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Saudades de Milaré

Sebastião Milaré em foto de Bob Souza

Sebastião Milaré em foto de Bob Souza

Dizer que o teatro brasileiro está de luto é pouco para traduzir a falta que Sebastiao Milaré já faz.

O crítico, dramaturgo e pesquisador teatral paulista migrou para outra dimensão nessa quinta-feira. Ele foi internado na segunda-feira, dia 7, no Hospital Cruz Azul, no bairro do Cambuci, em São Paulo para tratamento de um câncer no intestino.

O enterro será no Cemitério Jardim da Colina, em São Bernardo do Campo.

Ele coordenava um projeto hercúleo Teatro e Circunstância, do SESC-TV, de São Paulo. Para a série Milaré entrevistou mais de 100 grupos de teatro, de Belém a Porto Alegre, delineando a produção teatral contemporânea, a partir da década de 1970.

Especialista na obra cênica de Antunes Filho, escreveu três livrossobre o encenador: Antunes Filho e a dimensão utópica (Perspectiva), Hierofania – o teatro segundo Antunes Filho (Edições Sesc) e Antunes Filho – poeta em cena (Edições Sesc), este último com posto a paritr das fotografias de Emidio Luisi. Milaré também publicou A Batalha da Quimera — Renato Viana e o Modernismo Cênico Brasileiro.

Esse homem gentil e bem-humorado, intelectual incansável, definia o teatro como “encontro com o sagrado”.

Milaré participou do 15º Festival Recife do teatro Nacional, em 2012. Em maio de 2013 foi publicado trechos da entrevista feita por Pollyanna Diniz. Segue na íntegra:

ENTREVISTA // SEBASTIÃO MILARÉ

De que forma você conheceu o teatro?
O teatro se aproximou de mim e me dominou quando criança ainda. Minha família mudou de São José do Rio Preto para São Paulo quando eu tinha dez anos de idade. Mas antes disso, lembro que eu ia ao circo, adorava! E em São Paulo sempre fui ao teatro, frequentava grupos amadores. Não era uma coisa de família. Muito pelo contrário, era só eu mesmo.

E com o tempo você começou a fazer direção de espetáculos?
É. Vem dessa história de começar bem jovem a fazer teatro de amadores. Eu dirigia, gostava disso. E depois comecei com um grupo que não era mais tão amador, mas era bem experimental, isso nos anos 1960: chamava Teatro Experimental de Jovens. E também dirigi um grupo criado dentro do Sesc. Tinha uma unidade do Sesc em São Paulo na Rua do Carmo que tinha um teatro de arena e eu fiquei dirigindo um grupo dentro desse teatro por alguns anos: o grupo Tarefa. E isso nos anos 1960 ainda. Era uma fase muito dura quando eu me profissionalizei mesmo, era muito difícil fazer teatro naquela época, por conta da censura. E eu já estava no jornalismo, então comecei como crítico de cinema na Folha da Tarde. E fui convidado para trabalhar na revista Artes, que naquela época acho que era a única publicação brasileira sobre artes mesmo, sobre todas as linguagens. Terminei me envolvendo com outras linguagens: sempre gostei muito de artes plásticas, fiz cobertura de Bienais, e também teatro. Então eu escrevia tanto sobre artes plásticas, quanto sobre cinema e teatro. Mas comecei a desenvolver um trabalho de crítica de teatro e me interessei muito pela parte teórica. Então fui abandonando a criação. Comecei a achar que a minha praia era teoria; não era a criação. Gosto de ver a criação alheia, de acompanhar todo o processo criativo, mas eu mesmo me colocar como criador já era uma coisa que não estava me interessando muito.

Como veio a aproximação com Antunes Filho. Quando você viu uma peça dele pela primeira vez?
É inesquecível. Eu tinha 16 anos quando fui ver, em 1962, no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), a montagem que ele fez de Yerma, de Garcia Lorca. Eu não conhecia nem ele, nem o texto. Claro, ia ver muitas coisas, muita comédia, mas eu não conhecia realmente as figuras do teatro. Quando eu vi aquela Yerma, para mim o teatro começou a significar alguma coisa de extraordinário. Era uma revelação muito grande. No dia seguinte, comprei as obras completas de Garcia Lorca, comecei a ler tudo e a acompanhar o que Antunes fazia. Eu o admirava muito, que era bem jovem também. Depois, em 1965, ele foi convidado pelo Alfredo Mesquita para ser o professor de interpretação do terceiro ano da EAD (Escola de Arte Dramática da USP), que era o responsável pela encenação do final do curso. E ele optou por fazer A falecida, do Nelson Rodrigues. Eu tinha vários amigos dentro da EAD. Então eu freqüentava muito aquele espaço e de certa maneira acompanhei a montagem. E foi aí que tive os meus primeiros contatos rápidos com Antunes. Só bem mais tarde, quando eu já estava na revista Artes, foi quando comecei a fazer matérias bastante extensas sobre o teatro dele. Antunes sempre gostou também das coisas que eu escrevia. Nós já tínhamos um respeito mútuo profissional. Eu me lembro quando ele estava fazendo Peer Gynt em 1971; e era o grande espetáculo daquele ano. Pedi uma entrevista para o Antunes. Marcamos o dia e quando cheguei ao teatro, o Antunes, aquele jeitão dele, me pegou pelo braço: “vem cá, vem cá”, me levou para uma sala. E para a minha surpresa numa mesa estavam nomes como Maria Bonome, que era a figurinista da peça, Laonte Klawa, que era cenógrafo, Stênio Garcia, que fazia Peer Gynt, Jonas Bloch, Ariclê Perez. E Antunes me disse: a entrevista tem que ser com todos, porque todos são criadores do espetáculo.

Isso em 1971 era uma visão bastante avançada?

Com certeza. E era realmente o reflexo do que ele fazia, que hoje é uma coisa muito comum, de criar a peça através de workshop e tudo mais. Antunes foi o primeiro que fez laboratório no teatro brasileiro, em 1964, com Vereda da Salvação. Então a partir de Peer Gynt a minha relação com Antunes ficou mais próxima, mas também era uma fase difícil, o Antunes trabalhava muito por contrato, não conseguia manter uma linha de trabalho dele. Isso até 1976, 1977, quando começou a fazer Macunaíma. A partir de Macunaíma passei a acompanhar sistematicamente e estar muito junto do Antunes.

E daí para o primeiro livro – Antunes Filho e a Dimensão Utópica – qual foi o caminho?

Esse primeiro livro foi muito engraçado. Porque eu escrevi muitos artigos sobre o Antunes. Quando o Centro de Pesquisas Teatrais (CPT) já estava instituído dentro do Sesc, quando ele tinha esse lugar que possibilitava a continuidade do trabalho, fiz um ensaio muito grande sobre o CPT. E percebi que o Antunes estava realmente trabalhando algo que era método para ator. Ele dizia que não. E eu me interessei muito e falei para o Ulysses Cruz, que era assistente dele, que estava pensando em escrever um livro, porque só as matérias não eram suficientes. Mas Ulysses disse que eu não falasse nada para ele, porque Antunes tinha medo: “ele acha que escrever um livro sobre ele é anunciar a morte”. Mas eu não podia fazer uma biografia não autorizada! Fiz um projeto do que eu pretendia e mostrei ao Antunes. E ele fechou comigo imediatamente e ainda me disse que eu não precisava nem fazer pesquisa em arquivos, em jornais, porque ele tinha tudo, todos os recortes que eu precisasse. E daí comecei a acompanhar sistematicamente o trabalho de ensaios no CPT, a montagem toda de A hora e a vez de Augusto Matraga (1986) Isso para eu ir realmente me assegurando de como era o trabalho dele; porque eu sabia, mas de uma maneira um pouco distanciada, e eu precisava estar no olho do furacão. Os processos do Antunes são sempre demorados. E o meu processo foi demorado exatamente acompanhando o ritmo dele. Tive um apoio muito grande de pessoas que me deram entrevistas, depoimentos sobre o Antunes maravilhosos, como Osmar Rodrigues Cruz, que foi parceiro dele logo no início, Décio de Almeida Prado. E fiz Antunes Filho e a dimensão utópica, que foi o primeiro livro, que trata dele até Macunaíma (1978).

Mas por que até Macunaíma?

Porque como eu estava dentro do CPT vendo o que estava acontecendo ali, cada vez mais ia ficando claro – e aí o Antunes já começou a admitir sim – que ele estava constituindo um método, mas estava muito no início, embora já desse resultado em cena. E sabia que tinha que fazer um livro especificamente sobre o CPT e sobre o processo criativo do Antunes lá dentro. Já no prefácio, na introdução do primeiro livro, prometo o segundo livro – que aí avança no aspecto da obra dele a partir de Macunaíma, já dentro do CPT e dentro do grupo Macunaíma. Era um projeto já desde aquela época, mas eu não sabia que ia demorar tanto! A elaboração do livro tinha que acompanhar o ritmo do Antunes e o processo dele lá dentro do CPT. Eu só poderia dar por terminado um livro sobre o método quando ele desse por concluída também a sistematização que ele estava fazendo. Por isso levou quase 20 anos!

Para Antunes o ator é a peça fundamental.

Antunes deixa claro que para fazer teatro você pode dispensar cenário, luz, figurino. Pode dispensar até o texto. Mas sem o ator não tem teatro. Na realidade, Antunes fez no Brasil a mesma coisa que outros da geração dele fora do Brasil. E estou falando de Grotowski, de Eugenio Barba. Antunes fazia um trabalho muito sintonizado com tudo isso. Sempre briguei muito com essa história: “ah, o Antunes está fazendo Grotowski”. Não está fazendo Grotowski! Ele está bebendo nas mesmas fontes, porque é da mesma geração, tem a mesma inquietação, o mesmo espírito do tempo está dominando ele. Desde o início da carreira dele, Antunes sempre lutou para que o ator brasileiro tivesse alguns meios de criação muito adequados à cultura do ator brasileiro, ao físico, ao corpo do ator brasileiro. Mas isso desde os anos 1950, quando ele fez Anne Frank; depois quando ele faz Vereda da salvação em 1964, que surgem os laboratórios, algo extremamente controverso, polêmico. Tinha gente de teatro que dizia que o Antunes estava fazendo uma coisa de destruir o teatro, que era uma loucura. Mas o que ele estava fazendo era o que Grotowski fazia, cada um na sua realidade. Depois de um tempo é que, de repente, começam todos eles a ficarem internacionais e aí vamos tendo notícia de cada um. Desde que se instituiu realmente o CPT, que já tem 30 anos, o número de atores que já passaram por lá, que se inscrevem, que passaram pelo CPTZINHO, é um número imenso. E grande parte desses atores estão aí no teatro, constituíram uma carreira e trazem essa herança do Antunes. E dessa maneira as ideias dele vão “contaminando” o teatro brasileiro e o ponto de vista que se tem hoje do ator já é muito diferente do que há 30 ou 40 anos.

Quem é o ator para Antunes Filho?

Antes de tudo, o ator em que lutar muito para resolver todos os bloqueios, tanto no físico quanto no espírito. O ator tem, para o corpo, uma carga extraordinária de exercícios, até que seu corpo fique completamente destravado e obedeça a um comando qualquer que você dê. O corpo não pode ter tensões desnecessárias. Ombros duros, por exemplo, isso acaba com a respiração. Quando o ator consegue chegar a um estado de relaxamento ativo, consegue ter domínio da respiração. E quando há domínio da respiração, ele consegue tudo. Porque, para Antunes, ator é respiração. E, por outro lado, a questão do intelecto, da psique, do espírito. O ator tem que ser desbloqueado. Temos muitas travas culturais, muitos condicionamentos. As pessoas são todas muito carregadas de preconceitos. O ator não pode ter isso; é a mesma coisa de travas no corpo; a trava de um pensamento condicionado a certas manias, certos preconceitos. Acaba com a possibilidade de criação. Então para isso é muita leitura, conversa e um permanente trabalho de autoconhecimento. O processo do Antunes está atrelado sempre ao processo de individuação, como prega o Jung. Porque o ator tem que questionar sempre a postura dele frente ao que ele faz. Ele vai trabalhar com o outro, que é o personagem, então ele não pode ter uma ideia preconcebida do outro. Ele tem que começar a examinar o outro, as razões do outro e buscar primeiro uma identificação. Esse é o princípio. Mas eu não posso me identificar com um personagem colocando as minhas coisas, como diria Antunes Filho, “seus problemas de Édipo, seus problemas com o pai, com a mãe” no personagem. O ator não pode projetar as coisas dele no personagem e sim trazer as coisas do personagem para ele e sentir como ele reagiria dentro disso. É sempre um processo de autoconhecimento que ele vai desenvolvendo.

Neste sentido, como você encara as muitas montagens contemporâneas que levam à cena o ator como personagem de si mesmo?

É diferente você pegar a biografia de uma pessoa, a vida, analisar, ter as suas conclusões e criar em cima disso; ainda que seja uma pessoa atual, viva e tudo mais. Agora quando o ator se coloca ele mesmo em cena, é meio complicado. Porque ele não tem um distanciamento do outro. Não sei te citar exemplos nem de uma coisa positiva, nem de uma coisa negativa nesse sentido. Só acho que é algo que está se fazendo hoje, mas que temos que examinar com cuidado, pensar quais caminhos o ator vai tomar nesta criação. Um pintor pode fazer um autorretrato, mas ele tem uma distância, ele está noutro suporte. O ator não tem outro suporte, o suporte dele é o próprio corpo, a própria cabeça. É uma coisa meio complicada. Eu acho que sempre que se coloca um ator que está se expondo em cena, usando seu próprio material pessoal para uma criação, acho que entra mais na psicanálise do que na verdadeira criação artística, pelo menos por enquanto. Acho que é uma coisa mais terapêutica do que realmente uma criação. Agora, não é inválido. Acho que as pessoas que estão trabalhando nessa linha tem um desafio pela frente, que é o de superar uma série de problemas que existem nesse conceito e de encontrar meios expressivos que tornem isso uma coisa artisticamente válida. Mas é muito atual.

Voltando a falar em Antunes, quais os paralelos entre Nelson Rodrigues e Antunes, e como foi a relação entre os dois?

Quando falamos em Nelson Rodrigues estamos falando do maior poeta dramático de Língua Portuguesa desde Gil Vicente. Acho que Nelson está à altura dos grandes clássicos. Está à altura de Ibsen, de Shakespeare. Não tem diferença. O que Shakespeare fez foi contar aquele seu momento, aquela sua realidade e construir toda uma visão de mundo a partir daquela realidade. Nelson fez a mesma coisa e num nível poético de extraordinária beleza, de força e vigor. A relação do Antunes com o Nelson foi muito importante para os dois e transformadora. Porque quando o Antunes fez, em 1981, Nelson Rodrigues – O eterno retorno mudou a visão de todo mundo em relação a Nelson Rodrigues. Infelizmente Nelson não chegou a ver o espetáculo: morreu seis meses da estreia. Mas a assistente do Antunes na época, a Leonor Chaves, que é uma grande amiga minha, ia para o Rio e era recebida pelo Nelson para consultá-lo sobre questões e era recebida com a maior afetividade e muito feliz por Antunes estar fazendo aquele trabalho. Uma pena que ele tenha morrido antes. Acho que ele ficaria surpreso quando visse aquela obra, que era uma coisa surpreendente mesmo. E mudou a visão que se tinha do Nelson Rodrigues. A partir daí Nelson começa a ser realmente considerado um gênio e é repudiada aquela ideia que se fazia antes de um autor pornográfico, de comédia de costumes. Nelson é um patrimônio nosso, do Brasil, e da humanidade. Uma das maiores referências do teatro no século 20 e onde ele é descoberto, é louvado. Acho que o Antunes tem uma familiaridade com a obra do Nelson que possibilitou ele fazer, por exemplo, A falecida Vapt-Vupt, que estreou aqui no Recife, em um mês e meio e como possibilitou fazer agora Toda nudez será castigada em menos de dois meses. Eles estão muito próximos.

O teatro é um processo histórico. Mas mesmo sem o distanciamento geralmente exigido, você consegue delimitar em que momento estamos e que caminhos vamos trilhar?

Acho que o teatro brasileiro tem uma maturidade e uma vitalidade. Estou falando de teatro brasileiro mesmo, de Norte a Sul. Não estou falando de eixo Rio-São Paulo. O que se percebe é que existem projetos artísticos audaciosos muitas vezes e uma preocupação e uma consciência dos criadores – sejam eles diretores, dramaturgos, atores. Uma consciência muito grande de que para chegar a realizar aquela ideia, ele tem que se preparar intelectualmente, pesquisar muito, a cabeça dele tem que estar abrindo para novos horizontes. Assim como ele tem que trabalhar o corpo, para que o corpo responda e corresponda àquela ideia. E isso você percebe em muitos grupos de teatro do Brasil inteiro e muitos conseguem realizar obras que são surpreendentes. Agora… se está assim, e se assim continua, o futuro a Deus pertence!

Mas o caminho passa pelo teatro de grupo?

Por enquanto, na realidade que estamos vivendo hoje, passa sim. Acho que o teatro de grupo possibilita a continuidade de uma pesquisa. Então tem grupos, por exemplo, que não tem o diretor, que contratam os diretores. Mas eles têm uma ideia, uma proposta estética que quem chega acompanha. Cito, por exemplo, o Teatro de Anônimo, do Rio de Janeiro, que funciona assim. Se o diretor tem uma ideia e os atores têm outra, fica a ideia do ator! Porque a continuidade do trabalho está neles. E acho que isso é importante. O grupo possibilita ter essa continuidade do trabalho e a criação artística é um processo contínuo. O produtor contrata, o diretor, o ator que tem o physique du rôle para aquele papel num sei das quantas. E está fazendo a reprodução de um teatro antigo, de uma ideia antiga de teatro, que termina nela mesma. O teatro de grupo possibilita a continuidade, todos estarem dentro de um projeto, e trabalhando por aquilo. E esse projeto pode ir se transformando; pode começar de uma maneira e virar outra coisa lá na frente, mas dentro de um esforço conjunto. O teatro é sempre uma arte coletiva. O teatro não é uma coisa isolada, fragmentada, mas é um esforço coletivo de criação. E esse coletivo tem necessariamente que estar junto dentro de uma ideia: do que é uma obra de arte, o que é uma peça de teatro, como o que é uma escultura.

Como você enxerga especificamente o teatro feito no Recife?

Isso tudo que eu estou falando do teatro brasileiro, encontramos aqui, em João Pessoa, Porto Alegre, Brasília. O que vejo é que Recife tem uma tradição de teatro que tem que ser respeitada. E isso é batalha. Acho sacanagem contar a história do teatro moderno brasileiro sem apontar Recife: ficar naquela história – Os comediantes, depois o TBC. Acho que tem que entrar o Gente Nossa como processo histórico, Valdemar, o Teatro de Amadores de Pernambuco, Hermilo Borba Filho. Hermilo não estava importando o que estava acontecendo em São Paulo. É claro que estava dialogando com aquilo sim, mas estava correspondendo a uma realidade daqui. Especialmente Hermilo, ele vai trazer muito essa consciência: nós temos uma realidade e temos que trabalhar e transformar essa realidade em códigos artísticos dentro do teatro. Isso tudo é o processo de modernização e Recife participou de maneira muito intensa, com figuras muito importantes. O que percebo hoje é que esse vigor, essa herança do passado está trazendo frutos hoje. No panorama do que eu conheço, isso passa pela Companhia Teatro de Seraphim, que pega essa herança dessa modernização, tanto do Teatro de Amadores quanto do Hermilo, com as contradições todas implícitas nessas linhas e vai trazer para o Seraphim outra coisa, que já se transforma noutros grupos. Acho que um dos grupos mais recentes, por exemplo, é o Magiluth. Acho o Magiluth um grupo de uma capacidade de percepção teatral muito grande, de propostas teatrais. Quando eles fazem Um torto, Aquilo que meu olhar guardou para você são experiências cênicas importantes. E eles têm a coragem de fazer Gregório com aquela capacidade artesanal, mostrando que eles sabem realmente fazer teatro sim. Pegam Uma viúva, porém honesta; tem a inteligência de pegar uma obra de Nelson Rodrigues que permite isso e fazem como se fosse uma extensão do Nelson Rodrigues. Eles têm as mesmas condições do Nelson Rodrigues porque são da mesma terra, têm as mesmas heranças culturais da região. Tenho muita admiração pelo povo todo que está fazendo teatro no Recife, que sempre me surpreende. Vejo um teatro muito vital e que tem raízes, tem tradição, não é uma coisa que está acontecendo por acaso.

Neste panorama nacional, em que situação está a crítica, principalmente com a diminuição dos espaços formais?

Senti isso na carne. Há décadas me recuso a fazer crítica na imprensa diária, estar na redação fazendo crítica. Vamos voltar ao Viúva, porém honesta. Acho perfeito o que o Nelson Rodrigues faz. Tem uma tradição na imprensa brasileira que vem lá dos anos 1910, 1920. Naquela época o crítico para entrar no teatro tem que ter uma casaca. “Ah, quem trouxe uma casaca? Então hoje você é o crítico do dia”. Não mudou tanto. Porque muitos críticos são eleitos pelo editor porque acham que “o carinha” leva jeito, quando a crítica é uma coisa muito séria. Ou então vamos publicar só críticas de espetáculos que tem estrelas de televisão. Acho que é uma visão tão falha… e por isso a imprensa está tão mal das pernas, enchendo o saco por assinatura. Os espaços estão cada vez menores ou inexistentes. Em São Paulo, vejo que tem um movimento teatral de periferia, de grupos de importância extraordinária na periferia que não tem espaço nenhum na imprensa. Ou algumas vezes, o Grupo Clariô, por exemplo, que faz um trabalho extraordinário. Hospital da gente é uma obra antológica. Eles ganharam páginas inteiras nos jornais, porque a sede deles, que é junto de uma favela, num local sujeito a enchentes, sofreu algumas enchentes. E não pelo trabalho extraordinário que eles fizeram em cima do texto do Marcelino Freire. Por outro lado, existe um pensamento crítico no Brasil hoje? Existe. Tem muita gente escrevendo, fazendo críticas importantes, pensando o teatro no campo da teoria, de uma maneira muito séria. Mas essas pessoas raramente aparecem na imprensa diária. Elas estão publicando livros, fazendo ensaios, artigos que você vê em revistas de vez em quando. Então existe sim um pensamento crítico acompanhando tudo isso. Não estamos numa terra de ninguém. Mas as pessoas quando falam de crítica já pensam naquela coluninha que sai no jornal.

Qual o seu processo quando vai escrever uma crítica?

Sempre procuro amadurecer muito as ideias. Quando é para uma publicação que eu tenha tempo, trabalho muito, volto muitas vezes àquilo, me questiono. Mas quando faço críticas em festivais, por exemplo, que é uma coisa mais rápida, o que procuro sempre é perceber no espetáculo o que há de positivo. Isso que me interessa. E sempre há alguma coisa positiva. Porque aí acho que você está dialogando com os criadores de uma maneira mais honesta, mais justa e você está dando ao espectador, ao leitor, a ideia de que, ainda que seja um espetáculo com problemas, mas você pode prestar atenção em algo, um caminho, um viés, revela um pensamento mais consistente daquele criador. Essa é uma função importante da crítica.

Você acompanha a crítica teatral na internet?

Eu realmente não observo tanto, por causa de tempo. Procuro me atualizar e verificar o que as pessoas estão fazendo, pensando, mas não com um acompanhamento sistemático. Até porque é muita coisa. Acho que na internet você encontra alguns trabalhos críticos que, às vezes, não têm espaço na imprensa tradicional. Porque a internet rompe um pouco com as exigências editoriais, então permite que o crítico tenha um raciocínio um pouco mais dilatado. Mas o que percebo é que a grande maioria escreve ainda como se estivesse escrevendo para um jornal diário; estão dentro dos mesmos conceitos, das mesmas preocupações editoriais, que interferem no pensamento crítico. A internet é um campo que possibilita uma democratização e isso traz também o aparecimento de um mundo de coisa ruim, mas também de coisas de excelente nível. A internet está possibilitando que as pessoas se pronunciem. Quando eu fiz o Anta profana (www.anaprofana.com.br), foi por uma insistência de um sobrinho meu, o Alexandre Werneck, que fez o site. E eu achei legal quando a ideia maturou. Mas a minha preocupação primeira é que eu estava com muito trabalho de pesquisa e eu tinha que colocar na roda. Acho que o pesquisador vai acumulando muita coisa e eu tinha que dar acesso a outras pessoas a esse material. E para isso o Anta profana, antes de ser a divulgação de um pensamento crítico, era a distribuição do conhecimento de um pesquisador. Mas já tem dois anos que estou com muita dificuldade de atualizar, por conta do trabalho. Mas vou retomar. Anta profana é minha casa e eu sou uma anta, porém não sagrada, profana.

Queria falar um pouco sobre a Lei de Fomento ao Teatro em São Paulo, que completou uma década ano passado, e a importância dessa experiência para o resto do país. Você presidiu a comissão que escolhia os projetos contemplados algumas vezes, não é isso?

A Lei de Fomento estabeleceu um modelo de apoio. Foi resultado de um movimento da categoria que foi o Arte Contra a Barbárie, um movimento realmente muito importante e que desembocou num momento favorável, que foi quando a Marta Suplicy foi eleita prefeita de São Paulo. Então alguns vereadores acolheram a proposta da categoria, apresentaram projeto de lei e depois a prefeita aprovou, sem alterar o projeto de lei que tinha sido feito pela categoria. Acho que a Lei de Fomento inova de uma maneira extraordinária porque não é destinada à montagem de espetáculo. Toda lei de incentivo está sempre pensando em montagem. E a Lei de Fomento não é para isso, mas para a continuidade de trabalho de grupo. Possibilitar que um coletivo possa desenvolver seu trabalho de pesquisa sem essa opressão de colocar algo logo em cena, buscar patrocinadores. Você tem que ter esse tempo para estudo, um espaço que possibilite isso. Acho que é um desdobramento legal, por exemplo, que a Petrobras está fazendo, também promovendo a manutenção de grupo. Muitos grupos no Brasil estão conseguindo desenvolver seus trabalhos. Dentro da própria categoria, por outro lado sempre tem aqueles que não são contemplados ou os que nem mandam projetos: “essa comissão é um compadrio”. A lei não impede que um grupo seja contemplado várias vezes e até em sequência. Se um grupo apresenta um projeto e demonstra que está trabalhando, que está realizando, precisa ganhar de novo para continuar. O espírito da lei sempre foi esse. Então dentro da classe surgia essa história de compadrio, que realmente, nunca existiu. As nove vezes que eu presidi a comissão, as reuniões sempre foram aguerridas. Cada projeto votado é discutido exaustivamente. E outra coisa é dentro do próprio governo. Alguns acham que a prestação de contas tinha que ser como a da Lei Rouanet, que sacrifica os grupos. Felizmente, criou-se logo no início a continuidade do Arte Contra a Barbárie. Então os grupos se reúnem. Por exemplo, a secretaria colocou um edital e tem alguma coisa que fere o espírito da Lei de Fomento, imediatamente tem uma manifestação pública e por duas vezes a secretaria já teve que cancelar o edital e refazer. Isso é importante. São Paulo tem um movimento teatral hoje muito forte, com grupos que surgiram nos anos 1990 e tem uma expressão bastante grande e a possibilidade da existência desses grupos está ligada à Lei de Fomento. Acho que é um modelo que poderia ser aplicado nacionalmente.

Uma discussão recorrente: como formar plateia no Brasil?

O teatro é o ator antes de tudo, mas sem a plateia o ator não existe, é aquele bobo que está falando sozinho. Ele tem que ter o interlocutor. Mas é complicado formar plateia. Eu dou um exemplo claro. Os grupos de periferia de São Paulo. Tem vários grupos de um nível extraordinário: a Brava, Dolores Boca Aberta, Clariô. São grupos de um trabalho estético de importância muito grande. E o trabalho estético deles nasce do convívio deles com a comunidade onde atuam. Eles não estão na coisa paternalista: “ah, coitadinhos, nunca viram teatro”. Não é isso. A atitude é: esta era uma realidade que nos interessa como matéria prima para a nossa criação e não para fazer discursos panfletários, nada disso. Porque o drama humano está ali e isso é o que interessa. Mas tenho que conhecer profundamente esse drama humano para conseguir transformá-lo em códigos artísticos em cena. Esses grupos todos, quando eu vou para a periferia para ver um trabalho deles, embora você não precise ir para a periferia, porque muitos deles estão nos festivais, a receptividade daquele público para as obras é uma coisa extraordinária. Não lhes falta público jamais e um público cúmplice. São códigos que eles criaram. Não é uma coisa fácil, que você vê na televisão. Não! É uma obra de arte que eles estão criando ali! Mas tem um diálogo maravilhoso e aquele público está completamente entregue a eles. Essa é a formação de plateia que vejo, esse diálogo. Não é criar evento. Acho que o que esses grupos estão fazendo – estou falando da periferia porque é mais óbvio, mas outros estão fazendo isso, como o Teatro da Vertigem -, é resgatar para o teatro a sua condição ritualística. É um ritual. E o ritual envolve o que está celebrando e quem está participando: a plateia. Quando o teatro interessa realmente àquele público aí o teatro se torna uma coisa sagrada, aí acontece um encontro do homem como o divino. Isso é formação de público. Eu lembro de uma experiência que tive há muito tempo, aqui no Cabo de Santo Agostinho. Fiquei impressionado com o teatro, não só de rua, mas de palco também. E como uma parte da plateia, molecada mesmo, entrava na cena. E aí é que está: não tem uma educação burguesa, quer participar também, então fala, mas dialoga. E eu achava aquilo lindo, não me incomodava. Depois, sim, vamos educando a plateia. Mas esse jogar-se lá dentro é tão fundamental! Aí se cria a plateia. Não é aquela plateia que vai ver espetáculo e depois come pizza. Essa plateia não me interessa. Como não me interessa quem faz teatro para isso. Acho que teatro é uma coisa muito mais séria. Aquelas ‘comediazinhas’…você ri, ri, depois vai comer pizza. E esquece. Não leva nada daquilo. O teatro tem que imprimir na alma do espectador alguma coisa muito importante.

Quais os seus próximos projetos?

Estou completamente envolvido na série Teatro e circunstância. Nós ficamos cinco meses rodando pelo Brasil e tomando depoimentos. Entrevistei mais de cem grupos. Do Brasil inteiro, ou pelo menos de Belém a Porto Alegre. Tem alguns vazios: eu não podia ir para Manaus, por exemplo, para Mato Grosso, porque era muito dispendioso. Então tive que me concentrar: o Nordeste inteiro, Minas Gerais, Rio de Janeiro, os estados de Sul. Entrevistei mais de 100 grupos e ainda intelectuais, pessoas envolvidas com o teatro. É um material de pesquisa extraordinário, como acho que ninguém tem. E isso me traz uma responsabilidade. Porque terminando de construir os roteiros da série – 28 roteiros, de uma hora cada um, vou fazer um livro. Estou feliz porque é um painel como nunca houve. No final das contas, são 55 programas de uma hora cada. E o que pretendo fazer, o projeto que vou me dedicar inteiramente é escrever um livro sobre o teatro brasileiro contemporâneo. Esse teatro que realmente existe e não aquele que as pessoas imaginam que exista e que fica restrito a determinadas áreas e nada mais. Tem coisas surpreendentes nesse país. Trabalhos, pessoas pensando teatro nos lugares onde você nem suspeitava.

O que é o teatro para você?

O teatro para mim é uma religião. Acho que o teatro é sim um espaço sagrado. É sempre um ritual. Acho legal, por exemplo, quando o Amir Haddad defende a ideia da arte pública. A arte pública não é uma arte feita pelo governo. É uma arte feita pelo cidadão e para o cidadão. E acho que o teatro é realmente isso. O teatro tem que ser uma arte pública. Quando o artista vai para a cena, ele tem que estar carregado dessa responsabilidade social, o ato político de você estar se dirigindo ao outro. Em primeiro lugar isso, essa responsabilidade na comunicação e quando ela se efetiva de uma maneira generosa, bonita, bela, porque quando você está fazendo arte você tem que buscar a estética, você chega ao ritual e ao que é o teatro. É uma coisa sagrada. É o divino de cada um. Quando você supera todas as suas coisas mesquinhas, imediatas, e tudo mais e passa para outro plano da realidade, um plano superior. É aí que o teatro tem que esta

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A curadora do Palco Giratório

Palco Giratório

Um circuito de artes cênicas que engloba 126 cidades nos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal. Os números de dimensões continentais são do Palco Giratório, programa idealizado e bancado pelo SESC, que se revela não só um quebra-cabeças logístico, mas também um recorte significativo do que se produz em artes cênicas no Brasil. Este ano, 20 grupos, companhias e coletivos de todo o país estão no projeto. Há espetáculos do Acre, do Piauí, da Bahia, do Rio Grande do Sul. Além da circulação, também são promovidos debates ao final dos espetáculos, oficinas e rodas de conversa intituladas Pensamento Giratório. No Recife, há o festival Palco Giratório, que acontece durante todo o mês de maio, a Aldeia Velho Chico – mostra de cultura em Petrolina -, e ainda a circulação de vários espetáculos por unidades do Sesc no interior. “Nenhum grupo passa incólume no Palco Giratório”, acredita Galiana Brasil, a representante pernambucana na rede de 32 curadores que idealizam essa programação do Palco anualmente. Conversamos com a atriz, professora e gestora cultural sobre como se dá esse processo de escolha, a participação dos artistas pernambucanos no projeto e a força do programa como política cultural.

Galiana Brasil. Foto: Renata Pires

Galiana Brasil. Foto: Renata Pires

Entrevista // Galiana Brasil

Como foi o processo de escolha dos espetáculos para a circulação nacional este ano? Podemos dizer que alguma linguagem se destacou?
O processo é, via de regra, marcado pelo atrito, pelo debate caloroso. É sempre assim, por conta da escolha do SESC em apostar no seu corpo técnico. Vez por outra surge alguém (desavisado) que propõe a criação de um edital. De fato, seria menos complexo, mas a maioria dos técnicos do SESC – principalmente aqueles que tiveram a chance de ver esse processo nascer-, criou gosto pela coisa. É outra política, outra prática discursiva. Todo artista que se submete aos processos seletivos, via editais, conhece o gosto amargo da burocracia, ver um projeto ser excluído por conta da ausência de uma, entre dezenas de assinaturas, uma certidão negativa vencida. Acho muito importante numa época assim existir alguma forma diferente de praticar política cultural. Ademais, é um paradoxo tão significativo uma instituição extremamente burocrática, como o SESC, investir num corpo curatorial de técnicos. Dá muito mais trabalho para quem seleciona, acredite, mas, para quem não está ali de forma burocrática, apática, é um exercício político sofisticado, um espaço de aprendizado incrível. Quanto aos “destaques”, penso que mais que algum gênero, a grande força foi a da diversidade geográfica, a resposta à lógica perversa da hegemonia das regiões Sul/Sudeste. Este ano tivemos grupos oriundos de diferentes estados do Nordeste – Pernambuco, Paraíba, Ceará, Bahia, Piauí; da região Norte há grupos do Acre, Tocantins; há o Centro-Oeste com o Mato Grosso e o Mato Grosso do Sul. Para quem é dado à pesquisa histórica, sugiro uma visada no catálogo do Palco Giratório, na sessão “grupos e espetáculos que passaram pelo Palco” – ali consta o registro ano a ano. A virada do projeto se deu com a criação dessa curadoria nacional, a partir da gestão compartilhada do projeto, em todas as suas fases. Como num grito de guerra, bradamos, em 2006, em meio à euforia do recorte emblemático que se deu na seleção dos grupos daquele ano, o bordão “mudamos o sotaque do Palco Giratório”, e isso se deu, porque assumimos que o Brasil não tem sotaque oficial – muito menos o teatro! Ele é múltiplo, misturado e diverso. E gostamos disso.

Conhecer as indicações feitas por cada curador e discutir essas propostas deve ser, talvez, um dos momentos mais interessantes do Palco. Será que você poderia lembrar grupos que conheceu, ou teve mais informações, através dessas discussões, e que te marcaram, te surpreenderam, ou continuam fazendo coisas interessantes até hoje?
As indicações acontecem em um processo que antecede o encontro presencial que chamamos de “Análise Prévia”. É quando cada representante dos estados indica até cinco grupos/espetáculos, que podem ser de qualquer lugar do Brasil – ou seja, o curador não está limitado a indicar espetáculos apenas de seu estado, contanto que ele tenha visto o trabalho presencialmente, pois essa é condição primeira para uma indicação. Até o ano passado, esses espetáculos eram distribuídos para todos os curadores em vídeos, e suas informações em cds (também projetos, folders e clippings impressos) que deveriam ser previamente analisadas antes do encontro nacional. A partir deste ano, inauguramos uma ferramenta virtual, e a análise prévia se dará a partir desse canal. Quando nos reunimos para o encontro de curadoria – que dura cerca de dez dias -, já assistimos quase tudo em vídeo, mas sabemos o quanto se perde assistindo teatro em vídeo, por isso que a “defesa” de quem está indicando pesa muito, é o que define a aposta coletiva. Daí o SESC investir na ida de grupos de curadores a diversos festivais ao longo do ano, para que mais gente possa assistir aos trabalhos que estarão circulando nas indicações. Por isso também nosso investimento, aqui no SESC Pernambuco, em trazer curadores dessa rede para o Janeiro de Grandes Espetáculos – para que conheçam a produção pernambucana; daí também assistirmos, durante o encontro, a uma média de 08 a 10 espetáculos presencialmente. Só nesse processo, de análise prévia, com média de oitenta trabalhos de todos os cantos do país, temos acesso a uma cartografia de grupos luxuosa. Eu sempre soube da potência dos grupos em São Paulo, por exemplo, mas foi nessa curadoria que conheci a força do teatro catarinense. Ano passado fui chamada para participar da comissão de seleção de um prêmio estadual do governo de Santa Catarina e fiquei perplexa: simplesmente conhecia quase toda a produção que estava concorrendo e é conseqüência, exclusivamente, da minha ação junto ao Palco Giratório. Porque o edital era estadual, então, além dos grupos de Florianópolis, havia muitos grupos do interior e eu reconheci inúmeros trabalhos, grupos de Chapecó, Criciúma, Jaraguá do Sul.

Qual a força do Palco para a trajetória de um grupo? Quais exemplos poderíamos dar?
Penso que nenhum grupo passa incólume no Palco Giratório. Ou ele potencializará sua energia criadora – inferindo mudanças, inspirando criações, friccionando as relações pessoais, ou ele revelará suas mais profundas fragilidades – inferindo mudanças, friccionando as relações pessoais… Porque o contato humano é por demais intensificado. São contatos com diversos públicos, de forma quase ininterrupta. O grupo se apresenta e já senta pra uma roda de bate-papo. No dia seguinte, provavelmente terá uma oficina, um pensamento giratório, ou seja, mais contato com outros públicos, com os artistas locais, e depois o grupo entra numa esfera de convivência tão intensa que, de alguma forma, gera algum estranhamento. A privacidade nesse circuito é quase zero. Por conta dos custos do projeto, as hospedagens precisam ser coletivas (duplos ou triplos), com algumas exceções devido à condição física, ou limitações de saúde, obviamente. Vi um grupo cuiabano recém criado, cheio de som e fúria, chegar de forma estrondosa, com um trabalho lindo apresentado na mostra Cariri e, no ano seguinte, ganhar o Brasil pelo Palco Giratório. Não resistiu e acabou junto com a circulação. Sempre digo isso aos grupos selecionados, porque tem gente que fantasia. É muita transpiração, não há glamour. O Sesc não é a CVC e o Palco não é a Rede Globo, não é uma viagem de férias e muito menos um circuito de estrelas. De vez em quando, entram uns coletivos meio “desavisados”, às vezes é um diretor, um técnico. Lembro que, há alguns anos, no Festival Palco Giratório de Fortaleza, uma coreógrafa queria cobrar cachê quando soube que o projeto previa um bate-papo após cada apresentação. Antigamente, eu ficava pra morrer, hoje acho até engraçado! Porque, no primeiro “choque de realidade” – e ele vai se dar, afinal, estamos no Brasil -, ou a pessoa se transforma, ou “pede pra sair”. Tempos atrás, um artista questionou a acomodação de um hotel, argumentando que não estava à altura de um “doutor da USP”. A gente ainda escuta coisas desse tipo. E olha que é mais que sabido o perfil de grupo que interessa a esse projeto. Mas, afinal, trabalhamos com o humano, e também nos equivocamos, temos, em todas as esferas, muito o que aprender. Lembrei de um grupo que se desfez depois da circulação, gostaria de ressaltar aqui outros que, durante a circulação, tiveram inspiração para novos trabalhos, entraram em gestação durante o projeto – como o Pedras, do Rio de Janeiro, que teve inspiração para o Mangiare, a partir da diversidade de sabores que experimentaram enquanto cruzavam o Brasil; e a cia. Munguzá, que circulou ano passado com o Luis Antonio Gabriela e também ficou bastante contaminada para nova cria… vamos aguardar o que vem por aí.

Muitos curadores já conheciam o trabalho Viúva, porém honesta, do Magiluth. Foto: Renata Pires

Muitos curadores já conheciam o trabalho Viúva, porém honesta, do Magiluth. Foto: Renata Pires

Quais os argumentos utilizados para a defesa do Magiluth e do Peleja, grupos que representam Pernambuco na circulação nacional este ano? Como foi a recepção dos outros curadores?
São dois grupos completamente diferentes do ponto de vista funcional e de suas linguagens poéticas. Fato que somou muito para o retrato final dos grupos dessa seleção 2014 e que revelou uma diversidade de trabalho de grupo bastante significativa da produção pernambucana. O Magiluth vinha de um ano de bastante exposição, o que ajudou muito, pois muitos curadores tinham assistido a mais de um trabalho deles, tanto na semana de curadores do Janeiro de Grandes Espetáculos 2013, como numa curta temporada que fizeram no Rio de Janeiro. A leitura deles do Viúva, porém honesta foi o grande trunfo, a abordagem libertadora, a coragem de assumir os “erros”, os desvios. A confusão ordenada na poética do caos despertou, nas pessoas, uma possibilidade de ver Nelson trabalhado de uma forma diferente, o que gerou a vontade de ver esse grupo desafiado em outras praças, medir seu fôlego em uma circulação de grandes contrastes como é o Palco Giratório. Uma aposta na irreverência planejada. O grupo Peleja tem todo o “perfil” para o projeto – o que nem sempre quer dizer muita coisa, visto que a quantidade de grupos com qualidade de trabalho é sempre maior do que o projeto pode abarcar-, porque tem um trabalho de pesquisa de linguagem obsessivo, persistente, não “atira para todos os lados”, não trabalha por edital, como tantos coletivos da atualidade. Venho acompanhando o trabalho deles há um certo tempo, as possibilidades de ação formativa são extremamente relevantes, necessárias ao projeto. Cada artista tem sua pesquisa individual e isso é posto à prova. Já vi o grupo em apresentações, já vi seus artistas em mesas de discussão, ministrando oficinas e a forma com que encaram o ofício é digna de nota. Penso que contribuirão bastante tanto para o crescimento da cena como para o fortalecimento das relações éticas intrínsecas a um projeto dessa monta.

Gaiola de moscas, do grupo Peleja, está circulando pelo país. Foto: Pollyanna Diniz

Gaiola de moscas, do grupo Peleja, está circulando pelo país. Foto: Pollyanna Diniz

Como você seleciona essas indicações aqui em Pernambuco? Existe uma “pressão” dos grupos? Como é o relacionamento com eles? Você tenta assistir a tudo? Algum grupo já ficou “na agulha” ou na “repescagem” desde o ano passado? Já tem uma ideia do que vai levar este ano para a roda de debates?
Sim, houve grupos que foram selecionados, mas ficaram no stand-by, no caso de alguma desistência/impossibilidade de algum dos grupos, assim como houve grupos que entraram depois de mais de um ano de defesa. Às vezes, não é o momento, tem que saber recuar, tem que saber se vale a pena repetir a indicação. Tem que entender quando não dá mais. É um jogo, há que se conceber estratégias. A seleção é processual. Antes de tudo, entendo que todo grupo queira participar de um projeto como o Palco Giratório, mas não acredito em grupo que faça trabalho para o Palco Giratório. Enxergado por essa lente o projeto fica muito menor. É ele quem está a serviço do teatro, o teatro é muito maior. Às vezes, vejo que o grupo tem potencial e fico observando, acompanhando a postura, a atuação, o repertório. Mas tem uma questão delicada que se impõe: não existe o ofício de curador no quadro de SESC, de nenhum SESC do Brasil. Com exceção de São Paulo, que envia os técnicos (principalmente para fora do país) para festivais e mostras o ano inteiro – independentemente do Palco Giratório, em que eles passaram a trabalhar um dia desses-, com o intuito de identificar, negociar e trazer grupos, todos nosotros somos estimulados a acompanhar a programação cênica de nosso estado como “mais uma atribuição” do cargo – de técnico de cultura, de gerente de cultura, de assessor de teatro, ou de Professor de Teatro, como é o meu caso hoje, no SESC – PE. Não há uma gratificação ou algum acréscimo salarial. Porque, sabemos, o papel do curador, sua função na contemporaneidade, é algo relativamente novo, que vem sendo bastante debatido e, dentro do SESC, é um processo inaugural. Penso que temos crescido muito, conseguido um espaço de discussão e de escuta privilegiado na instituição, temos alcançado ganhos importantes, como um suporte financeiro para compra de ingressos de espetáculos de teatro e dança, ou o acompanhamento a festivais nacionais de grande relevância, ao menos uma vez por ano. Mas ainda não é o suficiente para estar na obrigação de acompanhar toda a programação do estado. Temos uma gama de serviços e ações práticas e burocráticas ligadas a diversas outras ações de que precisamos dar conta. Toda a análise prévia dos espetáculos do palco, eu faço na minha casa, durante as noites, nos fins de semana, e essa super hora extra não é computada, não faz parte de minha carga de trabalho no SESC, que comporta 40 horas semanais, das 8h da manhã às 17h, de segunda a sexta-feira. Quem está em temporada nesse horário?

Como você avalia a força do Palco pelo país? Pergunto isso porque aqui em Pernambuco, sabemos o quão importante é o projeto. Mas quando converso, por exemplo, com amigos de Belo Horizonte ou Curitiba, é como se o Palco não fosse tão significativo. Você acha que isso tem a ver com a relação dos festivais específicos de cada cidade?
Acho que quase nada no Brasil se efetiva de forma homogênea. Ainda bem, não? O projeto tem papel, força e impacto completamente diverso em cada praça. Existe há 17 anos, e, no início, era composto por cinco ou seis estados que, junto ao Departamento Nacional, aderiram ao projeto. Literalmente “compraram” a ideia, pois aderir significa repartir os custos. Pernambuco está nisso desde o primeiro ano. Todas essas cidades que você mencionou, pertencem a estados que entraram anos depois (há menos de 4 anos). Os Departamentos Regionais do SESC, em todo o Brasil, trabalham com o princípio de autonomia de gestão. E quanto mais construção e menos imposição, tanto melhor. Ressalte-se o poder de sedução do projeto que hoje, no ano de 2014, arrebanhou todos os estados para, juntos, trabalharem na composição desse caleidoscópio transgressor.

O que norteou a escolha dos espetáculos convidados para o festival deste ano?
Além da seleção de representantes da curadoria nacional que assistiram à semana de curadores no Janeiro de Grandes Espetáculos, houve um recorte curatorial defendido por técnicos do Sesc de Casa Amarela, Santa Rita, Piedade e Santo Amaro – a partir de trabalhos que participaram de mostras e projetos do Sesc-PE-, além de grupos que sabíamos estar em processo conclusivo e convidamos para estrear o espetáculo no festival.

Odília Nunes, que ano passado participou da circulação do Palco com a Duas Companhias, estreou Cordelina. Foto: Pollyanna Diniz

Odília Nunes, que ano passado participou da circulação do Palco com a Duas Companhias, estreou Cordelina. Foto: Pollyanna Diniz

Sentimos que a programação este ano está menor em número. Apesar de a qualidade do festival não ser medida absolutamente por números, o que aconteceu de fato? Tivemos menos dinheiro? Porque ações como a Cena Bacante e a Gastrô não vão acontecer?
O Palco Giratório é um projeto (um dentre centenas) financiado integralmente pelo SESC, gerido pela instituição até quando ela entender que ele é importante, necessário. Minha opinião quanto a isso importa bem pouco, eu procuro sempre seguir as diretrizes da instituição, e estou subordinada a gerências e direções, em âmbito regional (jargão do SESC para nos referirmos à administração nos estados) e nacional. Ações como as que você citou foram criações exclusivamente nossas. A Cena Bacante foi inspirada no “Horário Maldito”, que acontecia a partir da meia-noite, na mostra Cariri (CE). Já a Gastrô, uma tentativa minha de criar novos públicos para o festival, de explorar as possibilidades poéticas e seu diálogo com os sentidos, além de aproximar os criadores da gastronomia – arte que pessoalmente admiro bastante-, dos criadores da cena. O percurso de sair do teatro para comer – geralmente em grupo-, é uma ação habitual que pode ser encarada como ritualística. Afinal, e se os pratos, o vinho, o doce, também tivessem relação com a cena? Eu sonhei em ver isso potencializado. Então, essas ações (assim como o Jornal Ponte Giratória, a Cena Fotô), foram criações nossas, e têm um custo significativo que não faz parte da esfera cênica, habitual do projeto.

De que forma você pensa o Palco nos próximos anos?
Eu espero que ele continue, porque ainda se faz muito necessário.

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Um palhaço magrelo, tímido e mandão

Ano passado, por conta da Mostra Aldeia Yapoatan, fizemos uma série de entrevistas sobre palhaços com alguns artistas da cidade. Como a Mostra Marco Camarotti de Teatro para a Infância e Juventude, que começou nesta quinta-feira (20), resolveu homenagear a linguagem do clown e os palhaços atuantes em Pernambuco, resgatamos aqui essas conversas.

A primeira foi com Anderson Machado, o palhaço Cavaco. Além de ser Doutor da Alegria, Anderson também tem a companhia Caravana Tapioca, ao lado da esposa Giulia Cooper, a palhaça Nina. Ontem, Cavaco comandou a Tarde e a Noite dos Palhaços, show de variedades que reuniu números de vários palhaços na abertura da Mostra Marco Camarotti.

O palhaço Cavaco

O palhaço Cavaco

ENTREVISTA // ANDERSON MACHADO, o palhaço CAVACO

Todo mundo pode ser clown? Como descobrir o seu próprio clown?
Creio que sim. Todos podem ser clowns, palhaços, excêntricos, hótxuas (indígena), bobos da corte e outros tantos substantivos criados pela humanidade no decorrer dos anos para dar nome a esse arquétipo do riso. Mas, para alguns, esse processo de descoberta pode ser muito mais doloroso do que para outros. Há de se ter coragem para retirar véus impostos pela mente coletiva, enfrentar regras que nos espremem em padrões de beleza e um sistema que nos cobra estarmos sempre “certos” enquanto, na verdade, “errar é humano”. É por isso e por tantas outras coisas que essa figura do palhaço é tão milenar: para mostrar as fragilidades do mundo. A plateia ri aliviada quando se reconhece. O palhaço, além de brincante, é o perdedor, às vezes pela inocência, às vezes pela imprudência. Ele é a sombra do homem, o excluído da sociedade, a exemplo do grande Carlitos de Chaplin. É um caminho longo de aprendizado, nunca acaba. O palhaço é como o vinho, quanto mais velho melhor. É preciso se conhecer muito bem, assumir seus defeitos mais sombrios a ponto de poder rir de você mesmo, poder voltar a ser criança, alcançar estados de pureza, para aí, então, depois de estar convencido do que está fazendo, poder convencer a plateia que te vê. E, ainda assim, entrar no palco ou picadeiro sabendo que sempre há o risco de que não se emocionem e nem riam com você. E, mesmo depois do fracasso, ter coragem de tentar novamente, fracassar, refletir e tentar, fracassar, fracassar, triunfar, fracassar e triunfar, até que os dias de triunfo começam a ser mais frequentes. A vida muda naturalmente, ou melhor, você muda o jeito de olhar a vida, problemas não são tão problemas, são possibilidades. Não tenho mais vergonha do meu sorriso largo, das pernas finas entre tantos outros benefícios que esse caminho me proporcionou. Não é fácil. É preciso dedicação e saber dar tempo ao tempo. Sorte a nossa é que existem grandes mestres do riso que nos servem de guias quando ministram uma oficina aqui, outra lá, nos motivam a arriscar, daí conhecemos outros de nós e assim vamos entrando no fluxo.

Quais são as características do seu clown e como elas se mostram dentro da dramaturgia dos espetáculos?
São muitas características. Acredito que o clown de cada um traz consigo tudo o que a pessoa é, ou seja, todos nós temos nosso lado sábio e o lado tolo, o lado infantil e o maduro, o triste e o feliz, enfim, depende da situação na qual nos encontramos na vida ou na cena. Com isso, o palhaço também vai reagindo de diversas formas conforme a dramaturgia de um roteiro ou conforme os jogos de improvisos que utilizamos em treinamentos e na criação dos espetáculos. Assim, começamos a testar reações, dilatar sentimentos e vamos guardando tudo que pode ser interessante. Comecei descobrindo um bobo, tímido, sorridente, que se acha lindo dançando, que faz malabarismo com a língua pra fora, sempre bem musical, tocando meu cavaquinho (que me deu o nome de palhaço Cavaco) e outros instrumentos experimentais. Era assim que eu brincava. Anos mais tarde tive que trabalhar com outro palhaço que, de tão mais bobo que eu, impulsionou-me a pesquisar meu ridículo sendo o mandão, o branco, o chefe e acabei descobrindo muitas coisas legais. Hoje em dia tento me colocar em situações diferentes em cada espetáculo. Num trabalho, brinco de ser um bravo domador de circo que é um pouco louco, conversando com uma pulga adestrada. Em outro, um vaqueiro frouxo que finge que ser um cangaceiro para conquistar uma moça. Também brinco de ser um professor de inglês simpático, atrapalhado, noutro um palhaço mais triste, sempre brincando de ser algo diferente, mais ou menos como a criança que brinca de polícia e ladrão, mamãe e filhinha. Mas todos têm a minha verdade, a minha essência. Creio que, quanto mais vivas forem as diversas emoções e reações em cena, mais o clown cativa a plateia.

Como se dá a relação entre atuação e improviso para o clown?
Às vezes atuamos com um roteiro que deve ser seguido à risca para que a história/mensagem seja passada, e em outras o roteiro é mais flexível, permite momentos de improviso que podem até virar cenas únicas em nosso espetáculo. Mas, em todos os casos, creio que o que deva prevalecer é a verdade. Fico incomodado de deixar passar certos comentários da plateia, um cachorro passando no espaço cênico, uma criança invadindo o palco. Se não interajo com o imprevisto, a cena perde força. Sem falar que são nos momentos de improviso que a plateia mais delira com os risos. Um bêbado que entra em cena, um adereço que quebra e a plateia admira a criatividade da solução que o palhaço deu ao problema. Também gosto muito de números com voluntários, pois possibilitam que o improviso aconteça com alguém da plateia que nunca atuou, onde tudo pode acontecer, inclusive nada. E aí o palhaço existe, no risco, na corda bamba, entre o roteiro e o improviso, a verdade e a mentira, o acerto e o erro.

Os palhaços Cavaco e Nina, da Caravana Tapioca

Os palhaços Cavaco e Nina, da Caravana Tapioca

Quando a Caravana Tapioca foi criada? O que ela pesquisa?
A Caravana Tapioca tem cinco anos e foi fundada por mim em parceria com Giulia Cooper. Dois paulistas que vieram pra cá seduzidos pela riqueza cultural pernambucana. Morando por aqui, decidimos juntar nossas experiências na área, a fim de tocar a companhia e pesquisar o circo, o teatro e a música sob a ótica do palhaço, combinando assim as habilidades circenses e musicais com dramaturgias teatrais. Hoje em dia temos três espetáculos e três números que já rodaram por muitos estados brasileiros. Todos as nossas criações podem ser apresentadas tanto em espaços abertos como em salas de teatro. Presamos manter nesses últimos trabalhos essa versatilidade para que pudéssemos viajar com os espetáculos de forma mais fácil e atingir diversos públicos. Já fizemos muitas turnês pelo Recife, Agreste e Sertão pernambucanos, ministrando oficinas e nos apresentando através de leis de incentivo, recursos próprios ou passando o chapéu. Acreditamos que a rua é uma excelente escola para o ator, já que conta com tantas interferências e desconfortos que não são comuns em salas de teatro. Sem falar também que assim asseguramos a democratização da arte, a formação de plateia, os encontros, o riso, entre tantos benefícios, o fato de podermos nos apresentar para pessoas que nunca tiveram oportunidade de ver um palhaço ao vivo e nunca assistiram a um espetáculo.

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Construir a arte do efêmero em grupo

Outra vez, era uma vez, foi a primeira montagem da Fiandeiros. Foto: Val Lima/Divulgação

Outra vez, era uma vez, foi a primeira montagem da Fiandeiros. Foto: Val Lima/Divulgação

Na primeira edição do Jornal Aldeia Yapoatan, que circulou durante a mostra realizada pelo Sesc Piedade no mês de setembro, fizemos uma pequena matéria sobre teatro de grupo. Uma das companhias entrevistadas foi a Fiandeiros de Teatro, que está comemorando dez anos de atuação. Como a conversa com o diretor André Filho rendeu muito mais do que o espaço no papel permitia, aproveitamos o início do projeto Dramaturgia pernambucana, empreendido pelo grupo, para publicar a entrevista. O diretor fala não só sobre a realidade específica da companhia, mas toca em questões pertinentes ao teatro de grupo em todo o país, como a dificuldade em manter uma sede e a falta de políticas públicas.

Sobre o projeto Dramaturgia pernambucana, nas sextas-feiras deste mês serão realizadas leituras dramáticas e depois debates com os autores. Começando sempre às 19h30, no Espaço Fiandeiros, que fica na Rua da Matriz, 46, primeiro andar, na Boa Vista. Hoje (11) o texto será Jeremias e as caraminholas, de Alexsandro Souto Maior. O coletivo Sinergia de Teatro, sob direção de Emanuella de Jesus, fará a leitura. Semana que vem (18) é a vez de Senhora dos Afogados, de Nelson Rodrigues. O debatedor será Rodrigo Dourado e a direção de André Filho. Já no dia 25 o texto é Lunik, de Luciana Lyra, que ganha direção de Rodrigo Cunha.

O projeto terá ainda uma oficina de dramaturgia com Newton Moreno entre os dias 19 e 22 de novembro e encenações de contos de Nelson Rodrigues no mês de janeiro.

André Filho

ENTREVISTA // André Filho, diretor da Cia Fiandeiros

Como os artistas da Fiandeiros se reuniram?
Nós nos reunimos em 2003. Nosso começo não foi muito diferente de outros coletivos: artistas que se juntam querendo se expressar coletivamente através de sua arte. Tínhamos origens distintas – éramos músicos, palhaços, professores, arte-educadores, alguns já com experiência em trabalho de grupo, outros não. Eu havia sido convidado pelo SESC para dirigir uma leitura dramatizada da peça A tempestade, de William Shakespeare. Convidei alguns atores para participar e o resultado é que, depois da leitura, o grupo quis continuar se encontrando para ler outros textos e conversar sobre teatro. Então decidimos seguir em frente com o processo de estudo e, daí, surgiu a Fiandeiros.

Quando vocês perceberam que eram um grupo?
É sempre muito delicada essa questão de se definir como um grupo de teatro. Há dez anos que a gente vive se questionando sobre esse modelo e é impossível encontrar um conceito estável que sirva a todos os coletivos. Na verdade, acho que é justamente esse perguntar-se continuamente “o que nós somos?”, a busca por essa resposta, que nos faz ser enquanto grupo. Mas é possível pontuar algumas questões específicas que diferenciam o trabalho de um grupo daquele de uma produção convencional, como a manutenção de um núcleo de criação permanente e o processo continuado, que não se limita ao tempo de vida de um espetáculo. As ações do grupo não são apenas no sentido de uma criação artística, mas também na formação de uma identidade de coletivo.

Os objetivos iniciais da companhia foram mudando ao longo desses dez anos?
Na verdade, os objetivos mudam de acordo com cada projeto, mas existe algo que não pode mudar: a identidade do trabalho. Um grupo tem a sua identidade, que é quase como a sua digital, a sua marca, o seu formato de trabalho. Essa identidade não surge assim do nada, não dizemos “vamos criar uma identidade de grupo”. Ela surge com o tempo, como fruto de todo o processo de criação. Não é palpável, mas é sentida por todos. E guarda em si o compromisso com o todo. Sabe aquela música, “se falo em mim e não em ti é que, neste momento, já me despedi”? Quando em um processo de grupo alguém pensa assim é porque não faz mais parte dessa identidade e está na hora de partir em busca de outras lições.

Qual a principal dificuldade em manter um grupo?
Existem dificuldades de vários vieses. Mas creio que as mais importantes são conciliar os sonhos com a dura realidade do dia a dia, com a falta de um projeto cultural público eficaz para o teatro, com a desmobilização política de nós artistas de grupo. Essa última, por sinal, é de suma importância. Ou nos conscientizamos de que precisamos nos organizar politicamente, ou não daremos o passo qualitativo nunca. As artes visuais já fizeram isso, a dança já fez isso, mas o teatro não consegue dar esse passo. O tempo médio de vida útil de um grupo produzindo é de, no máximo, dois a três anos. Quem consegue ultrapassar isso já pode se considerar um vitorioso. Existem alguns coletivos na cidade que conseguiram isso. A Fiandeiros é um deles, mas ninguém imagina o preço que pagamos por isso. Olho para trás e vejo a quantidade de artistas e grupos de teatro que ficaram pelo caminho, que poderiam ter dado uma contribuição tão bacana para a cena local e não o fizeram porque não foram estimulados. Falta vontade política para isso. Ainda estamos engatinhando no processo de consolidação do teatro de grupo no Recife. Quando ficaremos de pé? Não sei.

Qual a importância e o desafio de manter uma sede?
Uma sede é extremamente importante para um grupo, não apenas por ser uma base, um apoio para suas atividades, mas também por contribuir para a sua discussão estética, na medida em que estabelece parâmetros novos para o pensamento de uma dramaturgia específica, um olhar sobre o entorno e a relação dos artistas com este. Isso possibilita um olhar diferenciado sobre um processo. Mas manter uma sede não é fácil. Nesse ponto, acho que todas as políticas públicas até agora são falhas. Recife ainda está engatinhando em políticas de fomento a grupos de pesquisa continuada. São Paulo e Rio de Janeiro já saíram na frente com ações públicas que possibilitam aos grupos fazerem residências continuadas em teatros, prédios e casarios públicos. Aqui sequer conseguimos abrir um diálogo a respeito. Há prédios públicos completamente abandonados e há grupos que ensaiam em garagens, nas praças, nas ruas. Acho profundamente lamentável e triste. A Fiandeiros consegue manter a sua sede com recursos próprios; vez por outra aprovamos um projeto que nos dá uma folga de alguns meses, mas é muito pouco. Cada ano que se inicia, não sabemos como vai ser, de onde tiraremos o dinheiro para manter vivo o nosso espaço. Desenvolvemos algumas ações como os cursos regulares de teatro que ministramos, para adultos, adolescentes e crianças, o que tem nos garantido uma sobrevida. Entramos também no circuito de produções nacionais que viajam através dos prêmios de circulação nacional. Em 2012 se apresentaram no nosso espaço, A Companhia Braziliense de Teatro e o Grupo Trama de Teatro (Minas Gerais). Além disso, fomos um dos pólos de apresentações do Festival Recife do Teatro Nacional, além de produções locais que também se apresentaram no nosso espaço.

O que une vocês artisticamente hoje?
O que nos une é a mesma coisa que nos unia há dez anos: a vontade de continuar caminhando em busca do invisível, de algo que talvez nunca encontremos. Somos artistas e isso por si só já seria suficiente para nos manter unidos, mas nem sempre é assim. Temos nossas diferenças, nossos pontos de vista divergentes, que nos fazem morrer e renascer renovados a cada dia. Sempre foi assim – o que nos une nem sempre é o concreto, o projeto pronto e acabado, mas o vazio das imperfeições, o medo das tentativas que nos aproxima e nos fortalece.

Quais as preocupações estéticas de vocês?
A Fiandeiros tem um traço, uma identidade musical bastante forte em seus trabalhos, não apenas instrumentalmente falando, mas também na melodia textual. Isso sempre foi alvo de nossas pesquisas. Em nosso último trabalho, Noturnos, nos experimentamos em outro viés, o da dura realidade das ruas. É um trabalho onde a musicalidade incomoda, são acordes dissonantes do que até então nós tínhamos feito. Falar sobre violência, medo, agressividade, abandono, asco, invisibilidade social, exigiu de nós um esforço enorme e um desprendimento de nossas vaidades pessoais muito além do que já havíamos ido em outros trabalhos. Sinto que agora é hora de voltar, de proceder o caminho de volta à nossa harmonia original, o que não significa que é menos densa. Penso em Picasso que, ao tentar retornar às origens do cubismo, acabou por recriar a realidade contida nele. Lógico que sem qualquer pretensão de nos compararmos, mas é um processo semelhante de busca interna em nossa estética. O legal é que não sabemos onde vamos acabar, as tentativas existem e são múltiplas, tudo vai depender das nossas escolhas. Mas o mais importante é não ficar parado, porque até mesmo quando o artista imita a si mesmo ele se recria.

Espetáculo Norturnos. Foto: Rodrigo Moreira/Divulgação

Espetáculo Norturnos. Foto: Rodrigo Moreira/Divulgação

Quais os próximos projetos?
Temos vários projetos para o futuro. Entre eles, montar um texto para crianças, intitulado Vento forte para água e sabão, de autoria de um ator pernambucano e pessoa muito querida nossa, Giordano Castro, do Magiluth. Estamos aguardando para ver se sai no máximo até o início do próximo ano. Mas tem pelo menos mais uns três ou quatro projetos viáveis para um futuro próximo. Vamos aguardar e ver o que acontece. O processo é este: viver o efêmero e mergulhar no transitório. Só.

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Muito de nós em Nelson Rodrigues

Ivo Barreto, Andrêzza Alves e Pascoal Filizola. Foto: Pollyanna Diniz

Ivo Barreto, Andrêzza Alves e Pascoal Filizola. Foto: Pollyanna Diniz

Ruy Castro conta em O anjo pornográfico que Fernanda Montenegro levou mais de um ano para  conseguir que Nelson Rodrigues escrevesse uma peça para a sua companhia, o Teatro dos Sete. A primeira vez que ela o procurou com o pedido, revela o biógrafo, foi em 1959. Fernanda cobrava – ligava para o jornal Última Hora e, depois de um tempo, Nelson passou a dizer que não era ele, logo que percebia quem estava do outro lado da linha. Pois bem, em 1960, foi o dramaturgo quem procurou Fernanda e o marido, Fernando Torres, para entregar O beijo no asfalto. A peça tinha sido escrita em 21 dias. Bem ao estilo Nelson, Ruy Castro diz que quando a peça fez temporada no Maison de France, Nelson ia todas as noites para o teatro e tirava satisfações de quem saia no meio do espetáculo indignado.

Mais de 50 anos depois, a peça ainda causa espanto para quem não conhece o enredo. E é extremamente atual. E não só porque trata de um cara que vê a sua vida desmoronar por conta de uma notícia de jornal, pela corrupção e violência policial, pela discussão sobre o homossexualismo. “Se não paramos na leitura rasteira e superficial (…) de um cara que beija um moribundo em público e mergulharmos em busca dos sentidos que movem as engrenagens do texto, do que está por trás e abaixo das várias camadas ali contidas, percebemos que esses enredos são apenas pré-textos que nos conduzem ao espelho da nossa face, das várias faces de nossa humanidade”, explica a atriz Andrêzza Alves, que interpreta Selminha.

Nesta quarta-feira (18), O beijo no asfalto, com direção de Cláudio Lira, será apresentada dentro da programação do festival Aldeia Yapoatan. A sessão será no Teatro Luiz Mendonça (Parque Dona Lindu), às 20h. Os ingressos custam R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada).

Andrêzza é Selminha e Daniela Travassos intepreta Dália

Andrêzza é Selminha e Daniela Travassos intepreta Dália

ENTREVISTA // Andrêzza Alves, atriz

O beijo no asfalto estreou em 1961 com Fernanda Montenegro no papel de Selminha. Qual a responsabilidade de encenar esse texto? Quais referências você utilizou na construção do personagem?
Fernanda Montenegro se tornou conhecida no meio artístico por ser uma trabalhadora incansável, uma mulher simples, nada afeita a estrelismos. É dela uma das frases mais inspiradoras e afirmativas que já encontrei na vida. Ela disse: “hoje todo mundo virou artista, agora ator não é todo mundo que pode ser… Não ocupe esse espaço, vai ser bancário, doutor, vá ser diplomata, enfim. Agora, se morrer porque não está fazendo isso, se adoecer, se ficar em tal desassossego que não tem nem como dormir, aí volte. Mas, se não passar por esse distanciamento e pela necessidade dessas tábuas aqui, não é do ramo”. A responsabilidade de estar em cena precisa ser maior do que simplesmente exibir-se em belas formas, vaidades auto-afirmativas, glórias, paêtes, retratos no jornal ou promessas de riqueza. Precisa estar conectada a uma necessidade extrema. Claro que o teatro não é um quarto fechado, você precisa do outro, mas o mundo das celebridades, do freje das premiações e dos eleitos da vez não tem nada a ver com ser ator. Com a responsabilidade cênica, de encarar aquilo (o palco, o encontro com o espectador que saiu da sua casa pra estar com você) como um projeto de vida. E, pra mim, é nesse âmbito que reside a responsabilidade de levar O Beijo ou qualquer texto à cena.

Uma personagem, por menor que possa parecer a um coração ambicioso, é maior do que qualquer ator do mundo, em qualquer época. Ela terá, sempre, alguma coisa que você não viu, trará em si tantas nuances e filigranas da alma humana que só com muita disposição e generosidade de espírito podemos, às vezes, tangenciar e trazer à tona naquele curto instante de vida na cena. Tchecov dizia que não existe momento de glória, existe perseverança. Estar atenta ao texto, ao que as outras personagens dizem a respeito da minha, às situações, tentando uma conexão fina com o que move aquela pessoa, respirar e transpirar por ela, estar aberta e disponível a atender ao que o encenador deseja. É assim que procuro me portar. Eu ainda não tenho domínio sobre a construção de Selminha, ela está se estabelecendo lentamente, ao contrário do que aconteceu com outras personagens. Talvez porque as reações que ela me inspira são totalmente diversas das que a encenação precisa que eu leve para a cena, talvez por bloqueio, talvez…. Mas, por outro lado, eu a entendo como um ser humano, em suas aspirações e suas dores reais. Selminha é um processo de transpiração. E assim tem que ser, pois o teatro é inglório. Todo dia você repete aquele processo e todo dia corre o risco de fracassar. Será que se foi bom hoje vai ser bom amanhã? Isso depende de muita coisa. Muitas vezes você vê uma pessoa falar: “Vi um espetáculo maravilhoso” e você vai ver e não acha grandes coisas. É que, independente da vontade do elenco, a magia não aconteceu naquele dia. Não é todo dia que é maravilhoso, há que se transpirar sempre, esse é o caminho que busco seguir.

Direção da montagem é de Cláudio Lira

Direção da montagem é de Cláudio Lira

De que forma vocês conseguem “atualizar” esse texto, ou trazer para uma realidade mais próxima?
O teatro só se completa no palco, depois da contribuição viva, presente no tempo e no espaço. Penso que uma encenação é também (ou pelo menos busca ser) uma nova metáfora (viva, tridimensional) do texto escrito. E é isso o que, pra mim, Cláudio faz na encenação do Beijo. Ele não busca uma “atualizaçao” porque O beijo no asfalto é um clássico e como tal ele não precisa ser atualizado, ele está próximo de nós porque trata do que vai no âmago da condição humana e como todo bom clássico, se serve de situações aparentemente banais (tal qual Otelo, Ricardo III, As três irmãs, Esperando Godot, O Vermelho e o Negro, Crime e Castigo, Dom Quixote…) para revelar as pulsões primitivas e constituintes do Humano. Se não paramos na leitura rasteira e superficial de um cara que não acredita que um negro possa ter melhores qualidades que ele, ou de dois vagabundos que esperam, ou de um jovem ambicioso que seduz uma mulher rica….ou (no nosso caso) de um cara que beija um moribundo em público, e mergulhamos em busca dos sentidos que movem as engrenagens do texto, do que está por trás e a baixo das várias camadas ali contidas, percebemos que esses enredos são apenas pré-textos que nos conduzem ao espelho da nossa face, das várias faces de nossa humanidade.

A cada vez que se lê O beijo no asfalto ele se revela em novas possibilidades. Ele se apresenta em uma forma inusitada, com uma atualidade que no instante imediatamente anterior nos escapava, pois como num prisma, ele quebra a luz e em algum ângulo reflete a cor exata que aquele momento social emana. Podemos dizer que O beijo trata da construção do discurso do ódio (que em tempos de Feliciano se traduz como homofobia), podemos também afirmar que trata da dúvida e da tênue linha que separa os conceitos de verdade e mentira (que em nossa era de pós-modernidade permeia as nossas vidas em espaços virtuais de relacionamento), podemos também dizer que fala de ética ou ainda do oportunismo, da busca pelo sucesso a qualquer preço e da velocidade com que se pode ir do céu ao inferno (para o que, atualmente, basta “publicar no Face!”).

O beijo no asfalto gira em torno do binômio imprensa X polícia, ambientes intimamente conhecidos pelo autor e que, por isso, o ajudam a tratar das questões que verdadeiramente o interessam (a hipocrisia e a incapacidade de amor ao próximo que corroem o ser humano). Cláudio se serve dos desdobramentos vivos desse recorte oferecido por Nelson para criar as metáforas da sua obra, a encenação (hoje todos somos repórteres em potencial, hoje os meios de difusão de informação se pulverizaram, hoje a imensa maioria quer aparecer, ficar famoso, levar a melhor; e não mede esforços para isso. hoje a vida privada está exposta pra todo mundo ver e o texto bem poderia ser o editorial de um jornal de ontem, ou a manchete de um site de celebridades, ou a fofoca do Face!). O que a encenação põe é, antes de tudo, o filtro de Cláudio para o que nós, em conjunto, conseguimos acessar do mundo contido (e sempre em transformação) nos escritos de Nelson. Tanto que ver O beijo hoje implica em ver um espetáculo bastante diverso do apresentado há um ano atrás, pois quanto mais voltamos ao texto, mais ele nos mostra possibilidades infinitas de entendimento e recriação e nós não nos furtamos a experimentá-las.

Arthur Canavarro é Arandir

Arthur Canavarro é Arandir

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