José Manoel Sobrinho:
meio século de teatro como
projeto de vida e de territórios
Por Ivana Moura

José Manoel Sobrinho reúne nesta quinta-feira (17/09), pessoas amigas, para celebrar 50 anos de teatro. Foto: Rogério Alves

Diretor, professor e gestor cultural, Zé Manoel dirigiu mais de 100 espetáculos e formou mais de mil atores. Foto: Rogério Alves

Alguns artistas fazem carreira; outros fazem história. José Manoel Sobrinho pertence ao segundo grupo. E não por acaso. Sua trajetória de 50 anos não se conta apenas em espetáculos, embora sejam mais de 100; conta-se na capacidade rara de transformar teatro em política cultural, política cultural em formação de gente e formação de gente em cena viva. Celebrar seus 50 anos de arte é, portanto, celebrar uma parte decisiva da história do teatro pernambucano contemporâneo.

A origem explica muito. Agrestino de Bezerros, filho de um pai viajante, Zé Manoel mudou-se 30 vezes até os 11 anos, num vai-e-vem entre Bezerros, Pesqueira, Gravatá, Vitória de Santo Antão, Jaboatão, Sirinhaém e Recife. Essa infância nômade talvez lhe tenha dado cedo duas lições que atravessam toda a sua obra. A de que o fazer artístico não pertence a um único lugar e a de que a cultura precisa circular para existir. Aos 14 anos, o teatro chegou pelas mãos de uma professora de português no Colégio Paola Frassinetti, em Prazeres; a iniciação definitiva veio com o Teatro Experimental de Olinda e Valdi Coutinho, a quem ele credita “todas as oportunidades”. Foi ali que o jovem ator percebeu que o teatro podia problematizar a vida. E decidiu que aquilo seria seu ofício.

O ator, porém, deu lugar ao encenador por necessidade. Faltavam diretores para os grupos da periferia, e foi preciso assumir a direção como uma urgência coletiva. Essa virada é emblemática do seu modo de operar – o artista que se faz na lacuna, que converte ausência em invenção. Em 1979, com Carlos Lira e Mário Antônio Miranda, fundou em Prazeres, Jaboatão dos Guararapes, a TTTrês Produções Artísticas, e com ela o Movimento de Teatro Periférico, articulando a Região Metropolitana do Recife numa época em que Jaboatão vivia um vazio cênico. A sede do grupo era a sua própria casa, onde também nasceu a Biblioteca Orlando Miranda de Carvalho. Mais de quatro décadas depois, a TTTrês segue ativa, um raro exemplo de continuidade na cena independente do estado.

Teatro, gestão e militância sempre caminharam juntos na sua biografia, inclusive na presidência da Feteape, a Federação de Teatro de Pernambuco, primeira entidade representativa da sociedade civil nas artes cênicas do estado, fundada em 1976. Quando ocupou cargo nos anos 1980 chegou a ser persona non grata na Fundação de Cultura do Recife por defender a categoria, ironia que ele próprio conta com humor décadas depois.

Espetáculo Sistema 25. Foto: Divulgação

À frente da Feteape coordenou os projetos Coringa e Alvará de Expressão, levando arte a oito presídios de Pernambuco. Essa experiência, vivida entre extremos e dores, marcou fundo sua visão de mundo: “Vi a arte mudando a vida das pessoas, se não para mudar a condição, mas para fazer refletir sobre os pactos de convivência.” Ela desembocaria, mais tarde, em um dos trabalhos mais emblemáticos de sua carreira: Sistema 25, sobre o sistema prisional brasileiro, inspirado no conto Em Osasco, de Plínio Marcos. A montagem reuniu 25 atores, seis compositores e cerca de 30 cenas construídas coletivamente num processo que o diretor chamou de Jogos de Aproximação – um teatro de resistência puro sangue, realizado sem patrocínio, movido pela paixão dos atores e a militância do encenador.

O capítulo mais longo e estruturante foi o Sesc-PE. Foram 42 anos (de 1977 a 2020) que o viram passar de prestador de serviços a professor, coordenador e, finalmente, gerente de Cultura, o posto mais alto do organograma da área. Sob sua liderança, o Sesc pernambucano deixou de ser uma instituição de serviços para se tornar um dos principais vetores de formação e difusão cultural do estado: cursos, festivais, equipamentos e uma capilaridade impressionante com o interior, que ele sempre defendeu como marca inegociável. Mais de mil alunos passaram por suas aulas em todo o Brasil. Seu nome permanece vivo no Espaço Cultural Fábrica de Criação Popular José Manoel Sobrinho, do Sesc em Triunfo.

Mas os 42 anos de Sesc não foram só de Sesc. Ainda dentro deles, em meados dos anos 1990, um convite da Prefeitura de Camaragibe abriu a José Manoel uma segunda escola, a do poder público. Ele chegou para dar um curso de teatro, três turmas nascidas de um compromisso de campanha; e antes de encerrar as aulas, já era diretor de Cultura da cidade. Ficou dez anos. Quando a gestão do prefeito Paulo Santana criou a Fundação de Cultura, Turismo e Esportes, passou um ano como vice-presidente e seis como presidente. Ali, no corpo a corpo de uma cidade pequena e de orçamento curto, ele aprendeu que a política cultural se decide primeiro no município; e que é lá que ela se torna concreta, ou não passa de intenção. Camaragibe reservou 5% do orçamento para a Cultura, número raro no país, e ergueu as bases de um Sistema Municipal de Cultura, mesmo com resistência na Câmara e dinheiro escasso. “Camaragibe foi uma grande escola de gestão da Cultura para quem viveu a experiência”, diz. Quem o ouve hoje articular município, estado e nação como uma cadeia única de responsabilidades ouve alguém que aprendeu essa lição no chão de Camaragibe.

A saída do Sesc, aos 62 anos, poderia ter sido um ponto final. Foi, ao contrário, um recomeço. E aí reside outra constante de sua trajetória: a recusa ao imobilismo. Em 2021, presidiu por um ano (de 1º de janeiro a 30 de dezembro) a Fundação de Cultura Cidade do Recife (FCCR), braço executivo da política cultural municipal no primeiro mandato do prefeito João Campos, cargo que deixou no fim daquele mesmo ano. Hoje atua como assessor parlamentar de cultura no gabinete da vereadora Cida Pedrosa e está empenhado na campanha dela a deputada estadual pelo PCdoB, nas eleições de outubro. Em 2025, concluiu o mestrado em educação na UFPE, com dissertação sobre a política de cultura na rede pública de ensino do Recife – fechando, aos 50 anos de teatro, um ciclo que ele próprio reconhece ter deixado para tarde. Formou-se em Letras apenas aos 50 anos, depois de entrar e sair de várias faculdades, sempre adiado pelas viagens e pela cena. 

Como a Lua, montagem de 2014. Foto Laryssa Moura / Divulgação

No teatro para crianças e jovens, campo em que poucos sustentam uma obra por tanto tempo, ele encontrou em Vladimir Capella um autor para toda uma vida. O paulista defende um teatro sem faixa etária, e José Manoel fez dessa defesa a sua. Dele dirigiu a delicadeza de Como a Lua, que fala de nascimento e morte sem subestimar a plateia, montada em 1984 e remontada em 2014 com música de João Falcão; a longevidade rara de Avoar, mais de dez anos ininterruptos em cartaz; e ainda Com Panos e Lendas e Píramo e Tisbe. Assinou O Mágico de Oz, O Menino do Dedo Verde e Cantigas ao Pequeno Príncipe. Em 1993, levou à cena As Incríveis Aventuras do Barão Langsdorff, de Sidnei Cruz, sobre o naturalista alemão que percorreu o Brasil no século 19. Mais recentemente, encenou Ave Guriatã, de Robson Teles, livre inspiração do cordel de Marcus Accioly, com alunos do Curso de Interpretação para Teatro do Sesc.

Na cena adulta, as escolhas também dizem quem ele é. Sistema 25, a partir de Plínio Marcos, com 25 atores e dramaturgia construída em sala de ensaio, é o retrato de um teatro de resistência feito sem patrocínio. Esquecidos por Deus, monólogo sobre o livro de Cícero Belmar, com Murilo Freire, investiga memória e apagamento. Formigas bebem absinto no armazém do caos, do paraibano Everaldo Vasconcelos, mergulha nas relações humanas em crise. Janos Adler, de Luiz Felipe Botelho, enfrentou o tema do HIV no início dos anos 1990, quando o assunto ainda era tabu. E Sobre os Ombros de Bárbara, no ano passado, devolveu corpo e voz a Bárbara de Alencar por Augusta Ferraz.

O repertório, aliás, nunca se deixou aprisionar por uma única origem. Montou pernambucanos como Alexandrino Souto, Luiz Felipe Botelho, Marcus Accioly, Robson Teles e Cícero Belmar; paraibanos como Bráulio Tavares (Trupizupe, o Raio da Silibrina), Altimar Pimentel (Viva a Nau Catarineta) e Everaldo Vasconcelos; paulistas como Capella, Plínio Marcos, Oswald de Andrade e Fauzi Arap; e o gaúcho Érico Veríssimo, cujo O Deus Único marcou sua primeira ação em teatro, em 1974.

Hoje, em fase de produção de Araras Vermelhas, novo espetáculo a partir da obra homônima de Cida Pedrosa (livro finalista do Prêmio Jabuti), dividindo com Samuel Bennaton a direção do espetáculo e com Colette Dantas e Rogério Alves no elenco, Zé Manoel segue fazendo o que sempre fez: reunir pessoas em torno da arte. O encontro desta quinta-feira, na Rua Mamede Simões, com música, conversa no Bar Super 8 e a presença de ex-alunos, autores, músicos e amigos, é o retrato fiel do artista que investe na convivência e na troca. “50 anos de teatro, sem nenhum intervalo. Meu Deus, eu nem acredito. Por isso que eu quero comemorar. Mereço esse momento.” Merece – e a cena pernambucana comemora com ele.

Samuel Bennaton, Rogério Alves, José Manoel e Colette Dantas no ensaio de Araras Vermelhas. Foto: Divulgação

Serviço

O quê: Encontro pelos 50 anos de teatro de José Manoel Sobrinho
Quando: quinta-feira, 17 de setembro, a partir das 18h
Onde: Rua Mamede Simões, Recife
Programação: apresentações musicais com artistas convidados e conversa com o homenageado no Bar Super 8

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