Júnior Sampaio em O Churrasco. Foto: João Guilherme de Paula
O ator Júnior Sampaio entra em cena visivelmente nervoso e reforça esse palpite com a confissão de que está preocupado com o fenômeno teatral daquela noite. Pede a um espectador para segurar sua garrafinha d’água, a outro para acompanhar o texto e servir de ponto (caso ele erre alguma parte) e ao terceiro para guardar uma banana prata que ele trouxe para comer depois da sessão, já que é uma fruta com muito potássio. Já envolveu e tornou cúmplice a plateia com esse procedimento, que foi milimetricamente estudado.
Inteligente e esperto esse salgueirense radicado em Portugal. Na peça O Churrasco, ele interpreta um insólito churrasqueiro que diz que seu destino é aguardar a chegada da carne para matar a fome da humanidade. Mas a figura não leva em consideração os vegetarianos.
O espetáculo foi apresentado nos dias 13 e 14 deste mês, no Teatro Marco Camarotti (SESC Santo Amaro), no Recife, e faz mais uma sessão nesta sexta-feira em Caruaru, no Teatro Rui Limeira Rosal (SESC Caruaru), dentro do 23ª edição do Janeiro de Grandes Espetáculos.
Pretensioso esse personagem, que oscila entra a arrogância e a modéstia. E que projeta no mundo variações do seu próprio umbigo. Mas será que não somos feitos dessa matéria? Só nos conectamos e reconhecemos frações de nós mesmos? Assunto para matutar. Desejamos nos relacionar de forma plena com o outro? O teatro pode ser um bom lugar dessa dessa troca subjetiva.
As “almas sentadas” acompanham o embate do Churrasqueiro com seu Encosto. A peleja é entre Auxivites, que garante que é um ser humano mesmo com o nome que carrega, e o Encosto, que nasceu em 20 de abril de 1889. “Vocês já sabem quem é este Encosto? Sabem ou não sabem? Se não sabe, estudem!”, provoca o personagem.
Com o palco limpo, apenas um tapete no chão e poucos objetos, as mudanças de clima são pontuadas pela luz, que também materializa a fogueira. O ator está vestido de uma bermuda e uma camiseta de marca, uma marca que grita em algum momento dentro desse discurso crítico.
Enquanto aguarda o carga de carne que encomendou, o Churrasqueiro discorre sobre variados assuntos. De sua origem de filho do cornudo com a vaca. “O meu pai, o cornudo, morreu queimado, deve ser isso que resolvi ser churrasqueiro”. Passando por reflexões sobre democracia, capitalismo, pobreza, opinião alheia, direito de ter filho.
Mas também define o Encosto: “Eu penso que nenhuma criatura neste mundo tem o direito de fazer o que tu fizeste. Deve ser por isso que tu não consegues reencarnar. Alma penada! Eu sei que todos merecem o perdão, mas eu não sou Cristo, apesar de ter dito que era, sou apenas um cristão discreto”.
O tom é de deboche, há ironias estendidas nas frases e intenções. Nada é demasiadamente denso. Mas instiga o espectador a explorar, e se deixar abalar das convicções arraigadas.
As balizas “cristãs” do que se entende por carne versus espírito avançam por caminhos que remetem para o mundo real ameaçado pela cobiça e pela concentração de riquezas nas mãos de poucos. Uma criatura pode num acesso de fúria fazer voar o nosso belo planeta, expõem as manchetes dos jornais do mundo inteiro, de forma velada ou nem tanto. “Que todas as fúrias do céu caiam sobre a raça dos poderosos! Que rolem as cabeças dos ditadores e dos delatores diante dos meus pés”, pontua Auxivites a certa altura.
Cena despojada da montagem do português de Salgueiro. Foto: CMV / Divulgação
Em O Churrasco, a literatura dramática atua como principal elemento organizador da encenação. Mas a alocução construída clama por ser chocalhada pelos possíveis coautores da escritura teatral, o público. O autor/ intérprete convoca a plateia a produzir significações e exercer sua liberdade para não aceitar os sentidos unívocos captados à primeira camada.
A arte de Júnior Sampaio trabalha com pequenos mecanismos contra a alienação. Sua dramaturgia formada por três dezenas de peças não descarta o divertimento, nem a ludicidade, mas persegue o essencial de uma apreciação do mundo e da crítica ao humano.
As frases de efeito do texto, as alusões a conceitos de pecado e perdão funcionam como trampolim para outras transgressões. Com sotaque português e alma que eletriza, Sampaio ficcionaliza suas demandas artísticas para tratar da vida.
O ator fisga em pequenos gestos, detalhes, coreografias corporais a sua fome de palco. E dispara em palavras as urgências políticas para nos assustar com o contemporâneo. “Todos nós temos uma ambiguidade”, vomita lá o Churrasqueiro. Para depois considerar: “Nem todo ser humano é humano”. Temo chegar a concordar com essa conclusão do filho da vaca com o cornudo. Enquanto aprecio o sobrevoo que esse intérprete cativante faz sobre os aspectos da prática da cena contemporânea na companhia de figuras como Samuel Beckett e Eugène Ionesco.
FICHA TÉCNICA Texto, músicas, encenação e vivência cênica: Júnior Sampaio Supervisão cênica, cenografia e pintura cenográfica:Leonardo Brício Desenho de luz:Leonardo Brício e Júnior Sampaio Técnicos de luz:Luciana Raposo e João Guilherme de Paula
SERVIÇO O Churrasco – ENTREtanto TEATRO (Valongo/Portugal) Onde: Teatro Rui Limeira Rosal (SESC Caruaru) Quando: Dia 20 de janeiro de 2017 (sexta-feira), às 20h Quanto: R$: 10,00 (Inteira) e 5,00 (Meia) Classificação etária: a partir dos 12 anos Duração:50 min. Classificação etária:a partir dos 12 anos
Recital do Teatro Comuna. Foto Pedro Portugal / Divulgação
Em princípio, Homenagem a João Villaretinspirou desconfiança desde o título, pelo tom laudatório. Quem é essa criatura a merecer tão honrosos agraciamentos, mais de 50 anos após sua morte? E ainda mais sendo um artista da cena…
O Brasil é um país de pouca memória, mas os portugueses parecem perceber a importância de cultuar os seus grandes. Pelo menos é o que faz o da Comuna – Teatro de Pesquisa, de Lisboa. Mas outra cisma ficou instalada a partir da fotografia do espetáculo. Dois atores sentados em banquinhos com estantes de partituras à frente, e um músico no meio, com um cartaz do celebrado por trás.
Aos poucos a apreensão cede lugar a um envolvimento afetivo com o personagem da reverência. É um recital poético clássico, sem aparatos tecnológicos ou pirotecnia.
Em primeiro plano está a história desse ator, diretor e declamador português João Villaret (1913-1961). Histórias para quem gosta de saber de gente, exposta de forma praticamente cronológica pelos atores / cantores Carlos Paulo, Tânia Alves e o músico Hugo Franco.
A poesia das palavras, das entonações carregadas de sotaque português criam redes de afetos para confraternizar com o público. Esse visionário que queria ser bailarino quando criança, se entregou ao teatro e à poesia com força e dedicação. Ator que valorizava a palavra criou até um gênero, o fado falado.
Alternando episódios, canções e até uma gravação da voz do próprio Villaret, somos contagiados pela paixão desse criador irônico, bem-humorado, irreverente, que usava as armas da palavra para combater o fascismo, que aproveitou a chegada da televisão para divulgar a poesia. Na final da década de 1950, ele conduzia um programa semanal, acompanhado pelo pianista Carlos Mayer, seu irmão.
Como talvez soubesse que a vida é curta (ele morreu aos 47 anos) ele empreendeu muitas turnês teatrais, inclusive pelo Brasil, com suas revistas de críticas políticas e sociais.
Sua dicção permitiu que ele fosse sempre aplaudido ao declamar Fernando Pessoa, o que passou até a ser imitado. Ele sugeriu que cada um encontrasse sua própria emoção para expressar os sentimentos dos poetas.
E é justamente ao contar o episódio do encontro de Villaret com Fernando Pessoa que os intérpretes transportam a plateia para Lisboa. Eles falam, o músico toca e nós viajamos no tempo. E saímos do teatro com a alma amaciada.
FICHA TÉCNICA Concepção: Carlos Paulo Interpretação: Carlos Paulo e Tânia Alves Músico: Hugo Franco Direção técnica: Hugo Franco Técnico de montagem: João Monteiro Gabinete de produção Comuna: Rosário Silva e Carlos Bernardo Produção executiva da itinerância: Andrêzza Alves e Rosário Silva Produção local Recife: Companhia Circo Godot de Teatro
SERVIÇO Homenagem a João Villaret, dentro do 23º Janeiro de Grandes Espetáculos Onde: Teatro Hermilo Borba Filho Quando: Dias 17 e 18 de janeiro de 2017 (terça e quarta-feira), às 20h Quanto: R$: 30,00 (Inteira) e 15,00 (Meia) Classificação etária: a partir dos 12 anos Duração: 50 min.
Cabaré da Humanidade. Fotos: Wellington Dantas/Divulgação
Nos últimos anos, os musicais brasileiros – franqueadas ou versionados (Hello Gershwin (1991), As Malvadas (1997), Os Produtores (2008), Cabaret (2011), O homem De La Mancha (2013), Chaplin – O musical (2015), dentre muitos outros); biográficos (Tim Maia, Cassia Eller, Wilson Simonal, Rita Lee, Chacrinha, Cazuza, Luiz Gonzaga e Elis Regina) – viraram fenômenos de bilheteria. O público se identifica com o gênero que mistura dança, canto, música e interpretação. Que utiliza poderosos efeitos visuais, figurinos e cenário e em alguns casos até efeitos especiais. Criatividade ajustada com tecnologia para emocionar plateias, desde temáticas infantis como a Bela e a Fera e O Mágico de Oz; passando por questões políticas como Hair; até peculiaridades como O violinista no telhado ou Cats.
Um boom ocorrido no início do século 21 mostra que esse exemplar da indústria cultural movimenta fábulas de dinheiro e incentivou na consolidação de mão de obra qualificada.
Desde As surpresas do Sr. José da Piedade, de Justino de Figueiredo Novais, em 1859, a trajetória do Teatro de Revista passou por várias fases. Foi olhado de viés, como uma manifestação menor – burletas, comédias musicais e revistas, mas ganhou o público. Depois de um recuo na década de 1970, veio a retomada com montagens como Elas por Ela, com Marília Pêra, de 1989, seguida de crescente profissionalização.
Existem pesquisas sobre o assunto como Breve história do Teatro Musical no Brasil, e compilação de seus títulos (https://www.revistas.ufg.br/musica/article/view/42982/21533), o livro da pesquisadora Neyde Veneziano O Teatro de Revista no Brasil: Dramaturgia e Convenções (Sesi – SP Editora), entre outras coisas.
Mas essas citações são para pensar sobre a montagem Cabaré da Humanidade, produção da Niño de Artes Luiz Mendonça, do Rio de Janeiro). A peça foi apresentada no Teatro Luiz Mendonça (Parque Dona Lindu), nos dias 13 e 14 de janeiro e faz mais uma sessão nesta quarta-feira no braço da programação de Caruaru, no Teatro Rui Limeira Rosal (SESC Caruaru), dentro do 23ª edição do Janeiro de Grandes Espetáculos.
Com texto de Luiz Carlos Niño (1965-2005), músicas de Luiz Carlos Niño e Núbia Moreira e direção de Ilva Niño e Josué Soares, a peça tenta dar conta do trajeto das criaturas de Deus, como diz o título, a partir de pequenos esquetes. A “comédia musical resgata a estrutura do teatro de revista” para criticar, de forma bem-humorada, a sociedade atual, divulga a produção.
O musical não utiliza escadarias, plumas e paetês em abundância, muitas luzes. A aparência de luxo e de sensualidade ficam bem distantes da encenação.
Com um palco limpo, apenas o nome cabaré ao fundo, que remete para uma “boate” decadente ou para as produções politicamente pobres da década de 1970, vemos um quadro atrás do outro, em que Deus mulher peleja com Lúcifer sobre a criação, ou a dona do Cabaré Madame Satã, famoso inferninho da Lapa, rememora os passos dos humanos e suas risíveis ambições e ganâncias.
Pequenas cenas ou imagens-clichês aludem as mudanças do matriarcado para o patriarcado, Revolução Industrial, ascensão da burguesia e o proletariado, guerras mundiais, cinema. A enorme boca de cena do Teatro Luiz Mendonça ainda retarda o ritmo das passagens de quadro, pouco ágeis.
Cena do concurso de miss mundo. Fotos: Wellington Dantas/Divulgação
Os elementos da montagem são todos precários. Os figurinos são estereotipados e o próprio elenco satiriza disso. A luz é problemática, a gravação do som traz as marcas do século passado. As atuações se revezam com as danças. Há falas irônicas, duplo sentido, um pouco de escracho, mas não muito. Há inclusive uma simulação do nu explícito, com um strip-tease fajuto (porque não chega a ocorrer) e engraçado.
Mas sem o luxo das superproduções, sem os homens e mulheres sarados, sem as coreografias espetaculares de alguns musicais, sem os cenários e figurinos para encher os olhos. O que tem esse espetáculo de especial?
Ilva Niño atuou no palco que leva o nome do seu marido, o Teatro Luiz Mendonça, no Recife
Além da sátira social e política em doses homeopáticas nos diálogos ou pequenas falas, pois o texto tem uma pulsação inteligente, o que me parece maior é a força da atriz Ilva Niño. Aos 83 anos ela dá lição de que é possível fazer qualquer coisa com garra, alegria e determinação. Ela compensa as limitações de agilidade no deslocamento com técnica, um timing da comédia. E é especial por toda a história de luta que essa pernambucana de Floresta carrega, dos enfrentamentos políticos às vitórias pessoais.
E como ela estava feliz ao encenar no teatro que leva o nome do seu marido, o dramaturgo e diretor Luiz Mendonça (1931-1995). Ambos fugiram do Recife devido às ações do regime militar de 1964, que perseguiu os atuadores Movimento de Cultura Popular (MCP), criado na primeira gestão de Miguel Arraes como prefeito do Recife. Linda sua emoção.
Na primeira cena, em que o locutor avisa que a peça vai atrasar porque uma das atrizes não chegou, ela entrou brincando que morava no subúrbio do Recife, pegou ônibus e metrô para chegar, mas que naquela noite iria dormir na casa de Leda Alves (a secretária de Cultura do Recife, que estava na plateia). Depois apareceu de Cleópatra para disputar o papel de vedete, de japonesa para concorrer a miss mundo e deu a dica: “Primeiramente…”
Ilva Niño no papel de Cleópatra. Foto: Wellington Dantas/Divulgação
A equipe sabe da fragilidade material da produção e brinca com isso. Muita coisa não funciona, como as cenas de plateia. Mas no elenco tem atores empenhados.
É interessante o adiamento da participação do personagem Jesus no espetáculo. Por três vezes, ou mais, ele vem reclamar com o Pai / Mãe a sua vez de entrar em cena, sempre protelada. Numa das vezes Deus diz que ele é muito carente e que aguarde sua vez.
E a peça fica muito extensa. Eles dizem que o espetáculo precisa terminar. Pular alguns episódios dessa trajetória humana sobre a Terra. E ao contrário do que está pichado nos muros da cidade, no Cabaré da Humanidade, Jesus não tem chance de voltar.
Como exemplo do que defende o produtor Paulo de Castro, o Janeiro de Grandes Espetáculos é um guarda-chuva generoso, onde cabem as mais diversas manifestações cênicas.
Ficha Técnica Texto: Luiz Carlos Niño Músicas: Luiz Carlos Niño e Núbia Moreira Direção: Ilva Niño e Josué Soares Direção musical: Lucina Coreografia: Jandir Di Angelis Cenografia: Vera Monteiro Iluminação e operação de som: Josué Soares Operador e montador de luz: Celso Rodrigues Arranjos musicais: Lucina e Saulo Battesini Vinhetas musicais: Beto Menezes Produção musical e instrumentos: Saulo Battesini Operador de som: Rodrigo Telles Operador de luz: Drigo de Lisboa (EAT) Visagismo: Ilva Niño Elenco: Ilva Niño, Bruno de Aragão, Flávio Lázaro, Júlio Wenceslau, Márcia Valéria, Rita Grego, Rodrigo Telles e Vera Monteiro
SERVIÇO Cabaré da Humanidade – Niño de Artes Luiz Mendonça (Rio de Janeiro/RJ) Onde: Teatro Rui Limeira Rosal (SESC Caruaru) Quando: Dia 18 de janeiro de 2017 (quarta-feira), às 20h Quanto: R$ 30,00 (Inteira) e 15,00 (Meia) Classificação etária: a partir dos 14 anos Duração: 1h30
Olha pro Céu Meu Amor abriu a programação do Janeiro de Grandes Espetáculos. Foto: Ivana Moura
Grupo Feira mantém encenação original de Vital Santos. Foto: Ivana Moura
Um clima amoroso marcou a abertura do 23º Janeiro de Grandes Espetáculos – Festival Internacional de Artes Cênicas de Pernambuco, na última quinta-feira (12/01), no Teatro de Santa Isabel. Casa lotada, os produtores deixaram os tradicionais discursos para depois de Olha pro Céu Meu Amor, peça de inauguração dessa edição, que segue até o dia 29 de janeiro, no Recife e em Caruaru.
Ao final da exibição, o homenageado de 2017, o artista sertaniense Sebastião Alves, radicado em Caruaru, foi celebrado com palavras e aplausos. Ganhou de presente um quadro com sua figura, pintado por Cleusson Vieira, e falou um pouco sobre sua trajetória. Contou que foi submetido a 15 cirurgias e venceu um câncer, contra o qual lutou por mais de dez anos. Lembrou de outros participantes do grupo que morreram e foram representados por fotos.
Salientando as parcerias e cumplicidades principalmente com os artistas pernambucanos, os produtores Paulo de Castro, Carla Valença e Paula de Renor, enfatizaram a dificuldade de fazer cultura neste momento difícil. É um discurso recorrente das últimas edições, mas que não transparece na extensão do programa. São 58 produções diferentes, entre teatro adulto, teatro para a infância, dança, circo, shows musicais e duas leituras dramatizadas.
Carla Valença, Paulo de Castro e Paula de Renor, produtores do festival. Foto: Pollyanna Diniz
Todos os festivais brasileiros sofreram nos últimos anos com as crises políticas e econômicas que o país atravessa. Alguns reduziram programação para não abrir mão da qualidade (levando em conta o olhar curatorial de cada iniciativa). Sabemos que grande parte da produção cultural do país existe graças aos editais, que vêm recebendo cortes em todas as esferas. Mas também é momento de uma reflexão crítica. Alguns questionamentos do que é o Janeiro, de qual a sua relevância e seus propósitos precisam ser feitos, porque a vida é dinâmica, a cultura é dinâmica e a cidade do Recife é uma potência cultural. E as ideias de sustentação estética, política, filosófica de uma iniciativa desse porte, me parece, precisam ser repensadas.
Vivemos em tempos temerosos, é verdade. E nesse Brasil em que o ódio vai às ruas, em que a violência mostra suas garras, as pessoas temem por expor opiniões. E em Pernambuco tomar posicionamentos públicos quanto às políticas culturais, aos festivais, à cena na cidade está se tornando uma atitude rara. Por medo de boicote, pela dominância do individualismo (mesmo que sejam projetos de coletivo) sobre a coletividade, sobre o bem-comum. Há falta de humildades e arrogâncias de sobra que rechaçam a possibilidade de diálogos e a conjugação de mediocridades que matematicamente não podem resultar em excelências. Mas cada produtor, artista, espectador, cidadão tem capacidade de ponderar. Olhemos, pensemos, façamos a crítica e a auto-crítica para garantir o melhor possível da produção da cidade e do estado.
Recentemente, por exemplo, a produtora Paula de Renor idealizou e fez a curadoria da Mostra Acessível Rio das Olimpíadas juntando os universos das artes cênicas e da acessibilidade. Realizada em agosto na Paralimpíada Rio 2016, com programação gratuita, a Mostra reuniu trabalhos interpretados por artistas com deficiências físicas e cerebrais, além de workshop, visita tátil, tradução em libras, audiodescrição, mesa redonda e conversa com o público. Um programa bem definido nos seus propósitos.
Como outros festivais, o Janeiro padece da falta de políticas que assegurem sua continuidade, mesmo que os três produtores sejam contundentes ao dizer que é o melhor festival das artes cênicas de Pernambuco. Há controvérsia… E isso é bom. Mas estratégicas de sobrevivência dependem dos incentivos e financiamentos, principalmente públicos.
Como afirma Paulo Freire, personagem de pa(IDEIA), não existem territórios neutros. Foto: Amanda Pietra.
De todo modo o Janeiro de Grades Espetáculos quis este ano fazer conexões com o Brasil da democracia atingida e do avanço do conservadorismo. E na sua programação constam peças que carregam um viés político: Olha para o Céu Meu Amor,A Mulher Monstro, pa(IDEIA) – Pedagogia da Libertação, h(EU)stória – o tempo em transe, Terror e Miséria no Terceiro Reich – O Delatore musical O Avesso do Claustro, por exemplo.
Mas, nesse panorama de luta, reafirmo a ausência do espetáculo Retomada, do Grupo Totem, uma das melhores encenações pernambucanas levantadas no ano passado. Porque este grupo é também símbolo de resistência e resiliência, por sua trajetória e principalmente pela maturidade da montagem, erguida a partir de pesquisa de rituais sagrados com os povos indígenas do Pernambuco (Pankararu, Xucuru e Kapinawá).
Homenagem a Sebá Alves, que ganha um quadro com sua figura. Foto: Pedro Portugal / Divulgação
Voltando para o dia da abertura, os produtores apontaram Sebá Alves como símbolo da resistência cultural. Paula de Renor, a mais emocionada, reafirmou o compromisso do trio em prosseguir com o Janeiro e reforçou a gratidão com os parceiros de caminhada. Deixou transparecer nas palavras choradas a pressão de tocar o evento. Reconhecemos o esforço, a persistência, o trabalho, a dedicação, mas precisamos exercitar a análise e a reflexão que instiga.
A peça de Vital Santos
Olha pro Céu Meu Amor abriu a programação do Janeiro de Grandes Espetáculos. Foto: Ivana Moura
Há muitas maneiras de abraçar a peça Olha pro Céu, meu Amor, do saudoso Vital Santos com música de Josias Albuquerque, produção do Grupo Feira de Teatro Popular. Como um libelo que expõe os efeitos do capitalismo na vida de um cidadão brasileiro e o esmaga; um recorte do microcosmo de uma família pobre do interior do Nordeste com seus problemas cotidianos; um registro histórico da encenação de Vital, já que o arcabouço da encenação original pouco foi modificado.
O olhar de Vital Santos está carregado do protesto (direto ou indireto) das classes subalternas na sua lida diária. As cenas são impregnadas de um humor popular e de soluções engraçadas com frases provocativas das ruas ou da briga de vizinhos com pitadas de palavrões.
A peça traça um retrato típico do nordestino migrante, entre o esperto e o bocó. Não daquele que fez sucesso meteórico. Mas do outro que se deixou enredar pelos acontecimentos, que não pegou a força centrífuga para escapulir do destino trágico, que fracassou no seu intento de migrar. Ou o que se perdeu nos apelos da indústria cultural.
No final dos 1990 a música Chover (ou Invocação Para Um Dia Líquido), do Cordel do Fogo Encantado pedia: “Meu povo não vá simbora / Pela Itapemirim / Pois mesmo perto do fim / Nosso sertão tem melhora”. Sabemos que esse quadro mudou no período Lula/ Dilma com o avanço dos direitos sociais. Mas Olha pro Céu Meu Amortambém é reavivado, ganha outros sentidos com os recentes acontecimentos do cenário político brasileiro, com o recuo das garantias dos trabalhadores e direitos do cidadão.
Cena de Olha pro Céu meu Amor. Foto: Pedro Portugal / Divulgação
Na encenação, um compositor caruaruense segue para o Rio de Janeiro em busca do sonho de vencer na carreira na Cidade Maravilhosa, e que Roberto Carlos grave suas músicas; enfim em busca de liberdade econômica prestígio social e realização profissional e pessoal . Olha pro Céu Meu Amor foi lançada em 1983 e é baseada na vida de Sebá Alves, que nunca desistiu de ser artista, mas encarou muitas funções de operário durante a vida. Ele fundou e mantém em Caruaru o Teatro de Mamulengos Mamusebá e a Cia. Pernas pra Circular, além de muitos projetos de formação.
O personagem de Sebá, Bom Cabelo -inspirado em sua própria história -é submetido ao subemprego. A montagem tem uma estrutura de quadros que se alternam nas cenas do protagonista no Rio e outras com seus familiares que ficaram no Nordeste. A mãe, dona Guió, que tenta manter a ordem da família; o pai Jesus (famoso vendedor de passarinhos da região). Além dos outros filhos do casal, a menina Dó (Charlene Santos) com os hormônios gritando, resolve fugir com o namorado. Neneca, na dúvida entre ser padre ou assumir sua vocação de artista performático, e Lelé, que alimenta uma obsessão apaixonada pela galinha Du.
A encenação brinca com os estereótipos do pernambucano do interior, com suas roupas coloridas, vestidinhos de chita e lenços na cabeça; com uma prosódia carregada, símbolos da cultura da região e nos objetos de cena, ditos populares. A trilha sonora é potente poesia e de uma atualidade impressionante. A música é executada ao vivo por Jadilson Lourenço (também na direção musical), Felipe Gonçalves, João Vítor Lourenço (violões) e Carlinhos Aril (percussão).
Há desnível nas atuações, mas não compromete o conjunto. Sebastião Alves (o Sebá), defende o papel de Zequinha de Jesus há mais de 20 anos, criou uma cativante figura, entre a euforia e a melancolia desse migrante sonhador. Jô Albuquerque Cavalcanti faz o feirante e vendedor de gaiolas e pássaros chamado Jesus meio distante em seu mundo dos pequenos animais voadores. Adeilza Monteiro traça Mãe Guió cuidadosa com suas crias, preconceituosa com as dos outros e que tenta negociar o lugar de comando dentro da casa. Luzia Feitosa (Ceminha) faz a namorada conterrânea que Cabelo conheceu no Rio e tem um passado condenável pela mãe do protagonista. Walter Reis (Lelé) é o menino da galinha, que fez muita gente da plateia lembrar de sua infância. Gabriel Sá (Neneca) mostra as mudanças do pleiteante ao sacerdócio ao artista transformista.
Rafael Amâncio (Pernambuco), Ary Valença (Lula), Matheus Silva (Biu de Dora) e Gilmar Teixeira (Dr. Hércules) completam o elenco. Entre situações risíveis, pequenas alegrias, mostras de explorações e sofrimento, cada personagem recebe um marca mais evidente, como a perna manca do Dr. Hércules.
A peça se movimenta em blocos, em quadros dos cantos musicais, tenda do mamulengo, reunião em família, bastidores da fábrica, quarto da pensão, etc. E esses flashes compõem um painel poderoso. Mas como disse anteriormente os procedimentos cênicos foram articulados por Vital na década de 1980.
Iluminação guarda as marcas dos anos 1980. Foto: Pedro Portugal / Divulgação
Essa poética guarda a força desse dramaturgo e diretor tão criativo e comprometido com o povo do Nordeste. Mas deixa brechas de que algumas coisas ficaram datadas e isso fica bem evidente na iluminação que cria focos blocados, mudanças repentinas para azuis e vermelhões e principalmente nas situações em que o ator Sebá (e outros) dá sua fala e o rosto do personagem fica no escuro. Problema que uma consultoria com a coordenadora técnica do Janeiro de Grandes Espetáculos, Luciana Raposo poderia (poderá) resolver e ampliar horizontes.
De todo modo, o que fica desse musical é o sentimento aguerrido do povo nordestino, seu linguajar rico e peculiar, suas soluções para a vida que ganham escalas de tragédia e comédia no palco.
FICHA TÉCNICA Olha pro Céu meu Amor Texto, direção, projeto de iluminação e cenografia: Vital Santos Trilha sonora: Jadilson Lourenço Coordenador de cena: Gabriel Sá Figurinos: Iva Araújo Confecção de figurinos: Sônnia Cursino Confecção de cenário: Gilmar Teixeira Montagem de palco e luz: Edu Oliveira, Marcelo Mota e Gilmar Teixeira Execução de luz, assistente de produção e direção: Edu Oliveira Sonoplastia: Marcelo Mota Contrarregragem: Zi Rodrigues Produção: Sebá Alves Músicos: Jadilson Lourenço, Felipe Gonçalves, João Vítor Lourenço (violões) e Carlinhos Aril (percussão) Elenco: Sebastião Alves (Sebá), Jô Albuquerque, Adeilza Monteiro, Luzia Feitosa, Charlene Santos, Gabriel Sá, Walter Reis, Rafael Amâncio, Ary Valença, Matheus Silva e Gilmar Teixeira
SERVIÇO Onde: Teatro Rui Limeira Rosal (SESC Caruaru) Quando: Dia 28 de janeiro de 2017 (Sábado), às 20h Ingresso: R$: 10,00 (Inteira) e 5,00 (Meia) Classificação etária: a partir dos 14 anos Duração: 1h20
Sábato Magaldi faleceu aos 89 anos. Foto: Bob Souza/colaboração para o blog
Sábato Antonio Magaldi atestou que as qualidades fundamentais ao exercício da crítica seriam o amor ao teatro e a boa-fé. Isso é grande. O escritor, ensaísta, crítico, autor de livros de referência na área teatral, professor e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 1995, ocupante da cadeira 24, que já foi de Manuel Bandeira, e antes de Sábato pertenceu ao escritor Cyro dos Anjos, tinha o teatro como profissão de fé. Ele pertencia à geração de críticos de teatro da qual também faziam parte Décio de Almeida Prado, Anatol Rosenfeld e Yan Michalski.
Magaldi morreu aos 89 anos, por volta das 23h desta quinta-feira (14), em São Paulo. Ele estava internado desde o dia 2 de julho no Hospital Samaritano com quadro de choque séptico e comprometimento pulmonar. Seu corpo foi cremado em cerimônia no Cemitério Memorial Parque Paulista, no Embu das Artes, na Grande São Paulo, nesta sexta-feira (15). A causa da morte foi insuficiência renal e comprometimento pulmonar. Suas cinzas ficarão no mausoléu da ABL, no Cemitério São João Batista, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro.
Mineiro de Belo Horizonte (MG), Sábato nasceu em 9 de maio de 1927. Antes dos 20 anos de idade escreveu o primeiro artigo publicado no Brasil sobre uma peça de Jean Paul Sartre. Em 1948, aos 21 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro onde concluiu, no ano seguinte, o curso de Direito iniciado na Universidade de Minas Gerais.
Por coincidência, seu primeiro emprego foi como chefe de gabinete do Departamento de Assistência do Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado, conduzido pelo escritor Cyro dos Anjos, que ele viria a suceder na cadeira na ABL décadas depois.
Crítico do Diário Carioca de 1950 a 1953, ele sucedeu Paulo Mendes Campos. Em 1952 foi estudar estética na Universidade de Sorbonne, em Paris, como bolsista do governo francês. Na volta, em 1953, foi convidado por Alfredo Mesquita para lecionar História do Teatro na Escola de Arte Dramática, fundada por Mesquita em 1948. Mudou-se para São Paulo e, no mesmo ano, passou a colaborar para o jornal O Estado de S.Paulo como redator e tornou-se, em 1956, titular da coluna de Teatro do Suplemento Literário, trabalhando ao lado de Décio de Almeida Prado, diretor do Suplemento. Quando o Jornal da Tarde foi fundado, em 1966, começou a escrever crítica para o periódico, até 1988. Na EAD criou, em 1962, a disciplina de História do Teatro Brasileiro. Nos jornais Estado e JT atuou como crítico teatral durante 32 anos.
Dizem as boas línguas que parte dos críticos executava o papel de divulgadores dos espetáculos, alguns recebendo gorjetas das companhias teatrais. Vale lembrar que, naquela época, a crítica tinha um papel preponderante para o sucesso ou fracasso de bilheteria das temporadas.
Magaldi. Foto: Edições Sesc/ Divulgação
Magaldi é autor de Panorama do teatro brasileiro (1962 e 1997, ed. Perspectiva), Moderna dramaturgia brasileira (1998), Nelson Rodrigues: dramaturgia e encenações (1987, ed. Perspectiva), O texto no teatro (1989, ed. Perspectiva), Cem anos de teatro em São Paulo (2000, com Maria Thereza Vargas, ed. Senac), Depois do espetáculo (2003, ed. Perspectiva), Teatro da ruptura: Oswald de Andrade (2004, Global Editora), Teatro sempre (2006, ed. Perspectiva) e Amor ao teatro (2015, Edições Sesc), entre outros.
Foi um dos primeiros a reconhecer o talento de Nelson Rodrigues, nos anos 1950, quando a obra rodriguiana recebia ataques da crítica moralista e conservadora. Em 1980, a pedido de Nelson Rodrigues, de quem era amigo pessoal, organizou uma edição do teatro completo do dramaturgo. O crítico alinhou as 17 peças levando em conta os estilos e procedimentos dramáticos. As peças de Nelson Rodrigues passaram a ser categorizadas como psicológicas, míticas e tragédias cariocas.
Não era um crítico dono da verdade. O teor relativo de suas análises às vezes estava no próprio texto. Sobre a obra rodriguiana publicou uma autocritica em Dramaturgia e Encenações, revendo a apreciação publicada anteriormente no Panorama: “Formado na estética da sobriedade europeia, eu não admitia os extravasamentos, para mim de mau gosto. Hoje, estou convencido de que o melodramático dos textos rodriguianos corresponde à permanência de uma estética popular, que vai da oratória e da frase feita à chanchada. Sou obrigado a reconhecer que também nesse particular o dramaturgo revelava sua profunda brasilidade”.
Também reconheceu o engano quanto a Oswald de Andrade – o modernista foi tema de sua tese de Doutoramento pela Universidade de São Paulo, depois publicada em livro com o título Teatro da Ruptura: Oswald de Andrade. No seu Panorama do Teatro Brasileiro atestava que O Rei da Vela era impraticável de ser levado palco por suas características literárias.
Foi o primeiro secretário municipal de Cultura de São Paulo, quando o cargo foi criado na gestão do prefeito Olavo Setúbal (1975-1979).
Casado por 38 anos com a escritora catarinense Edla Van Steen, era pai de dois filhos. “Ele era casado com o teatro”, comentou Edla várias vezes, que o acompanhava a todos os espetáculos.
Sábayo tinha um olhar apurado para reconhecer talentos de diretores, dramaturgos e atores. Na década de 1960 apontou Plínio Marcos, Leilah Assunção José Vicente, Antônio Bivar e Consuelo de Castro como figuras que ajudaram na renovação da dramaturgia no Brasil. José Wilker, em começo de carreira, recebeu os elogios de Magaldi em O Arquiteto e o Imperador da Assíria (1970, direção de Ivan de Albuquerque,): “já aparece como ator completo, e dominando como poucos a expressão corporal. Dotado de espantosa agilidade, ele é bem o arquiteto de Arrabal, ser primitivo que reina sobre os elementos na ilha deserta”.
A geração de Sábato Magaldi apostou na crítica teatral como instrumento de reflexão a partir de sólida formação humanista. Ele gostava de afirmar que, se acertou em 10% do que escreveu, estava satisfeito.
Ano passado, lançou o livro Amor ao teatro, organizado por Edla Van Steen, reunindo 783 textos críticos, escritos para o Jornal da Tarde entre 1966 e 1988. São 1.224 páginas. Sábato foi crítico teatral desse jornal paulista por 22 anos.
No artigo Sobre a crítica (Teatro em foco. São Paulo: Perspectiva, 2008), Sábato apontava critérios que, a seu ver, deveriam nortear o crítico teatral. Entre elas: identificar a proposta do espetáculo e avaliar se ela foi concretizada a contento em todos os aspectos da encenação: o diretor, os intérpretes, o dramaturgo, o cenógrafo, o figurinista, iluminação, etc.
Clareza, objetividade e honestidade são preceitos básicos na sua visão. Isso acompanhado de um comportamento ético. O crítico não deveria se influenciar por amizades ou desafetos e, para ele, era imprescindível deixar a ranzinzice fora do teatro e longe da mente da hora de escrever. Também alertava que um comentário mais severo não precisa ser rude ou grosseiro. Enfim, uma prática intelectual que deveria ser exercida por pessoas capacitadas, como deveriam ser a profissão de políticos e outras funções públicas que exercem influência nos destinos do país.
Quando Amor ao Teatro foi lançado, o jornalista e crítico teatral Nelson de Sá, da Folha de S.Paulo, enviou para alguns blogs e sites perguntas sobre Sábato Magaldi, para reportagem que foi publicada no jornal paulistano. A seguir as perguntas e respostas do Satisfeita, Yolanda?, sobre esse intelectual que escrevia com elegância, acuidade analítica e generosidade.
Fotomontagem para o lançamento do livro Amor ao Teatro. Foto: Edições Sesc/Divulgação
Entrevista // Ivana Moura, sobre Sábato Magaldi
Sábato serviu de modelo para você em algo específico, na prática? Algum livro dele foi mais significativo? A influência dele sobre você, se houve, foi mais como crítico de jornal, como editor (de Nelson Rodrigues, por exemplo) ou como historiador do teatro?
Como sabemos o teatro é uma arte efêmera, cada sessão é única e nada será exatamente repetido. E se hoje é muito fácil conseguir vídeos, informações imediatas, há 20 ou 30 anos isso era muito complicado. Então os escritos de Décio de Almeida Prado e Sábato Magaldi ganharam além da dimensão histórica, também uma formativa e informativa. Somos todos devedores a ambos. Para quem mora no Nordeste isso ficava mais evidente e esses textos se tornaram valiosos. Eles direcionaram o nosso olhar e colaboraram na construção da subjetividade e do gosto estético. É lógico que os escritos dos dois vinham impregnados pela ruptura do se fez no início do século 20. Estavam antenados com seu tempo. Absorveram uma nova onda de valores estéticos que chegaram aos palcos do país, a partir da década de 1940, na esteira da vinda dos diretores Zbgniev Ziembinski e Louis Jouvet (ambos aportaram no Brasil no final da década de 1930, fugidos da Guerra). Era uma nova forma de análise dos espetáculos, diferente da que se praticava até então. Comprometidos com a renovação teatral, eles lançaram sementes, com seus textos para diretores, atores e grupos, além de estudantes e futuros críticos. Primeiro, Décio, depois Sábato. Primeiro através dos jornais, que chegavam com atraso de um dia, depois dos livros. Eles foram críticos cúmplices, mas pautados por um determinado modelo. A maneira de pensar a cena ampliava o escopo desses profissionais da função de críticos jornalísticos para o papel de historiadores culturais. Todos os livros de Sábato são importantes para mim. Iniciação ao Teatro foi o livro dos primeiros passos. Panorama do Teatro Brasileiro foi fundamental (apesar de sempre achar que essa amplitude de brasileiro não abarcava a multiplicidade do que existia fora do eixo Rio-São Paulo). Aspectos da Dramaturgia Moderna foi livro de cabeceira durante algum tempo. O que mais admiro é o trabalho que ele desenvolveu sobre a obra de Nelson Rodrigues. Foi ele que lançou luz sobre a amplitude da obra do Nelson, dissecou questões, desafiou outras posições, e defendeu esses textos como poucos. É um valioso trabalho.
Sábato detalhou uma fórmula para a crítica teatral: Detectar a proposta da peça, julgar sua qualidade e salientar sutilezas, escrevendo com clareza, honestidade e conhecimento da história do teatro. À luz do que você mesma escreve, hoje, você ainda considera esses conselhos úteis? Alteraria alguma coisa? Priorizaria qual ou quais deles?
Os conselhos de Sábato são úteis, mas para analisar o teatro contemporâneo esse modelo é insuficiente. Todos os pontos da fórmula são válidos. Mas a profusão de significados e ressignificações exigem outras ousadias. Sábato Magaldi é o mais profícuo dos críticos, publicou mais livros sobre história do teatro brasileiro e ainda faz atualização de sua obra. Mas ele mesmo utilizava superlativos e adjetivos que são pouco convincentes para a feitura de uma crítica de espetáculo hoje.
Em suma, o que diferencia o que você faz no Satisfeita, Yolanda? do que ele fazia no JT?
Acho que os críticos de hoje podem até usar as bengalas das fórmulas da crítica moderna, essa que Sábato nos ensinou, mas têm que ampliar horizontes nas contextualizações desse mundo, em que mais ninguém é senhor absoluto de um julgamento estético da cena. Vivemos de incertezas, os riscos são grandes. E não temos nenhuma hegemonia, como ocorreu a vida inteira com o Sábato.
Sábato descrevia Décio de Almeida Prado como “mestre de todos os que o secundaram”, ele inclusive, Sábato. O que os escritos de Sábato têm de diferente em relação a Décio?
Décio de Almeida Prado sempre me pareceu o mais sóbrio, o mais equilibrado dos críticos brasileiros. E com um vocabulário com menos adjetivos. Aquele que nas suas análises criava hipóteses para defender. Seu livro Exercício findo me orientou durante muito tempo, como os jovens artistas plásticos a imitar os mestres nos trabalhos.
Sábato Magaldi sistematizou obra de Nelson Rodrigues. Foto: Carlos/Cedoc/ Funarte
Depoimentos
“Com a morte do professor Sábato Magaldi fecha-se, ao menos em termos cronológicos (mas não de influência) o ciclo da crítica ao teatro moderno no Brasil. Os dois outros grandes críticos centrais dessa cena (no meu ponto de vista) foram Décio de Almeida Prado e Anatol Rosenfeld. A estes o teatro deve, além da atividade crítica e pedagógica propriamente ditas, a colaboração na construção de uma cena nova, a partir dos anos 40 do século passado. Foram eles os incentivadores e em certa medida os orientadores informais de toda uma geração de artistas, na época em que os sistemas estéticos ainda eram mais firmes e a crítica ainda podia fazer valorações categóricas a partir deles. Sábato Magaldi deixa também obras de referência na área da Historiografia e estudos pontuais ainda hoje indispensáveis, sobretudo em torno da dramaturgia. A compreensão das obras de Nelson Rodrigues e Jorge Andrade, por exemplo, não seria a mesma sem ele. Evoé, jovens críticos vivos! É bom não esquecer que quando se está procurando caminhos novos para o teatro e a crítica é com uma História deste tamanho que querendo ou não se está dialogando. Quem chamou para si a tarefa tem que honrar, do seu modo próprio e autônomo, essa geração.” Kil Abreu, jornalista e crítico teatral
“Exemplo de grandeza humana e intelectual, a morte de Sábato Magaldi me deixa em completo desalento, sinto-me enlutado. Em 1982 me recebeu para fazer prova de ingresso no mestrado e, desde então, nos tornamos amigos; mais que amigos, tivemos uma relação de mestre-discípulo, sem nenhuma cartilha a ser seguida. Deixava-nos livres para pensar, duvidar. Ele “pegou-me pela mão” e, como um pai, foi muito afetivo. Com sua solidez de conhecimentos e sua tenacidade crítica, apresentou-me um “outro” teatro brasileiro, cheio de nuanças e ambiguidades. Suscitava o desejo permanente de estudarmos a História do Teatro Brasileiro. E, sob sua orientação, pude concluir minha dissertação de mestrado (1989) e a tese de doutorado (1991), sobre o Teatro de Amadores de Pernambuco, cujo resultado foi publicado pela CEPE e SESC Pernambuco, em 2011: TAP – SUA CENA & SUA SOMBRA: O Teatro de Amadores de Pernambuco (1941-1991), para cuja edição escreveu o prefácio. Sou extremamente grato a este homem de teatro, este homem singular, que foi movido pelo amor à docência e ao teatro. Um HOMEM como poucos”. Antonio Cadengue, encenador