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A receita faz temporada na sede d’O Poste

Naná Sodré iniciou cena em curso de Eugenio Barba e Julia Varley. Fotos: Fernando Azevedo/ Divulgação

Naná Sodré iniciou cena em curso de Eugenio Barba e Julia Varley. Fotos: Fernando Azevedo/ Divulgação

Uma mulher comum transforma em alimentos suas ilusões. Negra e forte, ela usa um avental e desfia seu cotidiano de submissão e maus-tratos utilizando metáforas. A receita espetáculo que estreia hoje na sede d’O Poste: Soluções Luminosas, sintetiza naquela figura várias mulheres do mundo que sofrem com a violência. A dramaturgia e direção de Samuel Santos concentram na cozinha o contexto da história para reforçar o caráter sociológico e antropológico do discurso.

A atriz Naná Sodré interpreta essa criatura, que faz e refaz suas rezas, entoa suas falas como os cânticos das carpideiras, que tempera seus ambientes imaginários com sal, alho, coentro e cebolinha.

A receita foi gestada na VI Masters-in-Residence com Eugenio Barba e Julia Varley -Edição Comemorativa – O Diálogo das Técnicas 2013, em Brasília, da qual Naná Sodré participou e lá foi apresentada em formato reduzido de cinco minutos. A montagem prosseguiu no Recife com o Apoio do Edital de Ocupação do Teatro Joaquim Cardozo/UFPE, entre maio e julho de 2014. A peça integrou a versão do Trema – Festival de Teatro de Grupo do Recife deste ano.

A peça é desenvolvida com o público bem próxima à atriz. A plateia acompanha as mudanças de emoções da personagem e as reflexões sobre as agressões sofrida por mulheres, vitimadas física e psicologicamente, num ritmo que ora acelera ora diminui, mas traz um traço repetitivo para atingir o espectador.

Naná Sodré inicia temporada de A receita. Foto: Fernando Azevedo/ Divulgação

A peça fala sobre a violência doméstica sofrida por uma mulher anônima.

A receita
Onde: Espaço O Poste (Rua da Aurora, 529, loja 1, Boa Vista, esquina da Aurora com Princesa Isabel)
Quando: De 29 de maio a 26 de junho, todas as sextas, às 20h.
Ingresso: R$ 20 e R$ 10 (meia).
Informações: 8484-8421.

Entrevista: Samuel Santos

Para o diretor Samuel Santos o essencial é o trabalho do ator

Para o diretor Samuel Santos o essencial é o trabalho do ator

A receita dá continuidade à pesquisa d’ O Poste em que sentido?
No sentido das equivalências, onde você coloca uma mulher numa situação de violência. Onde na realidade representam todas as mulheres do mundo. Salientando que a atriz que está em cena é negra e isso, só por si, já representa uma continuidade da pesquisa. O negro na situação de representação. Outra coisa também é que a ancestralidade que perseguimos não é só do campo ritualístico, mas há outras formas de colocarmos nossa pesquisa que não só seja utilizando os elementos espetaculares no campo das referências africanas tribal. Enxergamos também o lado mais urbano. Na Receita mesmo isso é percebido claramente. Não há a coisa tribal, mas tem elementos que comungam com as nossas pesquisas.

Como você opera as diretrizes de Eugenio Barba no seu trabalho de autor e diretor da peça?
Como Eugenio trabalha o teatro antropológico, que é o homem no estado de representação, eu tenho na minha dramaturgia um personagem mulher /negra localizada no Brasil que faz paralelos com comunidades distantes do mundo. Na peça a plateia vai ver desde a mulher brasileira/ nordestina, a mulher portuguesa, a mulher síria, africana do Gongo e também a mulher oriental. Então, na peça, vai se identificando desde a vendedoura negra de tabuleiro da época da escravidão até uma gueixa. Então os pontos que a antropologia faz nesse sentido é não se fechar em um conceito. Tipo: O conceito é matriz africana e aí eu como diretor tenho que focar só na matriz africana. Na antropologia teatral isso não é um valor conceitual. Você pode ver numa peça dirigida por Barba referência do tango com a capoeira. Sempre será hibrido. Outra questão é que não trabalhamos dentro do naturalismo. Há pré-expressividade, o método do teatro físico, onde não temos “ compromisso com o tempo real cotidiano”. Corpo, voz e a presença sempre ativa do ator na cena.

O tema da violência está no centro do espetáculo.
O centro do espetáculo é o abandono dela com ela mesma e a violência. A violência provocada pelo abandono.

Como interpretar essa violência contra o feminino no discurso sociológico e antropológico que você como autor e diretor aponta?
Mostrando comportamentos vigentes adotados dentro de uma memória e de um imaginário sexista, onde muitas mulheres deixam de ser mulheres para ser uma coisa utilitária. Crescemos ouvindo que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”. No ponto de vista dramatúrgico peguei todas minhas reminiscências de violência contra as mulheres e escrevi o texto pensando no passado, agindo no presente e buscando o futuro. Um futuro de igualdade, com menos violência e mais poesia.

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Estreia // Anjo negro

Montagem do diretor Samuel Santos do texto Anjo negro estreia hoje

Montagem do diretor Samuel Santos do texto Anjo negro estreia hoje

Ismael não se aceita como negro e isso gera uma série de conflitos externos e internos para o protagonista de Anjo negro. Ele provoca a cegueira de um irmão, é amaldiçoado pela mãe e se casa com um moça branca, Virgínia, que mata os filhos do casal.

A pesquisa sobre a gestualidade africana levou o grupo de Samuel Santos ao texto Anjo negro, de Nelson Rodrigues. O espetáculo faz duas apresentações, hoje e amanhã às 19h, no Teatro Marco Camarotti (Sesc Santo Amaro), dentro da programação do 20º Janeiro de Grandes Espetáculos.

Com essa encenação o diretor prossegue com a busca de linguagem em que entram em cena, de alguma forma, o universo ancestral africano, os ritos católicos, numa linha expressionista extraída do teatro físico.

No elenco estáo Agrinez Melo, Ângelo Fábio, André Caciano, Maria Luísa Sá, Nana Sodré e Smirna Maciel.

Serviço
Anjo Negro, de Nelson Rodrigues, direção geral de Samuel Santos e direção de arte de Fernando Kehrle
Quando: Hoje, às 19h
Onde: Teatro Marco Camarotti (Rua Treze de Maio, 455, Santo Amaro. Fone: 3216 1616)
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

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Boa sorte ao Cordel do amor sem fim

Thomas Aquino, o José, de O cordel do amor sem fim

O amor fica longe dos floreios românticos nos embates de quatro personagens apaixonados. Carminha ama José, José ama Tereza, que ama Antônio, que nem chega a aparecer em cena.

Entre batuques, sincopadas marcações de tamancos, sonoplastia ao vivo, Cordel do amor sem fim cresceu nesse tempo de temporadas esparsas.

O grupo que se apresenta hoje no festival Internacional de Londrina – FILO, tem no corpo e na voz uma energia concentrada para aquecer a audiência e contar uma história de amor. Amor desencontrado. Amor possessivo. Amor desesperado. De medos, de segredos e de esperanças.

Quando assisti novamente ao espetáculo no projeto do Palco Giratório percebi o engrandecimento da encenação (depois que o diretor Samuel Santos fez alguns cortes na montagem) e o crescimento interpretativo do elenco.

Nana Sodré como a velha e misteriosa Madalena, que parece que carrega o peso do mundo; Agrinez Melo como a dissimulada Carminha; e Eliz Galvão, como a ingênua e romântica Tereza. Thomás Aquino defende com muita dignidade seu José.

Vale destacar as máscaras que o elenco se apropria para tratar dessa ancestralidade tão cara na obra, que tem texto de Cláudia Barral, cenografia de Samuel Santos, criação de Iluminação de O Poste Soluções Luminosas, figurinos de Agrinez Melo e maquiagem de Rosinha Galvão.

Na apresentação de maio (Palco Giratório), no Teatro Hermilo Borba Filho, vi a peça de cima. E foi muito bom acompanhar o desenho coreográfico bem definido e atores plenos de seus personagens e de suas funções. E a poesia que ocupou os espaços nos gestos, nas falas, no silêncio.

Boa sorte ao grupo comandado por Samuel Santos nas sessões de hoje e amanhã no Festival de Londrina. Os ingressos, pelo menos desde o início da semana, já apareciam como esgotados no site da mostra

A poesia pode estar nos detalhes

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Cordel teatraliza amor desmedido

Foto: Aryella Lira

Carminha amava José, que amava Tereza que amava Antônio, que sumiu antes de entrar para a história. Alterando o nome das personagens, essa Quadrilha de Drummond continua a fazer suas tramas reais e ficcionais. Em Cordel do Amor sem Fim essa paixão explode, implode ou é sufocada às margens do Rio São Francisco, em Carinhanha, no Sertão baiano. Na cidade moram três irmãs – a velha Madalena, a enigmática Carminha e a jovem e idealista Tereza –, por quem José é apaixonado. No dia em que selaria o noivado, Tereza encontra o forasteiro Antônio no porto da cidade e tudo muda na sua cabeça, no seu coração, no seu corpo. A montagem assinada pelo diretor Samuel Santos recusa o naturalismo e explora outras teatralidades para reforçar o jogo. O texto é da escritora baiana Cláudia Barral.

Em cena estão os atores Agrinez Melo (Carminha), Eliz Galvão (Tereza), Naná Sodré (Madalena ) e Thomás Aquino (José ), além do músico Diogo Lopes. O gestual das personagens é forte, decidido. Os passos e gestuais do coco se fundem com Tai Chi Chuan, candomblé, capoeira, recorrendo até ao Expressionismo, no corpo e nas máscaras faciais. Essas máscaras também trazem a influência do mamulengo. Esse arcabouço dá sustentação a um espetáculo vigoroso, onde os passos do coco-de-roda nordestino se aproximam da arte oriental do Butoh. Essa partitura corporal, que perpassa também pelo cavalo-marinho, deixa bem longe o realismo-naturalismo, mas remete para algo mágico, para mitos.

A montagem está carregada de simbolismos. Da sensualidade feminina descoberta, manifestada no corpo de Tereza, que clama por um sujeito estrangeiro que não irá tocá-la. E esse corpo que anseia, com o passar do tempo vai ficando duro, seco. Na realidade isso ocorre quando ela perde as esperanças desse amor imaginado e não se contenta com as possiblidades que lhe são apresentadas, ou seja, o contato erótico com José.

Foto: Ivana Moura

As outras duas irmãs guardam aproximação com as mulheres reprimidas de Garcia Lorca. Madalena fechou-se em casa, em luto. Não sai para nada, ninguém sabe por que, mas há de se presumir que foi por desilusão amorosa – perda, medo, danação. Carminha guarda o segredo de amar o homem prometido da irmã, e quando pensa que tem uma chance o fogo contido reacende.

O amor desmedido de Tereza desafia o amor desmedido de José. José suporta o tempo pedido pela amada até que cansa e a cultura do macho aflora, o que tenta resolver a questão à força.

Foto: Ivana Moura

A cenografia (de Samuel Santos, executada por Nagilson) e a direção de arte de Fernando Kehler embalam essa trama de beleza e elementos reveladores. Como a concha do mar, as redes e mosquiteiro (cortinado para proteger dos mosquitos), bancos que viram cama ou tribuna nos momentos de narração. São também muito criativas as soluções para portas e janelas. A iluminação (plano de Iluminação é d’O Poste: Soluções Luminosas) entra em cumplicidade com os outros elementos da cena. Os figurinos de Agrinez Melo, executados por Sara Paixão, funcionam em harmonia com o conjunto da obra.

A atuação dos intérpretes segue a linha proposta pelo diretor e Agrinez Melo, Naná Sodré e Thomás Aquino reforçam na caricatura, em atuações convincentes. Eliz Galvão destoa dessa galeria, revelando-se um pouco mais imatura em relação ao grupo, mas também tem sua graça.

Foto: Ivana Moura

O verbo do espetáculo é esperar. O tempo é de espera. E a montagem atropela essa exigência. Explico: Cordel do amor sem fim fala muito. Fala com os diálogos e os monólogos das personagens. Fala com o pensamento dessas figuras atormentadas. Fala com a música tocada ao vivo (Letras das músicas: Carlos Barral e músicas Josias Albuquerque). Fala através da percussao executada pelos atores.
O tempo da espera reclama por silêncios.

Se há o que precisa ajustar nesse Cordel são alguns excessos. A maquiagem dos atores e os figurinos da peça já trazem sua carga. As interpretações também reforçam essa linha não ilusionista, com os corpos extracotidianos dos intérpretes. Para ressaltar a poesia do espetáculo é preciso contrapor o que já está bem marcado com um pouco de sutileza. Para equalizar a séria pesquisa com a recepção. Para que o espetáculo caiba em sua própria medida. E arrebate ainda mais o público.

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