Arquivo do Autor: Ivana Moura

Um mês de “Janeiro de Grandes
Espetáculos” com 140 atrações
celebra Chico Science

Desfile da coleção Anamauê – Ecoando a Transformação, assinada pelo estilista Mendx, com a participação de  Louise França, filha de Chico Science, abre o Janeiro. Foto: Rasta Click / Divulgação

Chico Science é celebrado nessa edição do festival. Foto: Divulgação

Zambo, do Grupo Experimental, foi criada em 1997 como homenagem a Chico Science e ao Manguebeat

Circo Science: Do Mangue ao Picadeiro, da Escola Pernambucana de Circo. Foto: Divulgação

O Janeiro de Grandes Espetáculos (JGE) chega à sua 32ª edição com uma trajetória que espelha as próprias transformações da cena cultural pernambucana. Além do teatro, o JGE abriga sob seu guarda-chuva múltiplas linguagens artísticas e festivais específicos, cada um com sua identidade e propósitos.

Se no início de sua trajetória o Janeiro almejou e conseguiu reunir o que existia de mais expressivo no cenário nacional em termos de linguagem cênica, ousadia ou experimentação, isso já se modificou ao longo dessas três décadas. Hoje, os realizadores são categóricos ao afirmar que o festival se tornou uma vitrine da produção local, com impressionantes 95% de montagens pernambucanas compondo sua programação entre 7 de janeiro e 4 de fevereiro de 2026.

O tema deste ano é uma homenagem a Chico Science, que completaria 60 anos em 2026. Embora não seja um conceito que articule profundamente todos os participantes, a celebração permeia o festival, marcando sua 32ª edição com um tributo ao legado do artista.

Isso está sintetizado neste 7 de janeiro no Teatro de Santa Isabel. Pela primeira vez na sua história o JGE inicia saudando a moda pernambucana, como linguagem central da cena de abertura. 

A partir das 18h30, a artista Michelly Cross apresenta no hall de entrada a performance musical Meso’Mangue’Potamos no violoncelo, um pocket show de 30 minutos que faz uma ponte simbólica entre os rios Eufrates e Tigre do Oriente Médio e os rios Capibaribe e Beberibe do Recife. A apresentação conta com a participação especial de dança e expressão corporal de Ruth Mila.

Simultaneamente, acontece o lançamento de dois livros significativos: Chico Science e o Movimento Mangue (2ª edição), de Moisés Monteiro de Melo Neto, obra que revisita a trajetória de Chico Science e do Manguebeat com análise histórica e cultural do movimento que transformou a música brasileira, e Pedagogia Axiológica Emergente para o Teatro, de Benedito José Pereira – Didha Pereira, que propõe uma pedagogia teatral decolonizadora voltada à formação crítica, valores sociais e acesso democrático à arte.

O ponto alto da noite ocorre às 19h30 com a coleção Anamauê – Ecoando a Revolução, assinada pelo estilista Marcelo Mendx, conduzindo o público a uma abertura inédita do Janeiro de Grandes Espetáculos. Inspirada na estética do Movimento Manguebeat, a coleção apresenta 20 figurinos que dialogam com a diversidade cultural, urbana e ancestral do Recife, tendo a batida de Chico Science como guia simbólico.

O desfile reúne um elenco formado por artistas consagrados da dança, do teatro, do circo e da música. Entre elas e eles, estão as atrizes e bailarinas Íris e Iara Campos, os passistas Pinho e Minininho, a atriz e apresentadora Nínive Caldas, a atriz e palhaça Fabiana Pirro e a cantora, compositora e atriz Louise França, filha de Chico Science. 

A homenagem a Chico Science se desdobra em outras produções que integram o festival. Circo Science: Do Mangue ao Picadeiro figura entre as melhores encenações produzidas na cidade nos últimos anos, uma criação da Escola Pernambucana de Circo com direção de Ítalo Feitosa e dramaturgia de Fátima Pontes, que poderia muito bem abrir o festival, pois carrega uma força energética e fala do Chico a partir de hoje; mas vai para o final da maratona cênica. Através de números circenses, coreografias e expressões corporais e com músicas originais de Science remixadas por DJ Vibra e equipe, o espetáculo conecta o legado mangue com as manifestações culturais contemporâneas das periferias do Recife. Está agendado para 1º de fevereiro no Teatro do Parque.

Zambo, do Grupo Experimental, dirigido por Mônica Lira, constitui outro trabalho de referência direta ao músico. Criada em 1997 como homenagem a Chico Science e ao Movimento Manguebeat, a obra se atualizou ao longo dos anos, mantendo a força da diversidade e da identidade cultural pernambucana.

Um caleidoscópio teatral

Remontagem Auto da Compadecida estreia no JGE. Foto Divulgação

Um Sábado em 30, remontagem de comédia de Luiz Marinho consagrada pelo Teatro de Amadores de Pernambuco – TAP. Foto: Divulgação

Memórias Póstumas de Brás Cubas, solo com Marcos Damigo. Foto: Divulgação

O teatro, que permanece como a espinha dorsal do JGE, apresenta mais de 60 peças adultas e infantis, distribuídas entre os principais espaços cênicos da cidade. São tantas montagens oferecidas que o espectador precisa fazer uma verdadeira garimpagem para encontrar o tipo de trabalho que lhe convém, pois há um impressionante sortimento de atrações e de variáveis qualidade de produção nesse repertório.

Entre as estreias, Auto da Compadecida – Uma Farsa Modernesca, dos diretores recifenses Célio Pontes e Eron Villar, revisita a dramaturgia de Ariano Suassuna propondo um diálogo entre a cultura popular nordestina e o teatro contemporâneo. Outra remontagem notável é a do clássico da dramaturgia pernambucana Um Sábado em 30, comédia de Luiz Marinho que esteve em cartaz por várias décadas com o elenco do Teatro de Amadores de Pernambuco. O solo musical cômico-fantástico Memórias Póstumas de Brás Cubas, com Marcos Damigo, é uma produção carioca que faz sucesso há anos em várias temporadas e prova a atemporalidade do clássico machadiano.

É interessante notar que Machado de Assis vai ao palco em diversas montagens: além de Memórias Póstumas, há Dom Casmurro, adaptação de Moisés Monteiro de Melo Neto que explora as relações de amor, traição e desconfiança no oitocentismo fluminense, e O Alienista – Casa dos Loucos, do Grupo Cena Livre, que transforma a quase-novela machadiana em farsa de ritmo veloz, própria do nosso tempo, com os quatro atores nunca saindo de cena e se transformando aos olhos do público através de adereços.

Ophélia, com Pollyanna Monteiro. Foto: Divulgação

Fabiana Pirro e Jr Sampaio em Cúmplices – Transgressões de um Ricardo III. Foto: Divulgação

Medeia – Da Lama ao Caos, dirigida por Antônio Rodrigues. Foto: Divulgação

Vossa Mamulengecência tem texto de Arthur Cardoso inspirado na obra de Ariano Suassuna. Foto: Divulgação

Lucinha Guerra em Cantigas à Pedra do Reino, que trabalha o universo suassuniano através de músicas

A multiplicidade teatral se estende às novas versões de clássicos: Ophélia, da Cia. de Teatro e Dança Pós-Contemporânea d’Improvizzo Gang, com Pollyanna Monteiro, oferece uma versão feminista da personagem shakespeariana, contada por uma mulher em meio à violência extrema, enquanto Cúmplices – Transgressões de um Ricardo III, com Fabiana Pirro e Júnior Sampaio, mergulha nas contradições de dois artistas que encenam Shakespeare, explorando não apenas o texto, mas os subtextos que emergem das tensões em cena.

Como releitura de clássico diretamente influenciada pelo Manguebeat, Medeia – Da Lama ao Caos, dirigida por Antônio Rodrigues e com Beatriz Kemily, Gabriela Cicarello, Gabriela Moreira e elenco, reinventa o mito grego para o coração do Recife, onde o mangue é palco de traição, vingança e resistência contra o avanço voraz do falso progresso e da especulação imobiliária.

A obra de Ariano Suassuna ganha múltiplas abordagens. Além da já mencionada estreia de Auto da Compadecida – Uma Farsa Modernesca, o festival apresenta Vossa Mamulengecência, releitura autoral do universo suassuniano com dramaturgia e direção de Arthur Cardoso. Formado por um grupo de jovens artistas, o espetáculo mergulha no universo fantástico de Cheiroso Dorabela – mestre de mamulengos e vendedor de perfumes – que usa suas histórias para questionar figuras de autoridade. E Cantigas à Pedra do Reino, idealizado pela multiartista Lucinha Guerra, com direção de Romero de Andrade Lima, sobrinho de Ariano, celebra o legado suassuniano através de músicas, cantigas e loas que preservam a essência do Movimento Armorial.

A Paixão Segundo José Francisco Filho, conecta a história de Cristo com a figura de Antônio Conselheiro

Francisco – Um Instrumento de Paz, uma produção de Roberto Costa

Circo Godot, dirigido por Quiercles Santana e interpretado por Charles de Lima e Asaías Rodrigues 

Noite, com Fátima Aguiar, Karine Ordonio e Sônia Biebard num texto de Ronaldo Correia de Brito, com direção de Cláudio Lira 

Há espaço significativo para montagens com inspiração cristã: A Paixão Segundo José Francisco Filho, dirigida por José Francisco Filho com texto de Moisés Monteiro de Melo Neto e produção de Mísia Coutinho, conecta a história de Cristo com a realidade brasileira através da figura de Antônio Conselheiro. Enquanto o musical Francisco – Um Instrumento de Paz, da produção de Roberto Costa, retrata a jornada de São Francisco de Assis com música ao vivo e cenários que reportam à Assis do século XIII.

Entre as apostas locais que dialogam com questões urgentes do presente, encontra-se A Divina & o Esplendor – Uma Farsa Forçada, que combina farsa, melodrama, comédia e teatro de formas animadas para criticar a manipulação cultural. Já consolidado no cenário teatral pernambucano e internacional, Circo Godot, da Companhia Circo Godot de Teatro, dirigido por Quiercles Santana e interpretado por Asaías Rodrigues e Charles de Lima, comprova que o diálogo com grandes dramaturgos – neste caso, Samuel Beckett – pode gerar reflexões poderosas sobre o sadismo dos que detêm o poder.

A literatura brasileira encontra eco em F.A.M.A – Feliz Aniversário Meu Amor, livre adaptação do conto Feliz Aniversário de Clarice Lispector que transporta para o palco o retrato cruel, cômico e pungente de uma reunião familiar onde a celebração deveria trazer alegria, mas revela solidão e introspecção em meio às complexas dinâmicas familiares. Uma atmosfera semelhante de confinamento e reflexão sobre os laços afetivos permeia Noite, do dramaturgo Ronaldo Correia de Brito, com direção de Cláudio Lira e Sônia Biebard, Fátima Aguiar e Karine Ordonio no elenco, que acompanha duas velhas irmãs isoladas numa antiga casa em ruínas enquanto revisitam valores, família e amores perdidos. Já Um Minuto pra Dizer que te Amo, do Matraca Grupo de Teatro, dirigido por Rudimar Constâncio, explora as fragilidades humanas através de cenas alternadas que acompanham a relação entre um homem idoso e seu filho, e uma mulher e sua cuidadora, todos separados pelo Alzheimer, criando um mosaico afetivo onde recordações perdidas se embaralham com memórias impossíveis de esquecer e lembranças inventadas, numa visão tocante da vida em seu ocaso.

O ator Júnior Sampaio marca presença em duas montagens: no solo Atores, que explora as dificuldades da profissão artística, e em Cúmplices, já citada, baseada na peça Ricardo III de Shakespeare, onde divide a cena com Fabiana Pirro.

Gonzaga Leal em Antonin Artaud – Entre a Ordem e a Vertigem. Foto: Divulgação

Germano Hauit em O Futuro Dura Muito Tempo. Foto: Divulgação

Suzy Brasil – Uma Noite Horripilante. Foto: Divulgação

O Ciclo Iluminuras apresenta três monólogos dirigidos por Gonzaga Leal: Antonin Artaud – Entre a Ordem e a Vertigem, com interpretação do próprio Gonzaga Leal, percorrendo momentos de internações psiquiátricas e criação absurda; O Futuro Dura Muito Tempo, com Germano Hauit adentrando a narrativa de Althusser; e Carta a Spinoza, com Maria Oliveira atravessando pensamentos e sentimentos sobre a loucura e a humanidade.

A presença drag marca território no JGE com Suzy Brasil – Uma Noite Horripilante, produção carioca que mistura conto de fadas, sátira e interação com o público, explorando as múltiplas camadas da performance drag através do humor e da fantasia. Também abordando questões de gênero, mas de uma perspectiva mais íntima e autobiográfica, HBlynda em Trânsito apresenta o solo da atriz HBlynda Morais, que após 15 anos no campo das artes cênicas compartilha seu processo de transição de gênero através de uma linguagem que combina dança e música para narrar sua jornada pessoal.

Sugerimos que o espectador visite o site do JGE para explorar a programação e encontrar as atrações que mais o atraem.

Teatro para Infância e Juventude

Cantigas de Fiar, da Companhia Fiandeiros de Teatro. Manuel Carlos é um dos atores-cantores

A Cigarra e a Formiga, da Roberto Costa Produções. Foto: Divulgação

O JGE 2026 dedica uma seção especial ao público mais jovem, com uma programação diversificada de Teatro para Infância e Juventude que explora desde questões ambientais até adaptações de grandes clássicos da literatura mundial. Ao todo, são 14 espetáculos distribuídos ao longo do festival, prometendo encantar e educar através da magia do teatro.

A programação infantojuvenil se inicia no dia 8 de janeiro com Tatu-do-bem, da Companhia Catalumari e os Giguiotes, no Teatro Apolo. O espetáculo apresenta Andrezinho, filho de atores nômades que inicialmente detesta a profissão dos pais, mas que ao conhecer Tuta e Teteu, dois tatus-bolas apaixonados por arte, embarca em uma aventura lúdica pela caatinga. A montagem utiliza visualidades e ritmos da cultura pernambucana para contar uma história que enfrenta Caco, o carcará ditador que ameaça o bioma nordestino.

O universo da fantasia se expande com O Segredo da Arca de Trancoso, da Cênicas Cia de Repertório. Neste espetáculo repleto de reviravoltas, um menino recebe da feiticeira K’Temeré a perigosa missão de entregar uma arca misteriosa sem jamais abri-la. Sua jornada revela o poder mágico do objeto, que oferece conteúdos diferentes para cada pessoa – premiando uns e castigando outros – numa narrativa que dialoga com o imaginário popular brasileiro sobre tesouros e mistérios.

A Cigarra e a Formiga, da Roberto Costa Produções, apresenta uma adaptação musical da clássica fábula de Esopo com 5 atores e 3 músicos, trazendo personagens como Dona Joaninha, Abelhão e Borboleta para falar sobre responsabilidade, solidariedade e amizade através de figurinos caprichados e efeitos especiais. Em contrapartida, Cantigas de Fiar, da Companhia Fiandeiros de Teatro, oferece uma opção mais intimista ao explorar o tema da saudade em um show leve e interativo que percorre trilhas sonoras de espetáculos infantis recifenses, funcionando como uma homenagem às crianças, ao teatro e ao poeta André Filho, com toda a execução musical – textos e instrumentos – realizada pelos próprios atores da companhia.

Entre os clássicos adaptados para o público jovem, temos O Pequeno Príncipe, também da Cênicas Cia de Repertório. A adaptação dirigida por Antônio Rodrigues, com direção musical de Douglas Duan, transporta o público para o reencontro com a criança interior através da inesperada amizade entre um homem perdido no deserto e um garoto vindo de outro planeta. O musical apresenta trilha sonora original executada ao vivo pelos atores, revelando a jornada do Pequeno Príncipe por diferentes mundos e seus encontros com a rosa devotada e a raposa afetuosa.

Shakespeare também encontra espaço na programação infantil através de duas adaptações criativas que aproximam o dramaturgo inglês do universo lúdico das crianças. Hamilet no Circo transporta o drama shakespeariano para o universo circense, criando uma releitura que busca combinar a profundidade dos conflitos humanos com a magia e o espetáculo do picadeiro. Já Sonho de uma Noite de Verão encerra a programação infantil oferecendo ao público jovem uma entrada encantada no mundo da comédia shakespeariana através de suas criaturas fantásticas e tramas de amor e confusão.

Programação completa de Teatro para Infância e Juventude:

08 JAN – 16h30: Tatu-do-bem no Teatro Apolo
10 JAN – 16h30: Jeremias e as Caraminholas no Teatro Barreto Júnior
11 JAN – 16h30: Histórias Pontilhadas na Caixa Cultural
11 JAN – 16h30: A Princesa dos Mares no Teatro Santa Isabel
11 JAN – 17h: O Segredo da Arca de Trancoso no Teatro do Parque
17 JAN – 16h: Matilda no Cine Teatro Samuel Campelo
18 JAN – 16h: A Cigarra e a Formiga no Teatro do Parque
18 JAN – 16h30: Hamilet no Circo no Teatro Apolo
18 JAN – 17h: O Pequeno Príncipe no Teatro Santa Isabel
24 JAN – 16h: Cantigas de Fiar  no Teatro André Filho – Espaço Fiandeiros
25 JAN – 16h: Cantigas de Fiar no Teatro André Filho – Espaço Fiandeiros
25 JAN – 16h30: Tudo Começou Assim no Teatro Apolo
27 JAN – 17h: Os Protetores do Oceano no Teatro Capiba
01 FEV – 16h30: Sonho de uma Noite de Verão no Teatro Apolo

Música: Entre Tradição e Experimentação

Moreno Veloso e Igor de Carvalho. Foto: Divulgação

Revoredo e Gabi da Pele Preta no show Encruzilhada Agreste. Foto: Divulgação

Show de João Fenix, Luz e Fé, com direção cênica de Jean Wyllys. Foto: Divulgação

No campo da música, o festival traz quase 20 apresentações, numa curadoria que busca tanto celebrar nomes consolidados quanto abrir espaço para novas sonoridades. O encontro de Igor de Carvalho e Moreno Veloso, que dividem o palco com a participação especial de Lula Queiroga e Karina Buhr, promete um diálogo íntimo e afetuoso, trazendo à tona as ricas sonoridades dos terreiros.

O projeto Elas Cantam Elba reúne  Cristina Amaral, Deusa nordestina do forró, Liv Morais e Natasha Falcão e faz um passeio pelo repertório da cantora paraibana. A incorporação da ópera, com o espetáculo Anastácia, sinaliza uma ampliação do escopo musical do festival.

A programação musical apresenta desde Janga, show de Ylana inspirado nas memórias de infância no bairro homônimo, em Paulista, até Maestro Duda – Uma Visão Nordestina, espetáculo com nuances de concerto-aula que celebra a trajetória do maestro.

Encruzilhada Agreste, protagonizado por Revoredo e Gabi da Pele Preta, celebra as raízes agrestinas na música contemporânea, enquanto Do Frevo ao Jazz, concerto do Maestro Edson Rodrigues, constrói pontes entre a tradição pernambucana e a linguagem jazzística.

O frevo ganha destaque em Felipe Costta Trio – Frevo Sanfonado, espetáculo instrumental que exalta o ritmo em diálogo com a sanfona. Luz e Fé, show de João Fenix, com direção cênica de Jean Wyllys, conduz o público por um repertório de fé e esperança, apresentado pela voz singular do cantor pernambucano que conquistou o mundo. A presença internacional marca-se com Concerto de Música Européia e Latina, do músico eslovaco Adam Marec.

A ancestralidade afro-brasileira encontra expressão em Ọ̀ṣun Oxum Ochun – Afoxé Oxum Pandá + Luiz de Aquino, um ritual contemporâneo que celebra a força da água doce através de uma experiência sensorial, experimental e afrofuturista, com roteiro, concepção e direção geral de Jorge Féo.

O Festival de Palhaçaria: Território de Mulheres

Espetáculo As Charlatonas faz sessão na Praça do Campo Santo Amaro. Foto: Divulgação

Cabaré Janeiro de Palhaças, na Caixa Cultural. Foto: Divulgação

Mary En em Riso e Caos, com Enne Marx na Casa de Alzira. Foto: Divulgação

O PalhaçAria – Festival Internacional de Palhaças do Recife chega à sua 5ª edição em formato pocket, reafirmando seu papel como um dos mais importantes encontros de palhaçaria feminina no Brasil, criado e realizado pela Cia Animée, sob direção de Enne Marx. O festival, que acontece entre 13 e 23 de janeiro, enaltece a valorização da comicidade feminina com 8 espetáculos, um fórum de debates, um lançamento de livro e uma websérie.

A programação oferece um panorama da palhaçaria feminina contemporânea:

13 JAN – 19h: Mary En em Riso e Caos na Casa de Alzira. Uma performance que explora a comicidade através do riso e do caos.
13 JAN – 20h30: Lançamento do livro Cegonha de Mim na Casa de Alzira. Um evento literário que acompanha a programação artística.
14 JAN – 19h: Bem Me Quero na Casa de Alzira. Um espetáculo que celebra o autocuidado e a autoaceitação com humor e poesia.
15 JAN – 19h: Cabaré Janeiro de Palhaças na Caixa Cultural. Uma noite especial reunindo diversas palhaças em números variados de humor e arte circense.
16 JAN – 19h: As Testemunhas Duo: A Aparição no Teatro Apolo. Uma peça de circo-teatro que promete momentos de surpresa e reflexão.
17 JAN – 19h: Umana no Teatro Santa Isabel. Um solo ou duo que aborda a condição humana com a leveza e a profundidade da palhaçaria.
18 JAN – 11h: Fórum Entre Narizes e Fronteiras: Palhaçaria Feminina em Diálogo Brasil–Portugal na Caixa Cultural. Mediado por Enne Marx, este fórum promove um intercâmbio de ideias e práticas entre artistas brasileiras e portuguesas, explorando a pesquisa e a formação em palhaçaria.
18 JAN – 15h30: As Charlatonas na Praça do Campo Santo Amaro. Uma apresentação ao ar livre que brinca com a figura da vendedora de ilusões e o universo da charlatanaria.
18 JAN – 16h30: As Testemunhas Duo: A Aparição no Sesc Camaragibe. Uma segunda oportunidade para assistir à performance de circo-teatro.
18 JAN – 18h: A Oração no Teatro Arraial Ariano Suassuna. Um espetáculo que pode explorar temas espirituais ou sociais sob a ótica do palhaço.
23 JAN – 19h: O encerramento acontece com a websérie Mary En 20 Anos, transmitida pelo YouTube da Cia Animèe, celebrando a trajetória da artista Mary En.

Enne Marx, reconhecida internacionalmente por seu trabalho de pesquisa e formação em palhaçaria, traz uma perspectiva acadêmica que dialoga com a prática artística no fórum, promovendo intercâmbio entre artistas brasileiras e portuguesas. O festival se conecta com a Rede de Festivais de Palhaças do Brasil, que hoje reúne mais de 20 iniciativas, consolidando Recife como polo difusor da palhaçaria feminina.

Dança e Circo: Corpos em Movimento

V Festival Pole Dance de Pernambuco integra o JGE. Foto: Divulgação

Corpos em Travessia que inclui no elenco pessoas com deficiência. Foto: Divulgação

A diversidade é palavra-chave na programação de dança do JGE, que abrange desde o clássico O Lago dos Cisnes da Cia Fátima Freitas – tradicional montagem do balé de Tchaikovsky com Helena Fink e Maria Júlia Cavalcanti nos papéis principais – até manifestações contemporâneas como o V Festival Pole Dance de Pernambuco, que sob a direção de Alexandra Valença, pioneira da modalidade no Brasil, ressignifica o mesmo clássico através da força e elegância do pole dance.

Entre essas polaridades, o Festival Florescer de Danças Árabes e Fusões, criado por Simone Mahayla e dedicado ao talento das escolas da Região Metropolitana, dialoga com Corpos em Travessia, espetáculo que demonstra como a dança contemporânea pernambucana busca um vocabulário corporal que mescle técnicas do flamenco, dança clássica e contemporânea, baseado no poema de Josimar Lourenço e desenvolvido por um elenco que inclui pessoas com deficiência.

No universo circense, o JGE apresenta um leque que se estende do tradicionalíssimo Eu, Você e o Circo Alakazan a propostas contemporâneas que dialogam com questões sociais urgentes, como Sem Nome o Desempregado, que conta a história de um palhaço que, após perder o pai na pandemia e ver o circo esvaziado pela preferência do público pelas telas digitais, luta para manter a tradição familiar funcionando. Quando a realidade se impõe, ele se vê obrigado a procurar emprego fora da lona.

Cinema: A Sétima Arte no Janeiro

Kátia Mesel realizadora do filme Recife de Dentro pra Fora, de 1997. Foto: Divulgação

A incorporação do cinema como linguagem fixa significa mais do que ampliação de escopo – reconhece a força do audiovisual pernambucano. A escolha do Cinema São Luiz valoriza um espaço que carrega a memória cinematográfica da cidade.

Os quatro curtas-metragens selecionados traçam um panorama da produção audiovisual local: “Recife de Dentro pra Fora“, de Katia Mesel, e “O Mundo é uma Cabeça“, de Bidu Queiroz e Cláudio Barroso, somam-se a “Sim ou Não?“, estreia de Tiago Leitão, e “Recife Frio“, de Kleber Mendonça Filho. A sessão (2 de fevereiro) tem entrada mediante doação de 1kg de alimento, reforçando o caráter social do festival.

A Mostra de Cenas Curtas

A Mostra Janeiro de Cenas Curtas ocupará o Teatro Barreto Júnior entre 16 e 18 de janeiro. Com 27 cenas de 8 a 15 minutos cada, a mostra funciona como laboratório onde atores e autores estreantes podem experimentar diante do público.

A premiação dos três melhores trabalhos e a entrega de troféus para melhor direção e melhores atuações cria um circuito de legitimação que pode ser decisivo para carreiras artísticas. O formato permite experimentação que seria mais difícil em espetáculos de longa duração, funcionando como termômetro das tendências da cena teatral emergente.

Dimensão Territorial

O JGE 2026 se expande do Recife para Jaboatão dos Guararapes, Camaragibe, Goiana e Limoeiro. A programação internacional conta com obras da Argentina, Portugal e Eslováquia, complementada por produções de Brasília, Rio de Janeiro, Maceió e São Paulo.

Homenageados

Maestro Duda. Foto Divulgação

Ator, diretor, dramaturgo e jornalista José Mário Austragésilo. Foto: Divulgação

Severino Florêncio no espetáculo A visita. Foto: Divulgação

Os homenageados desta edição representam diferentes gerações e linguagens que contribuíram para a construção da cena cultural pernambucana. José Mário Austragésilo e Severino Florêncio, no teatro, são nomes fundamentais da dramaturgia e da direção teatral no estado. Austragésilo é reconhecido como um dos principais responsáveis pela modernização do teatro pernambucano, tendo dirigido espetáculos que marcaram época e formado gerações de atores.

Severino Florêncio defende uma vertente popular do teatro pernambucano, com trabalhos que dialogam diretamente com as tradições culturais do estado. Sua obra inclui adaptações de folhetos de cordel, autos natalinos e espetáculos que incorporam elementos do mamulengo e outras manifestações populares.

Mestra Nice, homenageada na dança, é uma das principais responsáveis pela preservação e renovação das danças populares pernambucanas. Seu trabalho de pesquisa e ensino tem formado bailarinos que atuam tanto em grupos tradicionais quanto em companhias contemporâneas.

A Escola Pernambucana de Circo, homenageada na categoria circo, constitui um marco na formação circense do estado. Fundada com o objetivo de profissionalizar e democratizar o acesso às artes circenses, a escola tem formado gerações de artistas que hoje atuam em companhias nacionais e internacionais.

Rose Mary Martins, na ópera, é pioneira na difusão desta linguagem em Pernambuco. Seu trabalho como cantora, professora e produtora tem sido fundamental para a criação de um público e de uma cena operística no estado.

Maestro Duda, homenageado na música, é um dos maiores compositores, arranjadores e instrumentistas do frevo pernambucano. Sua obra inclui arranjos para orquestras sinfônicas, grupos de frevo e big bands, além de composições próprias que se tornaram clássicos do repertório carnavalesco.

Troféus e parcerias

Quanto ao Prêmio JGE Copergás será entregue no dia 4 de fevereiro no Teatro do Parque, com 30 troféus distribuídos em seis categorias, apontado como um termômetro da produção artística do estado. 

A realização do JGE une diferentes instâncias através da parceria entre a Apacepe (Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco), o Sesc e um conjunto de apoiadores institucionais. Suape figura como patrocinador máster, enquanto Fundarpe (Governo do Estado de Pernambuco), Fundação de Cultura Cidade do Recife e Secretaria de Cultura da Prefeitura do Recife atuam como parceiros institucionais. A Copergás mantém o tradicional patrocínio do prêmio que encerra o festival.

Os ingressos variam entre R$ 10 e R$ 140, com opções de espetáculos gratuitos mediante doação de 1kg de alimento não perecível, democratizando o acesso à cultura.

SERVIÇO

Abertura : Moda e Manguebeat
Em 7 de janeiro no Teatro de Santa Isabel, pela primeira na história do festival, o JGE inicia celebrando a moda pernambucana.
Anamauê – Ecoando a Revolução
Estilista: Mendx
Conceito: 20 figurinos inspirados na estética do Movimento Mangue
Elenco: Artistas como Íris e Iara Campos, Pinho, Minininho, Fabiana Pirro e Louise França (filha de Chico Science)

Estrutura e Alcance do Festival
📍 Locais no Recife
Teatro de Santa Isabel
Teatro do Parque
Teatro Apolo
Teatro Hermilo Borba Filho
Teatro Barreto Júnior
Teatro Capiba
Arraial Ariano Suassuna
Teatro André Filho (Espaço Fiandeiros)
Casa de Alzira
Praça do Campo Santo
Cinema São Luiz

🌍 Expansão Regional
Jaboatão dos Guararapes
Camaragibe
Goiana
Limoeiro

🌎 Participação Internacional
Além das produções nacionais (Brasília, Rio de Janeiro, Maceió, São Paulo), o festival recebe obras da 
Argentina
Portugal
Eslováquia

Destaques Especiais
🏆 Homenageados 2026
Teatro: José Mário Austragésilo e Severino Florêncio
Dança: Mestra Nice
Circo: Escola Pernambucana de Circo
Ópera: Rose Mary Martins
Música: Maestro Duda

🎭 Mostra Janeiro de Cenas Curtas
Local: Teatro Barreto Júnior (16-18 de janeiro)
Objetivo: Dar visibilidade a atores e autores iniciantes
Formato: 27 cenas de 8 a 15 minutos
Premiação: Melhores trabalhos, direção e atuações

🏅 Prêmio JGE Copergás
Data: 4 de fevereiro no Teatro do Parque
Categorias: 30 troféus em Teatro Adulto, Teatro Infantil, Dança, Circo e Música

Informações Práticas
🎫 Ingressos: R$ 10 a R$ 140 (disponíveis na Sympla)
🆓 Opções gratuitas: Mediante entrega de 1kg de alimento não perecível

🌐 Programação completa: www.festivaljge.com.br
Realização: Apacepe (Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco)
Parcerias: Sesc, Suape, Fundarpe, Fundação de Cultura Cidade do Recife

🗓️ PROGRAMAÇÃO POR DATA

07 DE JANEIRO
19h – ABERTURA DO 32º JANEIRO DE GRANDES ESPETACULOS (Teatro Santa Isabel) – Teatro Adulto – Livre
19h – OPHÉLIA (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 14 anos

08 DE JANEIRO
16h30 – TATU-DO-BEM (Teatro Apolo) – Teatro Infantil – Livre
19h – A PAIXÃO SEGUNDO JOSÉ FRANCISCO FILHO (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – Livre
20h – DOM CASMURRO (Teatro Capiba) – Teatro Adulto – 14 anos

09 DE JANEIRO
18h – HERMANOS – UMA COMÉDIA DE IRMÃOS (Teatro Barreto Júnior) – Teatro Adulto – 14 anos
19h – MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS (Teatro do Parque) – Teatro Adulto – 14 anos
19h30 – A DIVINA & O ESPLENDOR – UMA FARÇA FORÇADA (Teatro Apolo) – Teatro Adulto – 12 anos
20h – AUTO DA COMPADECIDA – UMA FARSA MODERNESCA (Teatro Santa Isabel) – Teatro Adulto – 12 anos
20h – MISTURA NORDESTINA (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Música – Livre
20h – JANGA (Teatro Hermilo Borba Filho) – Música – Livre
20h – DOM CASMURRO (Teatro Capiba) – Teatro Adulto – 14 anos

10 DE JANEIRO
15h – Oficina: “Maestro Edson Rodrigues – Do Frevo ao Jazz” (Caixa Cultural) – Música – 14 anos – GRATUITO
16h30 – JEREMIAS E AS CARAMINHOLAS (Teatro Barreto Júnior) – Teatro Infantil – Livre
16h30 – EU, VOCÊ E O CIRCO ALAKAZAM (Teatro Hermilo Borba Filho) – Circo – Livre
18h – MOINHO (Teatro Capiba) – Teatro Adulto – 18 anos
19h30 – Maestro Duda – Uma Visão Nordestina (Caixa Cultural) – Música – Livre – GRATUITO
19h30 – POLI DA RAIZ AO CANTO (Teatro do Parque) – Música – Livre
20h – AUTO DA COMPADECIDA – UMA FARSA MODERNESCA (Teatro Santa Isabel) – Teatro Adulto – 12 anos
20h – O ALIENISTA – CASA DOS LOUCOS (Teatro Apolo) – Teatro Adulto – 12 anos
20h – PERNAMBUCO ARRETADO (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Música – Livre

11 DE JANEIRO
16h – VOSSA MAMULENGECÊNCIA (Teatro Capiba) – Teatro Adulto – 14 anos
16h30 – HISTÓRIAS PONTILHADAS (Caixa Cultural) – Teatro Infantil – Livre 
16h30 – A PRINCESA DOS MARES (Teatro Santa Isabel) – Teatro Infantil – Livre
17h – NORDESTINADOS IN CIRCUS (Teatro Apolo) – Circo – Livre
17h – O ÚLTIMO CIGARRO (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Teatro Adulto – 12 anos
17h – SEM NOME O DESEMPREGADO (Teatro Hermilo Borba Filho) – Circo – Livre
17h – O SEGREDO DA ARCA DE TRANCOSO (Teatro do Parque) – Teatro Infantil – Livre
19h – VOSSA MAMULENGECÊNCIA (Teatro Capiba) – Teatro Adulto – 14 anos

13 DE JANEIRO
18h30 – WICKED (Teatro Santa Isabel) – Teatro Adulto – 12 anos
19h – Mary En em Riso e Caos (Casa de Alzira) – Circo – 16 anos
19h30 – HBLYNDA EM TRASITO (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 16 anos
20h30 – LANÇAMENTO LIVRO “CEGONHA DE MIM” (Casa de Alzira) – Circo – Livre – GRATUITO

14 DE JANEIRO
18h30 – WICKED (Teatro Santa Isabel) – Teatro Adulto – 12 anos
19h – BEM ME QUERO (Casa de Alzira) – Circo – Livre
19h – TURBANTES (Teatro Capiba) – Dança – Livre
19h – ENCRUZILHADA AGRESTE (Teatro Hermilo Borba Filho) – Música – 12 anos

15 DE JANEIRO
19h – CABARÉ JANEIRO DE PALHAÇAS (Caixa Cultural) – Circo – 16 anos 
19h – ATORES (Teatro Santa Isabel) – Teatro Adulto – 12 anos
19h30 – LUZ E FÉ (Teatro Capiba) – Música – Livre
20h15 – NOITE (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 14 anos

16 DE JANEIRO
19h – AS TESTEMUNHAS DUO: A APARIÇÃO (Teatro Apolo) – Circo – Livre
19h30 – O DIÁRIO QUASE RIDÍCULO DE AURORA (Teatro Capiba) – Teatro Adulto – 14 anos
19h30 – Maestro Duda – Uma Visão Nordestina (Caixa Cultural) – Música – Livre – GRATUITO
19h30 – CANTIGAS A PEDRA DO REINO (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 14 anos
19h30 – O LAGO DOS CISNES (Teatro Santa Isabel) – Dança – Livre
20h – MCP – O SONHO NÃO ACABOU (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Teatro Adulto – 14 anos
20h – SUZY BRASIL – UMA NOITE HORRIPILANTE (Teatro do Parque) – Teatro Adulto – 16 anos

17 DE JANEIRO
16h – MATILDA (Cine Teatro Samuel Campelo) – Teatro Infantil – Livre
18h – FRANCISCO – UM INSTRUMENTO DE PAZ (Teatro do Parque) – Teatro Adulto – 14 anos
19h – UMANA (Teatro Santa Isabel) – Circo – Livre
19h30 – Do Frevo ao Jazz (Caixa Cultural) – Música – Livre – GRATUITO

18 DE JANEIRO
11h – FÓRUM Entre Narizes e Fronteiras: Palhaçaria Feminina em Diálogo Brasil–Portugal (Caixa Cultural) – Circo – Livre – GRATUITO
14h – Oficina: Já que sou do pandeiro (Caixa Cultural) – Música – 14 anos – GRATUITO
15h30 – AS CHARLATONAS (Praça do Campo Santo Amaro) – Circo – Livre – GRATUITO
16h – A CIGARRA E A FORMIGA (Teatro do Parque) – Teatro Infantil – Livre
16h30 – HAMILET NO CIRCO (Teatro Apolo) – Teatro Infantil – Livre
16h30 – AS TESTEMUNHAS DUO: A APARIÇÃO (Sesc Camaragibe) – Circo – Livre – GRATUITO
17h – O PEQUENO PRINCIPE (Teatro Santa Isabel) – Teatro Infantil – Livre
18h – FEVEREIRO (Teatro Capiba) – Teatro Adulto – 16 anos
18h00 – A ORAÇÃO (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Circo – 16 anos

20 DE JANEIRO
10h – Oficina: O universo clássico-popular (Caixa Cultural) – Música – Livre – GRATUITO
14h – Oficina: O universo clássico-popular (Caixa Cultural) – Música – Livre – GRATUITO
19h – A BELA ADORMECIDA (Teatro Santa Isabel) – Dança – Livre
19h30 – DO JACKSON AO PANDEIRO por Lucinha Guerra (Caixa Cultural) – Música – Livre 

21 DE JANEIRO
19h – ELAS CANTAM ELBA (Teatro do Parque) – Música – Livre
19h30 – Rock Bossa (Caixa Cultural) – Música – Livre 
19h30 – PELA NOITE (Teatro Santa Isabel) – Teatro Adulto – 16 anos
20h – CÚMPLICES – TRANSGRESSÕES DE UM RICARDO III (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 12 anos

22 DE JANEIRO
19h – CÚMPLICES – TRANSGRESSÕES DE UM RICARDO III (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 12 anos
19h – UM MINUTO PRA DIZER QUE TE AMO (Teatro Santa Isabel) – Teatro Adulto – 14 anos
20h – FELIPE COSTTA TRIO – FREVO SANFONADO (Teatro Capiba) – Música – Livre

23 DE JANEIRO
19h – WEBSÉRIE MARY EN 20 ANOS (Youtube da Cia Animèe) – Circo – Livre – PELO YOUTUBE
19h – UM SÁBADO EM 30 (Teatro do Parque) – Teatro Adulto – Livre
19h30 – CONCERTO DE MÚSICA EUROPÉIA E LATINA (Teatro André Filho – Espaço Fiandeiros) – Música – Livre – 
19h30 – MPB BRASIL (Teatro Santa Isabel) – Música – Livre
20h – MEDEIA – DA LAMA AO CAOS (Teatro Barreto Júnior) – Teatro Adulto – 16 anos
20h – CIRCO GODOT (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Teatro Adulto – Livre
20h – CÚMPLICES – TRANSGRESSÕES DE UM RICARDO III (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 12 anos

24 DE JANEIRO
16h – CANTIGAS DE FIAR (Teatro André Filho – Espaço Fiandeiros) – Teatro Infantil – Livre
16h30 – CAMINHOS (Teatro Capiba) – Circo – 12 anos
18h – UM SÁBADO EM 30 (Teatro do Parque) – Teatro Adulto – Livre
19h – MM BEAUTY UNIVERSAL PERNAMBUCO (Teatro Barreto Júnior) – Dança – Livre – GRATUITO
19h – CORPOS EM TRAVESSIA (Teatro Apolo) – Dança – Livre
19h – CIRCO GODOT (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Teatro Adulto – Livre
20h – PURO TRANSE AO VIVO (Casa de Alzira) – Música – Livre
20h – MILAGRES (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 12 anos
20h – ZAMBO (Teatro Santa Isabel) – Dança – Livre

25 DE JANEIRO
16h – CANTIGAS DE FIAR (Teatro André Filho – Espaço Fiandeiros) – Teatro Infantil – Livre
16h30 – TUDO COMEÇOU ASSIM (Teatro Apolo) – Teatro Infantil – Livre
17h – SÓ RESTA A POEIRA PRA TRÁS (Teatro Capiba) – Teatro Adulto – Livre
17h – CIRCO GODOT (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Teatro Adulto – Livre
18h – MM BEAUTY UNIVERSAL PERNAMBUCO (Teatro Barreto Júnior) – Dança – Livre – GRATUITO
18h – SANTERIA AFOXÉ OXUM PANDÁ (Teatro Santa Isabel) – Música – Livre
19h – MILAGRES (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 12 anos

27 DE JANEIRO
17h – OS PROTETORES DO OCEANO (Teatro Capiba) – Teatro Infantil – Livre
18h30 – ROUBANDO A CENA (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Teatro Adulto – 12 anos
19h30 – FEUZA – ROCK / ÓPERA (Teatro do Parque) – Música – Livre
19h45 – SAUDADE, SENTIMENTO SEM TRADUÇÃO (Teatro Apolo) – Teatro Adulto – 12 anos
20h – MILAGRES (Galpão das Artes – Sesc Limoeiro) – Teatro Adulto – 12 anos – INGRESSO NO LOCAL

28 DE JANEIRO
16h – F.A.M.A – FELIZ ANIVERSÁRIO MEU AMOR (Teatro do Parque) – Teatro Adulto – Livre – GRATUITO
19h – AUTO DA COMPADECIDA – UMA FARSA MODERNESCA (Cine Teatro Samuel Campelo) – Teatro Adulto – 12 anos
19h30 – IMORAIS (Teatro Hermilo Borba Filho) – Teatro Adulto – 18 anos
19h30 – TUDO ACONTECE NA BAHIA (Teatro Santa Isabel) – Dança – Livre
20h – MILAGRES (Galpão das Artes – Sesc Limoeiro) – Teatro Adulto – 12 anos – INGRESSO NO LOCAL

29 DE JANEIRO
19h – AUTO DA COMPADECIDA – UMA FARSA MODERNESCA (Cine Teatro Samuel Campelo) – Teatro Adulto – 12 anos
19h – MEUS 20 MINUTOS DE RECREIO (Teatro Apolo) – Teatro Adulto – 14 anos
19h – ANTONIN ARTAUD – ENTRE A ORDEM E A VERTIGEM (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Teatro Adulto – 16 anos
19h – TEREZINHA CORAÇÃO DE BARRO (Teatro Santa Isabel) – Teatro Adulto – 12 anos
19h30 – SENHORA DO ENGENHO ENTRE A CRUZ E A TORÁ (Teatro André Filho – Espaço Fiandeiros) – Teatro Adulto – 14 anos
19h30 – PEDRAS, FLOR E ESPINHO (Teatro Barreto Júnior) – Teatro Adulto – 14 anos – INGRESSO NO LOCAL
20h – CÚMPLICES – TRANSGRESSÕES DE UM RICARDO III (Galpão das Artes – Sesc Limoeiro) – Teatro Adulto – 12 anos – INGRESSO NO LOCAL

30 DE JANEIRO
19h – AUTO DA COMPADECIDA – UMA FARSA MODERNESCA (Teatro do Parque) – Teatro Adulto – 12 anos
19h – O FUTURO DURA MUITO TEMPO (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Teatro Adulto – 16 anos
19h30 – SENHORA DO ENGENHO ENTRE A CRUZ E A TORÁ (Teatro André Filho – Espaço Fiandeiros) – Teatro Adulto – 14 anos
19h30 – PEDRAS, FLOR E ESPINHO (Teatro Barreto Júnior) – Teatro Adulto – 14 anos – INGRESSO NO LOCAL
19h30 – IGOR DE CARVALHO E MORENO VELOSO (Teatro Santa Isabel) – Música – Livre
20h – CASA VAZIA (Teatro Capiba) – Dança – 16 anos
20h – MEUS 20 MINUTOS DE RECREIO (Teatro Apolo) – Teatro Adulto – 14 anos
20h – Ọ̀ṢUN OXUM OCHUN – AFOXÉ OXUM PANDÁ + LUIZ DE AQUINO (Teatro Hermilo Borba Filho) – Música – Livre

31 DE JANEIRO
17h – AUTO DA COMPADECIDA – UMA FARSA MODERNESCA (Teatro do Parque) – Teatro Adulto – 12 anos
19h – CARTA A SPINOZA (Teatro Arraial Ariano Suassuna) – Teatro Adulto – Livre
19h – ANASTÁCIA (Teatro Santa Isabel) – Música – 16 anos
19h30 – O JARDIM DAS FLORES MORTAS (Teatro Apolo) – Teatro Adulto – 14 anos
20h – ASTEROIDE AP162 (Teatro Capiba) – Teatro Adulto – 14 anos
20h – CORAÇÃO SAUDOSIANO EM VERSO E CANTO (Teatro Hermilo Borba Filho) – Música – Livre
21h – ANASTÁCIA (Teatro Santa Isabel) – Música – 16 anos

1º DE FEVEREIRO
15h – FESTIVAL FLORESCER DE DANÇAS ÁRABES E FUSÕES (Teatro Barreto Júnior) – Dança – Livre 
16h30 – SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO (Teatro Apolo) – Teatro Infantil – 14 anos
18h – FESTIVAL FLORESCER DE DANÇAS ÁRABES E FUSÕES (Teatro Barreto Júnior) – Dança – Livre 
18h – FESTIVAL POLE DANCE DE PERNAMBUCO (Teatro Santa Isabel) – Dança – Livre
19h – BOCA SECA (Teatro Capiba) – Dança – 18 anos
19h – CIRCO SCIENCE DO MANGUE AO PICADEIRO (Teatro do Parque) – Circo – Livre

03 DE FEVEREIRO
20h – AUTO DA COMPADECIDA – UMA FARSA MODERNESCA (Sesc Ler Goiana) – Teatro Adulto – 12 anos – INGRESSO NO LOCAL

04 DE FEVEREIRO
19h – PRÊMIO JGE COPERGÁS (Teatro do Parque)

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A arte de abrir portas no coração do Recife
Crítica: Baile do Menino Deus
Por Ivana Moura

Um quadro que mescla inspirações sagradas e profanas na mesma cena. Maria, José e o Menino; dois Mateus, o Boi e seus dançantes. Foto: Hans Manteuffel

Os Mateus Arilson Lopes e Sóstenes Vidal. Foto: Paulinho Filizola / Divulgação

Assistir ao Baile é uma experiência altamente recomendável. Na imagem Zabilin e Lucas dos Prazeres. Foto: Hans Manteuffel

No roteiro cultural de qualquer brasileiro, o Baile do Menino Deus, apresentado no Marco Zero, no Recife, impõe-se como experiência fundamental. Este espetáculo natalino constitui um daqueles momentos raros que marcam para sempre nossa percepção da cultura brasileira. Esta celebração deveria estar na lista obrigatória de qualquer pessoa que deseja decifrar a alma nordestina e a genialidade da nossa cultura popular.

Com concepção do espetáculo e direção geral de Ronaldo Correia de Brito, texto original e letras de Ronaldo Correia de Brito e Assis Lima, e música de Antônio Madureira, esta criação construída ao longo de mais de quatro décadas continua a conquistar novos espectadores e emocionar.

E o impacto desse espetáculo se revela em cada história individual. Ir uma vez é encantar-se; voltar todo ano é garantir uma dose anual de pura alegria. A garota Ana Júlia, de 10 anos, foi pela primeira vez ao Baile, mas já conhecia todas as músicas e estava ansiosa pelo quadro do Jaraguá. Sua avó, assídua frequentadora há 15 anos, não esconde a satisfação de estar com a neta. Moradora de Águas Compridas, ela só neste ano conseguiu levar a menina – depois de tentativas anteriores que encontraram obstáculos, finalmente pôde compartilhar essa tradição que passa de geração em geração, criando vínculos através da arte.

Uma das características mais admiráveis do Baile do Menino Deus é essa capacidade de se reinventar mantendo-se fiel à essência. Todo ano traz novidades: figurinos repensados, novos atores e bailarinos que se integram ao elenco experiente, criando camadas de frescor sobre uma base sólida construída ao longo de 42 anos de existência e 22 edições no Marco Zero. O espetáculo mantém sua força artística com um elenco tarimbado. O talento dos Mateus engrandece no palco e no primeiro dia da temporada Sóstenes Vidal e Arilson Lopes esbanjaram vivacidade, talento e energia – fizeram gracejo até com a chuva que interrompeu o espetáculo, realizado ao ar livre e a céu aberto. Eles se revezam com Daniel Barros e o novo integrante Djaelton Quirino, garantindo diferentes nuances interpretativas ao longo das três apresentações.

Maestro Spok e Joyce Alane. Foto: Hans Manteuffel / Divulgação

Silvério Pessoa, brilho de veterano. Foto: Hans Manteuffel / Divulgação

A prática de convidar artistas consagrados da música pernambucana se renova com Joyce Alane, cantora e compositora do gênero MPB pop em plena ascensão, finalista do Grammy Latino 2025 e indicada ao Prêmio Multishow. A cantora interpreta três músicas do repertório da peça – Beija-Flor e Borboleta, Cigana e Baile do Menino Deus.

Em sua segunda participação nessa brincadeira de natal única, Maestro Spok consolida sua parceria com o espetáculo através de aparições que exploram sua versatilidade artística. Na finalização de Zabilim, ele presta homenagem à Lia de Itamaracá, rainha do coco que participou do Baile no ano passado, entoando o bordão “ai mamãe”, ressaltando esse gesto de reverência.

A riqueza sonora do Baile do Menino Deus é alicerçada por um conjunto de 11 instrumentistas especializados, que formam a orquestra base do espetáculo. Nomes como Karol Maciel no acordeon, Rafael Marques no bandolim e cavaco, João Pimenta no contrabaixo, Raquel Paz na viola e Aristide Rosa no violão e viola nordestina, além dos percussionistas Emerson Coelho, Jerimum de Olinda e José Emerson, e os sopros de Alexandre Rodrigues (Copinha) e Jonatas Gomes no trompete, constroem a tapeçaria musical. 

Por trás da magia dos 70 artistas que se apresentam no palco, há um universo de dedicação e rigor. Com a produção coordenada por Carla Valença e a Relicário Produções, são trezentos profissionais envolvidos no total, a maioria trabalhando incansavelmente nos bastidores, a excelência artística e técnica se manifesta em cada aspecto da montagem. A contribuição de Quiercles Santana na preparação de elenco e assistência de direção é fundamental, garantindo a coesão e o alto nível das performances. Desde a direção musical até a coordenação de som (Estúdio Carranca), luz (Jathyles Miranda) e cenografia (Sephora Silva), tudo demonstra um rigor técnico e um cuidado artístico meticulosos. Mas é justamente a presença do elemento humano — com seus improvisos e espontaneidade — que torna a apresentação ainda mais tocante e verdadeira.

Nesse contexto grandioso, o elenco vocal do auto de natal, por sua vez, representa um verdadeiro mapa da música pernambucana contemporânea, reunindo desde veteranos consagrados até jovens promessas em uma sinfonia coletiva de rara expressividade. Carlos Filho e Sue Ramos formam uma dupla vibrante que conduz Ciganas e Ciganos e Salve Maria. Elon Barbosa se reveza entre parcerias, ora com Gabriela Martinez em Ô de casa, ora com Isadora Melo no delicado Amanheceu. A própria Isadora, cuja carreira começou nos palcos do Baile quando ainda adolescente, também empresta sua voz encantadora à tradicional Ciganinha – música que integra o espetáculo desde 1983 e que ela interpreta nesta temporada, alternando com Joyce Alane. Cláudio Rabeca transita entre sua rabeca em Quando cheguei ao lado de Lucas Dan e os vocais de Acendei uma luz, confirmando a multiplicidade de talentos do espetáculo.

Entre as participações especiais, Silvério Pessoa dedica sua força interpretativa a Boca de forno e Jaraguá, enquanto Lucas dos Prazeres combina seus tamancos em Todos os dias com a sensibilidade de Anjo. A nova geração se sobressai através de Alice de Souza, Guilherme Simões e Julia Souza, que se alternam entre os elementos cósmicos da Louvação – Sol, Lua e Estrela – e se unem em Vinde Pastoras, revelando a força da nova safra de intérpretes pernambucanos. Nesse panorama de talentos, Laís Senna, que dá vida à personagem Maria na peça, também se distingue por sua voz deslumbrante, interpretando lindamente o Acalanto. Ricardo Pessoa conduz com sua voz potente o quadro Santos Reis, que exalta os povos formadores do Brasil, com o apoio dos coros adulto e infantil.

Coro infantil. Foto: Paulinho Filizola / Divulgação

Dimas Popping, especialista na dança popularizada por Michael Jackson. Foto: Hans Manteuffel / Divulgação

PE Original Style tira o fôlego com as manobras. Foto: Hans Manteuffel / Divulgação

As coreografias são assinadas por Sandra Rino. Foto: Hans Manteuffel / Divulgação

Novos figurinos de Marcondes Lima. Foto: Hans Manteuffel / Divulgação

No centro da narrativa, Maria e José, interpretados por Laís Senna e Lucas Dan, constroem um casal que equilibra o extraordinário e o cotidiano. Não são figuras distantes, mas pessoas comuns tocadas pela transcendência – reflexo da proposta do Baile de humanizar o sagrado através da cultura popular.

O coro infantil de 13 crianças, preparado por Célia Oliveira, traz ao espetáculo a renovação que o Natal proclama. Suas vozes cristalinas contrastam com a complexidade do mundo adulto, lembrando que celebramos, fundamentalmente, o nascimento de uma criança.

Sandra Rino, com sua dedicação incansável e olhar visionário, enfrenta o desafio hercúleo de juntar e encaixar danças tradicionais nordestinas, dança contemporânea e elementos de street dance. A coreógrafa constrói um vocabulário corporal que faz diferentes tradições dialogarem, transformando a complexidade dessa combinações em pura energia cênica. Se a arte, como diria Shakespeare, é feita de som e fúria, Sandra Rino é essa fúria criativa que dá forma e sentido ao movimento.

Este ano, a ousadia artística de ampliar o leque expressivo trouxe elementos surpreendentes. A inclusão de Dimas Popping, especialista na dança popularizada por Michael Jackson, pode parecer estranha à primeira vista. Mas é exatamente nessa audácia que reside o traquejo do diretor Ronaldo Correia de Brito. Fazer o universo natalino abraçar diversas expressões da celebração humana. O popping se soma ao grupo PE Original Style com seus 9 breakers (Bboy Akira, Bboy Eddy, Bboy Fábregas e outros), criando um mosaico cultural que reflete o Brasil contemporâneo sem abandonar sua identidade cultural.

A renovação dos figurinos, criados por Marcondes Lima e executados por uma equipe de 9 costureiras, revela uma cabedal de referências que se combinam e dialogam. Além das cores vibrantes da cultura nordestina, o vestuário também adotou brancos e pretos, tecidos e texturas que remetem ao artesanato local, além de adereços criados por Álcio Lins e Wilson Aguiar que criam pontes com o imaginário dos folguedos populares. Os mantos e panos se movimentam com o vento da beira do cais, criando efeitos visuais que incorporam até mesmo as condições climáticas do Marco Zero. O figurino constitui discurso visual que reafirma a brasilidade do espetáculo. A manipulação de bichos fantásticos por Luan Lucas, Marcílio Santos e Ruan Henrique adiciona elementos lúdicos que encantam especialmente o público infantil.

Quando São Pedro testa a paciência do público

Ronaldo Correia de Brito subindo a rampa com suas crianças ao final da peça. Foto: Hans Manteuffel

O primeiro dia da temporada 2025 ofereceu um exemplo eloquente da relação especial entre o Baile e seu público. Uma chuva de verão daquelas típicas do Recife – caprichosa e intensa – desabou  com apenas 15 minutos de espetáculo. A produção precisou de uma pausa de aproximadamente uma hora para esperar a chuva passar, enxugar completamente o palco, verificar todo o equipamento elétrico de som e luz e garantir a segurança de artistas e público.

Nesse intervalo forçado por São Pedro, algo singular aconteceu. Enquanto a animadora mantinha o público aquecido, o diretor Ronaldo Correia de Brito aproveitou o momento para compartilhar duas histórias do seu arsenal. Ele comentou que antigamente não chovia em dezembro no Recife durante a época do Baile, mas a crise climática mudou isso. Para exemplificar, recordou que na década de 1970, em viagem pelo Ceará com Assis Lima, visitou um mestre de reisado. Durante a jornada a cavalo, foram pegos por uma chuva torrencial – “no Ceará não chove muito, mas quando chove, um pingo d’água banha a gente. São gotas muito grossas”. Chegaram encharcados à casa do mestre, que os recebeu com vinho. Após beberem e se acomodarem nas redes, o anfitrião realizou um gesto de altíssima dignidade: lavou os pés dos visitantes em uma bacia d’água, reproduzindo o gesto de Jesus.

Na segunda narrativa, Ronaldo refletiu sobre sua própria trajetória e lembrou que quando fazia teatro popular no Ceará, no Crato, no Cariri cearense, bastavam “uma casa e quatro cadeeiros”. Hoje, “a partir do momento em que passamos a depender de tecnologia de luz e de som, passamos a viver essas vicissitudes”.

Músicos que tocam no Baile do Menino Deus. Foto: Paulinho Filizola / Divulgação

O repertório de 23 composições de Antonio Madureira (Zoca) constitui um dos maiores tesouros desse Baile. O espetáculo alterna entre composições mais animadas e outras mais contemplativas, criando ondulações rítmicas que garantem o desenvolvimento dramático. Desde a Abertura que estabelece o tom festivo até o Acalanto de maior ternura, cada música funciona como capítulo musical da narrativa, conduzindo a emoção do público através dos arranjos assinados por Antônio Madureira, Nelson Almeida e Rafael Marques.

Expandindo a riqueza sonora, a beleza dos múltiplos quadros – dos Mateus brincalhões aos Santos Reis solenes, do coro infantil lúdico aos bailarinos contemporâneos – compõe uma sinfonia visual que transforma a praça em território sagrado da alegria. Ali se desenha um acalanto coletivo, talvez uma utopia temporária de acolhimento. O Baile do Menino Deus carrega o reisado em sua essência de “procurar uma casa, achar uma porta”. Como refletiu Ronaldo naquela noite chuvosa, “esse tema parece antigo, mas é muito atual, porque nós atravessamos um tempo em que o que todos estão procurando é uma casa para morar, e a gente está querendo o fim das fronteiras, que as portas se abram”. O Baile se confirma, então, como festa da hospitalidade – materialização provisória desse sonho ancestral de portas abertas.

Leia AQUI crítica do Baile do Menino Deus 2024

SERVIÇO

Baile do Menino Deus: Uma Brincadeira de Natal – 2025
Quando: 23, 24 e 25 de dezembro, às 20h
Onde: Praça do Marco Zero, Bairro do Recife
Acesso gratuito
Serão disponibilizadas 2.500 cadeiras ao público
Acessibilidade: Espaço reservado para pessoas com cadeira de rodas, audiodescrição e intérprete em Libras
Informações@bailedomeninodeusoficial

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7º Chama Violeta transforma
Sertão do Pajeú em palco mágico

Entre terreiros, alpendres e sonhos coletivos, festival de artes integradas celebra resistência cultural com 15 atrações do Brasil e Argentina. Foto: Divulgação

O Sítio Minadouro fica na área rural de Ingazeira, no Sertão pernambucano do Pajeú, cerca de 420 km do Recife

Odilia Nunes, atriz, palhaça, brincante, gestora cultural e coordenadora do Chama Violeta

“Entendi que amor é escolha”, é um mote e no Sítio Minadouro, área rural de Ingazeira, no Sertão pernambucano do Pajeú (cerca de 420 quilômetros do Recife), essa opção ganha forma de palhaçaria, mamulengo, dança, poesia e outras linguagens. Entre os dias 19 e 21 de dezembro, o 7º Chama Violeta acende mais uma vez a centelha da arte, provando que cultura não aceita fronteiras geográficas nem limitações orçamentárias.

Coordenado pela incansável Odília Nunes – palhaça, brincante, gestora cultural e alma inquieta do teatro popular -, o Chama Violeta é muito mais que um festival. É um abraço coletivo, uma festa de resistência, um laboratório de afetos onde 60 artistas e técnicos de Pernambuco, Paraíba, Bahia, Rio Grande do Norte, Distrito Federal, São Paulo e Argentina se encontram para semear encantamento.

“O critério da curadoria é afetivo. Primeiro a gente escolhe o tema e a partir dele vai montando a programação. É intuitivo”, revela Odília, que há três anos mora em São Paulo como atriz da premiada Cia do Tijolo, integrando o elenco dos espetáculos Guará Vermelha (2023) e Restinga de Canudos (2025).

A revolução dos terreiros pela arte que vai à casa das pessoas

Chama Violeta promove uma experiência diferenciada de fruição artística. 

O grande diferencial do Chama Violeta está na inversão completa da lógica tradicional dos festivais. Enquanto a maioria opera na dinâmica de “venha até nós”, o Chama Violeta funciona no “vamos até vocês”. Não são as pessoas que precisam se deslocar para chegar até a arte, é a arte que chega até as pessoas, literalmente em suas casas.

Os espetáculos acontecem nos terreiros e alpendres das casas dos moradores: Terreiro de Mariquinha, Terreiro de Seu Expedito e Dona Lourdinha, Terreiro de Edileuza, Alpendre da Casa de Odília. Cada espaço é gentilmente cedido por familiares e amigos, criando uma intimidade única entre artista e público. Para muitos moradores do Minadouro, especialmente crianças e idosos, essa é a primeira oportunidade de assistir a um espetáculo teatral profissional.

Essa filosofia revolucionária leva teatro de bonecos, circo, dança contemporânea e música para pessoas que, muitas delas, nunca pisaram em um teatro convencional, revelando que não são elas que precisavam ir ao teatro, o teatro é que precisava chegar até elas.

Essa mudança de paradigma cria uma experiência única de fruição artística. Sem a barreira física e simbólica do teatro tradicional, sem ingressos, sem dress code, sem hierarquias urbanas, a arte acontece no ambiente familiar e acolhedor dos quintais sertanejos. A plateia se torna parte do espetáculo numa atmosfera de roda, de círculo de afeto onde todos estão incluídos. Crianças assistem de perto, adultos participam espontaneamente, idosos dividem memórias com os artistas após as apresentações.

O ano das famílias que fazem arte junta

Piruá e Paraqueta, com os artistas Rodrigo Bruggemann e filha Amora Maux, do Rio Grande do Norte

Este ano, sem qualquer incentivo do poder público, mais do que nunca o Festival Chama Violeta é feito com a garra e a parceria dos artistas e companhias participantes, que abriram mão do cachê para compartilhar sua arte. O tema “Entendi que amor é escolha” ganhou ainda mais significado na curadoria de grupos familiares – casais, pais e filhos que fazem arte juntos.

O festival celebra os 50 anos de casamento dos pais de Odília, que são pessoas muito atuantes na comunidade e na realização do Chama Violeta, e de outro casal, Cícero Gomes e Dona Maria, do Samba de Coco de Trupé de Arcoverde, presentes desde a primeira edição.

Entre os grupos familiares da programação estão Piruá e Paraqueta (Rodrigo Bruggemann e filha Amora Maux, do Rio Grande do Norte), o casal baiano Anelise Mayumi e Douglas Iesus com Embalanceio: dançar sonhos pequeninos, a Cia Bode com Pequi (casal Pedro Milhomens e Clá Solar com a filha Aruna) e a Cia das Marionetes, da Argentina.

Quando sonhos coletivos viram cinema

Filme Um dia Havia de Ver o Mar, de Odília Nunes

 Teatro de lambe-lambe Dona Ló com Catarina Calungueira (RN) 

Espetáculo Cícera, com Contadores de Mentira. Foto: Valeria Félix / Divuolgação

Entre as novidades da programação está o filme Um dia Havia de Ver o Mar, dirigido por Odília Nunes. A história nasceu de um pedido simples de uma criança local: “Um menino, um dia, me pediu pra levar ele na praia. Cumpri minha promessa. Mas não fomos só em dois. É que esse sonho era coletivo. O filme é o registro desse encontro”, conta a diretora.

No Minadouro, as crianças aprendem desde cedo a amar a chuva e brincar na água dos riachos, barreiros e açude, mas sonham conhecer o mar. O filme documenta essa jornada de descoberta, simbolizando o espírito do festival: transformar sonhos individuais em conquistas coletivas.

O festival abraça diversas linguagens e formatos. Há espetáculos teatrais como Vereda dos Mamulengos (Casa Moringa-DF), onde Conceição e Benedito enfrentam as cobranças do senhor João Redondo com humor e lirismo, acompanhados de trilha sonora ao vivo com cantos de trabalho e cantigas de roda da tradição oral brasileira.

O teatro de bonecos se faz presente com O Auto do Boi Aurora (Catarina Calungueira-RN), onde Catirina luta contra o autoritário capitão João Redondo para libertar o boi Aurora, e com Antologia das Marionetes (Cia das Marionetes-Argentina), um cabaré que reúne personagens criados ao longo da trajetória da marionetista Rocío Walls, cada um carregando marcas de diferentes épocas e encontros pelo mundo.

A música ganha destaque com Nordeste Futurista de Luana Flores (PB), artista que vem se destacando internacionalmente ao fundir ritmos e estética da cultura popular nordestina ao universo da música eletrônica, e com Sons de Resistência do Samba de Coco de Trupé de Arcoverde (PE), grupo que desde 2009 preserva o legado do samba de coco, honrando a herança cultural afro-indígena.

A dança contemporânea se apresenta através de Embalanceio: dançar sonhos pequeninos, onde o casal de artistas e pais Anelise Mayumi e Douglas Iesus encara a pergunta: “como adiar o fim do mundo?” com um espetáculo que usa elementos naturais do sertão baiano e a força da imaginação para semear encantamento.

O circo aparece em Piruá e Paraqueta, onde pai e filha montam seu próprio circo apresentando números de malabarismo, equilibrismo, magia e ciência, descobrindo que felicidade não tem milhões de seguidores.

Formação e Empoderamento

O festival também promove oficinas formativas. A Voz da Poesia, ministrada por Isabelly Moreira (São José do Egito-PE), faz parte do projeto nacional que empodera mulheres do campo através da literatura, exercitando leitura, escrita e declamação com foco em quadras e sextilhas, além de reflexões sobre papel da mulher na sociedade e questões ambientais.

A oficina Confecção de Calungas de Pano, com Catarina Calungueira (RN), propõe imersão criativa no teatro de bonecos tradicional do Nordeste, conectando participantes com as encantarias do teatro popular.

As rodas de conversa são marca do festival. Vô, deixa minha mãe brincar, conduzida por Gabriela Romeu (SP), jornalista e documentarista criadora do projeto Infâncias, é uma conversa intergeracional sobre memórias de infância, lembrando a infância como “relicário das singelezas do viver”.

O Chama Violeta é uma das ações do projeto No Meu Terreiro Tem Arte, criado por Odília em 2015 para promover intercâmbio cultural, residências artísticas e formação durante o ano todo no Minadouro. O reconhecimento veio com o Prêmio Pernalonga de Teatro (2019) do Governo de Pernambuco e o Prêmio Inspirar (2021) do Instituto Neoenergia, que contempla iniciativas lideradas por mulheres.

O figurino de Bandeira, a palhaça sertaneja, é feito de material reciclado

Decripolou Totepou, solo de Odília que completa 20 anos em 2025

Um dos momentos mais simbólicos é o retorno de Decripolou Totepou ao lugar onde nasceu. O solo de Odília completa 20 anos em 2025. “Este foi meu primeiro solo. Nesses vinte anos, várias crianças do Minadouro assistiram, mas a nova geração ainda não conheceu. Nada melhor do que comemorar esse aniversário onde tudo começou”.

Bandeira, a palhaça sertaneja protagonista do espetáculo, carrega em sua mala sonhos e objetos que encantam através de mamulengos, malabares, brinquedos populares e truques de ilusionismo. Seu figurino de material reciclado é roupa e cenário sonoro, lembrando que “podemos brincar com qualquer coisa, se formos capazes de enxergar a simplicidade”.

A realização conta com uma rede de colaboradores locais. Produção geral e hospedagem por Lourdinha, Expedito, Violeta, Helena, Tamires, Gilvan, Heitor, Artur, Fran e Paulinho; alimentação por Deda, Fran e Ciene; coordenação de programação por Clá Solar; coordenação de transportes por Ana Carolina Lima; coordenação técnica por Cic Morais; design por Letícia Graciano; assessoria de imprensa por Ana Nogueira; produção local por Marcia Andreia, Gisele Garcez e José Mauricio. O festival conta com apoio do SESC PE e Editora Caixote.

📅 PROGRAMAÇÃO COMPLETA – 7ª EDIÇÃO CHAMA VIOLETA

🌅 SEXTA-FEIRA (19)

8h 📍 Escola Municipal do Jorge 🎭 Vereda dos Mamulengos com Casa Moringa (DF)
Conceição e Benedito enfrentam as cobranças do senhor João Redondo com sabedoria popular, humor e trilha sonora ao vivo

📍 Escola Municipal da Caiçara
🎭 Decripolou Totepou com Odília Nunes (PE)
A palhaça Bandeira celebra 20 anos tirando mágica da mala e ensinando que simplicidade é revolução

17h 📍 Terreiro de Mariquinha 🎭 Antologia das Marionetes com Cia das Marionetes (Argentina)
Cabaré de memórias onde cada boneco conta histórias de encontros pelo mundo

19h 📍 Terreiro de Seu Expedito e Dona Lourdinha 🎭 O Auto do Boi Aurora com Catarina Calungueira (RN)
Catirina luta contra João Redondo pela liberdade do boi

🎵 Show Nordeste Futurista com Luana Flores (PB)
Eletrônica que pulsa com coração nordestino

🌞 SÁBADO (20)

8h 📍 Sede da Associação de Agricultores do Minadouro 🎓 Oficina A Voz da Poesia com Isabelly Moreira (PE)
Mulheres que versam, resistem e se empoderam através da literatura

🎭 Teatro de lambe-lambe Dona Ló com Catarina Calungueira (RN)
A alegria de quem planta, cuida e espera a chuva chegar

17h 📍 Terreiro de Edileuza 🎭 Caminhos com Cia Bode com Pequi (Pedro Milhomens e Clá Solar) (PE)
O palhaço Sequinho transforma receitas ancestrais em mágica, utensílios de cozinha em números circenses

19h 📍 Terreiro de Expedito e Lourdinha 🎪 Piruá e Paraqueta com Rodrigo Bruggemann e Amora Maux (RN)
Pai e filha descobrem que felicidade não tem milhões de seguidores

🎵 Show Sons de Resistência com Samba de Coco de Trupé de Arcoverde (PE)
Ancestralidade afro-indígena que dança e canta há gerações

🌅 DOMINGO (21)

8h Sede Associação de Agricultores do Minadouro 🎓 Oficina Calungas com Catarina Calungueira (RN)
Imersão criativa na confecção de bonecos do teatro tradicional nordestino

14h 📍 Alpendre da casa de Odília 💭 Roda de conversa Vô, deixa minha mãe brincar com Gabriela Romeu (SP)
Diálogo intergeracional sobre infâncias e memórias afetivas

17h 📍 Terreiro de seu Expedito e dona Lourdinha 💃 Embalanceio: dançar sonhos pequeninos com Anelise Mayumi e Douglas Iesus (BA)
Como adiar o fim do mundo através da dança e da imaginação

🎬 Estreia Um dia Havia de Ver o Mar-Cine Clube Minadouro
Filme de Odília Nunes sobre sonho coletivo de crianças do sertão que se tornou realidade

🎭 Cícera com Contadores de Mentira (SP)
A jornada de uma mulher nordestina afro-indígena entre saudade e esperança

📱 Mais informações: @nomeuterreirotemarteoficial

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Vital Santos e a urgência
de um teatro que grita
Por Ivana Moura

Vital Santos, dramaturgo e encenador caruaruense. Foto: Jorge Clézio / Divulgação

Leidson Ferraz, autor do livro Dramaturgia Vital: o teatro popular e musical do pernambucano Vital Santos

“O dramaturgo e diretor Vital Santos continua mandando seus sinais. De alerta, de protesto, de indignação contra as desigualdades sociais e de solidariedade com a condição humana. Sua arma compõe-se de verbo, das imagens, do canto e dança através do teatro. […] Para Vital Santos, o palco deve servir de tribuna de discussão dos problemas dos seres humanos. Foi assim com Auto das Sete Luas de Barro, A Árvore dos Mamulengos ou Concerto Para Virgulino Sem Orquestra, algumas das peças escritas e dirigidas por ele. Sua temática social alia-se à linguagem poética para atingir a sensibilidade do espectador, provocar reflexões e mudanças de atitudes…” Em dezembro de 1994, quando escrevi sobre No Fim do Beco há um Bosque para o Diario de Pernambuco, não imaginava que minhas palavras se tornariam quase proféticas.

Três décadas depois, a voz de Vital Santos (pernambucano de Caruaru, falecido em 2013, aos 68 anos) ecoa mais uma vez. Agora não mais do eterno palco efêmero, mas das páginas permanentes de uma coleção que perpetua sua dramaturgia. Sua obra que por tanto tempo se manteve na fugacidade da cena e na memória dos que a testemunharam, finalmente ganha o registro que merece. A coleção Dramaturgia Vital: o teatro popular e musical do pernambucano Vital Santos, com organização, contextualização histórica e análise das obras do jornalista, historiador e doutor em Artes Cênicas Leidson Ferraz, é um ato de justiça à memória de um criador essencial. São dezessete peças completas, reunidas em dois volumes que somam 848 páginas e quase 200 fotografias raras. O lançamento ocorre nos dias 17 e 18 de dezembro de 2025, no Recife e em Caruaru.

Leidson Ferraz, que teve a oportunidade e o privilégio de atuar sob a direção de Vital em O Príncipe dos Mares de Olinda Contra a Fúria das Águas, conhecia de perto essa urgência. Como pesquisador, ele já havia documentado a trajetória do Grupo Feira de Teatro Popular em Memórias da Cena Pernambucana. Ferraz dedicou anos ao projeto, movido pelo rigor acadêmico e uma profunda admiração. E contou que já conhecia o desejo de Vital de publicar todas as peças, embora muitas tenham se perdido ao longo do tempo.

O registro permanente desses textos que moldaram a cena nacional das décadas de 1970 a 2010 merece saudação, pois muitas peças desse autor que ganhou prêmios como o Molière, o Mambembe e o APCA estavam dispersas, inacessíveis em formato de livro e corriam o risco de se apagar.

O projeto de edição foi vencedor do primeiro lugar na categoria Preservação de Acervos e Memória do edital Funarte Retomada 2023 e representa um marco na salvaguarda do teatro brasileiro. O título Dramaturgia Vital é um achado, pois aponta para a autoria de Vital Santos e, ao mesmo tempo, para a natureza pulsante e essencial de sua obra.

Cantigas do Sol Dom Quixote de Cordel Foto: Célio Pontes / Divulgação

A capacidade de traduzir a vida de pessoas simples está na essência do teatro de Vital Santos. O fio condutor de sua dramaturgia era a uma concretude da condição do povo brasileiro, com um olhar muito atento para o Nordeste. E com uma poesia desconcertante. Suas peças são radiografias de como homens e mulheres enfrentam a fome, a seca, a exploração, a violência urbana, e como, em meio a tudo isso, insistem em amar, sonhar e resistir. São personagens que se recusam a ser invisíveis.

É importante ressaltar: Vital não se propunha a “dar voz” a essas pessoas, termo problemático e em desuso nas análises contemporâneas. Ele criava um teatro que pulsava das próprias formas de expressão populares, refletindo suas experiências e modos de ser. Sua estética era uma tapeçaria rica, tecida com fios de cordel, a alegria do mamulengo, a força do reisado, a dança do bumba-meu-boi e as melodias das cantigas de trabalho. Santos utilizava os materiais culturais de Caruaru e região para abordar questões que tocam qualquer ser humano, ou seja, a busca por dignidade, o sonho de uma vida melhor, a luta contra a opressão. O drama de um migrante nordestino em Olha Pro Céu, Meu Amor dialoga diretamente com o trabalhador explorado em qualquer parte do mundo.

A denúncia social, como observei em No Fim do Beco há um Bosque, permeia sua dramaturgia, mas nunca de forma panfletária. A crítica surge das próprias situações dramáticas. A exploração dos artistas em Auto das Sete Luas de Barro, as lutas camponesas em A Noite dos Tambores Silenciosos, a degradação urbana em No Fim do Beco há um Bosque. Vital honrava a capacidade de sobrevivência e a força criativa do povo. Seus personagens, mesmo no extremo, mantinham a dignidade, a esperança e o humor. Não era romantização, mas o reconhecimento de que, onde há opressão, há luta; onde há desespero, há invenção.

Como encenador, Vital era um maestro, um alquimista da cena. Sabia como poucos movimentar os corpos dos atores e atrizes com poesia e precisão, transformando cada espetáculo em uma experiência física e sensorial. Suas montagens eram quadros vivos, onde a música e a dança eram o próprio coração pulsante da narrativa. O palco sob Vital era um lugar de milagres: luzes que pintavam paisagens, objetos de sucata que ganhavam alma, um balé de movimentos que extraía a riqueza das danças nordestinas. 

Concerto Para Virgulino Sem Orquestra

Vital, o Mestre do Exagero Criativo

Vital Santos era, acima de tudo, humano. E como (quase) todo bom contador de histórias nordestino, ele não se furtava de apimentar a narrativa, de dar um “tom” extra aos acontecimentos ou, por vezes, de simplesmente inventar. Sabia que o teatro vive de impacto, de emoção e de uma boa história, mesmo que esta ganhasse contornos fabulosos em sua boca.

Vital gostava de “aumentar as coisas”, de “valorizar os acontecimentos” para “ficar bem na fita”. Ele atribuía a Concerto Para Virgulino Sem Orquestra, por exemplo, premiações e elogios de críticos renomados como Barbara Heliodora e Yan Michalski, mesmo que tais comprovações nunca fossem encontradas nos arquivos. A pesquisa de Leidson Ferraz confirma que “esses ‘louros e confetes’ que Vital Santos jogava para si não causavam dano maior”, mas sim reforçavam o mito do artista que ele construía com maestria. Ele era um dramaturgo que não hesitava em usar de licença poética para si mesmo, um toque de “megalomania” criativa para tornar sua figura ainda mais cativante.

Outros detalhes revelam seu temperamento único. A inclusão de uma galinha de verdade no palco em Olha Pro Céu, Meu Amor, causando frisson entre os produtores; suas mudanças repentinas em ensaios, que faziam o elenco “não gostar”, mas que eram a marca de seu perfeccionismo; e a célebre disputa com Antônio Guinho sobre a autoria de Uma Canção Para Othello, mostrando que sua paixão era tão grandiosa quanto suas criações – e, por vezes, tão tempestuosa. A arte de Vital era viva, e sua vida era, em si, um grande espetáculo.

 Experiências e Percepções Sobre Vital Santos

A complexidade da figura de Vital Santos transparece nas vozes daqueles que o acompanharam de perto, revelando um artista de gênio forte e métodos exigentes. Gilberto Brito, que estreou como ator sob a direção de Vital em 1974, embora o reconheça como um “mestre”, não poupa palavras ao descrevê-lo como um “homem de muita vaidade, ególatra e centralizador a criar histórias megalomaníacas”. Brito é contundente ao classificar uma remontagem de Rua do Lixo, 24 por Vital, nos anos 90, como “desastrosa, já sem o vigor e o impacto de suas realizações passadas”.

Sebastião Alves, o Mestre Sebá, cuja própria história de vida inspirou a peça Olha Pro Céu, Meu Amor e que até hoje mantém vivo o legado de Vital, descreve o diretor como “perfeccionista e exigente”. Embora reconheça o “cuidado que mantinha com seus espetáculos”, Sebá aponta que “muitos da equipe não gostavam” das “mudanças constantes que [ele] fazia na cena”, evidenciando que o processo criativo de Vital também gerava atritos e tensões.

Essa mesma intensidade, capaz de encantar e testar limites, foi sentida por Fátima Aguiar. Embora inicialmente “arrebatada pela profusão de criatividade cênica” de obras como O Sol Feriu a Terra e a Chaga se Alastrou, ela vivenciou o “lado difícil de convivência” e o perfeccionismo exaustivo de Vital. Fátima descreve a estreia de Auto das Sete Luas de Barro como “complicada” e a relação em Concerto Para Virgulino Sem Orquestracomo “bastante desgastada”, culminando em um “duro golpe” quando Vital levou a montagem ao Rio de Janeiro sem o elenco original. Ela lembra que O Príncipe dos Mares de Olinda“resultou num certo fracasso” de público. Apesar das dificuldades, isso não “invalida a admiração que tenho pelas suas criações”, ressalva Fátima.

Já Samuel Santos, que encontrou em Vital sua “universidade” e “teatro escola”, destaca o “perfeccionismo” e a forma como Vital “primava pela coordenação poética da cena”, dedicando-se a “lapidar, mexer, descobrir a melhor maneira de apresentá-la ao público”. Samuel enfatiza que o trabalho com Vital exigia “desapego com o tempo e estar disponível para as construções e desconstruções das cenas”, ressaltando a ausência de um método formal, mas a presença de uma “forma de construir suas peças com alto grau de interesse a cada cena”.

Consagração e Controvérsia

Auto das Sete Luas de Barro. Sebá como Vitalino

Entre as 17 obras resgatadas, duas sempre se destacaram pela intensidade de sua recepção, uma pela aclamação unânime e a outra pela polêmica gerada. Auto das Sete Luas de Barro é, sem dúvida, a obra que catapultou Vital Santos ao patamar dos grandes nomes do teatro brasileiro. Reconhecida como uma “fantasia dramática e musical”, a peça narra a vida do Mestre Vitalino, o célebre ceramista de Caruaru, e, por extensão, a luta e o sofrimento dos artistas populares do Nordeste.

Minhas lembranças dessa obra são vívidas. Ela não apenas conquistou a crítica, mas arrebatou o público por onde passou. O crítico Yan Michalski, do Jornal do Brasil, elogiou-a efusivamente, chamando-a de “um barro que vale ouro” e destacando sua “absoluta originalidade no conteúdo e na forma”. Ele ressaltou a capacidade de Vital Santos de combinar a “inspiração de velhas tradições populares do Nordeste, a preocupação com os contrastes e conflitos sociais que afligem a região hoje em dia, e uma inventiva cênica capaz de sensibilizar o público de qualquer região do país”. A forma como os atores se transformavam em bonecos de barro, imitando as cerâmicas de Vitalino, foi particularmente celebrada por sua “inusitada beleza formal”.

Outros críticos, como Clóvis Garcia (O Estado de S. Paulo), a consideraram uma obra excepcional por sua capacidade de unir uma apresentação cênica bem realizada com uma poderosa mensagem social, denunciando a exploração dos artistas populares sem cair no “lixo cenográfico”. Carmelinda Guimarães (A Tribuna) a classificou como a “grande revelação” do Projeto Mambembão, um espetáculo de “elevado nível profissional” e “grande beleza estética”.

O reconhecimento se materializou em importantes premiações, como o Troféu Mambembe (melhor diretor para Vital Santos e categoria especial para o Grupo Folguedo de Arte Popular), o Prêmio Molière (melhor diretor) e o Prêmio APCA (categoria especial) em 1980. A peça foi um divisor de águas, mostrando a força do teatro vindo do interior do país. Mesmo décadas depois, como eu destaquei no Diario de Pernambuco em 1993, a obra “ainda comove a quem o assiste” e se mantém atual, sendo uma “pequena obra-prima” que aborda a odisseia dos artesãos populares e suas dificuldades. O texto continua sendo levado à cena por grupos, incluindo a atual Companhia Feira de Teatro Popular, de Caruaru, provando a perenidade de seu impacto.

A adaptação de Vital Santos para a clássica tragédia de Shakespeare, Uma Canção Para Othello, chamou a atenção não apenas por sua audácia em transpor o drama para o cenário pernambucano, especificamente a comunidade de pescadores de Brasília Teimosa, mas também pela intensa polêmica que a cercou.

A peça, escrita em parceria com Antônio Guinho, narra a história de Othello, um líder negro do Maracatu Agulha de Prata e presidente da Associação de Moradores, que se apaixona por Desdêmona, filha de um racista Brabâncio. A inveja de Tiago, um falso amigo de Othello, tece uma trama de desconfiança e traição que culmina em tragédia. A obra mescla a cultura popular nordestina – Maracatu, palafitas, o mar revolto personificado – com referências shakespearianas, incluindo a introdução do próprio Shakespeare como um anjo no Cemitério dos Ingleses e as bruxas de Macbeth transformadas em mães de santo.

Contudo, a produção desta obra foi marcada por “inúmeros problemas” e uma “dor de cabeça” significativa para Vital Santos. A parceria entre Vital e Antônio Guinho, embora iniciada com um prêmio de Incentivo à Dramaturgia do Ministério da Cultura em 1996, deteriorou-se. A estreia original no Recife, em 1999, foi adiada, e uma segunda montagem em Caruaru, com um elenco mesclado de atores do Recife e da Companhia Feira de Teatro Popular, teve sua carreira “interrompida bruscamente por conta de ameaças de processo judicial”.

O estopim da polêmica foi a disputa sobre a autoria, com Guinho alegando ter escrito 90% do texto e sentindo-se desrespeitado pela forma como a obra era creditada. Segundo fontes, a menção de “coautoria” em Caruaru foi a gota d’água, levando Guinho a impedir uma récita no Recife por meio de um oficial de Justiça e a ameaçar Vital com um processo legal. Essa disputa resultou em um “rompimento da amizade que não se refez” e, como a filha de Vital Santos, Isabela Sobral, confirmou, gerou execuções fiscais que “deram muita dor de cabeça à família, até mesmo depois da morte dele”.

Apesar dos problemas, a obra teve um impacto notável. O próprio Leidson Ferraz  (escrevendo para a revista eletrônica @ponte) e outros críticos à época reconheceram a audácia da adaptação e a beleza do simples na encenação, com a “cara, a cor e o som do Recife”. Anos depois, em 2012, Vital Santos assinou sozinho uma versão da peça, Canção Para Othello, encenada em Santos/SP, sob a direção de Tanah Corrêa, o que sugere uma reescrita ou reivindicação total da autoria após a polêmica.

Rua do Lixo, 24, de 1976

Um dos principais objetivos da coleção é estimular novas montagens das obras de Vital Santos em todo o país. Quase todas musicais (e muitas inéditas em livro até agora), as peças poderão ser encenadas gratuitamente por grupos amadores, escolas e universidades, desde que a estreia seja comunicada à filha do artista, detentora dos direitos autorais. Então, a coleção abre novas portas para a perpetuação de um legado que, como diz Leidson, “merecia ter sua trajetória de vida artística e parte das suas inesquecíveis peças registradas em livro, como ele bem queria. Do povo para o povo”.

Embora Vital Santos já seja reconhecido nacionalmente, Ferraz acredita que o projeto amplia ainda mais a presença de seu nome no imaginário teatral brasileiro. “Há peças dele que considero verdadeiras obras-primas. Elas merecem novos olhares, novas encenações”, afirma. “Espero que os livros despertem o interesse pelas escritas e pelas montagens de Vital, que instiguem outros artistas a dialogar com essa obra. Quem sabe, assim, ele continue sendo sempre uma referência para quem pensa um teatro musical genuinamente brasileiro – algo pelo qual ele lutou a vida inteira.”

Os eventos de lançamento prometem ser uma verdadeira confraternização da turma do teatro pernambucano, com a participação de DJs, cenas de Auto das Sete Luas de Barro pela Companhia Feira de Teatro Popular, e a presença de tradutoras de Libras para inclusão da comunidade surda. Em Caruaru, a renda da venda dos livros será revertida para a manutenção do Theatro Mamusebá, capitaneado pelo Mestre Sebá, evidenciando o compromisso do projeto com a sustentabilidade da cultura local.

Esta é a oportunidade de conhecer a profundidade, o humor, a poesia e a relevância social da obra de Vital Santos, um artista que, com sua inventividade, continua a inspirar e a enriquecer o cenário cultural do Brasil.

O Universo Dramatúrgico:
As 17 Peças Publicadas

A coleção, que totaliza 848 páginas e quase 200 fotografias raras, oferece um panorama completo da produção de Vital Santos:

Auto das Sete Luas de Barro (1979): Obra-prima sobre Mestre Vitalino que catapultou Vital ao patamar nacional. Fantasia dramática e musical sobre a exploração dos artistas populares do Nordeste.

A Noite dos Tambores Silenciosos (1981): Musical nordestino sobre lutas camponesas pós-1964. Segue Cravo Branco, exilado que retorna a Olinda delirando entre lembranças da repressão.

Olha Pro Céu, Meu Amor (1983): “Ópera circense” sobre compositor de Caruaru que vai ao Rio sonhando ter músicas gravadas por Roberto Carlos. Explora desafios dos migrantes nordestinos.

Concerto Para Virgulino Sem Orquestra (1994): “Ópera cordel” que estabelece paralelos entre Jesus Cristo e Lampião, retratando volta do cangaceiro para salvar o povo nordestino.

No Fim do Beco há um Bosque (1994): Drama político em favela brasileira. Luta por espaço digno em meio à miséria urbana, buscando esperança através da organização coletiva.

Cantigas do Sol – Dom Quixote de Cordel (2009): “Cantata popular” usando Luiz Gonzaga como fio condutor para crítica da política da seca no Nordeste.

As Proezas do Rei Saul na Terra de Caruaru (2007): “Ópera baião” farsesca em reino medieval fictício, narrada por cordelista.

O Príncipe dos Mares de Olinda Contra a Fúria das Águas (1997): Única obra infantojuvenil, alegoria sobre preservação cultural criticando degradação de Olinda.

Uma Canção Para Othello (1996): Adaptação audaciosa de Shakespeare para Brasília Teimosa, transformando Othello em líder de maracatu.

Feira de Caruaru (1968): Retrato da cidade natal que causou alvoroço no município, marco na carreira de Vital.

Rua do Lixo, 24 (1969): Montagem icônica sobre condições precárias urbanas que deu origem ao Grupo Feira de Teatro Popular.

A Menor Pausa: Peça dos “áureos tempos” que consolidou Vital como dramaturgo.

A Árvore dos Mamulengos: Demonstra conexão com tradições populares nordestinas e teatro de bonecos.

O Sol Feriu a Terra e a Chaga se Alastrou: Obra de grande criatividade cênica abordando sofrimento nordestino com linguagem poética.

Solte o Boi na Rua: Texto que marcou início de Mestre Sebá no teatro.

Aparição e Vagabundo: Peça ensaiada por meses que, paradoxalmente, “sequer estreou”.

Bom Dia, Carmen Miranda!: Obra inédita incluída na coleção.

SERVIÇO
LANÇAMENTOS DOS LIVROS DRAMATURGIA VITAL

RECIFE

Data: 17 de dezembro de 2025 (quarta-feira), 19h
Local: SESC Santo Amaro (Rua Treze de Maio, 455, Santo Amaro – Recife)
Programação: DJ Vibra + cena da peça Auto das Sete Luas de Barro com a Companhia Feira de Teatro Popular
Acessibilidade: Tradutoras de Libras

CARUARU

Data: 18 de dezembro de 2025 (quinta-feira), 19h
Local: SESC Caruaru Teatro Rui Limeira Rosal (Rua Rui Limeira Rosal, s/n, Petrópolis – Caruaru)
Programação: DJ Rudá + cena da peça Auto das Sete Luas de Barro com a Companhia Feira de Teatro Popular
Acessibilidade: Tradutoras de Libras
Especial: Renda da venda dos livros será destinada à manutenção do Theatro Mamusebá
PREÇOS DOS LIVROS: R$ 30 cada volume R$ 50 os dois volumes juntos
REALIZAÇÃO: Funarte
APOIO: SESC/PE
COLABORAÇÃO: Vereadora Cida Pedrosa
PROJETO GRÁFICO: Cláudio Lira
CONTATOS:Leidson Ferraz: E-mail: leidson.ferraz@gmail.com
Instagram: @leidsonferraz
Site: www.leidsonferraz.com.br

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Fabulação do trauma climático
Crítica: A Menina dos Olhos d’Água
Por Ivana Moura

Liane Ventuella em A_Menina dos Olhos d’Água. Foto: Laura Testa / Divulgação

As enchentes do Rio Grande do Sul em 2024 transformaram milhares de vidas em uma experiência de desterro e reconstrução. Essa realidade traumática motivou a criação do espetáculo A Menina dos Olhos d’Água, do Coletivo Gompa, de Porto Alegre, que estreou em Munique (Alemanha) em abril deste ano e é apresentado em várias cidades do Brasil desde maio. A pergunta inaugural que atravessa toda a peça – “o mundo é um lugar seguro?” – constitui o eixo fundamental da investigação artística que se debruça sobre uma das questões mais cruciais da atualidade, ou seja, a emergência dos refugiados climáticos e a necessidade de construir narrativas que permitam às novas gerações compreender e processar essa nova condição existencial.

A criação foi viabilizada com recursos do International Coproduction Fund do Goethe-Institut e do Prêmio Iberescena, contando com parceiros do Brasil, Alemanha, Cuba e Chile. Uma residência artística na Alemanha permitiu o desenvolvimento da “dramaturgia do movimento”, estabelecendo diálogos entre perspectivas estéticas distintas.

Sob direção de Camila Bauer, a peça conta com a atuação intensa e tecnicamente primorosa de Liane Venturella, que interpreta a personagem Menina através da manipulação de bonecos em diversos tamanhos, criados por Pedro Girardello. As expressões faciais, a manipulação expressiva dos bonecos e a presença cênica que transita entre diferentes escalas traduzem a força interpretativa da atriz.

Um dos aspectos mais desafiadores da encenação é o fato de que, quando a Menina atinge tamanho humano, a cabeça não possui abertura dos olhos para que a atriz veja a cena. Liane Venturella conduz toda a performance “no tato, na intuição, na marca” – procedimento que estabelece um paralelo com a própria condição dos refugiados climáticos: navegar em um mundo incerto, onde as referências habituais foram destruídas e onde é necessário reconstruir orientações através de outros sentidos e capacidades.

A encenação utiliza diversos materiais cênicos, como bonecos, projeções, objetos filmados em tempo real. Foto: Wallace Gonçalves / Divulgação

Articula-se na montagem um diálogo complexo entre documento e ficção, entre realidade histórica e fabulação poética. Estruturalmente, a encenação – que tem sua narração gravada – opera por justaposições de diferentes materiais cênicos – bonecos, projeções, objetos filmados em tempo real. Desenvolve ainda hibridizações de linguagens que combinam teatro de formas animadas, documentário multimídia e performance ao vivo. Esta “escritura cênica” contemporânea valoriza a dramaturgia visual e a intersecção entre diferentes códigos semióticos, criando significados que surgem do atrito entre linguagens distintas.

A utilização de projeções em tempo real de objetos e bonecos filmados incorpora tecnologias digitais sem perder a especificidade da experiência teatral presencial. Ao contrário do cinema ou da televisão, onde a imagem é predeterminada, neste espetáculo as projeções criam uma relação dialética entre presença física e mediação tecnológica. Essa hibridização permite que objetos pequenos – os bonecos menores, elementos cenográficos – adquiram monumentalidade através da projeção, criando jogos de escala que amplificam o impacto dramático.

Projeções e miniaturas são utilizados no espetáculo. Foto: Divulgação 

Um aspecto fundamental da peça evidencia-se no processo de criação. Durante os ensaios abertos, as crianças rejeitaram qualquer design que amenizasse as tragédias retratadas, optando por “ver a dura realidade” sem filtros ou eufemismos. Esse desejo dos pequenos espectadores por uma representação sem adoçamentos artificiais evidencia uma maturidade que desafia convenções paternalistas do teatro infantil. As crianças, expostas diariamente a imagens de catástrofes através de múltiplas mídias, desenvolvem uma capacidade crítica aguçada e não aceitam a infantilização de temas complexos.

Então, o espetáculo aposta no princípio de que as crianças possuem capacidade de compreensão e elaboração de temas complexos, desde que estes sejam apresentados com honestidade artística e rigor ético. Contrariando tradições teatrais que infantilizam seu público através de simplificações moralizantes, a montagem aposta na inteligência e sensibilidade infantis. O tratamento do luto infantil constitui um dos aspectos mais delicados e bem-resolvidos da montagem. A personagem transita pela dor da perda de seu animal de estimação através de um percurso que inclui saudade, resistência e, finalmente, uma aceitação que preserva vivo o afeto.

Essa demanda infantil por honestidade encontra respaldo na magnitude alarmante dos dados globais sobre deslocamentos climáticos. De acordo com o Global Report on Internal Displacement 2025 (GRID 2025), do Centro de Monitoramento de Deslocamento Interno (IDMC), 45,8 milhões de deslocamentos internos foram causados por desastres em 2024, um número recorde na última década. No final de 2024, 9,8 milhões de pessoas viviam em deslocamento devido a desastres em 94 países e territórios.

Além disso, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) projeta que, até 2050, entre 31 milhões e 143 milhões de pessoas em regiões como América Central e do Sul, África Subsaariana e Sul da Ásia poderão ser deslocadas devido às mudanças climáticas, evidenciando a magnitude dessa crise humanitária emergente.

Crítica Política e Escolhas Estéticas
É diante desta realidade planetária que a escolha do Coletivo Gompa de abordar especificamente as enchentes do Rio Grande do Sul adquire relevância política específica. O grupo vivenciou coletivamente essa tragédia, transformando o trauma compartilhado em elaboração artística. Contudo, a criação ultrapassa o relato pessoal para articular uma crítica fundamental: eventos climáticos extremos não constituem apenas “fúria da natureza”, mas resultam também de escolhas políticas e frequentemente de descasos governamentaisde estados e municípios.

Esteticamente, a opção pelo teatro de formas animadas permite uma abstração formal que universaliza a experiência particular da protagonista, transformando-a em referência afetiva de todas as crianças afetadas por deslocamentos climáticos. Os bonecos possuem uma plasticidade que permite múltiplas identificações. A boneca principal, chamada apenas de Menina – escolha proposital para ampliar sua representatividade -, funciona como superfície de projeção para diferentes experiências infantis de perda e reconstrução.

Foto: Laura Testa / Divulgação 

A trilha sonora criada por Paola Kirst e Álvaro RosaCosta constitui uma dramaturgia sonora potente. A montagem cria “paisagens sonoras” que situam os espectadores no ambiente da enchente. Sons de água, vento, chuva e silêncios são organizados de forma a criar ambiências que amplificam o impacto emocional e estético da peça.

Optando por uma entrada poética que não explora o sensacionalismo das imagens de destruição, o espetáculo evita cuidadosamente a espetacularização do sofrimento dos refugiados climáticos. O trabalho busca tornar sensível a experiência e ampliar nossa capacidade de perceber e compreender esta realidade, criando condições para novas formas de engajamento.

A Menina dos Olhos d’Água destaca-se pela conjunção entre excelência artística e coragem ética, focalizando temas urgentes sem concessões sentimentais ou simplificações. A montagem oferece uma criação artística exemplar diante dos desafios de nosso tempo: como representar a catástrofe climática e como falar às crianças sobre temas complexos sem mentir ou edulcorar.

A encenação não escamoteia a dor da personagem criança que perde casa e animal de estimação, mas também não perde a esperança. Isso evita tanto o pessimismo paralisante quanto o otimismo ingênuo, constituindo uma grande conquista estética e política. Diante da complexidade dos desafios climáticos contemporâneos, oferece uma poética que pode formar espectadores críticos e sensíveis – uma peça necessária que envolve por sua beleza comovente frente à dureza do real.

* A cobertura crítica da programação do 24º Festival Recife do Teatro Nacional é apoiada pela Prefeitura do Recife.

Ficha técnica:

A Menina dos Olhos d’Água, do Coletivo Gompa

Concepção: Liane Venturella e Camila Bauer
Direção: Camila Bauer
Atuação e manipulações: Liane Venturella
Dramaturgia do movimento: Ceren Oran
Dramaturgia de bonecos: Kenia Rodriguez e Dayane Deulafeu Canto
Criação de bonecos e máscara: Pedro Girardello
Cenografia: Élcio Rossini
Criação de miniaturas e figurino: Liane Venturella
Desenho de vídeo: Pablo Mois
Montagem de vídeos: Raoni Ceccim
Trilha sonora: Paola Kirst e Álvaro RosaCosta
Desenho de luz: Ricardo Vivian
Assistência técnica: Thiago Ruffoni
Produção: Venturella Produções LTDA e Coletivo Gompa
Assistência de produção: Rômulo Venturella
Produção na Alemanha: Karolina Hejnova
Realização: Coletivo Gompa
Assessoria de imprensa: Léo Sant’Anna
Arte gráfica: Jéssica Barbosa
Fotografia: Jéssica Barbosa, Laura Testa e Wallace Gonçalves
Financiamento: International Coproduction Fund Goethe-Institut e Iberescena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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