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Sem orçamento, Secretaria de Cultura cancela edição 2014 do Festival Nacional

Carlos Carvalho diz que assina embaixo a não realização do FRTN, porque não havia recursos suficientes para fazer um bom festival. Foto: Pollyanna Diniz

Carlos Carvalho diz que assina embaixo a não realização do FRTN, porque não havia recursos suficientes para fazer um bom festival. Foto: Pollyanna Diniz

Agora é oficial. O burburinho que tomava conta das rodas de conversa dos artistas se concretizou: a 17ª edição do Festival Recife do Teatro Nacional (FRTN) não irá acontecer em 2014. Sem que a sociedade civil e a classe artística fossem ouvidas, a Prefeitura do Recife, através da Secretaria de Cultura e da Fundação de Cultura Cidade do Recife, decidiu que o FRTN e o Festival Internacional de Dança do Recife serão intercalados. O Festival de Dança terminou este mês e agora só deve acontecer em 2016.

O Festival Nacional, como é chamado pela classe artística, sempre foi em seus bastidores um palco de lutas e afirmações, de buscas de políticas culturais mais amplas e quase nunca de consensos. A exceção talvez esteja no fato de que todos sempre concordaram com a importância da sua realização. Em 16 anos, a mostra ganhou alguns formatos, na busca pela excelência artística e também pelo cumprimento do seu papel social não só para os artistas e amantes do teatro, mas para o público em geral.

No ano passado, o Festival sofreu algumas alterações, na esteira da mudança política decorrente da gestão do PSB, que assumiu a Prefeitura do Recife. Foi uma edição bastante complicada – seja pela falta de planejamento, de orçamento, de qualidade artística. A discussão sobre o festival foi acalorada e pensou-se que iria render frutos, para uma próxima edição. Não foi o que aconteceu na prática. Sem verba, a edição 2014 do festival foi limada do calendário.

Em quase duas horas de conversa, o gerente geral do Centro de Formação e Pesquisa Apolo-Hermilo, Carlos Carvalho, responsável pela realização do festival, tentou explicar a decisão ao blog e reconheceu que a classe artística não foi ouvida, embora afirme que o momento é crucial para discussões.

Conversamos também sobre as ações que estão sendo executadas e planejadas para o Centro Apolo-Hermilo. Como a notícia sobre o cancelamento do festival já foi divulgada, resolvemos publicar logo a última parte da entrevista com Carlos, justamente sobre o FRTN. Logo mais, divulgaremos o restante da conversa.

Gestor garante que quer conversar com as entidades ainda este ano

Gestor garante que quer conversar com as entidades ainda este ano

ENTREVISTA // CARLOS CARVALHO

Isso não foi anunciado oficialmente (não havia sido até que a assessoria de imprensa da Prefeitura do Recife divulgasse uma nota no mesmo momento em que realizávamos a entrevista), mas o que se consta é que este ano não teremos Festival Recife do Teatro Nacional. Qual o motivo? Quem tomou essa decisão? Por quê?
De fato, não vai acontecer. Não há tempo para fazer o festival em 2014. O que levou a essa decisão? Primeiro: a diminuição dos recursos para o evento. Dois: um festival com a história que tem, seriam 17 edições este ano, não tem regularidade de orçamento. Penso também que, sendo coerente com o meu discurso de que gestão é feita não só pelos gestores, mas em parceria com a sociedade, que esse é o momento para sentarmos todos à mesa para discutir o que é esse festival, para quem, para que serve, a que ele atende? Porque, afinal de contas, estamos tratando de recurso público. Não estou pensando em números, números de quantas pessoas assistiram ou não, porque esse é um componente da discussão, mas não é fundamental. Para que serve, pra quem serve, para a cidade, para alguns? Esse debate precisa ser alargado. Essa foi a minha defesa. A decisão não foi minha, porque o festival não pertence ao Centro de Formação e Pesquisa, ele está aqui, por questões que o trouxeram para cá, mas ele pertence à gestão. Claro que todas as avaliações do festival (feitas ao final do festival), são escutas, onde se projetam coisas para o próximo ano; mas há muitas recorrências. Ao olhar as avaliações, de todos os anos, percebemos que, ora se fala mal do curador, ora se fala bem do curador, ora se fala mal do grau de excelência dos espetáculos. Creio que esse momento de não ter o festival, não ter para que no próximo ano ele seja bienal, acho que isso é uma coisa salutar. O fazer tem que ser precedido do planejar. Tem que ser discutido, planejado, consenso, vários olhares. Como agregar valor a esse festival? Tem tantas coisas a serem pensadas, sabe? Penso que a gente, ainda este ano, convide os entes todos, as entidades, e os interessados, os grupos, os artistas, enfim, pra discutir. Fazer talvez um grupo de trabalho para pensar o festival.

Porque isso não aconteceu antes? Tivemos um ano, desde o festival passado, já realizado com muitos problemas e críticas. A classe tem interesse nessa discussão. A avaliação, realizada aqui no Teatro Hermilo, estava lotada. É importante para a classe. De que forma ele vai ser reestruturado, debatemos, mas acho que a importância, não se discute. Tivemos pelo menos um ano para fazer isso. Queria saber o porquê disso não ter sido feito e, claramente, de quem foi a decisão de não ter festival e de ele ser bienal? Foi de Leda Alves?
É da Secretaria, em conjunto com a Fundação. Não teve um herói.

Mas, por exemplo, Romildo Moreira (gerente de artes cênicas da Prefeitura do Recife) foi consultado neste cancelamento?
Não sei lhe dizer. Sinceramente, não sei dizer se ele foi consultado.

Porque como ele é o gerente de artes cênicas, enfim…
Eu sei dizer que isso foi tema e eu participei de discussões, porque a gente estava esperando orçamentos, esperando orçamentos.

Essa decisão foi tomada quando?
Pouco tempo atrás.

Já se sabe que o orçamento para esse festival é bastante abstrato, assim como para qualquer outro evento de cultura da Prefeitura do Recife. Mas o Festival de Dança foi realizado agora há pouco. Também sabemos, historicamente, que é necessário que tenha alguém que vá atrás da captação de recursos, para que esse festival tenha, digamos, certa autonomia de verba.
A Secretaria tem um captador, que é Wellington (Lima). Onde a gente pode, nos editais, colocar o festival, colocamos, tanto Romildo por sua parte, como eu. Tive pouquíssimo contato com Romildo. Confesso que não era para ser assim. Mas as coisas aqui e lá e ele está distante, ele está no Pátio de São Pedro…

Por que as discussões não aconteceram?
As discussões aconteceram, aconteceram algumas discussões a respeito. Porque a luta continua. Ou seja: você espera que o orçamento seja consolidado em tal época, em tal tempo, aí não é consolidado, mas se abre uma perspectiva, então pra frente, pra frente. Na parte de captação, a gente colocou em vários editais o festival. Alguns não passaram, outros estamos esperando uma resposta.

Mas não dá mais tempo..
Sim, pra 2015. Estamos aguardando ainda alguns e estamos colocando noutros, além da Rouanet. Outro problema que já foi grave ano passado é que o festival estava com algumas pendências no Ministério da Cultura. A Secretaria, enquanto Festival de Dança, e de Teatro, eu soube. Isso teve que ser resolvido, de documentação, coisas desse tipo.

Mas isso foi importante na decisão de cancelar o festival? A Prefeitura não tem verba para fazer o festival? É isso?
A maior coisa foi falta de recursos.

Próximo ano teremos verba para fazer o festival?
Acho que sim. Estamos lutando para isso. Não posso dizer se teremos, porque nenhuma das pessoas pode dizer se próximo ano teremos, nem o prefeito; a não ser que ele diga assim: “eu vou tirar de tal lugar e colocar aqui”. A gente tem um orçamento que vai ser votado. Esse orçamento vai para a Câmara, tem um processo.

Porque Carnaval nós teremos…
Carnaval terá com a Prefeitura ou sem a Prefeitura.

Eu venho acompanhando esse festival desde o início. Em alguns momentos, o secretário de Cultura, ele chegou ao prefeito para garantir a realização do festival. E disse: “você tem que bancar esse festival, porque esse festival é muito importante para a cidade”. Eu acho que, talvez, mas isso é uma suposição, de que Leda não tenha peitado, cobrado isso do prefeito, como prioridade da gestão.
Eu não diria assim. Eu aceito a sua suposição, mas acho que isso é de fato uma suposição. A secretária despacha com o prefeito regularmente. Penso que Leda está puxando todas as questões que são pertinentes à secretaria e à sua gestão junto ao prefeito. Não tenho a menor dúvida disso. Acho que a questão foi exatamente orçamentária. Eu não sei dizer quanto foi que o Festival Internacional de Dança captou ou quanto foi o orçamento definitivo dele, uma vez que é da Fundação, e eu não tenho acesso aos recursos da Fundação. E louvo o festival ter acontecido, como eu louvo ter feito o FRTN ano passado. Foi uma dificuldade enorme para fazer o festival, com aquele dinheiro.

Que foi quanto?
Foi R$ 700 mil. Mas R$ 700 mil para fazer um festival daquele? É uma loucura.

Quanto disso foi recurso próprio?
Teve um patrocínio da Caixa Cultural, acho que era R$ 50 mil. Pouquíssimo foi captado. Acho que esse festival precisa, com todo respeito a tudo que já foi feito, passar por um alargamento do olhar, não só dos que fazem teatro, mas aumentar o olhar sobre o festival, para que ele aumente em importância. Defendo, colaboro, assino em baixo, a não realização, pela razão dos recursos não serem os necessários para se fazer um bom festival. E acho que fazer capenga demais, não é bom, nem para quem está fazendo, nem para o público. Penso que é o momento não só para discutir o festival, mas para discutir política cultural.

Qual é o reflexo para a cidade e para a classe a não realização do festival?
Acho que serão muitas críticas. Tenho certeza que serão muitas críticas. Mas a gente está aqui também para receber críticas.

Mas, além das críticas, quais os reflexos para a nossa formação? Estamos dentro de um Centro de Formação, para a ampliação do olhar…
Eu acho que o Festival ele cumpre um papel. Mas, como ele, tem outros. A gente tem agora a Cena Cumplicidades, o Festival de Circo do Brasil, o Palhaçaria, o Janeiro de Grandes Espetáculos, que é internacional. Essa formação do olhar, a cidade não tem essas carências todas, da formação do olhar, da acuidade dos sentidos. Não vejo como a falta do festival vai influir de forma tamanha que vai ser um desastre para os apreciadores desta arte. Não vejo assim. Acho que não fazer vai gerar alguns desconfortos, mas esse desconforto, até aproveito aqui para convocar: vamos conversar?

O que eu soube era que o festival teoricamente já estava pensado.
Tinha muita coisa que a gente avaliou, a questão da curadoria, a questão do edital, a questão da ocupação dos espaços. Fizemos algumas leituras de como alargar o festival para a cidade, em espaços que habitualmente o festival não foi. Tem uma série de coisas que a gente discutiu e formulou para, exatamente, na deflagração, “vai ter, o orçamento é esse”, a gente trabalhar.

Por que o Festival de Dança aconteceu? De que forma ele conseguiu recursos? Você falou que o Festival de Teatro precisa reencontrar um conceito. E o Festival de Dança?
Não posso te responder isso, infelizmente. Acho que essa é uma pergunta que Romildo (Moreira) deve te responder. Não quero nem tocar nesse assunto. Quando eu digo que o Festival de Teatro precisa ser repensado, é porque acabou o tempo dos sólidos. A gente pode ser mais fluido. Não é porque esse modelo está consolidado ou foi consolidado, que ele não precisa ser revisitado. Não estou dizendo que ele é ruim. Estou dizendo que ele precisa ser revisitado, outros olhares, outras maneiras de ver.

Foi batido o martelo que o festival vai ser bienal? Ou isso ainda vai ser definido?
Acho que está consolidado que será bienal, alternadamente, um ano um, um ano outro.

A Secretaria já tomou essa decisão, isso já está consolidado?
É.

Próximo ano a gente não vai ter Festival de Dança?
Não.

A sociedade civil foi consultada para essa decisão, a classe artística?
Acho que não.

Quando a gente diz que a gestão é compartilhada, que tinha que ter o diálogo…
Eu estou dizendo que é preciso ter. Estou dizendo que é preciso a gente avançar nisso. Acho que é bom, é salutar.

A não realização do festival de teatro, em parte, seria uma responsabilidade da sociedade civil, das entidades, que não estão acompanhando…?
Não estou dizendo que a culpa é de ninguém. Estou dizendo que aconteceu.

Se as pessoas estivessem mais atentas…
Pode ser. Ou pelo menos a explicação de que não tem. Você só faz feira se tiver dinheiro. Então, se você não tem o dinheiro… Agora, no ano passado, já foi muito difícil fazer. A gente emprestou a nossa competência pessoal nos diálogos para diminuir cachê, diminuir custo de transporte. Foi muito difícil fazer.

Você como gestor, e como artista, se sente frustrado, pela não realização do festival?
Não. Sinto que foi necessário. É uma decisão madura, pelo menos minha. Penso que essa é uma atitude honrada. Acho que é uma atitude de quem tem responsabilidade, entendeu? E acho que, aproveitando esse momento, que provavelmente será de insatisfação de muitos, vamos pensar juntos e aí avançar para o próximo ano. Penso que esse festival pode ser muito melhor do que foi. Penso que o festival pode ser mais propositivo em várias questões.

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Festival Recife do Teatro Nacional não irá acontecer

FRTN 2014 não irá acontecer. Grupo Galpão abriu festival ano passado

FRTN 2014 não irá acontecer. Grupo Galpão abriu festival ano passado

Há mais de duas semanas tentamos entrevistar o gerente geral do Centro de Formação Apolo-Hermilo, Carlos Carvalho. Depois de algumas investidas frustradas, finalmente conversamos durante quase duas horas na manhã desta quarta-feira (29) sobre os rumos do Apolo-Hermilo e sobre o Festival Recife do Teatro Nacional (FRTN), o seu cancelamento e a decisão de torná-lo bienal. Enquanto estávamos entrevistando o gerente, a assessoria de imprensa da Secretaria de Cultura soltou uma nota para os veículos de comunicação tratando justamente do FRTN.

Segue a nota sobre da Prefeitura do Recife:

“REORGANIZAÇÃO
29.10.14 – 11h49
Festivais de Dança e Teatro do Recife passam a ser bienais
A iniciativa pretende aprimorar o planejamento e execução dos festivais que demandam investimentos significativos para cada segmento

A partir deste ano o Festival Internacional de Dança do Recife (FIDR) e o Festival Recife do Teatro Nacional (FRTN), ambos promovidos pela Prefeitura do Recife, através da Secretaria de Cultura (Secult) e da Fundação de Cultura Cidade do Recife (FCCR), passam a ser bienais, em caráter de alternância. Desta maneira, em 2014 será realizada a 19ª edição do Festival dedicado à dança, em 2015 será a vez da 17ª edição do Festival do Teatro, e assim sucessivamente.

A decisão foi tomada pela Secretaria de Cultura e pela Fundação de Cultura Cidade do Recife no intuito de possibilitar um planejamento adequado a estas iniciativas, uma vez que a gestão reconhece o importante papel que estas ações cumprem na formação dos realizadores das artes cênicas, no intercâmbio entre diferentes expressões artísticas e ainda na formação de plateia. Contudo, são também Festivais que requerem volumes maiores de recursos da pasta e que precisam ser ajustados às demandas dos respectivos segmentos, garantindo investimento significativo para a produção do Teatro e da Dança na capital pernambucana.

Ainda no mês de novembro os representantes do setor do Teatro, produtores, atores, representantes do Conselho Municipal de Política Cultural e sociedade como um todo serão convidados para discutir os fundamentos e objetivos que devem nortear o FRTN, pensando não só naqueles que fazem e apreciam o teatro, mas também nos recifenses e visitantes da cidade.

OUTRAS AÇÕES – Para dar suporte e fomentar a cadeia produtiva cultural da cidade do Recife, a Secretaria de Cultura e a Fundação de Cultura Cidade do Recife estão elaborando o edital do Prêmio de Fomento às Artes Cênicas 2014/2015, que terá por objetivo promover a montagem de novos espetáculos da produção recifense de Teatro, Dança e Circo, contribuindo com o desenvolvimento da produção cultural e com a diversidade da programação da cidade. O edital, que não é realizado desde 2010, irá contemplar nove projetos, sendo três de cada linguagem artística, e deverá ser lançado até o mês de dezembro.

Além disto, a Secretaria de Cultura vem desenvolvendo ações para que o Centro de Formação e Pesquisa das Artes Cênicas Apolo Hermilo se estabeleça, de fato, como um espaço para estudo e aprimoramento dos profissionais do Teatro, da Dança, do Circo e da Ópera. Atualmente, está sendo elaborado o Programa de Formação e Pesquisa das Artes Cênicas, que deve atender às necessidades introdutórias para iniciantes nas linguagens artísticas e também contribuir para a formação daqueles que desejam ampliar seus conhecimentos. Outro projeto que vai aprimorar as atividades dos artistas locais é o Espaço de Criação.

Como aconteceu neste ano de 2014, em 2015 os dois teatros, Apolo e Hermilo, serão cedidos, por três meses, para companhias de teatro e dança realizarem suas montagens. Projetos como Palavra da Sombra, de Anamaria Sobral Costa ( que estreou no Teatro Santa Isabel e esta indo para São Paulo cumprir temporada); Rei Lear, da Remo Produções (que estreou com pequena temporada no Rio de Janeiro e entrará em temporada agora em novembro no Teatro Apolo); e também o espetáculo Três mulheres e um bordado de sol, da Compassos Cia de Dança realizaram suas respectivas atividades. Nos primeiros meses de 2015 deve ser divulgada a convocatória que fará a seleção das propostas de ocupação dos espaços. Cada grupo terá 4 horas por dia, de segunda a quinta-feira, para trabalho, além de contar com apoio técnico de luz e som duas vezes por mês.

Também no quesito de recuperação de equipamentos, o Teatro do Parque, vai receber obras de reforma e restauro, de acordo com a licitação divulgada no dia 16 de agosto, com a publicação no Diário Oficial do Município. A previsão é de que a ordem de serviço da reforma seja assinada em novembro de 2014 e que a obra tenha duração de 24 meses.”

A entrevista com Carlos Carvalho será transcrita e postada no Satisfeita, Yolanda? .

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Pela preservação da memória do Inácia Rapôso

Socorro Rapôso interpretou a Compadecida por mais de 20 anos. Foto vertical: Anderson Guedes/ Fotos horizontais, de cima para baixo: Marcelo Lyra, Jorge Clésio e Fernandes Filmes

Socorro Rapôso interpretou a Compadecida por mais de 20 anos. Foto vertical: Anderson Guedes/ Fotos horizontais, de cima para baixo: Marcelo Lyra, Jorge Clésio e Fernandes Filmes

Um dos momentos mais significativos do último Janeiro de Grandes Espetáculos aconteceu quase por acaso. Assim que viu Socorro Raposo num dos camarotes do Teatro de Santa Isabel, na noite de abertura do festival, Paula de Renor, uma das produtoras do evento, fez questão de mencionar o nome de Socorro e agradecer a presença dela. A atriz e produtora de 82 anos, que ainda se recupera de um AVC sofrido ano passado, foi aplaudida efusivamente pela plateia, composta em grande parte pela própria classe teatral.

Agora novamente a classe demonstra carinho e reconhecimento pelo trabalho de Socorro Raposo. Neste domingo (8), a Trupe Cara & Coragem, do Cabo de Santo Agostinho, fará uma sessão especial do espetáculo Quando o sol vem à janela, texto e direção de Luiz de Lima Navarro. A renda obtida com a venda dos ingressos será revertida para a reforma do galpão que irá receber o acervo do Espaço Cultural Inácia Rapôso Meira, como refletores, cenários, figurinos e documentos. O Inácia Rapôso, que funcionava na Rua da Glória desde 1993 será fechado. O imóvel que abrigava o espaço era alugado e com as dificuldades de saúde, Socorro não tem mais como mantê-lo.

O espaço cultural surgiu em 1990, no Edifício AIP, na Dantas Barreto, como um teatro de bolso para 50 pessoas; depois passou para uma casa na Rua Fernandes Vieira; e, desde 1993, o espaço funcionava no casarão da Rua da Glória. O local recebeu temporadas de espetáculos e abrigou ensaios de vários grupos. Socorro Rapôso e a irmã Margarida Meira, que também é atriz, lançaram a Dramart Produções em 1985. A produtora realizou diversas peças, como Auto da Compadecida (Socorro interpretou a Compadecida por 20 anos), Cantarim de Cantará, A comédia do amor, O menino do dedo verde e O mágico de Oz.

A montagem Quando o sol vem à janela traz Nice Albano e Evânia Copino no elenco. O enredo trata da história de duas mulheres – uma delas, Guida, sofre com a perda gradativa da memória; e a outra, Amélia, busca através da música criar uma ponte que seja capaz de trazer de volta suas lembranças.

Serviço:
Quando o sol vem à janela, sessão especial em homenagem à Socorro Rapôso
Quando: domingo (8), às 20h, no Santa Isabel
Quanto: R$ 20 (antecipado) / R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada)
Os amigos também podem contribuir através da conta bancária em nome de Maria do Socorro Rapôso Meira, Ag. 0325-5, C/C 708.077-8, Banco do Brasil.

[dropdown_box expand_text=”Clique aqui e confira o depoimento de artistas sobre Socorro Rapôso” show_more=”” show_less=”” start=”hide”]

José ManoelSocorro Rapôso por José Manoel, diretor e gestor cultural

“Acompanho a trajetória de Socorro Rapôso desde os anos 1980, quando a vi em cena em Cantarim de Cantará. Depois ela produziu e atuou em O Mágico de Oz e O menino do dedo verde, que eu tive o prazer de dirigir para a sua Dramart Produções. Com ela, além de cumprir longas temporadas no Teatro Valdemar de Oliveira fomos a São Paulo e ao Piauí, sempre uma ousadia. Depois acompanhei as outras montagens da Dramart, principalmente o Auto da Compadecida. Socorro Raposo teve atuação importante junto à Federação de Teatro de Pernambuco (Feteape) e participou de seus principais projetos. Dedicada e forte, lidera a Dramart com douçura e segurança. Lembro que ela fundou o Centro Cultural Inácia Raposo primeiramente no Edf. AIP, uma pequena e agradável casa que eu inaugurei com o meu espetáculo Anjos de guarda, tendo Marco Camarotti na plateia. Depois o Centro foi transferido para a Fernandes Vieira e, finalmente, para a Rua da Glória”.

Samuel SantosSocorro Rapôso por Samuel Santos, diretor

“Em 1990, eu fazia o curso de Teatro do Sesc. Muito jovem, me encantava pelo teatro, mas não sabia ainda se era isso. Precisa sobreviver. Talvez não continuasse, possivelmente. Foi quando recebemos no Sesc Socorro Raposo e o diretor Picchetto Saianni para ver algumas cenas montadas. A cena que eu fiz foi do espetáculo Como a lua. Eu era o índio Payá. Minha cena foi terrível, não tinha me saído bem como ator. Depois daquele dia pensava em não mais continuar. Teatro não era pra mim. Oriundo de uma família humilde, precisava do sustento. Só que, nesse mesmo dia, o diretor e Socorro, me convidaram para participar de uma reunião no novo espaço da Dramart, no edifício AIP. Fui sem saber nem do que se tratava. Chegando ao espaço, fui recebido gentilmente (sempre) por aquela senhora e pelo diretor. Eles me entrevistaram e depois me convidaram para participar da montagem do texto infantil Passageiros das estrelas, de Sérgio Fonta, direção de Picchetto Saianni e produção da Dramart. Sai irradiado, sorrindo e gritando no meio da rua. Dançando! Aceitei! Não tinha como recusar! Esse convite foi importante para mim. E o mais importante foi conhecer e ter trabalhado com Socorro. Ela me ensinou a olhar o teatro profissionalmente, apaixonadamente. Lembro que eu era bem imaturo nos exercícios e no trato com o texto. Quando comecei a vê-la com tanta seriedade nos exercícios, no estudar do texto, no carinho com as palavras, um horizonte se abriu. Fui aprendendo sem que ela me dissesse nada no início. Depois, compreendendo minhas deficiências, meus anseios e medos, começou a me ensinar como uma Griot. Uma maestrina. Ensinou-me a ler um texto teatral, como decorar, como buscar a concentração e a ver o teatro com uma coisa maior, importante. Isso tudo com muita maternidade, simplicidade e generosidade. Aprendi com ela que nas coxias não se conversa. As coxias eram o útero, a passagem para o nascimento. É preciso o silêncio. Assistia a isso e vivia tudo aquilo com o olhar de um aluno que respeita seu mestre e com ele aprende. Se não tivesse iniciado com Socorro Rapôso, possivelmente não continuaria no teatro. Ela é tudo. Ela é o próprio teatro”.

Célio PontesSocorro Rapôso, por Célio Pontes, ator e diretor

Amizade de ouro! Ainda menino querendo ser grande, tive a sorte de meu caminho ser iluminado pelo carinho e amizade maternal de uma querida mulher. Num inverno de 1986, um sonho profético alertava-me sobre um convite profissional para compor o elenco de um espetáculo mágico; lembro-me de uma pessoa com expressiva candura que me acolheu. No dia seguinte, estava no ensaio de O Mágico de Oz conhecendo, entre outros, Socorro Rapôso. O exemplo de vida e humanidade, atributos tão vivos da atriz e produtora, figuram como lastros marcantes em minha trajetória artística até hoje. Do Homem de Lata ao Severino do Aracaju (Auto da Compadecida), que tive o privilégio de interpretar na companhia de Socorro, o sentimento é um só: gratidão e amor pelo teatro.

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A curadora do Palco Giratório

Palco Giratório

Um circuito de artes cênicas que engloba 126 cidades nos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal. Os números de dimensões continentais são do Palco Giratório, programa idealizado e bancado pelo SESC, que se revela não só um quebra-cabeças logístico, mas também um recorte significativo do que se produz em artes cênicas no Brasil. Este ano, 20 grupos, companhias e coletivos de todo o país estão no projeto. Há espetáculos do Acre, do Piauí, da Bahia, do Rio Grande do Sul. Além da circulação, também são promovidos debates ao final dos espetáculos, oficinas e rodas de conversa intituladas Pensamento Giratório. No Recife, há o festival Palco Giratório, que acontece durante todo o mês de maio, a Aldeia Velho Chico – mostra de cultura em Petrolina -, e ainda a circulação de vários espetáculos por unidades do Sesc no interior. “Nenhum grupo passa incólume no Palco Giratório”, acredita Galiana Brasil, a representante pernambucana na rede de 32 curadores que idealizam essa programação do Palco anualmente. Conversamos com a atriz, professora e gestora cultural sobre como se dá esse processo de escolha, a participação dos artistas pernambucanos no projeto e a força do programa como política cultural.

Galiana Brasil. Foto: Renata Pires

Galiana Brasil. Foto: Renata Pires

Entrevista // Galiana Brasil

Como foi o processo de escolha dos espetáculos para a circulação nacional este ano? Podemos dizer que alguma linguagem se destacou?
O processo é, via de regra, marcado pelo atrito, pelo debate caloroso. É sempre assim, por conta da escolha do SESC em apostar no seu corpo técnico. Vez por outra surge alguém (desavisado) que propõe a criação de um edital. De fato, seria menos complexo, mas a maioria dos técnicos do SESC – principalmente aqueles que tiveram a chance de ver esse processo nascer-, criou gosto pela coisa. É outra política, outra prática discursiva. Todo artista que se submete aos processos seletivos, via editais, conhece o gosto amargo da burocracia, ver um projeto ser excluído por conta da ausência de uma, entre dezenas de assinaturas, uma certidão negativa vencida. Acho muito importante numa época assim existir alguma forma diferente de praticar política cultural. Ademais, é um paradoxo tão significativo uma instituição extremamente burocrática, como o SESC, investir num corpo curatorial de técnicos. Dá muito mais trabalho para quem seleciona, acredite, mas, para quem não está ali de forma burocrática, apática, é um exercício político sofisticado, um espaço de aprendizado incrível. Quanto aos “destaques”, penso que mais que algum gênero, a grande força foi a da diversidade geográfica, a resposta à lógica perversa da hegemonia das regiões Sul/Sudeste. Este ano tivemos grupos oriundos de diferentes estados do Nordeste – Pernambuco, Paraíba, Ceará, Bahia, Piauí; da região Norte há grupos do Acre, Tocantins; há o Centro-Oeste com o Mato Grosso e o Mato Grosso do Sul. Para quem é dado à pesquisa histórica, sugiro uma visada no catálogo do Palco Giratório, na sessão “grupos e espetáculos que passaram pelo Palco” – ali consta o registro ano a ano. A virada do projeto se deu com a criação dessa curadoria nacional, a partir da gestão compartilhada do projeto, em todas as suas fases. Como num grito de guerra, bradamos, em 2006, em meio à euforia do recorte emblemático que se deu na seleção dos grupos daquele ano, o bordão “mudamos o sotaque do Palco Giratório”, e isso se deu, porque assumimos que o Brasil não tem sotaque oficial – muito menos o teatro! Ele é múltiplo, misturado e diverso. E gostamos disso.

Conhecer as indicações feitas por cada curador e discutir essas propostas deve ser, talvez, um dos momentos mais interessantes do Palco. Será que você poderia lembrar grupos que conheceu, ou teve mais informações, através dessas discussões, e que te marcaram, te surpreenderam, ou continuam fazendo coisas interessantes até hoje?
As indicações acontecem em um processo que antecede o encontro presencial que chamamos de “Análise Prévia”. É quando cada representante dos estados indica até cinco grupos/espetáculos, que podem ser de qualquer lugar do Brasil – ou seja, o curador não está limitado a indicar espetáculos apenas de seu estado, contanto que ele tenha visto o trabalho presencialmente, pois essa é condição primeira para uma indicação. Até o ano passado, esses espetáculos eram distribuídos para todos os curadores em vídeos, e suas informações em cds (também projetos, folders e clippings impressos) que deveriam ser previamente analisadas antes do encontro nacional. A partir deste ano, inauguramos uma ferramenta virtual, e a análise prévia se dará a partir desse canal. Quando nos reunimos para o encontro de curadoria – que dura cerca de dez dias -, já assistimos quase tudo em vídeo, mas sabemos o quanto se perde assistindo teatro em vídeo, por isso que a “defesa” de quem está indicando pesa muito, é o que define a aposta coletiva. Daí o SESC investir na ida de grupos de curadores a diversos festivais ao longo do ano, para que mais gente possa assistir aos trabalhos que estarão circulando nas indicações. Por isso também nosso investimento, aqui no SESC Pernambuco, em trazer curadores dessa rede para o Janeiro de Grandes Espetáculos – para que conheçam a produção pernambucana; daí também assistirmos, durante o encontro, a uma média de 08 a 10 espetáculos presencialmente. Só nesse processo, de análise prévia, com média de oitenta trabalhos de todos os cantos do país, temos acesso a uma cartografia de grupos luxuosa. Eu sempre soube da potência dos grupos em São Paulo, por exemplo, mas foi nessa curadoria que conheci a força do teatro catarinense. Ano passado fui chamada para participar da comissão de seleção de um prêmio estadual do governo de Santa Catarina e fiquei perplexa: simplesmente conhecia quase toda a produção que estava concorrendo e é conseqüência, exclusivamente, da minha ação junto ao Palco Giratório. Porque o edital era estadual, então, além dos grupos de Florianópolis, havia muitos grupos do interior e eu reconheci inúmeros trabalhos, grupos de Chapecó, Criciúma, Jaraguá do Sul.

Qual a força do Palco para a trajetória de um grupo? Quais exemplos poderíamos dar?
Penso que nenhum grupo passa incólume no Palco Giratório. Ou ele potencializará sua energia criadora – inferindo mudanças, inspirando criações, friccionando as relações pessoais, ou ele revelará suas mais profundas fragilidades – inferindo mudanças, friccionando as relações pessoais… Porque o contato humano é por demais intensificado. São contatos com diversos públicos, de forma quase ininterrupta. O grupo se apresenta e já senta pra uma roda de bate-papo. No dia seguinte, provavelmente terá uma oficina, um pensamento giratório, ou seja, mais contato com outros públicos, com os artistas locais, e depois o grupo entra numa esfera de convivência tão intensa que, de alguma forma, gera algum estranhamento. A privacidade nesse circuito é quase zero. Por conta dos custos do projeto, as hospedagens precisam ser coletivas (duplos ou triplos), com algumas exceções devido à condição física, ou limitações de saúde, obviamente. Vi um grupo cuiabano recém criado, cheio de som e fúria, chegar de forma estrondosa, com um trabalho lindo apresentado na mostra Cariri e, no ano seguinte, ganhar o Brasil pelo Palco Giratório. Não resistiu e acabou junto com a circulação. Sempre digo isso aos grupos selecionados, porque tem gente que fantasia. É muita transpiração, não há glamour. O Sesc não é a CVC e o Palco não é a Rede Globo, não é uma viagem de férias e muito menos um circuito de estrelas. De vez em quando, entram uns coletivos meio “desavisados”, às vezes é um diretor, um técnico. Lembro que, há alguns anos, no Festival Palco Giratório de Fortaleza, uma coreógrafa queria cobrar cachê quando soube que o projeto previa um bate-papo após cada apresentação. Antigamente, eu ficava pra morrer, hoje acho até engraçado! Porque, no primeiro “choque de realidade” – e ele vai se dar, afinal, estamos no Brasil -, ou a pessoa se transforma, ou “pede pra sair”. Tempos atrás, um artista questionou a acomodação de um hotel, argumentando que não estava à altura de um “doutor da USP”. A gente ainda escuta coisas desse tipo. E olha que é mais que sabido o perfil de grupo que interessa a esse projeto. Mas, afinal, trabalhamos com o humano, e também nos equivocamos, temos, em todas as esferas, muito o que aprender. Lembrei de um grupo que se desfez depois da circulação, gostaria de ressaltar aqui outros que, durante a circulação, tiveram inspiração para novos trabalhos, entraram em gestação durante o projeto – como o Pedras, do Rio de Janeiro, que teve inspiração para o Mangiare, a partir da diversidade de sabores que experimentaram enquanto cruzavam o Brasil; e a cia. Munguzá, que circulou ano passado com o Luis Antonio Gabriela e também ficou bastante contaminada para nova cria… vamos aguardar o que vem por aí.

Muitos curadores já conheciam o trabalho Viúva, porém honesta, do Magiluth. Foto: Renata Pires

Muitos curadores já conheciam o trabalho Viúva, porém honesta, do Magiluth. Foto: Renata Pires

Quais os argumentos utilizados para a defesa do Magiluth e do Peleja, grupos que representam Pernambuco na circulação nacional este ano? Como foi a recepção dos outros curadores?
São dois grupos completamente diferentes do ponto de vista funcional e de suas linguagens poéticas. Fato que somou muito para o retrato final dos grupos dessa seleção 2014 e que revelou uma diversidade de trabalho de grupo bastante significativa da produção pernambucana. O Magiluth vinha de um ano de bastante exposição, o que ajudou muito, pois muitos curadores tinham assistido a mais de um trabalho deles, tanto na semana de curadores do Janeiro de Grandes Espetáculos 2013, como numa curta temporada que fizeram no Rio de Janeiro. A leitura deles do Viúva, porém honesta foi o grande trunfo, a abordagem libertadora, a coragem de assumir os “erros”, os desvios. A confusão ordenada na poética do caos despertou, nas pessoas, uma possibilidade de ver Nelson trabalhado de uma forma diferente, o que gerou a vontade de ver esse grupo desafiado em outras praças, medir seu fôlego em uma circulação de grandes contrastes como é o Palco Giratório. Uma aposta na irreverência planejada. O grupo Peleja tem todo o “perfil” para o projeto – o que nem sempre quer dizer muita coisa, visto que a quantidade de grupos com qualidade de trabalho é sempre maior do que o projeto pode abarcar-, porque tem um trabalho de pesquisa de linguagem obsessivo, persistente, não “atira para todos os lados”, não trabalha por edital, como tantos coletivos da atualidade. Venho acompanhando o trabalho deles há um certo tempo, as possibilidades de ação formativa são extremamente relevantes, necessárias ao projeto. Cada artista tem sua pesquisa individual e isso é posto à prova. Já vi o grupo em apresentações, já vi seus artistas em mesas de discussão, ministrando oficinas e a forma com que encaram o ofício é digna de nota. Penso que contribuirão bastante tanto para o crescimento da cena como para o fortalecimento das relações éticas intrínsecas a um projeto dessa monta.

Gaiola de moscas, do grupo Peleja, está circulando pelo país. Foto: Pollyanna Diniz

Gaiola de moscas, do grupo Peleja, está circulando pelo país. Foto: Pollyanna Diniz

Como você seleciona essas indicações aqui em Pernambuco? Existe uma “pressão” dos grupos? Como é o relacionamento com eles? Você tenta assistir a tudo? Algum grupo já ficou “na agulha” ou na “repescagem” desde o ano passado? Já tem uma ideia do que vai levar este ano para a roda de debates?
Sim, houve grupos que foram selecionados, mas ficaram no stand-by, no caso de alguma desistência/impossibilidade de algum dos grupos, assim como houve grupos que entraram depois de mais de um ano de defesa. Às vezes, não é o momento, tem que saber recuar, tem que saber se vale a pena repetir a indicação. Tem que entender quando não dá mais. É um jogo, há que se conceber estratégias. A seleção é processual. Antes de tudo, entendo que todo grupo queira participar de um projeto como o Palco Giratório, mas não acredito em grupo que faça trabalho para o Palco Giratório. Enxergado por essa lente o projeto fica muito menor. É ele quem está a serviço do teatro, o teatro é muito maior. Às vezes, vejo que o grupo tem potencial e fico observando, acompanhando a postura, a atuação, o repertório. Mas tem uma questão delicada que se impõe: não existe o ofício de curador no quadro de SESC, de nenhum SESC do Brasil. Com exceção de São Paulo, que envia os técnicos (principalmente para fora do país) para festivais e mostras o ano inteiro – independentemente do Palco Giratório, em que eles passaram a trabalhar um dia desses-, com o intuito de identificar, negociar e trazer grupos, todos nosotros somos estimulados a acompanhar a programação cênica de nosso estado como “mais uma atribuição” do cargo – de técnico de cultura, de gerente de cultura, de assessor de teatro, ou de Professor de Teatro, como é o meu caso hoje, no SESC – PE. Não há uma gratificação ou algum acréscimo salarial. Porque, sabemos, o papel do curador, sua função na contemporaneidade, é algo relativamente novo, que vem sendo bastante debatido e, dentro do SESC, é um processo inaugural. Penso que temos crescido muito, conseguido um espaço de discussão e de escuta privilegiado na instituição, temos alcançado ganhos importantes, como um suporte financeiro para compra de ingressos de espetáculos de teatro e dança, ou o acompanhamento a festivais nacionais de grande relevância, ao menos uma vez por ano. Mas ainda não é o suficiente para estar na obrigação de acompanhar toda a programação do estado. Temos uma gama de serviços e ações práticas e burocráticas ligadas a diversas outras ações de que precisamos dar conta. Toda a análise prévia dos espetáculos do palco, eu faço na minha casa, durante as noites, nos fins de semana, e essa super hora extra não é computada, não faz parte de minha carga de trabalho no SESC, que comporta 40 horas semanais, das 8h da manhã às 17h, de segunda a sexta-feira. Quem está em temporada nesse horário?

Como você avalia a força do Palco pelo país? Pergunto isso porque aqui em Pernambuco, sabemos o quão importante é o projeto. Mas quando converso, por exemplo, com amigos de Belo Horizonte ou Curitiba, é como se o Palco não fosse tão significativo. Você acha que isso tem a ver com a relação dos festivais específicos de cada cidade?
Acho que quase nada no Brasil se efetiva de forma homogênea. Ainda bem, não? O projeto tem papel, força e impacto completamente diverso em cada praça. Existe há 17 anos, e, no início, era composto por cinco ou seis estados que, junto ao Departamento Nacional, aderiram ao projeto. Literalmente “compraram” a ideia, pois aderir significa repartir os custos. Pernambuco está nisso desde o primeiro ano. Todas essas cidades que você mencionou, pertencem a estados que entraram anos depois (há menos de 4 anos). Os Departamentos Regionais do SESC, em todo o Brasil, trabalham com o princípio de autonomia de gestão. E quanto mais construção e menos imposição, tanto melhor. Ressalte-se o poder de sedução do projeto que hoje, no ano de 2014, arrebanhou todos os estados para, juntos, trabalharem na composição desse caleidoscópio transgressor.

O que norteou a escolha dos espetáculos convidados para o festival deste ano?
Além da seleção de representantes da curadoria nacional que assistiram à semana de curadores no Janeiro de Grandes Espetáculos, houve um recorte curatorial defendido por técnicos do Sesc de Casa Amarela, Santa Rita, Piedade e Santo Amaro – a partir de trabalhos que participaram de mostras e projetos do Sesc-PE-, além de grupos que sabíamos estar em processo conclusivo e convidamos para estrear o espetáculo no festival.

Odília Nunes, que ano passado participou da circulação do Palco com a Duas Companhias, estreou Cordelina. Foto: Pollyanna Diniz

Odília Nunes, que ano passado participou da circulação do Palco com a Duas Companhias, estreou Cordelina. Foto: Pollyanna Diniz

Sentimos que a programação este ano está menor em número. Apesar de a qualidade do festival não ser medida absolutamente por números, o que aconteceu de fato? Tivemos menos dinheiro? Porque ações como a Cena Bacante e a Gastrô não vão acontecer?
O Palco Giratório é um projeto (um dentre centenas) financiado integralmente pelo SESC, gerido pela instituição até quando ela entender que ele é importante, necessário. Minha opinião quanto a isso importa bem pouco, eu procuro sempre seguir as diretrizes da instituição, e estou subordinada a gerências e direções, em âmbito regional (jargão do SESC para nos referirmos à administração nos estados) e nacional. Ações como as que você citou foram criações exclusivamente nossas. A Cena Bacante foi inspirada no “Horário Maldito”, que acontecia a partir da meia-noite, na mostra Cariri (CE). Já a Gastrô, uma tentativa minha de criar novos públicos para o festival, de explorar as possibilidades poéticas e seu diálogo com os sentidos, além de aproximar os criadores da gastronomia – arte que pessoalmente admiro bastante-, dos criadores da cena. O percurso de sair do teatro para comer – geralmente em grupo-, é uma ação habitual que pode ser encarada como ritualística. Afinal, e se os pratos, o vinho, o doce, também tivessem relação com a cena? Eu sonhei em ver isso potencializado. Então, essas ações (assim como o Jornal Ponte Giratória, a Cena Fotô), foram criações nossas, e têm um custo significativo que não faz parte da esfera cênica, habitual do projeto.

De que forma você pensa o Palco nos próximos anos?
Eu espero que ele continue, porque ainda se faz muito necessário.

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Mental disorder

O silêncio e o caos. Foto: Renata Pires

O silêncio e o caos. Foto: Renata Pires

O performer Dielson Pessôa

O performer Dielson Pessôa

O silêncio e o caos

Dielson provoca interação com o espectador

Palco Giratório

O olho, o gesticular dos dedos e da cabeça, o movimento desordenado que se irradia por todo o corpo. Dielson Pessôa é um louco, um desajustado passando por um surto psicótico, no solo O silêncio e o caos, que estreou ontem (28), no Teatro Marco Camarotti, dentro da programação do Palco Giratório.

O corpo parece não encontrar o equilíbrio e vai se quebrando diante dos espectadores ao som da potência da música de Renato da Mata (A trilha é, na realidade, de AD Ferreira. A ficha técnica divulgada no catálogo do Palco está errada!). O performer provoca a “normalidade” e nos coloca quase como espectadores de uma experiência científica, acompanhando os passos de um rato de laboratório que pode nos desconsertar pela capacidade de expor o que nos dá repulsa. Os dedos lambidos, o olhar que amedronta, a presença que se instaura independentemente das barreiras.

O espaço limitado pelas pessoas é quebrado pela “invasão” de Dielson. Algumas vezes, ele apenas passa ao lado se exibindo ao espetáculo da apreciação; mas é muito mais provocador quando chega perto, quando parece que vai encostar ou realmente toca o público. Sempre com um olhar perturbador, na iminência de uma ação que pode não nos deixar intactos. Que certamente não nos deixa.

Noutro momento do espetáculo, o próprio performer coloca os ganchos das cordas no figurino. Como se estivesse atando-as ao corpo. A camisa de forças reprime, a música clássica se mistura à eletrônica, a potência da loucura na arte se irradia. Mas essa loucura é vista como prisão; com um peso que o personagem não consegue carregar.

Quais são os limites entre a sobriedade e a loucura? A linha parece muito tênue; como se todos, em algum momento da vida, estivéssemos a um passo do transtorno mental. A loucura, aliás, é medida em relação a uma dita normalidade, definida por padrões sociais, humanos. Escrevendo para a Cult de outubro do ano passado, o psicanalista, psiquiatra e professor Mário Eduardo Costa Pereira fala sobre os manuais de diagnóstico psiquiátricos. “É interessante observar que apesar de se servirem decisivamente da noção de ‘mental disorder‘ (transtorno mental), definida de maneira pragmática, nenhuma edição do DSM (Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais, da Associação Psiquiátrica Norte-Americana) preocupou-se em delinear a ‘order‘ face à qual determinado comportamento ou estado mental constituiria uma ‘disorder‘.”

Em O silêncio e o caos, ainda são os estereótipos do que conhecemos como loucos, as características externas, o olhar, o gesto, a inquietude, que denunciam o que virá na cena – é fato que essa não se limita a tais parâmetros, se expande, toma força. Mas de que forma esses conceitos pré-estabelecidos (ou seriam mesmo características intrínsecas ao transtorno mental, das quais o espetáculo não poderia fugir?) são desestabilizados pela obra de arte?

Outra questão diz respeito à loucura como detonadora de potências, como o estopim da sensação de liberdade, mesmo que falsa, mesmo que esse conceito de liberdade possa ser bastante discutido. Quando o surto se instaura, não agimos mais de acordo com regras e convenções. Mesmo assim, não há o ensaio dessa liberdade no solo, mas sempre o aprisionamento, a angústia, a opressão sem escapatória.

Dielson Pessôa é um pernambucano de 29 anos que dançou por oito na Cia de Dança Deborah Colker e passou ainda pelo Balé da Cidade de São Paulo. Em 2007, ganhou o prêmio de melhor bailarino pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). A presença efetiva de Dielson em cena é o que mais se sobressai no espetáculo: o seu domínio do discurso que se reflete no corpo, em conseguir que o outro entenda esse universo, mesmo que ele seja tão particular, tão impenetrável. Dielson expôs a sua própria bipolaridade, mas não fez do espaço cênico local de terapia. Transformou a experiência e o conhecimento em obra de arte – e, por isso mesmo, capaz de nos levantar tantos questionamentos, de nos fazer querer discutir sobre.

O encontro entre Dielson e Maria Paula Costa Rêgo, que assina a direção do espetáculo, é provocador. Não tem como deixar de lembrar que, ano passado, Maria também ganhou um APCA por seu solo Terra. Os dois são criadores capazes de friccionar as próprias certezas, de brincar com as possibilidades do corpo, da cena, da mensagem.

Além da música de Renato da Mata AD Ferreira, também se mostra fundamental para a dramaturgia que se estabelece a iluminação de Jathyles Miranda – como ele conseguiu compreender e traduzir em luz a movimentação de Dielson em cena. É de uma beleza que desconcerta, ao chegar com tanta definição somente ao local desejado, ao se espalhar como sangue ou se incorporar ao cenário de Dantas Suassuna. O figurino, que também se mostra um elemento dramatúrgico, tem a assinatura de Gustavo Silvestre.

Em O silêncio e o caos a intensidade é a da loucura. Da eletricidade que percorre não só o corpo, mas principalmente a mente. Que desestabiliza e nos tira as certezas. Loucura que é como a própria arte – provocadora, inquietante, instável. E mesmo quando as luzes acendem, as palmas ecoam e o espaço começa a ficar vazio, é difícil retomar o ritmo da “normalidade”. Não faz mal. Talvez ela nem exista mesmo – seja na arte ou na própria vida.

Performer se relaciona com alguns espectadores de forma direta

Performer se relaciona com alguns espectadores de forma pessoal

Música é de Renato da Mata e iluminação de Jathyles Miranda

Música é de Renato da Mata AD Ferreira e iluminação de Jathyles Miranda

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