A montagem de Auto da Compadecida – uma farsa modernesca dirigida por Célio Pontes e Eron Villar, com produção de Paulo de Castro, conquista seu público. Teatros lotados nas primeiras sessões, plateia vidrada na cena e rindo nos momentos esperados, elenco experiente entregando exatamente o que a tradição teatral pernambucana consolidou ao longo de décadas. O espetáculo cumpre com eficiência sua promessa de entretenimento popular, mas provoca uma reflexão necessária: em que medida uma montagem contemporânea deve dialogar criticamente com seu próprio tempo ao encenar um clássico? Esta revela-se comercialmente exitosa, porém levanta questões sobre o papel do teatro popular brasileiro diante de textos que já se cristalizaram no imaginário cultural.
Escrita por Ariano Suassuna em 1955, a obra tece uma fusão dramatúrgica singular entre o cordel, os autos medievais e o imaginário sertanejo, resultando numa comédia ou farsa ou auto ou… que é simultaneamente retrato social agudo e profunda reflexão sobre poder e justiça. Essa riqueza textual impõe um duplo desafio: reverenciar o clássico e fazê-lo vibrar com urgência contemporânea. Como equilibrar fidelidade à tradição com pertinência aos nossos tempos?
A direção responde a esta questão de forma categórica, priorizando a conexão imediata com o público através de escolhas que confirmam expectativas em detrimento da provocação. Os diretores imprimem fluidez cênica, enquanto cortes textuais conferem ritmo acelerado à narrativa. O elenco, reunindo intérpretes experientes – alguns veteranos de outras encenações do texto de Suassuna -, demonstra habilidade no andamento da história. Uma energia coletiva palpável transforma a experiência teatral numa celebração popular.
Outra encenação de muito sucesso, da Dramart, permaneceu em cartaz por 21 anos ininterruptos (1992-2012), dirigida por Marco Camarotti e produzida por Socorro Raposo – a primeira intérprete da Compadecida na montagem inaugural de 1956. Embora Fernanda Montenegro seja a referência nacional através do cinema, Socorro Raposo consolidou-se como figura querida do teatro pernambucano. Esta notável longevidade da encenação criou padrões interpretativos e um público fiel que naturalmente influencia qualquer nova abordagem.
A atual produção preserva estereótipos que, embora funcionem como gatilhos de reconhecimento, merecem análise.
Clenira Melo interpreta a mulher do padeiro com manobras cômicas que demonstram domínio técnico absoluto, ainda que a direção pareça ter refreado sua inventividade. Sua parceria com Douglas Duan (o padeiro) oferece momentos de elevada qualidade cômica.
Alexandre Sampaio veste de forma hilariante o Major Antônio Moraes, personificação do poder coronelista nordestino. Autoritário, vaidoso e violento, representa esse sertão atávico que confunde força com autoridade. Quanto mais tenta parecer grandioso, mais revela o ridículo de quem exerce poder sem legitimidade.
Foi acertada a opção de manter o Tinhoso como personagem masculino, evitando dificuldades interpretativas que podem comprometer a clareza da personagem.
Já a figura do sacristão (Cleusson Vieira) é construída dentro do estereótipo do homem gay afeminado, aproveitador e escorregadio – representação que, embora agrade enormemente ao público, perpetua leituras questionáveis. Esta projeção em lugares exclusivamente risíveis projeta uma visão reducionista da figura gay.
O trio Carlos Lira (Padre), Mário Miranda (Bispo) e Cleusson Vieira (Sacristão) atuam para evidenciar a corrupção clerical: covardia, subserviência aos poderosos, ética duvidosa. Este parecer institucional cumpre tarefa dramatúrgica, embora permaneça genérico, perdendo oportunidades de estabelecer conexões específicas entre as problemáticas suscitadas por Suassuna e dilemas políticos contemporâneos.
A encenação trabalha com o universo nordestino povoado por cangaceiros, coronéis e tipos populares. Suassuna escreveu em contexto histórico específico (anos 1950), inclusive com algumas posições consideradas ousadas – como a escolha de um Cristo negro, que mirava a imagem da fé ocidental.
Contudo, setenta anos depois, o cangaceiro romantizado, o coronel autoritário, os tipos populares caricaturais parecem pedir outras lentes para evitar que se reforce a visão estereotipada do Nordeste, aquela que simplifica a complexidade social da região. A direção opta por preservar integralmente essas imagens, mantendo coerência com o texto original, mas abdicando da possibilidade de problematizar na cena esses elementos.
Sóstenes Vidal (João Grilo) brilha na liderança, demonstrando presença e timing cômico apurados. Williams Sant’anna constrói um Chicó medroso e cativante. É perceptível, contudo, dificuldade em acompanhar falas de alguns atores pela junção do sotaque carregado e velocidade da dicção. A produção poderia reconsiderar se vale manter os dois atores cantando, pois suas performances vocais não parecem inteiramente satisfatórias.
Paula Tássia traz leveza com estética mendicante, um ar beckettiano e dos Pierrots do Recife,
costurando cenas com habilidade. Simone Figueiredo oferece uma Aparecida humana e educadora maternal, beneficiada por figurino bem concebido. Merece destaque o acento feminista que imprime à personagem, buscando ressaltar sobre o papel da mulher na sociedade.
Gil Paz como Emanuel/Jesus entrega um Cristo que consegue ser simultaneamente acessível e imponente, bondoso e austero, humanizando a figura sem pieguice e mantendo solenidade sem excessos. Célio Pontes interpretou o cangaceiro nas primeiras apresentações.
A cenografia é formada por duas casas simbolizando igreja e padaria, transformadas no final em céu, purgatório e inferno. É pouco criativa, mas funciona. Os figurinos são mais inspirados e elaborados, de impacto visual, baseados no imaginário dessas personagens, embora persistam em enquadrar protagonistas pobres com remendos e trapos, apostando numa imagem da pobreza que pode soar pitoresca.
A encenação reforça expectativas, opera através do reconhecimento de personagens, situações e códigos estéticos familiares que geram identificação imediata. Esta montagem cria uma experiência festiva que dialoga diretamente com o público pernambucano, que lotou por anos as apresentações da antiga encenação do Auto da Compadecida. O elenco experiente contribui eficazmente para o projeto estabelecido pela direção, o que deve garantir longevidade e sucesso dessa empreitada.
Ficha técnica
Texto: Ariano Suassuna
Elenco: Alexandre Sampaio, Carlos Lira, Celio Pontes, Clenira Melo, Cleusson Vieira, Douglas Duan, Gil Paz, Mário Miranda, Paula Tássia, Simone Figueiredo, Sóstenes Vidal e Williams Sant’anna.
Direção: Célio Pontes e Eron Villar
Direção Musical: Douglas Duan
Direção de Arte, Figurino e Identidade Visual: Célio Pontes
Design de Luz: Eron Villar
Cenotécnico e Aderecista: Cleusson Vieira
Técnico de Som: Davison Wescley
Contrarregra: Diney Castro e Paulo de Lima Castro
Assessoria de Imprensa: Paula Schver
Mídias Sociais: Nuvon Branding
Filmagem: Pedro Raiz Produções
Fotografia: Thiago Farias
Captação de Recursos: Pedro Castro
Produção Executiva: Paulo De Castro
Realização: Roda Produções Culturais


