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Teatro feito na guerrilha
23º FETED

Metamorfose. Foto: Divulgação

Tocando em frente, espetáculo de Sorocaba

Vidas: Não somos passado

A quem interessa um festival de teatro estudantil? À primeira vista, a resposta parece óbvia: aos estudantes que sobem ao palco. Mas o 23º Festival Estudantil de Teatro e Dança (FETED) sugere uma resposta mais generosa. Interessa a quem acredita que o palco também é sala de aula. Interessa à plateia que descobre, numa quarta-feira à noite, o prazer de ver um palco profissional ocupado por talentos em início de carreira. E interessa, sobretudo, a quem sabe que alguns dos grandes nomes do teatro brasileiro começaram exatamente assim: num festival de estudantes.

Desde 2003, o produtor Pedro Portugal realiza o FETED ano após ano, desafiando uma realidade que deveria envergonhar qualquer política cultural: a de não conseguir aprovação nos editais disponíveis nem contar com incentivos diretos, públicos ou privados. Pouco antes da abertura desta edição, ele confessou que inicia o festival sem um centavo de patrocínio. A única interrupção em mais de duas décadas foi em 2020, forçada pela pandemia. O resto foi teimosia, amor ao ofício e o que o próprio meio chama de guerrilha cultural. É nessa guerrilha que o festival segue vivo, contando, nesta edição, com o apoio logístico da Fundação de Cultura e da Secretaria de Cultura da Prefeitura do Recife e do Centro de Formação e Pesquisa das Artes Cênicas Apolo-Hermilo – apoio que, pelo menos até a abertura do festival, não se traduz em recursos financeiros diretos.

Do palco escolar ao palco profissional

Entre 5 e 16 de agosto, sempre de quarta-feira a domingo, o Teatro Apolo recebe dez espetáculos de teatro: dois voltados para as infâncias e oito para adultos. A grade chegou a prever 11, mas uma montagem desistiu por problemas. Participam grupos de escolas públicas e particulares, coletivos independentes, ONGs e universidades, vindos do Recife, de Olinda, de Ipojuca, de Jaboatão dos Guararapes e de Sorocaba, em São Paulo. De crianças à terceira idade, o FETED é um retrato demográfico e social do fazer teatral de base.

Muitos desses estudantes já conhecem o palco – o da escola, o da sala de aula, o do pátio. O que o festival oferece é outra coisa: a chance de subir, pela primeira vez, a um palco profissional, com luz, som, cenário e uma plateia mais diversificada. É esse salto, do espaço escolar para a exibição pública num palco profissional, que transforma a experiência em algo que nenhuma aula consegue reproduzir.

Os ingressos custam R$ 25 (preço único promocional), à venda no Sympla e no próprio local – e há um detalhe que diz muito sobre a proposta: 70% do valor é revertido para cada grupo participante. Ou seja, quem compra o ingresso financia diretamente a produção de quem está estreando ao assiste a um espetáculo. Nesta edição, o festival volta em caráter competitivo, e homenageia dois nomes de longa carreira no campo cultural: a educadora, diretora e atriz Izabel Concessa e o ator, diretor, educador e produtor Antônio Rodrigues.

Comissão de premiação

Para eleger os destaques, o FETED convidou dois profissionais de longa trajetória. Ivana Moura é artista-pesquisadora, jornalista, dramaturga e crítica das artes vivas, doutora em artes cênicas pela USP. Idealizadora da plataforma Satisfeita, Yolanda?, foi editora e repórter do Diario de Pernambuco e integra a seção brasileira da IATC/AICT, a Associação Internacional de Críticos de Teatro. Rudimar Constâncio é historiador, pesquisador, professor e arte/educador, além de ator e diretor teatral. Pós-doutor em Educação pela UFPE, foi gerente de Cultura do Sesc/PE e curador nacional do Festival Palco Giratório, e publicou livros sobre circo social e teatro de cultura popular no Recife.

No dia 16, uma festa encerra a programação com a entrega dos troféus aos vencedores.

O festival que revela gigantes

Não é exagero dizer que festivais amadores e estudantis mudaram a história do teatro brasileiro. E o exemplo mais célebre vem de Pernambuco. Em 1946, Ariano Suassuna, recém-ingresso na Faculdade de Direito do Recife, reformulou, ao lado de Hermilo Borba Filho e Aluísio Magalhães, o Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP), grupo criado em 1940 por estudantes de Direito e que ganharia consistência artística sob a direção de Hermilo. Foi num concurso do próprio TEP que Ariano estreou como dramaturgo, em 1947, vencendo com Uma Mulher Vestida de Sol. Dez anos depois, a consagração nacional viria por outro caminho estudantil: o Teatro Adolescente do Recife levou O Auto da Compadecida ao I Festival de Amadores Nacionais, realizado em fevereiro de 1957, no Rio de Janeiro. A montagem pernambucana arrebatou os principais prêmios: medalhas de ouro de melhor espetáculo, melhor diretor (Clênio Wanderley) e melhor atriz (Ilva Niño). Um festival de estudantes, portanto, revelou ao Brasil um de seus maiores dramaturgos.

O FETED não promete um novo Suassuna a cada edição, mas aposta exatamente nessa possibilidade; a de revelar dramaturgos, atrizes, atores, diretores e outros futuros profissionais do teatro e é isso que o torna um espaço único de formação.

Na guerrilha, mas de pé

Que um festival desse porte sobreviva sem patrocínio e sem edital aprovado é, ao mesmo tempo, um feito e um sintoma. Feito, porque exige de Pedro Portugal e de todos os envolvidos uma energia que nenhuma planilha governamental consegue medir. Sintoma, porque revela o descaso com um dos espaços mais democráticos de formação artística do país. Enquanto isso, o FETED segue fazendo o que sabe fazer de melhor: abrir o palco, baixar o preço, dividir a renda com quem está começando e deixar a plateia sair do Teatro Apolo com a certeza de que o teatro brasileiro tem futuro; porque, Brasil adentro, festivais como este seguem de pé, muitos na mesma guerrilha, sem patrocínio, movidos apenas pela convicção de que o palco pertence também a quem está chegando.

Serviço

23º Festival Estudantil de Teatro e Dança (FETED),
de 5 a 16 de agosto,
Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife).
Ingressos: R$ 25, à venda no Sympla e no local.

Lampião e Maria Bonita no Reino Divino

Beijo da Princesa

Programação

Cazuza – Vida Breve (ETE – Prof. Alfredo Freyre – Olinda).
Texto Walmir Ribas, Direção Sergio Barbosa.
Quarta-feira, dia 05, às 19h.

Lampião e Maria Bonita no Reino Divino (Cia de Teatro Novos Talentos – Recife).
Texto: Annamaria Dias. Direção: Suzana Costa e Marcelo Maracá.
Quinta-feira, dia 06, às 19h.

Olinda Seus Cantos, Recantos e Caminhos (Colégio São Bento de Olinda – Olinda).
Texto: Criação coletiva. Direção: Sérgio Barbosa.
Sexta-feira, dia 07, às 19h.

Vivas: Não Somos Passado (Erem – José Mário Alves da Silva – Clube de Teatro Mimesis – Ipojuca).
Texto e Direção: Laryssa Carvalho.
Sábado, dia 08, às 18h

Cravo, Não Briga Com Rosa (Colmeia das Artes – Recife).
Texto e Direção: Miro Ribeiro,
Domingo, dia 09, às 16h.

Metamorfoses (Universidade Federal de Pernambuco – Recife).
Criação coletiva. Direção: Marina Lino. Direção: Marina Lino e Malu Oliveira
Domingo, dia 09, às 20h.

Tocando em Frente (Associação Cultural Fazendo Arte – Sorocaba – SP).
Texto e Direção: Junior Mosko.
Quarta-feira, dia 12, às 19h.

O Orbe (Escola Municipal de Arte João Pernambuco – Recife).
Texto: Lucas Barreto e Direção: João Pedro Pinheiro.
Quinta-feira, dia 13, às 19h.

O Beijo da Princesa (EREM – Edson Moury Fernandes – Recife).
Texto e Direção: Julio Botelho.
Sábado, dia 15, às 16h.

O Brasil Que Trabalha (Os Caras de Pau – Recife).
Texto e Direção: Benedito Serafim.
Sábado, dia 15, às 20h.

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Cena Expandida em Pernambuco
Uma ação articulada com cinco festivais

Participam os festivais Transborda, do Sesc-PE; FETEAG de Fábio Pascoal, Reside de Paula de Renor, Feted de Pedro Portugal e Cena Cumplicidades, de Arnaldo Siqueira, que juntam projetos com perfis diferentes para potencializar os cinco programas. Foto: Divulgação

A força de cinco festivais de artes cênicas de Pernambuco forma uma constelação. Cena Expandida é articulação inédita que junta o Cena Cumplicidades – Festival Internacional de Artes da Cena, o Festival de Teatro do Agreste (Feteag), o Festival Estudantil de Teatro e Dança (Feted), o Reside – Festival Internacional de Teatro de PE e o Transborda – As linguagens da cena para movimentar os palcos do Recife e Caruaru no mês de setembro. A programação ocorre entre os dias 8 e 30 de setembro, com mais de 60 atividades, como exibições artísticas e de formação.

O objetivo é vivo e urgente: fortalecer o circuito das artes cênicas, chamar a atenção do público e contribuir para a formação de novas plateias e pressionar o poder publico para os reajustes de políticas públicas para a área.

Essa primeira edição da Cena Expandida chega como um projeto piloto, mas que mantém as características individuais dos participantes, suas programações e recortes curatoriais independentes. Os cinco firmaram uma cooperação em torno de um calendário para o mês de setembro.

O projeto é ambicioso e pretende nos próximos anos oferecer um cardápio de atrações que reforce o Recife e outras cidades participantes como destinos para a fruição cultural. “O movimento para criar um circuito que trace um diálogo entre as programações desses festivais começou em 2018”, conta a atriz e produtora Paula de Renor, do Reside.

Os impactos da pandemia e os desinvestimentos por parte do governo federal para a cultura, para ser mais exata, todos os cortes para a área criaram dificuldades que esses produtores buscam encarar coletivamente. Arnaldo Siqueira, do Cena Cumplicidades avalia que o “cenário de crise se instaurou em 2019 e que piorou a partir de 2020”. Foi um destampar de mazelas com a demonização da produção cultural.

Muito trabalho para reverter esse quadro e o compartilhamento de expertises, a reconstrução das redes são trunfos dessa turma para fortalecer a cena e atrair novos públicos nesse retorno à presencialidade.  

O negócio é unir forças desses festivais pernambucanos já consolidados e reconhecidos nacionalmente, destacou o produtor Fabio Pascoal, do Feteag na coletiva de imprensa virtual realizada nesta quarta-feira (31/08). Pedro Portugal, do Feted, aposta que o diálogo é enriquecedor e que esse corredor de festivais em fluxo deve contribuir para o desenvolvimento da cadeia cultural. Ele mesmo transferiu seu festival de agosto para setembro por reconhecer a importância da iniciativa.

Os integrantes da ação reforçam que a Cena Expandida não é um festival, mas sim um calendário que ocupa o mês de setembro e une cinco iniciativas já consolidadas. A programação tem início no dia 8 de setembro, com atividades do Feted – Festival Estudantil de Teatro e Dança e do Transborda – as linguagens da cena. As peças artísticas do Cena Cumplicidades iniciam no dia 10. O Feteag exibe os trabalhos a partir do dia 20, e o Reside, a partir de 22.

As atrações vão ocupara vários espaços da cidade do Recife, como a unidade do Sesc em Santo Amaro, os teatros do Parque, de Santa Isabel, Hermilo Borba Filho, Apolo, Luiz Mendonça, Barreto Júnior, Muafro, Centro de Educação e Cultura Daruê Malungo, praças e parques.

Além do investimento e articulação do Cena Cumplicidades, Feteag, Feted, Reside e do Transborda, a Cena Expandida conta com apoio da Prefeitura do Recife, através da Secretaria de Cultura e da Fundação de Cultura da Cidade do Recife.

SERVIÇO

Cena Expandida – de 8 a 30 de setembro (@cenaexpandidarec)

Feted – 8 a 18 de setembro (@feted.pe)

Transborda – 8 a 18 de setembro (@sescpe e sescpe.org.br)

Cena Cumplicidades – 10 a 30 de setembro (@ccumplicidades e cenacumplicidades.com.br)

Feteag – 20 a 30 de setembro (@feteag e feteag.com.br)

Reside – 22 a 28 de setembro (@residefestivalbr e residefestival.com.br)

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