 às 19h (O público pode chegar a hora que quiser dentro da duração do trabalho)
Onde: MUAFRO – Museu de Artes Afro Brasil (Rua do Apolo, 121, Recife Antigo – Recife – PE)
Quanto: R$ 20,00 inteira e R$ 10,00 meia

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Grandezas negativas da política

Tablado de Arruar traça trajetória do PT para expor barbárie na política. Foto:

Tablado de Arruar traça trajetória de partido de esquerda para expor barbárie na política. Foto: Cacá Bernardes 

Qual o preço ético para se chegar ao poder? O que está em jogo? E que tipos de mudanças um partido político de esquerda precisa fazer para atingir esses objetivos? A montagem do grupo Tablado de Arruar, de São Paulo, trata desse percurso, da realidade política e da crise vivenciada pelo PT nos últimos anos. A Trilogia Abnegação está dividida nas peças Abnegação I, que trata sobre poder e política no Brasil de forma mais difusa. Abnegação II é sobre os trâmites da política e o PT a partir do caso da morte do Celso Daniel. Em Abnegação III são expostos fragmentos, narrativas entrecruzadas, trechos de histórias e personagens envolvidos com a política. E o que sobrou depois das fissuras.

A Trilogia Abnegação focaliza o declínio dos setores progressistas da sociedade e o avançar da direita, no Brasil e no mundo.  Há discursos cínicos de várias figuras da malha social e não só   políticos, truculência nas ações e um clima de insegurança na vida real. Isso fricciona com os assuntos das peças, que traçam suspeição de pactos, traições e suspeitas de crimes.

Apesentada de hoje a quarta-feira, dentro da programação do Trema! Festival de Teatro.  As peças tratam de política e políticos brasileiros (e seus pares de outras profissões), alguns que já foram militantes comprometidos com a utopia de justiça para o coletivo.

Vivemos em tempos de muitas guerras. De nervos, de narrativas. Confrontos físicos nos espaços públicos e uma defesa de interesses privados como sendo público. A realidade é um caleidoscópio em que cada vertente tenta impor sua versão, apagar imprecisões , convencer com o interpretações esdrúxulas das leis ou pela constante repetição de algumas notas pela mídia, que aceitou esse papelão.

O dramaturgo Alexandre Dal Farra e o grupo Tablado de Arruar eletrizam temas polêmicos. Em Mateus, 10, de 2012, eles se lançaram nas questões da fé e sua relação com a sociedade. Abnegação leva à cena as contradições do circuito de poder nos bastidores da política.

Com texto de Dal Farra, que divide a direção com Clayton Mariano, a Abnegação I aborda as relações de poder. Mas não se sabe exatamente sobre o que eles falam, mas dá uma sensação que é em relação à política brasileira.

A encenação minimalista joga a carga no trabalho dos atores para criar de uma atmosfera abarrotada de armadilhas, intrigas e infidelidades. No fim de uma festa, numa reunião madrugada a dentro, cinco personagens ligadas à estrutura de poder debatem sobre o o que deverá ser feito, pois um ocorrência do passado veio à tona. E as decisões podem ter consequências trágicas. Regados a muita bebida, as discussões são permeadas por danças ao som de hits sertanejos e brigas, até a decisão final.

SERVIÇO

Abnegação I
8 de maio, 20h – Teatro Hermilo Borba Filho
Abnegação II – o começo do fim
9 de maio, 20h – Teatro Hermilo Borba Filho
Abnegação 3 – restos
9 de maio, 20h – Teatro Hermilo Borba Filho

Ficha técnica:
Texto: Alexandre Dal Farra
Direção: Clayton Mariano e Alexandre Dal Farra
Com: Alexandra Tavares, André Capuano, Carlos Morelli, Vinícius Meloni e Vitor Vieira.
Direção de arte: Eduardo Climachauska
Assistente de direção: Ligia Oliveira
Preparação corporal: Lu Favoreto
Provocadora: Cibele Forjaz
Figurino: Melina Schleder
Trilha sonora: Alexandre Dal Farra
Iluminação: Francisco Turbiani
Assistente de iluminação: Marcela Katzin
Direção de produção: Carla Estefan
Assistente de produção: Ariane Cuminale
Assessoria de imprensa: Arteplural Comunicação. Fernanda Teixeira e Adriana Balsanelli
Foto divulgação: Cacá Bernardes
Desenho gráfico: Vitor Vieira

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Rock para liberar as ideias

Foto:

Cabeça, Um Documentário Cênico, com o grupo carioca Complexo Duplo. Fotos: Ricardo Brajterman

Cabeça © Foto Ricardo Brajterman (2)

Cabeça © Foto Ricardo Brajterman (3)

Fotos: Ricardo Brajterman

Os anos 1980 não são jurássicos. A tirar pela atualidade das 13 músicas do álbum Cabeça Dinossauro, dos Titãs, lançado em 1986. Era um momento de transição no Brasil, pós-ditadura, e a população andava com sede e fome de democracia. E a música, o rock nacional traduzia muito bem esses desejos de viver sem temor. Os atores / músicos da montagem Cabeça, Um Documentário Cênico eram uns garotos que não decidiam muito, alguns deles nem votavam. Mas todos foram marcados por esses disco.

Os artistas da peça puxam a memória do álbum e sua crítica ao capitalismo, ao estado, à religião e à família para fazer conexões com esses tempos estranhos, obscuros e de retrocessos em algumas conquistas dos direitos civis que vivemos hoje. Cabeça de Dinossauro, dos Titãs, é considerado um dos mais cáusticos discos daquele momento.

Nas pegadas das letras musicais, a dramaturgia segue o espírito contestador e tom crítico.
Dirigido por Felipe Vidal, o espetáculo estreou ano passado, como parte das comemorações dos 30 anos do álbum. Oito homens em cena executam todas as canções de Cabeça Dinossauro. A encenação utiliza também projeções que compõem um painel dos episódios emblemáticos nacionais e mundiais dos anos 1980 em conexão com os dias de hoje. O espetáculo foi o vencedor do Prêmio Shell (RJ) na categoria melhor música.

As memórias dos atuadores também servem de ingredientes da dramaturgia desse espetáculo, que integra a Trilogia Paramusical, que já ergueu a peça Contra o Vento, que celebra os musicais dos anos 1960).

Para traçar esse retrato sonoro de um disco estão em cena Felipe Antello, Felipe Vidal, Guilherme Miranda, Gui Stutz, Leonardo Corajo, Lucas Gouvêa, Luciano Moreira e Sérgio Medeiros.

O espetáculo do Coletivo Complexo Duplo (RJ) faz sessões nos dias 6 e 7 de maio, no Teatro Apolo, no Recife, dentro do Trema! Festival de Teatro.

Três perguntas para o diretor Felipe Vidal

Felipe Vidal é diretor e ator de Cabeça. Foto: Reprodução do Facebook

Felipe Vidal é diretor e ator de Cabeça. Foto: Reprodução do Facebook

O que é Cabeça?
Cabeça uma peça de teatro documentário a partir do álbum Cabeça Dinossauro dos Titãs, mas discutindo mais do que tudo esses últimos 30 anos de história, política principalmente, do Brasil e do mundo a partir dos temas que os Titãs provocaram, colocaram ali no disco, que são muito diretos assim, de contestação às instituições. As músicas têm títulos Família, Igreja, Porrada… Então Cabeça é isso. Um espetáculo que tem um diálogo com um disco de 31 anos atrás, mas que fala sobretudo sobre a história política do Brasil e a partir disso do mundo um pouco nesses últimos 30 anos.

Como está a cabeça do brasileiro hoje?
Como anda a cabeça do brasileiro agora acho que muito dividida né?! dividida em facções muito determinadas assim e também confusa com esse período que a gente tá vivendo. E uma coisa muito curiosa do espetáculo é ao mesmo tempo terrível do Brasil, mas ao mesmo tempo interessante como obra de arte de pensar na potência do que os Titãs construíram foi que um disco contestador em 1986 ele parece que foi escrito, as músicas parecem que foram compostas ontem. Então a gente rodou, rodou, girou e parece que tá indo para o mesmo lugar, E às vezes em retrocesso… Acho que a cabeça do brasileiro hoje está muito confusa e ao mesmo tempo muito dividida em posições muitas antagônicas, muito extremas.

Sobre o futuro. A partir dessa proposta musical, dessas letras, o que projeta, propõe para o futuro, enquanto luta ou enquanto alguma coisa mais esperança…
Acho que qualquer obra de arte contestadora tem como premissa mudar as coisas. Você fala que um lugar é terrível, que a instituição é assim, que a polícia é assim, que a família é assim, mas numa perspectiva de “vamos refletir sobre isso, vamos propor outros caminhos”. Então acho que os Titãs fizeram em 30 anos e a gente nesse diálogo faz essa mesma proposta. A gente está vivendo nesse lugar estranho que esses caras estavam falando há 30 anos. Voltamos um pouco para esse mesmo buraco e aí? O que é que a gente faz? Acho que a peça não tem uma proposta de solução, nada disso, mas é levantando essas perguntas e provocando, para pensar num futuro melhor. E nada melhor nesse sentido do que o rock, a música para mobilizar o corpo de uma maneira muito concreta. As pessoas ficam muito mobilizadas mesmo com a música, que tem essa potência, assim.
Uma coisa que é curiosa é que as pessoas falam assim: “Ah essa peça é boa para a gente assistir de pé”. Eu discordo um pouco. Eu acho que essa tensão de você ter vontade de levantar, de se mexer, de dançar ou alguma coisa assim, e ao mesmo tempo dialogar com o que a gente tá colocando como texto ali, como conteúdo é onde a gente estava querendo chegar. De que esse corpo ficasse tensionado e pudesse explodir no final. A gente faz no final – já dando spoiler – uma proposta de catarse para todo mundo dançar. Então acho que tem a proposta de mexer o corpo para mexer a cabeça, para pensar um futuro melhor.

FICHA TÉCNICA
DRAMATURGIA, DIREÇÃO E CENOGRAFIA: Felipe Vidal
ELENCO: Felipe Antello, Felipe Vidal, Guilherme Miranda, Gui Stutz, Leonardo Corajo, Lucas Gouvêa, Luciano Moreira
e Sergio Medeiros
DIRETOR ASSISTENTE: Rafael Sieg
DIREÇÃO MUSICAL: Luciano Moreira e Felipe Vidal
DIREÇÃO DE MOVIMENTO: Denise Stutz
FIGURINOS: Flavio Souza
ILUMINAÇÃO: Tomás Ribas
VIDEOGRAFISMO PROGRAMAÇÃO VISUAL: Eduardo Souza (PAVÊ)
INTERLOCUÇÃO DRAMATÚRGICA: Daniele Avila Small
DESENHO DE SOM | Branco Ferreira
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Luísa Barros
REALIZAÇÃO: Complexo Duplo
DURAÇÃO DO ESPETÁCULO: 1h50 (com intervalo de 10 minutos)
CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA: 16 anos

SERVIÇO
Cabeça (Um Documentário cênico) – Coletivo Complexo Duplo (RJ)
Quando: 6 de maio, 20h e 7 de maio, às 19h
Onde: Teatro Apolo
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)

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