Guaramiranga celebra o teatro nordestino

Fabiana Pirro interpreta a Morte em Caetana, que está no Festival de Guamiranga. Foto: Clara Gouveia

Fabiana Pirro interpreta a Morte em Caetana, que está no Festival de Guamiranga. Foto: Clara Gouveia

A morte era denominada de Caetana, como moça ou como onça, pelo escritor Ariano Suassuna, que dizia que não gostava nem queria brincadeira com ela. A rezadeira Benta também não. E depois de apontar o caminho para várias almas perdidas, ela se depara com a dita-cuja. Tenta escapulir, tenta ludibriar essa figura sinistra. Sem êxito. A morte despacha a benzedeira para Reino do Invisível no espetáculo Caetana. Benta se reencontra com antigos conhecidos e terá que fazer uns ajustes de contas.

A montagem da Duas Companhias investe na identidade nordestina, na linguagem poética do humano diante da finitude. A obra leva a assinatura do espanhol Moncho Rodriguez e tem no elenco as atrizes Lívia Falcão como Benta e Fabiana Pirro como Caetana e outros personagens, bonecos que ela manipula. A peça está há 12 anos no repertório do grupo e já teve mais de  300 apresentações e foi vista por mais de 80 mil espectadores. A sessão integra a Mostra Nordeste, a principal do Festival, e ocorre neste domingo, às 19h30, no Teatro Rachel de Queiroz. Confira nossa última crítica ao espetáculo Experiência e graça de Caetana .

Caetana participa do 23° FNT ‐ Festival Nordestino de Teatro  de Guaramiranga (CE).  São 8 dias de montagens, oficinas, debates e cortejos,  com acesso gratuito a toda a programação, que tem patrocínio da CAIXA, apoio da  Coelce e da Secretaria da Cultura do Estado do  Ceará / Secult,  por meio da Lei Estadual de Incentivo  à  Cultura,  e  tem o apoio  institucional  da  Prefeitura Municipal de Guaramiranga, via  Secretaria da  Cultura e  Turismo.  A realização é  da Associação dos  Amigos da Arte de Guaramiranga ‐ AGUA.

Mostra Nordeste conta com nove espetáculos do Ceará, Pernambuco, Bahia, Maranhão e Sergipe. Além de Caetana, estão na programação A Casa, da Blitz Intervenções (CE);  Exercício sobre Medeia, do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes (PI); Interior, do Grupo  Bagaceira  de Teatro (CE); Nada como quando começou, de No  barraco da Constância tem! (CE);  O  Segredo da Arca de Trancoso, do Grupo  Vilavox  (BA); Para uma Avenca Partindo, do Teatro do Redentor  (MA); Senhora dos Restos, da  Cia.  Dicuri  (SE) e  Todo  Camburão tem um pouco de Navio  Negreiro,  da Associação  Artística Nóis de Teatro (CE).  A mostra não é competitiva, mas o público poderá eleger o Melhor Espetáculo, que receberá o Troféu Beija‐Flor.

Grupo Bagaceira apresenta o espetáculo Interior. Foto: Divulgação

Grupo Bagaceira apresenta o espetáculo Interior. Foto: Divulgação

O Grupo Bagaceira de Teatro, do Ceará, com a peça Interior inicia a maratona. Confira nossa escrita crítica de Interior Igual a carinho de “vó”.

O festival também conta com o elogiado solo Estamira ‐ Beira do Mundo, com a atriz  carioca  Dani Barros, dirigida por Beatriz Sayad. Leia como foi a exibição de Estamira no Recife, no 15º Festival Recife do Teatro Nacional: Estamira de Dani Barros.

Durante a semana o FNT também alimenta um braço formativo com oficinas, fórum e encontros.

A peça de Gero Camilo Caminham nus empoeirados, sobre a arte de representar e seguir em frente,  é a convidada desta  edição para encerrar o festival, no sábado (10).  Com direção em parceria com Luísa Pinto, Gero Camilo divide a cena com Victor Mendes.

Anualmente o FNT recebe montagens do  circuito Palco Giratório, do SESC. Este ano o reforço ao repertório de peças vem da companhia Teatro de Açúcar, de Brasília, com o espetáculo Adaptação, com texto, direção e interpretação de Gabriel F.

SERVIÇO
23º  FNT  ‐  Festival  Nordestino  de  Teatro
De 03 a 10 de  setembro de 2016  em  Guaramiranga, Ceará.
GRATUITO
Informações: (85)3321‐1405,  fnt@agua.art.br.  http://fnt.agua.art.br/ acebook: fntguaramiranga.

LISTA  DOS ESPETÁCULOS DO 23° FNT 

MOSTRA CEARÁ CONVIDA
Dani Barros (RJ) ‐ Estamira – Beira do Mundo
Cia Tertúlia de Acontecimentos (Gero Camilo)  Caminham nus empoeirados

MOSTRA PALCO GIRATÓRIO ‐ SESC
Teatro de Açúcar (DF)  Adaptação

MOSTRA NORDESTE
Grupo Bagaceira (CE)  Interior
Duas Companhias (PE)  Caetana
Nóis de Teatro (CE)  Todo Camburão tem um pouco de Navio Negreiro
Dicuri Produções (SE) ‐ Senhora dos Restos
No barraco da Constância tem! (CE)  Nada Como Quando Começou
Coletivo Piauhy Estudio das Artes (PI)  Exercício sobre Medéia
Teatro do Redentor (MA)  Para uma Avenca Partindo
Blitz Intervenções (CE)  A Casa
Vilavox (BA)   O Segredo da Arca de Trancoso

MOSTRA NORDESTE UNIVERSITÁRIA
Turma Pois Taí ‐ 2011.2 (IFCE)  Casamata
Criadagem (UFC)  Criadas
Coato Coletivo (UFBA)  Maçã
Projeto Homens de Saia (UFPB)  No Mundo da Rua
Coletivo Nós Artistas  Neuza 
Estoriatores de Teatro (IFCE)  Cena:  Manual
Júnior Martins (UFC)  Cena:  Grande Edgar
Andréia Pires (URCA)  Cena: Para acabar com…

MOSTRA PALCO CEARÁ
Silvia Moura  A Dança Nossa de Cada Dia
Coletivo Rei Leal   O Auto do Rei Leal
Grupo Formosura  Os Miseráveis
Pavilhão da Magnólia  Baldio
Teatro de Caretas  Final da Tarde
Grupo Dona Zefinha (Solo de Orlângelo Leal) ‐ Autômato
Bricoleiros   Quatro Patas
Cia Gira de Teatro   Diário de um Louco
Ninho de Teatro   Poeira

HOMENAGEM ‐ 25 ANOS DO CPBT
Grupo CPBT/TJA   Agulha Fina
Grupo CPBT/TJA  Voo aos Pássaros
Juliana Veras  Clitemnestra ‐ Mito, Atriz, Personagem
Grupo CPBT/TJA   Afoita

FNT PARA CRIANÇAS ‐ SESC
Cia Prisma de Arte   As Aventuras de João Sortudo
Epidemia de Bonecos   Mamulengos contra o Mosquito
Kiko Brasil Produções  A Turma do Chaves num Sonho de Criança
Palmas Produções   A Menina dos Cabelos de Capim
Comedores de Abacaxi S/A   Entra na Roda ‐ Brincadeiras dos Tempos da Vovó
Trupe Caba de Chegar  A Fábula do Monturo Velho

MÚSICA NO FNT
Trovador Eletrônico
DJ Renatinha
Jazzera e Soraya Novaes
Xote Serrano
A Turma do Pralet
Orquestra Cidade da Aarte   Escola de Música de Guaramiranga
Vanildo Franco em palco aberto
Serráqueos e Tambores de Guaramiranga

RESUMOS DE ESPETÁCULOS

MOSTRA CEARÁ CONVIDA

Estamira ‐ Beira do Mundo ‐ Solo da atriz Dani Barros com direção de Beatriz Sayad (RJ)

Estamira, com Dani Foto: Luis Alberto Gonçalves

Estamira, com Dani BarrosFoto: Luis Alberto Gonçalves

Espetáculo do Rio de Janeiro é livremente inspirada no documentário Estamira, do diretor Marcos Prado. Uma catadora de lixo, doente mental crônica, com uma percepção do mundo surpreendente e devastadora. A peça não só é um documentário sobre Estamira, mas também um depoimento pessoal e artístico de Dani Barros, que reconheceu  na história da personagem da vida real retratada no filme de Marcos Prado parte da sua  experiência  pessoal. O pano de fundo da história é o lixão, porta pela qual adentramos o  universo  de  Estamira.  Lá  são encontradas  cartas,  memórias,  histórias  que  não  conseguimos jogar fora.

Caminham nus empoeirados – Cia Tertúlia de Acontecimentos (Gero Camilo)

Com Gero Camilo e Foto: Cacá Diniz

Com Gero Camilo e Victor Mendes. Foto: Cacá Diniz

Em cena, Gero Camilo e Victor Mendes interpretam dois atores que abandonam a Companhia  e seguem em dupla pela estrada. Suas  aventuras e desventuras. Seus números e truques. Labuta e peleja. Uma comédia. Uma crítica social. Um número de  circo. Uma declaração de amor ao teatro e a vida. Gero Camilo divide a direção com Luisa Pinto.

MOSTRA PALCO GIRATÓRIO ‐ SESC

Adaptação – Teatro de Açúcar (DF)  

Adaptação. Foto: Diego Bresani

Adaptação. Foto: Diego Bresani

O espetáculo foca na história de personagens num momento de adaptação como meio de  sobrevivência:  Um  diretor  teatral  frustrado  que  não  consegue sair  de  uma  crise  criativa  e  decide mudar  de  profissão; Uma  atriz recém‐ chegada à cidade grande que precisa se acostumar à solidão do novo estilo de  vida;  Uma  transexual  que  adaptou  seu  corpo  para  poder  seguir  vivendo  nele;  Um dinossauro que não sabe se sobreviverá às adaptações  da espécie. Todos estão unidos por um drama em comum: o medo de morrer, se transformar, deixar de existir… como se um escritor escrevesse ou adaptasse suas histórias, recriando, agregando e, o mais temível, eliminando personagens.

Interior  – Grupo Bagaceira (CE)

Interior, doGrupo Bagaceira. Foto: Henrique Kardozo

Interior, do Grupo Bagaceira. Foto: Henrique Kardozo

Um espetáculo irreverente e ao mesmo tempo singelo. Repleto de afeto,  que nem o bolo das avós. Assim o Grupo Bagaceira de Teatro (CE) define Interior, com  direção  de  Yuri  Yamamoto. No ano da estreia ganhou  os prêmios  de melhor Espetáculo e  Melhor Atriz (Tatiana Amorim)  no Destaques do Ano 2013.

MOSTRA NORDESTE

Caetana – Duas Companhias (PE)

Caetana, da Duas Companhias. Foto: Renata Pires

Caetana, da Duas Companhias. Foto: Renata Pires

Um espetáculo de Moncho Rodriguez, com Lívia Falcão e Fabiana Pirro, da pernambucana Duas Companhias. Há 12 anos em cartaz, a peça já teve mais de 300 apresentações e foi vista por mais de 80 mil espectadores. Em 2005, Caetana recebeu seis dos dez prêmios do Janeiro  de Grandes Espetáculos, no  Recife:  melhor  atriz,  atriz  coadjuvante,  produção,  figurino,  maquiagem  e  prêmio  especial de dramaturgia.

Todo camburão tem um pouco de navio negreiro – Nóis de Teatro (CE)

Todo camburão, do grupo Nóis de Teatro. Foto: Divulgação

Todo camburão, do grupo Nóis de Teatro. Foto: Divulgação

O espetáculo do cearense Nóis de Teatro foi vencedor do Prêmio Funarte de Arte Negra. É uma tragédia afro com elementos alegóricos e representativos do universo do movimento negro no Brasil, em reverência e referência direta à mitologia dos Orixás.

Senhora dos Restos – Dicuri Produções (SE)

Sob direção de Iradilson Bispo, a atriz Isabel Santos interpreta Senhora dos Restos

Sob direção de Iradilson Bispo, a atriz Isabel Santos interpreta Senhora dos Restos

A  peça da  Dicuri  Produções é um monólogo encenado pela atriz Isabel Santos, um dos mais importantes nomes da cena  teatral sergipana. São quase 40 anos de carreira, 33 dos quais junto ao Grupo Imbuaça, onde permaneceu até 2013. Senhora dos Restos ‐ texto de Euler Lopes com direção de Iradilson Bispo ‐ propõe uma reflexão sobre o mundo dos invisíveis, os moradores de rua, com suas angústias, medos, mortes e luta pela sobrevivência.

Nada Como Quando Começou – No barraco da Constância tem! (CE)

Nada como quando começou, do Grupo No Barraco. Foto: Luiz Alves

Nada como quando começou, do Grupo No Barraco da Constância tem. Foto: Luiz Alves

Trabalho do grupo No barraco da Constância tem! (CE) resultante de um projeto de investigação dramatúrgica realizado em 2014 no Laboratório de Pesquisa Teatral do Porto Iracema das Artes. A direção é coletiva.

Exercício sobre Medeia – Coletivo Piauhy Estudio das Artes (PI)

Exercicio sobre Medeia. Foto: Divulgação

Exercício sobre Medeia. Foto: Divulgação

A tragédia de Eurípedes volta à cena do FNT, dessa vez com o Coletivo Piauhy Estúdio das Artes. No palco, a premiada atriz Silmara Silva, uma das mais festejadas da nova geração do Teatro piauiense.  Ela e o diretor Adriano Abreu assinam a adaptação dramatúrgica, livremente inspirada  na tragédia  grega Medeia,  a  partir  de  textos originais  de  Cecília  Meireles,  Chico  Buarque  e  Paulo  Pontes,  do  Ritual  de  Invocação de Hécate e de Silmara Silva.

Para uma Avenca Partindo – Teatro  do  Redentor/MA

Ator Josué Redentor. Foto: Divugação

Ator Josué Redentor. Foto: Divugação

Nesta adaptação do texto de Caio Fernando Abreu, o intérprete Josué Redentor divide o palco com o pianista Evgeny Itskovick. O poema dramático versa sobre efemeridade, abandono e o vazio nas relações amorosas. A montagem é do  grupo  maranhense Teatro  do  Redentor, sob  a  direção de Áurea Maranhão.

A Casa – Blitz Intervenções/CE

Espíritos presos na moradia de várias gerações. Foto: Divulgação

Espíritos presos na moradia de várias gerações. Foto: Divulgação

Adaptação da obra literária homônima da escritora cearense Natércia Campos. A peça passeia por histórias vividas por uma família durante várias gerações. A narrativa, no entanto, é feita pela própria Casa que, junto às almas que ali habitam, presas em missão de penitência, revive as agruras ocorridas nos seus interiores.  Esta é a segunda montagem da peça pelo grupo cearense Blitz Intervenções, tendo estreado no final de 2014 para homenagear a autora nos 10 anos de sua morte. A primeira montagem, de 2006, esteve no XIII FNT.

O segredo da Arca de Trancoso – Vilavox/BA

Peça é inspirada na oralidade nordestina. Foto: João Meirelles/ Divulgação

Peça é calcada na oralidade nordestina. Foto: João Meirelles/ Divulgação

Espetáculo de rua inspirado nos contos orais do Nordeste.  Em 2012 estreou internacionalmente apresentando‐se para mais de 1000 espectadores do Sommerwerft Theater Festival, em Frankfurt, na Alemanha. Contemplado pelo Prêmio Myriam Muniz, em 2013 circulou na Bahia, Sergipe e Alagoas.  Em 2013, recebeu o Prêmio Braskem de Teatro como Melhor espetáculo Infanto‐Juvenil de 2012.

MOSTRA NORDESTE UNIVERSITÁRIA

Criadas – Criadagem/UFC

Baseada na peça de Jean Genet. Foto: Divulgação

Baseada na peça de Jean Genet. Foto: Divulgação

A peça Criadas nasceu de um processo colaborativo coordenado pela diretora Angela Deyva, durante a disciplina Práticas de Encenação, conduzida pelo professor Ricardo Guilherme, no curso de Teatro‐Licenciatura da Universidade Federal do Ceará. A obra, uma adaptação do texto As Criadas, do dramaturgo francês Jean Genet, aborda as relações de poder e o jogo  instável  entre  as  figuras  de  uma  madame que exerce autoridade e as criadas que executam os desejos de sua senhora,  sempre  friccionando  suas  ações  em  pequenos  atos  de  rebelião  grotesca.  O espetáculo estreou em junho de 2015.

No Mundo da Rua – Projeto Homens de Saia/UFPB

No mundo da rua. Foto: Milena Medeiros

No mundo da rua. Foto: Milena Medeiros

Em 2015, o projeto Homens de Saia inaugurou No Mundo da Rua, levando para a cena temas variados sobre a vida cotidiana e urbana, como vendas, trocas, encontros, despedidas, violência e relações interpessoais. A montagem resultou em um experimento cênico‐musical, de caráter performático, alicerçado por meio de observações dos tipos que habitam a rua e de experimentações práticas em sala de ensaio com dramaturgia plural, cheia de textos e  canções criadas em processo colaborativo.

Casamata – Turma Pois Taí ‐ 2011.2  /  IFCE

Reflexões sobre a vida social em Casamata. Foto: Divulgação

Reflexões sobre a vida social em Casamata. Foto: Divulgação

Casamata é uma fortificação europeia, uma construção arquitetônica subterrânea usada para alojamento de tropas, munições e materiais alimentícios. Abrigo de pessoas, possui uma parte superior abobada um pouco acima do solo com pequenas entradas de luz. A montagem do IFCE, utiliza do termo europeu para discutir e refletir sobre questões da vida social do homem, tais como: as regras e normas, abandono e desejos utópicos. Casamata, espetáculo oriundo da disciplina TCC I ‐ Montagem de espetáculo do Curso de Licenciatura em Teatro do IFCE.

Maçã  – Coato  Coletivo/UFBA

Investigação cenicas da turma de teatro da UFBA. Foto: Talita Andrade

Investigação cênica da turma de teatro da UFBA. Foto: Talita Andrade / Divulgação

Maçã aprofunda a pesquisa desenvolvida pelos atores/performers do Coato, que buscam entender a urgência das relações sociais contemporâneas e as transversalidades entre arte  e sociedade em um processo de investigação que considera a Etnocenologia uma ferramenta  primordial para o encaminhamento às respostas. A poética de estudo nasce da criação colaborativa em experimentos internos que reúnem todas as integrantes envolvidas com propósito de criar a base de uma dramaturgia previamente pensada e elaborada para tal ação. Colocamos em cena questões para reflexão sobre ser mulher, ser coletivo, ser enquanto parte indissociável do outro, sobre estética contemporânea e quedas físicas.
Etnocenologia é um termo formulado por Jean-Marie PRADIER, em 1995, para designar o estudo das práticas espetaculares de diferentes culturas sob uma perspectiva analítica não eurocêntrica e atenta ao aspecto global das manifestações expressivas em questão, incluindo suas dimensões físicas, espirituais, emocionais e cognitivas. Seu objetivo é estudar essas formas tomando-as não mais a partir da referência ao teatro ocidental, mas remetendo a práticas e conceitos correntes nas culturas e civilizações em que são produzidas. ((Rubrica do Dicionário do Teatro Brasileiro, página 139)

Coletivo Nós Artistas ‐ Cena: Neuza

Estoriatores de Teatro (IFCE) ‐ Cena: Manual

Júnior Martins (UFC) ‐ Cena: Grande Edgar

Andréia Pires (URCA) ‐ Cena: Para acabar com…

MOSTRA PALCO CEARÁ

A dança nossa de cada dia – Silvia Moura

Silvia Moura transborda os  limites do desejo do já dançado. Foto: Divulgação

Silvia Moura transborda os  limites do desejo do já dançado. Foto: Divulgação

Solo de Silvia Moura, povoado de pessoas e sombras. Uirá dos Reis traz os sons que se fazem  música, João Paulo Pinho cuida, segura a mão, faz as passagens entre as cenas, Jean dos  Anjos faz as imagens que serão memória e Luiz Mendonça é o Tutor,  que acompanha, sonha e  conspira junto. Esta é mais uma dança, mais um mergulho para um canto de Silvia, mais um encontro  entre ela e outros. Dançar é assim: comigo e com o outro. Mais um desejo de transbordar os  limites do já dançado, mais um questionamento compartilhado, mais um lixo dividido e salvo, mais um pouco de mim vazado.

O Auto do Rei Leal – Coletivo Rei Leal

Adaptação de O Rei Lear para a linguagem do cordel. Foto: Divulgação

Adaptação de O Rei Lear para a linguagem do cordel. Foto: Divulgação

Rei Lear, de Shakespeare, recebeu várias montagens teatrais, bem como releituras no cinema e na televisão. A sua atualidade é inegável. Aqui temos a grata adequação à realidade nordestina, contada na linguagem de cordel pelas hábeis mãos do poeta José Mapurunga em encenação com a direção de Alcântara Costa. Cansado de suas obrigações, o cego Rei Leal decide dividir seu reino com as três filhas, Goneril, Zuleide e Cordélia. Sua generosidade seria medida pelo afeto demonstrado por cada uma.

Os Miseráveis  – Grupo Formosura

Peça utiliza técnica de teatro de bonecos geminado e tem texto baseado em Victor Hugo. Foto: Divulgaão

Peça utiliza técnicas de teatro de bonecos geminado e tem texto baseado em Victor Hugo. Foto: Divulgação

Encenação gestada no laboratório de pesquisa teatral do Porto Iracema das Artes, do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, com a tutoria de Duda Paiva, bailarino e bonequeiro brasileiro radicado na Holanda há quase 20 anos. A montagem faz parte do processo de investigação sobre a técnica do boneco geminado. O texto base para a realização da  encenação é Os  Miseráveis, de  Victor Hugo.  A montagem traz o inferno das desigualdades sociais através de personagens dramáticas profundas e intensas.

Baldio  – Pavilhão  da  Magnólia

Baldo. Foto Divulgação

Baldio. Foto Divulgação

Cinco atores. Cinco quadros cênicos abordando histórias reais do próprio grupo.  Um atravessamento de temas, como a morte, o estar‐ no‐mundo, a possibilidade do encontro,   que se costuram por meio dos relatos, em uma junção de cena, audiovisual  e literatura.  A  figura do cão, precisamente, do vira‐latas, em sua dimensão de abandono, constituiu a dobra a partir da qual memória e representação questionaram seus limites e desenharam a moldura de Baldio, espetáculo do grupo Pavilhão da Magnólia. O texto foi originado durante o próprio processo de criação, com assinatura do dramaturgo paraibano Astier Basílio  (prêmio  Funarte de literatura 2014). A direção se dá em parceria com Héctor Briones, coordenador do grupo  de pesquisa Laboratório de Poéticas Cênicas e Audiovisuais (LPCA) do ICA‐UFC.

Final da Tarde – Teatro  de  Caretas

Proximidade e intimidade entre transeunte e atores são os elementos centrais na peça dirigina por André Carreiras. Foto: Divulgação

Proximidade e intimidade entre transeunte e atores são os elementos centrais na peça. Foto: Divulgação

Resultado da pesquisa A cidade como dramaturgia: uma experiência de atuação na rua,  com orientação de pesquisa e direção do espetáculo de André Carreira,  Final da Tarde,  do  grupo  Teatro de Caretas, propõe uma vivência de  atuação cênica baseada no detalhe da  interpretação, onde proximidade e intimidade entre transeunte e atores são os elementos  centrais. Um aspecto importante é que os transeuntes não serão previamente informados da  peça.  Não há palco nem formalidades de início e fim. A história de uma mãe, seu filho e seu  marido no dia a dia da cidade invade uma praça, e Final da Tarde se desenrola no  instante cotidiano.

Autômato  – Grupo  Dona  Zefinha

Foto: Festvale

Artista celebra 25 anos de carreira. Foto: Festvale

O multifacetado Orlângelo Leal, do grupo Dona Zefinha, usa instrumentos musicais  excêntricos como o marimbau e a flauta nasal, produzindo efeitos sonoros ao vivo, combinando humor e  dança numa divertida   brincadeira  cenomusical, transversal e irreverente. A intervenção performática celebra seus 25 anos de carreira artística onde o intérprete/criador representa um ser compulsivo, esquizofrênico sonoro, que executa e grava músicas em tempo real com o  auxílio de um loop. As músicas compostas em cena viram pano de fundo para sua diversão,  prazer e gozo, aos poucos vão surgindo trilhas para dançar, manipular objetos, andar de  skate e para um diálogo visceral com o público.

Quatro Patas – Grupo Bricoleiros

“Quatro Patas” carinhoso que passa por alguns problemas de comportamento devido ao uso excessivo de seu videogame. Com uma linguagem simples e educativa, “Quatro Patas” traz para o público, de forma bem-humorada, a discussão sobre a dependência infantil de jogos eletrônicos.

Quatro Patas discute, de forma bem-humorada,  dependência infantil aos jogos eletrônicos.

Com uma linguagem simples e educativa, o Grupo Bricoleiros traz para o público de forma bem humorada um assunto atual bastante polêmico, a dependência aos jogos eletrônicos. A história é conduzida entre o amor de um gato para um menino. Paciência e superação é o foco principal que perpassa por todas as cenas. Um menino bitolado em videogame, condiciona‐se tanto ao jogo que se torna menos comunicativo e sociável com seu melhor amigo. Um gato vai mostrar que a tecnologia pode conviver com a artesania da amizade. Que há tempo para o virtual e para o real. Que a afetividade é tão divertida quanto a aventura dos jogos. Além de divertir e emocionar, o espetáculo passa para o público a sensação de estar assistindo a um filme de animação. Executado por um teatro feito com marionetes cartunizadas, trilha de sonora de anime e com uma animação de movimentos similares ao humano.

Diário de um louco – Cia Gira de Teatro

Diário de um louco, de Gogol

Diário de um louco, de Gogol

Nikolai Gogol, um dos maiores escritores do século XIX, usa uma linguagem ácida nesse conto que aborda a tragédia social e seus costumes, tendo como personagem central, um miserável funcionário público. Antonino Barnabé vive em seus delírios e devaneios apaixonados pela filha do diretor de sua repartição. Para o desenvolvimento da montagem deste espetáculo da Companhia Gira de Teatro, Paulo Ess, ator e diretor, responsável também pela concepção cênica, baseou sua investigação nos eixos estéticos: A linguagem minimalista e o Teatro do Absurdo. Apoiados pela linguagem minimalista, buscou trabalhar com o gesto essencial ao texto, à cena e à arte.

Poeira (Ninho de Teatro)

Esta montagem faz homenagem aos Mestres da Tradição Popular do Cariri. O espetáculo foi concebido a partir do material cênico gerado pelo experimento Tributo aos Mestres, que é resultado do projeto de pesquisa Memórias de Mestres – a mimeses corpórea dos Mestres da tradição popular do Cariri, que teve orientação do LumeTeatro – SP, através de Jesser de Souza e Carlos Simioni, e oficina de dramaturgia da cena com Miguel Rubio Zapata – Yuyachkani, Peru. Tem a dramaturgia, criação e interpretação de Edceu Barboza, Elizieldon Dantas, Jânio Tavares, Joaquina Carlos, Monique Cardoso, Rita Cidade, Sâmia Oliveira e Zizi Telécio, e a direção de cena de Edceu Barboza e Jesser de Souza.

HOMENAGEM ‐ 25 ANOS DO CPBT

Agulha Fina (Grupo CPBT/TJA)

Agulha Fina. Foto: Kekel Abreu

Agulha Fina trabalha com a questão da formação da identidade. Foto: Kekel Abreu / Divulgação

Agulha Fina é o espetáculo de conclusão do Curso Princípios Básicos de Teatro/CPBT, Turma Manhã 2016. Sob a direção de Juliana Veras, dramaturgia, encenação e música se desenvolvem em colaborativo, inspiradas na urgência do grupo em questionar a formação da identidade de cada um. Revisitando as personagens shakespearianas Hamlet e Gertrudes, o espetáculo apropria‐se da relação entre os dois e a recria na atualidade. A peça celebra a arte teatral e o CPBT em seus 25 anos de existência, coroados com a homenagem aos 400 anos de morte de William Shakespeare.

Voo aos Pássaros (Grupo CPBT/TJA)

Voo aos Pássaros. Foto: Divulgação

Voo aos Pássaros, uma jornada de uma menina e um andarilho desconhecido. Foto: Divulgação

A peça é resultado da criação coletiva da turma CPBT Tarde, iniciada em abril de 2015. Voo aos pássaros foi o primeiro espetáculo concluído no ano em que o CPBT completa 25 anos de atividades ininterruptas. A direção é de Joca Andrade, um dos criadores do CPBT. A peça conta a história de uma menina que, ao ser perder da família, busca chegar até a lendária cidade de São Saruê. Com a ajuda de um andarilho desconhecido, a criança inicia a jornada rumo à terra dos sonhos. No caminho, eles se deparam com um mundo caótico. A migração da menina é permeada pelo percurso trilhado por outros personagens, imersos em um contexto de opressão velada e latente.

Clitemnestra ‐ Mito, Atriz, Personagem (Juliana Veras)

Clitemnestra. Foto: Kekel Abreu

Clitemnestra faz conexão dos mitos gregos com a atualidade. Foto: Kekel Abreu

Clitemnestra – Mito, Atriz, Personagem revisita os atos hediondos na tragédia grega, provocando a reflexão sobre a relação dos mitos com a atualidade. O espetáculo celebra os 15 anos de teatro de Juliana Veras. Em cena, atriz dialoga com espectadores sobre a personagem que cometeu o ato extremo de assassinar o marido. A música se faz presente no canto à capela e nos objetos manipulados, mediando a ação. A inspiração no canto lírico, samba e teatro grego, sugerem o encontro entre diferentes culturas e épocas, numa atmosfera de suspensão e ritualidade.

Afoita (Grupo CPBT/TJA)

Afoita. Foto: Divulgação

Afoita. Foto: Divulgação

Numa vila de pescadores as atividades cotidianas são desenvolvidas como representação do dia a dia repressor que atinge os seres humanos, mas principalmente as mulheres. A relação mais estreita com o mar carrega a imagem da movimentação lideradas por mulheres cansadas do silêncio. A montagem tem texto e dramaturgia do grupo (Allyson Maia, Ariza Torquato, Átila Frank, Breno Luno, Bianca Rodigues, Vanessa Aguiar, Vanessa Loiola, Thiago Andrade), com direção de Neidinha Castelo Branco e Orientação Corporal de Cláudio Ivo.

FNT PARA CRIANÇAS ‐ SESC

As Aventuras de João Sortudo – Cia Prisma de Arte

As aventuras de João Sortudo

O aprendizado de um inocente em As aventuras de João Sortudo

O espetáculo As Aventuras de João Sortudo é uma adaptação de um conto popular, que busca a ludicidade, fantasia e musicalidade para contar a história do protagonista. Ele é um jovem rapaz da mais pura inocência que, após 7 anos trabalhando em uma fazenda, é mandado de volta à casa de sua mãe e durante o caminho passa por diversas situações que lhe trazem bons aprendizados.  A direção é de Raimundo Moreira.

Mamulengos contra o Mosquito (Epidemia de Bonecos)

O Mamulengo contra o mosquito

O Mamulengo contra o mosquito

Um coronel sem escrúpulos gosta de colecionar todo e qualquer tipo de material descartável no seu quintal. Até que um fato corriqueiro acontece: seus vizinhos começam a ficar doentes. São então alertados pelo médico local sobre o perigo deste ambiente. Mesmo assim, o coronel teima, o que deixa espaço para a articulação entre o ato da informação e o ato poético da peça. Com mais informações do médico, é provocado o olhar critico e coletivo, promovendo a limpeza do local, evitando assim as doenças causadas pelo aedes aegypti.

A Turma do Chaves num Sonho de Criança (Kiko Brasil Produções)

A turma do Chaves em um sonho de criança

A turma do Chaves em um sonho de criança

O musical A Turma do Chaves num Sonho de Criança é uma adaptação da famosa série de TV Mexicana que traz uma versão inédita para o teatro. Em cartaz há mais de dois anos e mais de trinta mil espectadores, o musical surpreende com a direção e concepção cênica de Francinice Campos e a experiência do elenco, despertando a imaginação das crianças e adultos de diversas gerações.

A Menina dos Cabelos de Capim (Palmas Produções)

História é inspirada no conto de fadas A menina e Figueira

História é inspirada no conto de fadas A menina e Figueira

O texto de Ricardo Guilherme, baseado no conto de fadas A menina e Figueira, narra a história de um senhor viúvo que tinha uma filha muito bonita, com os cabelos longo. Sua mãe em vida penteava e cuidava dos seus cabelos. Na vizinhança morava uma moça que queria se casar com o pai da menina e, por isso, fazia‐lhe tantos agrados. Depois do casamento, a madrasta começou a maltratar a menina, castigando‐ a pela falta mais insignificante. A direção do espetáculo é de Francinice Campos.

Entra na Roda ‐ Brincadeiras dos Tempos da Vovó (Comedores de Abacaxi S/A)

Entra na Roda. Foto: Gustavo Portela

Entra na Roda. Foto: Gustavo Portela

Quatro velhos amigos retomam o universo das canções e brincadeiras populares de antigamente. Em meio a implicâncias e pirraças, eles reconstroem em suas memórias a poesia, transformação e diversidade que marcam a formação do Brasil, constituída pelos vários povos que aqui passaram. Histórias que nos levam, através da música e da brincadeira, a lugares longínquos no tempo e que fazem parte da nossa cultura. Cantigas populares que foram passadas de geração em geração e que, mesmo hoje, ainda continuam marcando a infância de muitas crianças.

A Fábula do Monturo Velho (Trupe Caba de Chegar) ‐

A Fábula do Monturo Velho

A Fábula do Monturo Velho reflete sobre a aceitação das diferenças. Foto: Divulgação

A história se passa num terreno abandonado, onde vários animais obedecem às ordens ditadas pelo intransigente rei corujão, sendo impedidos de fazer escolhas de acordo com seus modos de vida. Como exemplo, a cobra que sonha em ser bailarina, vai encontrar dificuldades e intolerância dentro de parte do grupo. Os conflitos vividos pelos personagens levam a uma reflexão sobre a aceitação das diferenças. Em 2016 a Trupe ‘Caba de Chegar completa 26 anos de atuação no teatro de rua, marcando presença no cenário cultural cearense com seu trabalho irreverente, criativo e bem humorado.

FNT  PROGRAMAÇÃO GERAL

03/ SETEMBRO (SÁBADO)
16h – Cortejo de Guaramiranga
Local: Ruas de Guaramiranga

18h30 – Solenidade de Abertura
Local: Praça do Teatro Municipal

19h30 – Mostra Nordeste [Ceará]  
Espetáculo: Interior, do Grupo Bagaceira de Teatro
Classificação Etária: Livre – Duração: 90min
Local: Escola Profº Julio Holanda

20h30 – Mostra Ceará Convida [Rio de Janeiro] 
Espetáculo: Estamira – Beira do Mundo, do Grupo Estamira
Classificação Etária: 12 anos – Duração: 75min
Local: Teatro Rachel de Queiroz

22h – Música no FNT
Show: Canto Torto  40 anos do disco Alucinação  Belchior, com a Banda Trovador Eletrônico
Local: Praça do Teatro Municipal

0h – Música no FNT –  Dj Renatinha
Local: Odilon Bar

04/ SETEMBRO (DOMINGO)
10h – Ciclo de Debates Mostra Nordeste
Local: Sede da AGUA

12h – Música no FNT ‐
Grupo: A Turma do Pralet
Local: Central de Artesanato

18h – FNT para Crianças – SESC
Espetáculo: As Aventuras de João Sortudo, com o Grupo Companhia Prisma de Arte
Classificação Etária: Livre
Local: Tenda FNT

18h30 – Homenagem aos 25 anos do Curso Princípios Básicos de Teatro/TJA 
Espetáculo: Agulha Fina, com o Grupo: CPBT/TJA
Classificação etária: Livre – Duração: 50min
Local: Escola Profº Júlio Holanda

19h30 – Mostra Nordeste [Pernambuco] 
Espetáculo: Caetana, com o Grupo Duas Companhias
Classificação Etária: Livre – Duração: 60min
Local: Teatro Rachel de Queiroz

21h – Homenagem aos 25 anos do Curso Princípios Básicos de TJA
Espetáculo: Voo aos Pássaros, com o Grupo: CPBT/TJA
Classificação etária: Livre – Duração: 60min
Local: Teatro Dona Zilda (Escola Zélia de Mattos Brito)

22h – Música no FNT: Jazzera e Soraya Novaes
Local: Odilon Bar

05/ SETEMBRO (SEGUNDA)
10h – Ciclo de Debates Mostra Nordeste
Local: Sede da AGUA

15h – Homenagem aos 25 anos do Curso Princípios Básicos de Teatro/TJA
Espetáculo: Clitemnestra – Mito, Atriz, Personagem, com o Grupo Juliana Veras / CPBT
Classificação etária: 12 anos – Duração: 40min
Local: Teatro Dona Zilda (Escola Zélia de Mattos Brito)

18h – FNT para Crianças – SESC
Espetáculo: Mamulengos Contra o Mosquito, com o Grupo Epidemia de Bonecos
Classificação Etária: Livre
Local: Tenda FNT

19h30 – Mostra Nordeste Universitária [UFC] 
Espetáculo: Criadas, com o Grupo Criadagem
Classificação Etária: Livre – Duração: 45min
Local: Teatro Dona Zilda (Escola Zélia de Mattos Brito)

21h – Mostra Nordeste [Ceará]
Espetáculo: Todo Camburão Tem Um Pouco de Navio Negreiro, com o Grupo Nóis de Teatro
Classificação Etária: Livre – Duração: 120min
Local: Praça do Teatro

22h –  Música no FNT – Grupo: Xote Serrano
Local: Odilon Bar

23h –  Mostra Nordeste Universitária/Cenas Curtas 
Cena: Neuza, com o Coletivo Nós Artistas
Classificação Etária: Livre – Duração: 20min
Cena: Manual, com o Grupo Estoriatores de Teatro – IFCE
Classificação Etária: Livre – Duração: 18min
Cena: Grande Edgar, com o Grupo Junior Martins – UFC
Classificação Etária: Livre – Duração: 12min
Cena: Para Acabar Com…, com o Grupo Andréia Paris | URCA
Classificação Etária: 18 anos – Duração: 35min
Local: Teatro Rachel de Queiroz

06/ SETEMBRO (TERÇA)
10h – Ciclo de Debates Mostra Nordeste
Local: Sede da AGUA

15h –  Mostra Palco Ceará
Espetáculo: A Dança Nossa de Cada Dia, com o Grupo Silvia Moura
Classificação etária: Livre – Duração: 60min
Local: Teatro Dona Zilda (Escola Zélia de Mattos Brito)

18h – FNT para Crianças – SESC ‐
Espetáculo: A Turma do Chaves Num Sonho de Criança, com o Grupo Kiko Brasil Produções
Classificação Etária: Livre – Local: Tenda FNT

19h – Mostra Nordeste [Sergipe]
Espetáculo: Senhora dos Restos, com a Cia Dicuri Produções
Classificação Etária: 14 anos – Duração: 50min
Local: Teatro Rachel de Queiroz

20h30 – Mostra Palco Ceará 
Espetáculo: O Auto do Rei Leal, com Associação Grupo de Teatro os Cutubas
Classificação Etária: Livre – Duração: 55min
Local: Praça do Teatro

21h – Mostra Nordeste Universitária [UFPB]
Espetáculo: No Mundo da Rua, com o Projeto Homens de Saia
Classificação Etária: Livre – Duração: 40min
Local: Praça da AGUA

21h30 – Mostra Nordeste Universitária [IFCE]
Espetáculo: Casamata, com a Turma Pois Taí – 2011.2
Classificação Etária: 18 anos – Duração: 60min
Local: Escola Profº Julio Holanda

23h – Mostra Nordeste Universitária [UFBA]
Espetáculo: Maçã, com o Coato Coletivo
Classificação Etária: 18 anos – Duração: 60min
Local: Teatro Rachel de Queiroz

07/ SETEMBRO (QUARTA)
9h30 – Mostra Palco Ceará
Espetáculo: Os Miseráveis, com o Grupo Formosura
Classificação Etária: Livre – Duração:  50min
Local: Teatro Rachel de Queiroz

10h – Ciclo de Debates Mostra Nordeste

Local: Sede da AGUA

14h – Música no FNT Grupo: A Turma do Pralet
Local: Odilon Bar

18h – FNT para Crianças – SESC
Espetáculo: A Menina Dos Cabelos De Capim, com o Grupo Palmas Produções Artísticas
Classificação Etária: Livre
Local: Tenda FNT

19h – Mostra Nordeste [Ceará]
Espetáculo: Nada Como Quando Começou, com o Grupo No Barraco da Constância Tem!
Classificação Etária: 18 anos – Duração: 60min
Local: Escola Profº Julio Holanda

20h30 – Mostra Nordeste [Piauí]
Espetáculo: Exercício Sobre Medeia, com o Coletivo Piauhy Estúdio das Artes
Classificação Etária: 14 anos – Duração: 30min
Local: Teatro Rachel de Queiroz

22h – Mostra Palco Ceará 
Espetáculo: Baldio, com o Grupo Pavilhão da Magnólia
Classificação Etária: 18 anos – Duração: 60min
Local: Teatro Dona Zilda (Escola Zélia de Mattos Brito)

22h30 – Música no FNT: Escola de Música de Guaramiranga | Orquestra Cidade da Arte
Local: Odilon Bar

08/ SETEMBRO (QUINTA)
9h30h – Homenagem aos 25 anos do Curso Princípios Básicos de Teatro / TJA
Espetáculo: Afoita, com o Grupo CPBT 2015/2016 – Noite
Classificação Etária: 12 anos – Duração: 50min
Local: Teatro Rachel de Queiroz

10h – Ciclo de Debates Mostra Nordeste
Local: Sede da AGUA

16h30 – Mostra Palco Ceará
Espetáculo: Final da Tarde, com o Grupo Teatro de Caretas
Classificação Etária: Livre – Duração: 40min
Local: Ruas de Guaramiranga

18h – FNT para Crianças – SESC
Espetáculo: Entra na Roda Brincadeiras dos Tempos da Vovó, com o Grupo Comedores de Abacaxi S/A
Classificação Etária: Livre
Local: Tenda FNT

19h – Mostra Nordeste [Maranhão] 
Espetáculo: Para Uma Avenca Partindo, com o Grupo Teatro do Redentor
Classificação Etária: 14 anos – Duração: 50min
Local: Teatro Rachel de Queiroz

20h30 – Mostra Palco Ceará
Espetáculo: Autômato, com o Grupo Dona Zefinha
Classificação Etária: Livre – Duração: 45min
Local: Central de Artesanato

21h30 – Música no FNT ‐ Vanildo Franco em palco aberto
Local: Odilon Bar

09/ SETEMBRO (SEXTA)
9h30 – Mostra Palco Ceará
Espetáculo: Quatro Patas, com o Grupo Bricoleiros
Classificação Etária: Livre – Duração: 45min
Local: Teatro Rachel de Queiroz

10h – Ciclo de Debates Mostra Nordeste
Local: Sede da AGUA

18h – FNT para Crianças – SESC
Espetáculo: A Fábula do Monturo Velho, com o Grupo Trupe Caba de Chegar
Classificação Etária: Livre
Local: Tenda FNT

19h – Mostra Nordeste [Ceará]
Espetáculo: A Casa, com o Grupo Blitz Intervenções
Classificação Etária: 12 anos – Duração: 80min
Local: Teatro Rachel de Queiroz

21h – Mostra Nordeste [Bahia]
Espetáculo: O Segredo da Arca de Trancoso, com o Grupo Vilavox
Classificação Etária: Livre – Duração: 1h30min
Local: Praça do Teatro

23h – Mostra Palco Ceará
Espetáculo: Diário de Um louco, com o Grupo Cia Gira de Teatro
Classificação Etária: 12 anos – Duração: 45 min
Local: Escola Profº Júlio Holanda

23h30 – Música no FNT – Grupo Serráqueos e Tambores de Guaramiranga
Local: Odilon Bar

10/ SETEMBRO (SÁBADO)
10h Ciclo de Debates Mostra Nordeste
Local: Sede da AGUA
16h – Terreirada
Local: Central de Artesanato

19h – Mostra Palco Ceará
Espetáculo: Poeira, com o Grupo Ninho de Teatro
Classificação etária: Livre – Duração: 90min
Local: Teatro Dona Zilda (Escola Zélia de Mattos Brito)

19h – Dramas de Guaramiranga
Local: Praça da AGUA

19h30 – Palco Giratório – SESC [Brasília]
Espetáculo: Adaptação, com o Grupo Teatro de Açúcar
Classificação Etária: 10 anos – Duração: 60min
Local: Escola Profº Júlio Holanda

20h30 – Solenidade de Encerramento
Local: Praça da AGUA

21h30 – Mostra Ceará Convida (SP)
Espetáculo: Caminham Nus Empoeirados, com Gero Camilo
Local: Teatro Rachel de Queiroz

23h – Música no FNT – Grupo: Os Alfazemas
Local: Odilon Bar

*Programação sujeita a alterações.

**Os ingressos serão distribuídos gratuitamente, diariamente, a partir das 14h, na sededa Associação dos Amigos da Arte de Guaramiranga (AGUA) – R. Joaquim Alves Nogueira, s/n – Centro.

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Tempo de provocação no FILO

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Toda violência será desnudada no espetáculo argentino La Wagner. Foto: Paola Evelina Gallarato

“Ela é muito liberta, não é mais virgem e me confessou que os pais nem se incomodam”, foi o comentário carregado de preconceito de uma “dona” sobre o comportamento de uma garota linda, negra e pobre. Em outra ocasião, quando reproduzi uma indiscrição de um amigo de sua filha – de que a criatura bela, branca e de poder aquisitivo estava pegando uma menina, enquanto o namorado viajava ao Rio – essa mesma criatura asseverou que sua filhota era livre e podia exercer sua sexualidade como bem entendesse.

Essas interpretações bem diferentes sobre o exercício pleno do feminino me veio à cabeça com a história da peça argentina La Wagner, em cartaz nesta sexta-feira e sábado no Festival Internacional de Londrina – FILO 2016, no norte do Paraná. A obra foi apresentada na 17ª edição do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília, em agosto. E no Cena Cumplicidades de 2015, em novembro, no Recife.

As bailarinas de Paul Rotemberg em La Wagner são mais guerreiras do que meigas donzelas. A música e aspectos da vida íntima do controverso compositor alemão Richard Wagner são explorados na encenação que articula quatro mulheres nuas, como quatro Valquírias. Elas se empenham na tarefa de desmanchar estereótipos de feminilidade, sexualidade, erotismo,  pornografia e submissão à violência masculina, em sequências em que esses elementos estão juntos ou separados.

Na peça, o coreógrafo impulsiona as bailarinas ao limite do poder expressivo de seus corpos e a transcender o próprio sexo e nudez. Ayelen Clavin, Carla Di Grazia, Josefina Gorostiza e Carla Rimola são torcidas violentamente, caem, se chocam, levantam-se e voltam novamente a colidir dentro de uma dinâmicos de excessos. Em solos, duetos , trios ou quartetos , assumem papéis de homens ou mulheres, agressor ou golpeado.

O diretor explora sentimentos de rejeição e aceitação sobre os papéis e amplia como denúncia o olhar machista ou misógino sobre as mulheres.

Eduardo Dussek . Foto Divulgação

Eduardo Dussek . Foto Divulgação

O showman Eduardo Dussek carrega um humor irreverente, um deboche refinado e um romantismo pungente para suas canções há 40 anos. De carreira multifacetada, ele ataca nas frentes da música, da televisão e do teatro, como cantor e compositor, ator, autor, diretor. Suas aparições são divertidas e performáticas e nesta sexta-feira ele é o protagonista do “grande show”, que marca os 48 anos do FILO 2016. Sucessos dos anos 1980 e 90, além de músicas novas estão no repertório com rock, pop, MPB, marchinhas e sambas carnavalescos.

O Filo começou sexta-feira, 26 de agosto e segue até 11 de setembro com 64 apresentações de 33 espetáculos. Ao todo são 17 dias de apresentações de teatro, dança, circo e música. Sendo quatro encenações internacionais, 20 montagens nacionais e nove peças de grupos londrinenses.

O ator Matheus Nachtergaele com seu Processo de Conscerto do Desejo, que esteve no Recife durante o Janeiro de Grandes Espetáculo deste ano, abriu a programação do FILO 2016.

O Evangelho, com Renata Carvalho. Foto: Lilian Fernandes

Renata Carvalho interpreta um Jesus transgênero. Foto: Lilian Fernandes

Mas o festival esquentou com a polêmica estreia nacional de O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, da companhia paulista Queen Jesus BR, exibida no final de semana (27 a 29 de agosto).

A peça já nasceu controversa desde que estreou em 2009 na Escócia e provocou protesto de conservadores, com mensagens como “Deus: Meu filho não é um pervertido”. O texto da dramaturga Jo Clifford, recria histórias bíblicas com uma “inclinação diferente”, com um Jesus transgênero.

Apresentada dentro da Capela Ecumênica da Universidade Estadual de Londrina (UEL) O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu acendeu a revolta de católicos e evangélicos em Londrina. Tanto o Conselho de Pastores Evangélicos quanto a Arquidiocese de Londrina tentassem censurá-la.

A atriz e professora Renata Carvalho defende uma Jesus brasileira, travesti , ambígua e multifacetada, que denuncia o preconceito e a intolerância. A diretora Natália Mallo, que assistiu ao espetáculo na Escócia e fez uma adaptação em parceria com Jo Clifford e Susan Worsfold, diretoras da obra original, quer viajar com a peça pelo Brasil. Já tem agenda em São Paulo, no mês que vem. E uma apresentação especial num festival de arte LGBT em Belfast, na Irlanda do Norte.

Em nota, a organização do Filo afirma que “repudia os atos de intolerância que a produção do espetáculo tem recebido em Londrina, uma vez que prega justamente o contrário: o amor e o respeito ao próximo”.

A peça atualiza passagem como o Bom Samaritano, o Filho Pródigo, a Mulher Adúltera e a Última Ceia para o universo da diversidade sexual. A atriz finaliza sua performance denunciando o assassinado de duas travestis em Londrina, notícia que não ganhou espaço de destaque na grande mídia, nem mobilizou manifestações.

Para o diretor do FILO, Luiz Bertipaglia, o papel do Festival é esse mesmo, de provocar reflexões. “Pensamos em espetáculos que instigassem as pessoas a refletirem sobre o que a sociedade está vivenciando”.

O coreógrafo e bailarino francês Fabrice Lambert (l’Expérience Harmaat), aterrissa no FILO com o espetáculo Nervures, nos dias 3 e 4 de setembro. A montagem, que circula por várias cidades pelo projeto France Dance Brasil 2016, traça um jogo com um móbile criado pelo artista Xavier Veilhan. A montagem não virá ao Recife.

Hyperterrestres é um espetáculo do que vai compor o CenaCumplicidades, festival dirigido por Arnaldo Siqueira. Foto: Emilie Renck

Hyperterrestres  vai compor o Cumplicidades, festival dirigido por Arnaldo Siqueira. Foto: Emilie Renck

Mas a operação FranceDanse, concebida pelo Institut français, vai enviar à capital pernambucana os espetaculos Hyperterrestres – uma viagem nas profundezas de si e do esquecimento, com coreografia e interpretação de Benoît Lachambre e Fabrice Ramalingom. E Accidens (Ce qui arrive) que explora a onipresença magnética do corpo atormentado e desarticulado do bailarino Samuel Lefeuvre. O primeiro está agendado para ser exibido no dia 1º de novembro, e o segundo no dia 2 de novembro, ambos na programação do Festival Cumplicidades, dirigido por Arnaldo Siqueira.

A terceira obra programada para o Recife do France Dance Brasil 2016 é o Conférence Dansée, uma particular história da dança contada e bailada por Fabrice Ramalingom, a ser mostrado nos dias 2 e 3 de novembro, na Aliança Francesa do Recife.

Da programação de Londrina estão ainda o Caranguejo Overdrive, peça do grupo carioca Aquela Companhia que recebeu três prêmios Shell Rio de Janeiro e a montagem da Cia Livre (SP), Maria que Virou Jonas ou A Força da Imaginação, da diretora Cibele Forjaz.

O Açougueiro, com Alexandre faz duas apresentações no FILO

O Açougueiro, com Alexandre Guimarães faz duas apresentações no FILO

Nos dias 7 e 8 de setembro Alexandre Guimarães apresenta O Açougueiro. A montagem pernambucana se debruça sobre a história de Antônio, um cara que sonha em fugir do fantasma da fome virando empresário da carne. Mas a paixão por uma prostituta dificulta seus planos devido a intolerância da sociedade. Entre aboios e toadas, o ator se desdobra em sete personagens.

Toda a programação do FILO 2016 pode ser conferida no site www.filo.art.br.

Serviço
Festival Internacional de Londrina – FILO 2016
De 26 de agosto a 11 de setembro
Realização: Associação dos Amigos da Educação e Cultura Norte do Paraná e Universidade Estadual de Londrina
Patrocínio: Petrobras, Governo Federal, Prefeitura de Londrina / Secretaria Municipal da Cultura / Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), Universidade Estadual de Londrina, Unimed Londrina, Horizon – John Deere.
Ingressos: Ponto de vendas no Royal Plaza Shopping (Rua Mato Grosso, 310) e pela internet: www.diskingressos.com.br.
Valor: R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia-entrada).
Informações: www.filo.art.br

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Soledad que ainda se nega a morrer

Apresentações comemoram um ano do espetáculo Soledad - a vida é fogo sob nossos pés e 37 anos de anistia

Apresentações comemoram um ano de Soledad – A vida é Fogo sob Nossos Pés e 37 anos de anistia no Brasil

O título é do curta metragem de Sebastián Coronel Bareiro, Soledad que aún te niegas a morir. Traduz com presteza a passagem digna, valente, corajosa pelo planeta Terra dessa mulher paraguaia que se tornou militante política e foi assassinada à traição pela ditadura militar brasileira por emboscada do pai da criança que ela carregava no ventre. Há muitas portas de interpretação para o monólogo épico Soledad – A Terra É Fogo Sob Nossos Pés. Todas insuficientes para dar conta da complexidade de uma criação cênica dessa natureza. Mas as percepções e interpretações seguem a urgência do tempo.

O espetáculo faz duas apresentações especiais, nestes 1º e 2 de setembro, no Teatro Hermilo Borba Filho, às 20h, como parte das comemorações de um ano da encenação. Ao mesmo tempo celebra os 37 anos da anistia brasileira. Nesta quinta-feira, logo após a sessão, será reservado um ato de gratidão em homenagem aos ex-prisioneiros políticos, militantes da época que devotaram suas vidas na batalha pela democracia. Além de pessoas que contribuíram com o processo da montagem.

E ainda tinha gente brindando neste último dia de agosto o golpe contra a Democracia. “Respeitem quem foi torturado”, exige a peça que toma posição por quem teve a determinação de cuidar do terreno da soberania e da igualdade. A peça ilumina pontos obscuros da história do Brasil e acompanha Soledad Barret Viedma, desde seu nascimento, passando por vários países, até sua morte. O discurso é veemente. Sozinha em cena, Hilda Torres acende o espírito da guerrilheira da Vanguarda Popular Revolucionária, a VPR.

“Falar sobre Soledad é traçar um caminho de poesia onde a dor e a alegria estão juntas, seguindo em marcha para erguer ideais libertadores. Falar sobre ‘Sol’ é falar de um pedaço de todos nós, que nos impulsiona diariamente a enfrentar, resistir, sem nunca abrir mão do brilho nos olhos ao imaginar um mundo melhor, com direitos iguais para todos e todas, na compreensão das nossas diferenças”, acredita a intérprete.

O livro Soledad no Recife, do escritor pernambucano Urariano Mota, foi o ponto de partida do processo, em janeiro de 2015. A dramaturgia é assinada pela atriz e pela diretora do espetáculo, Malú Bazán.

Soledad ganha os contornos de um animal que ama a liberdade e dela não abre mão. Com isso assume no seu corpo, nos seus gestos, na sua voz, a militância de todos, um dado universal. A trajetória dessa figura ganha uma poética viva e continua pulsando. Contra os ditadores de todos os tempos, contra a violência em qualquer paragem.

Soledad

Trechos da vida da guerrilheira são expostos no palco

A composição documental da encenação expõe momentos importantes da vida da guerrilheira. Os episódios de dor são exibidos, num cenário de poucos elementos, com uma luz que convida para a intimidade dessa existência e na alternância da representação do trajeto de Soledad e a exploração do metateatro desvelado em seu processo de criação.

O passado e o presente são confrontados, das barbáries de ontem e hoje, em que direitos são confiscados numa montagem em que esses elementos fazem parte de um organismo vivo, pulsante. Alguns retrocessos são denunciados, como o atentado contra o legado do educador pernambucano Paulo Freire.

É um espetáculo em que o feminino tem voz potencializada. E dá xeque-mate na misoginia e no machismo. Contra isso a força dessa mulher que pegou em armas, exigiu tratamento de igual para igual com os homens, mas também é tomada pela onda do feminino, do amor e da ternura.

A encenação exalta os mitos e ritos ancestrais e evoca os povos originários. E incorpora esses dados na passagem do banho na água com os seios à mostra; na celebração de orixás como Nanã, do candomblé. E cenas fortes como das cruzes gamadas, as suásticas, riscadas a aço em suas pernas pelos militantes neonazistas.

Maternidade defendida por Soledad

Maternidade defendida por Soledad

No artigo de Opinião de Urariano Mota, Dilma Rousseff e Soledad Barrett, publicado no último 29 de agosto, no Diario de Pernambuco, o escritor e jornalista traça elos da corrente: impeachment, Dilma, ditadura, anistia, Soledad no teatro e o Recife. “Entendam. Quando a brava presidenta amargou a prisão, todas as vezes em que as companheiras de cela voltavam da tortura, ela as recebia com os braços abertos, amparava, dava às sobreviventes sopinhas de colher na boca, e punha na vitrolinha de pilhas uma canção. Imaginem qual. As ex-presas políticas contam que Dilma sempre pedia a elas que prestassem muita atenção à letra de Para um amor no Recife, de Paulinho da Viola.

Paulinho cantava na cadeia ‘a razão por que mando um sorriso e não corro, é que andei levando a vida quase morto. Quero fechar a ferida, quero estancar o sangue, e sepultar bem longe o que restou da camisa colorida que cobria minha dor. Meu amor, eu não esqueço, não se esqueça, por favor, que voltarei depressa, tão logo acabe a noite, tão logo este tempo passe, para beijar você’ “. Boa lembrança de Mota.

Os traços afetivos de Soledad bolem com a memória de quem sofreu com a ditadura. Ou teve seus parentes e amigos mortos e/ou desaparecidos. A própria atriz Hilda Torres vive seu engajamento político que potencializa todos as emoções no palco. E como diz Urariano Mota é “Um encontro de teatro, história e resistência. Imperdível”

Entrevista // Hilda Torres

Hilda Torres em Aldeia do Velho Chico. Foto: Divulgação

Hilda Torres na Aldeia do Velho Chico. Foto: Divulgação

Um ano depois de viver agarrada no palco com Soledad Barret Viedma, (da Vanguarda Popular Revolucionária, a VPR, morta ao lado de outros cinco companheiros) – fora o tempo de pesquisa, preparação da produção, ensaios – o que você tem a nos dizer sobre essa mulher?
Nasceu com sua mãe e ela apenas, por isso Soledad – Solidão; criança que cresceu entre sons de bombas e brincadeiras, levando recados codificados em suas saias para dirigentes comunistas, indo visitar seu pai na cadeia, quando não, ele estava clandestino, presente pelos ideais, mas ausente na lida diária; exilada com sua família com menos de 1 ano de idade e, com 16 anos, no Uruguai, no seu segundo exílio, começa a realizar apresentações de danças folclóricas em eventos solidários ao Paraguai; sequestrada aos 17 por um grupo neonazista que marca com uma navalha o símbolo do nazismo; vai pra URSS estudar teorias comunistas, em seguida vai para alguns países da América Latina na tentativa de invadir o Paraguai; 1967, vai para Cuba treinar para luta armada, casa-se e tem uma filha: Ñasaindy Barrett de Araújo, fruto do seu relacionamento com José Maria de Ferreira de Araújo; 1970, vem para o Brasil numa missão pela VPR; Mas aqui é entregue pelo “Cabo Anselmo”, até então o seu companheiro de quem estava grávida. Ela alfabetiza índios! Mulher, jovem, sonhadora, leal aos ideais, mãe, filha, companheira, dançarina, poetisa, militante aguerrida, dócil, serena, dedicada, destemida, empoderada… Soledad Barrett Viedma.

O que significam essas duas apresentações especiais? Essas celebrações?
Comemoraremos um ano de trajetória de um solo que fala de um passado tão presente, de uma mulher aguerrida que nos fortalece na luta de gênero sobretudo nos dias atuais em que vivemos. Comemorar essa trajetória, é também um momento de agradecer a todas e todos que contribuíram para essa realização, a equipe, amigos(as), colaboradores(as), parceiros(as), as plateias por onde passamos, aos festivais que nos convidaram! É um sentimento de gratidão!E a comemoração dos 37 anos de anistia no Brasil é referente a data da anistia que se comemora em agosto. Mas tendo em vista o que passamos atualmente e ao sentimento de gratidão que nos aflora nesse momento, decidimos agradecer aos ex-prisioneiros políticos e militantes que combateram o regime militar e que estiveram próximos ao processo da peça. Então agradeceremos não só pelo apoio nos dado, mas através deles, agradecer a todos e todas que entregaram suas vidas na luta por democracia, por um único sonho: liberdade! Essa geração atual precisa agradecer a uma geração que jamais poderá ser esquecida.

A vida ficou extremamente mais difícil no Brasil desde que vocês começaram a se envolver com a história de Soledad. Como você analisa esse arco do tempo do que acontece no país?
Desde o processo de pesquisa histórica para a montagem da peça, ainda em 2015, percebemos a relação íntima entre o passado e o presente. Nesse mesmo período aconteciam passeatas em São Paulo, principalmente, pedindo a “volta do golpe militar e chega de Paulo Freire”. Tudo começou a doer muito em nós, tanto que essas duas expressões entram na peça num momento de explosão de uma das cenas, justamente no Brasil. É isso! E depois do mergulho nessa época talvez seja mais difícil entender o que passamos hoje, ou mais fácil, e assim decidirmos por continuar a luta!

Soledad

Espetáculo homenageia presos políticos que lutaram por Democracia

O título da peça se refere a uma frase da protagonista, que exprime a bravura da militante. Ela já realizava um trabalho de empoderamento feminino na década de 1970. Como você detecta isso?
Resumo numa outra fala dela em resposta aos companheiros homens com quem ela treinava: “Não precisa, eu posso treinar com o mesmo fardamento que vocês”! Soledad hoje é nome e referência de luta feminina para vários movimentos feministas da América Latina!

Coragem e dignidade são palavras que queimam e no momento em que vivemos remete imediatamente para a presidenta Dilma Rousseff julgada (e condenada) por figuras de moral duvidosa, e com a morte política anunciada. Que paralelos são possíveis fazer dessas duas mulheres?
Ambas são destemidas, mulheres que não fizeram questão de serem vistas como a delicadeza da flor, mas que não abriram mão de serem firmes na luta por um mundo melhor.

O Brasil tem revelado que existe um teatro de resistência em atuação em cada canto desse país. Como sua produção vem conseguido essa proeza?
Já tivemos muitas portas abertas, alguns nãos. Normal. Mas já sentimos também que algumas portas foram fechadas justamente pela temática da peça, sobretudo, nos dias atuais.

“Percebemos a arte como gatilho para a transformação social. É preciso tirar a arte do papel da celebridade”, você já disse. Como seria possível isso nesse sistema capitalista capaz de inventar celebridades instantâneas o tempo inteiro?
Tudo vai depender das escolhas que cada fazedor(a) da arte fizer. Sim, trata-se de escolhas mesmo nos momentos de necessidade da demanda capitalista. Quanto ao público, a mídia, vive um perfil de fato com essa necessidade do “imediatismo” em tudo, inclusive nos mitos que muitas vezes representam o modismo e muito pouco os ideais, a forma de ver e sentir a vida.

Comunista come criancinhas???
Não, porque acreditamos nelas como uma esperança incansável para o futuro do País, da Nação, principalmente a nossa que precisa de um rumo onde ela própria seja “re”acreditada.

Ficha técnica
Atriz e idealizadora: Hilda Torres
Direção: Malú Bazán
Dramaturgia: Hilda Torres e Malú Bazán
Pesquisa histórica: Hilda Torres, Márcio Santos e Malú Bazán
Pesquisa cênica:
Hilda Torres e Malú Bazán
Concepção de cenário e figurino:
Malú Bázan
Execução de cenário e figurino:
Felipe Lopes e Maria José Lopes
Luz:
Eron Villar
Operação de Luz:
Eron Villar e Gabriel Félix
Direção musical:
Lucas Notaro
Arte visual:
Ñasaindy Lua
Produção:
Hilda Torres, Márcio Santos e Malú Bazán
Produção executiva:
Renato Barros
Produção geral: Márcio Santos
Realização: Cria do Palco
Fotografias: Rick de Eça

SERVIÇO
Soledad – A Terra É Fogo Sob Nossos Pés – Apresentações comemorativas
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho  – Cais Apolo, s/n , Bairro do Recife
Quando: Dias 1º e 2 de setembro às 20h
Ingressos: R$ 30 e R$ 15, à venda na bilheteria do teatro 1h antes do espetáculo
Informações: (81) 3355.3321
Duração: 1h10
Classificação: 14 anos

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Sátira ao poder das cidades-irmãs

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Diógenes D. Lima em O Mascate, a Pé rapada e os Forasteiros

A produção de O Mascate, a Pé rapada e os Forasteiros apregoa que é um “espetáculo teatral que conta uma história real baseada em fatos fictícios sobre Olinda e Recife, usando a linguagem do Teatro de Objetos”. É pouco para definir essa encenação simples, mas potente, que navega de forma divertidíssima por questões políticas, históricas e sociais dessas duas cidades. É uma sátira com sotaque bem pernambucano do começo ao fim.

Despretensiosa, a montagem pega o espectador pelos pequenos detalhes. E são muitos. É uma narrativa sobre o poder, mas sem pompas, desde o português que se encantou com Olinda, à astúcia do holandês, que ficou com a garota. Mas também pontua as investidas do inglês e da espanhola. Entre tapas e beijos, a disputa é proposta entre a formosura e sinuosidade de Olinda e a bronquice do Recife, que soube fazer dinheiro, mas apesar de todo o verniz da riqueza permanece um vendilhão.

Uma e outra cidade sofrem com mandos e desmandos. Desde o século 16.

A montagem com o ator Diógenes D. Lima traça um diálogo estreito com os brincantes populares e os códigos dos mamulengos. O intérprete pesquisa a linguagem do Teatro de Objetos desde 2011. Com as técnicas do TO utiliza utensílios prontos, como brinquedos, instrumentos, esculturas e outros que transforma.

Diógenes D. Lima é hábil na construção dos colonizadores com imagens estereotipadas e na manipulação dos objetos. Ele vai se desdobrando em vários personagens com fluidez e graça. Uma sombrinha frevo representa Olinda, um pedaço de madeira roliça, Recife. E alguns assessórios colaboram na composição.

O texto satírico levanta pontos sobre a identidade cultural, as políticas públicas e a ação dos gestores nos dias atuais. É muito inteligente a transfiguração de alguns objetivos e a problemática mais profunda que suscita, como o projeto Novo Recife, a ação do Ocupe Estelita e o Empatando sua vista.

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Sobre o tabuleiro a disputa das novas terras por holandês, português, espanhola e inglês 

No livro Locuções tradicionais no Brasil, Luís da Câmara Cascudo registra que pé-rapado é o mesmo que “descalço, de pés nus, pé no chão”. Por metonímia é uma denominação que se refere à “mais humilde categoria social”. A montagem trabalha de forma bem engraçada com o termo.

Entre os anos de 1710 e 1711 Olinda e Recife protagonizaram a Guerra dos Mascates. Os holandeses tinham sido expulsos, vivia-se uma crise açucareira, mas a pé-rapada Olinda com sua aristocracia rural decadente prosseguia no controle político da capitania de Pernambuco.

O Recife com dinheiro do bolso, fruto das atividades do comércio dos mascates e os empréstimos, a juros altos, aos olindenses, já estava cansado da empáfia da vizinha e partiu para luta. Olinda alimentava um forte sentimento antilusitano e a coroa portuguesa favorecia os comerciantes do Recife.

Mas toda essa guerra é desenhada com poucos elementos, historinha bem diluída e a contundência do humor subversivo. Diógenes sabe tirar o melhor proveito do universo lúdico dos objetos, articulando com destreza os signos visuais e sonoros.

O ator faz questão de frisar, ao final do espetáculo, que apesar de estar sozinho no palco ele é acompanhado por muita gente nos bastidores. O encenador Marcondes Lima assina a supervisão artística de O Mascate, a Pé Rapada e os Forasteiros juntamente com o ator e diretor Jaime Santos, do grupo La Chana da Espanha. Jathyles Miranda é o responsável pelo plano de Iluminação. As coreografias são do bailarino Jorge Kildery e Arthur Canavarro cuida da programação visual. Triell Andrade e Bernardo Júnior se ocupam da direção de arte e Luciana Barbosa da coordenação de produção.

Diogenes

Diógenes faz uma crítica contunde e com muito humor ao destino das duas cidades

SERVIÇO
O Mascate, a Pé Rapada e os Forasteiros
Última apresentação nesta quarta-feira, 31/08, 20h
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho, Bairro do Recife (Recife Antigo)
Ingresso: R$ 30 inteira e R$ 15, meia-entrada.
Capacidade 100 espectadores (plateia limitada)

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Memorialista do teatro pernambucano

Leidson estuda teatro infantil em Pernambuco desde 1998. Foto: Ivana Moura

O marco zero na história do teatro para crianças no Recife foi a estreia da peça Branca de Neve e os 7 anões, a primeira que levou crianças para a cena, em 1939, no Teatro de Santa Isabel. Era um projeto do teatrólogo Valdemar de Oliveira, que superou todas as expectativas. Essa é uma das conclusões do pesquisador e jornalista Leidson Ferraz, depois de anos de investigação que rendeu o livro Teatro para crianças no Recife – 60 anos de história no século XX (vol. 1). A pesquisa já havia sido lançada em formato DVD, em 2013.

Nesse volume, ele passeia pela historiografia do teatro pernambucano de 1939 até a década de 1970 e junta raros registros fotográficos de peças, programas, anúncios publicitários, críticas publicadas em jornais e relatos sobre a produção infanto-juvenil do período.

O livro estará à venda no Sindicato dos Artistas de Pernambuco e na Federação de Teatro de Pernambuco, ambos sediados na Casa da Cultura.

Nessa segunda-feira, durante o lançamento do livro o autor fez uma breve explanação sobre o objeto do seu estudo e exibiu imagens históricas guardadas na publicação.

Nesta entrevista ele fala sobre o processo de trabalho, da paixão pela pesquisa em teatro,  do  projeto Teatro Tem Programa!, que vai compartilhar pelo site da Fundaj (Fundação Joaquim Nabuco), de polêmicas e da vida que segue.

Entrevista: Leidson Ferraz

Leidson Ferraz, pesquisador e jornalista. Foto: Ivana Moura

Leidson Ferraz, pesquisador e jornalista. Foto: Ivana Moura

Você é uma das poucas pessoas nesta cidade do Recife que talvez vá mais ao teatro do que eu. Talvez. Tenho a vantagem de viajar com frequência para festivais e isso aumenta minha performance. Então, quantos espetáculos você assiste por semana, mês, por ano? E de onde vem esse amor pelo teatro?
(Risadas). Ivana, eu não contabilizo quantos espetáculos vejo. Mas procuro assistir tudo o que está em cartaz. Acho que é a forma de me manter atualizado sobre nossa produção teatral brasileira. Gostaria de poder viajar mais para assistir espetáculos em outros lugares (faço isso minimamente, infelizmente, muito mais ao interior de Pernambuco), mas não tenho nem tempo nem dinheiro para tanto. Quanto ao amor ao teatro, é parte do que me faz viver. Já pensei em me afastar deste universo por algumas decepções, mas não consigo. Está dentro de mim. É como o ar que respiro. O teatro está nos meus poros.

Sua carreira como ator começou na infância, em Petrolina, Sertão de Pernambuco. Como foi essa trajetória?
No Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, em Petrolina, eu já interpretava esquetes a cada final de ano, numa Feira de Ciências que programavam. Mas o primeiro espetáculo teatral que vi de verdade foi a Paixão de Cristo da Nova Jerusalém, aos oito anos de idade. Aos nove, já me arvorei a escrever e dirigir A Paixão de Cristo com 50 amigos da rua que eu morava. E eu ainda interpretava Judas, Pilatos e o Demônio. Ou seja, fui sempre ousado! Depois, fui dançar Menudo – num grupo cover – e passei a ser um “artista profissional” (kkkk), pois ganhávamos bem fazendo festinhas de aniversário e outros eventos. Só me aproximei do teatro, de verdade, quando vim morar no Recife em 1988. Comecei indo ver tudo o que eu podia e a fazer cursos com Ida Korossy, no Colégio Decisão; Valdi Coutinho, no Arteviva, e Elmar Castelo Branco, no TUCAP. Daí, fui me profissionalizando aos poucos, em cursos, oficinas, palestras, seminários, vendo muitos espetáculos e atuando e dirigindo num grupo que criamos na Unicap (o Grupo Pedaços, com o qual fiz uma versão do musical Hair, entre outros trabalhos)… Tirei meu DRT como ator profissional em 1993.

Quais as montagens que você participou como ator, diretor ou outra função?
Estreei profissionalmente com Memórias da Emília, em 1995, com adaptação e direção de Luiz Felipe Botelho e produção de Pedro Portugal. Fiz teste para entrar no elenco. Em seguida, fui convidado para Auto da Compadecida, da Dramart Produções, com direção de Marco Camarotti, onde atuei durante 17 anos. Na sequência, trabalhei com José Manoel Sobrinho, Érico José, Vital Santos, Max Almeida, Claudio Lira, José Pimentel, Samuel Santos, participando também de várias leituras dramatizadas com outros diretores e ainda dirigindo alguns espetáculos, especialmente no SESC. No ano 2000, escrevi e dirigi, junto a Claudio Lira, o musical Alheio, um sonho que acalentei durante sete anos (após a experiência de estudar canto no Conservatório Pernambucano de Música durante um tempo) e que me deu enorme trabalho, pois era uma produção grandiosa. Inaugurei um teatro próprio no Cais José Mariano e fomos até para São Paulo, mas só pude manter a peça por três meses de vida. Era caríssima com elenco enorme de atores e cantores, além de toda a infraestrutura de som, luz, arquibancadas, microfonação, etc… Meu último trabalho como ator (e não pretendo voltar a atuar, pelo menos neste momento) foi Olivier e Lili: Uma História de Amor em 900 Frases, com direção de Rodrigo Dourado, pelo Teatro de Fronteira, que sobreviveu nos anos 2012 e 2013. Ou seja, há mais de três anos não volto aos palcos. Já enquanto assessor de comunicação de muitos espetáculos, perdi as contas de quantos fiz. Atualmente ando afastado por conta do Mestrado em História na UFPE.

Você vem sendo considerado um memorialista do teatro Pernambucano com registro, análise e disseminação do passado do teatro feito no estado. Você é realmente um empreendedor, um homem de muita força e fôlego. Como e quando surgiu essa preocupação com o registro, com a documentação sobre o teatro pernambucano?
Quando fui convidado a assumir a assessoria de comunicação do Projeto Memórias da Cena Pernambucana – O Teatro de Grupo, em 1998, por José Manoel Sobrinho, meu maior incentivador em tudo. Era uma ação da Feteape e me envolvi totalmente com ela. Foi ali, entrevistando artistas que estavam afastados da cena, mas com longa trajetória no teatro, que me atentei para a história do teatro pernambucano e a necessidade de mais registros sobre este tema.

Mas vamos destrinchar isso.
Você é um assessor de imprensa muito peculiar, que exerce muito bem essa função em diversos festivais, peças e ações voltadas às artes cênicas. Você veste a camisa mesmo, como integrante da produção. Essa é a melhor postura na sua opinião?
Não sei fazer de outra forma. Talvez por amar tanto o teatro e a dança, acabo me envolvendo mais do que devia. Às vezes tenho raiva desta minha postura, pois muitas vezes me deixo confundir nas funções. No entanto, acho que todo assessor de comunicação precisa abraçar sua causa. Ficar em casa só mandando e-mails, não dá! Acho terrível quem faz assim. É preciso conhecer a sua fonte de informação por completo.

Montagem de 1976 de Maria Minhoca. Foto: Divulgação

Montagem de 1976 de Maria Minhoca. Foto: Divulgação

Gostaria que você falasse sobre trabalho desenvolvido com as pesquisas sobre a produção teatral pernambucana.
A série de livros Memórias da cena pernambucana resgatou em quatro volumes a trajetória de quase 40 grupos de teatro de Pernambuco, desde a década de 1940. Gostaria de levantar três questões sobre isso.
A primeira: Com encontros/palestras/debates gravados a partir da memória de integrantes de grupos (e a memória é falha) você multiplicou em vários livros. Você se considera um estrategista ou um ótimo marqueteiro? Ou ambos?
É preciso lembrar que, quando eu, Rodrigo Dourado e Wellington Júnior lançamos o Volume 01 do Memórias da Cena Pernambucana, pouco se falava sobre a história do teatro pernambucano naquele momento. O projeto, inclusive, nasceu por conta disso. Ainda tínhamos reduzidas publicações nesta área e acho que, modéstia à parte, o Memórias abriu o caminho para isso. Tanto que ninguém lembrava do Grupo de Teatro Vivencial! A nossa capa, com Ivonete Melo maravilhosa em Repúblicas Independentes, Darling!, foi estratégica para isso. E o livro circulou pelo Brasil inteiro, pois fiz vários lançamentos e o distribui, gratuitamente, a universidades, centros de pesquisas, sedes de grupos teatros e centros de memória, além das unidades do SESC, pelo Brasil inteiro. Esse era o nosso objetivo. Quanto ao lance da memória, ela é falha, mas, especialmente a partir do Volume 02 (quando fiquei sozinho na empreitada), me arvorei a pesquisar minuciosamente cada depoimento e, confrontando com os dados que consegui na imprensa e em acervos particulares, procurar cada depoente para retrabalhar o depoimento dado (algo que já foi feito no Volume 01, mas timidamente). Para qualquer historiador isso é um crime, mas não tinha formação em história e tentei, ao máximo, chegar próximo do que havia de fato acontecido. Hoje sei que nada se dá bem assim. Mas foi uma tentativa, e acho que o material se aproxima bastante dos fatos e acontecimentos, para além dos aspectos metodológicos empregados para isso.

A segunda: A narrativa construída sobre esses grupos não recebeu confrontamentos de dados, mas reproduz relatos dos atores daquelas companhias. Atualmente, com o mestrando em História, que caminhos diferentes você adotaria para publicar esses trabalhos.
O confrontamento existiu com o material impresso que eu encontrava – e muitas pesquisas em acervos foram feitas, infelizmente sem espaço no livro para registrá-las como fontes pesquisadas – e também no diálogo com outras pessoas que não estavam nos debates. Muito depoimento foi mudado, Ivana. E felizmente as pessoas concordavam com seus esquecimentos ou equívocos a partir do que eu lhes apresentava. Isso foi legal, pois todos autorizaram as mudanças. No entanto, hoje, percebendo quais os interesses e procedimentos da historiografia, será que eu registraria os depoimentos na íntegra e colocaria milhares de notas de rodapé para corrigir ou esclarecer cada trecho? Alguém aguentaria ler isso? Não! Portanto, excesso de academicismo não é a minha praia. Sou um questionador de tudo isso e precisaria pensar melhor como eu faria. O importante é perceber que o depoimento oral é sempre melindroso para se lidar, ainda mais no calor de um encontro público. No entanto, é uma alternativa como registro da(s) história(s).

Terceira: Você acha que falta interesse, coragem, disposição, de outras pessoas para mergulhar nesse universo da pesquisa sobre o tetro pernambucano, já que temos poucas referencias ainda?
Sim. Há pouca gente interessada nisso. No entanto, acredito que a UFPE e o SESC têm cumprido um papel de disseminar este desejo de lidar com nossa história teatral. Atualmente tenho dois alunos do Curso de Interpretação para Teatro do SESC Piedade (onde dou aulas de história do teatro pernambucano), Amanda Spacca e Anderson Cleber, que estão trabalhando como estagiários comigo. Penso que podem se tornar ótimos pesquisadores. E de vez em quando recebo pedidos de material de alunos da UFPE. Acredito que devem surgir mais pesquisadores vindo destes lugares, em breve.

Qual a contribuição do jornalismo para as artes cênicas hoje?
Fundamental. Não só em termos de divulgação para o que está em cartaz (e ainda contamos com isso para que saibam que nós existimos!), mas como fonte primordial para a historiografia teatral. Ainda que encontremos equívocos tremendos na escrita de vários jornalistas, continua a ser um guia imprescindível para este trabalho.

Você ainda se considera um ator, diretor atuante e como funciona isso com a sua função de crítico?
Não sou crítico, Ivana. Gosto de escrever quando um espetáculo me instiga a isso. Sou jornalista e pesquisador do teatro, apaixonado pela arte que acompanho fervorosamente. Quanto a atuar e dirigir, quero mais não! Tô bem no meu lugar.

E atualmente como encara a faceta de pesquisador?
É o que me dá mais prazer. Se pagasse todas as minhas contas, só faria isso na vida. Adoro mergulhar no passado e confrontá-lo com o momento que vivo. Acho que me sinto pleno nesta função.

Branca de Neve e os Sete Anoes. Foto: acervo projeto Memórias da Cena Pernambucana

Branca de Neve e os Sete Anões. Foto: acervo projeto Memórias da Cena Pernambucana


Uma aulinha para os leitores: Quando você identifica o nascimento do teatro em Pernambuco?
Desde quando os jesuítas chegaram no Brasil. É uma longa trajetória que remonta àqueles tempos, tanto que a primeira peça de autor verdadeiramente brasileiro foi encenada no Recife, Amor Mal Correspondido, de Luiz Álvares Pinto, em 1780, no primeiro teatro do Recife, a Casa da Ópera (segundo informação dos pesquisadores Padre Jaime C. Diniz e Valdemar de Oliveira). E o teatro, com o passar dos séculos, sempre resistiu entre momentos de maior ou menor qualidade.

É possível fazer um rápido trajeto, até hoje? Apogeu e declínio. O Recife por exemplo já foi considerado o terceiro polo produtor das artes cênicas do país.
Essa questão de terceiro pólo foi também uma grande estratégia de marketing dos divulgadores dos espetáculos (já nos anos 1930 encontro tal referência e o produtor Bóris Trindade, por exemplo, usou isso com muita maestria nos anos 1980, disseminando esta frase entre colunistas que reproduziram tal ideia sem nem saber do que se tratava na realidade). Entretanto, é notório que até os anos 1930, Recife ainda era um pólo importante para o “Norte” do país (aqui compreendendo o Norte-Nordeste, segundo terminologia da época). Mas não podemos esquecer Manaus e Belém, que também eram palcos significativos, estratégicos pelos portos e a chegada de companhias internacionais ou vindas do Rio de Janeiro, a então capital da República. Bom, como qualquer lugar do mundo, Pernambuco continua a produzir bom e mau teatro e isso tem a ver com muitos aspectos, diálogos de maior ou menor criatividade por parte dos fazedores de arte e a relação conflituosa ou não com a política, a economia da época, a sociedade que consome cultura, os intercâmbios travados com produções de outros lugares, a cultura como um todo. Ninguém hoje vai dizer que Recife é a terceira cidade mais importante do nosso fazer teatral no Brasil, mas, sem dúvida, continua a ser uma das mais significativas, tanto que todos querem vir para cá.

O teatro pernambucano vai bem, obrigado?
Vai como sempre, com altos e baixos. Quando a gente lida com o passado, passa a compreender melhor que a vida é cíclica.
Sua pesquisa voltada para seis décadas de teatro para criança em Pernambuco cataloga essa produção. Como é isso enquanto método? E como você conceituaria essa pesquisa?
A minha pesquisa é um mapeamento historiográfico. Para além da dramaturgia, como normalmente é feito, tento abarcar as realizações como um todo. Me interessa o universo teatral em sua maior amplitude, por isso tantos assuntos permeiam toda esta trajetória, inclusive na relação da criança com o cinema, o rádio e a TV, as outras diversões, a produção de espetáculos, festivais, polêmicas da classe artística junto ao poder público, personalidades mais influentes, as realizações à margem dos palcos oficiais, etc. É um passeio pelo tempo, encarando-o como fragmentário, incompleto, plural. Cito David Lowenthal no começo, mas não parti de nenhum outro historiador conceitualmente. Este trabalho antecede minha ida ao Mestrado na UFPE e traz ainda um caráter bem cronológico e factual, o que não o desmerece. Apenas não traz a problematização conceitual tão perseguida pelo meio acadêmico.

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Leidson, você é uma das figuras no teatro que mais teve projetos aprovados e realizados no Funcultura. Seria possível desenvolver esses projetos sem o Funcultura? O que você pensa da concentração de projetos aprovados para algumas pessoas/empresas em todas as áreas? Que mudanças você proporia ao Funcultura?
Impossível fazer o que faço sem o FUNCULTURA. E agradeço demais a todas as comissões deliberativas que entenderem isso. Se sou um dos mais contemplados no edital, acredito que não. A questão é que meus projetos sempre ganharam visibilidade, talvez pelo cuidado com que eu os faço, talvez pela relação próxima que mantenho com a impressa. Mas já tive muitos nãos no FUNCULTURA também. Nem sempre ganho, e é preciso ressaltar isso. Quanto à concentração de pessoas/empresas, claro que sou contra. Ganhei, certa vez, três projetos de uma vez e quase enlouqueci. Não recomendo isso a ninguém. E acho que os que fazem o FUNCULTURA precisam conhecer muito bem o mercado cultural para saber se vai haver concentração ou não. É injusto quando temos tão pouca verba para tamanha produção no estado. Sobre as mudanças, tenho muitas propostas, mas a principal é alterar a lei original para que possamos ter não só apenas um aprovado por linha. Isso tem emperrado bastante.

Quais os próximos passos?
Estou finalizando o projeto Teatro Tem Programa!, com mais de 700 programas de espetáculos teatrais do Recife e Olinda no século XX catalogados. A ideia é compartilhar tudo pelo site da Fundaj (Fundação Joaquim Nabuco), minha parceria nesta iniciativa. No mais, continuo no Mestrado em História na UFPE estudando O Teatro no Recife da Década de 1930 – Outros Significados à Sua História, outro tema que adoro.

Você é um homem muito bem relacionado, querido entre a classe. Gosta inclusive de dizer que consegue transitar pelos mais diversos núcleos do teatro em Pernambuco. Você já disse, com esse humor que lhe é peculiar que você é bem alto, seu abraço é grande. “Cabem todos junto a mim”. Mas também tem seus desafetos. Como você lida com isso?
Não que eu tenha muitos desafetos, mas não gosto de cultivar inimizades. Sofro com isso. Procuro, então, deixá-los distantes de mim. São poucos, felizmente. Prefiro pensar nos tantos amigos e colegas que fiz em toda a minha trajetória.

Em pelo menos dois episódios nós dois nos desconhecemos. O primeiro foi a publicação de uma carta à redação no Diario de Pernambuco em que dois gestores eram criticados.
A segunda foi uma crítica que escrevi para o Yolanda sobre o espetáculo Olivier e Lili: Uma história de amor em 900 frases [com o grupo Teatro de Fronteira, direção de Rodrigo Dourado], que causou polêmica e rupturas, mas nunca se botou os pratos na mesa para se falar disso.
Gostaria de falar sobre isso. O que ficou no seu coração desses dois episódios?

Sou leonino, Ivana, portanto, nunca esqueço por completo, confesso. Mas procuro seguir a vida. O alto-astral, para mim, é fundamental. E tento disseminar isso nas minhas convivências. Raramente vais me ver de cara feia. Não sou desse tipo.

Você já disse que encerrou minha vivência como intérprete em 2013, com a peça Olivier e Lili. Por quê?
Não tenho mais tempo para ensaiar, nem paciência nem tesão. E acredito que quando alguém quer ser ator, é preciso muita dedicação, entrega, sofrimento… Não estou mais disposto a tanto.

Bem, para encerrar, você soltou uma informação que está no seu livro: “Eu falo de um escândalo da gestão petista, quando João Paulo liberou R$ 150 mil para um espetáculo infantil, enquanto as artes cênicas locais minguavam patrocínio”. Você acha que é realmente um escândalo? Onde está o escândalo? Criticar e polemizar sobre essa questão agora, em plena campanha, não borra a imagem de um candidato? Que me parece que teve um tratamento mais cuidadoso com a cultura? Por exemplo, o que é essa gestão atual da prefeitura para a cultura? O consenso na área de teatro é que é desastrosa.
Escândalo foi na época, tanto que saíram matérias enormes nos jornais e era o que mais se falava nos teatros e, minimamente, na política. Afetou a todos que fazem teatro, dança e circo, porque, naquele momento, reclamávamos uma verba minguada pelo Prêmio de Fomento às Artes Cênicas da Prefeitura do Recife. No entanto, nada mudou. Só ganhei mais desafetos e alguns créditos, por parte de alguns, por ter tido a coragem de denunciar algo que todos queriam falar, mas não o faziam. No entanto, essa minha fase de “Dom Quixote” passou. Já reclamei tanto do poder público, que cansei. Mas essa questão não veio agora, Ivana, está como um dos fatos do ano 2008 no meu livro Panorama do Teatro Para Crianças em Pernambuco (2000-2010)”. Não estou fazendo denúncia alguma neste momento de campanha, porque ela nem me interessa. Não sou partidário de nenhum candidato, e acho que todos são desastrosos ao segmento cultural, uns mais outros menos. Como desacredito cada vez mais dessa política que aí está, nenhum tem o meu voto. E minha vida segue sem eles.

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