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Poética de Hilda Hilst abre Festival Gambiarra

Fabiana Pirro em Obscena – Um Encontro com Hilda Hilst. Foto: Divulgação

Quarteto do Coletivo Gambiarra: Hugo Coutinho, Olga Ferrario, Dea Ferraz e Cláudio Ferrario. Foto Reprodução do Facebook

No horizonte, atualizada praticamente em tempo real pelas redes e telas, uma guerra esdrúxula ameaça a todes, em camadas diversas. Tempos medonhos, sem Carnaval, com pandemia, com o infame brasileiro e seus asseclas a prosseguir o desmonte político das artes e da cultura, da ciência e da cidadania, a ameaçar a floresta, violar direitos dos povos originários. Enquanto a fome de alimentos, de dignidade, de vergonha na cara se alastra pelo país, os partidários da necropolítica atentam contra a vida com suas canetadas e votações imorais de projetos de lei, fundos eleitorais com o Supremo com tudo…

Mas nesse cenário é preciso despertar corações e mentes, ficar atentes porque bombas explodem de todo lado.
Nesse cenário é preciso fazer o que se sabe de melhor.
O Coletivo Gambiarra, com sede em Gravatá – Pernambuco, abriu os paraquedas coloridos (imagem-proposta de Ailton Krenak, em Ideias para adiar o fim do mundo) e articula o Festival Gambiarra.

Uma investigação poética da obra de Hilda Hilst abre os caminhos. Obscena – um encontro com Hilda Hilst, interpretado pela atriz Fabiana Pirro é apresentado na plataforma Zoom nesta sexta-feira (04/03), com ingressos esgotados, e sábado (05/03), à 20h. O Festival Gambiarra conta ainda com as atrações O Último Encontro do Poeta com a sua Alma, com Claudio Ferrario e Olga Ferrario (18/03, sexta-feira, às 20h), Avós, com Olga Ferrario (08/04, sexta-feira, às 20h) e Opá, com Lívia Falcão (22/04, sexta-feira, às 20h).

Fabiana Pirro trabalha a loucura e a estranheza das figuras de Hilda Hilst. Foto Divulgação

Líria, personagem interpretada por Fabiana Pirro, é uma mulher madura, incendiada de desejos; uma figura independente, febril e poderosa como as figuras femininas criadas por Hilda Hilst. No seu fluxo de consciência fragmentado, a personagem-narradora experimenta os ânimos do sagrado e do profano, em cruzamentos de presenças e ausências.

A vida da escritora traz disparadores para a atriz somar com sua vivência, das referências da força masculina de pai, filho e Deus. “Quando em 2013 comecei a adentrar na poesia da Hilda, fiquei muito impressionada. Vi que ela se tornou escritora para dar continuidade à obra do pai Apolonio de Almeida Prado Hilst, como eu também queria fazer algo no teatro para o meu pai. Ela veio como uma luz”, testemunha Fabiana Pirro.

O projeto de Obscena começou em janeiro de 2014 com uma minuciosa pesquisa sobre a poética de Hilda Hilst feita por Fabiana Pirro e Luciana Lyra. Intérprete e diretora passaram uma temporada na Casa do Sol – chácara em Campinas (SP) onde a escritora viveu, e que hoje funciona como o Instituto Hilda Hilst. Obscena estreou no Recife em janeiro de 2015. No mesmo ano viajou para a Paraíba, Portugal e Ceará.

Coletivo Gambiarra: criação em família, arte e transformação. Foto Divulgação

O Coletivo Gambiarra foi criado em 2020, em Gravatá, Pernambuco, no auge do isolamento social causado pela pandemia da Covid-19 para desenvolver experimentações de linguagens em formato híbrido, da interseção entre a tecnologia, o teatro e o cinema.

O quarteto do Gambiarra é composto pelo ator Cláudio Ferrario, pela atriz Olga Ferrario, pelo músico Hugo Coutinho e pela cineasta Dea Ferraz.  Eles apontam que a experiência é como um atravessamento entre teatro e cinema, feita pelo jogo cênico da câmera de Dea Ferraz (Câmara de EspelhosSete Corações), que filma ao vivo, em plano sequência como “um olho-corpo presente e atuante”. A imagem ganha contornos sensoriais, que permite uma aproximaçãode presença, apesar da virtualidade.

As imagens são construídas, decupadas e ensaiadas como cenas de um filme, mas tudo ao vivo, compartilhado com o público, com o risco do erro e da falha, próprios do teatro.

O Festival Gambiarra foi aprovado na Lab Recife, Edital Joel Datz.

PROGRAMAÇÃO

Fabiana Pirro. Foto: Divulgação

Obscena – Um Encontro com Hilda Hilst – Fabiana Pirro
4 e 5 de março (sexta-feira e sábado), às 20h

Criado para o teatro, o espetáculo Obscena – um encontro com Hilda Hilst, com a atriz Fabiana Pirro, chega ao CineTeatro Gambiarra e ganha nova leitura. Agora traduzido para essa linguagem híbrida entre o teatro e o cinema.

Claudio Ferrario e Olga Ferrario. Foto: Divulgação

O Último Encontro do Poeta com a Sua Alma – Claudio Ferrario e Olga Ferrario
18 de março (sexta-feira), às 20h

Num diálogo intenso e profundo, acompanhamos o poeta num encontro com a sua alma. Ele repassa a vida que teve, seus caminhos, os medos, as escolhas amorosas e suas entregas.

Olga Ferrario. Foto: Déa Ferraz / Divulgação

Avós – Olga Ferrario
8 de abril (sexta-feira), às 20h

A vida é uma espiral em movimento e a peça faz um mergulho em sentimentos, aprendizados, nascimentos e mortes. Uma experimentação poética sobre os ciclos.

Lívia Falcão em Opá. Foto Divulgação.

Opá – Lívia Falcão
22 de abril (sexta-feira), às 20h

A Palhaça de Lívia Falcão, Xamãe Zanoia, é uma benzedeira antiga, descendente direta da xamã mais velha, de terras distantes. Um lugar de abundâncias e milagres, de onde veio sua voz e a sua Opá. Xamãe Zanoia usa de seus poderes mágicos e entra na virtualidade para conectar-se com os inúmeros mundos à sua volta, fazendo de sua Opá um lugar de encontro, riso, leveza, cura e amor.

Serviço:
Obscena – um encontro com Hilda Hilst (solo com a atriz Fabiana Pirro)

Quando: Sábado (5 de março), às 20h
Quanto: R$ 15 (social), R$ 30 (sugerido) e R$ 50 (abundante)
Bilheteria virtual: wapp (81) 995297939
Mais informações no perfil do Instagram @cineteatrogambiarra.

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Ciência versus religião:
um debate acalorado entre Freud e CS Lewis

Odilon Wagner, Claudio Fontana e Elias Andreato, atores e diretor de A Última Sessão de Freud. Foto: João Caldas Fº / Divulgação

Peça faz temporada no Itaú Cultural. Foto João Caldas Filho

Pelo que se sabe, Sigmund Freud (1856 – 1939) e o irlandês CS Lewis (1898 – 1963) nunca se conheceram. Mas o dramaturgo norte-americano Mark St. Germain deu um jeito desse encontro acontecer. Foi em 3 setembro de 1939, numa Londres prestes a receber os ataques aéreos alemães, dia em que a Inglaterra ingressou na Segunda Guerra Mundial. Os dois homens estavam no limite, sabendo que Hitler poderia bombardear Londres a qualquer minuto. Isso era algo aterrorizante para os dois personagens: o refugiado judeu de 83 anos que havia fugido da perseguição nazista na Áustria e o veterano da Primeira Guerra Mundial, de 40 anos.

Nesse encontro fictício, o pai da Psicanálise e o crítico literário debatem a questão de Deus, no espetáculo A Última Sessão de Freud, em temporada de 3 a 27 de março de quinta-feira a domingo, no Itaú Cultural. A montagem reúne os atores Odilon Wagner e Claudio Fontana, sob direção de Elias Andreato

O autor St. Germain se inspirou no livro Deus em Questão, de Armand M.Nicholi Jr, professor clínico de psiquiatria da Harvard Medical School. Na peça, o debate entre os dois intelectuais se move em torno dos argumentos de razão e crença. De um lado, a filosofia racionalista e ateia de Freud, do outro apologia cristã de Lewis.

O cenário é o consultório onde Freud – crítico implacável da crença religiosa – desenvolvia sua psicanálise e seus estudos. Os dois conversam de forma apaixonada sobre o dilema entre ateísmo e a crença em Deus. Lewis, renomado professor de Oxford, se apresenta como ex-ateu e influente defensor da fé baseada na razão.

A Última Sessão de Freud é um jogo de ideias. Mais além do conflito entre ciência e religião, os dois intelectuais expandem o embate por outros assuntos, como música, Hitler, relações humanas, morte e até a flatulência. Eles fazem piadas, se criticam mutuamente. Lewis recrimina Freud por ser obcecado por sexo; Freud caçoa da reverência de Lewis à autoridade. O diretor Elias Andreato apostou no poder da palavra nessa encenação. O debate promete.

A última sessão de Freud. Foto João Caldas Filho

FICHA TÉCNICA:
Texto: Mark St. Germain
Tradução: Clarisse Abujamra
Direção: Elias Andreato
Assistente de Direção: Raphael Gama
Elenco: Odilon Wagner (Sigmund Freud) e Claudio Fontana (C.S.Lewis)
Cenário e figurino: Fábio Namatame
Assistente de cenografia: Fernando Passetti
Desenho de Luz: Gabriel Paiva e André Prado
Trilha Sonora: Raphael Gama
Arte Gráfica: Rodolfo Juliani
Fotografia: João Caldas
Iluminador: Cauê Gouveia
Sonoplasta: André Omote
Coordenador Geral de Produção: Ronaldo Diaféria
Direção de produção: Claudia Miranda
Assistente de produção: Marcos Rinaldi
Diretor de palco: Tadeu Tosta
Contra-Regra: Vinicius Henrique
Mídias Sociais: Rodrigo Avelar
Assessoria de imprensa: Pombo Correio
Produtores Associados: Diaféria Produções e Itaporã Comunicação

SERVIÇO
A Última Sessão de Freud
Temporada de 3 a 27 de março (sempre de quinta-feira a domingo)
Quinta-feira a sábado às 20h, e domingo às 19h
Classificação indicativa: 12 anos
Duração: 90 minutos
Sala Itaú Cultural (Piso Térreo)
Capacidade: 156 lugares
Entrada gratuita
Reservas de ingressos pela plataforma Inti – acesso pelo site do Itaú Cultural
www.itaucultural.org.br

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Cássia Kis interpreta Manoel de Barros

Meu quintal é maior do que o mundo, solo com Cássia Kis, com direção de Ulysses Cruz. Foto Ronaldo Gutierrez / Divulgação

A atriz inunda o palco de lirismo. Foto Luiz Romero / Divulgação

Cássia Kis e o músico Gilberto Rodrigues. Foto Nicolas Caratori / Divulgação

“Meu quintal é maior do que o mundo” é um verso do poema O apanhador de desperdícios. Nessa poesia, Manoel de Barros (1916-2014) propõe uma pausa na urgência voraz e agiganta seu terreiro para contemplar o ritmo de vida das “coisas desimportantes”. A atriz Cássia Kis leva esse olhar do encantamento, da imaginação e da inventividade ao palco do Teatro Vivo no espetáculo Meu quintal é maior do que o mundo, em cartaz de 4 a 27 de março de 2022 (sextas-feiras às 20h, sábados às 21h e domingos às 18h).

A peça estreou em janeiro de 2019, no Teatro do Sesi, marcando a volta da atriz aos palcos depois de 10 anos (sua última peça foi O Zoológico de Vidro, de 2009).

Como anotou Antônio Houaiss, a invenção poética de Manoel de Barros tem personalidade própria rara entre os nossos poetas. São palavras confundidas com imagens, que chegam para “desexplicar”. Poesia formada de restos, de sobras, que consegue com sensualismo poético “encostar o Verbo na natureza”.

Na invencionice do essencial, a intérprete anima a alma da criança, do amante dos passarinhos e do andarilho, fontes criativas do poeta. Com leveza e humor, a atriz cria um ambiente íntimo com a plateia para revelar o profundo humanismo de Manoel de Barros.

O solo de Cássia Kis tem direção de Ulysses Cruz, participação do músico Gilberto Rodrigues e está dividido em três blocos: o primeiro contempla o cenário e o espaço mítico do poeta; o segundo expõe a pessoa que descreve aqueles cenários e o terceiro indica o que inspira o escritor.

O universo poético do cerrado brasileiro é exposto em textos curtos do livro de prosa Memórias Inventadas, publicado em 2005. As mudanças de blocos são marcadas pela execução musical, alterações de cenário e iluminação e acréscimo de adereços ao figurino básico. 

O espetáculo Meu quintal é maior que o mundo está repleto de delicadezas. Com mutações de registro vocal, de posturas e do desenho coreográfico, a atriz investiga a vitalidade do poeta que cantou a Natureza e que nos convida a expandir a capacidade de observação e empatia com o cotidiano prosaico e repleto de generosidade, com suas pequenas explosões de alegrias e suas inevitáveis angústias.

Leitora atenta e conhecedora da obra de Manoel de Barros, Cássia se tornou amiga do poeta mato-grossense e inunda o palco de lirismo. A peça incita o espectador a navegar pelas frases originais, o estilo único como Barros compôs essas palavras, tão plenas de vida.

Cássia Kis. Foto Ronaldo Gutierrez / Divulgação

Ficha Técnica
Obra: Manoel de Barros.
Elenco: Cássia Kis.
Direção geral: Ulysses Cruz.
Adaptação do texto: Cássia Kis e Ulysses Cruz.
Cenário e figurinos: Ulysses Cruz.
Direção e criação musical: Gilberto Rodrigues.
Execução musical: Gilberto Rodrigues.
Iluminação: Nicolas Caratori.
Fotos: Ronaldo Gutierrez, Gal Oppido e Luiz Romero.
Direção de Movimento: Cynthia Garcia.
Costureira: Judite de Lima.
Adereços: Luis Rossi.
Coordenação da Produção: Selene Marinho e Sergio Mastropasqua.
Produtora Executiva: Isabel Gomez.
Produção Original: SESI – SP.
Projeto selecionado no Edital Proac Expresso Direto nº 37/2021 – Fomento Direto a Projetos Culturais Aprovados no Proac Expresso ICMS em 2020 e 2019.

Serviço
Meu Quintal é Maior do que o Mundo
Quando: De 4 a 27 de março de 2022 – Sextas-feiras às 20h, sábados às 21h e domingos às 18h.
Onde: Teatro Vivo – Avenida Doutor Chucri Zaidan, 2460 – Morumbi
Quanto: R$ 60,00 (inteira) R$ 30,00 (meia).
Duração: 70 minutos.
Classificação: Livre.
Informações: (11) 3279-1520. Vendas pelo site Ingresso Rápido.

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Morte e Vida Severina na visão do Magiluth

Estudo1 Morte e vida. Foto: Vitor Pessoa / Divulgação

Pernambuco é um celeiro de escritores e poetas, com obras importantes para a literatura brasileira. João Cabral de Melo Neto (1920-1999) é um dos grandes, adverte de cara o ator Giordano Castro ao ser perguntado sobre a escolha do texto. O centenário do poeta pernambucano ocorreu em 2020 no auge do isolamento social. Se o mundo não tivesse parado, a montagem do Grupo Magiluth inspirada em Morte e Vida Severina – Um Auto de Natal teria estreado para celebrar os 100 anos do autor de O Cão Sem Plumas. Muita coisa pifou com a pandemia da Covid-19. O trabalho do Magiluth, que primeiro seria um espetáculo de rua, ganhou outras feições durante esse percurso. Chega ao palco do Teatro Ipiranga, em São Paulo, como Estudo Nº1: Morte e Vida.

Com encenação de Luiz Fernando Marques, Lubi, parceiro da trupe pernambucana desde 2012 e diretor dos espetáculos Aquilo que meu olhar guardou para você e Apenas o Fim do Mundo, esse último juntamente com Giovana Soar, essa quase “peça-palestra”, vale-se do livro como disparador para discussões das migrações contemporâneas, a questão climática, da seca, e a repercussão na vida de pessoas de várias partes do planeta. Perpassada pela política, a montagem expande a figura do Severino para fluxos mundiais de deslocamentos.

O estudo do título expõe elementos que muitas vezes ficam ocultos nas encenações, como os sistemas de som e luz. A direção musical é de Rodrigo Mercadante, que reforça a ideia dos ciclos de vida e morte da peça em sua trilha, com sonoridades originais e músicas de artistas do punk e do hardcore de Pernambuco.

O retirante Severino, protagonista da peça cabralina, se apresenta como sujeito individual e coletivo. Ao investigar as migrações forçadas, o Estudo Nº1: Morte e Vida cavouca as perspectivas geográficas, simbólicas e humanas dos impulsos que se deslocam.

Entrevista || Giordano Castro 

Por que João Cabral?

É importante levar em consideração que Pernambuco é um estado com muitos escritores, muitos poetas que têm uma obra importantíssima para a literatura brasileira. E de um caráter estético muito inovador e peculiar. Cada um tem uma identidade muito forte. Dentre eles, João Cabral é um dos que chama bastante atenção para a gente por causa da questão do rebuscamento da própria escrita. Algo que ele levava com muito cuidado e muita atenção. Ele é conhecido por ser um poeta que lapidava muito os seus trabalhos e que ainda assim conseguia manter uma dureza naquilo ele falava.

Para nós, Morte e Vida Severina – apesar de ser uma obra que João Cabral não era muito carinhoso por ela – guarda uma célula muito potente de apontamentos de caminhos para abrir discussões. É como se dentro daquele poema-peça ele abrisse muitas questões. Ele não fala apenas sobre um homem que se vê na necessidade de migrar por problemas naturais e da seca, o que não seria pouca coisa, mas ele coloca questões sobre o trabalho, sobre o próprio homem, sobre a característica desse homem, sobre a terra, sobre a reforma agrária. Enfim, são muitos apontamentos e talvez esse trabalho tenha chamado a atenção da gente por causa disso. E dentro do Magiluth cada um foi atravessado por algo diferente, então acaba sendo uma poesia muito plural de abordagem. E a própria palavra, a forma como ele, João Cabral, como escolhe as palavras dentro do seu poema e como aquelas palavras têm uma maneira de organizar aquela poesia. A escolha foi por uma questão estética mesmo e também por uma questão política.

As migrações e travessias são marcas de cada tempo, que traduzem colonizações e buscas por territórios. Como o Magiluth atualiza esses movimentos nesta montagem?

As questões de migração e de travessia como você fala, de fato, são coisas que continuam acontecendo. Desde a ideia da existência humana até os dias de hoje a necessidade de migrar se faz. A gente sempre entende isso como um movimento político. Nas migrações hoje temos encontros com outros Severinos. O Severino que João Cabral aborda, nordestino, ganha ares mundiais. A gente entende hoje que os Severinos não são somente outros sotaques, mas outras línguas. As questões climáticas que fizeram com que o Severino do Morte e Vida saísse da sua região, hoje atinge e vai continuar atingindo e piorando para cada vez mais outras pessoas. Serão outros Severinos saindo de Quiribati, que vão começar a sair das cidades mais baixas do mundo depois do aquecimento global, com o derretimento das geleiras e o aumento dos oceanos. Serão Severinos americanos, italianos, recifenses. E essas questões climáticas, elas estão – hoje e ontem – absolutamente ligadas às questões políticas – como o homem politicamente usa a natureza, como como tudo isso interfere em ganhos, na estrutura, está tudo interligado

O que essa pandemia trouxe para o trabalho de vocês?
A pandemia, o que a gente consegue falar em muitas camadas. Ela foi desesperadora no começo, forçar o Magiluth a uma série de situações, parar as atividades e tudo mais. Depois ela foi uma descoberta para gente, o que gerou os três trabalhos online – (uma trilogia de experimentos sensoriais em confinamento, composta pelas obras Tudo que coube numa VHS, Todas as histórias possíveis e Virá)

Mais especificamente falando do Estudo Nº1: Morte e Vida, a pandemia deu um molde poético para o trabalho. O trabalho começou a ser pensado no final de 2019, passou por muitas possibilidades. Esse espetáculo já foi pensado, por exemplo no princípio, de um espetáculo de rua; depois foi pensado para se fazer no palco; depois ele virou o estudo. E a cada retomada por causa da pandemia, a gente também se encontrava com uma nova proposta poética. E aí eu acho que o resultado é uma soma de todos os momentos. Eu acho que a gente conseguiu amontoar todos eles.

Ficha Técnica
Criação e realização: Grupo Magiluth
Direção: Luiz Fernando Marques
Assistente de direção e direção musical: Rodrigo Mercadante
Dramaturgia: Grupo Magiluth
Elenco: Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres e Mário Sergio Cabral
Produção: Grupo Magiluth e Amanda Dias Leite
Produção local: Roberto Brandão

Estudo Nº 1: Morte e Vida, com o Grupo Magiluth
Quando: De 28 de janeiro a 6 de março de 2022, sextas e sábados às 21h, domingos, às 18h
Onde: Sesc Ipiranga )Rua Bom Pastor, 822 – Ipiranga – São Paulo SP)
Quanto: R$ 40(inteira) e R$ 20 (meia)
Classificação indicativa: 16 anos

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Travessias – Como Permanecemos Vivas?
na programação do Itaú Cultural

Lu Favoreto. Foto Luciana Canton / Divulgação

Como já disse Lygia Clark, a arte é uma reserva ecológica das espécies invisíveis que habitam nosso corpo-bicho. Uma nascente inesgotável para os enfrentamentos.

Desde o começo da pandemia da Covid-19, os artistas foram forjados a se reinventar, criar outras possibilidades de existência. O projeto Travessias – Como Permanecemos Vivas? (primeiro Palco Virtual de Cênicas de 2022, do Itaú Cultural) investiga como as linguagens artísticas operaram como instrumento de cura do indivíduo e da sociedade durante a pandemia. A cura vista de forma ampla, como força de transformação e autoconhecimento, ressignifição, comunicação, empatia, expressão e imaginação.

O programa Travessias bate o tambor para questões bem urgentes, sobre a sobrevivência cultural durante a pandemia, numa pauta híbrida e multifacetada. Nos dias 22 e 23, e 29 e 30 (sábados e domingos), oito artistas de diferentes linguagens apresentam performances híbridas – entre gravações e momentos ao vivo – sobre como a arte revitalizou e transformou os artistas nos últimos anos. São eles: o artista visual Denilson Baniwa (AM), a artista da dança Lu Favoreto (PR/SP), a cantora Filipe Catto (RS), o autor João Silvério Trevisan (SP), o artista da dança Eduardo O. (BA), a dramaturga Onisajé (BA), a artista Marta Aurélia e a indígena multiartista Zahy Guajajara (MA). A transmissão é on-line é realizada em dois finais de semana, com performances e trocas ao vivo

O evento idealizado pelo ator, produtor e diretor Aury Porto e realizado pelo IC é gratuito, transmitido pela plataforma Duas performances são exibidas por dia, seguidas de uma conversa entre artistas e plateia. Os bate-papos são mediados pela dramaturga e psicanalista Cláudia Barral e por Aury Porto. Os ingressos devem ser reservados pela Sympla. Mais informações no site do Itaú Cultural www.itaucultural.org.br.

Denilson Baniwa. Foto Denilson Baniwa

João Silvério Trevisan. Foto Divulgação

Onisajé. foto Fabíola Nansurê

Edu-O. Foto Nei Lima

Denilson Baniwa é um artista amazonense, de Mariuá, Rio Negro, que desbravou caminhos para o protagonismo dos indígenas no território nacional. Artista antropófago, Denilson Baniwa apropria-se de linguagens ocidentais para descolonizá-las em sua obra. Lu Favoreto, artista da dança paranaense radicada em São Paulo, onde dirige a Cia. Oito Nova Dança. Atua como intérprete, coreógrafa, professora e orientadora corporal nas artes cênicas. O trabalho de cada um dos artista abre a programação no dia 22 (sábado), às 20h.

A cantora gaúcha Filipe Catto e a dramaturga baiana Onisajé são as convidadas do domingo, 23, às 19h. “Os conservadores estão tapando o sol com a peneira. Continuaremos aqui. Continuaremos nascendo e vivendo e criando. A sensibilidade das pessoas LGBTQIA+ sempre foi o que moveu o mundo das artes.”, já disse Catto em entrevista, ela que é uma artista trans não binária, compositora, artista visual, performer, produtora musical e designer que trabalha um cruzamento entre música e imagem.

Fernanda Júlia Onisajé só nasceu carioca mas é baiana por opção, encenadora-fundadora do Núcleo Afro-brasileiro de Teatro de Alagoinhas (NATA). Mestre e doutora em Artes Cênicas pelo Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas (PPGAC) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Onisajé é dramaturga e pesquisadora das religiões de matrizes afro-brasileiras com foco nas religiões de matriz africana.

O cruzo da segunda semana do Travessias (sábado, 29, a partir das 20h) reúne performances do artista baiano da dança e do teatro Eduardo O. e do romancista, contista, ensaísta, roteirista, diretor de cinema e dramaturgo João Silvério Trevisan, de São Paulo. Edu O. dirige o Grupo X de Improvisação em Dança e é co-fundador do Coletivo Carrinho de Mão. Trevisan é autor de vários livros, entre eles A idade de ouro do Brasil e Devassos no Paraíso – este, um estudo pioneiro sobre a homoafetividade no Brasil.

A cantora cearense Marta Aurélia e da multiartista maranhense Zahy Guajajara fecham a programação no dia 30. Marta Aurélia estuda a relação estreita entre vida e arte. Zahy compartilha os conhecimentos ancestrais, adquiridos em uma trajetória iniciada na aldeia Colônia, que fica na reserva indígena Cana Brava, onde nasceu.

SERVIÇO:
Palco Virtual – Cênicas
Travessias – Como Permanecemos Vivas?

22 de janeiro (sábado) às 20h
Denilson Baniwa e Lu Favoreto

23 de janeiro (domingo) às 19h
Filipe Catto e Onisajé

29 de janeiro (sábado) às 20h
Edu O. e João Silvério Trevisan

30 de janeiro (domingo) às 19h
Marta Aurélia + Zahy Guajajara

Itaú Cultural: www.itaucultural.org.br

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