Expedição de palhaços

Ana Nogueira é convidada especial no Cabaré de Quinta. Foto: Sayonara Freire.

Ana Nogueira é convidada especial no Cabaré de Quinta. Foto: Daniela Nader / Divulgação

Sabemos que esses tempos estão difíceis. A política no Brasil, o Fora Temer que ainda não se concretizou, a ameaça Trump constante. Mas precisamos de combustível para seguir em frente. Um dos melhores e mais eficientes é a alegria. Uma boa gargalhada tem efeitos milagrosos sobre desarranjos gerais em qualquer pessoa. Duvida? Então o desafio está feito. Hoje (18/05), Caravana de Palhaços apresenta o seu Cabaré de Quinta, no Bar do Mamulengo. A noite de Palhaçaria voltada para o público adulto reúne um bando de figuras engraçadas, perspicazes, provocadoras. Gambiarra (Dú Yândi), Gertrudes (Márcia Cruz), Boris Trindade Júnior (Tapioca), Marimbondo (Johann Brehmer), Meia (Anaíra Mahin), Silpatia (Silvia Rangel), Uruba (Fabiana Pirro), Vareta (Natália Lua) e a convidada Dona Pequena (Ana Nogueira). A palhaça Gertrudes assume a função de mestre de cerimônias. A noite segue depois dos números com o comando da DJ Suca (Suenne Sotero).

Nesta noite destinada para o riso, a política não poderia estar de fora. “A gente não é palhaço partidário; mas num dia como hoje, tudo se volta para a política. Esse povo quer fazer a gente de bobo”, pontua Fabiana Pirro. “Tudo deságua na política. Nossa indignação, a vontade gritar… Cabaré de Quinta é um ato político, pois nosso trabalho é na força e na vontade”, acredita. “Mas também tem uma picardia, tem um fogo de cabaré adulto dentro de um bar”, acrescenta Pirro.

Cada palhaço vai apresentar seus números, pois como afirmam os organizadores, não se trata de um espetáculo, mas cenas de palhaço em constante experimentação, números inacabados e reconstruídos a cada nova apresentação com púbico.

Participantes da primeira versão do Cabaré de Quinta. Montagem sobre fotos de Lana Pinho e Sayonara Freire

Participantes da primeira versão do Cabaré de Quinta. Montagem sobre fotos de Lana Pinho e Sayonara Freire

Esse conglomerado de palhaçaria começou com a Caravana de Palhaços (SP/PE) – projeto da Cia. Circo Caravana Tapioca de Giulia Cooper e Anderson Machado, com apoio do Funcultura/Fundarpe  – direcionada para o aperfeiçoamento de circenses e atores com experiência na área. Dividido em módulos, o programa trouxe no ano passado artistas tarimbados do setor para as oficinas. Muitas coisas ficaram desse programa, inclusive a instigação para o intercâmbio, compartilhamento. E principalmente a criação de números circenses voltados para o mercado, o que garante a sustentabilidade de cada artista – para passar o chapéu e saber que suas criações são verdadeiros tesouros.

O coletivo de 15 palhaços faz apresentações em praças, eventos fechados, salas de teatro e espaços culturais. Nessa peleja com o público, os repertórios dos mais diversos naipes são enriquecidos e aplicados nas diversas dramaturgias e espaços. Borica e Márcia Cruz têm várias criações. Dú Yândi leva a experiência do trabalho em sinais de trânsito. Cada um tem a sua característica.

Fabiana Pirro, por exemplo, conta que sua Uruba é selvagem em todos sentidos. “Ela é o que eu queria ser: ingênua e braba e doce. E vai fazer um número com seu bichinho de estimação, mas é surpresa”.

Dona Pequena, a palhaça de Ana Nogueira, exibe o solo Rolamentos, que ela inventou em 2010 e a cada sessão exibe um dado novo. “Estou investigando as possibilidades desse número. Depende da plateia. Espero que hoje, com essa euforia que estamos vivendo desde ontem, tenhamos novidades com os rolamentos de Dona Pequena”

Ficha Técnica

Cabaré de Quinta, com a Caravana de Palhaços
Elenco:
Anaíra Mahin (Meia)
Boris Trindade Jr° (Tapioca)
Dú Yând (Gambiarra)
Fabiana Pirro (Uruba)
Johann Brehmen (Maribondo)
Márcia Cruz (Gertrudes)
Silvia Rangel (Silpatia)
Wagner Montenegro (apoio)
Suenne Sotero (som)

Convidadas:
Ana Nogueira (Dona Pequena)
DJ Suca (Suenne Sotero)

Serviço

Cabaré de Quinta, com a DJ SUCA
Onde: Bar do Mamulengo – (Praça do Arsenal)
Quando: Quinta, 18 maio, 20h
Quanto: R$ 20 e R$ 10

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Um teatro contra o machismo

Trupe Ensaia Aqui e Acolá estreia Machuca, com relatos reais sobre a violência contra a mulher. Foto: Bella Valle

Trupe Ensaia Aqui e Acolá estreia Machuca, com relatos reais sobre a violência contra a mulher. Foto: Bella Valle

Em abril, 126 mulheres foram estupradas em Pernambuco e registrados 2.485 casos de violência doméstica. No mês anterior, houve 174 estupros e 2.929 ocorrências de agressão. Esses dados alarmantes são oficiais, da Secretaria de Defesa Social – SDS, do estado. Crimes inadmissíveis que se repetem pelo Brasil afora. É dessa realidade torturante, que envergonha a humanidade, que a Trupe Ensaia Aqui e Acolá buscou inspiração para erguer o espetáculo Machuca, que estreia nesta sexta-feira (19), às 20h, no Teatro Capiba, Sesc de Casa Amarela, onde fica em curta temporada nos dias 19, 20 e 21 e também 26, 27 e 28. Contemplado pelo Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz 2015, Machuca terá outras cinco apresentações em espaços públicos e uma na Colônia Penal Bom Pastor para as mulheres que cumprem medidas socieducativas.

O grupo investiga histórias reais para estimular o debate sobre o machismo, a cultura do estupro e o patriarcalismo. São casos que enxovalham, arranham, mortificam, subjugam, esmagam física e psicologicamente corpos femininos.

Seja na espetacularização da morte de Eliza Samudio, o apedrejamento de Dandara dos Santos no meio da rua ou o apagamento da dor de Severina, estuprada pelo pai.

Não está fácil ser mulher e se exercer neste século 21, em que o assédio é contabilizado em oito vezes num trajeto de quinze minutos e a repetição de padrões machistas tenta coisificar a mulher. É uma guerra diária contra a misoginia, o racismo e o machismo entranhados na sociedade.

A montagem junta notícias baseadas em histórias verídicas vivenciadas por mulheres de classes sociais e experiências diversas. De casos com grande repercussão midiática e também relatos anônimos. Todos que deixaram marcas profundas de violências dessa sociedade patriarcal carcomida.

Com direção de Ceronha Pontes, Machuca tem elenco formado pelas atrizes Andrea Rosa, Iara Campos e Juliana Montenegro. Elas selecionaram fatos reais, deram um tratamento dramatúrgico e amplificaram a crueldade do machismo. A narrativa é reforçada com discursos de referências feministas como Karol Conka, Nísia Floresta Brasileira, Elizabeth Mia, Djamila Ribeiro, Ângela Davis e Maria Clara Araújo.

É uma peça política e toma partido das mulheres. Machuca é um espetáculo de denúncia, assumidamente feminista e pautado numa palavra que está muito em uso, a sororidade. Durante muito tempo, e ainda hoje, a sociedade machista e patriarcal incitou e propagou a rivalidade entre as mulheres, propalando julgamentos e afirmando estereótipos. A sororidade prega justamente o contrário. A sororidade carrega a ideia de “irmandade” entre as mulheres; uma cumplicidade, companheirismo, aliança do feminino – em dimensão ética, política e prática – na busca de transformar o mundo num lugar mais justo.

Machuca é o terceiro espetáculo da Trupe Ensaia Aqui e Acolá, que já montou Rififi no Picadeiro (2007), para a infância e juventude, e o melodrama O Amor de Clotilde Por Um Certo Leandro Dantas (2010).

Peça tem direção de Ceronha Pontes e Andrea Rosa, Julliana Montenegro e Iara Campos no elenco. Foto: Bella Valle

Peça tem direção de Ceronha Pontes e Andrea Rosa, Julliana Montenegro e Iara Campos no elenco. Foto: Bella Valle

Ficha Técnica

Direção: Ceronha Pontes
Elenco: Andrea Rosa, Iara Campos e Julliana Montenegro
Dramaturgia: Ceronha Pontes e Trupe Ensaia Aqui e Acolá
Direção de movimento: Íris Campos
Preparação vocal: Carlos Ferrera
Figurino e Cenário: Marcondes Lima
Cenotécnicas: Bee Freitas e Luciana Montenegro
Execução de figurino: Maria Lima
Iluminação: Dado Sodi
Trilha sonora original: Júlio Morais
Voz em Dandara: Kalina Adelina, sob orientação de Lucíola dos Santos
Voz em Severina: Ceronha Pontes
Voz em Não nasci para ter senhor: Carlos Ferrera
Todas as músicas criadas por Júlio Morais, exceto Guerreiras, letra e música de Ceronha Pontes e Não nasci para ter senhor letra de Ceronha Pontes e música de Júlio Morais.
Locução futebol: Tatto Medinni
Locução carro de som: Marcelo Oliveira
Programação visual e design: Aurora Yett
Fotos: Bella Valle
Assessoria de imprensa: Lenne Ferreira/Afoitas, Priscila Buhr/Afoitas e Guilherme Gatis
Produção executiva: Igor Travassos
Direção de Produção: Andrea Rosa, Iara Campos e Julliana Montenegro
Produção: Trupe Ensaia Aqui e Acolá

Serviço

Machuca no Teatro Capiba
Dias 19, 20 e 21 e 26, 27 e 28
Sextas e sábados às 20h
Domingos às 19h

Apresentações com Libras: Dias 20 e 21 (sábado e domingo) e 26 (sexta)
Apresentação com audiodescrição: Dia 27 (sábado)

Apresentações na rua
Sempre às 16h
23/05 – Praça do Diário
24/05 – Praça da Encruzilhada
25/05 – Morro da Conceição
30/05 – Ilha de Deus
01/06 – Jardim São Paulo

Apresentação na Colônia Penal Bom Pastor
31/05, às 14h

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Partida de Celibi. Primeiro impacto

Henrique Celibi na peça As Perucas de Bibi. Foto: Ivana Moura

Na peça As Perucas de Bibi, em abril, no Teatro Apolo. Foto: Ivana Moura

A última vez em que encontrei o ator, diretor e dramaturgo Henrique Celibi foi na segunda sessão da peça As Perucas de Bibi, no sábado de Aleluia. Falei com ele rapidinho depois da apresentação, pois aquela noite teria dose dupla de teatro, já que fui ver a Paixão de Cristo do Recife, com José Pimentel. Menos de um mês depois, recebo com pesar a notícia de sua morte. “Levou uma queda, pediu socorro à vizinha que, por sua vez, chamou os Bombeiros. Ele estava todo ensanguentado, com uma perfuração na veia femoral. Foi socorrido, mas sofreu duas paradas cardíacas e não resistiu”, conta a atriz Sharlene Esse, que dividia o palco com Henrique em As Perucas de Bibi. “Quem deu a notícia da morte de Celibi a Américo (Barreto) foi a tia dele, uma senhorinha velhinha”, diz Sharlene. Celibi morava sozinho no bairro do Arruda e inquieto como era já estava articulando os ensaios de uma nova peça, The Celibi Show.

Com ele era assim. Não tinha tempo ruim, nem circunstâncias ideais para fazer algo. Muitas peças surgiram dessa motivação. Cara, coragem e um talento múltiplo. A Bicha Burralheira, a estória que sua mãe não contou; Madleia + ou – doida; Cabaré Diversiones; As Perucas de Bibi.

Poderia achar que foi um acidente estúpido. Mas os acidentes caseiros são traiçoeiros. Logo Celibi, que parecia um homem-aranha a se pendurar em tudo que é lugar, com aquele seu corpinho ágil.

Henrique Celibi, um guerrilheiro dos palcos pernambucanos

Um guerrilheiro dos palcos pernambucanos, em Cabaré Diversiones. Foto: Ivana Moura

Henrique Celibi, ao centro, é autor, diretor, figurinista do espetáculo

Henrique Celibi, ao centro, em Cabaré Diversiones. Foto: Divulgação

Henrique Celibi

Medleia + ou – Doida. Foto: Ivana Moura

Henrique Celibi, Fábio Costa e Guilherme Coelho. Foto: Henrique Celibi/acervo pessoal

Henrique Celibi, Fábio Costa e Guilherme Coelho na época do Vivencial. Foto: Henrique Celibi/ acervo pessoal

Melhor Ator

Melhor Ator do Janeiro de Grandes Espetáculos. Foto: Ivana Moura 

Quando conheci Celibi, em meados da década de 1980, o artista andava às voltas com o texto Cinderela – a história que sua mãe não contou, ainda como esquete  A Bicha Burralheira que apresentou na Boate Misty. Ajudei a divulgar. Gostava daquele menino elétrico e cheio de imaginação. Depois Cinderela virou o megassucesso com a Trupe do Barulho.

Viajamos juntos para o festival de São José do Rio Preto, com uma peça que não sei se foi O Coronel de Macambira ou o Casamento de Catirina. E o que lembro dele desses tempos era uma elegância no andar, uma alegria das pequenas coisas, resistência não alardeada mas que poderia ser captada, persistência na arte e nos sonhos. Mesmo que tudo estivesse desmoronando por dentro, era preciso manter uma pose, uma esperança, alimentar a alegria.

Egresso do Grupo Vivencial, Celibi era um sobrevivente. E criaturas assim têm uma grande capacidade de adaptação aos lugares mais hostis. Com ousadia, garra e criatividade.

Henrique Celibi. Foto: Facebook

Henrique Celibi. Foto: Facebook

Batizado de Valdenou Henrique de Moura, ele entrou no Vivencial aos 14 anos e lá aprendeu a ser ator, diretor, figurinista, cenógrafo, maquiador, dramaturgo e outros sete.

Como decretou Oswald de Andrade, “A alegria é a prova dos nove”. Celibi tinha humor. Um humor que me encantava. Por ser crítico e autocrítico. E era uma voz importante de reflexão no meio da cena teatral recifense, em parte tão autoindulgente e com lentes tão generosas para o seu próprio umbigo.

Quem vai fazer a crítica de dentro das próximas montagens em homenagem ao Vivencial? Enquanto a maioria das vivecas se instalou no conforto de sua sala de jantar, Celibi prosseguia a treinar a iconoclastia que aprendeu no Vivencial.

É bem interessante seu comentário depois da estreia de Puro Lixo, montagem dirigida por Antonio Cadengue, inspirada ou em homenagem ao grupo Vivencial. Celibi ponderou em sua página do Facebook:

“Nunca fomos anjos! Muito pelo contrário, não gostávamos das auréolas. Principalmente as feitas com arminhos. Gostávamos mesmo era de sermos demoníacas: “espelho meu existe alguém pior que eu? Espelho, espelho meu, existe alguém mais terrível do que eu?”… Não. Não existiam! Éramos terríveis, as vivecas! Gostávamos mesmo era de tirar os “chatos” na London, London da virilha de Gal porque éramos nós as tropicais e fatais.

Sabíamos dos demônios que em nós habitavam e como fazer para alimentá-los ou não. E esses deixavam as migalhas das sobras em nossas convivências. Era o que fazíamos com esses demônios que não valem a pena serem alimentados e sim combatidos com gaiatices.
Dávamos muxoxos para as hipocrisias e conceitos estabelecidos. (sem o menor medo de o galo cantar e nos transformarmos em peixes soias da boca torta).

Tínhamos a consciência de que éramos nós as “Cinderelas”, lindas com o vestido de baile, mas, sem o sapatinho de cristal e sim, com os pés sujos da lama em que a sociedade insistia em afundar-se. (ainda insistem).

O espetáculo Puro Lixo é muito bem cuidado, produzido, com um elenco bem dirigido apesar de faltar frescura na “viadagem” vivenciada Por Eduardo Filho, Gil Paz, Marinho Falcao, Paulo Castelo Branco, Samuel Lira. Poderia ser mais vibrante como sugere o título. Com muitos méritos sim. Todos! Mas, o que a mim incomoda no espetáculo é o bem feito, politicamente correto do ser em estar nesse tempo presente.

(…) Nossos manifestos eram quá, quá, quá… Nossos negros eram loiros de cabelos e cabeleiras. Sabíamos de que o certo é na frente mais o que a nós importava era mostrar que o justo mesmo era atrás. Mesmo assim e assim mesmo, com todo o glamour, (que não tínhamos) fico muito gratificado em ser personagem dessa crônica teatral que é um luxo só!”

Ou quando comentou sobre o filme Tatuagem, de Hilton Lacerda. Disse que a obra tem uma atmosfera “Vivencialesca”, mas se cotejada ao grupo Vivencial, o filme é certinho demais. Celibi guardou em si essa anarquia que pautava as peças, ações e intervenções culturais da trupe olindense. “Mangávamos e debochávamos de tudo e de todos”, gostava de dizer.

Seu olhar crítico e debochado, sua língua cheia de humor e, às vezes ferina, sua criatividade transbordante a inventar arte de lixo. Seu carinho pelas pessoas de arte (do teatro, da dança, da performance, do carnaval, do cinema), seu incentivo aos que queriam mergulhar nesse mar.

Ele que vivia sem rede de segurança nos inspirava coragem.

Agora em abril ele postou no Facebook: “Às vezes sinto meu corpo pequeno demais para abrigar meu espirito… E a sensação é muito estranha… Ver que não caibo mais em mim…” Parece um recado para quem acredita em anúncios sobrenaturais.

Mas acho que ele deve estar mangando dele mesmo, desse descuido. Pode estar já se divertindo da saudade que provoca em nós.

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Derivas erótico-sociológicas de Túlio Carella

Orgía Ou De Como Os Corpos Podem Substituir As Ideias, do Teatro Kunyn

Orgía Ou De Como Os Corpos Podem Substituir As Ideias, do Teatro Kunyn

Foi nos anos 1960, na cidade do Recife, que um discreto professor universitário deixou emergir seus secretos desejos homoeróticos e mergulhou na prática homossexual registrada em detalhes no seu caderno. Essas memórias são descritas no livro Orgia, Os Diários de Tulio Carella. A publicação inspirou o Teatro Kunyn, dirigido por Luiz Fernando Marques, a montar a peça itinerante Orgia ou De Como os Corpos Podem Substituir as Ideias, que estreou em 2015. A encenação integra a programação do Trema! Festival de Teatro e faz três apresentações na cidade, de hoje a sexta-feira. A peça começa no Espaço Pasárgada e o público segue para um apartamento, onde será encenado o primeiro ato.

Nessa primeira parte, Carella (interpretado por Ronaldo Serruya, Paulo Arcuri e Luiz Gustavo Jahjah), está de malas prontas para viajar ao Brasil. Contratado pela Universidade Federal de Pernambuco, ele deixa a mulher em Buenos Aires e se encanta com os corpos de homens, do cais do porto e de outros pontos da cidade.O público participa dessa festa de despedida. De lá, segue até o Parque 13 de Maio, munido de aparelhos de MP3 para ouvir as falas sobre as descobertas do dramaturgo argentino.

Serruya, Arcuri e Jahjah circulam e contracenam com os 12 atores pernambucanos selecionados para a oficina Deriva. O espetáculo OrgÍa discute a homoafetividade na esfera pública e vasculha a reação da cidade diante da multiplicidade de desejos.

FICHA TÉCNICA
Criação: Teatro Kunyn (Luiz Fernando Marques, Luiz Gustavo Jahjah, Paulo Arcuri e Ronaldo Serruya)
Direção: Luiz Fernando Marques
Atuação: Luiz Gustavo Jahjah, Paulo Arcuri E Ronaldo Serruya
Dramaturgia Ato I e Ato Ii: Teatro Kunyn
Dramaturgia Ato Iii: Alexandre Dal Farra
Direção De Arte: Yumi Sakate
Iluminação: Wagner Antônio
Assistente De Iluminação: Robson Lima
Desenho De Som: Alessa
Produção: Fernando Gimenes
Realização: Teatro Kunyn E Lei De Fomento Ao Teatro Para A Cidade De São Paulo

SERVIÇO
Orgia Ou De Como Os Corpos Podem Substituir As Ideias
Teatro Kunyn (SP)
Quando: 10, 11 e 12 de maio, às 14h30
Onde: Espaço Pasárgada
Quanto: R$ 20 e R$ 10
Duração: 120 minutos
Recomendação: 18 anos

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O protagonismo é das minas, meu!

Utopyas For Every Day Life com Flávia Pinheiro e Foto: Mayra Azzi

Utopyas For Every Day Life com Flávia Pinheiro e Carolina Bianchi. Foto: Mayra Azzi

19h de uma segunda-feira chuvosa no Recife. Alagamentos nos pontos críticos da cidade, como de costume. No Bairro Velho, no Museu de Artes Afro Brasil, Rua Mariz e Barros, 328, no salão no segundo andar, uma experiência artística potente completava três horas de duração. Das 16 às 19h acompanhamos a movimentação ininterrupta de Flávia Pinheiro e Carolina Bianchi em Utopyas To Everyday Life, numa instalação performática que tem outra sessão hoje como parte da programação do TREMA! Festival de Teatro. Em três horas, as artistas dançaram, se colocaram nos limites de suas forças, palpitaram de vitalidade, se sensibilizaram com violência e levaram para o espaço uma pulsação artística da imaterialidade do presente.

O tempo que pautamos apressado ficou suspenso para o compartilhamento de afetos das performers. Muitos estados transitaram nesse período, estampados no rosto ou corpo das bailarinas. Desânimo (talvez com tudo que ocorre no Brasil de hoje), tristeza (por um amor desfeito, por uma amizade rompida), seguidos por manifestações de alegria, de perseverança, de dor, de força, de cansaço, de prazer, de euforia, de combate ao desprazer, de reconfiguração de crença, de medo passageiro, de coragem sempre.

O título fala dessa perseguição de utopias, que precisa de ânimo, que muitas vezes arranha, mas é uma opção de vida pelo encontro. Confluência das duas artistas, de São Paulo, do Recife e suas geografias nômades. Em oposição ao discurso distópico, essa utopia de fazer arte no país do futebol, de fundar outros territórios legítimos com seus corpos e paixões.

Trabalho no fluxo de destacar a produção feminina

Trabalho no fluxo de destacar a produção feminina

O espaço com muitas janelas abertas permite olhar a realidade distanciada. Um brecha para quem estava dentro dessa Utopya. Sem nenhum apelo à narratividade ou sucessão de fatos, o poder das imagens construídas por essas duas mulheres remete para o caráter brutal do mundo, mas se expõe em outra natureza. De caráter inenarrável.

Sim, elas caminharam pelas veredas da teoria para dar sustentação a essas e outras utopias. Gilles Deleuze, Baruch Espinoza e Eduardo Galeano. Um detalhe aqui, um conceito acolá, uma frase inspiradora para compor esse lugar.

Classificada pela dupla como instalação performática em estado de dança, a peça surgiu da residência artística em São Paulo, em janeiro. Durante 180 minutos elas se mexem ao som de uma playlist de músicas grudadas na memória da pele delas, a incendiar moléculas de ânimo. Uma “goteira infinita” caia em alguns pontos do salão.

O público estava autorizado a se movimentar livremente pelo espaço durante o ato artístico. Uma bailarina entrou no jogo, ajeitou os cabelos de Flávia e se enroscou em contatos de carinho e força.

Nesse processo fragmentado, as artistas correm riscos e aceitam os desafios, exploram possibilidades, aguentam as tensões e diante de limites e impasses inventam novas possibilidades criativas. Utopyas to every day life transita por um espaço – físico e metafórico – em que os corpos se exercem sem lógicas de prescrição.

Performance destaca como se manter vivo e digno

Performance destaca como se manter vivo e digno

Essa Utopya é transformação permanente. Uma guerra cotidiana para se manter vivo e inteiro, com lampejos de pequenos prazeres diários e oásis encontrados no percurso. E o que não chega no fluxo, é produzido com esforço físico / intelectual / energético para criar outra atmosfera.

Muitos vieses políticos podem ser captados na empreitada dessas mulheres que gritam com o suor dos poros contra o machismo e toda e qualquer violência contra a mulher. Que avançam em pernadas para forjar nos deslocamentos a relevância da produção feminina.

O corpo é a arma de combate nesta sociedade heteronormativo. O campo de ação das meninas é ocupado constantemente por elas, que correm saltam, dançam, se unem e separam, transpiram, se machucam no atrito com o chão, com paredes. Se abraçam e se enroscam, perseguem aspirações, estão em guerra, desconstroem-se, viram figuras de arte, tentam voar, ousam flutuar, se tornam memória, cantam baixinho trechos de canções.

Elas se atrevem viver e fazer arte contrapondo o curso do capitalismo, que insiste em transformar tudo em mercadoria. Uma música, um olhar, uma pequena vitória diante dos limites do corpo e das tarefas estressante do cotidiano, alimentam os desejos, dão asas aos impulsos criativos.

Ao entrar nesse jogo, nessa sala, o espectador tem o direito de sair e voltar quantas vezes quiser ou permanecer no recinto o tempo inteiro. A escolha de movimento e posição no espaço se estende ao público, que pode dançar, ficar sentado, deitar e fruir das noções de espetáculo e percepção da composição.

Na estreia, um jovem macho branco e sem noção, não só dançou como também quis competir com as garotas. Da goteira de água que caia do teto ele resolveu jogar pingos nas artistas. Tentou compor cenas e não entendeu que existem limites. Foi derrubado três vezes por Flávia Pinheiro, numa performance incrível da artista. Continuou com a provocação, ou tentativa de roubar o protagonismo da performance, e foi derrubado pela dupla de artistas numa jogada que parecia uma partida de beisebol, aplaudida com entusiasmo pelo público.

Utopyas to every day life segue o caminho errático em que as fronteiras entre vida e arte são constantemente questionadas. E a poesia se inscreve nos corpos de Flávia e Carolina, figuras inquietas que desafiam as formas convencionais de arte. E depois de três horas de trabalho, o espectador leva para casa seu tesouro secreto de imagens, ideias e sensações.

Ficha Técnica
Criação, Direção e Perfomance: Carolina Bianchi e Flavia Pinheiro
Artistas Colaboradores: Marina Matheus, Lucas Vasconcellos, Pedro Gongom, Rodrigo Andreolli, The Macaquinhos (Andrez Lean Ghizze, Thereza Moura Neves, Fernanda Feliz e Caio Cesar)
Cenotécnica: Rafael Limongelli e Zé Andery
Fotos: Mayra Azzi
Vídeos: Ricado Sêco
Produção: Carolina Bianchi e Flavia Pinheiro
Apoio: Trema Festival, Sesc São Paulo, Oficinas Culturais Oswald de Andrade SP, Sexto Andar (PE ) e Casa Liquida (SP)
SERVIÇO
Utopyas to Every Day Life
Quando: Terça-feira, 9 de maio, das 16 às 19h (O público pode chegar a hora que quiser dentro da duração do trabalho)
Onde: MUAFRO – Museu de Artes Afro Brasil (Rua do Apolo, 121, Recife Antigo – Recife – PE)
Quanto: R$ 20,00 inteira e R$ 10,00 meia

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