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Festival Recife anuncia programação

Escuro, da Companhia Hiato, abre o festival

E lá vamos nós rumo ao Festival Recife do Teatro Nacional, que acontece entre os dias 16 e 28 deste mês. A coletiva do anúncio da programação foi realizada esta manhã, no Teatro Hermilo Borba Filho. A curadoria é de Valmir Santos e a coordenação de Vavá Schön-Paulino. O homenageado é o grupo Vivencial e a curadoria optou prioritariamente pelos trabalhos coletivos, sob o tema O desafio convivencial.

Cerimônia de abertura
Homenagem: Grupo de Teatro Vivencial (Olinda, 1974-1983)
Local: Teatro Luiz Mendonça – Parque Dona Lindu
Dia: 16/11 (quarta-feira)
Horário: 20h

Espetáculo: Escuro / Companhia Hiato (SP)
Local: Teatro Luiz Mendonça – Parque Dona Lindu
Dias: 16 e 17/11 (quarta e quinta-feira)
Horário: 21h
Sinopse: Um menino míope com uma estranha capacidade de ouvir segredos passa suas tardes mergulhando na piscina de um clube. Uma senhora recebe a costureira para aulas de natação – sem uma piscina, elas usam pequenas tigelas cheias de água. Um homem convive com a perda da fala enquanto ensaia seu discurso em aquários vazios. Uma professora prepara sua aluna para um torneio esportivo para deficientes. Nele, esses personagens incomuns se cruzam, ameaçados pela chuva iminente e prestes a compartilhar uma pequena tragédia. O segundo espetáculo do núcleo paulista fundado em 2007 se utiliza de uma estrutura bastante comum na dramaturgia audiovisual: narrativas ligadas em redes, fatos convergentes e vidas transpostas. Através de estranhamentos bem-humorados, a montagem de 2009 reflete sobre outras formas de percepção da realidade, outras perspectivas sobre o cotidiano e outras estratégias de comunicação entre as pessoas. O texto abre espaços de irrealidade em um dia de quatro núcleos de personagens, nos anos 1950, ligados por inadequação e perda da linguagem. (www.ciahiato.com.br)

Espetáculo: Oxigênio / Companhia brasileira de teatro (PR)
Local: Teatro Hermilo Borba Filho
Dias: 17 e 18/11 (quinta e sexta-feira)
Horário: 21h
Sinopse: A montagem do final de 2010 introduz no Brasil a obra de Ivan Viripaev, dramaturgo russo de 37 anos nascido na Sibéria e até então inédito no país. A estrutura dessa peça escrita entre 2001 e 2002 tem forte identificação com o trabalho do núcleo em atividade em Curitiba desde 1999. A musicalidade da palavra expressa no texto e a revisão do teatro como forma de contato com a plateia são alguns dos elementos convergentes. A narrativa aborda uma espiral de assuntos contemporâneos como violência, terrorismo, racionalidade, consumismo. Discute tudo isso investigando sobre o que é essencial na existência. A trama parte de um crime passional. Acusado pelo assassinato da própria mulher, um homem do campo é condenado juntamente com sua amante que conhece na cidade. O homem e a amante atendem pelo mesmo nome: Sacha. São eles que estão em cena. Os dois atores surgem acompanhados por dois músicos. Eis a “banda” à qual toca dar conta dessa fábula que discute polêmica e poeticamente os dramas de geração e o que é o “oxigênio” de cada habitante deste planeta. (www.companhiabrasileira.art.br)

Espetáculo: Áfricas / Bando de Teatro Olodum (BA)
Local: Teatro de Santa Isabel
Dias: 18 e 19/11 (sexta-feira e sábado)
Horários: às 19h no dia 18 e às 16h30 no dia 19
Sinopse: Há 21 anos, o núcleo tem construído obras que revelam elementos e estéticas impregnados da riqueza cultural africana, da qual o Brasil é um dos principais herdeiros. O primeiro espetáculo infanto-juvenil do grupo, estreado em 2007, traz à cena o continente africano por meio de suas histórias, seus povos, seus mitos e religiosidades. A peça visita esse universo mobilizada por suprir a escassez de referenciais no imaginário infantil, povoado de fábulas e personagens eurocêntricos. Os personagens revelam o modo de ser, a inerência espiritual, as formas de se relacionar com a natureza, com o sagrado. São características ancestrais que unem o território brasileiro, em especial a Bahia, ao continente negro. Música, dança e cores conjugam um espetáculo poético que tem encantado adultos e crianças por onde circula, despertando em cada um o orgulho da afrodescendência. A encenação deseja despertar a curiosidade de todos para conhecer mais sobre essas raízes fundamentais. O Bando é um dos fortes braços do bloco Olodum na resistência e afirmação da comunidade negra em Salvador. (www.bandodeteatro.blogspot.com)

Espetáculo: Madleia + ou – Doida / Companhia do Chiste PE
Local: Teatro Hermilo Borba Filho
Dias: 19 e 20/11 (sábado e domingo)
Horário: 21h
Sinopse: O Espetáculo apóia-se na colagem teatral, composição de cenas com fragmentos e citações textuais, visuais ou musicais de diferentes épocas e estilos. O ponto de partida é o mito grego Medeia, a neta do sol e rainha de uma terra bárbara que, apaixonada, entrega o tesouro de seu povo ao navegante Jasão. Traída, ela se vinga sacrificando o reino e seus próprios filhos. A fonte primária dessa trama que hoje instiga várias releituras é a obra-prima de Eurípides, cerca de 2.500 anos atrás. Seu texto, mais o da dupla Paulo Pontes e Chico Buarque (a versão Gota D´Água) são estilhaçados pela vizinhança de letras do cancioneiro popularíssimo, os pendores tragicômicos e melodramáticos. O roteiro de Celibi, artista que iniciou a carreira em 1979 no Grupo de Teatro Vivencial, converge para essa modalidade historicamente cara aos palcos brasileiros, pois permitia às companhias apresentar cenas de autores diversos à altura da economia de suas produções ou de acordo com a urgência da época. Um exemplo desse recurso é a peça Liberdade, Liberdade (1965), de Millôr Fernandes e Flávio Rangel, na gênese da ditadura civil-militar no país. (www.companhiadochiste.blogspot.com)

Espetáculo: Cachorro Morto / Companhia Hiato (SP)
Local: Teatro Apolo
Dias: 20 e 21/11 (domingo e segunda-feira)
Horário: 19h
Sinopse: O espetáculo de 2007 é fundador do núcleo interessado em investigar diferentes formas de comportamento, pensamento, compreensão e sensação do mundo como matéria-prima artística. Um autista sabe tudo sobre matemática e quase nada sobre seres humanos – assim como seus pais e professores definitivamente não sabem lidar com suas necessidades especiais. Thiago conhece de cor todos os países do mundo e suas capitais, assim como os números primos até 7.507. Luciana gosta do estado de Massachusetts, mas não entende nada de relações humanas. Maria Amélia adora listas, padrões e verdades absolutas. Aline odeia amarelo e marrom e, acima de tudo, ser tocada por alguém. Sob os próprios nomes, atores mergulham na ficção para emprestar corpos e emoções a uma outra vida e, ao confundir realidade e ficção, nos contam a história de um portador da Síndrome de Asperger. Certo dia, eles encontram o cachorro da vizinha morto no jardim. São acusados de assassinato e presos. Após uma noite na cadeia, decidem descobrir quem matou o animal montando “uma peça de mistério e assassinato”. (www.ciahiato.com.br)

Espetáculo: Descartes com Lentes / Companhia brasileira de teatro (PR)
Local: Teatro de Santa Isabel
Dias: 21 e 22/11 (segunda e terça-feira)
Horário: 17h
Sinopse: Durante a pesquisa para a criação da peça Vida, o núcleo se deparou com o conto homônimo de juventude do poeta curitibano Paulo Leminski (1944-1989). Passou a decifrar as estruturas de linguagem, o emaranhado de referências arcaicas, indígenas e filosóficas. Por trás do seu eruditismo, despontam as veias popular, bem-humorada e crítica essenciais ao escritor. Nesse conto-fluxo, ele imagina uma hipotética visita do filósofo francês René Descartes (1596-1650) ao Brasil, convidado pelo conde Maurício de Nassau (1604-1679), de origem alemã e governador da colônia holandesa no Nordeste. Com sua comitiva de cientistas, naturalistas, desenhistas e pintores, Descartes desembarca em Vrijburg, atual Recife, no afã de desvendar e descrever as excentricidades e belezas nativas em contraste com o pensamento cartesiano. Concluído nos anos 1960, o conto é considerado embrião de Catatau, obra-prima do autor. O solo mergulha como náufrago nessa narrativa desenfreada e exercita as interseções com o teatro; a possibilidade de contar essa história através do corpo da atriz e da sua presença manifesta. (www.companhiabrasileira.art.br)

Peças da Companhia Brasileira de Teatro, como a premiada Vida, estão na programação

Espetáculo: Vida / Companhia Brasileira de Teatro(PR
Local: Teatro de Santa Isabel
Dias: 21 e 22/11 (segunda e terça-feira)
Horário: 21h
Sinopse: Exilados numa cidade imaginária, dois homens e duas mulheres fazem parte de uma banda que ensaia para uma apresentação comemorativa do jubileu da cidade. Fechados numa sala vazia, eles convivem entre si e revelam comportamentos, relações, conflitos e histórias. Resultam erupções de suas existências prosaicas, repletas de humor, sensibilidade e um sentido de transformação. A partir da relação dos quatro personagens em mutação – transformando a si próprios e aos outros, assim como ao ambiente que os cerca –, brota e flui uma viagem para a mudança. Mudar ou não conseguir mudar e apenas ver. Com esse argumento simples, o espetáculo traz para a cena o resultado de um longo período de pesquisas sobre a obra do escritor curitibano Paulo Leminski. A peça não é a adaptação de uma obra literária, mas sim um texto original escrito a partir da experiência de leitura e de convivência criativa com os textos do autor e suas referências. Criada por André Abujamra, a trilha sonora promove o encontro de várias referências, em sintonia com o espírito do poeta e de toda a montagem. (www.companhiabrasileira.art.br)

Espetáculo: O Jardim / Companhia Hiato (SP)
Local: Teatro Luiz Mendonça – Parque Dona Lindu
Dias: 22 e 23/11 (terça e quarta-feira)
Horário: 21h
Sinopse: O terceiro Espetáculo criado pelo núcleo estreou em maio deste ano. A narrativa tripartida aborda a memória humana sob os reflexos da perda (em particular o estudo da doença de Alzheimer), do apagamento e da invenção. Em cena, histórias de tempos e espaços diferentes se sobrepõem, criam fricções entre si, se completam ou se contradizem. Essas diferentes perspectivas criam um jogo fractal de reconhecimento e estranhamento das situações apresentadas e reapresentadas de forma vertiginosa. Propõe-se um jogo com a própria memória do espectador que, ao rever uma cena já vista – mas desta vez cheia de lacunas –, é levado a recriar em sua memória os diálogos, é conduzido a reinventar a cena sob seu olhar e lembrança intransferíveis: a subjetividade implícita em cada encontro.
O público é distribuído em três espaços distintos. Sua visão é parcial, já que o cenário de caixas de papelão é construído e reconstruído de modo a criar mundos imaginários, transformar momentos já vistos e fragmentar a fruição da fábula. Tudo isso para expressar, não só estética como dramaturgicamente, o ato criativo que é rememorar. (www.ciahiato.com.br)

Espetáculo: Por Que a Criança Cozinha na Polenta / Companhia Mungunzá de Teatro (SP)
Local: Teatro Apolo
Dias: 23 e 24/11 (quarta e quinta-feira)
Horário: 19h
Sinopse: O espetáculo de 2008 marca o encontro do núcleo paulista, formado dois anos antes, com o diretor – e de ambos com a escritora romena Aglaja Veteranyi (1962-2002). Trata-se de adaptação do romance de mesmo nome em que a autora recria sua memória de infância numa família de artistas de circo. As violências subliminares ou diretas do pai e da mãe, o álcool e a miséria corroboraram uma época de turbulências política e social sob a ditadura Ceausescu, o presidente executado em praça pública após insurreição popular no país do leste europeu, em 1989. Na peça, a mãe se pendura no trapézio pelos cabelos todas as noites. O pai é um palhaço e ateu, diz que “os homens acreditam menos em Deus do que as mulheres e as crianças por causa da concorrência”. A narrativa, por uma adolescente que se defende da degradação sob a ótica infantil, resulta lírica e cruel. No exílio, ao lado da irmã mais velha, ela vê seus ideais despedaçados. “A criança cozinhando na polenta” é um dito romeno equivalente ao “bicho papão” brasileiro. Não é uma obra sobre comida. Tampouco enredo infantil. Ou talvez seja ambos. Mas é diferente. Não é para crianças. (www.ciamungunzadeteatro.blogspot.com)

Espetáculo: Jaguar Cibernético / Coletivo de atores reunidos por Francisco Carlos (SP)
Local: Teatro Marco Camarotti
Dias: 23 e 24/11 (quarta e quinta-feira)
Horário: 21h
Sinopse: Dramaturgo conhecido de leituras realizadas no âmbito do próprio FRTN, em 2007, desta vez será possível conferir o amazonense Francisco Carlos na função cumulativa de diretor, ele que tem formação em filosofia. Da tetralogia filiada ao seu ciclo do “pensamento selvagem”, versando sobre temas indígenas e relações de alteridade entre culturas, são acolhidas aqui duas peças autônomas e encenadas na mesma noite. Em Banquete Tupinambá, um ritual acontece 500 anos atrás. Um sogro, uma noiva, um noivo prisioneiro e um cunhado, canibais, bebem cauim, o “suco-da-memória”, contagiados pela chegada do Jaguar entre trocas e alianças e guerras de vinganças. Em Xamanismo the Conection, uma reunião imaginária de drogados é mediada por um jovem Xamã à espera de cowboy, um traficante que não aparece nunca, enquanto Alice Ecstasy media a relação-inimiga do namorado e do irmão. Através de espelhos, essa figura conecta estudantes de maio de 1968, zapatistas cyborgues, latas de sopas Campbell´s, baile de humanos e animais, as Mademoseilles de Avignon, de Pablo Picasso, e um dândi Jaguar.

Espetáculo: Estar Aqui ou Ali? / Visível Núcleo de Criação (PE)
Local: Terminais de Integração Macaxeira e Barro
Dias: 25 e 26/11 (sexta-feira, Macaxeira e sábado, Barro)
Horário: 18h
Sinopse: Terceiro projeto solo do intérprete-criador pernambucano Kleber Lourenço. Funde as linguagens do teatro e da performance. O processo de elaboração se deu em etapas, desde 2008, através de residências e observações por cidades brasileiras. Foi contemplado no Programa de Candidaturas Internacionais do LAC – Laboratório de Actividades Criativas da cidade de Lagos, em Portugal, onde o artista desenvolveu residência. O espetáculo/intervenção teve cocriação e colaboração dramatúrgica do coreógrafo Jorge Alencar, diretor-artístico do grupo Dimenti, de Salvador. O trabalho busca o diálogo artístico entre corpo e espaço urbano. Maneja conceitos como ressignificação, deslocamento, diluição de fronteiras e territórios físicos e imaginários. Processa no corpo a experiência do trânsito e suas diferentes paisagens. Constrói uma dramaturgia estilhaçada, carnavalizada, já que se percebe (e se encanta) por meio de identificações culturais provisórias, vacilantes e confusas. Navega pelo espaço público e privado, invade corpos disponíveis para construir um guia prático, histórico e sentimental da ocupação. (www.visivelnucleo.blogspot.com)

Espetáculo: Luis Antonio – Gabriela / Companhia Mungunzá de Teatro (SP)

Local: Teatro Luiz Mendonça – Parque Dona Lindu
Dias: 25 e 26/11 (sexta-feira e sábado)
Horário: 21h
Sinopse: O autonomeado documentário cênico abre no ano de 1953 com o nascimento de Luis Antonio, filho mais velho de cinco irmãos. Ele passa infância, adolescência e parte da juventude em Santos, no litoral paulista, até ir embora para a Espanha aos 30 anos. O segundo espetáculo desse núcleo, em cartaz desde março passado, foi construído a partir de acontecimentos e relatos de familiares e amigos do personagem homossexual. O diretor e coautor da peça é seu irmão caçula na vida real. Foi abusado sexualmente pelo próprio e o manteve na sombra por três décadas, até a sua localização no exterior, debilitado pelas drogas e pela Aids. Baskerville assume corajosamente a voz autobiográfica na cena e na dramaturgia, agregando pontos de vista da irmã Maria Cristina, da madrasta Doracy e do amigo do primogênito, o cabeleireiro Serginho. A narrativa avança até 2006, quando Luis Antonio morre em Bilbao, onde vivera até então sob o batismo artístico de Gabriela. A criação colaborativa transforma o espaço cênico numa instalação na qual os atores também manipulam a luz e o vídeo, além de cantar e tocar instrumentos. (www.ciamungunzadeteatro.blogspot.com)

Espetáculo: Minha Cidade / Teatro Marco Zero (PE)
Local: Teatro Barreto Junior
Dias: 26 e 27/11 (sábado e domingo)
Horário: 16h sábado e 10h domingo
Sinopse: Duas crianças constroem uma cidade imaginária a partir das peças do jogo Brincando de Engenheiro. Cada aspecto da vida desse lugar é posto em questão, como se correspondessem aos tijolos dessa obra: a paisagem natural, a paisagem transformada, a moradia, o transporte, o trabalho, a escola, o lazer etc. Na perspectiva do espaço de cohabitação como organismo social, o público acompanha o nascimento e o crescimento do indivíduo. Com essa comparação, pretende-se suscitar a reflexão de que cidadãos e cidadãs devem ser os verdadeiros alicerces de uma sociedade, costurando a narrativa pessoal à história do território onde vivem. O espetáculo decorre da pesquisa em dramaturgia desenvolvida pela também encenadora Ana Elizabeth Japiá, contemplada em 2009 com uma bolsa do Programa de Estímulo à Criação Artística, iniciativa da Funarte/MinC. À bibliografia relacionada aos tópicos “infância”, “teatro para infância”, “cidade” e “poética da cidade”, somou-se uma investigação de campo junto a oito turmas do ensino fundamental (crianças de 8 a 10 anos) em escolas públicas e privadas de Recife.

Espetáculo: Labirinto / Alfândega 88 Companhia de Teatro (RJ)
Local: Teatro de Santa Isabel
Dias: 26 e 27/11 (sábado e domingo)
Horário: 21h
Sinopse: A montagem debuta o núcleo carioca, em fevereiro de 2011, e realinha o diretor, 26 anos de ofício, ao teatro de grupo e à pesquisa continuada. Chaves é inclinado a rupturas dramatúrgicas utilizando-se de textos literários, poemas, autos de processos e escritos filosóficos na construção da cena. Aqui, o desafio é a enigmática obra do escritor gaúcho José Joaquim de Campos Leão, alcunhado por si mesmo Qorpo-Santo (1829-1883). O espetáculo reúne três textos desse gênio visionário: Hoje Sou Um, e Amanhã Outro; A Separação de Dois Esposos e As Relações Naturais – este, por exemplo, retrata prostitutas, algo incomum à época; usa imagens surreais, como a de personagens que perdem partes do corpo; e pespega uma das mais estranhas rubricas de sua lavra, como observa o pesquisador Flávio Aguiar: “Milhares de luzes descem e ocupam o espaço do cenário”. O autor antevê em décadas questões formais que só ecoariam no chamado Teatro do Absurdo (Beckett, Ionesco). É contundente em aspectos humanos e sociais como liberdade sexual e emancipação feminina, atuais. Não obstantes o indiscutível valor estético e o pioneirismo contextual, permanece pouquíssimo montado e praticamente desconhecido do grande público. (www.alfandega88.com.br)

O canto de Gregório, do Magiluth, é uma das representantes pernambucanas no festival

Espetáculo: O Canto de Gregório / Grupo Magiluth (PE)
Local: Teatro Hermilo Borba Filho
Dias: 26 e 27/11 (sábado e domingo)
Horário: 21h
Sinopse: Criado em 2004, por iniciativa de estudantes egressos do curso de artes cênicas da UFPE, o núcleo traça caminho consistente de investigação cênica borrando fronteiras da instalação e da performance. O espetáculo que estreou em abril tem texto de Paulo Santoro, o primeiro embrionário do círculo de dramaturgia do Centro de Pesquisa Teatral (CPT/SESC-SP), sob coordenação de Antunes Filho. O próprio o encenou em 2004. A obra superpõe mitos da religião e da filosofia nas ruminações de um sujeito face a face consigo e com Jesus, Buda, Sócrates e outros. Nesse que é um dia diferente em sua vida, Gregório vai a julgamento pelo crime de não ser um homem bom, mesmo quando lhe anunciam que “a bondade é logicamente impossível”. O pêndulo é o da ética pessoal/universal em detrimento da catarse, do alívio. A dialética reina e instiga partilhar sensações e angústias kafkianas. Quem sabe, apenas projeções da mente do protagonista, habitante de subterrâneos. Para estabelecer tal jogo, o espaço é conformado por um corredor e tomado pela cor branca, do linóleo do chão às paredes e cadeiras, além da ambientação sonora que desconforta. (www.grupomagiluth.blogspot.com)

DESCENTRALIZAÇÃO

Espetáculo: Flor de Macambira / Ser Tão Teatro (PB)

Horário: 20h
Local e dias:
RPA1 – Praça do Arsenal da Marinha – 19/11 (sábado)
RPA2 – Refinaria Multicultural Nascedouro de Peixinhos – 20/11(domingo)
RPA3 – Refinaria Multicultural do Sítio Trindade – 21/11 (segunda-feira)
RPA4 – Escola Municipal de Artes João Pernambuco – 22/11 (terça-feira)
RPA5 – Escola Municipal Antônio Farias – 23/11 (quarta-feira)
RPA6 – Escola Estadual Jordão Emerenciano – 24/11 (quinta-feira)
Sinopse: Em atividade desde 2007, o núcleo de João Pessoa prospecta a linguagem teatral em busca de uma cena tipicamente brasileira. O terceiro espetáculo do repertório estreou em fevereiro passado em turnê por dez cidades do rio São Francisco. É uma adaptação de O Coronel de Macambira, do pernambucano Joaquim Cardozo (1897-1978), que por sua vez se inspirou em figuras e brincadeiras da festa popular do boi. Catirina sucumbe aos vícios e tentações mundanas e, para salvar a si e a seu amado, mergulha nas profundezas da alma. Despontam tipos monologando em versos, vide o coronel sanguinário, o padre mercantilista, o bicheiro corrupto e o triunvirato do capitalismo: o economista ilusionista, o banqueiro especulador e o marqueteiro enganador, todos recebidos por Matheus, Catirina e Bastião. A peça-poema de 1963 se solidariza com as dificuldades do povo brasileiro, evidencia os exploradores e dá voz às vítimas. Ganha traços contemporâneos ao inserir personagens estranhos à festa, como o Aviador e a Aeromoça. O autor cita ainda o Soldado da Coluna em clara referência à utopia socialista que percorreu as estradas do Brasil. (www.sertaoteatro.com.br)

Viúvas, da Ói nóis aqui traveiz, não vem ao festival por conta de agenda

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Meninos pelados partem por outras geografias

A peça A terra dos meninos pelados, montada em 2002 pelo Grupo Teatral Arte em Foco, deu um impulso à carreira do diretor Samuel Santos. Lúdica e respeitando a inteligência do público, a montagem conquistou o respeito na cena teatral recifense.

A companhia volta a apresentar o espetáculo no 8º Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco nos dias 16 e 17 de julho, no Teatro Barreto Júnior, no Pina.

Antes dessas duas sessões, a trupe cumpre agenda em várias cidades, dentro do projeto Itinerância – Geografia Poética. A equipe viajou hoje e vai passar pelos estados do Rio Grande do Norte, Sergipe, Paraíba, Alagoas.

O projeto foi contemplado com Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz 2010- Circulação de espetáculos. E encerrará a turnê em frente à casa que foi de Graciliano Ramos, em Quebrangulo, interior de Alagoas.

A peça é baseada na novela A Terra dos Meninos Pelados, composta por Graciliano Ramos, em 1937, assim que sai da cadeia. O escritor alagoano foi perseguido graças a uma vaga acusação de subversão comunista e preso em março de 1936, bem no auge da ditadura Vargas.

Na história, Raimundo é alvo das chacotas dos colegas por ser careca e ter um olho azul, outro preto. Ele logicamente sofre com a situação. E um dia, cansado com o que atualmente chamamos de bullying, resolve partir para a terra de Tatipirun, onde “todos os caminhos são certos” e se aplainam para ele passar. Ele aprende lições de geografia e depois entende os ensinamentos ao campo da geografia política.

A terrra dos meninos pelados defende a convivência entre diferenças humanas. E que o grande barato pode ser exatamente esse: ser diferente do outro.

Serviço
A Terra dos Meninos Pelados, Grupo Teatral Arte em Foco (Recife / PE)
Quando: Dias 16 e 17de julho, às 16h30
Onde: Teatro Barreto Júnior (Rua Estudante Jeremias Bastos, 121, Recife)
Quanto: R$ 20 e R$ 10 (meia)
Duração: 55 minutos

A terra dos meninos pelados será exibida nos dias 16 e 17 de julho. Foto: Aryella Lira

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O tempo de Leda

Leda Alves recebe homenagens pelos seus 80 anos. As fotos foram tiradas na Casa da Rabeca

Leda Alves sempre teve pressa. Por justiça na desequilibrada sociedade brasileira. Por mais solidariedade em tempos em que a intolerância religiosa torna os humanos estranhos entre si. Por resultados eficientes na preguiçosa máquina pública. Nascida Leocádia Alves da Silva, em 17 de junho, ela completa hoje 80 anos de uma vida intensa. Só começou a achar que podia ganhar um pouquinho mais de tempo quando completou 70.

Uma década depois ela está firme, de bem com a vida, alegre com as celebrações. O médico adverte: “porque anda tão depressa, Leda?”. “E eu ando depressa?”, questiona, habituada ao próprio ritmo, de quem comanda, com lucidez, pulso firme e muitas diretrizes, a Companhia Editora de Pernambuco (Cepe).

Esta semana, foram muitas emoções. As homenagens começaram no domingo, em Aliança, na Associação de Maracatus de Baque Solto de Pernambuco. Lá, o terreiro ganhou o nome Leda Alves. Na terça-feira, foi a vez da missa, católica praticante que é, desde a infância. Na quarta, encontro de cultura popular na Casa da Rabeca. Ontem, recebeu uma medalha do governador Eduardo Campos. Hoje, o show do Quinteto Violado no Teatro de Santa Isabel (com repertório de Luiz Gonzaga e ingressos a R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada)) será dedicado a ela.

Fotos: Ivana Moura

Personagem de destaque na política cultural pernambucana, Leda está em cargos de gestão há praticamente 40 anos. Passou pela Fundarpe, Fundação de Cultura Cidade do Recife, Teatro de Santa Isabel e atualmente é a presidente da Cepe. Algumas decisões foram polêmicas e até hoje é condenada pelos produtores de teatro infantil quando decidiu que o teatro de Santa Isabel não tinha equipe e condições para receber produções para a infância.

Bom, mas a jornada de Leda começou antes dos cargos públicos, nas pastorais da Igreja Católica, e mais tarde, no teatro. É a arte que ela diz ser o eixo da sua vida. Estreou nos palcos sob direção de Hermilo Borba Filho, dramaturgo e diretor, homem por quem ela confessa ter esperado nove anos até se casar. Quando chegava do trabalho, via na mesa de cabeceira o bilhete: “ler urgente”. Obedecia, encantada pelo homem de espírito livre, “que amava tanto homens quanto mulheres, no sentido pleno” e despertava paixões.

Depois dos ensaios no Teatro Popular do Nordeste, o TPN, sob a orientação de Hermilo, o elenco ia para os terreiros, aprender a fazer teatro com os mestres da cultura popular. Personagens que Leda Alves abraçaria por toda a sua trajetória, como fez quando defendeu que Mestre Salu tinha a mesma importância de arquitetos e engenheiros de um órgão público. Quiçá maior.

Quando o amor maior, Hermilo Borba Filho, faleceu, em 1976, ela se sentiu perdida. Foram alguns instantes. Logo percebeu que ele estaria com ela. Não só na fotografia em preto e branco na sala de trabalho apinhada de papeis, mas nas posturas e decisões ideológicas que tomaria pela frente. Conversamos com Leda no horário do almoço. Foi o único momento disponível na agenda apertada. Perdemos a noção do tempo. Quando olhamos no relógio, o ponteiro marcava quase três da tarde. Lá se vai então Leda – com os passos apressados que o médico proibiu – cumprir mais um compromisso.

Entrevista // Leda Alves

“Ninguém pode tirar férias da vida”

Leda Alves, madrinha dos maracatus

Você imaginava que chegaria aos 80?
Não! Quando eu terminei os 70, vi a viabilidade de chegar as 80. Cheguei. Vi muito claro que é um caminho muito longo, mas que eu não caminhei sozinha. Além de eu ter caminhado com grupos e grupos e grupos, dentro das minhas opções de fé, política e cultural, eu caminhei profundamente apoiada, ajudada e misturada com quem andou comigo. Na juventude, na maturidade, na velhice e hoje, aos 80 anos. Pessoas que me ajudaram muito, que eu sempre chamo de sirineus. Nossa, é muita gente, que a gente trocou muito amor, muita luta, muito sofrimento.

Como começou esse caminho?
O meu caminho começou ao ser batizada na Igreja Católica. Fui filha criada numa família eminentemente católica, tradicional, não era rica. Mas Mata Sul, papai era do Agreste, mas mamãe era Mata Sul, de engenho. Então era fechado com os preconceitos, com moralidade, tudo isso. Eu tive privilégios, por isso que eu me sinto muito amada por Deus, porque ele colocou muita gente na minha estrada que abria outras cortinas, que reformulavam muitos princípios. Outros, de mamãe, eu agradeço muito a ela, de ter me estimulado nisso. De ter me dado um exemplo que não era formalizado, com nenhuma teoria pedagógica. Ela era aquele negócio, ela vivia o ritual da Igreja Católica. O ritual, todos os santos, os meses todos, missa dominical, via sacra. Ela tinha um negócio, que era o terço às seis horas da noite com a gente. A gente estivesse onde estivesse, os filhos, papai não porque papai estava no comércio. Ela reunia no quarto do santuário e ali, tudo ajoelhado no chão, a gente rezava o terço. Durante muito tempo, passei a não gostar do terço, porque tinha aquela repetição. E eu sempre digo que o que me inspira muita coisa é que, depois do terço, ela começava a tirar Ave-Maria pelas pessoas que estavam precisando, os amigos, os vizinhos, os parentes, que estavam desempregados, doentes. Eram três Aves-Maria, minha filha. Aí o sono já batia, a gente já estava achando péssimo, mas rezava três Ave-Maria. E depois ainda vinha três Ave-Maria de agradecimento a Deus, porque fulano ficou bom, porque sicrano arrumou um emprego. Não estou falando pelos meus irmãos, estou falando por mim, mas isso deixou em mim uma semente muito bem plantada, do ponto de vista da fé, de solidariedade. De me sentir próxima de todo mundo, imbricada em todos os problemas, desde que eu tinha dez, onze anos. Isso foi ficando dentro de mim, inconsciente. Depois é que a gente vem com outra bagagem, de experiências, de opções, de lutas. E eu fui encontrando em mim um respaldo e eu identifiquei que era isso. Nunca fiz análise, isso é intuição. Sempre estudei em colégio religioso, fechadíssimo. Damas cristãs, Sagrada família. Quanto mais fechado, mais mamãe gostava de colocar a gente ali. Claro eu isso me deu uma bagagem muito boa, mas me deu muita amarra, muito sofrimento, muita angústia.

A religião pode ser muito opressora. Como você lidou com isso?
Tem o dedo de Deus, que foi me dar o privilégio de eu entrar na ação católica na minha paróquia, que era Casa Amarela e eu passar a conviver com padres jovens, com a cabeça muito aberta. E entre eles cito, como fundamentais na minha vida, o Padre Marcelo Carvalheira, hoje arcebispo emérito, Padre Marcelo Santos também me ajudou, e aí vários. Esse mundo para mim foi importantíssimo. A Igreja do Brasil estava dando um salto de qualidade para o mundo e a Igreja de Pernambuco ainda mais. Entrando um bispo como Dom João Costa, Dom Coelho, Dom Helder, dom Lamartine. Então esse povo, que era até estudante, seminaristas, eu já estava convivendo com eles em pastorais. Veja como a gente era avançado. Porque hoje eu estou com 80, mas essa caminhada já existia. E a religião me aproximou da força política e, em seguida, do partido político. Eu trabalhava na pastoral de ação social, quando doutor Arraes me chamou. A chegada dele aqui, eu participei da equipe que preparou a grande festa. Ele foi prefeito na época de Hermilo. Hermilo foi secretário de Educação, mas não conviviam. Então ele me chamou para integrar a executiva do PMDB. Eu disse, doutor Arraes, eu coordeno uma pastoral e é incompatível. A gente aqui prefere não ter ligação com partido político. Porque o trabalho da gente é na base, nas comunidades. Então não é bom aliar isso com partido político. Aí vem campanha, eleição, candidato. E a luta da gente é por aí, mas para outro caminho. Mas ele insistiu, insistiu. Ele e Egídio Ferreira Neto. Aí eu coloquei isso para a pastoral. E se discutiu, se refletiu e achou que era hora de eu integrar um partido político e eu me afastei da coordenação da pastoral. Aí eu fui pro partido e um mundo se abriu para mim. Doutor Arraes teve também uma presença muito forte e uma contribuição imensa na minha formação político-partidária. Nesses intervalos, que aconteceram na minha vida, eu também tinha contato com militantes de ação católica e com militantes intelectuais. E eu também convivia muito com eles. E, no meio deles, eu tinha Frei Betto que tornou-se um amigo fraterno muito grande. Nós acompanhamos a vida dele e ele acompanhou a nossa vida.

E Hermilo?
Ao mesmo tempo, veja como o negócio parece um caleidoscópio, que cai um negocinho, sobe outro e aquele desenho foi se firmando na minha vida sem eu estar escrevendo, nem tomando nota. Eu estava era entregue. Então eu também tenho a impressão que Deus me preparou para Hermilo. Eu tenho impressão não, eu tenho certeza. Não é vaidade que eu digo isso não. Era uma predestinação na minha vida o meu encontro com Hermilo, naquele momento da minha vida, quando eu descobri, porque eu já tinha ouvido falar dele, mas nunca tinha visto. Porque até quando eu fui com o grupo de teatro da Paróquia do Espinheiro para São Paulo levar uma peça de Zé Carlos Cavalcanti Borges, onde eu estreei assim, em cena, eu só vi Hermilo sentado na plateia com Débora e ele fez a crônica dizendo que tinha uma atriz, que apesar de muito jovem, principiante, pegou o papel de uma mulher de meia idade, era uma atriz. Mas nunca foi lá dentro conversar com a gente, durante uma semana que passamos lá, com o nosso elenco, que só deixava a gente sair do hotel para o teatro, do teatro para o hotel.

Como começou o teatro?
Eu sonhava. Meu pai desde eu pequena, também, sem nenhuma preocupação com tarefas psicológicas, ele tinha só uma intuição e, naquela época, era bom, a pessoa declamar poesias, para os convidados, para os amigos. E ele sentiu isso porque eu fazia muito teatro em casa com os meus irmãos. Eu tinha um primo que escrevia, meu irmão mais velho dirigia e eu fazia o guardar-roupa, tudo de papel, e era a atriz. Então papai percebia isso com toda certeza e cada vez que chegava uma visita, ele me chamava na sala de visita, eu deveria ter 14 anos, mas declamava Navio negreiro, Veludo, os poemas dos poetas daquela época. Então eu tinha dentro de mim, fui pra esse negócio da Paróquia do Espinheiro, tinha dentro de mim a semente de vocação, que era o teatro, mas sem nenhuma perspectiva. Aí um dia eu leio no jornal que vai ter a segunda chamada para o vestibular. Me inscrevi. Aí meu tio padrinho morreu na noite antes do vestibular, um desastre. Passei a noite no velório, eu queria muito bem a ele, irmão do meu pai, e depois tomei um banho e fui lá. E encontrei os homens que eu via no jornal, que eu ia ao Santa Isabel raramente e via. Hermilo, bem gordinho, de gravata borboleta. Eu digo: “ih, é aquilo?”. Encontrei Aloísio Magalhães, Gastão de Holanda, Joel Pontes, doutor José Carlos Borges, que ensinava psicologia do ator. Aí eu fiz o vestibular e passei. Aí é outra coisa na minha vida, dádiva de Deus, eu entrar pelo melhor caminho que existia no mundo do teatro. Eu não tive desvio de função, nem desvio de caminho. O capitão Antonio Pereira, do boi misterioso da Mustardinha dizia: “Ô Hermilo, só existe um caminho, o resto são veredas”. Negócio lindo, né não? Então eu pedia muito que eu não queria perder o rumo de meu caminho. E aí muita gente me ajudou nisso. A partir do capitão Antonio Pereira, porque Hermilo dizia que ele era mestre dele, pôs isso nos livros dele, e eu usufrui o máximo da convivência do capitão. Então era vereda para um canto, para o outro, mas eu pra cá. E o centro da minha opção de vida era o evangelho. Era o meu compromisso com a minha fé, o sonho de uma sociedade justa, justa. Claro que todo mundo não poderia ter a mesma condição financeira nem social, mas que todos tivessem os mesmos direitos, as mesmas oportunidades. E que cada um pudesse se desenvolver plenamente. Pra você não encontrar, como a gente encontra, esses artistas populares e a gente diz: ai, se essas pessoas comessem. Os dançarinos de frevo…quer dizer, são gênios do nosso povo, mas sem dúvida nenhuma. Então, no TPN, eu encontrei isso. Porque Hermilo, toda grande tese dele para a cena e para a dramaturgia brasileiras, ele bebia no espírito e nas técnicas do que ele chamava os espetáculos populares da gente, que era o cavalo-marinho, o pastoril, o mamulengo e a nau catarineta. Então ele me colocou nesse negócio. A gente terminava o espetáculo, todo mundo do elenco do TPN terminava o espetáculo, a gente ia para os terreiros, via até de madrugada, até de manhã. Via, via, via. Não tinha nada de ficar gravando pra fazer pergunta não. Era entrar pelos ouvidos, pelos olhos, pela pele. A gente convivia. Quando havia uma técnica que exigia manejo, a gente chamava o Guariba, que era um Mateus maravilhoso, ensinou a gente a usar máscara. Aqui os atores entraram para usar máscara pela primeira vez permanentemente, quando o TPN estreou em 1960. Ele vinha e dava aula pra gente: como é que virava o olho, como virara a cabeça. Porque a gente não queria máscara não. O ator não quer tapar a cara dele não. Até ela se encarnar, durou. Então eu fui me apaixonando por aquilo, ao mesmo tempo conhecendo, tinha o privilégio de ter Hermilo. Então tudo quanto ele conversava com a gente, o improviso, o realismo fantástico. Então fui lendo muita coisa que ele passava pra mim, às vezes eu chegava do trabalho, da universidade, e ele dizia: “ler urgente”. Já estava na minha mesa de cabeceira. Então, eu devorava. Isso me deu um estofo muito robusto. Fui lendo Ariano, Guimarães Rosa, o realismo fantástico na América do Sul. Isso foi também confirmando as coisas que eu ouvia de Hermilo. Cada vez eu estava mais segura que era esse o caminho.

Como enfrentaram o Golpe Militar?
A gente foi tribuna, foi resistência. E o preço foi fechar depois. Hermilo perde o emprego, era um bando de coisa ruim, difícil de se enfrentar e findou ele pifando o coração e se operando. Mas estava muito claro que na hora que ele estava chefiando esse pedaço, a gente também trabalhou no movimento da educação de base, nas escolas radiofônicas, na CNBB, na luta da igreja com os artistas. O TPN fazia as aulas práticas em rádio-teatro. A gente interpretava. E ao mesmo tempo fui trabalhar, fazer avaliação das escolas radiofônicas, no meio da multidão de camponeses, de madrugada, de noite. Era uma coisa assim, tão forte, que a gente saia dali dizendo “não, não pode. Eu também quero contribuir para que todo mundo tenha direito ao estudo, a se alfabetizar”. E que tenha no mínimo o que eu tive, no mínimo. Não é ser rico não, é ter condições. Então ali não foi tão longo, talvez uns dois anos, um ano e meio. Mas veio o golpe e fechou tudo. O TPN também tinha ficado no Arena e ali sofreu outras coisas e a gente cometeu erros. Uma peça que, graças a Deus, Hermilo renegou em vida. Esse texto da Bomba da paz, eu tenho um, que vai ficar para uma futura defesa, depois de mim e mais nada. Não tem mais exemplar. Ele considerou que foi um erro. Naquela hora, a gente “deserviu ao povo brasileiro”.

Mas não tem mais nenhum exemplar?
Não! Assim como minha correspondência de amor com ele também vai ser toda queimada antes de eu ir embora. Não interessa ao público o que a gente se dizia um ao outro. Às vezes ele na confiança, fazia comentários sobre as pessoas que ainda estavam ou estão vivas. Isso é uma intimidade da gente. Vou queimar. Ou então coloca no meu caixão.

Tá, voltando. E depois?
Eu fui cada dia mais sentindo o sentido da minha vida. E muito multiplicada. Fui recebendo de Deus muito dom através das pessoas que eu convivia, que me ensinavam. Eu vivi no top de linha. Só vivia com gente melhor do que eu, em todos os sentidos. Eu tinha vontade que meus olhos ouvissem tudo, vissem, percebessem. Cada vez que eu ia para um encontro com os artistas populares, eu voltava prenha, de tudo. Quando Hermilo foi embora, eu disse, “pronto. E agora?”. Fiquei desnorteada, porque parecia uma metade de mim, física. De dor física. Eu não ia mais sorrir. Porque era tão impregnado. Eu não sabia onde eu terminava e começava Hermilo e vice-versa. Eu acho que é por isso que a igreja criou o sacramento indelével do matrimônio. Você só se casa uma vez na igreja. Porque a experiência de amor humano, de plenitude de amor, absoluto não, porque o absoluto é com Deus, mas de plenitude de amor, de um homem e de uma mulher, você tem certeza que será ate o fim. Hoje eu tenho mais certeza que não é o “fim” que acaba. A partida de Hermilo, eu só lamento, ele já tem consciência do absoluto e eu não tenho. Ele já respondeu a todas as inquirições dele de fé, porque fé não é só certeza, é também dúvida, e eu ainda estou com as inquirições. Mas o alimento continua dentro da gente. Sem dúvida. Ele partiu, está numa melhor, me deixou na beira do tiroteio. Eu preciso de uma foto, como eu preciso de um crucifixo, para os códigos humanos. Mas eu tenho certeza que ele está impregnado em todas as minhas lutas, em todas as minhas decisões. Às vezes eu verbalizo: “eita, velho, me ajuda aí. Nessa hora, como eu faço, se você estivesse aqui, como você faria?”. Eu chego até a dialogar e também não sou espírita.

Como é essa relação hoje?
Essa relação é verbal, é de lealdade. Não é que eu fui fechada para o amor, ele nem gostaria que fosse. Mas eu tive experiências de amores menores, que não me deram gás, de dizer: “é com esse que eu vou”. Nunca mais. Nunca mais. E agora então, estou muito mais apaziguada. Mas é como uma tarefa que ele deixou comigo e que ele me ajudaria de outra maneira. Primeiro, ser fiel ao que a gente descobriu, ao que a gente tinha certeza de que tinha que trabalhar. Tanto que, quando as armas estavam nas mãos dele, o escritor, eu recueei. O TPN fechou e ficou muito claro na minha cabeça que eu tinha que trabalhar na contrarregra. Que era, na hora, continuar na luta da igreja, mas dar a Hermilo o tempo melhor que ele pudesse ter para escrever. Porque a literatura era a arma dele para denunciar, para protestar, para reforçar, para resistir. Eu fui dar condições para ele viver e realizar isso, até ele partir.

Você fez sacrifícios?
Não, não. Renúncia, nenhuma. Era opção mesmo. Quando ele foi embora…teatro. É difícil a gente dizer o que eu sinto, senti. Porque pode parecer esnobismo, mas não é não. A experiência de teatro no TPN era uma experiência plena de vida, de religião, pra quem tinha, diversas religiões, tinha judeu, evangélico, católicos e tinha ateus, mas todos habitados por um compromisso muito grande. Então a gente se irmanava. Tinha vezes que a bilheteria ia para uma pessoa que a gente até anunciava. A gente está ajudando a família de fulano, que é um preso político. A gente fazia como instrumento de denúncia. Lá a gente denunciava tudo. A minha relação com Hermilo é a todo momento, verbalizo, até me divertindo com ele. Mas é muito mais de dentro pra dentro, de cabeça pra cabeça, de reflexão, que a vida é tão rápida, que devora tanto a gente, que eu tenho que parar, dar um freio de arrumação e ficar sozinha com ele, vendo as besteiras que eu fiz ou acertos. Ele continua sendo o meu fio de prumo. E continuando sendo ajudada por todo esses grupos com os quais eu convivo. Muitos já se foram. Então, olhar para o futuro, eu não tenho futuro. Assim, projeto com data marcada, com tempo, não.

Mas você é muito ocupada…
É. O meu médico diz: “você vai ter que andar mais devagar”. Eu levei um bando de queda. Aí fui a um neurologista que continua me acompanhando. Ele disse assim: “Leda, dá uma volta até ali e volta. E porque você andou tão apressada?” “E eu andei apressada?” “Andou! Agora você tem que fazer as coisas devagar, você tem que ter outro ritmo de vida, pra você não atropelar o seu sistema circulatório”. Mas isso se choca com uma certa pressa que eu tenho para concluir alguns projetos. Principalmente quando nas minhas mãos afirmou-se e firmou-se uma gestora pública. Como reflexão desse pedaço da minha caminhada profissional, em todos tenho exercido a gestão pública. Coerente com as coisas que eu penso, que me ensinaram, que eu descobri, que eu tento viver, eu sou uma servidora pública. Não gosto de funcionária pública não, porque é bastante desmoralizante. Sou uma servidora pública. E em todas as vezes que tive o poder nas mãos…começou com o carnaval. Eu trabalhava como comentarista pela Universitária, de chão, de passarela, dos desfiles das agremiações. Que só existia isso no carnaval do Recife. Eu e Evandro Rabelo. A gente ficava atrás das arquibancadas esperando e eu via o sofrimento das agremiações daqui sendo esmagadas pelo poder das escolas de samba e pelos políticos. Eram políticos assim, determinando quem entra, quem não entra, o tempo. “Vamos, passem, passem, vocês só têm dez minutos”. E a escola de samba, que oferecia ao político um número muito grande de participantes, centenas, milhares, era diferente de um clube de frevo. Mesmo o Clube das Pás, que naquela época vinha com 200, 300 pessoas. Na cabeça do político isso não interessava. Eu saia cada noite mais indignada. E sem eu saber o que vinha logo, eu dizia: no dia que eu puder, eu vou ajudar esse povo aqui, tem que mudar. Logo depois, eu fiz campanha de Jarbas e depois doutor Arraes assumiu e eu fui trabalhar na Fundarpe, como chefe de gabinete. Foi o primeiro emprego público, trazido como resultado da minha participação em campanhas políticas. Aí Jarbas mandou me chamar para eu assumir a Fundação de Cultura e eu disse que de jeito nenhum, “tenho compromisso com doutor Arraes”. Era tudo muito difícil, não tinha dinheiro nenhum. Ele me perguntou quanto eu ganhava. Lembro que era uma proporção de 3 para 300. Na me lembro exatamente. Mas eu disse: isso não me demove. Dois dias depois, um sábado, eu tava com visita em casa, a gente bebeu e acabou o almoço eu fui tirar minha soneca. “Maria, é cama, não me chame para ninguém”. Doutor Arraes telefona. “Eu queria falar com Leda”. “Dona Leda está dormindo”. “Quem é?” “É Miguel Arraes”. “O governador?” “É. Chame?” “Não, não vou chamar, não tenho ordem”. Quando acordei seis horas da noite, ela me disse. Eu liguei no domingo e ele me disse que precisava que eu assumisse a Fundação de Cultura. Era uma coisa com tanta segurança que eu não perguntei porque. Era Maximiniano Campos que tinha sido o intermediário. Depois fui a Jarbas, disse que aceitava e aceiei. Na minha posse foi tanto carnavalesco. Aí eu disse, sabe de uma coisa, aquilo que eu senti naquela hora, eu vou colocar em prática. Aí criei uma comissão de carnaval. Era um representante de cada agremiação e Fundação Joaquim Nabuco, e comissão pernambucana de folclore. Dei o mesmo tempo das agremiações, o mesmo cachê, das agremiações de samba para as de frevo. E tudo era muito discutido. Ia pra frente, ia para trás. Mas quem passa por pastoral, não pode marcar prazo para nada. Porque tanto fazia a gente numa reunião avançar três pontos e na outra reunião a gente recuava dez. Mas caminhou e no carnaval estava tudo resolvido por eles. E pela primeira vez eles tiveram voz e aquilo confirmava que o poder serve é para servir e, no caso, servir a eles. Essa foi uma prática testada e me deu muita maturidade por dentro. Foi por isso que eu não tive desvios no caminho.

E as pessoas não sabem que você também teve e tem um papel importante para os maracatus…
Um domingo por mês eu passo em Aliança, na sede dos maracatus. Tenho alegria imensa em vê-los cidadãos. Eles têm curso na associação. Começou com curso de bordado, pago pela Chesf, e aí é quando eu digo, como eu tinha muito prestígio, tinha que usar para isso. Daí em diante, a associação se credibilizou e eles têm o maior respeito por Salu e depois de Salu. Eles financiaram cursos de bordados, as golas maravilhosas, de instrumentos musicais. Depois cursos nesse mundo dos negócios, porque aquelas certidões são um horror para eles, que pegam no bordado, fazem coisas lindas, mas com a caneta não conseguem. Salu, a mão ia pra lá, a mão ia pra cá, mas fazia coisas maravilhosas. E hoje eles estão dominando a informática. Eu sou analfabeta virtual e eles sabem, sabem o suficiente para entrar nesse mundo, e agora eles estão se preparando para os editais. Cachê, eu já briguei com muito prefeito, que humilhava o maracatu, para pagar porcaria de R$ 50. Ninguém recebe mais isso não. Eles vieram participar do carnaval do Recife há pouco tempo. Eles são notados pela pontualidade. Brincavam de armas, não brincam mais. Deixar de beber, eu não sou doida a aconselhar ninguém a não de beber. Brincar como brincam, como fome e sem beber? Cada grupo é um pedaço da minha família. Naquele dia da homenagem em Aliança, eu fiquei plena. Se eu fosse embora naquele dia, eu tinha colocado um ponto na minha vida com muita alegria por eu ver que aquilo era verdade, por eu ver que valeu a pena a caminhada naquele sentido. Por eu ver que eles são cidadãos.

Foi você quem levou Mestre Salu para a Prefeitura de Olinda ou foi a Fundarpe?
Para a Fundarpe. Para ser meu assessor de cultura. Mas não era pra ficar lá dentro não. Vá se embora, pegue o meu carro, vai ganhar diária. Fui quase processada pelos arquitetos e engenheiros porque estava dando a mesma diária para eles e para um analfabeto. Eu coloquei tudo na mesa e disse e mostrei como a cultura de Salu, eles eram também analfabetos na cultura de Salu. Então esse negócio é muito relativo. Vou continuar pagando a mesma diária. Aí ele foi, ressuscitar quem estava morto, fortificar quem estava doente. A primeira reunião que eu tive com eles, eles eram nove maracatus. Hoje, são 105. Agora, isso há 20 anos. É lento o trabalho. Mas forte e muito robusto. E aí fui, disse, ele tem que ter algum reconhecimento oficial desse negócio. Preparei um dossiê com depoimentos de pessoas como Nóbrega, Ariano. Aí organizei e encaminhei para o conselho estadual de Cultura, para o reconhecimento como mestre da cultura popular. Demorou um ano, foi pra frente, pra traz. Mas saiu e eu disse: “Doutor não é não. Não é a sua estrada. Você é um mestre, mais do que chama que canta, é o mestre da cultura popular”. Ele encontrou na prefeitura de Olinda por Germano Coelho, como gari. E ainda hoje o salário, a pensão, dele é de gari, apesar dele ter passado para professor da cultura popular nas escolas.

Leda, você falou de família. Não se arrepende de não ter tido filhos?
Eu quis muito! Abortei cinco vezes. Eu penso sempre que eu teria um filho já de 30 anos. A gente pensava que nós dois daríamos ótimas condições para uma pessoa se desenvolver, de descobrir seu caminho. Provavelmente, ai era eu que dizia, no campo da cultura. Porque Hermilo, dentro de casa, eu. Iria ser um ator, compositor. Mas perdi. Com a força que eu queria, eu expulsava. Ai depois eu compreendi: eita, se eu tivesse filhos, eu não teria tido condições de fazer isso; de aliviar o peso de Hermilo, pra que ele pudesse fazer coisas mais importantes para o povo, para a cidade, para o teatro. Quando eu tomei a contrarregra das coisas era muito isso. Eu dizia: se eu tivesse filho, não poderia estar fazendo isso. Mas esses também são mecanismos que a gente tira da gente para poder enfrentar a ausência. Mas claro que se eu tivesse um filho de Hermilo ou uma filha, eu estava muito “plenificada”. Com todo o otimismo que eu tenho que seria uma pessoa do bem.

Você se sente livre?
A maternidade foi um negócio que atrapalhou o meu pacote de mulher. Mas no outro pacote da mulher, como mulher, me sinto completamente livre. Hermilo me encontrou na vida com todos os preconceitos sexuais e com todas as emoções e sensações dentro de mim sofrendo como um pecado. A puberdade foi muito complicada para mim e eu não tinha com quem dividir. Depois, me lembro a primeira vez que Hermilo disse buceta. Eu disse, “Hermilo, não diga esse nome não para mim”. Ele não tinha apelido. Cada coisa com o seu nome, com uma suavidade, com um romantismo. E eu me fiz nisso. Ele brincava com os amigos. Dizia: “olhe, vagina é uma xoxota doente”. Eu acho essa definição maravilhosa. Porque ninguém deve dizer no ato de amor: a sua vagina é gostosa. Isso é para quem está doente e vai para o médico. Ele tinha uma afetividade muito livre, ele amava o homem, a mulher, no sentido pleno da palavra. Despertava paixões, era muito afetuoso. Ele tinha um fascínio pessoal muito grande. Mas não era garanhão, galinha, não, não era não. Quando ele amava uma mulher, ele era só dessa mulher. Isso eu vi porque com Débora ele era assim e depois comigo. Eu não tinha ciúmes. Às vezes eu tinha uma reunião de cinco homossexuais, homens, falando da paixão por Hermilo e eu junto, feito corna. Eles falando da paixão que sentiam por ele, da atração, do domínio que Hermilo exercia sobre o espírito deles. Era uma coisa que não tinha a dimensão normal isso, de jeito nenhum. Eu fui quebrando, nunca rompidas, mas fui quebrando as minhas correntes. Nunca tive experiência homossexual. Tive as naturais da juventude, da puberdade. Mas não tem problema nenhum. Se acontecesse, eu não teria problema nenhum. Já tive pessoas que vieram me falar de sentimentos. Não me choquei, fiquei zangada, nada disso! “Eu compreendo, mas minha preferência é outra, acho que não vou ser fiel para você”. Então, nesse campo, aprendi também com Hermilo. Por isso eu digo que eu fui predestinada para encontrar Hermilo na minha hora de mulher. Porque eu não tenho preconceito nenhum. Aprendi com ele que, quando duas pessoas querem, nada é imoral. Então, não tem nada de certo, não é certo. O que é certo? Agora, se você pega na minha mão sem eu querer, eu já me arrepio.

O que você acha da liberalização das drogas?
Maconha…nunca fumei não…peraí…parece que eu puxei uma vez…mas, não tive nada. Também, eu não trago! A gente pensava um dia em experimentar, mas depois ele adoeceu, não fizemos não. A maconha..conheço gente que todo dia puxa o seu fuminho, inclusive com a mulher, e desanuvia, cria melhor. Agora as outras drogas, eu acho que tem que se combater. Porque o efeito delas é de fim. Destrói o seu núcleo e te dá uma felicidade muito, muito efêmera, porque leva você para o fim. Acho que deveria haver muito esclarecimento, não era pânico não, nas escolas, sobre a formação da cocaína, do crack, desse novo..oxi. Pelo caminho da formação, as pessoas deixarem. Mas o método de você desistir, aí eu não sei. Se é privar. Mas é triste você ver um menino, como eu conheço, um menino lindo, um gênio do violão, já está perdido. Fui a uma audição e ele saiu três vezes para o banheiro para cheirar. O nariz já estava irritado. E a gente sabendo que esse menino está encurtando a vida dele rapidamente. E o que ele fazia no violão…isso aí faz pena.

E sobre o aborto?
Primeiro, a Igreja não tem que condenar ou não. É uma coisa de foro íntimo. Quando a gravidez se processa por um estupro, não tem nem o que se dizer. Não é feito o louco do Dom José (Cardoso Sobrinho), que foi excomungar, até a menina que é Secretária da Mulher, Cristina (Buarque), foi excomungada. Imagina, se ele tem poderes diante de Deus para fazer isso! Agora, tudo é preciso muita formação. Porque essa juventude que tem tanto método para evitar gravidez. Sou do tempo que camisinha, eu ouvi falar quando os americanos invadiram aqui, para fazer base, porque elas apareciam na praia de Boa Viagem. Nos anos 50, na guerra. Aqui tinha muita recifense que engravidou de americano. E os brasileiros não quiseram mais nem vê-las. Tinham três irmãs que eram doidas pelos americanos, eram as irmãs Coca cola. Todo mundo no Recife sabia disso. Então na praia de Boa Viagem tinha tanta camisinha. Eu ainda peguei uma, fazia bola, eu sabia lá o que era. Depois meu irmão, com muito mistério, me disse, mas dizendo que era uma coisa imoral. Mas hoje se ensina nas televisões, nas novelas. Então hoje você engravida por incompetência, do rapaz, da moça. Então essa gravidez incompetente, quando não tem problema, é duro. Não é tão fácil dizer não.

José Celso Martinez Corrêa esteve duas vezes recentemente aqui no Recife. Você foi vê-lo?
Fui a um e acho o seguinte: ele tem uma obsessão sexual doentia, doentia. O teatro brasileiro já passou o tempo do nu, já passou o tempo dos homossexuais se afirmarem, de despirem, viverem emoções, experiências amorosas, sexuais. Isso já está velho. Porque a televisão já trouxe tudo isso pra gente. O público que poderia não gostar, já se acostumou. Mas o Zé Celso, pela bagagem intelectual que ele tem, ele avança numas concepções cênicas, ele avança muito, ele envolve a gente. É novo, muita coisa. Mas não vejo arte em você se masturbar assim. Isso é gratuito, grotesco, não envolve o belo. Então eu fui e depois não fui mais. Fui ver Os Sertões. Depois, ele é contundente; e isso empobrece. Não que o sexo empobreça, mas é como se qualquer autor que só bate naquela tecla, de coisas já velhas. Porque ele na dá uma nova face para o sexo, ele não dá uma nova leitura para o sexo. Eu conheço uma moça que estava sentada na plateia, foi chamada e se masturbou. E pode? Pode. Você pode todinha, o dia todo, pode até se machucar. Mas isso é uma coisa de muita intimidade. A não ser que você queira uma coisa coletiva e aí você vai para uma suruba e ali você faz tudo, tudo ótimo. Mas você me tira cruamente de uma plateia e me envolve num negócio. Eu acho de uma insistência, como se o sexo fosse o núcleo da gente, e não é. Porque é uma coisa muito falível. Porque se o seu estômago não estiver bem, você nem trepa, nem transa, que não tem vontade. Se você está com a unha do pé inflamada, chateada, com dor de cabeça. Então acho que ele tem tanto talento pra debater tantos assuntos importantes para a humanidade. Não é intelectual não. É que a gente saia dali, sabendo, se sentindo mais comprometida. Porque quem faz a história somos nós. Ninguém pode tirar férias da vida. E Zé Celso ele se apequena quando ele insiste nesse negócio do sexo, como se a gente fosse isso somente. A gente é isso e coisas muito maiores. Então quem não tiver com ereção, não faz nada. Quem não estiver com desejo… E não é! A gente sabe disso. Eu, com 80 anos, não tenho o sistema circulatório de 50 anos, mas não me tolhe uma porção de coisas.

Qual a função do teatro hoje?
Teatro já foi um grande instrumento de luta, foi usado para protestos, para ganhos sexuais. Já prestou muito serviço para a sociedade, debatendo assuntos. Além de ser um celeiro de despertar de talentos.

Tem algum arrependimento? Pediria desculpas para alguém?
Nada que destrua ou traga mal para as pessoas. As coisas que eu poderia fazer melhor são fruto da minha impaciência, diante da ação, da condução das coisas. Mas nunca traí ninguém. Mas essa impaciência me leva, às vezes, a não tratar, com a devida paciência, delicadeza, as pessoas. Nisso, eu me policio muito porque, como diz o poeta, essa pressa minha quebra o verso, atropela o verso. Ter encontrado Hermilo antes na vida…foi na hora certa. Porque se fosse como era antes, Hermilo nem me notava, passava despercebida pra ele.

Você fez muitos desafetos? Inimizades?
Claro que eu cometi erros, acho até que pedi desculpas algumas vezes, outras não tive oportunidade, mas nada que chegue a sacrificar uma pessoa. E os inimigos que eu criei ao longo do exercício dessas funções de gestão, não foram inimigos, foram pessoas que tiveram mágoas porque foram preteridas. Geralmente é coisa dessa competição que a vida joga na gente. Essa besteira, desses 80 anos, tanta gente me disse: “não me mandou. Eu não fui, notou que eu não fui? Não recebi”. Então são essas coisas que fazem parte da caminhada. Não me arrependo de ter esperado nove anos para que Hermilo pudesse ficar, de certa maneira, livre porque eu também penso que, nesses nove anos, que eu me comprometi com ele, me guardei, até ele voltar, chegar, também me enriqueceram muito. Fica dentro de mim: será que quando eu perdi o primeiro filho de Hermilo, eu tinha 36, por aí. Será que se eu tivesse ido viver com Hermilo aos 27, 28 anos, eu estaria em condições do meu útero receber meu filho? Era o útero, viu? Cabra safado. Quando eu tirei o útero há uns oito anos atrás, o médico disse: “tire, jogue no lixo essa porcaria. Ele é responsável por cinco abortos, incompetente”. Porque eu engravidava, né? Mas ele não segurava o ovo, soltava. Então, talvez, dentro de mim, eu tenha isso. Se eu for cascavilhar, eu encontro. Ah, seu eu tivesse ido viver com Hermilo antes, eu estaria bem mais jovem. Porque o último filho que eu perdi, eu já estava com 44 anos, um ano antes de ele morrer. Então, dentro de mim, existem essas coisas, muito poucas. Eu não tenho ninguém com quem eu não fale, eu tenho “alguéns”, que não gostarão de falar comigo. Então, eu passo assim…Mas é mais política.

Sua trajetória de atriz foi curta?
Ela foi plena, na medida do possível, na minha vida. Eu tive uma formação universitária. Encontrei alguns caminhos. Não tive um professor que fosse cabra safado. Todo mundo competente, inteligente, culto. Completamente envolvidos com o teatro. Então isso é um privilégio. Eu tive a fina flor. Depois quando eu entrei, para estrear, como profissional, primeiro eu fui contrarregra, depois maquiadora, porque o curso não deixava estar no palco antes de formar. Fiz minha prova pública no Teatro de Santa Isabel. E não estreei no TPN, estreei no Teatro de Arena, dirigida por Hermilo. Foi uma ocasião em que Graça Melo deixou a direção, já estava tudo muito bem encaminhado, aí Hermilo assumiu e me disse: “agora você vai estrear comigo, aqui”. A gente não tinha se declarado ainda. Mas eu já estava completamente decidida que o núcleo da minha vida seria o teatro. Tudo me encantava, tudo. No TPN, você tinha curso de filosofia. Dava a você uma formação integral e de vida. Todos os debates, tudo a gente conversava. A gente saia dali para a farra à noite, com o mesmo entusiasmo que a gente se sentava para debater a situação do Brasil. Então aquilo tudo era bagagem que eu ia adquirindo. Eu não sou burra. E me entrego as coisas, que eu acredito. Depois o teatro, por Hermilo, mistura com a cultura popular. Então eu fui me encantando com esse universo que também é teatro. Aí eu dou um pulo para o Santa Isabel. Eu relutei muito, porque era um antiteatro para o teatro que eu fazia. O teatro da gente era um teatro de três faces, quatro, pela própria técnica de Hermilo. Apesar de minha prova pública ter sido lá, eu não tinha nenhuma simpatia do ponto de vista da minha luta de teatro. É um teatro burguês, fechado. Pedi a Ada Siqueira, que veio fazer o convite em nome de João Paulo. Pedi mais uma semana para pensar. Aí depois eu aceitei porque eu poderia fazer o contrário, eu poderia abrir o Santa Isabel para o povo vir, o povão, comunidades, tudo. Entrei num convênio com a Secretaria de Educação. Projeto Bolsa Escola, atingir até estudantes de 16 anos. Toda quarta-feira, à tarde, o teatro dava o espetáculo da noite, à tarde, para as crianças. Aí era um negócio maravilhoso. Entravam os pais também dos meninos. Aí primeiro eu fazia uma conversa, a história do Santa Isabel. E entrava na proposta política de João Paulo: isso daqui é de vocês, os impostos que você paga, está tudo aqui dentro. O mais difícil era que algumas empresas patrocinadoras abrirem mão de ingressos, de cem ingressos, para a gente mandar para o orçamento participativo. Mas eu fiz muito isso. Eu me lembro de uma senhora que colocou a mão no dourado e dizia: “Ave-Maria, eu nunca pensei que eu pudesse entrar nesse castelo”. “Pois então você é uma rainha, o castelo é seu”. Trazia o lanche para comer. Lá dentro, a partir da portaria, não entra nem água, não entrava nada. Aí ela vinha com a mochila de baixo do braço. Aí eu disse “que é isso, minha nêga?”. “Oxente, é lanche”. Eu disse, “mas você não pode entrar com isso lá dentro”. “E eu não lancho não?”. “Lancha. Eu vou colocar nessa mesinha, garanto a você que quando você sair, vai estar aqui, você pega seu lanchinho e vai nessa sala aqui fora, que você pode comer, tem água”. Então, eu tinha 40, 50 pessoas com lanche e, no fim, ninguém mais trazia. E se trazia, já colocava no cantinho. Ninguém nunca me deu trabalho. Ninguém vinha de roupa que não deveria. Porque estudante é fogo. À noite, não entra de bermuda. “Menino, isso aqui é um teatro municipal. Você vá para o Rio, São Paulo, vê se você entra assim lá, vá”. Com roupa de praia, calção, camisa regata. Entra não. Isso não é pobreza. Eu não deixava. Sandália havaiana nos pés? De jeito nenhum. Consegui barateamento de ingressos. Agora, uma coisa que os produtores não me perdoam, é o teatro infantil. Esse foi um calo para mim. Primeiro a gente fez. Porque ninguém se lembra! Foi um caos. Principalmente por conta das academias, dos pais, que não interessa que a lotação é 700 lugares. Derrubaram até uma porta! Interessa que eu vou entrar com minha mulher, minha mãe, num sei quem. Tanto mais poderosos, mais afoitos. Era uma desordem tão grande! Acontecia também com escola particular, uma das mais ricas daqui. A minha conversinha de antes, eles não queriam ouvir nada. Um gritava para o outro: “fulano, me dá meu chiclete”. Pulavam por cima da cadeira, subiam na grade dourada das frisas. Pegaram os dois bigodes de Joaquim Nabuco e quebraram. As pinhas das escadas, arrancaram. Vândalos. Esses já eram adolescentes, gente rica. Tive uma reunião: “ah, nós vamos assumir e pagar”. “Isso é pouco, o outro prejuízo que o teatro teve, que a sociedade teve, que sua escola teve, e que esses meninos tiveram, não adianta dinheiro que pague. Vocês escandalizam a gente, saber que seus alunos, numa escola de tão nível, são capazes de fazer isso no teatro”.

Mas não foi muito radical a sua decisão?
Não…O Teatro de Santa Isabel organizou-se pela primeira vez, depois dessa reforma última. Seu camarim é indevassável, o que você tem dentro do seu camarim, só a camareira pode entrar, como qualquer teatro profissional. Caiu o botão, tem quem conserte. É responsabilidade do teatro. Os banheiros, não faltava papel, tudo cheiroso, em ordem. O teatro infantil, vamos pensar, no domingo de manhã e no sábado à tarde, não há tempo para se preparar a parte de dentro do teatro, para os espetáculos que vão acontecer à noite. Tirar, desocupar um camarim, e infantil é muita gente. Esse material que você desaloja…no Teatro do Parque não..fica pelos corredores, colocam tudo em cima de cadeira, que você fica tropeçando nas coisas. Lá eu não deixo. Fora dos camarins, só vamos dizer, balés grandes, que vem 100 pessoas, 200. Colocam nas araras, perto do camarim. Aí ocupa aquelas áreas. Mas o resto não! Então eu fiz o projeto e lutei até o fim. E levei, apresentei ao secretário Peixe (João Roberto Peixe). Eu tinha que ter outro grupo para infra-estrutura, para varrer as plateias, passar limpeza nos banheiros, limpar os tapetes, os corredores do teatro, o saguão, para a plateia e o povo. Significava uma despesa de R$ 1 mil para a gente cobrar aos grupos. Você imagina se tinha aqui algum grupo de teatro infantil que pudesse pagar um aluguel de R$ 1 mil? Não tinha a menor possibilidade! E a Prefeitura não ia bancar esse extra.

A secretária entra na sala e diz que ela não se preocupe, que a família já está almoçando. Que ela pode chegar para a sobremesa. – E diabético come sobremesa? Me desculpe, minha gente, temos que encerrar. Pollyanna insiste na pergunta: “mas você não sente falta dos palcos?”
Eita! É..eu não respondi! Bom, eu me lembro de uma frase que Érica, do ballet Stagium, estava sentada do meu lado e o balé apresentando. Ela de lado. Ela levou umas quedas, operou e não podia dançar. Eu tinha o exemplo de Mestre Salu, que adoeceu de Doença de Chagas e não podia mais brincar. Ele ficava só com o apito na boca, pra ter a impressão de que está coordenando tudo. E perguntei a essa bailarina se ela não sentia falta de dançar. Ela me respondeu: “mas eu estou dançando”. É a mesma coisa comigo.

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Enfim, o parque completo!

Vinte e seis de março de 2021. Marque na agenda. Abra o jornal para ler a reportagem. Se os nossos governantes foram eficientes e cumpridores dos seus papeis, essa será a data em que o Teatro Luiz Mendonça e a galeria Janete Costa, no Parque Dona Lindu, em Boa Viagem, estarão completando 10 anos de atividades. O repórter certamente irá ouvir as pessoas que estiveram na inauguração (realizada sábado), e puderam acompanhar um show memorável de Lenine e da Orquestra Sinfônica do Recife e passear pela exposição Amor e solidariedade, de Abelardo da Hora.

Lenine e a Orquestra Sinfônica fizeram show inesquecível. Foto: Ivana Moura

A galeria Janete Costa, por exemplo, tem um espaço físico que possibilita a realização de grandes exposições. “Como noutros locais projetados por Niemeyer, aqui também há uma dificuldade na hora da montagem das exposições, da iluminação, por conta do projeto arquitetônico. Mas o espaço está bem resolvido. O Recife merece uma galeria assim e mamãe certamente estaria muito feliz”, disse no último sábado a galerista e filha de Janete Costa, Lúcia Santos.

A mostra Amor e solidariedade, que comemora os 60 anos da primeira exposição do artista Abelardo da Hora, realizada em 1948, oferece a possibilidade de se conhecer mais de perto a obra desse pernambucano de 86 anos, que vai muito além das famosas esculturas de mulheres espalhadas por edifícios da cidade. O que talvez mais chame atenção seja a preocupação e o retrato social que podem ser resgatados daquelas obras – tanto das esculturas como dos desenhos. Como na série Família, desenhos de 1970, ou da escultura Hiroshima. “Ele é o meu mestre. Precisa mais do que isso?”, questionou a artista Guita Charifker, que conta ter participado do Ateliê Coletivo, ao lado de artistas como Samico e José Cláudio, fundado por Abelardo da Hora.

Na rápida solenidade de abertura dos equipamentos culturais, o prefeito João da Costa subiu ao palco do Luiz Mendonça e disse que sempre defendeu o projeto do parque, desde quando ainda era secretário do ex-prefeito João Paulo. “É um equipamento público que a cidade do Recife reclamava, precisava”.

Galeria Janete Costa foi inaugurada com mostra de Abelardo da Hora. Foto: Nando Chiappetta

Depois, foi a vez de Elba Ramalho fazer um participação muito especial. Contou um pouco da sua própria história ao relembrar o amigo Luiz Mendonça, diretor teatral que ela conheceu na época em que foi para o Rio de Janeiro com o Quinteto Violado e decidiu ficar. “Ele perguntou se eu era atriz, se eu cantava, dançava. Disse que sim. Ele disse então que tinha uma apresentação em Vitória. Perguntei quando era o ensaio e ele disse que não tinha ensaio, tinha estreia”. Depois de interpretar Veja Margarida, Elba deixou o palco para as atrações principais: Lenine e a Orquestra Sinfônica.

Como bem disse Lenine, as suas músicas foram “vestidas de roupa de domingo”. Aquele melhor traje, que a gente só usa em ocasiões especiais, e quer até registrar em foto. Composições de tom tão contemporâneo, que fazem sucesso nas rádios e trilhas de novelas, ganharam o acompanhamento de quase 80 músicos. Os arranjos e o comando do piano foram de Ruriá Duprat, ´meu alter ego sinfônico`, disse Lenine; e a regência da Sinfônica do maestro Osman Gioia. Em Paciência, o público cantou junto; ficou encantado com os arranjos de Silêncio das estrelas; com Leão do Norte, se encheu de orgulho; se balançou ao som de Lavadeira do rio. Ao final, a sensação foi de que essa era apenas uma – de muitas – noites culturais que o Recife ainda pode prestigiar naquele espaço. O recifense pode cobrar.

Teatro Luiz Mendonça. Foto: Nando Chiappetta

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Boas vindas ao Dona Lindu

A gente ainda não conheceu o espaço, mas os mistérios que rondavam a inauguração dos equipamentos culturais do Parque Dona Lindu – o Teatro Luiz Mendonça e a galeria Janete Costa – parecem que, finalmente, começam a ser desfeitos. Como antecipamos esta manhã, a abertura será com um show de Lenine e da Orquestra Sinfônica do Recife, no sábado (26), mas apenas para convidados. No dia seguinte, às 18h, o show será virado para o pátio do Parque (já que o teatro moderníssimo permite apresentações tanto no espaço interno quanto externo).

O prefeito disse que tinha sim a ideia de inaugurar o teatro com um espetáculo de artes cênicas, mas que isso não teria sido possível por conta de agendas. Bom, a programação de teatro começa no domingo, às 10h, com O fio mágico, do Mão Molenga Teatro de Bonecos; às 16h30, estão previstas intervenções de artistas circenses. Na terça-feira (29) e na quarta (30), às 20h, é a vez da peça O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas, a peça vencedora – na categoria teatro adulto – do último Janeiro de Grandes Espetáculos.

Ainda vai ter o Grial apresentando Travessia, Palhaços em conSerto, dança de rua com o projeto Ubi Zulu Bambaataa, Decripolou, totepou, Polo Marginal – Opereta de rua e Auto da Compadecida. Na programação de música, no dia 2, tem ainda show de Silvério Pessoa, lançando o álbum No grau.

A mostra que abre a galeria Janete Costa é mesmo uma retrospectiva de Abelardo da Hora.

Segundo o prefeito, a coletiva de imprensa não foi realizada já no Dona Lindu porque Lenine e a Orquestra estavam ensaiando no Santa Isabel. Mas garantiu que está tudo pronto para a abertura.

Renato L, por sua vez, disse que será aberta pauta para o teatro e, quando questionado sobre as condições principalmente de iluminação dos outros teatros, disse que tanto o Apolo quanto o Barreto Júnior vão passar por reformas para resolver quaisquer problemas.

Estamos muito curiosas para conhecer o espaço! Esta manhã, tentei conhecer o teatro, mas não consegui entrar. Depois de algumas combinações, o fotógrafo Júlio Jacobina, aqui do DP, foi tirar fotos do teatro (ainda não deixaram entrar na galeria). E ele chegou aqui na redação dizendo que o teatro é muito bonito, tem dois elevadores para o palco, mas que o chão é de alcatifa. “Como vai ser a manutenção? Vai grudar chiclete!”, observou Jacobina.

Foto: Carlos Oliveira/Prefeitura do Recife

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