Arquivo do Autor: Pollyanna Diniz

Galpão abre Festival Recife do Teatro Nacional

Os gigantes da montanha participou do FIG. Foto: Pollyanna Diniz

Os gigantes da montanha participou do FIG. Foto: Pollyanna Diniz

A 16ª edição do Festival Recife do Teatro Nacional será aberta com Os gigantes da montanha, do Grupo Galpão. O grupo confirmou a informação ao blog no último fim de semana, durante a realização do festival Cenas Curtas do Galpão Cine Horto. A peça, que estreou no primeiro semestre deste ano na Praça do Papa, em Belo Horizonte, foi apresentada no Festival de Inverno de Garanhuns, em julho. Já naquela ocasião, a secretária de Cultura Leda Alves disse que havia a intenção de trazê-los ao festival.

Leia a crítica que escrevemos sobre Os gigantes da montanha.

A última vez que o Galpão participou do Festival Recife do Teatro Nacional foi em 2009, com Till, a saga de um herói torto. A curadoria era de Kil Abreu e as apresentações foram na Praça do Arsenal.

O resultado do edital nacional do Festival Recife deve sair nos próximos dias. Grupos como o Armazém, do Rio de Janeiro, e o Teatro Invertido, de Minas, disseram ao blog que estão participando da seleção.

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Pra quem é (ou não) de credo*

Sobre o conceito da face no filho de Deus. Foto: Mariano Czarnobai/Divulgação PMPA

Sobre o conceito da face no filho de Deus. Foto: Mariano Czarnobai/Divulgação PMPA

Depois de presenciar uma das piores faces que Deus pode assumir, o que dizer? Com que estranha capacidade de regeneração nossos sentidos, violentados, se recompõem e permitem que articulemos novamente as ideias na cabeça. Mas… ideias? Nenhuma, tudo vazio. Nada mais a dizer. As palavras que eventualmente carregamos no corpo e na memória são suprimidas diante de imagens – na falta de léxico, me repito – violentas. Mas tentemos.

Somos mortais, e isso aprendemos logo cedo. Mas o fato de termos um prazo de validade não é o que mais assusta, embora boa parte de nós pensemos que assim seja. Não. A questão é a sujeição da matéria. Fora nos casos de morte súbita, o corpo, em geral, assume um estado de desintegração constante que só pode conduzir para o seu fim e, sobre ele, a mente já não tem mais nenhum domínio. A matéria-corpo esvai-se, átomo a átomo, em todos os estados físicos possíveis – já não quer pertencer a este aqui e agora. Antes de sumir-se, contudo, deixa as suas últimas marcas, indesejáveis; já não interessam. Mancha a superfície alva das coisas e não há assepsia que dê conta. Se espalha, contamina. Impossível reter.

O barro de que fomos feitos derrete, marrom, e com ele as últimas partículas de oxigênio (o sopro da vida). Entre um e outro, a paciência e a dedicação de quem, ainda longe de alcançar esse estado da matéria, convive e é responsável por quem está próximo do fim. Responsabilidade, eu disse, mas sustentada por que? “Honrarás teu pai e tua mãe”. Da justiça dos homens, a obrigatoriedade do cuidado com os mais velhos. Suficiente?

A tudo isso assistimos no espetáculo de Romeo Castellucci, Sobre o conceito da face no filho de Deus, carro-chefe da 20ª edição do Porto Alegre Em Cena. Se iniciamos esse comentário com uma série de considerações impressionistas, é por que é muito particularmente que a obra chega a cada um dos espectadores. Como bem disse o diretor italiano, “Deixo passar as imagens. Imagens que pertencem à história de cada um de nós. As imagens estão à espera de serem interpretadas em um sistema de sinais, sempre diferentes, assim como são diferentes, uns dos outros, os espectadores.”

Sim, temos imagens. Mas também sonoridade. Da boca do imenso Cristo (pintura de Antonello da Messina (1430-1479) projetada no fundo do palco, como a materialização da onipresença divina), à qual o filho, desesperançado, se abraça, ouvimos um sussurro: “Jesus… Jesus… Jesus…”, que retornará ao final da cena seguinte, em eco às últimas granadas atiradas contra a imagem. Nessa cena, oito crianças entram no palco e, de suas mochilas, retiram a munição que atiram na face serena que as (nos) observa. Compõe a cena, ainda, o barulho de bombas lançadas, explodindo num crescendo sonoro ao qual se mistura uma música sacra. É perturbador. Quando todas as crianças se retiram, uma última permanece e volta-se para a plateia. Do outro lado do palco, também na boca de cena, o ator que faz o pai levanta-se e também coloca-se diante da plateia. A linha da vida diante de nossos olhos?

A agressão visual continua no último momento do espetáculo. O ator-pai sai do proscênio para a coxia carregando e derramando ao longo do caminho, de dentro de um galão (desses de gasolina), os excrementos fecais com que contaminou toda a primeira cena. Só resta o Cristo, que nos olha. Alguém começa a mexer a imagem por trás, de modo a fazer parecer, num primeiro momento, bichos, “pragas” subcutâneas corroendo a matéria divina por dentro. No momento seguinte são riscos, linhas projetadas da altura dos olhos ao nariz, que deformam a face de Deus. Mas, não são bem “riscos”: numa mudança de luz percebemos que é o ator-pai que “irriga”, com o galão de excrementos, a imagem de Deus, até o ponto em que ela fica quase toda negra. Então, ele e mais três homens começam a rasgar a lona onde estava estampada a imagem e, por detrás dela, vemos a inscrição:

you
are not
my
shepeard

, evidenciado o “not” apenas alguns instantes depois. Através da inscrição – gravada num mural com letras vazadas – enxergamos uma nova e mesma face de Deus, que permanece, para quem (quer) crê, para quem não.
Diante dessas descrições, entende-se a agitação que o espetáculo provoca na comunidade cristã por onde quer que passe. Mas esses são conflitos até administráveis. Agora, quem terá sido capaz de acalmar suas próprias inquietações depois de assistir a esse Castellucci?

*texto de Nayara Brito, jornalista e mestranda do PPGAC/UFRGS

Peça foi a principal atração do Porto Alegre Em Cena

Peça foi a principal atração do Porto Alegre Em Cena

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Estreias pernambucanas no Janeiro 2014

Depois de anunciar na semana passada os espetáculos locais não-inéditos que vão compor a grade do Janeiro de Grandes Espetáculos 2014, a produção do festival divulgou agora quais vão estrear durante a 20º edição do evento. A programação deve ter ainda espetáculos pernambucanos que já participaram do festival e serão convidados; e montagens nacionais e internacionais, também convidadas pela curadoria. O Janeiro de Grandes Espetáculos será realizado de 8 a 26 de janeiro.

Grupo Grial estreia Terra. Na imagem, Maria Paula Costa Rêgo, bailarina e diretora. Foto: Léo Caldas/Divulgação

Grupo Grial estreia Terra. Na imagem, Maria Paula Costa Rêgo, bailarina e diretora. Foto: Léo Caldas/Divulgação

Categoria Dança:

Os sete buracos (Compassos Cia de Dança)

Terra (Grupo Grial)

Categoria Teatro para infância e juventude:

Era uma vez um rio (Cênicas Companhia de Repertório)

Categoria Teatro adulto:

Anjo negro (O Poste Soluções Luminosas)

Antônio Rodrigues, da Cênicas Cia de Repertório, assina a direção de Era uma vez um rio. Foto:

Antônio Rodrigues, da Cênicas Cia de Repertório, assina a direção de Era uma vez um rio. Foto: Pri Burh/Fundarpe

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O Teatro Ventoforte e suas muitas chaves

Ilo Krugli, criador do Teatro Ventoforte. Foto: Pollyanna Diniz

Ilo Krugli, criador do Teatro Ventoforte. Foto: Pollyanna Diniz

Quem entra no meio de uma apresentação do Teatro Ventoforte – grupo criado há 40 anos pelo diretor, dramaturgo, ator, poeta e artista plástico Ilo krugli – , pode não entender nada. Dependendo do momento em que esteja a encenação, quem sabe imagine até que a peça já terminou e os atores agora recebem o afago do público.

As 4 Chaves, por exemplo, espetáculo apresentado no Aldeia Yapoatan – II Mostra de Artes em Jaboatão dos Guararapes, quebra quaisquer limites entre atores e plateia, só que de uma forma bastante orgânica. Talvez porque as crianças tenham mesmo pouco pudor em se entregar a uma experiência ou porque é simplesmente outra maneira de pensar a encenação, sem que seja uma imposição subir ao palco ou que você tenha a lucidez de pensar, como tantas vezes acontece: “ok, chegou a hora da interação com o público. Podemos pular? Qual o próximo passo da cartilha mesmo?”.

Parte do público assistiu à peça no palco

Parte do público assistiu à peça no palco

Se para quem foi assistir à peça, a mudança é significativa, isso também acontece com o ator. A maneira fluida de pensar a encenação de As 4 Chaves exige outro estado de energia e de atenção. É como se todo o treinamento físico e preparação não fossem suficientes para dar conta dos estímulos e da efetividade das relações que podem ser construídas. A obra, embora com as amarrações e delimitações do grupo, de fato se estabelece quando há não só o encontro, mas a participação do outro.

O elenco conta com, além de Ilo lrugli, Ana Maria Carvalho, Rodrigo Mercadante, Karen Menatti, Juan Velásquez, Alexandre Lavorini, Valquíria Rosa Elaine Duarte, Leandro Alma, Vanessa Carvalho, Thiago França e os músicos-atores Anderson Areias, Flávia Cunha e Bruno Lavorini. Os destaques vão para Juan Velásquez, que é o narrador da história; Rodrigo Mercadante e Karen Menatti, esses dois últimos também integrantes da Cia do Tijolo.

No enredo, quatro personagens e seus desejos: Joana quer engravidar; o Gigante sonha com um coração; Zé precisa de pão; e o Desconhecido seria tão mais feliz com uma namorada! Nada muito complicado – mas o que a partir daí pode surgir, é sempre uma surpresa. E assim lá se vão duas horas de peça.

Crianças ajudam a realizar o sonho de Joana

Crianças ajudam a realizar o sonho de Joana

A musicalidade é um dos pilares da encenação proposta por Ilo Krugli: os atores tocam e cantam, numa encenação completamente pontuada pelas canções. Outra base de trabalho é a cultura popular, que pode se evidenciar na escolha do repertório, no figurino, no cenário.

É um espetáculo lúdico, que vai funcionar ainda mais à medida em que as respostas do público são dadas. E essa construção não é um caminho fácil: por vezes, por exemplo, nos perguntamos se o enredo tem mesmo a força para segurar a proposta da encenação; é como se a história ficasse tão pulverizada que perdesse em potência. O texto aqui é visto como um elemento de composição nessa colcha de retalhos. Mas a impressão é que a experiência poderia ser alavancada pelo texto e isso não necessariamente acontece.

Outra questão que se mostra prioritariamente por conta da estrutura da montagem é a dificuldade em cortar e se livrar dos excessos da encenação. Aparar as arestas não é nada fácil. O espetáculo se mostra longo e da mesma forma que é uma maratona para os atores, é para o público. Quando, inclusive, todos imaginam que a montagem está resolvida, uma nova questão se estabelece e a peça parece recomeçar, mas já sem o fôlego inicial.

Ainda assim, mesmo com ponderações, a criatividade de Ilo Krugli e a competência do elenco que ele reuniu em As 4 Chaves são indiscutíveis. É mesmo emocionante ver um homem com mais de 80 anos no palco e nos mostrando que é possível pensar além de uma forma já estabelecida, nos fazendo enxergar possibilidades, nos abrindo horizontes de percepção.

*Este texto é resultado de uma parceria com o Sesc Piedade, realizador do Aldeia Yapoatan

Espetáculo foi encenado na lona de circo montada no Sesc Piedade

Espetáculo foi encenado na lona de circo montada no Sesc Piedade

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Muito de nós em Nelson Rodrigues

Ivo Barreto, Andrêzza Alves e Pascoal Filizola. Foto: Pollyanna Diniz

Ivo Barreto, Andrêzza Alves e Pascoal Filizola. Foto: Pollyanna Diniz

Ruy Castro conta em O anjo pornográfico que Fernanda Montenegro levou mais de um ano para  conseguir que Nelson Rodrigues escrevesse uma peça para a sua companhia, o Teatro dos Sete. A primeira vez que ela o procurou com o pedido, revela o biógrafo, foi em 1959. Fernanda cobrava – ligava para o jornal Última Hora e, depois de um tempo, Nelson passou a dizer que não era ele, logo que percebia quem estava do outro lado da linha. Pois bem, em 1960, foi o dramaturgo quem procurou Fernanda e o marido, Fernando Torres, para entregar O beijo no asfalto. A peça tinha sido escrita em 21 dias. Bem ao estilo Nelson, Ruy Castro diz que quando a peça fez temporada no Maison de France, Nelson ia todas as noites para o teatro e tirava satisfações de quem saia no meio do espetáculo indignado.

Mais de 50 anos depois, a peça ainda causa espanto para quem não conhece o enredo. E é extremamente atual. E não só porque trata de um cara que vê a sua vida desmoronar por conta de uma notícia de jornal, pela corrupção e violência policial, pela discussão sobre o homossexualismo. “Se não paramos na leitura rasteira e superficial (…) de um cara que beija um moribundo em público e mergulharmos em busca dos sentidos que movem as engrenagens do texto, do que está por trás e abaixo das várias camadas ali contidas, percebemos que esses enredos são apenas pré-textos que nos conduzem ao espelho da nossa face, das várias faces de nossa humanidade”, explica a atriz Andrêzza Alves, que interpreta Selminha.

Nesta quarta-feira (18), O beijo no asfalto, com direção de Cláudio Lira, será apresentada dentro da programação do festival Aldeia Yapoatan. A sessão será no Teatro Luiz Mendonça (Parque Dona Lindu), às 20h. Os ingressos custam R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada).

Andrêzza é Selminha e Daniela Travassos intepreta Dália

Andrêzza é Selminha e Daniela Travassos intepreta Dália

ENTREVISTA // Andrêzza Alves, atriz

O beijo no asfalto estreou em 1961 com Fernanda Montenegro no papel de Selminha. Qual a responsabilidade de encenar esse texto? Quais referências você utilizou na construção do personagem?
Fernanda Montenegro se tornou conhecida no meio artístico por ser uma trabalhadora incansável, uma mulher simples, nada afeita a estrelismos. É dela uma das frases mais inspiradoras e afirmativas que já encontrei na vida. Ela disse: “hoje todo mundo virou artista, agora ator não é todo mundo que pode ser… Não ocupe esse espaço, vai ser bancário, doutor, vá ser diplomata, enfim. Agora, se morrer porque não está fazendo isso, se adoecer, se ficar em tal desassossego que não tem nem como dormir, aí volte. Mas, se não passar por esse distanciamento e pela necessidade dessas tábuas aqui, não é do ramo”. A responsabilidade de estar em cena precisa ser maior do que simplesmente exibir-se em belas formas, vaidades auto-afirmativas, glórias, paêtes, retratos no jornal ou promessas de riqueza. Precisa estar conectada a uma necessidade extrema. Claro que o teatro não é um quarto fechado, você precisa do outro, mas o mundo das celebridades, do freje das premiações e dos eleitos da vez não tem nada a ver com ser ator. Com a responsabilidade cênica, de encarar aquilo (o palco, o encontro com o espectador que saiu da sua casa pra estar com você) como um projeto de vida. E, pra mim, é nesse âmbito que reside a responsabilidade de levar O Beijo ou qualquer texto à cena.

Uma personagem, por menor que possa parecer a um coração ambicioso, é maior do que qualquer ator do mundo, em qualquer época. Ela terá, sempre, alguma coisa que você não viu, trará em si tantas nuances e filigranas da alma humana que só com muita disposição e generosidade de espírito podemos, às vezes, tangenciar e trazer à tona naquele curto instante de vida na cena. Tchecov dizia que não existe momento de glória, existe perseverança. Estar atenta ao texto, ao que as outras personagens dizem a respeito da minha, às situações, tentando uma conexão fina com o que move aquela pessoa, respirar e transpirar por ela, estar aberta e disponível a atender ao que o encenador deseja. É assim que procuro me portar. Eu ainda não tenho domínio sobre a construção de Selminha, ela está se estabelecendo lentamente, ao contrário do que aconteceu com outras personagens. Talvez porque as reações que ela me inspira são totalmente diversas das que a encenação precisa que eu leve para a cena, talvez por bloqueio, talvez…. Mas, por outro lado, eu a entendo como um ser humano, em suas aspirações e suas dores reais. Selminha é um processo de transpiração. E assim tem que ser, pois o teatro é inglório. Todo dia você repete aquele processo e todo dia corre o risco de fracassar. Será que se foi bom hoje vai ser bom amanhã? Isso depende de muita coisa. Muitas vezes você vê uma pessoa falar: “Vi um espetáculo maravilhoso” e você vai ver e não acha grandes coisas. É que, independente da vontade do elenco, a magia não aconteceu naquele dia. Não é todo dia que é maravilhoso, há que se transpirar sempre, esse é o caminho que busco seguir.

Direção da montagem é de Cláudio Lira

Direção da montagem é de Cláudio Lira

De que forma vocês conseguem “atualizar” esse texto, ou trazer para uma realidade mais próxima?
O teatro só se completa no palco, depois da contribuição viva, presente no tempo e no espaço. Penso que uma encenação é também (ou pelo menos busca ser) uma nova metáfora (viva, tridimensional) do texto escrito. E é isso o que, pra mim, Cláudio faz na encenação do Beijo. Ele não busca uma “atualizaçao” porque O beijo no asfalto é um clássico e como tal ele não precisa ser atualizado, ele está próximo de nós porque trata do que vai no âmago da condição humana e como todo bom clássico, se serve de situações aparentemente banais (tal qual Otelo, Ricardo III, As três irmãs, Esperando Godot, O Vermelho e o Negro, Crime e Castigo, Dom Quixote…) para revelar as pulsões primitivas e constituintes do Humano. Se não paramos na leitura rasteira e superficial de um cara que não acredita que um negro possa ter melhores qualidades que ele, ou de dois vagabundos que esperam, ou de um jovem ambicioso que seduz uma mulher rica….ou (no nosso caso) de um cara que beija um moribundo em público, e mergulhamos em busca dos sentidos que movem as engrenagens do texto, do que está por trás e a baixo das várias camadas ali contidas, percebemos que esses enredos são apenas pré-textos que nos conduzem ao espelho da nossa face, das várias faces de nossa humanidade.

A cada vez que se lê O beijo no asfalto ele se revela em novas possibilidades. Ele se apresenta em uma forma inusitada, com uma atualidade que no instante imediatamente anterior nos escapava, pois como num prisma, ele quebra a luz e em algum ângulo reflete a cor exata que aquele momento social emana. Podemos dizer que O beijo trata da construção do discurso do ódio (que em tempos de Feliciano se traduz como homofobia), podemos também afirmar que trata da dúvida e da tênue linha que separa os conceitos de verdade e mentira (que em nossa era de pós-modernidade permeia as nossas vidas em espaços virtuais de relacionamento), podemos também dizer que fala de ética ou ainda do oportunismo, da busca pelo sucesso a qualquer preço e da velocidade com que se pode ir do céu ao inferno (para o que, atualmente, basta “publicar no Face!”).

O beijo no asfalto gira em torno do binômio imprensa X polícia, ambientes intimamente conhecidos pelo autor e que, por isso, o ajudam a tratar das questões que verdadeiramente o interessam (a hipocrisia e a incapacidade de amor ao próximo que corroem o ser humano). Cláudio se serve dos desdobramentos vivos desse recorte oferecido por Nelson para criar as metáforas da sua obra, a encenação (hoje todos somos repórteres em potencial, hoje os meios de difusão de informação se pulverizaram, hoje a imensa maioria quer aparecer, ficar famoso, levar a melhor; e não mede esforços para isso. hoje a vida privada está exposta pra todo mundo ver e o texto bem poderia ser o editorial de um jornal de ontem, ou a manchete de um site de celebridades, ou a fofoca do Face!). O que a encenação põe é, antes de tudo, o filtro de Cláudio para o que nós, em conjunto, conseguimos acessar do mundo contido (e sempre em transformação) nos escritos de Nelson. Tanto que ver O beijo hoje implica em ver um espetáculo bastante diverso do apresentado há um ano atrás, pois quanto mais voltamos ao texto, mais ele nos mostra possibilidades infinitas de entendimento e recriação e nós não nos furtamos a experimentá-las.

Arthur Canavarro é Arandir

Arthur Canavarro é Arandir

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