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Forró e poesia

Cante lá que eu canto cá abriu a V Mostra Capiba de Teatro. Foto: Rodrigo Moreira/ Divulgação

Festival de teatro é momento não só para aprimorar o olhar cênico, para ver montagens de diferentes estilos e lugares, para discutir dramaturgia, direção, elenco. É também uma celebração. Sendo assim, a V Mostra Capiba de Teatro começou muito bem. Ao som do forró e da poesia de Patativa do Assaré com o espetáculo Cante lá que eu canto cá, da Cia do Tijolo, de São Paulo.

O mesmo grupo foi o responsável por uma das melhores experiências que tive no teatro este ano. Em maio, eles vieram ao Recife dentro da programação do Palco Giratório, para apresentar Concerto de ispinho e fulô. Na realidade, Concerto… é a montagem resultante do show que eles apresentaram agora no Capiba.

As declamações da poesia de Patativa são entrecortadas por músicas de diferentes compositores cantadas ao vivo, como Qui nem jiló. “Se a gente lembra só por lembrar / Do amor que a gente um dia perdeu/ Saudade inté que assim é bom / Pro cabra se convencer/ Que é feliz sem saber/ Pois não sofreu / Porém, se a gente vive a sonhar/ Com alguém que se deseja rever/ Saudade intonce aí é ruim/ Eu tiro isso por mim/ Que vivo doido a sofrer”.

Na banda, um sanfoneiro de São Paulo (e não é que lá tem sanfoneiro do bom?) Aloísio Olivier, Jonathan Silva (violão) e Maurício Damasceno (percussão e bandolim). O elenco tem Dinho Lima Flor, Rodrigo Mercadante, Karen Menatti, Fabiana Barbosa e Thaís Pimpão. A direção geral é de Rodrigo Mercadante.

As músicas servem ao propósito de criar correspondências temáticas e estilísticas com a obra de Patativa, poeta que nunca saiu do Ceará, mas conseguiu transformar os seus versos em espelhos de realidades muito maiores. E olhe que nem precisou de estudo para isso. A sabedoria popular não tem mesmo uma ligação direta com os bancos das escolas. Nem mesmo com os sentidos, já que Patativa era cego – mas enxergava como ninguém esse Sertão de meu Deus.

O show é o embrião de uma dramaturgia costurada com muita proeza em Concerto de ispinho e fulô, de uma interpretação que é viva, pulsante. As experiências, como a participação do público e as memórias dos artistas transformadas na dramaturgia, são apenas relances do que acontece na montagem.

Dá para perceber que o show não abarcou o mergulho que esses atores tinham dado na obra de Patativa do Assaré. O encantamento e, sobretudo, o diálogo que travaram com os versos do cearense ganharam a proporção devida em Concerto (que não foi apresentada no Capiba por falta de espaço). Cante lá que eu canto cá é só um pedacinho de bode assado quando a fome é grande; o cheiro de baião de dois na panela; o gostinho da primeira lapada de pinga.

Para quem quer mesmo se embriagar, o grupo apresenta Concerto de ispinho e fulô, se não me engano, em Triunfo e Arcoverde. Vou saber a agenda direitinho e digo a vocês.

Dinho Lima Flor como Patativa do Assaré

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Discordâncias teatrais

Ricardo Martins como o fantasma de um ator que interpretou Hamlet. Fotos: Ivana Moura

Os momentos de tensão geralmente são muito mais frequentes numa relação do que aqueles em que a concordância reina. Não que isso seja ruim. Principalmente quando a convivência está prestes a completar 25 anos. Esse é o tempo de atividade do Armazém Companhia de Teatro, que está no Recife até hoje apresentando Antes da coisa toda começar, às 21h, no Teatro Luiz Mendonça, no Parque Dona Lindu (ingressos: R$ 30 e R$ 15). Por isso não é necessariamente ruim que Ivana Moura tenha saído do teatro entediada, dizendo que não tinha gostado do texto. Pollyanna Diniz, pelo contrário, já via a peça pela segunda vez, disposta a encarar uma terceira. As duas, de maneiras diferentes, se sentiram provocadas. E foram as opiniões divergentes, as defesas calorosas, que geraram essa “análise dupla” da peça de uma companhia que tem uma história pontuada por montagens que surpreendem o público.

A força de estar no limite
Por Pollyanna Diniz

Não queriam delicadeza. Antes da coisa toda começar é uma porrada. Expõe personagens atormentados, esperanças perdidas, futuros interrompidos. Pode parecer contraditório, mas não é, que a peça trate exatamente daqueles momentos em que nos sentimos capazes de tudo. São faces de uma mesma moeda, limites frágeis. A peça também não trata de memória, como a anterior (e essa sim, delicada) Inveja dos anjos, mas é, em certa medida, uma discussão sobre o fazer teatral. Até porque a criação e o palco certamente foram instantes em que os atores do Armazém se sentiram plenos – natural que isso transpareça no texto de Paulo de Moraes (também diretor) e Maurício Arruda Mendonça.

Criadores que desnudaram limites, seja com gritos ou no silêncio de uma relação que não se constrói. É o caso da cantora (Simone Mazzer) que tentou se matar e é visitada pela irmã. A conversa poderia ser diferente, as sombras se sobrepõem, mas não há entendimento. Ricardo Martins, Patrícia Selonk e Thales Coutinho alcançaram a medida na construção desses personagens. Se qualquer uma dessas peças não estivesse bem, as histórias poderiam soar over ou clichê. Clichê? Que seja! Quem nunca? Quem nunca amou desmedidamente? Quem nunca se sentiu perdido? Quem nunca achou que não poderia mais? Mas insistiu. Porque, como para o Armazém, o mais importante é que histórias sejam contadas, construídas.

Talvez seja importante falar da música. Da cenografia, que propõe um ponto de fuga. Que é como uma fotografia acinzentada das paredes de uma casa velha, que podem avançar no palco e ser utilizadas como plataformas. Das projeções. Adendos, quando o mais importante mesmo é ver que “pensar só em coisas sublimes”, como diz a personagem Zoé, seria muito chato.

Música do espetáculo é executada ao vivo pelos próprios atores. Direção musical é de Ricco Viana, que compõe a banda

Decalque de si mesmo
Por Ivana Moura

Da Armazém Companhia de Teatro, assisti a Alice através do espelho, Pessoas invisíveis, Da arte de subir em telhados, Tempestade, Toda nudez será castigada, Inveja dos anjos. Quarta-feira fui ver Antes da coisa toda começar, a 19ª montagem da companhia. E o que encontrei foi um decalque de outras peças do grupo. A dramatugia escorrega em clichês de personagens e situações. E desta vez, para mim, o diretor mostrou que não conseguiu falar do próprio universo de criação.

Referências shakespereanas abundam nas tentativas de criar algo original. Uma derrapagem. Os discursos, os fraseados, as entonações caem em algo enfadonho. A peça parece se arrastar em um turbilhão de palavras que se colam umas às outras mas que não despertam qualquer tipo de emoção.
Um fantasma habita um teatro abandonado. E evoca lembranças, materializa três figuras que deveriam estar no limite. Uma é Zoé, apaixonada pelo irmão. Outra é uma cantora que já tentou várias vezes o suicídio. E o terceiro é Téo, que reflete sobre o sentido da vida e da criação artística.

Os personagens principais da montagem

A trilha sonora roqueira tocada ao vivo não torna o espetáculo mais visceral. Não é nem que a encenação tenha se voltado para o próprio umbigo, criando dificuldade de diálogo com a plateia. Falta comunicação. É como se alguém estivesse nos contando episódios trágicos e não convencesse.

A estrutura de narrativa fragmentada parece que entrou numa forma. O debate psicológico é um jogo de déjà vu e a suposta densidade escorre pelos dedos. As memórias do fantasma recaem em algo previsível. A movimentação cênica interessante acrescenta pouco. As projeções de vídeo e paredes que se movimentam chegam como recursos que se encerram em si mesmos. O espetáculo fica longo porque a cada tentativa de apresentar alguma surpresa, o que há é mais do mesmo.

Companhia faz última sessão hoje à noite, no Teatro Luiz Mendonça

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Para não perder o encanto – e o público

Avaliação pública do Festival Recife do Teatro Nacional 2011. Foto: Val Lima

Na sua festa de debutante, ano que vem, quando completa 15 edições, o Festival Recife do Teatro Nacional precisa se reinventar. Atualizar a sua função e importância não só para o público em geral, mas também para os artistas que ajudou a formar na cidade. Mesmo que os números não denunciem, já que os espectadores nos teatros até aumentaram do ano passado para cá – de 4.794 para 5.089 pessoas – o fato é que, quem acompanhou os 12 dias de festival, sentiu os teatros esvaziados em muitas apresentações.

Talvez seja um reflexo, como foi levantado pelo próprio secretário de Cultura do Recife Renato L, presente na avaliação, da proposta curatorial defendida pelo jornalista e pesquisador de teatro Valmir Santos: apostar no teatro de grupo, de pesquisa, e na apresentação de peças dos seus repertórios, deixando de lado grupos mais conhecidos na cidade, que estariam sempre se revezando na programação de anos anteriores. Proposta ousada e que se mostrou importante tanto para o público quanto para os artistas que acompanharam as sessões.

A Companhia Hiato, por exemplo, de São Paulo, nunca tinha vindo ao Nordeste e teve a oportunidade de apresentar os seus três espetáculos: Cachorro morto, Escuro (que abriu a programação do festival) e a comovente O jardim. “A proposta era povoar os palcos com criadores que nunca tinha passado pela cidade. Núcleos que necessariamente não têm muita estrada, mas experiências interessantes. Jovens criadores que dialogam com a tradição, com espetáculos que não são fruto do mero ímpeto juvenil”, disse Valmir Santos. A Companhia Brasileira de Teatro, de Curitiba, também trouxe três peças: Oxigênio, Vida e Descartes com lentes. O instigante e difícil dramaturgo e diretor Francisco Carlos, do Amazonas, trouxe duas peças da sua tetralogia Jaguar cibernético.

Paulo Vieira, professor, ator e diretor da Paraíba, foi convidado para acompanhar o festival e realizar uma avaliação crítica. Vieira lembrou do tempo em que “era um jovem ator de pouco mais de vinte anos, quando vim com um grupo de amigos com os quais eu trabalhava, exclusivamente para assistir aos espetáculos que varavam a noite do Vivencial. Era a linguagem de um teatro que gostaríamos de ter por perto, de ver mais vezes e se não exatamente fazer igual, ao menos com ele reabastecer as emoções que o teatro proporcionava”. O grupo Vivencial, que teve sua história contada através de uma série publicada no Diario de Pernambuco semana passada, foi o homenageado do festival.

Mas o avaliador fez críticas, como a escolha do espetáculo Escuro, que não era “alegre, esfuziante”, como a noite de homenagem ao Vivencial pediria e denunciou as más condições da escola municipal Antônio Farias, no bairro de San Martin, que recebeu uma apresentação da montagem O encontro de Shakespeare com a cultura popular: Romeu e Julieta, do Ceará. “A degradação do ambiente me provocou a sensação de estar em uma antessala de penitenciária”.

Para o coordenador do festival, Vavá Schön-Paulino, ainda há algumas questões que em 14 anos de mostra ainda não conseguiram ser solucionadas, como uma bilheteria informatizada, um espaço de convivência do festival e um local para a central de produção. A divulgação do festival, um calo da sua organização, também recebeu críticas. A programação foi divulgada apenas com uma semana de antecedência, o site só ficou pronto quando o festival já estava acontecendo e o programa completo da mostra estava disponível já no fim do festival. Apesar disso, o clima foi amistoso e, apesar de não haver ainda uma definição sobre se Valmir Santos será o curador do ano que vem, o festival deve de alguma forma homenagear o centenário de nascimento do pernambucano mais importante da história do teatro nacional: Nelson Rodrigues.

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Avaliações

Depois de 12 dias de programação, terminou ontem o Festival Recife do Teatro Nacional. Vimos muitas coisas, que merecem outros posts, mas estamos escevendo para lembrar que a avaliação do festival será hoje, às 19h, no Teatro Apolo. O convidado para fazer a avaliação este ano é Paulo Vieira, da Paraíba. Como todos os anos, um momento para conversar e tentar melhorar os festivais que estão por vir.

Falando nisso, amanhã, às 19h, a Gerência Operacional de Artes Cênicas da Fundação de Cultura da Cidade do Recife vai realizar uma reunião com a classe no Salão Nobre do Teatro de Santa Isabel. Estaremos lá, claro, para saber quais são os planos, ainda que tardios, da gestão.

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Uma celebração para Cadengue

Noite de autógrafos de Antonio Cadengue

Noite de lua cheia. 10 de novembro de 2011. Na faustosa sede da Academia Pernambucana de Letras uma injustiça histórica era corrigida. Um livro, um estudo fundamental para o conhecimento e o reconhecimento de parte importante das artes cênicas brasileiras era lançado. Vinte anos depois de ter sido escrito.

Seu autor, Antonio Edson Cadengue se disse feliz e comentou que talvez aquele fosse o momento em que a cidade mais o levou a sério.

Reinaldo, Antonio Edson, Geninha e Leda

Cadengue entregou seu livro, em dois tomos, TAP Sua Cena e Sua Sombra (1941-1991) e recebeu o carinho de muitos. Foi exaltado pelo SESC e pela presidente da CEPE, Leda Alves, pelo diretor do Teatro de Amadores de Pernambuco, Reinaldo de Oliveira e pela atriz Geninha da Rosa Borges.

“Recife, cruel cidade”, como canta Carlos Pena Filho também tem sua outra face e de vez em quando afaga os seus talentos. Assim foi.

Foi uma festa bonita, mas havia no ar “esse dito não dito”. Coisas da trajetória da vida que promove seus encontros e desencontros, entendimentos e desentendimentos, bem-querer e desgastes. Faltou mais gente de teatro nesse lançamento. Talvez porque Cadengue tenha se afastado da classe, como comentou alguém.

Mas um estudo “perfeccionista” como comentou Reinaldo de Oliveira, de uma extensão que soma cerca de mil páginas, em dois volumes, é mais que um bom motivo para essa (re)aproximação.

Abaixo, vídeo com trechos das saudações e discurso do autor.

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