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Zona Zami: um arquivo de automitobiografias*
Crítica: Zona lésbica
Por Annelise Schwarcz*

O elenco de Zona lésbica compartilha, em primeira pessoa, suas vivências em torno do ser lésbica. Foto: Marcos Pastich/PCR

O filme The Watermelon Woman (1996) – dirigido, produzido e estrelado por Cheryl Dunye – tem como protagonista uma jovem negra e lésbica que trabalha numa videolocadora em Filadélfia, interpretada pela própria Cheryl como uma espécie de personagem de si mesma. Seu hobby é assistir a produções hollywoodianas da década de 30. Em um desses filmes, intitulado Plantation Memories (Memórias da Plantação), Cheryl percebe que a atriz negra que a arrebatou pela sua interpretação aparece apenas como “Watermelon Woman” (Mulher Melancia) nos créditos finais. Não é a primeira vez que isso acontece. Cheryl observa como frequentemente as atrizes negras nessas produções não têm seus nomes mencionados nos créditos e, quando tem, são mencionadas através de apelidos. Da mesma forma que suas participações são eclipsadas ou até mesmo invisibilizadas, os papéis destinados a essas atrizes são secundários e estereotipados, sempre como escravizadas ou ex escravizadas, serventes, babás, amas de leite, etc, como no caso da Watermelon Woman (Mulher Melancia), fazendo papel de nanny (babá) no filme. 

Intrigada, Cheryl decide revirar arquivos e entrevistar pessoas para descobrir quem foi essa atriz, sua vida e sua história. Sua pesquisa é registrada e compõe o documentário com nome homônimo ao apelido da atriz que disparou sua investigação. À medida que a protagonista se aprofunda na pesquisa, ela não só descobre o nome da atriz (Fae Richards), como também descobre que Fae era lésbica. Isso, por si só, justificaria a identificação de Cheryl com a atriz. Só tem um detalhe: o “documentário” em questão é ficcional. A personagem Watermelon Woman (Mulher Melancia), o filme Plantation Memories (Memórias da Plantação), Fae Richards e muitos de seus registros não existem, mas são criados para retratar e superar a falta de registros históricos, assim como a marginalização de mulheres negras e lésbicas no cinema. Enquanto protagonista do próprio filme, em paralelo aos registros da pesquisa fictícia em torno de Fae Richards, Cheryl Dunye documenta a sua vida, seu trabalho, interesses, relações amorosas e amizades, inscrevendo a si mesma enquanto parte da história das mulheres negras e lésbicas no audiovisual. O filme de Cheryl Dunye é considerado disruptivo e pioneiro para além de questões relacionadas à representatividade. Watermelon Woman denuncia que o arquivo não é neutro e que as trajetórias de mulheres negras e queer têm sido esquecidas ou apagadas. Caso levado às últimas consequências, o documentário de Cheryl resultaria em uma tentativa frustrada de resgatar um passado irrecuperável. Somente através da ficcionalização de um arquivo é possível contar essas histórias do passado (nem sempre tão distante) que, em sua artificialidade, não deixam de ser reais. 

É possível dizer que o mesmo exercício de ficcionalização do real/ realização da ficção está presente em Zona lésbica. Na peça idealizada por Carolina Godinho, Dani Nega e Monique Vaillé com dramaturgia de Verônica Bonfim, sete mulheres lésbicas estão em busca de Zami, “um espaço utópico imaginado como um refúgio. Esse lugar simbólico representa o desejo coletivo das personagens de viverem sem medo, em plenitude e acolhimento, construindo uma realidade onde o amor e a liberdade prevalecem” – como descrito na sinopse. 

A narrativa se passa em quatro anos distintos: 1954, 1984, 2014 e 2025. De 1954 – momento em que os direitos para pessoas LGBT+ eram inexistentes – viajamos no tempo para 1984, um ano após o levante no Ferro’s Bar em São Paulo. Conhecido como o “Stonewall lésbico brasileiro” – fazendo referência aos protestos ocorridos no bar Stonewall Inn, nos E.U.A, nos quais a comunidade LGBT se manifestava contra a repressão policial –, o levante no Ferro’s foi deflagrado após as atividas do GALF (Grupo Ação Lésbica Feminista) serem impedidas de divulgarem sua revista Chanacomchana dentro do estabelecimento. O evento ocorreu no mês de agosto e é por isso que, em 2008, a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo definiu que o mês de agosto seria o mês do Orgulho Lésbico. 

Da ditadura militar até o ano de 2025 – marcado por avanços institucionais e a consolidação de políticas públicas, mas que nem sempre se fazem presentes nas micropolíticas das relações cotidianas – Zona lésbica nos apresenta as formas de organização e resistência lésbica no Brasil ao longo dos últimos setenta anos através da ficcionalização de cenas que remontam as dinâmicas dessas mulheres. Como era amar outra mulher nos anos 50? Elas dividiam a casa com a sua parceira? Será que os vizinhos achavam que eram apenas amigas? E se descobrissem que não era apenas isso? Será que as parceiras das mulheres marchando contra o feminicídio e lesbofobia durante a ditadura militar sabiam que poderia ser a última vez que veriam seu amor? Essas cenas são interpretadas por Carolina Godinho, Dani Nega, Dandara Azevedo, Jessica Lamana, Monique Vaillé, Nely Coelho e Simone Beghinni e entrecortadas por relatos pessoais de quando e como entraram na zona lésbica. Assim, a especulação dessas existências no passado se soma às vivências compartilhadas pelas atrizes na construção de um arquivo sáfico. A aposta nos relatos endereçados diretamente ao público estabelece um vínculo mais íntimo, através desse olhar que nos olha de volta, mas a ilusão de espontaneidade é quebrada, vez ou outra, devido a algumas dicções roteirizadas ou movimentações muito bem marcadas. 

Esse arquivo ainda conta com as vozes de ícones da música brasileira como Zélia Duncan, Cássia Eller, Ludmilla, Ana Carolina, Adriana Calcanhotto, Martnália, Leci Brandão, Cátia de França, Bia Ferreira, Marina Lima, Maria Bethânia e Gal Costa compondo a mixagem que atravessa as cenas com trechos de suas canções, como uma rádio sintonizando em busca de frequências. A trilha sonora se relaciona com a Rádio Melodrama Lésbico que, na dramaturgia, estava sendo sonhada desde 2014 pelo trisal composto pelas personagens de Carolina Godinho, Dandara Azevedo e Jéssica Lamana e em 2025, após a superação de obstáculos, está no ar. 

A peça aborda as existências e formas de resistência lésbica em quatro temporalidades: 1954, 1984, 2014 e 2025. Foto: Marcos Pastich/PCR

No início da peça, somos informadas/os de que existem ondas na frequência Alfa e frequência Beta. Em estudos sobre hipnose, a onda Beta é associada a um estado de consciência, vigília ou até mesmo estresse, enquanto as ondas Alfa são associadas a um estado de relaxamento, pré sono, além de ser o estado mais propício para a hipnose. Na peça, uma voz em off nos diz enquanto assistimos a projeções coloridas, em uma tela no fundo do palco, que estamos na zona Alfa e que a zona Beta é um pouco melhor, como quem nos quer acordadas/os, conscientes, atentas/os, mas logo em seguida afirma que a zona realmente almejada pelas sapatões é Zami.

Zami está no centro da narrativa e, ao mesmo tempo, à margem. Nas diversas cenas ao longo das quatro temporalidades encenadas, Zami aparece como um lugar mítico ou utópico registrado em um livro eventualmente encontrado por alguma das personagens, questionado por outras, mas não exatamente delimitado. Por que tem esse nome? Quem idealizou? Zami é uma zona espacial ou uma frequência que podemos nos sintonizar independentemente de onde estejamos? É possível estar na zona e não estar na frequência Zami? Apesar de não mencionado ao longo da peça, para mim é difícil ouvir “Zami” e não pensar no livro Zami. Uma nova grafia de meu nome, uma biomitografia (originalmente publicado em 1982) de Audre Lorde. O título “Zami” vem de um termo criolo que se refere a mulheres que trabalham juntas, sinalizando a centralidade das alianças entre mulheres no livro. O termo também pode ser associado a uma espécie de eufemismo para se referir a mulheres lésbicas. 

Zami é o livro autobiográfico de Audre Lorde. Como sabemos, toda autobiografia tem um quê de ficção, por isso Lorde o define como uma “biomitografia”: uma mistura de biografia, mito, memórias, reflexões políticas e poéticas acerca de temas como pertencimento, trabalho, opressões, amor, amizades, gênero, raça e sexualidade. A obra narra a formação identitária de Lorde enquanto filha de pais caribenhos, nascida nos Estados Unidos, mulher negra, lésbica, poeta e feminista, desde sua infância até o início da vida adulta. Operando de forma semelhante, podemos dizer que os relatos das atrizes de Zona lésbica também são fragmentos de suas biomitografias.

Os relatos quebram a quarta parede, se dirigindo em primeira pessoa diretamente à plateia, e operam como uma espécie de suspensão da cena dos casais. Dani Nega falou sobre a origem de seu percurso no teatro com o grupo paulistano Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, famoso pelos experimentos que mixam teatro, hip hop, rap e slam, e de que forma – por conta desses atravessamentos – a palavra se tornou a sua zona lésbica. A primeira experiência na zona lésbica de Monique Vaillé foi em 2003 no chat do UOL. Simone Beghinni sempre soube – como que “por instinto” – que pertencia à zona lésbica. Nely Coelho, por sua vez, só entrou na zona lésbica na faculdade de teatro, mas não sem antes atravessar a depressão e o isolamento por parte dos amigos da época. Dandara Azevedo veio do Maranhão fazer teatro em São Paulo. Nunca tinha nenhuma conversa específica com a sua família sobre sua zona lésbica, apenas avisava com quem estava. Um dia entendeu que assumir era tomar para si, como a própria etimologia do termo sugere, e decidiu se posicionar diante da sua família como lésbica. Carolina Godinho, diferentemente das demais, faz o seu relato na terceira pessoa. A atriz conta que sempre gostou de “coisas de menino” e relembra a música “Maria sapatão” que seu irmão costumava cantar para implicar com ela, quando tinha apenas 10 anos. O padrasto, homofóbico e racista, também contribuia com o clima hostil, então Carolina decide sair de casa, se muda para o Rio de Janeiro e ingressa na faculdade de teatro, onde se apaixona e adentra – dessa vez com os próprios pés – na zona lésbica. Jéssica Lamana, a última a se apresentar, toca o louvor Faz um Milagre em mim, de Regis Danese, no saxofone e é acompanhada por algumas vozes na plateia sussurrando a letra. A zona lésbica de Jéssica começou na casa do Senhor, mas a alegria da descoberta veio embrenhada em culpa e medo de ter pecado. 

O fato dos depoimentos divertirem ou gerarem empatia faz com que essa dimensão da peça se sobressaia com relação às demais, fazendo com que a narrativa em torno da construção da rádio, das personagens e até mesmo a própria fuga para Zami, assim como o vislumbre de um futuro utópico, fiquem ofuscados diante dessa espécie de “excesso de presente e passado”, materializado pela apresentação desse arquivo sáfico das atrizes. Ao longo da peça, algumas questões como “o que é ter cara de sapatão?”, se ser lésbica é uma escolha ou questão de “instinto” e delicadezas em torno de relações interraciais – mesmo entre pessoas do mesmo gênero –, são lançadas, mas não aprofundadas, também se diluindo em meio a tantos acontecimentos. O que há aqui, talvez, seja justamente uma exploração da ambiguidade do termo “zona”, por vezes sendo compreendido como uma dimensão espacial – um território, seja ele real ou imaginário –, mas também nos permitindo uma interpretação na qual “zona” seja compreendido como “bagunça”: um excesso de signos, gírias, debates, corpos, referências, associações – todo um universo sendo apresentado sem que necessariamente se efetue uma organização. No fundo, essa é a experiência de se adentrar em um mundo: toda essa profusão de imagens, a fome por devorar esse universo, a ânsia por recuperar o tempo perdido, o desejo de pertencer, de entender, de conhecer mais e melhor, de se perder nessa floresta de signos. Floresta? Não. Trata-se, mais precisamente, de um brejo – como a própria sonoplastia da peça sugere, ao nos receber com sons de sapo enquanto buscamos nossos lugares, antes da peça começar. 

Da mesma forma que Lorde constrói a si mesma a partir das suas alianças, do poder do desejo e do erotismo, da história da sua família e da sua relação com a poesia, o elenco em cena vai tecendo uma sensibilidade compartilhada com a plateia, cada uma puxando um fio específico. Fios que são, ao mesmo tempo, singulares – pois trata-se de uma vida singular com uma trajetória específica – sem deixar de nos remeter, de alguma forma, a lugares comuns: um lugar que já estivemos, uma história que já ouvimos ou uma situação arquetipicamente familiar. Entre as que se assumiram e as que foram tiradas do armário, entre as que sempre souberam e as que nunca suspeitaram, os múltiplos relatos e relações possíveis com a zona lésbica vão compondo uma miscelânia de afetos que transitam por paisagens de culpa, dúvidas, medo, isolamento a euforia, empoderamento e pertencimento. E quem nunca habitou alguma dessas paisagens? 

Zona lésbica foi a última apresentação do último dia do 24º Festival Recife do Teatro Nacional. Para encerrar a noite, o elenco convidou um casal na plateia para subir ao palco e ambas se declararam mutuamente em uma cena de enternecer o coração. Todas as atrizes do elenco também formaram casais ou trisais e se beijaram selando a última zona lésbica. O palco se configura em Zami, um aqui e agora que se faz possível porque aqueles corpos em cena se fazem presentes e desejantes.

* A cobertura crítica da programação do 24º Festival Recife do Teatro Nacional é apoiada pela Prefeitura do Recife.

Ficha técnica:
Zona lésbica
Idealização: Carolina Godinho, Dani Nega e Monique Vaillé
Texto e dramaturgia: Verônica Bonfim
Adaptação e Textos “Zonas Lésbicas”: Elenco
Elenco: Carolina Godinho, Dandara Azevedo, Dani Nega, Jéssica Lamana, Monique Vaillé, Nely
Coelho e Simone Beghinni
Direção Artística: Simone Beghinni
Voz off: Cesar Augusto, Leci Brandão, Rômulo Chindelar e Zélia Duncan
Direção de Movimento: Iasmin Patacho
Direção Musical: Dani Nega
Direção de Imagem e mapping: Carolina Godinho
Cenógrafa: Carla Ferraz
Iluminadora: Lara Cunha
Figurino: Marah Silva
Visagismo e Maquiagem: Diego Nardes
Direção de Produção: Monique Vaillé e Nely Coelho
Produção Executiva: Nuala Brandão
Técnica e Operação de Luz: Tayná Maciel
Operação de Som e Vídeo: Igor Borges
Programação Visual: Yasmin Lima
Fotos: Íra Barillo
Realização: Delas Cultural e Ginja Filmes

 

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Como é que se escreve “família”?
Crítica: Tem bastante espaço aqui
Por Annelise Schwarcz*

“Por que você é flamengo e meu pai botafogo? O que significa impávido colosso? Por que os ossos doem enquanto a gente dorme? Por que os dentes caem? Por onde os filhos saem? Por que os dedos murcham quando estou no banho? Por que as ruas enchem quando está chovendo? Quanto é mil trilhões vezes infinito? Quem é Jesus Cristo? Onde estão meus primos?”
Oito anos – Adriana Calcanhotto

Juliane Cruz interpreta Joana, uma criança em busca de sua origem. Foto: Monica Ramalho

Oito anos, como sugere a música escrita por Paula Toller e interpretada por Adriana Calcanhotto, é conhecida como a fase dos “porquês”. Com sensibilidade o suficiente é possível fazer filosofia, música, um filme ou uma peça de teatro com os espantos com o mundo que essa fase traz. É o caso, por exemplo, da peça Tem bastante espaço aqui.

Baseada no curta O Fundo dos Nossos Corações (2021), escrito e dirigido por Letícia Leão, a dramaturgia de Tem bastante espaço aqui – também assinada por Letícia Leão –, conta a história de Joana (Juliane Cruz), uma menina de sete para oito anos que vive com suas duas mães, Beatriz e Isabel (Carolina Godinho e Monique Vaillé, respectivamente), em Lumiar – uma cidade em meio à Mata Atlântica fluminense. Durante uma aula online sobre a reprodução dos ovíparos, um colega da turma de Joana faz uma pergunta sobre a reprodução dos humanos: “de onde vêm as crianças? Será que vêm da cegonha? Vêm em ovos?” A curiosidade se espalha para o restante da turma até que Nanda, amiga de Joana, parece ter a resposta e relembra quando sua mãe estava grávida de seu irmão. Agora, Joana precisava saber qual das suas duas mães a gestou. Ou será que era possível que ela tenha vindo de duas barrigas? 

O enredo se desdobra a partir das dúvidas de Joana e do acolhimento que suas mães oferecem ao encaminhar suas questões. A peça se relaciona, ao mesmo tempo, com o público infantil e adulto, lançando mão de dispositivos que prendem a atenção das/os pequenas/os por meio de uma linguagem acessível e interativa, além de abordar com coragem e honestidade temas como famílias LGBT+ e criação de filhas/os pela via da adoção. Assistimos ao dia a dia dessa família se desenrolar, com Isabel e Beatriz cuidando da alimentação e da higiene da filha, respeitando os momentos em que Joana prefere ficar sozinha, lembrando o horário da aula e de ir para a cama, sempre amorosas e brincalhonas  – momentos que dialogam diretamente com as crianças na plateia, vendo suas atividades diárias sendo ali encenadas e reforçadas. 

Juliane Cruz, Carolina Godinho e Monique Vaillé em apresentação única no 24º Festival Recife do Teatro Nacional com a peça Tem bastante espaço aqui. Foto: Marcos Pastich/PCR

Ao adentrar o teatro Apolo, durante o 24º Festival Recife do Teatro Nacional, já encontramos as três atrizes no palco repetindo uma cena de pique pega até que todas as pessoas da plateia tenham encontrado seus lugares. Atrás das atrizes, é possível ver cinco painéis brancos onde serão projetadas as aulas online e algumas imagens da natureza ao redor da casa de Lumiar, por exemplo, todas transmitidas como se estivessem sendo gravadas ao vivo. Embora a peça seja repleta de estímulos – interações com o público e as já mencionadas projeções –, eles não nos sobrecarregam com informações e nem resultam em um acúmulo irrefletido de acontecimentos: cada detalhe contribui para uma transição de cena, para a construção de vínculo com a plateia ou acrescenta uma camada de sentido ao espetáculo. 

Além de Joana e suas mães, a peça conta com ainda mais três personagens: o vento, o sol e o rio. Carolina Godinho e Monique Vaillé se transformam em elementos da natureza através dos criativos figurinos de Carla Ferraz e, em cenas que parecem saídas de um sonho – dada a beleza dos elementos cenográficos –, falam sobre a pluralidade das famílias, com breves mas importantes conselhos sobre como controlar a ansiedade e mensagem de conscientização sobre os efeitos do aquecimento global pinceladas entre os diálogos.

Na busca por sua origem, Joana descobre que o encontro com suas mães foi decidido após uma conversa sobre haver tanto espaço na casa e tanto amor entre elas, que poderia caber mais alguém ali. Tem bastante espaço aqui é daquelas peças de sair de coração quentinho e se perceber emocionada ao lembrar desse amor que transborda – tanto na cena entre as personagens, quanto entre as pessoas na plateia. Pais, mães, crianças, pessoas sozinhas ou casais: todos sorrindo com os olhinhos brilhando. Inclusive eu. 

* A cobertura crítica da programação do 24º Festival Recife do Teatro Nacional é apoiada pela Prefeitura do Recife.

Ficha técnica:
Idealização e dramaturgia: Letícia Leão
Direção artística/encenação: Juliana França e Letícia Leão
Elenco: Carolina Godinho, Juliane Cruz e Monique Vaillé
Direção de movimento: Camila Rocha
Direção musical: Dani Nega
Direção de imagem: Clara Acioli
Cenografia: Alice Cruz
Assistente de cenógrafa: Lara Aline
Operação de luz: Tayná Maciel
Operação de som e vídeo: Igor Borges
Figurino: Carla Ferraz
Visagismo e maquiagem: Diego Nardes
Assistente de visagismo: Lucas Tetteo e Nata Di Paula
Direção de produção: Monique Vaillé
Produção executiva: Nely Coelho
Assistente de produção: Thiago Miyamoto
Produção da logística do projeto: Fabíola Godoi
Produção de acessibilidade: Gaby Krüger
Administração financeira: Delas Cultural
Prestação de contas: Marejar Produções e Delas Cultural
Assessoria de imprensa: Monica Ramalho e Mario Camelo
Programação visual: Fernanda Varella e Pablo Meijueiro
Mídias sociais: Sofia Paiva
Imagens de videochamada retiradas do filme O Fundo dos Nossos Corações

Peça aborda com coragem e honestidade temas como famílias LGBT+ e criação de filhas/os pela via da adoção. Foto: Monica Ramalho

 

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Ter Exu como princípio: estranhar a cronologia
Crítica: HBLynda em TRANSito
Por Annelise Schwarcz*

HBLynda em TRANSito participou do OFFRec, na programação do FRTN. Foto: Ricardo Maciel/Palco Pernambuco

O que é ser homem? O que é ser mulher? A gente nasce mulher ou se torna? Como esses gêneros são construídos? Culturalmente? Biologicamente? É possível ser homem e mulher? É possível ser nenhum dos dois? O que acontece com quem recusa os quadros de reconhecimento impostos, ou seja, quem recusa ser enquadrado pelas categorias disponíveis? O que é ser não binário? O que significa ser ciborgue? A gente nasce ciborgue ou se torna? Essas são algumas questões que têm animado as discussões das teorias queer, um campo relativamente recente com menos de oito décadas de existência, e seus desdobramentos podem ser encontrados nas obras de autoras/es como Monique Wittig, Judith Butler, Donna Haraway, Paul B. Preciado e Jack Halberstam – apenas para citar alguns exemplos. Nos últimos anos, as teorias em torno dos modos de vida queer têm se popularizado e extrapolado o âmbito acadêmico, ganhando repercussão especialmente nas artes da cena e nas ruas.

HBLynda em TRANSito, espetáculo de HBLynda Moraes apresentado no OFFRec 2025 durante o 24º Festival Recife do Teatro Nacional, é mais uma montagem que se soma ao grande corpo de produções em torno da temática queer. A peça conta em primeira pessoa a vida de HBLynda Moraes – pessoa trans não binária – desde os primeiros confrontos, ainda na escola, com a não conformidade com a performance da masculinidade até o encontro com seu novo nome e identidade de gênero em trânsito. A dramaturgia segue de forma cronologicamente linear os marcos traumáticos e os prazeres da descoberta, costurados por danças aos orixás Exu, Ogum, Oxum e à Pombagira 7 Catacumbas. Com Exu, HBLynda abre os trabalhos, com Dona 7 Catacumbas dança os vivos e os mortos, com Ogum tem força para enfrentar as violências e vencer as batalhas, e com Oxum gesta um novo nome, uma nova forma de ser e estar no mundo.

Da direita para a esquerda, o cenário montado no teatro Hermilo Borba Filho é composto por quatro cadeiras ao centro, próximas a quatro lousas acopladas umas às outras e, ao lado delas, uma mesa com uma miniatura da Torre Eiffel e dois porta retratos sobre ela, um bambolê led no chão. Agora pensa numa peça generosa: logo na entrada você ganha shot de cachaça, tangerina, pompom de festa e ainda é recebida/e/o por arruda e alecrim macerados, espalhados pelo chão, perfumando o ambiente. A peça ainda conta com momentos interativos com o público como, por exemplo, distribuição de coxinhas e uma aula sobre gênero e performatividade, além de trilha sonora e sonoplastia ao vivo de Raphael Venos.

No entanto, em alguns momentos, tantos elementos sendo ofertados ao público resultam em um esvaziamento do sentido de alguns dispositivos. Por exemplo, ao distribuir as coxinhas durante o depoimento da mãe de HBLynda, os burburinhos das pessoas aceitando ou recusando, assim como a conversa em torno do quão gostoso estava o salgadinho compete com o volume do vídeo, prejudicando a compreensão do relato. Em outro momento, começa a tocar a música do Xou da Xuxa e somos convidadas/es/os a balançar nossos pompons azul e rosa que ganhamos na bilheteria ao adquirir os ingressos. O show é interrompido abruptamente quando HBLynda pede ajuda da plateia para revelar o sexo do bebê e brinca que nós, plateia majoritariamente cis, devemos adorar um chá de revelação. Depois, a cena se metamorfoseia em uma aula a partir da pergunta “quem sabe como o gênero é constituído?” e a breve cena em torno dos pompons, que estávamos carregando desde antes de entrar no teatro conosco, parece gratuita. 

Espetáculo leva à cena discussões da teoria queer que extrapolaram o ambiente acadêmico nos últimos anos. Foto: Ricardo Maciel/Palco Pernambuco

A dramaturgia é voltada para o público cis e busca oferecer letramento acerca de questões como sexo, gênero e transição. A performer explica que transicionar não é como “um botão do BBB, que você aperta para sair” e que, sobretudo para pessoas trans não binárias como ela, o gênero está em trânsito. Gênero em encruzilhada: muito ela para ser ele, muito ele para ser ela. Da mesma forma, a peça situa-se numa encruzilhada na qual, por vezes, supõe a ignorância de seu público e por isso aposta no didatismo, como quando questiona “quem sabe como o gênero é constituído?” e, ao receber como resposta o silêncio da plateia, HBLynda responde que o gênero é constituído socialmente e nos faz repetir em coro: “nem toda pessoa de pau é homem, nem toda pessoa de buceta é mulher”. Por outro lado, em outros momentos, aposta que termos como “enquadramento” de Judith Butler ou “corpo ciborgue”, conceito de Donna Haraway que se refere a um corpo composto por ficções políticas contraditórias, dispensam apresentações. 

HBLynda canta o desejo de “não ser quadrada” ou “ser enquadrada” nas normas sociais, nos quadros de reconhecimento disponíveis. A performer relembra a forma que crianças na escola, só de ver sua letra redonda e caprichada, começaram a expor sua feminilidade para ela mesma que, até então, vivia alheia a essas questões. Foram anos tentando disfarçar e se adequar, sobrevivendo às violências até que pudesse se encontrar. Um pouco antes de saudar Oxum e celebrar seu renascimento, HBLynda relembra o itan “Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que lançou hoje”. Exu abre a apresentação, mas não (des)organiza a cronologia. A peça autobiográfica poderia se nutrir do princípio exusíaco – proferido pela própria performer e dramaturga – na construção da dramaturgia, reposicionando a convencional narrativa que parte da infância à vida adulta, quiçá revendo até os eventos traumáticos como pontos de referência. Se tudo é trânsito, a identidade e a memória se tornam ilhas de edição: o nascimento pode ter sido a morte dos pais, a aula pode acontecer sem interromper o show e o pedido para contar uma memória do passado, pode se tornar o convite para vislumbrar um futuro. 

*A cobertura crítica da programação do 24º Festival Recife do Teatro Nacional é apoiada pela Prefeitura do Recife

Ficha técnica:
HBLynda em TRANSito
Idealização, dramaturgia e atuação: HBlynda Morais
Direção artística/geral: Emmanuel Matheus
Produção executiva: Juliana Couto
Direção musical e músico: Raphael Venos
Preparação coreográfica/corporal: Aline Gomes
Iluminação: Cleison Ramos (Farol Atelier da Luz)
Figurino: Agrinez Melo
Confecção do figurino: Mariana Barbosa
Programação visual e monitoramento de redes: Bagasá / Emmanuel Matheus

Biografia é utilizada como material para elaboração da dramaturgia. Foto: Ricardo Maciel/Palco Pernambuco

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Entre cisnes e aves de rapina
Crítica: 16 gramas:
peça para Emagrecer
Por Annelise Schwarcz*

Eu vivi com raiva, a ignorando, me alimentado dela, aprendendo a usá-la antes de ela destruir minhas visões, durante a maior parte da minha vida. Uma vez respondi em silêncio, com medo do peso. Meu medo da raiva não me ensinou nada. Seu medo da raiva não irá te ensinar nada também.
Audre Lorde

116 gramas: peça para Emagrecer, com Letícia Rodrigues. Foto de Marcos Pastich/PCR.

“Eu nunca vi uma pulsão de morte tão desnuda em cena.” Escrevi para um amigo após sair de 116 gramas: peça para emagrecer. Não que eu possa falar com muita propriedade sobre o que é pulsão de morte e é certo que, caso eu pare para pensar, eu vá me lembrar de mais meia dúzia de peças que eu poderia estampar com esse slogan: “que bela maneira de encenar a pulsão de morte”. O fato é que eu respeito muito a intuição e gosto de manter frescas as primeiras palavras, as primeiras impressões. E foi assim que veio. Dito isso, sendo verdade ou não, fiquemos com essa frase inicial. Entendo pulsão de morte – talvez até de forma muito vulgar – como a tendência à autodestruição, ao desligamento, à aniquilação, ao desfazer-se. O que não significa que não haja a possibilidade de criar, construir e produzir atravessada/o por essa tendência. Esse é o ponto aqui. Tem ligações que só podem ser feitas após alguns desligamentos; caminhos que só podem ser atravessados depois de termos deixado para trás certa bagagem. Ou ainda, para ficar com as palavras de Gilberto Gil:  “tem que morrer para germinar”. 

A protagonista de 116 gramas: peça para emagrecer, uma personagem chamada “a Gorda”, é resultado de um encontro entre a autoficção e a autobiografia da atriz e dramaturga Letícia Rodrigues, que assina também a direção da montagem, em parceria com João Pedro Ribeiro. Ao longo do espetáculo, vemos no palco, junto com a atriz, apenas um biombo transparente, uma amarração de plástico branco que remete a um saco de pancadas ou uma ave, uma roupa preta de bailarina e um telão ao fundo. São as operações de luz e som feitas por Felipe Stucchi e Lana Scott, respectivamente, as responsáveis por adicionar textura e dinamismo às cenas. 

A chegada da atriz, vinda do fundo da plateia, interrompe os dez minutos de lavagem cerebral a que nós, espectadores e espectadoras, estávamos sendo submetidos/as enquanto aguardávamos o início do espetáculo assistindo a um compilado de propagandas da Pepsi nas quais Britney Spears participou. O foco, na maioria dos planos, era a fina silhueta de Britney ou das demais cantoras com ela, como na propaganda com Pink e Beyoncé cantando We will rock you. A peça já havia começado. Já estávamos sendo introduzidos/as a um dos principais eixos da peça: a pressão estética sobre os corpos de mulheres e os efeitos físicos e psíquicos deixados pelas tentativas de se adaptar. 

A montagem – que compõe a programação do 24ª Festival Recife Nacional de Teatro, cujo tema é  “Vozes Femininas” – cresce em relevância nesse cenário. Ao falar sobre Britney Spears ou Gisele Bündchen como referências da adolescência, a personagem traz luz à forma como nós, enquanto mulheres, crescemos com essas referências femininas de magreza, branquitude e fragilidade, expostas irrefletidamente a todos esses padrões e, hoje, vemos que nem mesmo aquelas mulheres que definiram para as demais o que é um ideal de beleza, conseguiram sobreviver a esse padrão. Mesmo a Britney é vítima da estrutura que ela – conscientemente ou não – reforçou durante anos e que segue produzindo novas vítimas; moída pelo mesmo sistema que a levou à fama. 

O sonho da Gorda, como nos diz a personagem, era ser atriz; dançar e causar o efeito que Britney causava. Ela – que já teve o Índice de Massa Corpórea (IMC) 50, o que corresponde à obesidade mórbida de acordo com os números estipulados pela Organização Mundial de Saúde – tinha que emagrecer, mas não sustentava ir para crossfit, nadar, lutar, essas coisas todas achava um saco e acabava abandonando. Então ela decide criar uma peça para emagrecer, porque se ela tivesse que fazer todo esse esforço físico, que fosse em um palco, que fosse uma peça. Após muitos cálculos e pesquisas, a Gorda conclui que ela precisa perder 116 gramas por peça para atingir aquilo que foi estipulado como o peso/o IMC ideal. Para isso, é preciso dançar, lutar, se agitar, fazer polichinelo, pensar, etc. Tudo isso realizado em cena, após se pesar nua em uma balança e dizer em voz alta o quanto está pesando naquela apresentação.

E é aí que entra com força a pulsão de morte descrita no parágrafo inicial: a vertigem entre o desejo de emagrecer, pois supostamente ela só seria feliz quando fosse magra, caminhando junto com a ideia de que para isso é preciso “eliminar metade de mim”, de que vai perder 116g em 116g até não restar mais nada. Apesar do medo de emagrecer e do medo de não se reconhecer após anos conformando sua subjetividade em torno do “ser gorda”, a personagem segue fazendo exercícios físicos enquanto repete inúmeras vezes o quanto odeia o próprio corpo, como odeia ser gorda e como odeia a ideia de ter que ser “body positive” (aceitar e amar o próprio corpo, positivando até mesmo as características fora do padrão de beleza). Ela segue fazendo polichinelos, deixando a pele sobressalente espancá-la a cada salto, o som de tapas ritmados que o polichinelo produz ou como na cena em que empreende uma luta contra uma sacola de plástico – que dentro da peça faz o papel de um cisne, remetendo ao balé Lago dos Cisnes que ela nunca pode dançar enquanto bailarina devido ao seu peso – ao som de Hit me baby one more time de Britney Spears mixado com violinos de balé clássico. 

A raiva do mundo – das cadeiras de plástico, das catracas de ônibus, das pessoas que dizem que ela é bonita de rosto ou das lojas de departamento que só produzem roupas femininas com zíperes frágeis –  se mistura com uma raiva de si mesma, mas essa raiva não estagna num lugar ressentido ou amargurado. Pelo contrário: abre espaço. Não encontrando as oportunidades para dançar balé ou ser atriz em um mundo de angels da Victoria’s Secret, a raiva da Gorda se torna um motor para criar sua cena, seu palco, seu balé, seus termos e, nesse processo, fazer as pazes consigo e com o mundo que a rejeitou. Nessa chave de interpretação, é possível ler o espetáculo como uma fresta para a intimidade de alguém – momento em que a ficção soa demasiadamente biográfica. A montagem não pretende falar em nome das pessoas gordas enquanto um coletivo homogêneo e nem se pretende uma cartilha didática. E, na minha perspectiva, esse é um ponto forte da montagem: estamos assistindo a uma singularidade, isto é, à forma singular que essa pessoa empreendeu uma saída de um circuito asfixiante. Nós, enquanto plateia, independente da nossa relação com a balança, assistimos como voyeurs o desnudar-se não apenas das roupas da Gorda, mas de todo um fluxo de pensamentos íntimos sobre ela mesma e sobre o mundo: suas metáforas, seus gostos, desgostos, histórias, referências, etc. 

A metáfora do Prometeu ao contrário é particularmente tocante. No mito grego, após ter roubado o fogo dos deuses e dado aos homens, o titã Prometeu é castigado por Zeus e tem todo dia seu fígado comido por um pássaro, mas à noite o fígado se regenera. Assim segue pelo restante da sua existência imortal. No caso da protagonista, o pássaro a alimenta. Todo dia ela emagrece um pouco e toda noite esse pássaro deposita comida em sua boca e a engorda mais. “Comer, comer até morrer”, ela cantarola. 

Digamos, com o perdão do trocadilho, que a montagem não tem medo de deixar o peso acontecer. Os expurgos de raiva da Gorda são seguidos por silêncios, respiros, pausas para beber água que não se preocupam em correr com algum alívio cômico para desfazer o desconforto. Os momentos de humor, como a longa viagem em torno da sociedade secreta dos Illuminati, por exemplo, não vem para desfazer o nó. Pelo contrário, adiciona mais uma volta, como uma espécie de desvio: endereçando críticas a essa sociedade secreta, a dramaturgia poupa a plateia de ouvir diretamente suas críticas à sociedade [nada secreta] do nosso convívio. O deboche em torno dos procedimentos estéticos a que figuras públicas precisam se submeter para continuarem na mídia não entra em contradição com os humores mobilizados em cenas anteriores ou posteriores. Todos os afetos habitam as mesmas paisagens, compõem uma mesma coreografia: o balé do Lago dos Cisnes com as aves de rapina.

*A cobertura crítica da programação do 24º Festival Recife do Teatro Nacional é apoiada pela Prefeitura do Recife

Ficha técnica:

Idealização, dramaturgia e atuação: Letícia Rodrigues
Direção: Letícia Rodrigues e João Pedro Ribeiro
Direção de arte: Eliseu Weide
Direção de movimento e coreografia: Luaa Gabanini
Direção musical: Natália Nery
Composição e arranjo de trilha sonora: Lana Scott e Natália Nery
Gravação e mixagem: Lana Scott
Direção e edição audiovisual: Lana Scott
Técnica e operação de som: Lana Scott
Motion graphics: Pablo Vieira
Mapping e operação de vídeo: Lana Scott
Desenho de luz: Camille Laurent
Operação de luz: Felipe Stucchi
Coordenação de produção: leo Birche
Produção: Jéssyca Rianho
Comunicação visual e fotografia: Maria Luiza Graner
Planejamento estratégico de divulgação: Thiago Dias
Assessoria de imprensa: Pombo Correio.

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Eu quero é botar meu bloco na rua
Crítica do espetáculo
On veut/a gente quer
Por Annelise Schwarcz

On Veut / A Gente Quer, com Cia Ktha e elenco pernambucano: Guara Rios, Rodrigo Hermínio, Anna Batista, Maria Pepe, Caru dos Santos e Lucas Vinícius (FR/PE). Foto de Marcos Pastich/PCR.

A gente quer ser feliz, a gente quer amor, a gente quer históricas de amor, a gente quer passear de bicicleta, a gente quer sorrir, a gente quer ver cores sobre o mar, a gente quer ver pássaros voando, a gente quer se sentir bonito, a gente quer rir, a gente quer conhecer a Lua, a gente quer poder se maquiar sem pressa, a gente quer nossos amigos com a gente, a gente quer ser amada/o, a gente quer coisas contraditórias, mas as queremos mesmo assim, a gente quer riquezas distribuídas, a gente quer usar a raiva, a gente quer mudar o mundo, a gente quer ser justa/o, corajosa/o, reta/o, a gente quer ser sem medo, a gente quer crescer, a gente quer ter escolha, a gente quer justiça, a gente quer florestas de pé, a gente…

Com texto de Nicolas Vercken, On veut/ a gente quer é um manifesto por um mundo mais justo, igualitário, menos preocupado com o acúmulo de riquezas e mais preocupado com a qualidade de vida humana e não humana na Terra. O que nós queremos? Onde deixamos esse querer? Quem convidamos para querer com a gente? E o que acontece quando queremos juntas/os? Como quem aposta que querer é um verbo que se conjuga no coletivo, a companhia francesa Ktha tem reunido, nos últimos anos, artistas ao redor do mundo para interpretar o texto de On veut nas ruas de cidades como, por exemplo, Aurillac, Séoul e Recife.

O dispositivo performativo de On veut, devido à sua relativa simplicidade, é capaz de ser encenado e reinventado com diferentes grupos em diferentes línguas. O projeto começou na França em 2021, ainda durante a pandemia de COVID-19, e tem como objetivo reunir um coletivo temporário de performers – que podem variar entre 1 a 100 artistas – para interpretar a lista de quereres idealizados por Vercken para um público na rua. Sem personagens ou atribuições específicas de texto a determinada/o performer, a montagem consiste no uso de bancos ou cadeiras onde as/os artistas vão se alternar na interpretação da lista. A condução do espetáculo depende do entrosamento do grupo no revezamento ou sobreposição das falas, que ocorre de forma espontânea e, portanto, pode variar de uma apresentação a outra mesmo quando realizada pelo mesmo elenco.

No site da Ktha, é possível conferir um portfólio com os últimos projetos da companhia francesa, dentre eles: Tu es là [você está aqui] (2023), Demain arrive (je suis une autre toi) [amanhã virá (eu sou outro você)] (2020), Il n’y a plus (de ville) [não há mais (cidade)] (2016) e Juste avant que tu ouvres les yeux [assim que você abrir os olhos] (2015). Cada um desses projetos possui um dispositivo performativo distinto que opera como um manual de instruções – ou um jogo – para a montagem de um espetáculo independente de uma cidade ou elenco específico. Por exemplo, em Juste avant que tu ouvres les yeux [assim que você abrir os olhos], o manual tem a seguinte instrução: “uma performance a 3,5 km/h dentro de um caminhão rodando pela cidade com 3 performers”.

Para o 24º Festival Recife do Teatro Nacional, a companhia Ktha – representada por Nicolas Vercken e Laetitia Lafforgue – convocou seis artistas locais (Guara Rios, Rodrigo Herminio, Anna Batista, Maria Pepe, Ana Carolina dos Santos e Lucas Vinicius Silva de Lima) e se reuniu com elas/es primeiramente de forma remota e, a 10 dias do festival, se reuniram presencialmente para preparar o elenco. O resultado do processo foi apresentado entre o Paço da Alfândega e a Igreja Madre de Deus nos dias 22 e 23 de novembro. A montagem, com duração média de 50 minutos, flerta com um tom monótono ao longo da sequência de “a gente quer”, por vezes dispersando a atenção, que é recuperada a cada mudança de performer e/ou de dicção (aumentando o volume da voz, ou mantendo o volume padrão) e/ou mudando de plano (por vezes, as/os artistas estão sentadas/os, por vezes estão em pé sobre as cadeiras).

Os quereres assumiam diferentes afetos: transitando entre feições serenas e sorrisos a gritos de indignação e expurgos de raiva, as demandas de Nicolas Vercken, traduzidas para o português, foram endereçada através das/os intérpretes diretamente ao público como quem nos convida a querer junto, como quem aposta que suas demandas irão encontrar as nossas. Será que essas demandas são universalizáveis a ponto de rodarem o mundo e reverberarem em diferentes plateias da Coreia do Sul ao nordeste brasileiro? Eu, por minha vez, estava ansiosa pelo momento em que a plateia poderia adicionar alguns “a gente quer…” à lista. Não como quem quer consertar ou fazer recortes na lista original, mas como quem se afetou e quer colocar algumas demandas em praça pública também. Mais do que buscar uma identificação com todo e qualquer querer ali colocado, a montagem nos convida a tirar nosso desejo do âmbito privado e colocá-lo na rua; nos impele a tecer uma rede de desejos coletivamente, a falá-los em voz alta, a ouvir os quereres que nos circulam e a – por fim – conspirar juntas/os um outro mundo: o primeiro passo é querer. Você quer?

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