Magia do circo para encarar vida Severina

Severinos . Foto: Fernanda Acioly

Lívia Lins e Madson de Paula no espetáculo Severinos, Virgulinos e Vitalinos. Foto: Fernanda Acioly / Divulgação

A alegria está na essência dos jovens integrantes da Dispersos Cia de Teatro, que levam essa matéria para suas montagens. Severinos, Virgulinos e Vitalinos, com texto e direção de Samuel Santos, é o segundo espetáculo do grupo, que produziu anteriormente uma ode à amizade  chamada Abraço – Nunca estaremos Sós. Severinos, Virgulinos e Vitalinos utiliza elementos da arte circense e da cultura popular para narrar uma história de busca, de dois jovens filhos de artistas, pelos pais que seguiram com o circo.

O musical estreou em novembro, dentro da programação do 18º Festival Recife do Teatro Nacional e esta crítica foi escrita a partir daquela apresentação. 

Três emblemas nordestinos estão no arcabouço da dramaturgia, a partir de João Cabral de Melo Neto (Severina, a morte), do cangaço (Virgulino, o Lampião) e da arte popular (Vitalino, o artesão). Um território rico em imagens e metáforas. Samuel Santos, o diretor convidado, se afasta neste trabalho da pesquisa com Antropologia Teatral, que desenvolve junto ao Poste, seu grupo, para investir numa proposta mais lúdica.

Lívia Lins e Madson de Paula interpretam Muriqueta e Tramboeta, figuras que sonham em descobrir o paradeiro dos pais mambembes. Os atores são acompanhados pelos músicos, Danielle Sena, Tiago Nunes, Leila Chaves, Victor Chitunda, com direção musical de Chitunda e Leila.

Lins e Foto: Ivana Moura

A peça tem texto e direção de Samuel Santos. Foto: Ivana Moura

As crias vão se descobrir artistas também, mas para isso percorrem um caminho tortuoso, em que enfrentam o clichê do que seria a saga nordestina: a morte pela seca e pela fome; a brutalidade humana e a falta de reconhecimento da arte popular.

A encenação segue pelas veredas, entre narrativas e diálogos dos dois atores, e a intervenção da banda. Lívia Lins e Madson de Paula usam microfones, fazem seus solos e mostram desenvoltura. Eles também se multiplicam em vários papéis, alguns mais convincentes do que outros.

Mas para mim há uma cena memorável, em que o diretor faz uma homenagem ao Auto das Sete Luas de Barros, de Vital Santos, montagem do Grupo Feira de Teatro Popular de Caruaru. Um momento rápido e brilhante como um meteoro.

Na estreia, no dia 20 de novembro, no Teatro Apolo, Severinos, Virgulinos e Vitalinos, pareceu mais longa que seu próprio fôlego. Alguns ajustes pareceram necessários naquela época, no que se refere a ritmo, andamento e duração.

A direção de arte de Álcio Lins ergue um picadeiro circense, com muitos elementos desse universo. Compõe com artefatos cênicos de fácil deslocamento, como também figurinos com peças-chave para a mudança de personagens e situações.

O projeto de iluminação é assinado por Cleison Ramos, que utiliza a técnica do “Laser Blisslight”. É uma luz muito poderosa, que está mais para o Circo de Soleil do que para as lonas itinerantes de médio porte que circulam pelo Nordeste.

É uma encenação jovial, folgazona, que se destaca pela garra e alegria do elenco – atores e músicos, pela riqueza dos detalhes, pelo trabalho autoral.

Mas a exultação se traduz na cena como algo próximo de uma imaturidade, refletida na exterioridade das personagens. Falta um peso aqui e ali, uma dor que traduza o desespero e a desesperança de algumas situações.

A parte dedicada a Severina se arrasta um pouco com conjunturas repetitivas. O excesso também pode ser notado em vários outros quesitos, da direção de arte, passando pelas interpretações e luz.

Esses excedentes tiram um silêncio necessário para dar respiro à obra. A abundância impede de enxergar uma beleza da falta, da carência, da solidão, do abandono de que eles falam.

Na estreia, narração, diálogos, música ainda não seguiam um fluxo contaminado uns pelos outros. Ainda havia demarcações estanques (inclusive com dispersão da banda) que impediam a fluidez plena da história.

Mas apesar dessas observações, Severinos, Virgulinos e Vitalinos tem vocação para fazer uma carreira próspera. Além das plateias adultas, um investimento em um público jovem, infanto-juvenil pode ter uma boa repercussão e instigar a formação de público. Munição, o grupo tem de sopra.

FICHA TÉCNICA
Texto e direção: Samuel Santos
Direção musical: Leila Chaves e Victor Chitunda
Direção de arte: Álcio Lins
Luz: Cleison Ramos
Cenotécnico: Felipe Lopes
Consultoria de mágicas: Rapha Santacruz
Preparação vocal: Leila Chaves
Produção executiva: Duda Martins
Coordenação de produção: Lívia Lins
Produção: Dispersos Produções Criativas
Bandinha: Leila Chaves (violão, banjo, zabumba, caixa, kazoo e efeitos), Victor Chitunda (violão, congas, kazoo e efeitos), Tiago Nunes (pandeiro, cajón, alfaia, kazoo e efeitos) e Danielle Sena (claves, triângulo, agogô, alfaia, kazoo e efeitos)
Atores: Lívia Lins e Madson de Paula

SERVIÇO
Severinos, Virgulinos e Vitalinos – Dispersos Cia. de Teatro (Recife/PE), dentro da programação do 23º Janeiro de Grandes Espetáculos
Onde: Teatro Apolo
Quando: 26 de janeiro de 2017 (quinta-feira), às 20h
Quanto: R$: 30,00 (Inteira) e 15,00 (Meia)
Classificação etária: a partir dos 12 anos
Duração: 1h20

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O que ver no Janeiro – parte 1

Puro Lixo é uma das atrações desta terça-feira. Foto: Ana Araújo

Puro Lixo é uma das atrações desta terça-feira. Foto: Ana Araújo

A 23ª edição do Janeiro de Grandes Espetáculos – Festival Internacional de Artes Cênicas de Pernambuco chega à última semana. A programação extensa e intensa é composta por 58 produções, entre exemplares de teatro adulto, teatro para a infância, dança, circo, shows musicais e duas leituras dramatizadas e outras ações. Além da programação paralela com mais dez peças ou performances diferentes. E a exposição de quadros do artista Cleusson Vieira, ainda em cartaz no foyer do Teatro de Santa Isabel. Diante desse mapa, amigos e leitores têm pedido sinalizações sobre o que ver. Sabemos que arte não é receita de bolo de rolo ou Souza Leão e a recepção de cada obra é algo subjetivo e intransferível. Mas vamos pontuar alguns aspectos do nosso ponto de vista, com pitadas de nosso gosto.

Neste ano, o Janeiro de Grandes Espetáculos apostou na estreia de 10 produções pernambucanas, sendo três inéditas em dança, seis de teatro adulto e um para a infância, além de uma leitura dramatizada inédita. Desse fluxo que segue até o dia 29 deste mês, sete ainda podem ser vistos: Microclima, com Iara Campos; Grito, com Anne Costa e Marta Guimarães; Terror e Miséria no Terceiro Reich – O Delator, com Germano Haiut e Stella Maris Saldanha; Martelada, com texto e interpretação de Cláudio Ferrário; Alguém Pra Fugir Comigo, com encenação de Analice Croccia e Quiercles Santana; A Gaivota, do Curso de Interpretação Para Teatro do SESC Piedade (Jaboatão dos Guararapes/PE), com direção cênica de Sandra Possani e Baba Yaga, da Cênicas Cia. de Repertório, interpretação de Sônia Carvalho. Dessas estreias já conferimos dois espetáculos: O Delator e Martelada, que falarei brevemente na sequência.

Temos ainda as atrações em Caruaru com sessões de Angelicus Prostitutus e Olha para o Céu meu amor.

Dinho Lima Flor interpreta o bispo no espetáculo O avesso do Claustro. Foto: Alecio Cezar

Dinho Lima Flor interpreta o bispo Dom Helder Camara,  no espetáculo O avesso do Claustro. Foto: Alecio Cezar

Do festival sugiro com entusiasmo O Avesso do Claustro, da Cia do Tijolo, uma montagem em homenageia Dom Helder Camara, o saudoso arcebispo emérito de Olinda e Recife, que se apresenta no Santa Isabel nos dias 28 e 29. O espetáculo recria episódios da vida do bispo católico progressista, mas explora essas passagens em sintonia com inquietações atuais, explorando de forma magistral as substâncias utópicas e poéticas do teatro. Como grupo é sediado em São Paulo (mas tem no seu elenco e direção o pernambucano Dinho Lima Flor) e este é um espetáculo custoso para circular acho uma oportunidade imperdível. Sobre a montagem publicamos Peça sobre Dom Helder Camara vem ao Janeiro

Vamos falar das atrações por data, Vanessinha.
Terça-feira

Josildo Sá no Show Sons de Latada. Foto: Normando Siqueira

Josildo Sá no Show Sons de Latada. Foto: Normando Siqueira / Divulgação

TEATRO: Puro Lixo , o Espetáculo mais Vibrante da Cidade, inspirado no Grupo Vivencial. Humor, deboche e música com um talentoso elenco pernambucano.

DANÇA: Microclima. As políticas e o viver no Recife impregnado no corpo da bailarina Iara Campos. Não está totalmente descartada as motivações do Ocupe Estelita, da resistência e de que a luta continua.

MÚSICA: Sons de Latada, com Josildo Sá. Ano passado fez uma década que Josildo e o maestro o maestro Paulo Moura gravaram juntos o CD Samba de Latada. O samba nordestino ganhou uma carga mais emocional, de raiz suingada, que se mistura a muitos ritmos. No repertório do show sucessos da carreira do cantor como Pra não morrer de tristeza, Quixabinha, Tem frevo na Latada e Forró de Mané Vito.

Sons da Latada – Josildo Sá – Samba de Latada Produções (Recife/PE)

FICHA TÉCNICA
Direção e produção musical: Herbert Lucena
Produção executiva: Luciane Ferraz e Rita Chaves
Assistentes de produção: Gabriel Oliveira e Cláudia Macena
Coordenação: Josildo Sá/Samba de Latada Produções
Coordenador técnico e iluminação: Antônio Antunes
Cenário: Leopoldo Nóbrega
Figurino: Período Fértil e Jailson Marcos
Técnico de som: Fumato Snaidefight
Músicos: Josildo Sá (voz), Lu Miliano (acordeon e vocal), Adilson Bandeira (clarinete e sax), Pablo Ferraz (zabumba, congas, surdo, ilú e vocal), Nino Silva (congas, prato, caixa, pandeiro, tonel, caxixi, alfaia, chocalhos), Daniel Coimbra (cavaquinho e vocal), Danillo Silva (contrabaixo), Karine Vieira (bateria) e Andreza Karla (backing vocal e pandeiro)

SERVIÇO
Sons da Latada – Josildo Sá – Samba de Latada Produções (Recife/PE)
Onde: Teatro de Santa Isabel
Quando: Dia 24 de janeiro de 2017 (terça-feira), às 20h
Quanto: R$: 40,00 (Inteira) e 20,00 (Meia)
Classificação etária: a partir dos 12 anos
Duração: 1h20

Stella Maris Saldanha, em Puro Lixo. Foto: Ana Araújo

Stella Maris Saldanha, em Puro Lixo. Foto: Ana Araújo

Puro Lixo – O Espetáculo Mais Vibrante da Cidade tem como provocação/ inspiração a ousadia e o espírito anárquico do Vivencial, grupo do teatro pernambucano que abalou as estruturas caretas da cena nas décadas de 1970/ 1980. Como os fenômenos ocorrem no tempo e no espaço, as vivecas exerceram um fascínio naquela época e esse ideário foi esticado por estudiosos, fãs e os próprios integrantes na esteira de uma imagem de liberdade incondicional (se isso funcionou ou não, não sabemos. Ou eu não sei. Mas a aura persiste!). No cinema essa glamourização da trupe se faz presente no filme Tatuagem, de Hilton Lacerda.

Com poucos recursos, mas muita criatividade, as vivecas criavam a cena dos restos, fazia arte com o lixo. Talvez venha daí a sugestão do título da peça que tem texto de Luís Reis, criado a partir do artigo Vivencial Diversiones: Frangos Falando Para o Mundo, de João Silvério Trevisan, que registra a experiência de uma noitada na sede do grupo, no final dos anos 1970.

Com encenação de Antonio Cadengue, Puro Lixo – O Espetáculo Mais Vibrante da Cidade traça uma alegoria queer, carnavalesca, entre o camarim e a cena de um bando para extrair alegria na pulsação da necessidade de brilhar e no desejo do luxo. O ser marginal das vivecas fica na periferia da montagem. Mas a ânsia de pontuar o que é criar nessa época de outros tremores e temores se ergue nas várias cenas em que o metateatro potencializa a narrativa.

Da trilha sonora, a derradeira canção celebra os transgressores do passado/presente servindo (metaforicamente) como objeto de consumo. Como eu pontuei em outro texto sobre o espetáculo Puro Lixo diz até já  :“Do espelho do camarim até o público vira simulacro de si mesmo…”.

Ainda nessa seara musical, o ator Gil Paz dubla Elza Soares em um trecho da canção de Chico Buarque Meu Guri. Esse quadro ganha outras projeções do mundo cotidiano recifense com a exaltação da negritude. E expõe as injúrias do passado escravocrata da passagem cênica Meu Sobrado no seu Mocambo.

A peça traz um acabamento estético, nos figurinos, no cenário que distancia do Vivencial original. Mas Puro Lixo – O Espetáculo Mais Vibrante da Cidade investe no protesto velado e declarado, no deboche, na cumplicidade e intriga de bastidor, no glamour e na crítica da crítica.

Stella Maris Saldanha representa as mulheres do Vivencial. E os rapazes Gil Paz, Eduardo Filho, Marinho Falcão, Samuel Lira e Paulo Castelo Branco desfilam de salto alto para garantir o humor e brilho da montagem.

Outros textos postados sobre Puxo Lixo:
Uma festa para o Vivencial, no dia 11 de agosto de 2016.
Desbunde, transgressão e poesia do Vivencial, no dia 13 de agosto de 2016.
“A liberdade era vivida na imediatez daqueles tempos”, uma entrevista com o encenador Antonio Edson Cadengue, publicada em 15 de agosto de 2016.
E As nervuras do luxo, crítica ao espetáculo publicada no dia 28 de agosto de 2016.

FICHA TÉCNICA
Texto: Luís Augusto Reis
Consultoria: João Silvério Trevisan
Encenação: Antonio Cadengue
Dramaturgismo, assistência de direção e operação de som: Igor de Almeida Silva
Figurinos, adereços e maquiagem: Manuel Carlos de Araújo
Cenografia: Otto Neuenschwander
Trilha sonora original e gravação: Eli-Eri Moura
Música ao vivo (acordeão): Samuel Lira
Vozes em off: Valdir Oliveira, Cássio Uchôa e José Mário Austregésilo
Iluminação: Luciana Raposo (Coletivo Lugar Comum)
Coreografias, direção de movimentos e preparação corporal: Paulo Henrique Ferreira
Preparação vocal: Leila Freitas
Operação de luz: Luciana Raposo e Sueides Leal
Assistência de produção executiva: Antonio Cadengue, Manuel Carlos de Araújo
Produção executiva: Clara Angélica e Jô Conceição
Produção geral: Stella Maris Saldanha
Elenco: Eduardo Filho, Gil Paz, Marinho Falcão, Paulo Castelo Branco, Samuel Lira e Stella Maris Saldanha

SERVIÇO
Puro Lixo, o Espetáculo Mais Vibrante da Cidade
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho
Quando: Dia 24 de janeiro de 2017 (terça-feira), às 20h
Quanto: R$: 40,00 (Inteira) | 20,00 (Meia)
Classificação etária: a partir dos 16 anos
Duração: 1h15

Iara em Microclima. Foto

Iara Campos em Microclima. Foto

O caos urbano fruto da falta de planejamento domina cidades brasileiras. O crescimento desordenado, o trânsito insuportável, a natureza arrasada, verticalização predatória, a violência assustadora são golpes contra o planeta. A resposta chega em catástrofes, picos de calor ou de frio em nível global.

A partitura corporal da bailarina Iara Campos traduz essas sensações no espetáculo Microclima, pensado a partir do Recife e suas contradições. E mostra como o corpo também é afetado nesse processo.

Recife, Cidade Lendária, nas suas noites sem fim de Capiba. Constructo humano de sonhos, mas também sítio cruel de Carlos Pena Filho; cidade do mangue, onde a lama é a insurreição com seus homens caranguejos de Chico Science. Capital de muitas revoluções, essa urbe sofre em sua beleza açoitada.

Para erguer o espetáculo, que tem direção de Sebastião Soares, a artista fez experimentações na rua e na sala de ensaio, mergulhou em leitura bibliográfica de arquitetura e urbanismo. E o solo prossegue em mutação. Inquietações e vivências urbanas em diálogo com a cidade e seus problemas, E o reflexo das mudanças dessa paisagem, que geram instabilidade física e emocional nos seus habitantes.

FICHA TÉCNICA

Microclima, com Iara Campos
Concepção:
Iara Campos e Sebastião Soares
Direção: Sebastião Soares
Música original: Júlio Morais
Figurino: Carlito Person
Design de luz: Eron Villar
Intérprete: Iara Campos

SERVIÇO
Microclima, com Iara Campos
Quando: 24 de janeiro, terça-feira, às 20h
Quanto: R$: 20,00 (Inteira) e 10,00 (Meia)
Onde: Teatro Arraial (Rua da Aurora, 457, Boa Vista – Fone: (81) 3184.3057 )
Classificação etária: a partir dos 12 anos
Duração: 45 min.

                                                                                                       CONTINUA no próximo post

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O amor tem feito coisas…

OE, peça inspirada na obra do escritor japonês Kenzaburo Oe, com Eduardo Okamoto. Foto: Fernando Stankus

Mesmo o amor imperfeito opera milagres no universo. Mas muitas vibrações duelam para processar esse fenômeno. Da raiva de ver sua vida atrelada ao filho eternamente dependente, passando pelo medo do futuro. Até a superação e abertura de visão para os sentidos de uma vida comprometida com o aprendizado do outro. OE é poema cênico com o ator Eduardo Okamoto, inspirado na obra do escritor Kenzaburō Ōe, – Nobel de Literatura de 1994 – que trata desses tsunamis internos do autor japonês.

A peça foi apresentada sábado e domingo, no Teatro Apolo, dentro da programação do 23º Janeiro de Grandes Espetáculos. Com direção perfeccionista de Márcio Aurélio e atuação minimalista de Okamoto, a montagem explora os processos vertiginosos de um pai que reinventa o mundo e a si próprio quando nasce seu primeiro filho com uma deficiência intelectual congênita.

Do susto passando pelo desejo de morte e culpa à construção de um afeto supremo, o intérprete explora os estados desse pai, e desse filho, com extremo rigor. Para cuidar da criança – Hikare Oe – que até os seis anos de idade não falava uma palavra e que se tonou pianista e compositor famoso no Japão, o escritor diminuiu o ritmo de trabalho.

A peça tem direção de Márcio Aurélio. Foto: Fernando Stankus / Divulgação

A peça tem direção de Márcio Aurélio. Foto: Fernando Stankus / Divulgação

OE usa poucos recursos em cena, tem um desenho coreográfico milimetricamente executado e poucas oscilações vocais. A montagem embarca na poesia, para expor o sentimento do mundo em quase 30 cenas curtas. Imagens que se abrem para a miséria e o esplendor do ser humano, num rasgo de solidão e profunda incompletude. Okamoto modula a dor do existir, num breve painel de afetos, de alegrias e tristezas.

O dramaturgo Cássio Pires criou pequenas narrativas, tradução de imagens recriadas a partir de 400 páginas do livro Jovens de um novo tempo, despertai!. Nesse livro, Kenzaburō Ōe busca definições para coisas aparentemente simples como um pé e supostamente complexas como o sonho, num procedimento que sintetiza mitologia, ensaio literário, ficção e registros autobiográficos. É um fluxo da vida, da determinação de um pai em catalogar o real para seu filho e deixar-se subverter por esse rebento.

O corpo do ator Okamoto está impregnado do butoh que foi buscar em Yokohama, no Japão, onde treinou no Kazuo Ohno Dance Studio, conduzido atualmente pelo filho de Kazuo Ohno, Yoshito Ohno. E da ancestralidade japonesa que até a montagem do espetáculo tinha ignorado.

Ficha Técnica
Encenação, iluminação, figurino e cenografia: Márcio Aurélio
Dramaturgia: Cássio Pires, inspirado na obra de Kenzaburo Oe
Assistência de direção: Lígia Pereira
Assistência de iluminação: Silviane Ticher
Orientação corporal: Ciça Ohno
Assistente de figurino e cenário: Maurício Schneider
Orientação pedagógica do projeto: Suzi Frankl Sperber
Coordenação técnica: Silvio Fávaro
Assistência de produção: Mariella Siqueira
Direção de produção: Daniele Sampaio e SIM! Cultura
Atuação: Eduardo Okamoto

Confira conversa com o ator Eduardo Okamoto realizada após a apresentação do espetáculo no Recife

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Destino trágico das gregas… ou nem tanto

Três Tristes Gregas, com Suzana Costa, Sônia Bierbard e .Foto Gustavo

Três Tristes Gregas, com Suzana Costa, Sônia Bierbard e Isa Fernandes. Foto Gustavo

Desforra, trapaça, morte por (in)justiça. Pathos pesado dessas gregas. Como se sabe, o mito de Orestes remonta ao ciclo troiano e trata da vingança dos filhos de Agamêmnon, Orestes e Electra, contra a mãe Clitemnestra e Egisto, pelo assassinato do pai. Aparece na Oresteia, do dramaturgo grego Ésquilo – composta pelas tragédias Agamemnon, Coéforas e Euménides; na Electra, de Sófocles e na Electra, de Eurípides.

O mito de Fedra ganha pequenas variações em Eurípides, Sêneca e Racine, a partir dos contextos grego, romano e clássico francês. Mas basicamente mostra a destruidora paixão de uma mulher por seu enteado. Fedra era esposa de Teseu. Apaixonou-se por Hipólito, filho ilegítimo do marido. Rejeitada, ela acusa, falsamente, o filho adotivo de violação. E depois se mata.

Sarah Kane diagnosticou a degeneração da sociedade em O Amor de Fedra. Na releitura da dramaturga britânica são expostas as feridas do mundo contemporâneo que recebe tempero da hipocrisia, do cinismo e da atitude misógina.

Antígona é a continuação dramática de Édipo Rei, de Sófocles, que parece ter deixado a desgraça como legado aos quatro filhos (Etéocles, Polinice, Antígona e Ismênia). Etéocles assume o governo, mas não respeita o trato de revezamento de poder com o irmão Polinice. Em conflito os dois se matam e o tio Creonte – irmão de Jocasta, esposa de Édipo – decreta que Etéocles, receba as honrarias fúnebres e Polinice não. E ameaça com morte a quem desobedeça suas ordens. Antígona não aceita a determinação que considera arbitrária, por não respeitar as leis naturais mais antigas ou divinas que pregavam que todo homem tem o direito ao devido sepultamento.

Três Tristes Gregas, com Suzana Costa, Sônia Bierbard e .Foto Gustavo Túlio /Divulgação

O texto é de Moisés Neto e a direção da leitura é de Cira Ramos. Foto Gustavo Túlio /Divulgação

A leitura dramatizada Três Tristes Gregas… é a única atração desta segunda-feira do 23º Janeiro de Grandes Espetáculos. Com direção Cira Ramos, a ação conta com Sônia Bierbard no papel de Elektra, Suzana Costa como Fedra e Isa Fernandes na pele de Antígone.

O escritor e dramaturgo Moisés Monteiro de Melo Neto vem com uma releitura da tragédia grega através das personagens femininas Fedra, Antígona e Elektra. Ele anuncia que tirou o mito do pedestal para fazer bulir ao rés-do-chão. E mistura o trio grego “com alcoviteiras, farrapos humanos e vícios” para ressaltar o papel das mulheres na Grécia antiga. Alardeia ambição esse texto que tem a “intenção de atingir o limite entre o justo e o injusto” daquela sociedade, mas para isso usa a lâmina do humor em combinação com a seriedade e o grotesco. Mas isso é apenas uma primeira leitura.

Ficha Técnica
Três Tristes Gregas
Texto: Moisés Monteiro de Melo Neto
Elenco: Isa Fernandes, Sônia Bierbard e Suzana Costa
Produção Executiva: Mísia Coutinho (METRATON)
Make up: Fê Uchoa
Design de luz: Eron Vilar
Sonoplastia: Fernando Lobo
Orientação corporal: Márcia Rocha
Criação de figurinos e adereços: Xuruca Pacheco
Programação visual: Ronaldo Tibúrcio
Participação especial voz na abertura: Magdale Alves

SERVIÇO
Três Tristes Gregas…
Quando: 23 de janeiro (segunda), às 20h
Onde: Teatro Arraial (Rua da Aurora, 463, Boa Vista), Recife
Quanto: R$ 20 e R$ 10 (meia)

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Pessoa, perdoe a falta de abraço

Carlos Paulo no espetáculo Do Desassossego. Foto: Ivana Moura

Carlos Paulo no espetáculo Do Desassossego. Foto: Ivana Moura

Há 15 anos Carlos Paulo interpreta Do Desassossego. Foto: Ivana Moura

Há 15 anos o ator português  interpreta Bernardo Soares. Foto: Ivana Moura

“O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas cousas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de ténue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual […]”
                                                                                   Fernando Pessoa, Carta a Adolfo Casais Monteiro                                                                                    Lisboa, 13 de Janeiro de 1935

 

O ajudante de guarda-livros Bernardo Soares vive e trabalha na Baixa lisboeta. É cinzenta a paisagem humana e citadina que o rodeia. Dos cafés que frequenta ao escritório da Rua dos Douradores. De figuras como o patrão Vasques, o Moreira ou o moço de fretes. Solitário, mora num quarto alugado. Essa “personalidade literária” troca ideias sobre prosa e poesia com o próprio criador, o escritor Fernando Pessoa (1888 -1935). Os fragmentos literários de Bernardo Soares compõem o Livro do Desassossego. A partir de algumas passagens desses textos o Comuna — Teatro de Pesquisa, grupo com 45 anos anos de existência / resistência, estreou em 2001, em Lisboa, o espetáculo Do Desassossego.

O ator Carlos Paulo atua na peça Do Desassossego há 15 anos. A montagem foi vista por mais de 30 mil pessoas e já rodou por vários países durante esse tempo, na maioria das vezes em espaços pequenos, aconchegantes, intimistas, que criam uma ambiência de cumplicidade.

Com direção de João Mota, cabe a Carlos Paulo conduzir a plateia pelas aflições e intranquilidades de alma e de corpo que pulsam das palavras de Pessoa. O intérprete, que conta com a participação do músico Hugo Franco, se multiplica em seis personagens/ arquétipos: o Escriturário, a Criança, o Mendigo, o Palestrante, Homem/Mulher e Revoltado.

A montagem foi exibida ontem, no Teatro de Santa Isabel, dentro da programação do 23º Janeiro de Grandes Espetáculos. Não funcionou em sua plenitude. As condições materiais (escolhidas e/ou oferecidas) desfavoreceram a fruição. Por alguns motivos. A interpretação intimista, muitas vezes sussurrada, do ator exigia potentes microfones e/ou um espaço menor, que permitisse uma proximidade quase tátil com a plateia.

Quase no escuro em algumas cenas. Foto: Ivana Moura

Quase no escuro em algumas cenas. Foto: Ivana Moura

A luz baixa, quase em resistência, também dificultou, e para quem estava nas poltronas mais distantes do palco, impediu mesmo, de apreciar os detalhes interpretativos do rosto do ator.  E essa penumbra não convenceu como uma opção de dramaturgia da iluminação, como ocorre com o encenador brasileiro Roberto Alvim, que radicaliza nesse quesito do quase escuro. Além disso, o sotaque português, carregado demais neste papel e muitas vezes acelerado, embaralhou a escuta.

Carlos Paulo exibiu também neste Janeiro o recital poético Homenagem a João Villaret, (confira crítica: Poesia da cena portuguesa) junto com a atriz/cantora Tânia Alves e o músico Hugo Franco. Foi no Hermilo Borba Filho, um teatro menor do que o suntuoso Santa Isabel. Utilizando microfones, as mesmas entonações carregadas de sotaque português de Portugal ganharam uma audição melhor pela propagação do som e a dicção menos acelerada, o que resultou numa apresentação mais envolvente. 

O estilo discreto, sóbrio de atuar de Carlos Paulo ganha em Do Desassossego aspectos doces e tristes. Com alguns momentos irônicos e engraçados. Mas o que predomina é uma tensão dolorida, uma dramaticidade para refletir o que há de mais profundo das emoções humanas, avizinhadas pelo tédio ou pelo sentido de inutilidade. O músico faz o papel de Fernando Pessoa, que com a execução musical rasga ou preenche silêncios, evidencia mutações, baliza os ritmos.

Carlos Paulo no espetáculo Do Desassossego. Foto: Ivana Moura

Montagem da Comuna de Lisboa. Foto: Ivana Moura

Do Desassossego é um espetáculo de sensações. Há a orfandade original da Criança, a invisibilidade do Mendigo, a solidão do Escriturário. Em Homem/mulher no espelho, Bernardo Soares nega para si, o amor cúpido, de índole sexual.

“Nós não podemos amar, filho. O amor é a mais carnal das ilusões. Amar é possuir, escuta. E o que possui quem ama? O corpo? Para o possuir seria preciso tornar a sua matéria, comê-lo, incluí-lo em nós… E essa impossibilidade seria temporária, porque o nosso próprio corpo passa e se transforma, porque nós não possuímos o nosso corpo (possuímos apenas a nossa sensação dele), e porque, uma vez possuído esse corpo amado, tornar-se-ia nosso, deixaria de ser outro, e o amor, por isso, com o desaparecimento do outro ente, desapareceria…”

É uma obra pungente, em que o ator na pele do escriturário da rua dos Douradores, expõe as profundezas, a essencialidade da existência. E a encenação pesca essa paixão pelo sagrado no humano. E que a partir do desassossego possa ser erguida a esperança. No futuro, no ser, no teatro.

SERVIÇO
Autoria: Bernardo Soares e Fernando Pessoa
Adaptação: Carlos Paulo
Versão cênica e encenação: João Mota
Operação de luz e som: Paulo Graça
Técnico de montagem: João Monteiro
Gabinete de produção Comuna: Rosário Silva e Carlos Bernardo
Produção executiva da itinerância: Andrêzza Alves e Rosário Silva
Produção local Recife: Companhia Circo Godot de Teatro
Trilha sonora e músico: Hugo Franco
Figurinos e interpretação: Carlos Paulo
Personagem muda: Miguel Sermão e João Monteiro

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