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Vital Santos e a urgência
de um teatro que grita
Por Ivana Moura

Vital Santos, dramaturgo e encenador caruaruense. Foto: Jorge Clézio / Divulgação

Leidson Ferraz, autor do livro Dramaturgia Vital: o teatro popular e musical do pernambucano Vital Santos

“O dramaturgo e diretor Vital Santos continua mandando seus sinais. De alerta, de protesto, de indignação contra as desigualdades sociais e de solidariedade com a condição humana. Sua arma compõe-se de verbo, das imagens, do canto e dança através do teatro. […] Para Vital Santos, o palco deve servir de tribuna de discussão dos problemas dos seres humanos. Foi assim com Auto das Sete Luas de Barro, A Árvore dos Mamulengos ou Concerto Para Virgulino Sem Orquestra, algumas das peças escritas e dirigidas por ele. Sua temática social alia-se à linguagem poética para atingir a sensibilidade do espectador, provocar reflexões e mudanças de atitudes…” Em dezembro de 1994, quando escrevi sobre No Fim do Beco há um Bosque para o Diario de Pernambuco, não imaginava que minhas palavras se tornariam quase proféticas.

Três décadas depois, a voz de Vital Santos (pernambucano de Caruaru, falecido em 2013, aos 68 anos) ecoa mais uma vez. Agora não mais do eterno palco efêmero, mas das páginas permanentes de uma coleção que perpetua sua dramaturgia. Sua obra que por tanto tempo se manteve na fugacidade da cena e na memória dos que a testemunharam, finalmente ganha o registro que merece. A coleção Dramaturgia Vital: o teatro popular e musical do pernambucano Vital Santos, com organização, contextualização histórica e análise das obras do jornalista, historiador e doutor em Artes Cênicas Leidson Ferraz, é um ato de justiça à memória de um criador essencial. São dezessete peças completas, reunidas em dois volumes que somam 848 páginas e quase 200 fotografias raras. O lançamento ocorre nos dias 17 e 18 de dezembro de 2025, no Recife e em Caruaru.

Leidson Ferraz, que teve a oportunidade e o privilégio de atuar sob a direção de Vital em O Príncipe dos Mares de Olinda Contra a Fúria das Águas, conhecia de perto essa urgência. Como pesquisador, ele já havia documentado a trajetória do Grupo Feira de Teatro Popular em Memórias da Cena Pernambucana. Ferraz dedicou anos ao projeto, movido pelo rigor acadêmico e uma profunda admiração. E contou que já conhecia o desejo de Vital de publicar todas as peças, embora muitas tenham se perdido ao longo do tempo.

O registro permanente desses textos que moldaram a cena nacional das décadas de 1970 a 2010 merece saudação, pois muitas peças desse autor que ganhou prêmios como o Molière, o Mambembe e o APCA estavam dispersas, inacessíveis em formato de livro e corriam o risco de se apagar.

O projeto de edição foi vencedor do primeiro lugar na categoria Preservação de Acervos e Memória do edital Funarte Retomada 2023 e representa um marco na salvaguarda do teatro brasileiro. O título Dramaturgia Vital é um achado, pois aponta para a autoria de Vital Santos e, ao mesmo tempo, para a natureza pulsante e essencial de sua obra.

Cantigas do Sol Dom Quixote de Cordel Foto: Célio Pontes / Divulgação

A capacidade de traduzir a vida de pessoas simples está na essência do teatro de Vital Santos. O fio condutor de sua dramaturgia era a uma concretude da condição do povo brasileiro, com um olhar muito atento para o Nordeste. E com uma poesia desconcertante. Suas peças são radiografias de como homens e mulheres enfrentam a fome, a seca, a exploração, a violência urbana, e como, em meio a tudo isso, insistem em amar, sonhar e resistir. São personagens que se recusam a ser invisíveis.

É importante ressaltar: Vital não se propunha a “dar voz” a essas pessoas, termo problemático e em desuso nas análises contemporâneas. Ele criava um teatro que pulsava das próprias formas de expressão populares, refletindo suas experiências e modos de ser. Sua estética era uma tapeçaria rica, tecida com fios de cordel, a alegria do mamulengo, a força do reisado, a dança do bumba-meu-boi e as melodias das cantigas de trabalho. Santos utilizava os materiais culturais de Caruaru e região para abordar questões que tocam qualquer ser humano, ou seja, a busca por dignidade, o sonho de uma vida melhor, a luta contra a opressão. O drama de um migrante nordestino em Olha Pro Céu, Meu Amor dialoga diretamente com o trabalhador explorado em qualquer parte do mundo.

A denúncia social, como observei em No Fim do Beco há um Bosque, permeia sua dramaturgia, mas nunca de forma panfletária. A crítica surge das próprias situações dramáticas. A exploração dos artistas em Auto das Sete Luas de Barro, as lutas camponesas em A Noite dos Tambores Silenciosos, a degradação urbana em No Fim do Beco há um Bosque. Vital honrava a capacidade de sobrevivência e a força criativa do povo. Seus personagens, mesmo no extremo, mantinham a dignidade, a esperança e o humor. Não era romantização, mas o reconhecimento de que, onde há opressão, há luta; onde há desespero, há invenção.

Como encenador, Vital era um maestro, um alquimista da cena. Sabia como poucos movimentar os corpos dos atores e atrizes com poesia e precisão, transformando cada espetáculo em uma experiência física e sensorial. Suas montagens eram quadros vivos, onde a música e a dança eram o próprio coração pulsante da narrativa. O palco sob Vital era um lugar de milagres: luzes que pintavam paisagens, objetos de sucata que ganhavam alma, um balé de movimentos que extraía a riqueza das danças nordestinas. 

Concerto Para Virgulino Sem Orquestra

Vital, o Mestre do Exagero Criativo

Vital Santos era, acima de tudo, humano. E como (quase) todo bom contador de histórias nordestino, ele não se furtava de apimentar a narrativa, de dar um “tom” extra aos acontecimentos ou, por vezes, de simplesmente inventar. Sabia que o teatro vive de impacto, de emoção e de uma boa história, mesmo que esta ganhasse contornos fabulosos em sua boca.

Vital gostava de “aumentar as coisas”, de “valorizar os acontecimentos” para “ficar bem na fita”. Ele atribuía a Concerto Para Virgulino Sem Orquestra, por exemplo, premiações e elogios de críticos renomados como Barbara Heliodora e Yan Michalski, mesmo que tais comprovações nunca fossem encontradas nos arquivos. A pesquisa de Leidson Ferraz confirma que “esses ‘louros e confetes’ que Vital Santos jogava para si não causavam dano maior”, mas sim reforçavam o mito do artista que ele construía com maestria. Ele era um dramaturgo que não hesitava em usar de licença poética para si mesmo, um toque de “megalomania” criativa para tornar sua figura ainda mais cativante.

Outros detalhes revelam seu temperamento único. A inclusão de uma galinha de verdade no palco em Olha Pro Céu, Meu Amor, causando frisson entre os produtores; suas mudanças repentinas em ensaios, que faziam o elenco “não gostar”, mas que eram a marca de seu perfeccionismo; e a célebre disputa com Antônio Guinho sobre a autoria de Uma Canção Para Othello, mostrando que sua paixão era tão grandiosa quanto suas criações – e, por vezes, tão tempestuosa. A arte de Vital era viva, e sua vida era, em si, um grande espetáculo.

 Experiências e Percepções Sobre Vital Santos

A complexidade da figura de Vital Santos transparece nas vozes daqueles que o acompanharam de perto, revelando um artista de gênio forte e métodos exigentes. Gilberto Brito, que estreou como ator sob a direção de Vital em 1974, embora o reconheça como um “mestre”, não poupa palavras ao descrevê-lo como um “homem de muita vaidade, ególatra e centralizador a criar histórias megalomaníacas”. Brito é contundente ao classificar uma remontagem de Rua do Lixo, 24 por Vital, nos anos 90, como “desastrosa, já sem o vigor e o impacto de suas realizações passadas”.

Sebastião Alves, o Mestre Sebá, cuja própria história de vida inspirou a peça Olha Pro Céu, Meu Amor e que até hoje mantém vivo o legado de Vital, descreve o diretor como “perfeccionista e exigente”. Embora reconheça o “cuidado que mantinha com seus espetáculos”, Sebá aponta que “muitos da equipe não gostavam” das “mudanças constantes que [ele] fazia na cena”, evidenciando que o processo criativo de Vital também gerava atritos e tensões.

Essa mesma intensidade, capaz de encantar e testar limites, foi sentida por Fátima Aguiar. Embora inicialmente “arrebatada pela profusão de criatividade cênica” de obras como O Sol Feriu a Terra e a Chaga se Alastrou, ela vivenciou o “lado difícil de convivência” e o perfeccionismo exaustivo de Vital. Fátima descreve a estreia de Auto das Sete Luas de Barro como “complicada” e a relação em Concerto Para Virgulino Sem Orquestracomo “bastante desgastada”, culminando em um “duro golpe” quando Vital levou a montagem ao Rio de Janeiro sem o elenco original. Ela lembra que O Príncipe dos Mares de Olinda“resultou num certo fracasso” de público. Apesar das dificuldades, isso não “invalida a admiração que tenho pelas suas criações”, ressalva Fátima.

Já Samuel Santos, que encontrou em Vital sua “universidade” e “teatro escola”, destaca o “perfeccionismo” e a forma como Vital “primava pela coordenação poética da cena”, dedicando-se a “lapidar, mexer, descobrir a melhor maneira de apresentá-la ao público”. Samuel enfatiza que o trabalho com Vital exigia “desapego com o tempo e estar disponível para as construções e desconstruções das cenas”, ressaltando a ausência de um método formal, mas a presença de uma “forma de construir suas peças com alto grau de interesse a cada cena”.

Consagração e Controvérsia

Auto das Sete Luas de Barro. Sebá como Vitalino

Entre as 17 obras resgatadas, duas sempre se destacaram pela intensidade de sua recepção, uma pela aclamação unânime e a outra pela polêmica gerada. Auto das Sete Luas de Barro é, sem dúvida, a obra que catapultou Vital Santos ao patamar dos grandes nomes do teatro brasileiro. Reconhecida como uma “fantasia dramática e musical”, a peça narra a vida do Mestre Vitalino, o célebre ceramista de Caruaru, e, por extensão, a luta e o sofrimento dos artistas populares do Nordeste.

Minhas lembranças dessa obra são vívidas. Ela não apenas conquistou a crítica, mas arrebatou o público por onde passou. O crítico Yan Michalski, do Jornal do Brasil, elogiou-a efusivamente, chamando-a de “um barro que vale ouro” e destacando sua “absoluta originalidade no conteúdo e na forma”. Ele ressaltou a capacidade de Vital Santos de combinar a “inspiração de velhas tradições populares do Nordeste, a preocupação com os contrastes e conflitos sociais que afligem a região hoje em dia, e uma inventiva cênica capaz de sensibilizar o público de qualquer região do país”. A forma como os atores se transformavam em bonecos de barro, imitando as cerâmicas de Vitalino, foi particularmente celebrada por sua “inusitada beleza formal”.

Outros críticos, como Clóvis Garcia (O Estado de S. Paulo), a consideraram uma obra excepcional por sua capacidade de unir uma apresentação cênica bem realizada com uma poderosa mensagem social, denunciando a exploração dos artistas populares sem cair no “lixo cenográfico”. Carmelinda Guimarães (A Tribuna) a classificou como a “grande revelação” do Projeto Mambembão, um espetáculo de “elevado nível profissional” e “grande beleza estética”.

O reconhecimento se materializou em importantes premiações, como o Troféu Mambembe (melhor diretor para Vital Santos e categoria especial para o Grupo Folguedo de Arte Popular), o Prêmio Molière (melhor diretor) e o Prêmio APCA (categoria especial) em 1980. A peça foi um divisor de águas, mostrando a força do teatro vindo do interior do país. Mesmo décadas depois, como eu destaquei no Diario de Pernambuco em 1993, a obra “ainda comove a quem o assiste” e se mantém atual, sendo uma “pequena obra-prima” que aborda a odisseia dos artesãos populares e suas dificuldades. O texto continua sendo levado à cena por grupos, incluindo a atual Companhia Feira de Teatro Popular, de Caruaru, provando a perenidade de seu impacto.

A adaptação de Vital Santos para a clássica tragédia de Shakespeare, Uma Canção Para Othello, chamou a atenção não apenas por sua audácia em transpor o drama para o cenário pernambucano, especificamente a comunidade de pescadores de Brasília Teimosa, mas também pela intensa polêmica que a cercou.

A peça, escrita em parceria com Antônio Guinho, narra a história de Othello, um líder negro do Maracatu Agulha de Prata e presidente da Associação de Moradores, que se apaixona por Desdêmona, filha de um racista Brabâncio. A inveja de Tiago, um falso amigo de Othello, tece uma trama de desconfiança e traição que culmina em tragédia. A obra mescla a cultura popular nordestina – Maracatu, palafitas, o mar revolto personificado – com referências shakespearianas, incluindo a introdução do próprio Shakespeare como um anjo no Cemitério dos Ingleses e as bruxas de Macbeth transformadas em mães de santo.

Contudo, a produção desta obra foi marcada por “inúmeros problemas” e uma “dor de cabeça” significativa para Vital Santos. A parceria entre Vital e Antônio Guinho, embora iniciada com um prêmio de Incentivo à Dramaturgia do Ministério da Cultura em 1996, deteriorou-se. A estreia original no Recife, em 1999, foi adiada, e uma segunda montagem em Caruaru, com um elenco mesclado de atores do Recife e da Companhia Feira de Teatro Popular, teve sua carreira “interrompida bruscamente por conta de ameaças de processo judicial”.

O estopim da polêmica foi a disputa sobre a autoria, com Guinho alegando ter escrito 90% do texto e sentindo-se desrespeitado pela forma como a obra era creditada. Segundo fontes, a menção de “coautoria” em Caruaru foi a gota d’água, levando Guinho a impedir uma récita no Recife por meio de um oficial de Justiça e a ameaçar Vital com um processo legal. Essa disputa resultou em um “rompimento da amizade que não se refez” e, como a filha de Vital Santos, Isabela Sobral, confirmou, gerou execuções fiscais que “deram muita dor de cabeça à família, até mesmo depois da morte dele”.

Apesar dos problemas, a obra teve um impacto notável. O próprio Leidson Ferraz  (escrevendo para a revista eletrônica @ponte) e outros críticos à época reconheceram a audácia da adaptação e a beleza do simples na encenação, com a “cara, a cor e o som do Recife”. Anos depois, em 2012, Vital Santos assinou sozinho uma versão da peça, Canção Para Othello, encenada em Santos/SP, sob a direção de Tanah Corrêa, o que sugere uma reescrita ou reivindicação total da autoria após a polêmica.

Rua do Lixo, 24, de 1976

Um dos principais objetivos da coleção é estimular novas montagens das obras de Vital Santos em todo o país. Quase todas musicais (e muitas inéditas em livro até agora), as peças poderão ser encenadas gratuitamente por grupos amadores, escolas e universidades, desde que a estreia seja comunicada à filha do artista, detentora dos direitos autorais. Então, a coleção abre novas portas para a perpetuação de um legado que, como diz Leidson, “merecia ter sua trajetória de vida artística e parte das suas inesquecíveis peças registradas em livro, como ele bem queria. Do povo para o povo”.

Embora Vital Santos já seja reconhecido nacionalmente, Ferraz acredita que o projeto amplia ainda mais a presença de seu nome no imaginário teatral brasileiro. “Há peças dele que considero verdadeiras obras-primas. Elas merecem novos olhares, novas encenações”, afirma. “Espero que os livros despertem o interesse pelas escritas e pelas montagens de Vital, que instiguem outros artistas a dialogar com essa obra. Quem sabe, assim, ele continue sendo sempre uma referência para quem pensa um teatro musical genuinamente brasileiro – algo pelo qual ele lutou a vida inteira.”

Os eventos de lançamento prometem ser uma verdadeira confraternização da turma do teatro pernambucano, com a participação de DJs, cenas de Auto das Sete Luas de Barro pela Companhia Feira de Teatro Popular, e a presença de tradutoras de Libras para inclusão da comunidade surda. Em Caruaru, a renda da venda dos livros será revertida para a manutenção do Theatro Mamusebá, capitaneado pelo Mestre Sebá, evidenciando o compromisso do projeto com a sustentabilidade da cultura local.

Esta é a oportunidade de conhecer a profundidade, o humor, a poesia e a relevância social da obra de Vital Santos, um artista que, com sua inventividade, continua a inspirar e a enriquecer o cenário cultural do Brasil.

O Universo Dramatúrgico:
As 17 Peças Publicadas

A coleção, que totaliza 848 páginas e quase 200 fotografias raras, oferece um panorama completo da produção de Vital Santos:

Auto das Sete Luas de Barro (1979): Obra-prima sobre Mestre Vitalino que catapultou Vital ao patamar nacional. Fantasia dramática e musical sobre a exploração dos artistas populares do Nordeste.

A Noite dos Tambores Silenciosos (1981): Musical nordestino sobre lutas camponesas pós-1964. Segue Cravo Branco, exilado que retorna a Olinda delirando entre lembranças da repressão.

Olha Pro Céu, Meu Amor (1983): “Ópera circense” sobre compositor de Caruaru que vai ao Rio sonhando ter músicas gravadas por Roberto Carlos. Explora desafios dos migrantes nordestinos.

Concerto Para Virgulino Sem Orquestra (1994): “Ópera cordel” que estabelece paralelos entre Jesus Cristo e Lampião, retratando volta do cangaceiro para salvar o povo nordestino.

No Fim do Beco há um Bosque (1994): Drama político em favela brasileira. Luta por espaço digno em meio à miséria urbana, buscando esperança através da organização coletiva.

Cantigas do Sol – Dom Quixote de Cordel (2009): “Cantata popular” usando Luiz Gonzaga como fio condutor para crítica da política da seca no Nordeste.

As Proezas do Rei Saul na Terra de Caruaru (2007): “Ópera baião” farsesca em reino medieval fictício, narrada por cordelista.

O Príncipe dos Mares de Olinda Contra a Fúria das Águas (1997): Única obra infantojuvenil, alegoria sobre preservação cultural criticando degradação de Olinda.

Uma Canção Para Othello (1996): Adaptação audaciosa de Shakespeare para Brasília Teimosa, transformando Othello em líder de maracatu.

Feira de Caruaru (1968): Retrato da cidade natal que causou alvoroço no município, marco na carreira de Vital.

Rua do Lixo, 24 (1969): Montagem icônica sobre condições precárias urbanas que deu origem ao Grupo Feira de Teatro Popular.

A Menor Pausa: Peça dos “áureos tempos” que consolidou Vital como dramaturgo.

A Árvore dos Mamulengos: Demonstra conexão com tradições populares nordestinas e teatro de bonecos.

O Sol Feriu a Terra e a Chaga se Alastrou: Obra de grande criatividade cênica abordando sofrimento nordestino com linguagem poética.

Solte o Boi na Rua: Texto que marcou início de Mestre Sebá no teatro.

Aparição e Vagabundo: Peça ensaiada por meses que, paradoxalmente, “sequer estreou”.

Bom Dia, Carmen Miranda!: Obra inédita incluída na coleção.

SERVIÇO
LANÇAMENTOS DOS LIVROS DRAMATURGIA VITAL

RECIFE

Data: 17 de dezembro de 2025 (quarta-feira), 19h
Local: SESC Santo Amaro (Rua Treze de Maio, 455, Santo Amaro – Recife)
Programação: DJ Vibra + cena da peça Auto das Sete Luas de Barro com a Companhia Feira de Teatro Popular
Acessibilidade: Tradutoras de Libras

CARUARU

Data: 18 de dezembro de 2025 (quinta-feira), 19h
Local: SESC Caruaru Teatro Rui Limeira Rosal (Rua Rui Limeira Rosal, s/n, Petrópolis – Caruaru)
Programação: DJ Rudá + cena da peça Auto das Sete Luas de Barro com a Companhia Feira de Teatro Popular
Acessibilidade: Tradutoras de Libras
Especial: Renda da venda dos livros será destinada à manutenção do Theatro Mamusebá
PREÇOS DOS LIVROS: R$ 30 cada volume R$ 50 os dois volumes juntos
REALIZAÇÃO: Funarte
APOIO: SESC/PE
COLABORAÇÃO: Vereadora Cida Pedrosa
PROJETO GRÁFICO: Cláudio Lira
CONTATOS:Leidson Ferraz: E-mail: leidson.ferraz@gmail.com
Instagram: @leidsonferraz
Site: www.leidsonferraz.com.br

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Pesquisador lança livro digital gratuito
sobre crítica teatral no Recife dos séculos 19 e 20

Leidson Ferraz apresenta Ponto de Vista: crítica e cena pernambucana no Teatro de Santa Isabel nesta quinta-feira. Foto: Léo Mota / Divulgação

O Teatro de Santa Isabel, palco histórico que testemunhou 175 anos de arte pernambucana, recebe nesta quinta-feira (10 de julho) o lançamento de uma obra que resgata justamente essa memória teatral. A partir das 19h, o jornalista, crítico e historiador Leidson Ferraz apresenta o livro-pesquisa Ponto de Vista: crítica e cena pernambucana, um mergulho inédito nos primórdios da crítica teatral recifense.

A publicação digital gratuita, com 236 páginas, é fruto de uma extensa pesquisa em periódicos e foi viabilizada pela Lei Aldir Blanc (LAB/PE), com apoio do Governo Federal e do Estado de Pernambuco. O evento, que deveria ter ocorrido em maio durante as comemorações dos 175 anos do teatro, foi adiado devido às fortes chuvas da época.

Um mergulho nos bastidores da crítica teatral

O trabalho de Ferraz, Doutor em Artes Cênicas pela UNIRIO, desvenda as primeiras publicações de resenhas críticas nos jornais, inicialmente assinadas por pseudônimos intrigantes como O Kapla, O Espectador, Os R. R., O Sentinela e O Apreciador do Mérito. A pesquisa avança até revelar colaboradores identificados do século 19, como João Ferreira Villela, Antônio Pedro de Figueiredo (Abdalah-el-Kratif) e Luiz Caetano Pereira Guimarães Júnior (Luciano d’Athayde).

“A intenção é revelar detalhes dos gêneros teatrais daqueles tempos, o formato dos espetáculos, os artistas de maior destaque, a relação que o público mantinha com o palco e como a imprensa reagia a tudo isso. Os embates de opiniões, claro, foram inevitáveis e a gente vai ver que o passado, às vezes, se assemelha bastante ao presente, claro que cada qual com seu contexto específico”, explica Ferraz.

Polêmicas e embates do século 19

O livro concentra-se especialmente na segunda metade do século 19, período posterior à inauguração do Teatro de Santa Isabel em 18 de maio de 1850. A obra documenta a chegada de grandes companhias visitantes, incluindo astros como João Caetano dos Santos, considerado o maior nome do teatro brasileiro da época, e Germano Francisco de Oliveira.

Uma das curiosidades mais marcantes relatadas por Ferraz ocorreu em 1869, ano em que o teatro sofreria um devastador incêndio. Meses antes da tragédia, a exibição das primeiras óperas-buffa causou tumultos memoráveis:

“Para se ter uma ideia, em 1869, no mesmo ano em que o Teatro de Santa Isabel sofreria um terrível incêndio, pouco antes disso a exibição das primeiras óperas-buffa já havia causado alvoroço naquela casa de espetáculos, com agressões a artistas, quebra pau e presença de polícia para conter os espectadores mais indignados”, relembra o historiador.

Do romantismo aos gêneros ligeiros

A pesquisa também aborda a transição do teatro romântico e realista para os gêneros ligeiros, como opereta, mágica e teatro de revista, mudança que causou estranhamento tanto na crítica quanto no público recifense. O trabalho inclui ainda a atuação de empresários como o português Antônio José Duarte Coimbra, que mais tempo administrou o Teatro de Santa Isabel.

Nos primeiros anos do século 20, a obra documenta o trabalho de jornalistas contratados como Manoel Arão, Mário Melo, Samuel Campello e Valdemar de Oliveira, mostrando a evolução e profissionalização da crítica teatral local.

Ferraz preparou uma palestra com projeção de imagens raras e promete contar curiosidades sobre a tríade formada pelas peças apresentadas, os espectadores e a imprensa teatral – um sistema repleto de embates e polêmicas que moldou a cena cultural pernambucana.

 

Serviço

Lançamento do livro-pesquisa Ponto de Vista: crítica e cena pernambucana
Quando: Quinta-feira, 10 de julho de 2025, às 19h
Onde: Teatro de Santa Isabel – Praça da República, s/n, Santo Antônio, Recife
Entrada Franca
Apoio: Lei Aldir Blanc (LAB/PE), Governo Federal e Governo do Estado de Pernambuco

Para baixar o livro gratuitamente: Livro BAIXE AQUI

 

Sobre o autor
Leidson Ferraz é jornalista, Mestre em História pela UFPE e Doutor em Artes Cênicas pela UNIRIO. É organizador e autor de diversas publicações sobre teatro pernambucano, incluindo a coleção Memórias da Cena Pernambucana e os livros Teatro Para Crianças no Recife – 60 Anos de História no Século XX (Volume 01) e O Teatro no Recife da Década de 1930: outros significados à sua história.

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Teatro de Santa Isabel:
175 Anos de Palco,
Resistência e Memória

Tombado pelo IPHAN em 1949, o TSI é um 14 teatros-monumentos do país. Foto: Andréa Rêgo Barros / PCR

É impactante sua arquitetura neoclássica. Foto: Andréa Rêgo Barros / PCR

Lançamento de livro e apresentação do Grupo Magiluth na celebração de aniversário. Foto: Andréa Rêgo Barros

Em 2025, o Teatro de Santa Isabel completa 175 giros em sua espiral temporal, entrelaçando passado e presente no coração do Recife. Esse corpo arquitetônico respira memórias e performa histórias que se acumulam em camadas, como uma máquina do tempo em movimento, onde cada apresentação deixa seus rastros invisíveis. Inaugurado em 18 de maio de 1850, o edifício neoclássico é um organismo cultural que pulsa, absorve e reflete as vibrações sociais de quase dois séculos.

Concebido pelo Barão da Boa Vista e materializado pelo engenheiro francês Louis Léger Vauthier, suas paredes testemunharam momentos da história, desde os debates da Revolução Praieira até os discursos que culminaram na declaração de Joaquim Nabuco: “Aqui vencemos a causa da abolição”. O incêndio de 19 de setembro de 1869, que destruiu quase toda a estrutura do teatro, deixando apenas paredes laterais, alpendre e pórtico, não silenciou sua importância. Em 16 de dezembro de 1876, o teatro ressurgiu para continuar sua missão como palco da efervescência cultural pernambucana.

Desse palco, revoluções saltaram para as ruas. Suas colunas sustentam ideais de liberdade que permeiam gerações. Ao visitá-lo hoje, conectamo-nos diretamente com um capítulo fundamental da história cultural do Brasil, apreciando tanto sua relevância arquitetônica quanto sua contribuição para a formação da identidade pernambucana. Em um país que luta para não esquecer sua memória, esperamos que o Santa Isabel permaneça – resistente, vivo e necessário – como artéria pulsante da cultura que segue reinventando o futuro a partir das lições do passado.

Para a celebração de aniversário, o Santa Isabel recebe no domingo, dia 18 de maio, às 19h, o Grupo Magiluth com o espetáculo Estudo Nº 1: Morte e Vida, uma releitura do poema de João Cabral de Melo Neto. E nesta sexta-feira (16 de maio), às 19h, ocorre o lançamento do livro digital Ponto de Vista: crítica e cena pernambucana, pesquisa minuciosa do jornalista e historiador Leidson Ferraz, que faz uma palestra sobre os primórdios da crítica no Recife.

 

Estudo Nº 1: Morte e Vida

Uma reconfiguração contemporânea do clássico severino

Cena faz alusão à precarização do trabalho, e a Thiago Dias, trabalhador de aplicativo que morreu de exaustão Foto_Vitor Pessoa/ Divulgação

Essa cena do canavial, cruza Michael Jacson com maracatu rural, com Bruno Parmera. Foto_Vitor Pessoa

 

Crises climáticas e migrações são discutidas no espetáculo. Foto_Vitor Pessoa/ Divulgação

Como parte das celebrações de 175 anos, o Teatro de Santa Isabel recebe no domingo, 18 de maio, uma das mais instigantes produções do teatro pernambucano contemporâneo. Estudo Nº 1: Morte e Vida, do Magiluth, sob direção de Luiz Fernando Marques (Lubi) e assistência de Rodrigo Mercadante, propõe uma releitura radical do clássico Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. Os ingressos  para o espetáculo são distribuídos na bilheteria do teatro, a partir das 18h.

A dramaturgia expandida torna-se um “manifesto-palestra” que entretece o texto original com narrativas urgentes do presente, preservando a força poética cabralina, amplificando-a nas discussões atuais, evidenciando como as questões de migração, precarização do trabalho e crise climática permanecem dolorosamente atuais.

Podemos pensar sobre episódios trágicos do mundo real, que, embora não estejam diretamente em cena, chegam por associação, como a brutalidade sofrida por Moïse Mugenyi Kabagambe – refugiado congolês no Brasil, assassinado em 2022 no Rio de Janeiro após cobrar salários atrasados. Ou em um dos  episódios centrais da encenação, que reflete a precarização do trabalho e o desprezo pela vida, a história de Thiago Dias – trabalhador nordestino que sucumbiu em 2020 por exaustão após jornadas extenuantes como entregador de aplicativo em São Paulo.

Essas tragédias estabelecem pontes temporais que apontam a persistência das desigualdades sociais, que vem muito antes da publicação de Morte e Vida Severina (1955).

A força do texto cabralino não fica aprisionada em uma redoma de contemplação, mas, ao contrário, é potencializada ao ecoar em narrativas urgentes do presente. Quando os atores alternam entre os versos e intervenções performativas que incorporam narrativas atuais, criam um campo dialógico onde passado e presente se interpenetram, expondo as estruturas de poder e as continuidades históricas da exploração no contexto das novas configurações das ordens mundiais.

A encenação rompe radicalmente com a ilusão teatral ao expor deliberadamente seus mecanismos de produção. Microfones, mesas técnicas à vista, projeções em painéis desnudos – todos estes elementos compõem um dispositivo metateatral que transforma o espetáculo em uma “oficina” visível de criação.

A estrutura espiral da montagem sobrepõe camadas temporais através de projeções que justapõem imagens de arquivo, recortes digitais e colagens visuais. Esta fragmentação sensorial reflete a própria natureza caótica da experiência contemporânea, criando uma malha de significados que desafia interpretações lineares. O título “Estudo” não é casual: carrega a natureza investigativa de um teatro que se propõe como pesquisa contínua e menos como produto acabado.

Um dos aspectos mais provocativos da montagem é seu questionamento da própria figura do “Severino”. Ao utilizar ferramentas de busca digital para expor representações estereotipadas do nordestino, o espetáculo desnaturaliza imagens cristalizadas no imaginário nacional. O personagem insiste em dizer que não é uma entidade fixa para mostrar-se como um conceito em constante movimento, atravessado por muitas vozes e experiências.

 

Primórdios da crítica teatral no Recife

Leidson Ferraz lança livro digital e faz palestra. Foto: Léo Mota. Capas do livro. Design: Claudio Lira.

Uma investigação sem precedentes sobre os primórdios da crítica teatral pernambucana será apresentada ao público nesta sexta-feira (16 de maio), às 19h, no Teatro de Santa Isabel. Fruto de meticuloso trabalho em vários periódicos dos séculos 19 e 20, o livro Ponto de Vista: crítica e cena pernambucana, de Leidson Ferraz, doutor em Artes Cênicas pela UNIRIO, inaugura as celebrações pelos 175 anos da casa de espetáculos. A obra desvenda o universo das primeiras publicações críticas sobre teatro na imprensa recifense, reconstruindo o panorama cultural da época através de documentos raros e análises. O acesso ao evento é gratuito.

Durante a palestra, o pesquisador compartilha curiosidades sobre os embates e polêmicas que marcaram a cena teatral pernambucana, desde os críticos anônimos que usavam pseudônimos como “O Kapla” e “O Sentinela” até a profissionalização da crítica no início do século 20. Entre os destaques da pesquisa está o momento de transição dos gêneros teatrais, quando as operetas e o teatro de revista substituíram o teatro romântico e realista, causando reações intensas como a ocorrida em 1869, quando apresentações de óperas-buffa provocaram tumultos no mesmo ano em que o teatro sofreria um devastador incêndio. A publicação, que contou com incentivo da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB/PE), já está disponível gratuitamente em formato digital no link Livro

 

Entrevista – Romildo Moreira – diretor do Teatro de Santa Isabel

Romildo Moreira. Foto: Pedro Portugal / Divulgação

Aproveitando o momento significativo das comemorações dos 175 anos do Teatro de Santa Isabel, realizamos uma entrevista com Romildo Moreira, atual diretor dessa casa histórica das artes pernambucanas. Com experiência na gestão cultural e conhecimento sobre o legado deste patrimônio, Moreira compartilha reflexões sobre os desafios de preservar e administrar um espaço que testemunhou importantes capítulos da história brasileira desde 1850.

– O Teatro de Santa Isabel é um verdadeiro patrimônio cultural e arquitetônico. Quais aspectos da história e da vocação do teatro o senhor destacaria como fundamentais para sua identidade?

Romildo Moreira – O Teatro Santa Isabel é um patrimônio cultural e arquitetônico, sim. Foi tombado pelo IPHAN em 1949, já ressaltando exatamente esse patrimônio com uma ênfase da cultura local, na cidade do Recife, e patrimônio nacional da arte e da cultura, como depois ele foi eleito a esta condição.

Ele participa dos 14 teatros-monumentos do país e hoje ele é considerado pelo próprio IPHAN como um dos teatros antigos do Brasil, um dos mais bem equipados e com programação permanente.

O tanto que a gente aqui fica recebendo solicitações de pauta o tempo inteiro e já está com a pauta para 2025, por exemplo, lotada até o dia 21 de dezembro. Ou seja, tanto a produção local quanto a produção nacional e até produções internacionais, quando vem para o Nordeste, pensa no Recife e no Teatro de Santa Isabel.

De fato, ele é almejado não só pela produção local, mas, como falei, nacional e internacional.

 – Considerando a importância histórica e a relevância na cena cultural do Recife, como o teatro se posiciona para cumprir seu papel frente aos desafios contemporâneos?

Romildo Moreira – Com relação aos desafios contemporâneos, mesmo o teatro sendo muito antigo, com 175 anos de existência, a gente não faz discriminação de espetáculos contemporâneos, de teatro, dança, circo, ópera etc., desde que não haja nenhum prejuízo físico ou moral para casa, a gente tem todo o prazer em receber essas produções aqui no palco do Teatro Santo Isabel. Isso tem ocorrido frequentemente. Inclusive, a nossa comemoração dos 175 anos do Teatro Santo Isabel é com o Grupo Magiluth, que tem um espetáculo muito contemporâneo, um espetáculo que não tem uma pegada cênica de antigamente, muito pelo contrário, é um espetáculo jovem, atemporal, contemporâneo etc.

Gostaria de entender melhor o que significa “prejuízo físico ou moral para casa”.

Romildo Moreira – Prejuízo físico é que danifique alguma coisa de palco, da plateia, das cadeiras, do gradil que é tombado etc. Então, prejuízo físico seria exatamente danificar algo que caracteriza o patrimônio. E prejuízo moral seria espetáculos de cenas explícitas, de pornografias, de sexo etc.

Só lembrando também que prejuízo moral também seria espetáculos pornográficos. A gente não teria esta condição de recebê-lo pela própria história e relevância do Teatro Santo Isabel.

 O mês de maio reserva uma programação especial para o aniversário do teatro.

Romildo Moreira – Para a celebração dos 175 anos, na programação oficial nossa aqui do Teatro de Santa Isabel, temos o lançamento do livro Ponto de Vista: Crítica e Cena Pernambucana, de Leidson Ferraz,  na sexta-feira, 16/05, (às 19h) e no domingo, 18/05, a apresentação gratuita de Estudo nº1: Morte e Vida, do grupo Magiluth, em comemoração ao aniversário

Quanto à Orquestra Sinfônica do Recife, os concertos (27/05 e 28/05, às 20h) fazem parte da programação mensal. Não está diretamente vinculado ao aniversário do teatro, mas também não deixa de ser uma oportunidade das pessoas estarem aqui nesta semana de comemoração desta data tão importante para um teatro que está permanentemente ativo. Não é verdade?

– O que motivou a escolha dessa programação especial?”

Romildo Moreira – Com relação ao que motivou essa programação que você chama de especial para o aniversário do teatro, é uma coisa muito simples. Primeiro, o lançamento do livro de Leidson Ferraz trata-se de teatro, e nada melhor do que lançar num teatro, como o Teatro de Santa Isabel, porque muita pesquisa ele fez aqui também, no nosso material. E na própria descrição do livro se fala muito no Teatro de Santa Isabel. E quanto ao Grupo Magiluth, a escolha do Grupo Magiluth é porque é um grupo local importantíssimo que faz apresentações aqui esporadicamente por outras questões, por falta de pauta etc., e pela qualidade do grupo, a qualidade dos espetáculos do grupo, inclusive trazendo uma peça baseada em João Cabral, do Melo Neto. Então a pernambucanidade do espetáculo tem tudo a ver também com a pernambucanidade do Teatro de Santa Isabel. Enfim, mas independente dessa coisa bairrista mesmo, é a qualidade artística que o grupo Magiluth tem nos seus espetáculos.

E esta é a razão mais forte que a gente encontra para dizer que este grupo vai entrar nesse aniversário do teatro tranquilamente.

– O teatro possui algum projeto de curadoria específico para contornar questões contemporâneas e potencializar o uso do espaço cultural? Como esse projeto tem influenciado a escolha e a execução dos eventos?”

Romildo Moreira – Bem, não existe uma curadoria para escolhas dos espetáculos a acontecer no Teatro de Santa Isabel. Existe um decreto de número 21-924, de 10 de maio de 2006, que normaliza as pautas que a gente pode oferecer, pode receber aqui. Então, não pode ter excesso de som, som até 95 decibéis, não pode ter abundância de água em cena, não pode ter fogo, não pode ter drone etc., coisas que possam pôr em risco o patrimônio cultural do Teatro de Santa Isabel. Então isso a gente leva em conta quando recebe as propostas de pauta se esse espetáculo pode ser apresentado aqui ou não. Quando não pode ser apresentado aqui, a gente explica o motivo e sugere uma outra casa de espetáculos. Normalmente, a produção local já sabe disso e não traz esse problema para a gente resolver, mas as produções de fora, quando ocorre, a gente explica e eles entendem completamente bem.

Quais são os critérios adotados para escolher as pautas e os eventos executados no teatro ao longo do ano? Há uma linha diretriz definida para a programação?

Gostaria de compreender com mais profundidade como funciona o processo de distribuição de pautas ao longo do ano no Teatro. Poderia descrever, de forma detalhada, o passo a passo desse procedimento? Por exemplo, se uma produtora local tem interesse em reservar uma pauta para maio de 2026, qual seria o período ideal para entrar em contato, e quais os documentos e informações necessários para formalizar a solicitação?

Romildo Moreira – Não há linha definida para a ocupação da pauta, o que há é a não aceitação de eventos artísticos e culturais que não tem perfil para o Teatro de Santa Isabel. Por exemplo: concurso de miss, eventos evangélicos, espetáculo pornográficos…

Se eu, como produtora cultural, precisar de uma pauta, como consigo? Quais os critérios? Não tem critérios?

Romildo Moreira – Se você precisar de uma pauta, é só encaminhar para o nosso e-mail a solicitação de pauta dizendo o que vai ser utilizado nessa pauta, qual é o espetáculo, se é teatro, dança, circo, ópera, como é que ele se porta, mandar fotos, mandar material em geral sobre a peça, para a gente saber o que é etc.

É isso. Se houver alguma impossibilidade de recebê-lo pela data, já é uma coisa óbvia, porque já está ocupado. Ou então porque o espetáculo não se porta dentro do que a gente já falou antes, se é pornográfico, se tem danos físicos ou morais para o teatro.

É isso, não tem outro critério, que a gente não vai fazer censura estética, entendeu?

Há variação também nos valores dos aluguéis e nas condições de contratação nesses casos, ou são uniformes para todos?

Romildo Moreira – O pagamento da pauta do Teatro de Santa Isabel tem uma diferença da produção local para a produção visitante. A produção local paga 10% da bilheteria bruta com o valor mínimo de R$ 2 mil por apresentação. A produção visitante paga 10% da bilheteria bruta com valor mínimo de R$4.000 por cada apresentação. Só isso que difere, é só o valor mesmo, porque a produção local tem esse abatimento de 50% do valor da pauta.

Por fim na questão das pautas, gostaria de saber se existem restrições específicas para espetáculos destinados ao público infantil ou juvenil e como essas particularidades influenciam a distribuição de pautas.

Romildo Moreira – Inclusive, no mês de julho, existe o Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco, da Metro Produções, e o Teatro de Santa Isabel também recebe esse festival. Então, nós temos o maior prazer também de apresentar espetáculo para criança, que é o público do futuro.

– O Teatro de Santa Isabel, com sua longa trajetória, sempre enfrentou desafios de manutenção e sustentabilidade. Quais estratégias e parcerias têm sido implementadas para garantir sua sobrevivência e modernização sem perder sua essência histórica?

Romildo Moreira – Quanto à manutenção e sustentabilidade, existe uma questão bem presente, como o teatro é da Prefeitura do Recife, a Prefeitura, através da Fundação de Cultura e da Secretaria de Cultura, faz a manutenção permanente através de empresas que são licitadas para tal. Então, a gente tem uma empresa que cuida da manutenção do ar-condicionado, outra que cuida da manutenção estrutural, enfim, e por aí vai. São empresas que permanentemente, como por exemplo os elevadores, têm um problema no elevador, então tem a empresa de manutenção do elevador  que vem e conserta na hora e por aí vai. Isso facilita, porque é um órgão público. Se fosse pela bilheteria do teatro, jamais isso ocorreria, porque a gente não teria disponibilidade financeira para tal. Mas, ao contrário, a gente mantém sempre essas questões em dia por conta dessas parcerias que são com a Fundação de Cultura e Secretaria de Cultura para a manutenção de empresas com esta obrigatoriedade.

– Quantos funcionários compõem a equipe que trabalha no teatro e quais têm sido os principais desafios enfrentados na gestão do espaço atualmente?

Romildo Moreira – 49 funcionários

– Qual tem sido o papel do investimento público no fortalecimento e na manutenção do teatro? De que forma esses recursos têm contribuído para a preservação e renovação do espaço?

Romildo Moreira – Reforçando. Acho importante também falar sobre a manutenção do teatro. Todo mês de fevereiro, anualmente, a gente não abre pautas, não abre para atividades artísticas, a gente faz uma manutenção de equipamento, de som, de luz, de toda parte estrutural do teatro, fazendo também alguns reparos de pintura, etc., para manter o teatro sempre bem quisto e bem visto pela sociedade.

– Como o cidadão, de todas as classes sociais, pode ter acesso ao teatro? Existem projetos ou estratégias que promovem a participação popular e a democratização do espaço?

Romildo Moreira – Quando se trata de sociedade, o teatro tem esse cuidado de não ser uma casa distante da população. Por isso que temos muitos espetáculos gratuitos.

A Orquestra Sinfônica do Recife faz quatro concertos aqui no teatro mensalmente, com sessões gratuitas. Além disso, o teatro tem um projeto chamado Santa Isabel em Cena, que tem duas vertentes. A primeira vertente é que, às terças-feiras, a gente recebe uma média de 300 jovens, entre alunos de escolas públicas, escolas privadas e de ONGs que trabalham com essa faixa etária. Essas pessoas vêm aqui para conhecer o teatro e assistem um espetáculo gratuitamente, um espetáculo local.

E a segunda versão desse Santa Isabel em Cena é que acontece aos domingos, uma vez por mês, um espetáculo direcionado mais à terceira idade, que é uma forma também de a gente trazer e manter este público. Na primeira versão é para os novos frequentadores do teatro, com essa juventude, e nessa segunda versão é para a manutenção desse povo que já acostumou vir ao teatro e assistir a um espetáculo, principalmente de música camerística. Enfim, de forma que a gente tem essa preocupação de um público sempre ampliado e renovado nas apresentações do Teatro de Santa Isabel.

Também temos tido o cuidado de negociar com as produções que vêm para cá, para o Teatro de Santa Isabel, de não fazerem preços muito altos, até mesmo porque o pagamento da pauta é muito pequeno, é 10% da bilheteria bruta, de forma que os ingressos aqui não são de preço tão volumosos exatamente para facilitar uma camada mais ampla de pessoas poderem assistir, já que os ingressos não são tão caros.

– Considerando a situação do entorno do teatro, com calçadas em péssimo estado, a presença de moradores de rua e mendicância, há alguma estratégia integrada ou parceria com órgãos públicos para revitalizar a área?

Romildo Moreira – Com relação a essa questão de moradores de rua, quando o teatro fecha, fica invadido, pessoas dormindo aí, a gente não tem como resolver isso aqui. A prefeitura passa toda quarta-feira aqui, oferece abrigo para essas pessoas, umas já foram, outras já tiveram a família inteira abrigada, mas tem gente que não quer. Então, rua é rua, a gente não tem como fazer. Isso não seria com a Secretaria de Cultura nem com a Fundação de Cultura, muito menos com o teatro. Mas a prefeitura, de um modo geral, tem tido uma ação permanente de fazer com que essas pessoas não agridam o espaço etc. Mas é bem complexo em função disso. Tem gente que não quer sair da rua, enfim. Quando chove, principalmente, eles vão para os lugares onde tem abrigo, como tem aqui no Teatro de Santa Isabel, nessa Dantas Barreto, na Guararapes, é o que mais se vê, como se vê também em outras capitais, Rio de Janeiro, São Paulo etc.

– Que mensagem o senhor deixaria para o público e a comunidade?

Romildo Moreira – A mensagem que deixo para o público e o mundo geral é que não temos aqui a preocupação de fazer censura estética com a utilização do teatro de Santa Isabel. Tanto espetáculo, teatro, dança, circo, ópera, música, enfim, temos só a preocupação prevista no decreto, como já falei anteriormente, porque é para a pluralidade de público mesmo.

Enquanto a gente recebe um espetáculo que requer mais um público jovem, o público jovem vem. Quando requer mais um público mais maduro, terceira idade, etc., esse público vem. E é importante saber que, quando eles vêm, eles veem um bom espetáculo aqui quer mais um público mais maduro, terceira idade etc., esse público vem.

E é importante saber que, quando eles vêm, eles veem um bom espetáculo aqui e ficam sempre aguardando novas oportunidades para retornar, porque o Teatro Santa Isabel é a casa do povo do Recife, e o povo do Recife é plural. E essa pluralidade também a gente mantém na programação exatamente para atender todos os desejos e necessidades de uma sociedade tão ampla como é a nossa.

 

 

 

 

 

 

 

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Lançamento de livros
Mais dois títulos do teatro pernambucano

grupo gente nossa 1938 foto Acervo Projeto Memórias da Cena Pernambucana

A Pena e a Lei, de Ariano Suassuna – 1984 – Acervo Grupo de Teatro do SESC Caruaru

O teatro pernambucano já se vangloriou de ser o terceiro em produção no país, lá pela segunda metade do século 20. A historiografia teatral brasileira nunca prestou muito atenção em mais esse orgulho nordestino e sempre concentrou no Sudeste –Rio e São Paulo, principalmente – o mérito da trajetória do teatro brasileiro, suas conquistas, modernização, desconstrução. São campos de disputa constantes e os mais fortes (economicamente, politicamente, de articulação) deixaram suas marcas e seus livros. Esse cenário vem mudando nos últimos anos, graças a muitas mãos e muitas vontades.

Um lançamento duplo, que contempla o teatro na capital e no interior de Pernambuco coloca mais duas obras na prateleira dessa biblioteca, que ainda tem muito para contar. O Teatro no Recife da Década de 1930: outros significados à sua história, do jornalista, crítico e pesquisador teatral Leidson Ferraz e Grupo de Teatro do SESC Caruaru – Fazendo e Aprendendo, organizado pelos artistas Severino Florêncio, Moisés Gonçalves, Josinaldo Venâncio e Maylson Ricardo são dois livros que o Selo editorial do SESC Pernambuco, com apoio da CEPE, lança nesta segunda-feira (20 de dezembro de 2021), a partir das 19h, no hall do SESC Santo Amaro, no Recife, com show da cantora Andréia Luiza.

Leidson Ferraz, autor de vários títulos sobre a memória dessa arte em Pernambuco, é uma figura de destaque na recuperação desse caminho. Pesquisador incansável, organizou os quatro volumes da coleção Memórias da Cena Pernambucana. Atualmente é Doutorando em Artes Cênicas na UNIRIO (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro).

A década de 1930, tão repleta de reviravoltas políticas e deslocamentos regionais de poder, sofreu no que se refere as artes cênicas uma desvalorização. O estudo do período foi sua dissertação de mestrado em história na UFPE. Ele mergulhou em arquivos esquecidos para resgatar alguns desses episódios. No livro, Leidson mapeia peças, e atuações de grupos e artistas independentes nos teatros do centro Recife e dos bairros de subúrbio, chamados “arrabaldes”. Explora as características da cena da época, ocupada principalmente por comédias, burletas e operetas.

Trajetórias do Grupo Gente Nossa e do Grêmio Familiar Madalenense (liderado pelos Irmãos Valença), ou de artistas como Samuel Campello, Elpídio Câmara, Barreto Júnior, Lenita Lopes e Valdemar de Oliveira, entre outros, estão no foco da pesquisa. Mas a obra “busca ir além do discurso que ocupa posição dominante no campo historiográfico nacional, sempre a abordar o ‘modo antigo’ de se fazer teatro em suas tão depreciadas contradições”.

Para isso, Ferraz trabalhou com as ideias de campo e capital simbólico do sociólogo Pierre Bourdieu, que iluminam os espaços ocupados, suas hierarquias e lutas internas.

O design do livro é assinado por Claudio Lira e traz imagens raras, de críticos, artistas nacionais e internacionais que estiveram no Recife, como Clara Weiss, Procópio Ferreira, Jayme Costa, Alda Garrido e Dulcina de Moraes, e técnicos daquele período, além de uma descrição pormenorizada do repertório e ficha apresentados por companhias locais e visitantes na década de 1930.

O teatro no interior

Severino Florêncio, Moisés Gonçalves, Josinaldo Venâncio e Maylson Ricardo, atuam na equipe de Cultura do SESC Caruaru e conhecem muito bem os meandros desse grupo, fundado em 1980, pelo ator, diretor e professor teatral Severino Florêncio, com o espetáculo de criação coletiva Fuga de Lampião.

O coletivo se tornou uma escola de formação de artistas e técnicos importante cena teatral em Caruaru e na região. O livro traça um paralelo entre o grupo e o Teatro caruaruense; aponta as montagens exibidas nos dois teatros da cidade (o Rui Limeira Rosal, do SESC, e o João Lyra Filho, da municipalidade); traz as participações em festivais pelo Brasil e reconhecimentos de premiação.

O livro Grupo de Teatro do SESC Caruaru – Fazendo e Aprendendo tem prefácio de José Manoel Sobrinho, diretor teatral e gestor cultural com experiências no SESC e em órgãos públicos da Cultura, que atesta que os autores “amplificam as experiências e vivências da trupe, disseminam parte relevante dos saberes construídos e dão amplitude para as novas gerações entenderem a força e o papel significativo que o teatro teve e tem para uma cidade da dimensão de Caruaru”. O design também é de Claudio Lira,

Cada livro custa R$ 40 (quarenta reais). A coordenação editorial do SESC Pernambuco é do Gerente de Cultural da instituição, Rudimar Constâncio. O selo á publicou 34 livros.
O SESC Santo Amaro fica na Rua Treze de Maio, 455, Santo Amaro.

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Funcultura ignora pandemia soterrado em burocracias*

Inscrição para edital foi feita presencialmente na capital ou por Sedex. Foto: PH Reinaux Secult PE

Artista fez protesto com cartazes. Nas redes sociais, muitos se manifestaram

Visualize o cenário: Pernambuco, 2020, pandemia da Covid-19, crise em muitos âmbitos, inclusive na cultura. A continuidade de um edital público para o setor – mesmo que o resultado seja prometido apenas para o mês de dezembro -, além de obrigação do poder público, é bem-vinda. Mas, para concorrer ao Funcultura Geral 2019-2020, Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura, produtores culturais precisaram imprimir uma via de seus projetos, encaderná-la, rubricar todas as páginas, salvar duas vias em pen drive ou DVD e enviar por Sedex para a Fundarpe (ou, no caso de produtores da Região Metropolitana do Recife, se deslocar até a Rua da Aurora, no bairro da Boa Vista).

“Percebemos a dificuldade dos produtores no estado inteiro, mas no interior isso se agrava pelas distâncias. Por aqui, fizemos a conta: um produtor gasta, em média, R$ 100 para conseguir enviar um só projeto. Para algumas pessoas, isso é muito dispendioso. O que ouvimos na reunião da Ripa (Rede Interiorana de Produtores, Técnicos e Artistas de Pernambuco) é que falta empatia por parte da Fundarpe, principalmente neste momento de pandemia”, entende Caroline Arcoverde, atriz e produtora do grupo Teatro de Retalhos, de Arcoverde, cidade do Sertão pernambucano.

“Falta empatia por parte da Fundarpe, principalmente neste momento de pandemia”
Caroline Arcoverde, atriz e produtora do Teatro de Retalhos e integrante da Ripa (Rede Interiorana de Produtores, Técnicos e Artistas de Pernambuco)

“Este ano, em especial, o Funcultura foi extremamente burocrático. Gastamos algo em torno de R$ 100, R$ 120 para cada projeto, sendo que estamos numa pandemia. Os artistas não têm esse dinheiro para investir. Já vi isso aqui na realidade da cidade – muitos dos produtores não enviaram projeto este ano porque não tiveram condições, não tinham dinheiro para fazer um projeto”, reforça André Vitor Brandão, produtor e bailarino de Petrolina, também no Sertão.

No estado que se orgulha de ter um dos maiores parques tecnológicos do país, os artistas e produtores de cultura precisam lidar com um formulário burocrático e as implicações financeiras da inscrição no edital, quando tudo poderia ser feito pela internet, como um cadastro. “Este é um momento em que todo mundo está sem perspectivas e a gente está precisando do que é direito nosso; esse edital é uma conquista, dinheiro público que precisa ser empregado na cultura, especialmente agora, com tanta gente desempregada, tantos espaços em vias de fechar”, pontua Daniela Travassos, atriz e produtora da Companhia Fiandeiros de Teatro, do Recife.

“Esse edital é uma conquista, dinheiro público que precisa ser empregado na cultura, especialmente agora, com tanta gente desempregada, tantos espaços em vias de fechar”
Daniela Travassos, atriz e produtora da Companhia Fiandeiros de Teatro

O edital publicado no fim de 2019, antes da pandemia, não foi alterado. Mas, diante da situação de crise e de isolamento social, as imposições burocráticas se tornaram insustentáveis e geraram muitos posts de protestos nas redes sociais, de artistas de várias linguagens.

“Há uns dois anos, tínhamos decidido dar um tempo na concorrência ao Funcultura, porque tem sido muito sofrido lidar com tamanhas exigências e limitar as ideias a tantas questões que não tem nada a ver com mérito artístico. E isso se agrava agora. Então, por exemplo, tentaram diminuir o papel, mas aumentaram outras exigências, como o pen drive ou DVD e o tamanho do arquivo. Mesmo que eu entregue um pen drive com um tamanho enorme, meu projeto cada currículo do meu projeto é limitado a ter 2MB e, se ultrapassar isso, simplesmente o projeto é eliminado”, explica a produtora da Fiandeiros.

Para quem nunca precisou preencher um formulário do Funcultura, as reclamações dos artistas podem parecer até prosaicas. Mas a burocracia do edital é uma questão real, que se arrasta há anos, sem avanços, ignorando a realidade para além dos muros da Fundarpe (Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco). “A gente perde um tempo absurdo formatando formulário, tipo de letra, parágrafo, alinhamento, inserção de linhas, tamanho de arquivo. Mas, para mim, o mais grave neste quesito é querer que a gente faça uma planilha de orçamento em Word. Deveria ser, no mínimo, em Excel. Isso facilitaria os cálculos, a incidência dos impostos. Se a gente modifica o valor de uma pequena rubrica, isso interfere no valor total. Então, você tem que ficar o tempo inteiro monitorando esses valores, porque o Word não é uma ferramenta de cálculo”, explica André Filho, diretor e produtor da Fiandeiros.

Leidson Ferraz, jornalista, ator e pesquisador de teatro, fez um protesto presencial, no momento da entrega do formulário na Fundarpe, com cartazes que carregavam dizeres como “Evolua, Funcultura! Cadê a prometida informatização?” ou “BuRRocracia excessiva! Exclusão de muitos”. “Um edital cultural tem que ser o mais simples, o mais fácil possível, para abarcar democraticamente todo mundo. Como imaginar artistas populares, do circo, de tantas manifestações, sendo obrigados a lidar com essa burocracia toda? Isso impõe que as pessoas tenham que contratar produtores que vão ganhar uma parcela do valor, já tão defasado. São imposições injustificáveis, que só fazem excluir uma grande maioria. O que deveria estar sendo julgado era o valor artístico de cada proposta”, avalia Ferraz.

“Um edital cultural tem que ser o mais simples, o mais fácil possível, para abarcar democraticamente todo mundo”
Leidson Ferraz, jornalista, ator e pesquisador de teatro

Os valores do Funcultura também são questionados pelo artista. “O primeiro projeto que eu aprovei, em 2004, na área de publicações em teatro, tinha uma rubrica de R$ 50 mil. Hoje, o valor disponibilizado é R$ 40 mil. Desisti de colocar um projeto em livro, porque com esse valor é impossível fazer uma publicação com a qualidade que eu sempre fiz. O orçamento mais barato que encontrei, com uma gráfica boa, foi R$ 31 mil. Como vou pagar os outros profissionais envolvidos na produção de um livro?”, questiona.

Novo mundo caótico, velho formulário de papel

Como ignorar a realidade de pandemia que se instalou no país a partir de março? Em meio a tudo que tem acontecido no Brasil, os produtores que propuseram projetos de criação, circulação, festivais, mostras, precisaram pedir carta de anuência aos teatros e espaços culturais – ainda que eles estivessem (estejam) fechados. Como pensar a circulação internacional de um espetáculo quando muitos teatros no mundo não estão funcionando e fronteiras de vários países estão fechadas para os brasileiros?

As inscrições para o Funcultura Geral estavam previstas para acontecer de 14 a 30 de abril. Por conta da Covid-19, o prazo foi prorrogado – ficou valendo o período de 20 de julho a 3 de agosto. O edital, no entanto, não abarcou mudanças, mesmo que artistas de linguagens diversas, através das suas comissões setoriais (que formam o Conselho Estadual de Política Cultural) tenham proposto sugestões.

Paula de Renor diz que era preciso vontade política para mudar edital

No dia 8 de junho, a Comissão Setorial de Teatro reuniu cerca de 70 artistas para uma reunião virtual que durou quase quatro horas. A proposta é que o edital focasse em projetos menores. As verbas destinadas à itinerância nacional e internacional de espetáculos seriam remanejadas para outras ações. A rubrica de manutenção de espetáculos, por exemplo, subiria de R$ 60 para R$ 100 mil e a de programação de espaços de R$ 90 para R$ 180 mil, sendo que, nessa última, seriam contemplados até quatro projetos no valor máximo de R$ 45 mil.

O edital não teria exigências como carta de intenção ou anuência para atividades em equipamentos públicos e atividades formativas poderiam ser propostas em formato virtual. “A pandemia aconteceu, não podemos ter um olhar de normalidade para as coisas. Não dá para prever ações como se nada tivesse acontecido”, opina Paula de Renor, atriz, produtora e representante de Teatro e Ópera na Conselho Estadual de Política Cultural.

“A pandemia aconteceu, não podemos ter um olhar de normalidade para as coisas. Não dá para prever ações como se nada tivesse acontecido”,
Paula de Renor, atriz, produtora e representante de Teatro e Ópera na Conselho Estadual de Cultura

A burocracia, no entanto, impediu que o edital fosse alterado. “Para que isso acontecesse, era preciso vontade política, agilidade jurídica, para que encontrássemos uma adequação. Porque o problema é que o governador precisaria cancelar esse editar e fazer um decreto normatizando o outro. E não tínhamos certeza dessa agilidade, não houve empenho para encontrar uma solução jurídica”, explica Paula de Renor.

Na prática, o que pode acontecer é que as execuções dos projetos tenham que ser postergadas, como uma itinerância de espetáculo, por exemplo. O edital já prevê esse adiamento. “O que a gente queria era que esse dinheiro entrasse logo na cadeia da economia criativa, que ajudasse o maior número de artistas e impulsionasse a produção no estado”, finaliza a conselheira.

Promessa de informatização

De acordo com Aline Oliveira, superintendente do Funcultura, o próximo edital, que deve ser lançado em dezembro, deve contar com inscrições pela internet. “Conforme já foi anunciado no Conselho Estadual de Política Cultural, a gestão assumiu um compromisso de implementar as inscrições virtuais até o exercício de 2021 e fará todo o esforço possível para antecipar as inscrições virtuais já para os novos editais do Funcultura”, explica.

A superintendente admite que “estamos atrasados nesse processo”. “Mesmo com um sistema pronto, seria necessária uma estrutura de equipe e de tecnologias que infelizmente o Funcultura não teria condições de manter no momento. Desde 2019, a atual gestão da Fundarpe e do Funcultura têm estudado as ferramentas disponíveis no mercado para resolução do problema. Antes de decretar-se o estado de emergência em Pernambuco, em função da Pandemia da Covid-19, estavam sendo realizadas tratativas para contratação de serviços com o objetivo de modernizar o Funcultura. Entretanto, os decretos de contingenciamento e a próprio isolamento social dificultaram o avanço dos debates”, complementa.

ERRATA*
Matéria atualizada no dia 31 de agosto, às 11h24. Na fala de Daniela Travassos, onde constava “Mesmo que eu entregue um pen drive com um tamanho enorme, meu projeto é limitado a ter 2MB (…)”, a sentença correta é “Mesmo que eu entregue um pen drive com um tamanho enorme, cada currículo do meu projeto é limitado a ter 2MB (…)”. Pelo erro, o Satisfeita, Yolanda? pede desculpas aos leitores.

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