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Quando a dúvida é maior do que a certeza

O canto de Gregório está em temporada no Marco Camarotti. Fotos: Ivana Moura

GREGÓRIO — Pensar me coloca acima das emoções. O pensamento voa alto e lá de cima avista, em seus labirintos, as emoções rasteiras. Mas do seu próprio céu o pensamento não escapa — e outros labirintos muito mais devastadores o envolvem. Para a alma, pensar é definitivamente mais doloroso do que sentir — a dor sem saída provocada por um paradoxo é eterna. As emoções? Para o saudoso, a lembrança alivia. Para o perdido, uma palavra consola. O desesperado — de que mais ele precisa senão de fé? Mas a ninguém, em nenhum tempo, em nenhum lugar, é permitido escapar da dor de um paradoxo. Para ninguém tirar conclusões precipitadas, deixo claro: eu sou um ser humano, eu não sou uma máquina. Porém, quando choro — ouçam bem isto — quando eu choro, minhas lágrimas não me comovem. Para meu assombro, até comovem certos corações. Corações sensíveis, sem dúvida, mas, espantado, me pergunto: sensíveis exatamente a quê? Enquanto minhas lágrimas correm, vejo à minha frente um doce olhar de enternecimento. Minhas lágrimas correm, e provocam nesse coração uma grande ternura. Enquanto isso, meu Deus, eu mesmo não entendo por que choro. Acontece que, enquanto choro, não consigo deixar de pensar. E o pensamento me faz uma dura acusação: choro para obter piedade. Isso me revolta, isso me repugna. Então tento resgatar dentro de mim aquilo que me impulsionou o pranto e, aterrado, não encontro nada. Terei, digamos, me arrependido de alguma coisa? Quem responde é o meu intelecto: arrependimento, Gregório, era o que você queria representar com suas lágrimas. A dúvida me paralisa: chorei porque estava arrependido ou porque precisava parecer arrependido? Não, não é que eu estivesse fingindo de propósito. Mas minha mente talvez entendesse que era necessário eu parecer arrependido — e de uma forma tão intensa que nem eu mesmo desconfiasse de que meu choro servia ao engano. Mas há um coração a se compadecer diante de mim, certo de meu arrependimento sincero, enquanto eu, numa estranha porém vigorosa iluminação, tudo o que consigo é me dizer: quero que meu arrependimento seja sincero, tudo o que quero neste instante de minha vida é ser absolutamente sincero neste arrependimento — mas não sei se sou nem sei se não sou sincero. É a dúvida que me atinge: se me vejo como sincero — sou de fato sincero ou quero apenas fazer com que eu acredite que tudo o que quero é ser sincero? Eis aqui um Ser Humano como eu, e eis aqui o Intelecto desse Ser Humano. (Aponta as duas personagens.) Como um Ser Humano pode ser açoitado pelo seu Intelecto?”

Pedro Wagner é o protagonista

O canto de Gregório, do grupo Magiluth
Direção: Pedro Vilela
Dramaturgia: Paulo Santoro
Elenco: Pedro Wagner, Giordano Castro, Erivaldo Oliveira e Lucas Torres
Direção de arte: Renata Gamelo, Cecília Pessoa, Guilherme Luigi
Sonoplastia: Hugo Souza
Produção: Grupo Magiluth

Confira a crítica feita por Ivana Moura na época da primeira temporada do espetáculo, no Teatro Hermilo Borba Filho.

Serviço:
Onde: Teatro Marco Camarotti (Sesc Santo Amaro)
Quando: sábados e domingos, às 18h
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia) – doando um quilo de alimento não perecível, o ingressos sai pelo valor da meia-entrada
Capacidade: 50 pessoas

Sócrates, Platão, Jesus Cristo e Buda participam da discussão

E um vídeo de divulgação na época da estreia:

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Esse sujeito em crise pensa demais

O canto de Gregório. Montagem do Magiluth, do Recife

Gregório percorre um labirinto de indagações sem fim. E nessas ruminações, sobrepõe mitos da religião e da filosofia. Esse sujeito em crise pensa demais.

O canto de Gregório é o texto de estreia de Paulo Santoro. Foi montado por Antunes Filho em 2004 e ficou em cartaz até mais ou menos 2006, na sala de ensaios do CPT, em São Paulo.

Foi lá que o diretor Paulo (Pedro!!! Vivemos querendo rebatizar esses Magiluthianos!) Vilela conheceu o texto. E sua montagem da companhia Magiluth busca um caminho bastante diferente do que foi traçado por Antunes.

O Magiluth criou uma caixa branca montada no Teatro Hermilo Borba Filho, onde atores e plateia ficam a centímetros de distância, e dentro da cena, como no caso do julgamento em que alguns espectadores fazem parte do júri.

Em cena estão os quatro atores: Pedro Wagner, Giordano Castro, Erivaldo Oliveira, Lucas Torres. Pedro Wagner interpreta Gregório. Os outros três se desdobram em vários papéis. Jesus, Buda, Sócrates, o Juiz, mordomo, júri. Gregório veste uma roupa escura e os outros usam macacões e sapatos brancos.

Também são brancos os banquinhos em que o público se senta, cerca de 50. E as cadeiras e mais banquinhos que servem de equipamento de cena.

O texto tenta ser complexo. Em sua solidão, o protagonista se agita por não ser um homem bom. Mas se depara, depois de inúmeras equações de que “a bondade é logicamente impossível”. Esse resultado vem de uma série de pensamentos que coloca a questão da bondade numa posição inatingível. Ele joga em nossa cara que se realmente fôssemos verdadeiramente generosos e corretos, nem precisaríamos pensar nisso.

Já deu pra perceber que o branco predomina

Dar uma esmola é uma ação de generosidade, fraternidade ou uma pressão social somada a nossa culpa pela desigualdade? Perguntas e mais perguntas. É como raciocina Gregório. E trava embate com muitos personagens. Eles necessariamente não são reais. Podem ser projeção na/ ou /da própria cabeça do protagonista.

Mas não são personagens quaisquer. São mitos que norteiam as questões éticas e morais do nosso mundo ocidental. A discussão é boa. Em alguns momentos parece um bom jogo de tênis. Lá e cá. Gregório tira a plateia da superfície cotidiana e conduz para a reflexão. Ele puxa o público para esse estado vertiginoso de dúvidas. Perguntas e mais perguntas.

A montagem do Magiluth multiplica o personagem Sócrates, em um dois três, quatro… como é possível?! É um bom jogo. Jesus aparece. Mas ele não vai oferecer a salvação. Nem mesmo desse palavrório interminável. Ele compartilha das angústias de Gregório e joga a bola para o público.

Mas Gregório cometeu um crime e vai ser julgado. Disparo. Black out. E chega a polícia. Uma solução inteligente e bem humorada do grupo. Ele é questionado. A solenidade do tribunal cede lugar à irreverência nesta montagem.

A cada pergunta, o protagonista responde com outra pergunta. Gregório tenta se defender. “Por favor, Senhor Juiz, eu não estou me furtando a nenhuma resposta. Gostaria mesmo de saber se sou ou não culpado pelo ato que cometi. O que sei é que havia um revólver carregado em minhas mãos, que esse revólver foi disparado por um movimento de meu dedo indicador, e que um projétil, motivado por esse movimento, saiu da arma com direção ao peito de um cidadão, que, em seguida, foi atingido e faleceu. Isso é de conhecimento de todos.”

Nesse percurso existencialista, o texto traça conexões com Franz Kafka (O Processo) e Albert Camus (O Estrangeiro).

Nesse território de ideias, a montagem dirigida por Pedro Vilela faz dessa vivência kafkiana uma ode ao pensamento, ao questionamento de todas as coisas, com pitadas de humor. E remete para os caminhos contemporâneos para se chegar à reflexão, servido em doses sequenciais pelo mordomo.

O elenco se entrega a essa alucinação existencial desse homem. E fica para o espectador a função de decidir se tudo aquilo não faz parte do imaginário de Gregório, inclusive seu próprio crime.

Para quem gosta de adjetivos. Um ótimo espetáculo, com uma pulsação contemporânea e uma sacanagem, como marca estilística do grupo.

Resquícios de um carnaval

O CANTO DE GREGÓRIO
De: Paulo Santoro
Direção: Pedro Vilela
Elenco: Pedro Wagner (no papel de Gregório), Giordano Castro, Erivaldo Oliveira e Lucas Torres.
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho (Bairro do Recife)
Quando: Sextas e sábados, às 20h, e domingos, às 19h, só até 1º de maio
Quanto: R$ 16 e R$ 8 (meia)

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Imagens de O canto de Gregório

O espetáculo O Canto de Gregório, com o Grupo Magiluth, estreou ontem no Teatro Hermilo Borba Filho. O texto é de Paulo Santoro e a direção de Paulo (Pedro!!!!) Vilela. Participam do elenco Pedro Wagner (no papel de Gregório), Giordano Castro, Erivaldo Oliveira e Lucas Torres.

O personagem Gregório é um homem atormentado pela razão. E ele percorre um labirinto de indagações sem fim. São tentativas para entender. O mundo e a si mesmo. Fluxos e contrafluxos de questionamentos.

Mas a versão magiluthiana de Gregório é mais leve, mais clara e diria até mais debochada do a que eu consegui apreender da montagem de Antunes Filho, anos atrás. Essa sim, densa, escura, praticamente um beco sem saída.

Mas nosso Gregório também dialoga com Buda, Jesus e Sócrates…
O nosso Gregório também apertou o gatilho… Ele é culpado???

Gregório é questionado, acusado, acuado. Em Cena: Erivaldo Oliveira e Pedro Wagner. Fotos: Ivana Moura

Gregório segura a arma do crime

Lucas Torres e Pedro Wagner

Giordano Castro no papel de jurado

Atores Lucas Torres e Erivaldo Oliveira. Fábio Caio na plateia

Embate de ideias e de gestos

O Buda esá nu

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Você é bom?

O canto de Gregório, nova empreitada do Magiluth

O grupo pernambucano Magiluth estreia hoje um espetáculo que define como “uma metralhadora racional”. Depois de 1 Torto, espetáculo que tinha um personagem sensitivo, intuitivo, emotivo, O canto de Gregório traz um homem que vai em busca de respostas. Quer saber, prioritariamente, o que é a bondade. Trilhando esse caminho, encontra com personagens como Jesus Cristo, Buda, Sócrates.

O texto é do paulista Paulo Santoro e já foi encenado pelo CPT, sob direção de Antunes Filho, em 2004. A Yolandinha Ivana Moura me disse que tanto a encenação quanto o texto eram ótimos.

Ao que parece, os meninos do Magiluth optaram por uma encenação “limpa”. Tão limpa que queriam uma “caixa branca” para fazer a encenação, pronta desde janeiro. Fizeram uma peregrinação por vários teatros e espaços da cidade, inclusive algumas galerias de arte, quando finalmente veio a confirmação de que apresentariam no Teatro Hermilo Borba Filho. A direção é de Pedro Vilela e no elenco estão Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres e Pedro Wagner.

Serviço:

O canto de Gregório, do grupo Magiluth
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho (Bairro do Recife)
Quando: estreia hoje e fica em cartaz sextas e sábados, às 20h, e domingos, às 19h, só até 01 de maio
Quanto: R$ 16 e R$ 8 (meia)

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